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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Alcançar

Minhas mãos nunca alcançaram você

Sempre caminhei atrás, 
achando que poderia te alcançar.
Por vezes,
quando a caminhada ficava pesada, 
e quando o fôlego começava a falar,
eu estendia a mão

mas não conseguia te alcançar.

Algumas vezes você me olhava,
virando a cabeça por sobre o ombro,
e me sorria, e aquele sorriso,
iluminava tudo ao redor, 
e eu sentia o rosto corar,
o coração titubear,
um assombro.

Mas isso não significa que eu podia te alcançar.

Você é o tipo de pessoa que,
se pudesse voar, 
jamais voaria.

E eu sou o tipo de serpente que, 
ao ver a águia voando no alto céu,
só pode sonhar em voar também, 
enquanto rastejo, 
respirando a poeira deste chão.

E então, 
mesmo quando em devaneio, 
em ilusão, 
eu acreditava que,
para te alcançar, 
bastava estender a mão,
eu percebia

que na verdade você se desfazia,
como fumaça,
por entre meus dedos.

Isso porque eu nunca vou poder te alcançar.

Na verdade,
depois de tanto tempo, 
eu finalmente entendi que,
não adianta o quanto eu a mão esticar,

ninguém,
eu nunca vou poder alcançar.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

O sol desfaz a névoa

Já vinha pressentindo isso há alguns dias. Dizem que, com a experiência de muito tempo, as pessoas de certos lugares conseguem sentir quando se aproxima a chuva, ou a tempestade. São pessoas do sertão árido ou marinheiros de longa data, habilidade aprendida por medo, ou necessidade, ou os dois. 

Sempre sinto uma forte dor de cabeça. É o primeiro sinal. Meu corpo costuma saber antes de mim quando alguma coisa está prestes a desabar.

Junto a ela uma sensação de crescente inquietação. Antes o corpo era tomado pelo torpor, aquele característico da anedonia que faz os dias passarem sem que se perceba. O moribundo jaz na cama, e passam as horas, os dias, e ele ainda continua lá. No meu caso é como se apenas as noites existissem. E então tudo muda quando a depressão se recolhe, cedendo lugar para outro demônio. 

A névoa matutina é violentamente dissipada pela luz do sol. Eu não gosto do sol. Sempre odiei. Me faz lembrar daqueles dias desconfortáveis de verão que não conseguimos dormir direito, e viramos de um lado pro outro, o suor por todo o corpo, e a aquela brecha atrevida fazendo uma luz incômoda tocar o corpo, mesmo quando lhe damos às costas. Há qualquer coisa de ofensivo naquela insistência luminosa de que o dia precisa começar. 

Tomado de imensa fúria na noite de hoje. Meio de semana, contemplo a imensidão da minha incompetência: praticamente um incapaz. Praticamente um incapaz. Não há nada de nobre nisso. É simplesmente humilhante.  Depois de (mais) um dia de inutilidade, uma fuga da realidade: de volta para as histórias. Há fugas que nos escondem do mundo. Estas, às vezes, me devolvem algum mundo. Elas já se tornaram meu porto seguro. Certamente alguém diria que é apenas uma fuga, e eu sei que muitas vezes de fato o é. Mas aprendo muito do mundo que não consigo viver por ter sido me tirada a vontade de sair da cama. 

Tenho consciência dos limites dos recortes apresentados. Mas também sei que até mesmo o enfoque que é dado me faz compreender: ele também tem algo a me dizer. 

Meu professor dizia que a primeira coisa a se fazer, sempre, de modo real, crescente e permanente, é enriquecer com a experiência humana. Talvez seja por isso que eu tenha aprendido a procurar vidas onde não consigo viver a minha. Ariano Suassuna, certa vez, já de idade avançada e sensibilidade ainda afiada, citou o Albert Camus, que elaborou que o único problema filosófico importante seria o do suicídio. O sujeito avalia a vida, avalia a si mesmo, e chega a conclusão de que isso é inviável, de que não vale a pena. Mas Ariano discordava do filósofo franco-argelino: para ele o suicídio era apenas parte, ou sintoma, do real problema, que seria o do sofrimento humano. Este sim é o maior problema de todos e que seu conterrâneo Leandro Gomes de Barros havia eternizado de modo mais bem elaborado que Camus.

Aprendo com as histórias muito desse sofrimento, das diversas dores advindas da partida, da morte, da separação, da incompreensão. Mas também aprendo sobre a esperança, uma que muitas vezes penso ter perdido totalmente, e que algum personagem me recorda, ao sorrir doce e ternamente, ao declarar seu amor, ao abraçar alguém, a sorrir novamente. Não ligo que digam, apesar de crer que ninguém se importa realmente, que seja uma fuga. Talvez seja fuga. Mas às vezes parece que é o único lugar para onde ainda consigo fugir. E, se ninguém se importa realmente, ao menos aqueles personagens não sabem disso. Pois cada vez que sorrio, me despertando de pesada agonia, ou que derramo lágrimas, mesmo em intensa euforia, percebo uma coisa estranha: na solitude de minha tela, encontro um mundo que não viveria nem se dez vidas eu tivesse. Na solitude da tela, ao menos, ninguém me pede para ser outra coisa.”

Mas hoje a fúria me dominou, por um bom tempo eu precisei me esforçar para me concentrar. Um aspecto do sofrimento me veio atormentar: a recordação da traição antiga e a verdade das relações presentes. Os personagens traem-se entre si... Mas não me trocam por uma vagabunda qualquer e depois me avisam isso por mensagem no dia que vão morar com ela. Por isso me refugiei naquelas cenas, de amor, de traição e partida e, aos poucos elas me acalmaram. 

Catarse. 

A ficção fez aquilo que a minha razão não conseguiu. Aqueles versos que criei em mente, em troqueu, batiam em minha cabeça como se fossem passos, e depois desapareceram, se desfizeram, perderam-se na névoa. Bom que o dia de ira findou. Pena que a poesia se perdeu. Talvez amanhã ela volte, como a depressão. E talvez a poesia precise da ira para morrer e, como a Fênix ou Benu, renascer. Embora seja belo falar da esperança, admito que ainda encontro no sofrimento humano assunto mais interessante para as letras. 

