Mitsuko Uchida, piano e regência
Camerata Salzburg
Algumas obras, e alguns músicos, se tornam lendários, incorporados a uma história profundamente enraizada não apenas naqueles frequentadores assíduos das salas de concerto mas também naqueles que nem imaginam a origem daquilo que ouvem na espera de um atendimento eletrônico ou, simplesmente, num elevador, e que logo saem assobiando, não uma música qualquer, mas algo que transcende gerações.
Há melodias que vivem como antigas divindades domésticas: não sabemos seus nomes, mas habitam a casa. Elas atravessam paredes, corredores, elevadores, e nos seguem como uma memória anterior à própria biografia.
Não só compositores fazem parte desse número. Certa vez ouvi que todos sempre lembrariam de Beethoven, mas não de quem tocou Beethoven. É uma meia verdade. Claro que o nome do grande compositor da incomparável Sinfonia "Coral" é um colosso indestrutível. Mas, às vezes, alguns grandes intérpretes também se tornam grandes.
Talvez porque a música, como queria Platão, seja uma recordação de algo que a alma já soube. O intérprete não apenas executa: ele reabre a passagem para esse lugar esquecido. Alguns tornam-se, assim, barqueiros de um rio invisível.
Enquanto buscava uma execução de referência, de preferência com algum dos pianistas que já conhecia, acabei me deparando com duas grandes pianistas: a portuguesa Maria João Pires e a japonesa (naturalizada britânica) Mitsuko Uchida, uma lenda do piano. Mas, claro, não é dela necessariamente que quero falar, mas interpretação que ela faz da peça escolhida: o Concerto para Piano N° 20, K.466 em Dm de Mozart. Há intérpretes que iluminam a partitura; outros que a atravessam como quem atravessa uma noite. Uchida pertence a essa segunda classe: não clareia a sombra, mas a torna habitável. Muito provavelmente porque também nela habita seu coração.
Pronto, o nome Mozart já diz tudo! Me lembro que, ao dar aulas numa escola de uma realidade vulnerável, alguns alunos reconheciam o nome, muito embora não soubessem do que se trata. De fato, Mozart merece a fama de seu nome preceder qualquer coisa, sua obra magnífica tornou seu nome maior que o próprio homem, numa extrapolação poética, claro.
Como certos astros, seu nome chega antes da luz. E, no entanto, por trás da claridade cristalina que associamos a Mozart, existe sempre uma noite delicada, quase educada, que nunca se impõe, apenas permanece.
Guardadas as devidas proporções, o nome de Mitsuko Uchida também ecoa, embora mais limitado às salas de concerto. Não vou enumerar os prêmios e os feitos acadêmicos dessa grande pianista, mas exaltar sua interpretação por aquilo que mais me chamou atenção: Mitsuko brilha no palco, não por sua figura, mas por incorporar a peça de tal que modo que cada apresentação se torna um evento. O motivo para ter escolhido sua apresentação como referência para essa reflexão foram as marcas de sua personalidade: a entrada com sorriso largo, não sério e nem tenso como tantos outros, ela está absolutamente confortável com o que vai interpretar, e isso não vem apenas dos anos de prática, mas de da incorporação de que falei. Ao se colocar diante do piano ela não se põe frente a um instrumento e aos músicos da orquestra, é mais do que isso. O piano é apenas extensão de si, ou ela é extensão do piano, não há como saber.
Há artistas que dominam a obra; outros que a escutam. E há aqueles raros que parecem já ter vivido dentro dela, como se retornassem a um lugar conhecido. O sorriso de Uchida não é leveza superficial: é o de quem entra numa região onde luz e sombra já foram reconciliadas. Fiquei hipnotizado quando a vi pela primeira vez.
E, ao se posicionar ao piano, como de costume, um gesto (para mim) inesperado: ela se levanta. Não vai apenas tocar, mas também reger, como maestrina desse grande acontecimento. Não é ato de arrogância, mas apenas de tal intimidade com a obra e os músicos que o dueto entre piano e orquestra pode tornar-se ainda mais próximo.
Nesse gesto há algo de antigo: como se o músico fosse também sacerdote de um rito. O concerto deixa de ser exibição e se torna cerimônia, não para afastar a sombra, mas para lhe dar forma audível.
Com exceção do seu Réquiem e da ópera Don Giovanni, não me lembro de outra peça do compositor que tenha sido descrita assim: o lado sombrio de Mozart. Com efeito, me lembro de uma expressão de Nodame Cantabile que deixa claro que esse gigante possui um panorama visual cor de rosa. Outra extrapolação poética, dessa vez da excêntrica protagonista. Mitsuko segue a prática que era usual para Mozart, ele também, na estreia do concerto, executou o solo enquanto regia a orquestra.
Mas toda paisagem cor-de-rosa tem sua hora crepuscular. Em Mozart, a sombra não rasga o tecido da forma: ela o atravessa como a tarde atravessa um jardim clássico. Nada se rompe, e ainda assim tudo se obscurece levemente.
O que significa dizer que se trata de um lado sombrio? A primeira vista, até para mim que tenho alguma prática, o piano ainda soa brilhante, as passagens rápidas de um virtuosismo elegante, mas sombrio não seria a primeira palavra que me surgiu a mente. Essa peça é um dos poucos concertos de Mozart em modo menor (e o único em ré menor). Esse tom, em Mozart, costuma marcar momentos de conflito moral e metafísico. Mozart é um compositor clássico, no sentido histórico do termo, e não romântico como Beethoven ou barroco como Bach, portanto, podemos entender sombrio aqui como um drama iluminado por dentro, uma dicotomia entre luz e escuridão, mas não ao modo grandioso como vemos no período romântico, com passagens de catarse em rompantes de alegria ou fúria...
Talvez a sombra aqui seja mais próxima da que aparece em Plotino: não o mal absoluto, mas o afastamento da fonte. Uma penumbra ontológica. A música não é um grito ou um golpe, como o martelho de Mahler, ela reflete, mais como as paisagens de Sibelius. Não despenca lentamente no abismo como Tchaikovsky, mas contorna-o com elegância, como quem reconhece sua existência sem se entregar a ele.

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