quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Doente de Amor

Gosto de boas surpresas, e quem não gosta? Afinal é ótimo quando você não espera por nada e é surpreendido com uma tonelada de coisas boas não é mesmo? Principalmente em se tratando de histórias, é bom se sentir cativado, sentir que participa de algo, é bom se sentir tão inteiramente absorto em algo que essa coisa passa a ser parte de você. 

Terminei de ver a primeira temporada da série tailandesa cujo nome é obrigatório na lista de qualquer amante de BLs: Lovesick - The Series! Obrigatória pois, mesmo não sendo a primeira do gênero, foi ela que de certa forma abriu as portas paras as séries que vieram depois. 

Lançada em 2014 e renovada no ano seguinte para uma segunda temporada ela inaugurou o que hoje estamos vendo no gênero lakorn BL, e mesmo sendo bem inferior, já adianto, as obras posteriores, o seu posto está mais do que bem conservado como a precursora desse movimento tão lindo. 

Como assisto a maioria das coisas por indicação dos grupos de fãs de BL do Facebook eu a deixei por muito tempo no limbo da lista de espera, mas decidi ver antes de começar outras mais novas que também se encontram por lá, e antes também de acompanhar as atuais, ainda em lançamento.  

E olha, não poderia ser uma surpresa mais agradável. Admito que a expectativa estava bem baixa, justamente pelo fato de ter sido produzida antes de toda a experiência do meio. E essa é justamente a palavra chave da resenha de hoje: Experiência.

O que mais me marcou em Lovesick foi a presença inexperiente dos atores que eu já conheço tão bem de tantas outras produções. Claro, todos ainda crus, em processo de aprendizado, mas ver que de onde vieram os artistas que hoje eu tanto admiro foi uma experiência simplesmente fantástica. Em cada cena a gente se depara com um rosto conhecido dessa ou daquela série, desse ou daquele filme... 

O plot da série é diferente das que se seguiram a ela, não foca em um casal apenas mas numa gama impressionante de personagens. Tem gente pra caramba, e óbvio que nem todo mundo foi bem desenvolvido, coisa que, espero eu, tenha se resolvido na segunda temporada, com 36 episódios. A sinopse não revela nada do enredo, e diz apenas: 

Baseada na BL novel online “Lovesick:A caótica vida dos garotos de shorts azul.”A série acompanha a vida de garotos do ensino médio, e suas paixões e desilusões amorosas na adolescência. Além de rivalidades, pressão familiar e dos colegas, relacionamentos, etc.

A primeira surpresa foi a faixa de abertura, SHAKE do Boy Sompob, que eu já conhecia por ter cantando a Trilha Sonora Original de Waterboyy - The Movie, e que coisa boa ver que ele já fazia parte do meio BL nessa época... 

O foco principal da série é o relacionamento entre Phun e Noh, que por conveniência decidiram fingir um namoro gay. Phun é presidente do Conselho estudantil e filho de um homem rico, que quer obriga-lo a se casar com uma desconhecida. Noh é líder de uma banda que por um erro no orçamento pode vir a ser prejudicada se o presidente do conselho não ajudar, coisa que ele faz em troca de Noh se passar por seu namorado, para que a sua irmã caçula (amante de BLs) o ajude a convencer seu pai a não obriga-lo a se casar. 

Muito embora esse plot tenha sido esquecido ao longo dos 12 episódios da primeira temporada foi por causa dele que os meninos começaram a confundir sua relação. O resto é o que dá o preenchimento da história. Eu gostei do absurdo que isso parece. Imagine, um garoto aceitar se passar por gay para não casar e o outro aceitar para não prejudicar os amigos? É fantástico. 

Mas as coisas boas na vida deles acabam aí, já que eles logo passam a sentir algo mais um pelo outro, e como ambos tem namoradas essa confusão na cabeça deles é garantia de muitas lágrimas, e também risadas, além de momentos românticos, claro. Nesse ponto a série é muito bem equilibrada, nem o drama e nem a comédia tomaram o brilho do outro, foi muito bem balanceado, fazendo os episódios de pouco mais de 40 minutos se tornaram pequenos. Com exceção dos dois primeiros, que de fato são bem difíceis de engolir, dado aos fatores que direi logo adiante.