Me resta agora, depois de longa noite em companhia de tantos personagens: cabelos azuis em beijos apaixonados na bancada de uma cozinha, estudantes tímidos e fofos tomando sorvete depois de uma passada na livraria, mafiosos perigosos e jovens com responsabilidade sobre ombros vacilantes como os de uma criança de doze anos. 

A noite passou. 

A tempestade, não sei. 

Me resta agora... esperar os próximos dias, de ira ou euforia.

X

Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?

Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?

Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?

Leandro Gomes de Barros

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A orquestra lá fora

Os últimos dias na cama estão fragmentados na minha cabeça. Uma névoa densa ao meu redor, onde eu me refugio. Porque fora dali, para além da névoa, há a civilização, com todo seu barulho. É como uma longa peça dodecafónica que ninguém, em sã consciência, se disporia a ouvir. Não. Não é como se eu estivesse no meio da civilização. Depois do meu quarto tem apenas mais algumas paredes, poucos metros entre uma fina camada de madeira e mais barulho. E nem quero saber o que tem lá fora. 

Percebi, ao sentar na frente da TV para assistir, como num clique, que eu me fascino tanto com as histórias que vejo porque, na verdade, elas mostram pessoas e suas vidas, e vidas essas que não estão confinadas dentro de um quarto de 4m². 

Essas pessoas estão vivas. 

Elas saem,
riem com os amigos, 
conhecem novas pessoas, 
se apaixonam, 
acabam ficando juntas 
e tantas outras coisas. 

Os violinos entram primeiro, quase tímidos; depois crescem, e então vêm os metais, largos, terríveis, anunciando que alguma coisa irá acontecer. A percussão marca o passo. Tudo parece perdido por alguns compassos. Mas, para eles, no fim, a melodia daquele amor retorna.

Eu saí. 
Ri, 
sorri. 

E depois voltei pra dentro da minha névoa. 

Um dia.
Dois.
Três talvez.
O tempo havia perdido a métrica.
E eu ainda estava lá.

E a névoa parecia cada vez mais pesada. 

Mesmo assim, cada vez que saí, o barulho me acertou como uma gigantesca massa sonora.

TROMBETAS.
METAIS.
PERCUSSÃO.

Tudo ao mesmo tempo, sem piedade, como se todas as trombetas do Apocalipse tivessem descido sobre a cidade e um maestro raivoso, enlouquecido em seu próprio dia de ira, regesse aquela Sinfonia Trágica.

A família estava reunida, mas eu não quis ver ninguém. Fiquei deitado, imóvel, escondido embaixo das cobertas como se elas fossem as paredes de uma fortaleza.

E então, uma vez na cama, envolto por pesadas cobertas no dia mais frio do inverno, lá vem a névoa de novo, lentamente fechando meus olhos. 

E o som vai sumindo, 

como um clarinete cada vez mais distante.

Lentamente...

Cada vez mais longe...

sábado, 18 de julho de 2026

Rastejando



"Reunir-me-ei em vida e morte
Aos sonhos que não realizei
Darei os beijos nunca dados,
Receberei os sorrisos, que me negaram,
Terei em forma de alegria as dores que tive...

Ah, comandante, quanto tarda ainda
A partida do transatlântico?
Faz tocar a banda de bordo —
Músicas alegres, banais, humanas, como a vida —
Faz partir, que eu quero partir..." 

(Fernando Pessoa)

Quão vãos são os desejos, aqueles nascidos do mais breve dos acasos e que, como criança que vê algo e imediatamente só pensa naquilo, passa o homem a desejar o objeto de seu desejo como se toda sua felicidade, vida e existência, do nível mais atômico ao metafísico, dependesse de o ter.

E então, de decepção em decepção aquela alegria de um novo desejo, aquele despertar dos sentidos, do olhar aguçado e ouvidos atentos que fazem com que todo nosso centro gravitacional gire ao redor da coisa desejada, aos poucos começa a se desfazer. Cada coincidência parece um sinal. Então, sem que ninguém anuncie, o som dos sinos daquele templo ecoa a impermanência das coisas. Montanhas são destruídas pelo tempo. Flores caem. Enquanto uns sorriem, outros tantos pranteiam a própria sorte, e não querem nem mesmo consolo: aquilo que uma vez amaram já não existe mais. As amizades de ontem não existem mais, quantos ainda vemos todo dia e quantos nem sabemos onde estão? Passou. Os desejos também passam, de algum jeito. Mesmo que demore, como as areias de um deserto um dia podem ter sido uma grande montanha, e hoje nem sequer ficam seguras entre os dedos. 

Tudo se esvai.

Apenas levamos menos tempo para virar pó. Como carne humana envelhece, apodrece, cai no chão e morre, servindo apenas como alimento para os vermes que serão nutridos do que restou desses desejos, rastejando então pela próxima vida, apenas em busca de saciar sua fome, aquela não saciada jamais.

Não restarão, no entanto, aos vermes e ao chão, nem mesmo as lembranças da vida pregressa, dos amores que não os amou. Poderão os homens não os terem amados e, antes disso, os desprezado. Cometeram inúmeros pecados. Mas já não se recordam de nada, senão que continuam rastejando, desejando algo, por desejar e nada mais. Talvez não muito diferente do que era quando homem, do que quando, caminhando decidido, olhou o céu no fim da tarde pela última vez: um risco cor-de-rosa tingia o entardecer. Não se lembra do nome que amou, da casa em que viveu, nem dos pecados que julgava imperdoáveis. Deu mais um passo e, assim o dizem, um leve sorriso enquanto olhava aquele céu, como se o mundo lhe oferecesse uma despedida que ele já não era capaz de compreender.

Verme, verme, que rastejas
sob a terra sem memória,
que mão, que olho imortal
desenhou tua insistente trajetória?

quarta-feira, 15 de julho de 2026

A Perda da Imaginação

Nos últimos meses minhas imagens se tornaram mais fracas. Por um lado eu sei que meu ambiente limitado tem sido também um limitador da minha imaginação. Mesmo o trabalho sendo um inferno, eu tinha algum caminho para andar, ver a floração do Jacatirão, o verde brilhante da grama do vizinho, um ou outro visitante da galeria que me despertava pela beleza. Agora eu tenho a minha casa, apenas, e o sufoco que ela traz, pois estou confinado ao meu quarto. É verdade que as séries poderiam ser uma boa fonte de inspiração mas, o efeito geral do espaço ainda consegue entorpecer essa visão. A inspiração está lá, eu só não consigo colocá-la em palavras. 

