sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Sem grilhões

Não me ponha amarras
Não me prenda a grilhões
Não acorrente-me a suas colunas na escuridão

Não me deixe longe da luz do sol e da harmonia das minhas cores
Não teça para mim uma camisa de força
Me me meça segundo os seus medos e apreensões

Que me impeça de dançar
De levantar os meus braços aos ceús
Que me impeça de simplesmente existir como sou

Não suporto ser comedido
Amarrado
Anuviado

Não aguento ser o que não sou
Não sei ser o que não sou
Minha existência se define pelo que sou

Não me ponha amarras
Não me prenda a grilhões
Não acorrente-me a suas colunas na escuridão

Uma noite difícil

Não consegui terminar o Epistolário Teresiano, demasiado enfadonho pra entender. Mas queria tê-lo em minha lista de feitos. Ao que parece não fui feito pra compreender a mística como gostaria. Não sou místico. 

São João se envergonha de mim. 

Não consegui começar a estudar o Denzinger, o tamanho da doutrina sem embasamento não me permite prosseguir. Preciso de uma faculdade de teologia. Mas preciso antes terminar a filosofia. Também quero retomar os estudos históricos, mas é muita coisa pra conseguir assimilar. Não dou conta de tudo....

Não consegui entender a teoria contratualista de Rousseau. 

Cansado demais pra prosseguir.

Não deveria ser assim.

Era pra ser mais fácil. 

Eu devia ser um intelectual. 

Um intelectual é a única coisa que quero ser, e nem isso sou capaz de fazer. 

Não sou intelectual, apenas pedante e decorativo. 

Não sou intelectual, nem tampouco consigo uma vida social decente. Meus amigos me esqueceram ou eu os esqueci. Meus amantes me largaram porque perceberam que podem encontrar coisa melhor que eu.

No fundo não passo de um fracassado, em todos os sentidos. Intelectual, social, emocional

Essa constatação me corta, me desespera, me faz querer gritar.

Eu vou chorar.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Portais

Fechei os olhos por alguns instantes, enquanto me concentrava nas palavras metálicas do sacerdote que, do ambão, proferia seu sermão no dia de Santa Luzia. Por alguns instantes vislumbrei alguns dos cristãos que foram brutalmente martirizados em nome de sua fé pelo império romano, e que incluíam a jovem Luzia, morta a época do Imperador Diocleciano. 

Talvez como que numa relação de magnetismo o meu centro de equilíbrio foi balançado, e senti que próximo a mim uma força se aproximara. Silenciosa, quase imperceptível, possivelmente invisível aos olhos de todos os outros, materializou-se um ser de luz. 

Okay, admito que nada se materializou de verdade, isso foi só a minha veia poética dizendo que alguém se aproximou de mim. Mas mesmo sentando há alguns poucos metros de distância eu podia sentir a sua presença, tão forte e esmagadora como se me pressionasse contra o chão com o peso de dezenas de toneladas.

Ao término da Divina Liturgia, fui interpolado pelo seu olhar divino, hipnotizado por aqueles portais para um paraíso azul, onde o frio e o calor de uma personalidade dúbia se mesclam numa dicotomia única nesse mundo. 

O demiurgo riu-se de mim naquele momento, em que sua criação mais perfeita foi posta ante sua mais deformada, e o disparate que cruzou meu pensamento num lampejo de esperança infundada lho deu um prazer doce como mel. 

Em mim, por outro lado, o sabor deixado foi o azedo, causado pela distância que no instante seguinte se instaurou entre nós. 

Divertiu-se com minha expressão lânguida e escura? Meu horror em constatar o óbvio lhe causou prazer, oh temível senhor da fortuna? Espero que minha carne em chamas tenha lhe dado a alegria que buscavas em plasmar tão grandioso teatro, apenas na intenção de me matar...

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

O não querer

Não quero escrever sobre você. Isso porquê não quero pensar em você. 

Não quero fechar os olhos e ver sua imagem estampada em minha mente, como um fantasma de minha consciência. 