Os problemas que a série apresenta, completamente compreensíveis, são todos de ordem da direção e roteiro. Ambos meio confusos em toda a série, mas ainda piores nos dois primeiros episódios. Tentaram colocar histórias demais que não relacionavam tanto entre si. Ainda que a maior parte dos personagens se conheça ficamos muitas vezes nos perguntando se era mesmo necessário explorar tantas histórias assim. Algumas bem chatinhas, aliás... Mas fora isso, achei o conjunto muito satisfatório, sem muito a dever das séries que hoje passam nas telas tailandesas.

Eu gostei do desenvolvimento do casal principal, e achei bem fiel no quesito "peso na consciência" que os meninos costumam sentir ao descobrirem sua sexualidade e também na batalha interior entre medo e desejo. Sem exageros nem cômicos e nem dramáticos foram bem felizes nessa parte do roteiro. Eles realmente se sentiram doentes, ao ficarem juntos, mas ao mesmo tempo sabiam que o que sentiam era forte demais para ignorar, estavam "doentes de amor"!

Agora minha parte favorita: o elenco! Claro, nenhum deles tem uma atuação fabulosa, mas eu me empolguei por reconhecer tantos rostos familiares, sinal de que poucos não se mantiveram no meio... 

Começando pelos protagonistas, Phun é interpretado por Phumphothingam Nawat (White) que eu conhecia de Water boyy - The Series, como Fah, foi bom ver como foi seu começo, e embora em Water Boyy seja hétero, ver que também foi o precursor de tantos casais fofos do BL que tanto amamos foi incrível... Ele faz par com o Noh, interpretado pelo Kongyingyong Chonlathorn (Captain) que, mesmo não fazendo meu tipo, é tido como um dos queridinhos das meninas por lá... Ele atuou também em U-Prince, como o White,  e em Love Songs Love.

Minha maior surpresa foi o Luangsodsai Anupart (Ngern), que eu conhecia de Water Boyy – The Movie, o que me marcou como um dos meus filmes favoritos de todos os tempos! Um dos poucos que ainda me faz chorar toda vez que vejo... Aqui ele também faz um personagem gay, e bem mais resolvido que no filme, que no entanto não foi muito explorado, exceto em sugerir um possível triangulo amoroso com o casal principal na próxima temporada.

Outro rosto conhecido é o de Cheewagaroon Harit (Sing), figurinha carimbada de Senior Secret Love: Puppy Honey, Slam Dance e My Dear Loser. Um fofo ele...  Também tem a estréia de Arpornsutinan Chanagun (Gun ou Gunsmile) que fez o Prem de SOTUS e que também participa de My Dear Loser, e já confirmado para retornar em SOTUS S. Mas talvez a carinha mais conhecida seja a do fofíssimo orelhudo Kuariyakul Jirakit (Toptap) que tem uma lista longa de participações em lakorns, BL ou não, sendo a mais marcante em Water Boyy – The Series.


Por fim, Lovesick nos dá uma história excessivamente fragmentada pela quantidade de personagens, mas que soube manter o equilíbrio entre momentos de drama e descontração, faltando só mesmo um pouco mais de romance. Como já disse, simplesmente indispensável na lista dos amantes de BL, tanto pelo valor histórico quanto pela trama. 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Lento efeito

Surpreendi-me absorto em devaneios, em sua maioria de ordem existencialista e sentimental, durantes alguns momentos de uma densa aula de filosofia que assisti nesse fim de tarde/início de noite de terça.

Após uma sessão de terapia também reveladora no tocante a algumas compreensões que ainda não estavam claras em minha mente. Percebi que já tinha conseguido sim chegar a algumas conclusões, em si muito importantes, mas que, antes de demarcarem minha vitória numa espécie de competição de maturidade comigo mesmo, me mostram que essa mesma maturidade é em si mesma um caminho, não um objetivo final. Me atreveria a dizer que se trata de uma causa com fim em si mesma, isto é, o objetivo de se atingir a maturidade não é chegar num estágio final, mas aprender a caminhar de tal forma que se diferencie da forma de caminhar os imaturos, aqueles que ainda não conhecem o caminho.