Parece que toda vez que eu me sento para escrever, não é mais como aquela torrente de antes, em que as páginas se multiplicavam com facilidade. Não. É como se um único parágrafo exigisse um esforço tremendo. E não se trata de qualidade. Ainda que fosse de modo um pouco caótico, revisitando aqueles textos eu consigo identificar várias formas: por vezes a aglutinação de palavras é presente, mas refletindo um interior igualmente caótico, que só consegue enumerar suas dores. Mas em outras vezes é fácil perceber a forma poética ao tratar da dor, dos desencontros. Também não faltam exemplos da forma ensaística, onde busco justamente analisar a solidão do homem à luz de algumas obras, nomeadamente Neon Genesis Evangelion, sem dúvida o assunto de que mais falei até hoje, ou peças musicais como as sinfonias de Tchaikovsky e Mahler e os concertos de Rachmaninoff e Chopin, companheiros de longas noites de solidão. 

Gostava de ser um escritor bastante produtivo. Claro que muitos podem questionar a qualidade de alguém que multiplica suas dores em palavras quase sem fim, mas são a expressão de impressões, e se as impressões se repetem, qual é o problema de registrar as expressões. 

Um dos problemas que consigo identificar é minha dificuldade em ler. Sempre li muito, do tipo que ia dormir de madrugada, e isso ia me enriquecendo. Me lembro de adotar, quase sem perceber, um estilo mais solene, épico ou até místico enquanto lia Camões, Homero e São João da Cruz. Mas hoje, tenho encontrado dificuldade em ler. Minha atenção e memória foram gravemente comprometidas. Na minha cama, nesse momento, se encontra uma coletânea da poesia de Álvaro de Campos, o segundo tomo de Dom Quixote (que literalmente faz mais de um ano que tento terminar, sendo que o primeiro li em menos de um mês), e um almanaque de música clássica que, acredito, não passei do primeiro capítulo.

Tento criar pequenos objetivos. Ler dez páginas por dia. Tentar algo mais simples, quando devorei os primeiros volumes de As Crônicas de Nárnia em poucos dias. Mas olhar minhas estantes e ver a quantidade de livros, clássicos da mais alta qualidade, obras grande de profundidade filosófica e teológica, bem como alguns outros assuntos, me fazem ficar ainda mais deprimido. Sim, eu sei que não devo me cobrar muito, e que criar esses pequenos momentos, sem a pressão de me tornar um literato da noite para o dia, é um bom caminho, mas não tem dado muitos resultados.

E, então voltando ao tema da minha situação atual, me recordo que lia bastante no ônibus, indo e voltando do trabalho, e isso nunca prejudicou a qualidade da leitura. Quando encontrava algo especial, fotografava e trabalhava em cima depois. Será que deveria escolher um horário para ler fora de casa? Quem sabe caminhar até o jardim da igreja ou do bairro ao lado, apenas com um marcador, sem celular.

Me encontro numa espécie de ciclo vicioso, aquele que tantas vezes descrevi com a figura o ourobouros: um ciclo infernal. Para melhorar a estabilidade do meu Transtorno Bipolar, porque não quero resumir a minha personalidade ao meu CID, preciso de uma rotina e, no momento, minha rotina tem sido: assista o quanto pode a noite porque durante o dia, a casa pequena, o barulho, tudo isso. E então não tenho vontade de pegar algo e ler como antes, com aquele prazer em conhecer mundos, pessoas e situações que nem em dez vidas eu viveria. 

Me recordo das longas paisagens de Proust, e sei que encontrarei algo parecido em Tolkien, me encantei com as descrições minuciosas do sertão em Euclides da Cunha, cada uma dessas coisas me ajudava a descrever a paisagem ao redor. Os romances e tragédias, o amor não correspondido, os ciúmes extremos. Tudo isso resultava nas imagens, as que eu multiplicava, dava meu próprio tom, colocava em mim.  

Mas, para sair desse ciclo, precisaria encontrar um emprego, e as crises de pânico se tornam um empecilho grande. Me lembro das humilhações dos últimos empregos. Se tentar continuar no mundo da arte, o ego inflamado dos artista, se voltar para a escola, a rotina desgastante de uma burocracia sem fim... Esse medo me paralisa, e se não consigo fazer aquilo de que tenho medo, não consigo continuar multiplicando minhas imagens como estrelas no céu, gravadas na grande muralha do tempo. 

terça-feira, 14 de julho de 2026

O sussurro do vento

Não sei se fiquei irritado por ciúmes ou por reconhecer, mais uma vez, o velho desenho das coisas se repetindo. O frio sopra nessa ilha com uma insistência quase pessoal. Há uma risada escondida no vento. Não é humana. Nunca foi. Hoje o frio me conhece, me abraça e, em meu ouvido, o demônio ri baixo, como quem já conhece o final da história e apenas espera que eu também descubra. 

Empurro a porta do bar e ninguém parece notar minha chegada. Talvez porque todos ali estejam ocupados demais sobrevivendo a si mesmos. A fumaça dos cigarros demora para subir. A umidade do lugar deixa tudo pesado. O piano, velho e desafinado, insiste em tocar alguma coisa de Mahler. Não sei qual peça, talvez aquele tema infantil transformado em marcha fúnebre irônica? Talvez nenhuma. Talvez seja apenas aquela gargalhada de que ele falava, escondida entre notas altas, aquela música estranha que não lamenta a tragédia, mas sorri dela, ou a que apenas registra os golpes pesados do destino até o fim.

Sem cumprimento até mesmo do cara que limpa os copos com um pouco de estopa. Apenas abrem espaço na mesa, como se já esperassem minha derrota. Peço um whisky, ou melhor, já me trazem o copo. Acho que minha cara já diz tudo, ou todos ali busquem a mesma coisa. Duplo.

"O erro", diz um homem de cabelos brancos sem sequer levantar os olhos do copo, continuando o que parece ser a conversa com a pausa mais longa já registrada entre homens, e talvez até entre macacos, "é continuar esperando que alguém retribua."