Não quero me deitar e ouvir sua voz a sorrir, ou a dizer-me coisas ruins, não quero te ouvir. 

Não quero adormecer e sonhar com você, seja andando a meu lado como antes ou me dizendo as coisas horríveis que me disse. 

Não quero imaginar o seu toque em minha pela, despertando em mim os sentimentos que sempre despertou. 

Não quero sonhar com você, pensar em você, recordar-me de você. 

Não quero chorar.

Por você. 

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Fragmentos

Muitas vezes já tratei da forma como, a medida em que passa o tempo, modificamos nossa forma de ver o mundo e encarar a vida e seus problemas. Surpreendo-me ao olhar no espelho e muitas vezes não reconhecer a figura que nele vejo refletida.

Como podemos mudar tanto em tão pouco tempo? Como algo que nos proporcionava tão doces e deleitosos sorrisos pode ser agora razão de asco e repulsa? O poeta tinha razão em afirmar que a mão que um dia nos afagou é a mesma que um dia há de nos apedrejar. 

O amigo que um dia jurou fidelidade e gratidão no momento de sua aflição foi o primeiro a dar as costas quando não mais precisava do outro. As vezes algo se quebra, e por mais que se tente consertar, dificilmente será como era antes. A amizade é como um cristal fino, não pode ser restaurada. Sinto como se tivesse sido partido em mil pedaços, mas não por um amante, mas por um amado em quem depositei a minha confiança, e que, quando não mais precisava de mim, apenas deu-me as costas e partiu para terras distantes. 

Como o poeta também lançarei pedras as mãos que me afagam, e não aguardarei pelo momento do escarro da boca que me beija. 

A solidão do homem não é senão um trágico destino, mas se encontra impressa desde a epigênese em seu âmago: o homem nasceu para viver só, e morrerá só, apenas desejando para si uma companhia real. E o último vislumbre dessa vida, em seu leito de morte, quando o manto negro se estender por sobre sua vista, será o do rosto do destino, contorcido de prazer, ao ver o resultado de toda uma vida de tortura. 

domingo, 10 de dezembro de 2017

O que se esconde no olhar

A multidão é uma ilusão. Ilusão que nos leva a crer estarmos rodeados de pessoas, quando na verdade estamos todos, e cada um de nós, completa e absolutamente isolados numa realidade mental tão particular e tão pessoal que é praticamente impossível estar em companhia de outra pessoa, não importa quem seja.

O outro não é capaz de ver o que se passa em nosso coração, ainda que o digamos, e nós também não o somos. Vemos uma pessoa na rua, as vezes ganhamos dela um sorriso, um cumprimento, ou até mesmo um abraço atrapalhado. 

Podemos considerar essas ações das mais diversas formas possíveis. Como um simples gesto de educação, o que geralmente é, ou um ato de carinho e consideração, o que geralmente penso que é. Mas no momento daquele sorriso, daquele abraço, não podemos saber o que se passa nele naquele momento, nem podemos esperar que ele compreenda as explosões que no nosso íntimo se dão.

Assim foi um abraço que ganhei hoje. Que numa fração de segundo despertou em mim poderosas explosões, mas que no plano exterior não passou de um mero cumprimento formal. O mundo seguiu girando normalmente depois disso, embora o eixo de minha órbita tenha sido completamente deslocado. 

Gostaria de naquele momento ter compreendido o sentimento dele por mim, se é que havia algum. O que será que ele pensou, no breve momento em que meus braços o envolveram? Ou quando meus olhos fitaram seu doce olhar cor de esmeralda? O que se passava em sua mente? Um conhecido fugaz? Quem sabe uma paixão escondida por detrás daquele olhar?

Fio

O dia se encontrou imerso na mais absoluta escuridão. O Sol me machuca, e a negritude solitária se mostrou mais reconfortante e segura que a claridade mundana. 

A escuridão provocou em mim a impressão de que o tempo parara, e que ali poderia ficar eternamente. Mas não poderia. Logo a realidade irrompeu por entre os umbrais de minha introspecção, e com golpes poderosos derrubou as minhas barreiras, expondo ao mundo as minhas fraquezas. 