Refletia também acerca do meu estado atual de mente. Percebi que a minha necessidade constante de um estado mais ou menos permanente acabou me cegando para a inconstância que eu mesmo sou. Com efeito, frequentemente classificava os períodos de minha vida com etiquetas que pudessem, ao menos até certo ponto, refletir o que se passava comigo. Minha tendência negativista fez com essas etiquetas fossem todas preenchidas com palavras tão pessimistas que chego a me perguntar sobre minhas tendências quase obsessivas com a dor e a doença.

Por isso era comum ouvir de mim que passava por uma fase “difícil, complicada, dolorosa” que na verdade apenas ofereciam ao ouvinte, que na maior parte das vezes tratava-se de mim mesmo, uma perspectiva pouco pragmática sobre a ordem real das coisas. Minha necessidade de classificar a tudo fez com que eu me irritasse com a incapacidade de fazê-lo, afinal um dado momento de vida não pode ser reduzido a uma mera palavra, ou a uma oração curta, sendo tampouco expressa em longos textos, que foi o que fiz em muitas dessas fases.

Retomo a reflexão de saber em que fase da vida me encontro: não o sei! Ora, se a complexidade da realidade em que me encontro supera de forma abismal a minha capacidade literária de descrever o que vivo, sinto e penso, logo sou completamente incapaz de dizer como tenho vivido, podendo apenas me abster em dizer alguns dos aspectos dessa mesma fase. Fase essa que tem sido marcada por descobertas, conclusões, mas apenas marcada e não exclusivamente definida por tais coisas.

Essa pode ser apenas uma forma longa e demasiado cansativa de dizer que não sei bem o que tem se passado comigo, e isso pode ser bem verdade, já que em dados momentos eu não faço a mínima ideia do que tem acontecido ao meu redor, mas também em outros momentos penso saber exatamente o que se passa ao meu redor.

Não sei, portanto, se meu sofrimento vem do sentimento que não vi crescendo dentro de mim, ainda que eu mesmo o tenha cegamente o alimentado. Ou se vem dos sentimentos passados que ainda não consegui enterrar e que me assustam como fantasmas podres que um dia viveram ao meu lado; talvez venha da minha inconstância, ou da minha constante teimosia em desejar o inalcançável. Não sei ao certo, e por hoje pouco me importa, se no fim das contas poderei deitar minha cabeça sobre o travesseiro e sentir o efeito lento dos benzodiazepínicos tomar conta do meu ser já ficarei bastante grato por nada compreender. 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Filha do destino

Depois de uma noite difícil, brutalmente torturado pelo calor lancinante dessa época do ano, fui levado a uma segunda reflexiva, motivada pelas palavras do novo curso de filosofia tomista em que me inscrevi e também pelos acontecimentos das últimas semanas, que aos poucos vem cravando no meu coração os ensinamentos profundos que apenas a experiência com o outro pode nos ofertar.

Com efeito, aprender uma lição na pele é mais valoroso que no intelecto, e por isso continuo a crer que o corpo dobra o intelecto. Repetia continuamente a mim mesmo, que não me deixaria levar pela emoção e pela ilusão de um relacionamento perfeito, sem mágoas ou cicatrizes. E justamente cegado pelo meu discurso de amadurecimento eu me vi fazendo exatamente os mesmos passos que tantos outros "teóricos da decepção" fizeram... 

Mas agora, aos poucos como deve ser todo amadurecimento, eu vou compreendendo que o esperar é o principal gatilho da decepção. Esperamos do outro o melhor, e ele não é capaz de corresponder a essa expectativa. Já me debrucei longamente sobre isso em diversas vezes, mas é diferente quando o coração entende o fato e não a palavra. 