Ele gira lentamente o gelo entre os dedos. E eu reconheço, assentindo lentamente enquanto deixo o brilho dos olhos se esvair na ondulação da bebida em minhas mãos. Essa maldita sensação de achar que algo pode ser correspondido. Minha versão jovem gastou dezenas de páginas falando sobre como é impossível para duas pessoas se tocarem realmente. Estamos longe demais, separados em absoluto por um campo invisível, a nossa própria consciência, incapaz de comunicar ao outro o que somos e, portanto, incapaz de forçar o outro a nos observar. Não importa a beleza do azul do céu ou do mar, se a cor favorita de alguém é o amarelo. Olhando pela janela vejo apenas um ameaçador cinza, e umas poucas gaivotas voando, provavelmente em busca de abrigo da tempestade que se aproxima.

"Esperança sempre cobra juros altos."

Não respondo. Só bebo. O álcool queima por um instante, mas logo perde a utilidade.

"Pelo menos você ainda espera", comenta outro, olhando pela janela embaçada. "A maioria já aprendeu que ninguém busca ninguém. Cada um corre apenas atrás do próprio desejo. O outro é só um espelho conveniente."

Já há muto deixei de acreditar no amor, no sentido romântico da coisa. Acredito no amor de uma mãe pelo filho, e do filho pela mãe, pranteando um ao outro seu luto, seja na guerra ou no pacífico ciclo normal da vida. Mas no amor, como contam as histórias apaixonadas? Não.

Lá fora, um casal atravessa a rua correndo para fugir de uma pancada de chuva. Logo vai passar, mas penso comigo: bem feito!

Sempre vejo isso.

Os meninos fazem dos próprios afetos uma religião improvisada. Orbitam mulheres como pequenos planetas desesperados, convencidos de que existe um centro do universo escondido dentro de outro corpo.

E eu rio deles.

Rio porque parecem ridículos. Porque esse amor é ridículo. "Todas as cartas de amor são ridículas", alguém diz, ao canto, e eu olho e vejo que ele escreve alguma coisa. Talvez uma carta de amor ridícula. O riso macabro dessa vez é meu. Mas dura pouco.

Porque descubro que também passo meus dias girando em torno de alguma coisa. Não de uma mulher. De pessoas. Da paróquia. Da necessidade absurda de manter unida uma comunidade que parece ter escolhido a fragmentação como vocação. Engulo humilhações, reorganizo ruínas, tento salvar vínculos que talvez nunca tenham existido. Enquanto isso, minha depressão me concede energia suficiente apenas para viver pelos outros. Nunca para mim.

"Você ainda mede sua existência pelos olhos deles."

A frase vem calma, e eu não sei quem a disse. Talvez aquele homem magro sentado na ponta da mesa, o mais perto da porta.

Talvez eu mesmo.

E então sinto o cansaço que vinha ignorando até então. Um peso gigantesco sob minhas costas, de pessoas e mais pessoas querendo algo, eu querendo corresponder, melhorar e, ao mesmo tempo, sei que elas me deram isso por ser um incômodo. Mas da forma como o fazem, só se torna um incômodo pra mim também. E eu me vejo na obrigação de fazer um monte de coisas que não quero, de um jeito que não quero, que vai terminar num resultado que, desde o primeiro momento, sabia que ia dar errado.

"Esse é o desespero."

Fico olhando o copo. O gelo já derreteu e a bebida agora parece remédio.

"Não", alguém interrompe, soltando uma pequena risada pelo nariz. "Você não está com raiva deles."

Levanto os olhos e homem do bigode continua olhando para um ponto qualquer do teto.

"Você está com raiva de continuar precisando deles."

"Mentira."

Ninguém responde.

"Mentira" 

Repito mais baixo. Mas minha voz já não parece tão convencida.

Porque parece que algo me acertou com força no estômago. É verdade. E odeio que seja assim. Passam meses, passam anos, e algo bobo como ver um homem ir estupidamente atrás de uma mulher me irrita. Porque parece que ele desperdiça sua potência. Acho que toda relação entre homem e mulher é estúpida, burra. O homem não pode encontrar seu potencial ao lado de uma mulher. Apenas sozinho ou, mais raramente, com outro homem. Talvez ainda eu tenha desperdiçado com meu potencial e assim me incomode quando vejo outra pessoa fazendo isso. Por isso ri do idiota que abraça a mulher para correr na chuva.

O silêncio volta a ocupar a mesa. Só então percebo outro homem, discreto, quase apagado pela fumaça. Escreve alguma coisa num guardanapo enquanto fuma. Olhei rapidamente por cima do seu ombro.

"Todo encontro é um equívoco que dura o tempo suficiente para receber um nome."

Ele dobra o papel e o guarda no bolso como quem sabe que ninguém lhe pediria para ler.

Mais adiante, uma mulher de voz muito baixa fala quase sem mover os lábios.

"Você confunde servir com desaparecer."

Há delicadeza naquela frase. Por isso ela dói mais.

"Pensa que Deus lhe pediu as duas coisas."

Não pediu, e ainda assim eu me doei ao outro até não sobrar mais nada. Em todos os campos. Aquele que amei, quando ainda era capaz de amar, se gaba de se encontrar com uma mulher estúpida. Os idiotas da paróquia vivem recolhidos numa religião industrial, vivem como se tivessem de cumprir horário na missa, batendo ponto e fazendo o mínimo num trabalho. Entram na igreja como quem registra ponto. Cantam como quem aperta parafusos eternamente sem saber como ou porquê. Terminam a missa olhando o relógio antes mesmo da bênção. 

Ninguém tenta me consolar.

Nem eles.

Nem o vento.

Nem Mahler, cuja música continua fazendo da tristeza uma espécie de ironia cósmica.

Um homem de sobretudo permanece olhando para o copo vazio há tanto tempo que imagino ter esquecido por que entrou ali. Quando finalmente fala, parece pedir licença ao próprio silêncio.

"O absurdo talvez comece justamente quando percebemos que não existe garantia alguma de sermos lembrados."

Faz um gesto para o garçom.

"Ponha outra."

Eu não serei lembrado quando me for. Já não sou agora. Não peço pra encher o copo. minha bebida já está amarga demais. Os comprimidos dissolvidos nela têm gosto de amanhã recusado.

Lá fora, o vento continua soprando.