A exposição dessas fraquezas nos refletir quais os nossos limites. Até onde devemos, e podemos, ir? Como melhorar o nosso relacionamento com o outro, com Deus, se parece que já atingimos nosso limite, se parece que não podemos mais melhorar?

O silêncio é o fio condutor do grito de desespero que a falta de resposta provoca em nós. 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Monstros e rodas: Retrospectiva 2017

Com o fim do ano se aproximando o pensamento retrospectivo é quase inevitável. Seja motivado pelas listas com propostas de mudanças e transformações ou pelas retrospectivas propriamente ditas, é inegável que dezembro traga consigo uma aura nostálgica, que tende a nos fazer refletir, e inteligir o que se passou, o que fizemos e deixamos de fazer.

Não pretendo olhar o post do ano passado que escrevi sobre isso para não me deprimir ao ver que não cumpri as metas que estabeleci, se é que o fiz, mas mais uma vez buscarei pensar no que seu durante esse ano, e no que está dentro da possibilidade de mudança.

Recordo que 2016 foi um ano de terríveis decepções, onde mergulhei na mais profunda angústia, e ainda em boa parte de 2017 foi assim. Mas esse ano aprendi a viver com a dor, e sorrir apesar da dor, o que considero ser um sinal de amadurecimento, ou desespero.

Esse ano eu compreendi, ou ao menos comecei a fazê-lo, que não é necessário nada que venha do outro para me fazer feliz, e que a expectativa é mãe da decepção, e sua única causa e razão. Aprendi que ajuda pode vir de onde menos esperamos, e que a traição pode vir da mesma mão que um dia nos ergueu do chão, do lamaçal, de nosso abismo interior.

Quanto a isso, me vi completamente entregue a uma nova amizade, não necessariamente nova mas cuja real aproximação só se deu esse ano, e que contribuiu para que eu encontrasse uma centelha de esperança na vida. Amizade essa que meses mais tarde se provou completamente desequilibrada e perigosa.

Talvez a minha maior, ou a única, conquista tenha sido a percepção. Percebi que nem todos querem, ou são capazes, de ajudar. Percebi que algumas coisas são passageiras, e que essa característica delas não diminui a sua importância, mas apenas não foram feitas para durarem eternamente. Aceitar isso é um passo rumo a felicidade, ou ao menos rumo a paz interior.

Ah... Paz interior! O quanto lutei para alcançá-la e, ainda que de modo imperfeito, penso já conseguir vislumbrar ao menos sua silhueta no horizonte do amadurecimento.

Percebi que o mais doce olhar de carinho e ternura pode se transformar em ódio e desprezo, e percebi que pessoas geralmente boas podem revelar-se tão cruéis quanto os assassinos das grandes histórias macabras que assustam o imaginário do povo. O monstro pode, e quase sempre o faz, se disfarçar de homem, e sendo homem doce nos leva a uma morte amarga. O mesmo monstro que nos mata pode habitar também em nós. E percebi que também sou capaz do mal.

Talvez o monstro seja a figura que melhor defina esse ano, ao lado da roda da fortuna, muito embora sobre essa última eu pouco tenha falado, mas ao mesmo tempo ela esteve presente e se fez em cada um dos dias que vivi.

O monstro simboliza o homem bom, que esconde dentro de si uma vontade maligna e um descontrole total. Descontrole que, admito, me possuiu por grande parte do tempo, resultado das muitas tentativas de me encontrar em meio ao caos. Mas o caos não pode ser organizado, e nós somos o caos.

Mais uma vez os benzodiazepínicos se mostraram a melhor companhia, e talvez a única a não decepcionar. Infelizmente não posso dar a eles o destaque que merecem, afinal, pra isso deveria andar com uma camiseta a todo tempo dizendo que só sobrevivi graças ao Rivotril e o Lexotan (sem esquecer o Diazepan).