E começo a arranhar a superfície do entendimento de que na verdade não sou bom para estar com alguém, muito embora o deseje tão fervorosamente. Isso porque além da grandiosa imaturidade afetiva há ainda uma anormal mania de perseguição que me rende as mais tenebrosas experiências de abandono, que agora vejo serem justificadas. 

Compreensível a visão que os outros tem de mim, e que agora começo a ver também, que tem se mostrado mais real do que a que costumava ter. Infelizmente me trazem mais conclusão doloridas do que perspectivas de futuro, mas creio que seja um primeiro passo importante. 

Me pergunto agora quais serão os próximos capítulos de minha história. Se conseguirei superar as dificuldade que me tornam tão desprezível aos olhos dos outros, se conseguirei me entregar aos que demonstram interesse por mim e não por aqueles que mal sabem de minha existência. Penso que a primeira medida a ser tomada deva ser a superação dessa veia masoquista que me leva sempre a desejar o que não poderei ter, e que obviamente sempre me leva aos mesmos destinos de dor e tristeza. 

Pois bem, entendo que a palavra me deu certa compreensão, mas apenas a vivência me levou ao primeiro estágio da sabedoria, apenas a dor soube me ensinar o que a palavra gritava em meus ouvidos, e apenas a dor, essa filha do destino, poderá me fazer compreender o que é a vida...

domingo, 15 de outubro de 2017

Sonhando sem parar

Algumas pessoas foram feitas para serem felizes, outras para perderem suas vidas em fábricas e escritórios. Algumas também foram feitas para consumirem-sem em sonhos inalcançáveis e outras para conquistarem o mundo e ainda assim não conseguirem se sentir satisfeitas.

Acontece que algumas pessoas simplesmente podem e serão algo que podem ou não querer ser ou também podem nunca chegarem a ser nada. 

Tenho dificuldade para acreditar em destino, mas também me sinto tentado a crer que as coisas estão já escritas, e que nós caminhamos por um caminho já traçado. Não quer dizer que não tenhamos liberdade, mas que já está dito o que faremos com essa liberdade. Como quando dizemos a alguém "faz o que você quiser" mas a sabedoria e a experiência já sabem o que a pessoa vai fazer, mesmo que tenhamos dado a ela a possibilidade de fazer ou não.

Quero dizer que algumas coisas podem ser, e outras podem não ser, e tentar quebrar uma coisa inquebrável é mais do que burrice, é masoquismo! Por isso alguns foram feitos para sonhar e não para alcançar.

Alguns foram feitos para escrever lindas canções, outros para ouvir, alguns ainda para criticar. Alguns foram feitos para observar, outros para tocar e alguns até para beijar, mas alguns, ah, esses vão para sempre só sonhar... 

Faço parte dos que nasceram para sonhar... Sonho com o mar, com a música de um piano numa sala lotada ou de um violino sozinho na praia. Sonho com uma brisa sob a luz do luar e com uma mão delicada a me tocar. Sonho palavras que nunca vou ouvir e com olhares que nunca vão me olhar... Sonho, sonho sem parar... 

As bodas do Cordeiro

A Liturgia deste 28° Domingo do Tempo Comum é para nós um misterioso convite a conversão e a busca pelo Reino de Deus. Em linhas gerais a temática das Bodas do Cordeiro permeiam as leituras e o salmo e culmina na Parábola dita no Evangelho. Como boa parte das escrituras as literatura bíblica exige sempre ser lida a luz do Divino Espírito Santo para que só assim possa fazer uma mudança profunda em nossas vidas.

Num contato inicial a primeira leitura, retirada do livro do profeta Isaias, pode nos parecer de mais fácil compreensão que o Evangelho, e de fato sendo mais simples ajuda na compreensão deste. Numa visão profética e apocalíptica, mas não no sentido devastador que normalmente atribuímos a palavra 'Apocalipse', Isaías nos oferece a promessa do convívio dos eleitos, e descreve boa parte do que deve ser a visão beatífica daqueles que estão diante de Deus. 