Alguém diz que aquela gargalhada sempre esteve ali. Mas agora já não sei se era o vento. Talvez o demônio nunca tenha rido. Talvez aquela gargalhada sempre tenha sido minha. Outro responde que ela nunca terá a última palavra. 

Talvez fosse apenas o eco da minha própria voz voltando das montanhas.

Os dois parecem igualmente convencidos.

Eu já não sei.

Só sei que, esta noite, o frio conhece meu nome melhor do que qualquer pessoa. Começo a reconhecer a peça no piano enquanto caio no sono.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Desregulando

Eu devia tentar regular o meu sono. É imperioso que eu o faça, essa é como a lição primeira do tratamento do Transtorno Bipolar: tome a medicação e tenha uma rotina organizada. Estou tomando a medicação, mas se tem algo desorganizado na minha vida, tem sido minha rotina. 

As noites vêm sendo meu único refúgio. Consigo largar o celular e me concentrar nas histórias. Tenho assistido mais de quinze séries esses dias. E os dias são um tormento, onde durmo a maior parte deles, acordo para comer, dou meia volta pela casa e corro pra cama. Outros hábitos também estão desorganizados, como às vezes comer bolo às três da madrugada ou tomar banho às cinco para ir dormir. 

Nos últimos dois dias vi o que parece ser um episódio de euforia. Senti alguns dos sinais de sempre: uma dor de cabeça incômoda, pensamentos acelerando lentamente em horários aleatórios. Consegui ir no ensaio do canto, e numa reunião de coordenadores da paróquia. Falei um monte em ambas, e isso é péssimo porque, se em alguns dias eu entrar em depressão de novo, ainda vou ter que cumprir com todas as obrigações assumidas. Vou ter que fazer todo o projeto gráfico da festa de São Francisco de Assis, no Jubileu Franciscano de 800 anos, vou ter que cantar... Até o começo da semana eu vinha adiando várias artes, foi o episódio começar e eu adiantar quase vinte projetos que estava estagnados. 

De todo modo, hoje eu acordei, até disposto. Mas dei uma volta rápida na casa, pensei que daqui a pouco as mensagens começariam a chegar. Tomei os remédios pra dormir, coloquei mais uma série e, depois do primeiro episódio, dormi e acordei por volta das 17h. Talvez amanhã aumente a dose pra ver se chego até 20h. 

É, eu definitivamente devia regular meu sono.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Borrão


Um borrão, 
é a única forma de definir os últimos dias. 

Indo dormir tarde, 
acordando no fim da manhã 
e tomando remédio pra dormir de novo 
e só acordar quando fosse noite novamente. 

A ideia de ver o mundo me assustava. 
Aterrorizava. 
Não me lembro de quase nada. 

E então passou um dia, 
e outro, 
e outro... 

E ainda estava lá. 

Fui deixando uma mensagem para depois, 
e depois, 
e depois...  

Ainda estava lá. 

O assunto havia caducado, 
e eu ainda não tinha resposta. 

Apenas abria os olhos e, 
se ainda fosse dia, 
voltava a dormir, 
ignorando o barulho ao meu redor. 

Quando o sol começava a surgir, 
depois de uma noite inteira, 
eu me isolava novamente. 

O ar do quarto foi ficando pesado, 
já cheirava mofo e suor, 
mesmo me incomodando não conseguia fazer nada. 

Meu corpo inteiro dói, 
dói muito, 
por ficar tanto tempo deitado. 

Meu cabelo está oleoso 
e a pele ressecada do frio, 
mas eu não sinto frio. 

Me olho no espelho algumas vezes, 
mas não sei o que é isso que me encara de volta. 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Um após o outro


Deitei, rolei de um lado pro outro
nada de sono.
A música baixinha, uma seleção de faixas da Kokia,
se combinava com a chuva lá fora,
mas mesmo assim não conseguia dormir.

Levantei algumas vezes,
fui ao banheiro, 
meu cabelo está bonito.
Fico com essa impressão quando lavo,
depois de alguns dias sem conseguir tomar banho.

Droga!
Falando como se eu fosse um inválido.

Decidi levantar de uma vez e ir assistir, 
afinal não consigo fazer isso durante o dia mesmo.

Não tenho conseguido fazer nada. 
Apenas passo os dias, um após o outro, esperando pela noite,
quando o silêncio me concede alguns instantes de paz. 

terça-feira, 30 de junho de 2026

Um dia fechado


Não gosto muito de futebol, 
mas esse clima de Copa do Mundo não é ruim. 
Me lembro de ter torcido bastante nos últimos anos. 
Posso não gritar e pular igual a todos mas me divirto e sim, 
também torço, 
fico ansioso, 
faço parte da festa, 
de algum jeito.
Mas esse ano tá diferente. 
É uma época ruim pra um episódio depressivo. 
Hoje a família se reuniu aqui em casa. 
Eu me tranquei no quarto. 

Ninguém me viu. 

Não queria que me vissem assim: 
estou há dias sem tomar banho, 
me sinto ainda mais gordo, 
rosto inchado... 
E fiquei rolando na cama 
enquanto ouvia os gritos de comemoração, 
a ansiedade crescente em cada lance, 
os comentários técnicos sobre esse ou aquele jogador, 
e eu só via o teto fosco do meu quarto, 
a chuva caindo o dia todo lá fora. 
Fiquei com fome e queria ir ao banheiro, 
mas me obriguei a voltar a dormir.

Fui dormir de madrugada 
porque me pediram pra escrever uma nota de falecimento, 
não conhecia o senhor. 
Hoje de manhã me pediram outro anúncio 
sobre a mudança no horário de funcionamento de um lugar 
por causa do jogo, 
depois me pediram uns formulários de compras de camisetas, 
mas não sei se entendi direito. 
Talvez esteja com sono ainda, 
ou realmente ficando lerdo. 

Quero assistir a segunda temporada 
de O Último Mestre do Ar 
que já estreou há alguns dias, 
preciso terminar isso logo, 
agora os parentes foram embora. 

Resolvi fazer um café 
pra tomar enquanto terminava os tais formulários e, 
assim, estar mais disposto quando for assistir. 
Enviei pra responsável esperando respostas. 

Percebi que o café esfriou. 

Agora consigo ouvir a chuva caindo lá fora. 

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Quanta história numa folha de chá

Be my green tea in the morning,
Be my sugar honey.
You're just so great, I wonder, girl,
I wonder why you love me.
It's so lovely, can't complain.
One day I'll give you my name,
If you're down...