Pois bem, o ano que se passou foi difícil, marcado pela superação. Foi um ano de monstros, altos e baixos, lágrimas e sorrisos. Foi um ano vivido, no sentido total da palavra!

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A altivez em meio as chamas

A inspiração surge como uma doce melodia, que nas teclas de um piano é capaz de contar as intempéries sofridas por uma alma atormentada pelos fantasmas do próprio passado, que ao seu ouvido murmuram palavras macabras de desdém, e que como vermes a comerem a carne putrefata de um cadáver, devoram as entranhas de um coração que há muito busca na vida uma razão para continuar a existir, ou para finalmente dar cabo de sua existência miserável.

Na mente contrasta com o coração a bela imagem de um ser alado, quase seráfico, a orbitar por sobre as cabeças de um pobre miserável. A visão daquele anjo superior lhe perturba a alma tal qual um exército inimigo perturba uma nação dada sua supremacia beligerante. Um anjo alto lhe circunda a alcova, com uma luz divinal a lhe cobrir o corpo. Sua imagem alva contrasta com o azul nebuloso da noite adornada por uma miríade incontável de corpos celestes que, no entanto, não conseguem brilhar tanto como aquela figura que na noite escura se plasma.

O homem na noite escura busca aquele por quem sua alma clama, e ama sonhar com sua figura idílica. Na noite escura ele busca por quem sua alma alma, e o amando por ele a clama. 

Aquela figura se destaca não só pelo seu brilho, mas pela perfeição de sua forma. Nem mesmo as rosas possuem tão delicada beleza, e nem milhares de seus espinhos poderiam se comparar a altivez que sua presença transmitia. Tal como um trigal iluminado pelo sol radiante seu olhar aquecia o mundo, e parecia mergulhar a totalidade da existência num abismo de gelo caso se retirasse dali.

Em sua mão segurava uma espada que, embora coberta pela bainha, deixava desprender de si poderosas chamas, que abrasavam a terra e transformavam aquilo em que tocavam em cinzas. Poderia reduzir o universo às cinzas se quisesse, e como naquele dia de ira o mundo seria envolto em cinza fria. 

Mas aquela visão não era apenas uma mera visão, e aquelas chamas provavam isso, ao passo que não passava de uma visão, e da mesma forma como apareceu, desapareceu, deixando o coração do homem mergulhado no mais absoluto terror, e horror, pela perda de tão grande ser que um dia o visitou. 

Dor e prazer

Sabe, estou começando a me habituar com as idas e vindas da minha existência. Percebendo, aos poucos, que os dias que passam se assemelham mais com uma roda gigante, uma roda da fortuna, que as vezes se encontra no topo, e outras vezes desce violenta e abruptamente. 

A fortuna, como já disse várias vezes, é mutável, e essa é a sua essência. Ela é como a lua, usando o exemplo dos Carmina Burana, sempre mutável, as vezes crescente, as vezes diminuta. Não há como controlar a sorte, ela é uma força da natureza, e contra uma força da natureza não se luta, apenas se sobrevive!

Nos surpreendemos com a maldade que as mãos do destino podem plasmar em nossas vidas, nos desesperamos com a dor e o horror que ante nossos olhos se mostram. Mas também nos deleitamos com as doçuras que a vida nos dá, com as alegrias e prazeres que enebriam nossos sentidos. A dor e a luxúria se mostram então nos opostos da roda da fortuna. 

É a dicotomia entre dor e prazer que move o mundo. O homem busca fugir da dor e se deleitar no prazer, enquanto causa dor ao outro e lhe rouba seu prazer. Essa é a causa e a razão de todas as guerras e conflitos no mundo, desde a mais ínfima discussão entre parceiros até os mais devastadores conflitos bélicos. A dor e o prazer regem o mundo, são eles os deuses ao redor dos quais gravitam nossas vidas inúteis e ínfimas. A dor e o prazer dominam nossas vidas, e pensamos lutar por eles, e a eles conquistar, quando na verdade apenas damos voltas nas palmas das mãos do destino.