"O Senhor dos exércitos dará neste monte, para todos os povos, um banquete de ricas iguarias, regado com vinho puro, servido de pratos deliciosos e dos mais finos vinhos." (Is 25, 6)

Realmente a promessa das bem aventuranças, do paraíso, é sempre regada de belas visões e paisagens demasiado românticas em nossa mentalidade. Isso se deve ao fato de que estamos sempre em busca de satisfazer nossos desejos e a imagem de um Deus que satisfaça esses desejos é tentadora a nossa consciência. O que deve mover nossa busca não é, no entanto, a banquete do Cordeiro, mas O Próprio Cordeiro que de bom grado nos oferta o banquete. Trata-se então de uma percepção de qual deve ser nosso fim: a convivência com Deus, que nos fez uma promessa de uma vida eterna, ao seu lado, alegria está que só pode ser comparada as maiores delícias do mundo pois o homem é incapaz de compreender as maravilhas de Deus em sua totalidade.

É por isso que em inúmeras passagens bíblicas, e em outros inúmeros escritos de santos, vemos o paraíso retratado como um banquete. Isso porque o banquete é também símbolo de Deus: que nos une, partilha, alegra! O verdadeiro cristão é então movido a converter-se pela promessa do viver com Deus e partilhar de seu amor pela eternidade, delícia suprema. 

A nossa infelicidade terrena muitas vezes se deve pela busca da felicidade aqui nessa vida, daí a justificativa do apóstolo Paulo ter aprendo a viver na miséria e na abundância. Para ele, e para o cristão, não há alegria no possuir aqui, servindo tanto o muito como o pouco, sendo que o essencial Deus não deixa faltar. 

"Irmãos: Sei viver na miséria e sei viver na abundância. Eu aprendi o segredo de viver em toda e qualquer situação, estando farto ou passando fome, tendo de sobra ou sofrendo necessidade." (Fl 4, 12)

Infelizmente nos cegamos com a promessa de felicidade, das delícias do banquete eterno, e passamos a crer que teremos tudo isso aqui, e quando não conquistamos o que queremos muitas vezes nos voltamos contra Deus, dizendo que este não cumpriu sua promessa de felicidade aqueles que o seguirem. Mas ora, se ele prometeu a alegria eterna de sua convivência não deveríamos buscar essa alegria aqui, onde nada é eterno. Por isso a felicidade cristã está na pobreza evangélica de saber viver com o pouco, e não se deixar cegar pelas falsas promessas que se disfarçam de Palavra de Deus. 

Com a compreensão da promessa do Banquete Divino iluminada pela sabedoria de São Paulo entendemos melhor o que a parábola do Evangelho de hoje. Com um final inesperadamente duro por parte de Nosso Senhor nos deparamos com um cenário também apocalíptico: a parábola trata-se da história da salvação! E continua sendo tão atual quanto o era para a comunidade ao qual o Evangelho de Mateus se destinava.

Para um melhor aprofundamento podemos dividir a parábola em duas partes, uma relacionada aos judeus e a outra aos cristãos, sendo ambas atuais. A primeira delas refere-se ao chamado de Deus ao povo eleito, que deus as costas ao Messias que o enviaram de tal forma que preferiram leva-lo a cruz do que ouvir sua boa-nova. 

"Mas os convidados não deram a menor atenção: um foi para o seu campo, outro para os seus negócios." (Mt 22, 5)

Assim também nós não nos ocupamos das coisas de Deus por estarmos demasiado ocupados demais com as nossas próprias coisas. O mundo nos ensina a buscar sempre algo que possa preencher aquele vazio no coração do homem e que o aflige desde o primeiro pensamento. Devemos preenchê-lo com conhecimento, alegrias, prazeres, mas nunca com Deus. E então nos esquecemos de ir ao seu banquete, ignorando que o rei pode lançar seu exército contra nossas cidades, como dito no Evangelho logo em seguida.

Isso porque o homem esqueceu-se do inferno também, além do próprio céu. Até mesmo em nossas Igrejas hoje já não se escuta essa palavra 'inferno', já não se acredita mais nisso e portanto não há necessidade de mudança de vida. Não se fala no inferno, não se fala no céu e não se fala em conversão, mas isso não exclui a existência dos mesmos, antes, nos exclui sim da convivência beatífica. 