(Dane Amar)

Lembro que, quando mais novo, sempre detestei a palavra "chá", porque só conseguia pensar no chá de gengibre que tomava sempre que ficava resfriado. E, no clima seco de Brasília, em que a mucosa sempre ficava ressecada, isso acontecia muito, e eu detestava porque sempre descia queimando.

Depois de mais velho, recentemente mesmo, comecei a gostar de alguns chás em específico, como erva-doce e camomila porque, nas constantes crises alérgicas, eles acabam se tornando um momento quentinho, e me acalmam, já que sempre fico muito irritado nesses dias. Quando tomo junto com algum remédio pra dor, inclusive me ajudam a suportar o suficiente para continuar trabalhando, por exemplo, já que minhas crises são bem fortes e, mesmo depois de muitos anos de tratamento, não raras vezes eu preciso ir ao hospital.

Não pensava que chegaria uma época em que faria tanta questão de chás assim. Hoje tomo quase todos os dias, e nem sei bem como as coisas ficaram assim, mas eles se tornaram a minha paixão. Nunca imaginei que um hábito pudesse mudar tão silenciosamente uma rotina. Não houve um dia específico em que eu decidi gostar de chá. Foi acontecendo enquanto outras coisas deixavam de fazer sentido. Quando percebi, aqueles poucos minutos esperando a água ferver já tinham se tornado parte do cuidado que eu precisava ter comigo. Ver a água mudar de cor, os aromas tomando conta de um pequeno espaço perto de mim, o calor da caneca em minhas mãos... Comecei com os chás em saquinho, claro, antes de conhecer alguns mais elaborados e, com isso, ir criando esses momentos especiais. Hoje eles fazem parte da minha vida, em todos os horários, e possuem um significado importante pra mim. 

Como, na mesma época, comecei a tomar mais café no trabalho, especialmente no inverno, pra garantir um pouquinho mais de energia, logo uma amiga me falou do Chá-preto e Chá-verde e, pra começo de conversa, aprendi a diferença de escrever com ou sem hífen. Ambas as formas referem-se à mesma infusão feita com as folhas da Camellia sinensis. A variação ocorre unicamente por razões ortográficas e gramaticais na língua portuguesa. Escrito separadamente, trata-se de um substantivo (chá) acompanhado de um adjetivo (preto) que indica a sua cor ou tipo. É a forma ortográfica mais comum e natural no dia a dia. Chá-preto (com hífen), transforma as duas palavras em um substantivo composto, que designa especificamente o nome de uma variedade de planta e de bebida. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) registra esta versão para oficializar a designação técnica da erva. 

Talvez eu tenha gostado justamente disso. Descobrir que até uma bebida tão comum escondia pequenas histórias, regras, tradições e geografias inteiras. Cada xícara parecia abrir uma porta para algum lugar distante. Uma série recente, A Winter Sun Wakes the Wind in Spring Hills' Dream, me mostrou a beleza da preparação dessa tradição, do plantio até sua preparação. 

Voltando ao chá, passei então a variar... Um dia, ou num determinado momento, tomava uma das variações de café da máquina do trabalho, outro dia tomava chá... Aprendi a ir preparando mais forte ou mais suave e, principalmente, a ir apreciando o sabor, o aroma... Também tive outras lições, como quando preparei um chá verde forte demais e acabei com uma baita crise de ansiedade. Se tratava da erva pura, vinda diretamente da China, presente de uma amiga, e eu não sabia que seria tão forte, já que estava habituado às versões dos mercados daqui. E foi aí que eu comecei a buscar mais conhecimento, e produtos, de locais especializados. Foi curioso perceber que até o excesso podia ensinar alguma coisa. Passei a entender que chá não era apenas uma bebida quente. Existia uma delicadeza na preparação, um ritmo próprio que eu ainda precisava aprender. Alguns acabaram ficando ligados a determinadas noites, músicas e estações do ano, como se cada aroma soubesse exatamente quando deveria aparecer.

Um blend que me conquistou desde o primeiro momento foi o Xmas Eve. Chá misto de chá preto, cenoura, uva e rosa mosqueta. Ainda hoje um dos meus favoritos. Ele é puro aconchego porque combina a doçura da baunilha com o toque delicado das nozes, criando uma bebida envolvente e cheia de personalidade. A cenoura e a rosa mosqueta complementam a mistura, deixando-a com uma textura aveludada e um aroma irresistivelmente docinho. É aquele chá perfeito para momentos especiais. Cada gole traz uma sensação acolhedora, como um encontro com amigos em uma tarde fria ou um instante de paz no meio do dia. A cenoura e a rosa mosqueta dão corpo, enquanto a baunilha e as nozes garantem um sabor doce e delicado. Gosto dele sempre à noite, vendo alguma série, e fico com a caneca fumegante nas mãos mãos sentindo o aroma, como se me abraçasse, tornando aquele momento, o MEU momento. Percebi então que não era exatamente o sabor que eu guardava na memória. Era a atmosfera inteira. A caneca quente, a luz mais baixa, a série começando, o inverno lá fora. O chá acabava se tornando uma espécie de moldura para pequenas felicidades.

A experiência do chá verde me conquistou ainda mais quando experimentei uma combinação chamada Strawberry Champagne. Um misto de chá verde, chá branco, jasmim, morango e rosa mosqueta com pimenta-rosa. O doce do morango, combinado à rosa mosqueta e à pimenta-rosa, completam a textura aveludada deste chá perfeito para ser degustado nas melhores companhias. Esse é meu coringa quando preciso de uma boa dose de disposição, ao começar uma noite de maratona, por exemplo. O aroma dele é simplesmente hipnotizante, e tem o poder de me trazer de volta ao momento. É como um convite para experimentar o agora! Engraçado como alguns aromas parecem reorganizar o tempo. Existem dias em que bastam alguns segundos respirando o vapor para lembrar que nem toda noite precisa ser vencida correndo.