"Então o rei disse aos que serviam: ‘Amarrai os pés e as mãos desse homem e jogai-o fora, na escuridão! Aí haverá choro e ranger de dentes’." (Mt 22, 13)

A segunda parte, quando o rei ordena que os servos busquem convidados para seu banquete nos caminhos e encruzilhadas, corresponde ao chamado de Deus aos povos que não faziam parte da aliança do povo de Israel. Somos nós, todos aqueles chamados porque os judeus não ouviram, e todos incorporados ao corpo místico de Cristo por meio de sua Igreja.

Também nós fomos chamados, mas não buscamos dar a resposta mínima que o rei exige: a veste nupcial! 

No Novo Testamento diversas vezes encontramos a expressão da veste, na parábola do filho pródigo, nas palavras de São Paulo e no Apocalipse de São João, e podemos entender que, mais do que uma veste exterior, a veste de que fala Jesus é a da conversão, que motivada por uma expressão exterior, reflete numa expressão interior. 

Não devemos excluir a veste exterior em virtude de uma interior. Isso é antes de tudo uma outra faceta do relaxamento característico de nosso tempo. Coloca-se a atitude exterior em segundo plano em nome de uma interiorização maior. Mas esquecem-se que uma move a outra simultaneamente, e esquecendo-se de uma, logo se esquecerão também da outra. 

O interior não tem então prioridade sobre o exterior, mas os dois devem se enriquecer mutuamente, afim de que o todo encontre a conversão. 

A mensagem central desta liturgia é o chamado a conversão, que por sua vez nos leva a participação no Banquete do Cordeiro, mas que requer de nós uma resposta, uma veste nova, para então ser realizada em nosso interior e refletida em nosso exterior. 

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Levando flores

"Sinto abalada minha calma,
Embriagada minha alma,
Efeitos da tua sedução..." (Cartola)

O efeito da paixão é, acredito eu, infinitamente mais poderoso que o da embriaguez. Viver dessa forma é viver perigosamente no limite fino entre a realidade e a obsessão travestida de fantasia. 

Dificilmente consigo perceber quando estou a cruzar os umbrais de uma consciência limítrofe a razão... Mas agora, quando já estou a contemplar os horizontes da antiga existência segura, me vejo a tremer de pânico, com minha alma a arder na noite escura. 

Mas eu sei, e como sei, o quanto é perigoso cruzar esse limite. Pois como bem já vivi a muralha entre o sentimento bom e racional e o sentimento fatalmente desequilibrado é tudo o que impede uma pessoa de cair na completa loucura, movida pelos desejos luxuriosos de sua mente deturpadamente perturbada.

Mas a paixão é como uma chama lúgubre ardendo numa parede escura. Encanta o olhar e o coração atraindo a atenção para sua inebriante e tórrida morte. Ah a paixão... Abalar a alma é um eufemismo demasiado exagerado para explicar a paixão. A paixão é cegueira, é morte traiçoeira, é um amarrar-se sozinho no cadafalso da própria condenação!

Os apaixonados levam flores aos amados, mal percebem eles que levam flores também aos próprios túmulos, depois de tê-los eles mesmos cavados as suas covas, e entregado-se aos braços enamorados dos seus carrascos. 

"Sinto abalada minha calma,
Embriagada minha alma,
Efeitos da tua sedução..." (Cartola)

Da língua

Vivemos tempos difíceis, onde o combate nos aguarda em cada esquina, e em cada passo uma nova luta é travada dentro e fora da pessoa humana. Alguns buscam a vitória nas armas, outros se escondem atrás da religião e alguns ainda colocam outros para lutar em seu lugar. De fato as estratégias são tão diversificadas quanto são as pessoas que as usam, e para ser sincero, diria que a crueldade das pessoas é a única coisa maior que a luta que cada um deve travar.

Dentre as muitas armas que um homem pode portar uma em especial me encanta, ao mesmo tempo em que me aterroriza mais do que qualquer outra. Quando digo 'arma' poderiam pensar na bomba, na guerra ou quem sabe na doença, mas não, a arma de que digo é uma bem menor, mas com um poder devastador infinitamente maior que o de qualquer guerra, aliás, é capaz de controlar qualquer guerra.

Me refiro a língua, a palavra. Uma arma por vezes esquecida mas continuamente usada ainda em larga escala para matar, roubar e destruir, e mesmo sem saber ou perceber continua sendo a especialidade do homem.

A língua mata, e ouso dizer que mata mais do que qualquer doença ou bomba criada pelo homem, e no entanto não foi criada pelo mesmo. A língua é de longe o veneno mais letal e corrosivo que pode vir a correr por entre as veias senis de uma alma. As palavras com frequência ferem com mais profundidade que as balas que carregam as armas. 

Apenas quem já foi ferido por uma língua afiada como aço frio sabe o poder que ela tem, e com frequência a usamos sem nem ao menos perceber o mal que podem fazer. Claro, poderia também falar do bem que ela pode fazer, mas estou confiante em crer que o homem aprende mais com a dor do que com o amor, então um panorama visual do poder destrutivo da língua é mais eficaz do que uma sugestão adocicada de seu poder construtivo.

Um veneno natural pode ser neutralizado com uma amostra do que contém em si, mas uma palavra não, muitas vezes não existe forma no mundo de dizer 'perdão' que possa curar uma ferida provocada por uma língua maldita.

Mas as pessoas não ligam para isso. Assim como usar as armas para colocar sob seus pés os seus inimigos também usam da língua para curvar a si sua mente e seu coração. Por isso diz-se que a língua corrompe, dobra até mesmo o aço, e mata até mesmo a mais bem intencionada consciência.

Também roubamos do outro sua vontade de viver, seus sonhos e esperanças quando nossas palavras passam a ser repetidas sem discriminação por qualquer um; Colocamos sobre o outro o peso de nossa língua e lhes roubamos o direito a uma vontade própria. Como é triste ver uma pessoa cuja palavra se calou e cuja língua não é outra senão a língua daquele que a domina. 

Desespero grandioso é o sentido por aqueles que precisam viver sob o peso das palavras de aço dos que o cercam. Essas lhe cortam mais do que o ferro que foi levado ao fogo, e certamente ardem mais do que o próprio fogo... Ah, o homem não compreende o poder que tem, e ainda o usa sem temor, dobrando o outro a si e envenenando sem perceber os que diz amar, mas que apenas deseja a si curvar. 

Bestialmente

Os dias passam, as horas correm... Vem o dia, vem a noite, e eu prometo a mim mesmo que amanhã será diferente, que vou levantar disposto a mudar, a lutar, mas todo dia é a mesma coisa.

Sair da cama já exige um esforço enorme, e sair por algumas poucas horas me deixa completamente exausto. Passei horas dormindo depois de ter ido a missa ontem cedo. Meu corpo não tem conseguido se curar, não tem conseguido viver.

Acreditava que seria uma questão psicológica, e que a força de querer levantar poderia me bastar, mas não bastou. Mesmo depois de dormir mais de 5 horas direto e eu ainda não conseguia levantar sequer para tomar água. O sol queimava minha pele mas eu nem ligava, só queria ficar deitado ali, pra sempre. E quando chegou a noite, esperava que o sono não viesse, mas logo ele apareceu, forte e pesado como uma barra de chumbo. Não dormi por 8 horas, como sugerem, mas por 12, e esse tempo é ainda maior em alguns dias, já cheguei a passar 16 horas direto sem conseguir sequer trocar de posição. 

A disposição para escrever tem sido outro problema. Quando finalmente consigo superar a dificuldade de ficar desperto o suficiente para escrever qualquer coisa que seja, as ideias simplesmente somem da minha mente como fumaça entre os dedos. Nada permanece, nada fica.