Depois disso vieram os chás que pareciam carregar séculos dentro das próprias folhas. Não eram apenas bebidas; Eu conheci o Puerh, uma das variações mais exclusivas desse mundo. O tão pouco conhecido chá puerh traz consigo uma grande história. Há aproximadamente 2.000 anos, de geração em geração, os agricultores da província chinesa de Yunnan (sudoeste da China) guardam zelosamente o segredo de seu cultivo, e ele só pode ser chamado de puerh se vier especificamente desta região, onde é cuidadosamente produzido. O simples ato de bebê-lo traz uma verdadeira harmonia, ao reunir as pessoas para um chá da tarde, além de transmitir paz interior. Duas combinações dele que me agradaram foram o Bourbon Vanilla e o Belgian Caramel. 

O Bourbon Vanilla é um chá precioso e sem dúvida nenhuma uma obra de arte. Seu aroma de baunilha com sabor levemente adocicado, torna-o a melhor experiência com a tradição do chá puerh. É a definição perfeita de nobreza e tradição. Já o Belgian Caramel traz um aroma ligeiramente caramelizado combinado com a ameixa, trazendo aquela sensação de estar comendo biscoitos em pleno inverno. Esses eu gosto de tomar enquanto escuto música, de preferência num ambiente com pouca luz. Essa combinação, essa atmosfera consegue me fazer esquecer por alguns momentos, seja o barulho lá de fora ou o daqui de dentro, e apenas sentir. Talvez seja justamente isso que procuro quando escrevo também. Não explicar tudo, mas construir uma atmosfera onde alguém possa permanecer por alguns minutos. Sentir os sons, o calor tomando conta, parece um mundo diferente. 

Um chá que eu desconhecia era o Rooibos e, quando experimentei, com a indicação de que era bom tomar antes de dormir, como parte de algum ritual, eu me apaixonei de imediato. O Aspalathus Linearis ou Rooibos, como é conhecido, é uma espécie de arbusto nativo de uma região na África do Sul, e por conta de sua oxidação, o resultado é mais adocicado. A versão que eu tomo contém com rooibos, groselha, abacaxi, mamão, morango e framboesa com aroma de limão e folhas de rosas. A combinação de frutas e flores nesse blend proporciona uma experiência levemente adocicada e aconchegante. Com um aroma e sabor levemente cítrico adocicado que harmoniza com a alegre composição de frutas e flores, prometendo uma experiência marcante e aconchegante para um fim de tarde. Foi quando percebi que eu já não organizava apenas a estante pelos sabores. Começava a organizar os dias. Alguns pediam energia, outros silêncio, outros apenas uma companhia discreta enquanto o mundo seguia fazendo barulho.

Com isso eu fiquei mais próximo das infusões, misturando chás, frutas, flores... Como o Berlin, um blend que combina frutas, como maçã, abacaxi, e hibisco, criando uma infusão vibrante, aromática e naturalmente adocicada, ideal para qualquer momento do dia. As bebidas mais suaves me conquistaram também. De sabor suave e marcante e um aroma que prende a atenção, o Toronto Nights se tornou o meu queridinho do chá branco. O sabor invernal combina perfeitamente com a suavidade da rosa mosqueta e o aroma cítrico da laranja e do capim-limão, se tornando a escolha ideal para aquecer os dias mais frios.

O segundo blend de chá branco foi um mais complexo:chá branco, papaia, maçã, amora e jasmim com aroma de melão, framboesa, baunilha, ameixa e flores de calêndula. A experiência sensorial é única.

Hoje percebo que quase todos os meus blends favoritos têm alguma lembrança presa a eles. Nenhum ganhou espaço apenas pelo sabor. Todos acabaram encontrando um lugar numa estação do ano, numa música, numa conversa ou num daqueles dias em que simplesmente era preciso existir um pouco mais devagar.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Noite ilustrada

Noite de tristeza fabricada. Ou acompanhada. Ou ilustrada. Na ausência do outro, do seu calor no primeiro dia do inverno, fico com o amor e o carinho das histórias de amor do outro lado do mundo. Quando, ao chegar a primavera, as flores finalmente voltaram a abrir-se ao amor depois de tantos anos. A separação do longo inverno deu lugar ao calor e às cores de um novo tempo.

Existe uma honestidade confortável nas histórias. Elas não prometem responder mensagens. Não cancelam encontros. Não desaparecem depois de alguns meses dizendo que precisam "se encontrar". Terminam quando o roteirista decide e, por mais cruel que seja o final, ao menos tiveram a decência de avisar que era ficção. Nem sempre avisam.

Fico feliz com algumas notícias, por exemplo: os atores TeeTee e Por acabaram de anunciar que o nome do seu fandom será VAVA, que significa "estrelas", já que a gente costuma associá-los com as imagens do sol e da lua, então nós ajudaríamos a compor o céu dessa história. Sim, isso me fez feliz. Assim como ficar revendo as apresentações do Perses, com o Pluggy rebolando pro Palm e o Jung. Ou ainda tantos outros exemplos, como o conteúdo dos dois novos ships TopTapMin, de Payback, e InnOngsa, de Edge of Horizon. A beleza deles me faz flutuar.

Talvez seja uma felicidade ridícula. Mas as melhores costumam ser. Enquanto isso, o mundo adulto continua produzindo planilhas, boletos, reuniões e relacionamentos que terminam por mensagens compostas com a criatividade de um aviso de vencimento bancário.

Fugaz, eu sei, mas é infinitamente melhor que as pessoas que me mandam mensagem: "pode nos ajudar?" ou áudios de mais de um minuto que eu nem sei se vou ouvir. Dormi ontem o dia todo e hoje deve ser igual. Aproveitar o frescor dos primeiros dias do inverno. Dormir. Acordar mais tarde, hoje tem o último episódio de Magic Move, a história foi média mas os protagonistas são lindos, valeu, vou acordar pra isso e nada mais.

Há quem acorde cedo para perseguir grandes sonhos. Eu acordo para assistir homens bonitos se apaixonando em idiomas que mal compreendo. E, sinceramente, nada vai me convencer de que a primeira opção seja mais sensata.

Fiquei feliz ao ver um antigo colega se assumir. Temos a mesma idade, mas só agora ele conseguiu dizer isso em voz alta, e as palavras embargadas pelo choro me mostram o quanto deve ter sido difícil para ele. O medo da rejeição, as pessoas que se distanciaram. Mas, ao mesmo tempo, suas palavras continham um suspiro de alívio. A figura dele naquele vídeo era mais leve, ele estava se livrando de amarras. Fiquei feliz.