E essa tem sido a manifestação pessoal que tem se dado em todos os aspectos da minha vida: a permanente transitoriedade de tudo. Dizem que a única constância do universo é a inconstância, mas aceitar isso é mais difícil do que repetir as palavras. A inconstância tem me dilacerado por dentro, e tem feito eu desejar mais do que nunca a eternidade, o perfeito; Quisera eu me tornar a existência perfeita, e cobrir com minha consciência a totalidade da existência, mas quanto mais desejo isso, mais percebo o quanto isso é um sonho tolo, infantil. Ora, não é isso que desejam as crianças, um mundo onde ninguém os contrarie? 

Tudo o que tenho feito então é desejar como uma criança que meus desejos sejam atendidos, sem no entanto perceber o quão ridículos eles são. Por isso a dor, o sono, a letargia, pois meu corpo percebeu o perigo que é para mim e para os outros ficar acordado, sonhando e pensando. Por isso o meu corpo se encarrega ele mesmo de proteger o mundo de minha bestial mente...

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Silêncio e veneno

As últimas noites tem sido difíceis. Percebi que tenho esperado que o tempo resolva, que o tempo me acalme, que o tempo me console. Mas tudo o que tem acontecido é que o tempo tem me deixado ainda mais apreensivo, ainda mais magoado.

Tudo o que o silêncio sepulcral da noite faz é me lançar num abismo de pensamentos sórdidos, e embora os dias estejam quentes tudo o que minha alma encontra é a frialdade inquieta do aço de uma espada a me transpassar o coração. O aço é frio, e as palavras também são frias, não há no mundo para o meu coração abrigo, condenado a viver em eterno exílio. 

O meu silêncio é resposta de mais silêncio, mas já não sei mais quem responde a quem. O meu silêncio é reflexo do medo que meu coração tem de mais uma vez ser abandonado sobre as palavras frias de adeus. 

É com um sorriso macabro no rosto que eu me recordo que todas as minhas ações foram e continuam sendo movidas pelo medo de ficar só. E foram elas que me deixaram como estou: só! A cruel ironia do destino como um dardo inflamado foi lançada no meu coração, e a paralisia que se segue ao contato do veneno com meu sangue me deixou ao chão. 

Não há uma conclusão, um insight, uma compreensão. Há apenas silêncio, dentro e fora de mim, enquanto espero o veneno terminar de fazer efeito e finalmente ceifar a vida miserável que ainda insiste em existir. 

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Sentença

Meu lamento tem sido a dor da perda. Minhas lágrimas mais uma vez correm pelas costas que foram viradas para mim. Minha voz grita pelo olhar que se fechou...

As pessoas dizem que precisamos superar a partida dos amigos. Dizem que amigos vem e vão o tempo todo, que ninguém fica para sempre na vida de outra pessoa, e isso é bem verdade. Mas como conseguem superar as perdas? Como conseguem esquecer alguém que te tocou tão profundamente a ponto de deixar uma assinatura na sua alma e uma marca no seu coração? 

No último sábado eu ganhei um abraço, como há muito não ganhava... Foi uma despedida? Foi aquele abraço o último gesto de carinho daquela pessoa em minha vida? 

Minha condenação é a despedida. E eu não sei dizer adeus... É só mais uma das coisas que não sei dizer. Assim como não consigo dizer "me perdoe" ou "eu te amo", isso porque pronunciar as palavras mesmo que seja difícil ainda é mais fácil que perdoar ou amar de verdade. E viver uma despedida é mais difícil que dizer adeus. Por isso eu fico apenas olhando as pessoas que amo, uma a uma, me darem as costas e irem em frente, seguindo com suas vidas, seus caminhos, seus amores, e me esquecendo... 

Como uma sinfonia que cresceu e numa apoteose encantou a todos o som dos que me amam vai diminuindo lentamente até sumir, e tornar-se apenas uma recordação distante, uma sombra, do que um dia já foi. 

Somo hoje mais um, a longa lista dos que me deram as costas, dos que eu amei e que acreditei que iriam me amar eternamente. Cumpro mais um dia de minha sentença!