Algumas pessoas passam metade da vida tentando sair de uma prisão construída por expectativas alheias. Quando finalmente escapam, descobrem que o mundo continua sendo o mundo. Mas ao menos a cela ficou para trás.

Imagino como deve ter sido o processo de aceitação dele. Quem finalmente o conquistou e lhe deu a segurança para fazer o que ele fez... É, ele foi corajoso, e espero que possa amar, que ainda exista amor para ele.

Talvez ainda exista mesmo. O amor tem um hábito irritante de reaparecer onde jurávamos ter visto apenas ruínas. Como ervas daninhas brotando entre rachaduras de concreto. Uma insistência quase ofensiva. Irritante. Já faz algum tempo que não bebo, porque não interage bem com as medicações (ignore o fato de eu ser viciado em tomar quatro vezes mais remédio do que foi prescrito), mas acho que hoje seria uma boa noite pra um porre daqueles.

Aqui eu, por outro lado, demonstro sinais claros do cansaço e da descrença total no amor. Meus olhos não brilham com nenhuma emoção, apenas aquelas fabricadas, assistidas. Não tenho tempo nem paciência para joguinhos de desinteresse ou, o que é ainda mais provável, desinteresse mesmo. As mensagens não respondidas são isso mesmo.

Não existe mistério escondido atrás delas. Nenhum romance epistolar interrompido pelo destino. Nenhuma paixão secreta esperando o momento certo. Às vezes uma mensagem não respondida é apenas uma mensagem não respondida. A humanidade adora transformar silêncio em narrativa porque a alternativa é admitir que quase ninguém está pensando em nós tanto quanto imaginamos.

E talvez seja isso que o inverno ensine melhor do que qualquer estação: as árvores não fingem flores quando não possuem flores. Permanecem nuas. Esperam. Sem discursos motivacionais. Sem promessas. Apenas atravessam o frio.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Confissão e continuação

Sei que tentei enfeitar demais. Como se as palavras pudessem pintar com belas cores, as dores daqueles cem amores, que eu via partir sem mim. Na verdade me sentia sozinho, sim, sem enfeites, sozinho. E via as fotos das pessoas sorrindo juntas, e então lembrava do meu corpo pesado demais pra se mover, uma semana inteira deitado, carne ferida, deprimido demais para me mexer. E sabia que a culpa não era exatamente a palavra certa aqui.

Isso porque há aquele primeiro ímpeto: o de jogar a culpa no outro. O outro me deixou, me abandonou, me esqueceu. Mas, na verdade, não foi bem assim. Eu escolhi não ir, mesmo se não estivesse em meio a um episódio depressivo não iria. Então não teve culpado aqui, apenas uma confluência de eventos. Fui à missa e depois voltei pra casa, com uma chuva gelada em mim enquanto observava as casas com luzes apagadas, as pessoas aqui dormem cedo, trabalham cedo. Sem enfeites: eu estava sozinho.

As pessoas aqui dormem cedo.
As luzes apagam uma após a outra.
Os despertadores tocarão antes do amanhecer.
Há uma disciplina silenciosa nas casas vizinhas.
Enquanto isso, continuo acordado.
Meu corpo desconhece os horários do mundo.

A cidade recolhia suas xícaras, apagava suas televisões, beijava os filhos na testa.
Eu media a madrugada em comprimidos e insônia.

Também voltei à psiquiatra, mas ajustes de medicação sempre demoram. Tenho tentado não sentir culpa com isso também. Li em alguma rede social que, se algum atleta machuca o joelho, ninguém questiona o longo período de recuperação que ele tem até voltar, isso se voltar a ser como antes. Mas, em se tratando da saúde mental, é esperado que alguns dias sejam suficiente. Mas olhe só, fiquei quatro meses afastado, depois me demiti, e isso já faz um ano. 

Quatro meses é tempo suficiente para uma criança aprender a sustentar a própria cabeça.
Quatro meses é tempo suficiente para as estações mudarem de roupa.
Quatro meses não foram suficientes para que eu aprendesse a habitar meu próprio corpo novamente.

Um ano.
As pessoas dizem "um ano" com a mesma facilidade com que dizem "bom dia".
Um ano.
Doze meses.
Cinquenta e duas semanas.
Trezentas e sessenta e cinco manhãs tentando descobrir qual versão de mim acordaria naquele dia.

Mas eu não voltei ao normal. Me chamaram para ajudar na abertura de uma exposição, e isso provavelmente me renderia um emprego: não consegui sair da cama por dias. Sem enfeites: eu não saí da cama.

Não sei se voltarei a ser como antes. Até porque foi o antes que me deixou como estou agora. Foi o fluxo exagerado de trabalho que não era meu, tudo que aceitei sem precisar, cobrindo a função de várias pessoas ao invés de só dizer que não podia fazer isso. Se antes eu não conseguia negar por medo, agora nego por falta de saúde. Sem enfeites: tive medo. 

Vou entoando, quase ao modo de salmodia: 

Não sei se quero voltar ao que era antes.
Foi o antes que me trouxe até aqui.

Dizem para voltar ao normal.
Mas foi o normal que me adoeceu.

Talvez a cura não seja retorno.
Talvez seja deserção.

Não quero voltar a ser quem ignorava o próprio cansaço.
Não quero voltar a ser amado apenas pela minha utilidade.

Não quero voltar a chamar de força aquilo que era abandono de mim mesmo.

Então talvez não tenha um antes para voltar, mas algo a ser construído a partir daquilo que ficou. Como canta Oswaldo Montenegro "onde você ainda se reconhece, na foto passada ou no espelho de agora?" Durante muito tempo procurei a resposta. Hoje suspeito que ela habite justamente o intervalo entre os dois. Nem a fotografia de quem eu fui. Nem o espelho de quem me tornei. Mas a mão trêmula que tenta aproximá-los sem saber qual deles deve sobreviver.

Então as coisas estão assim. Não me aproximo muito do outro, porque acabo me isolando, quando tento, preciso enfrentar um monte de coisa dentro de mim antes de falar a primeira palavra... E vejo-o sorrindo, sorrindo, e queria sorrir com ele... Sair da cama e sorrir um pouco.

Queria sair da cama.
Abrir a janela.
Fazer café.
Responder uma mensagem sem ensaiá-la por horas.
Caminhar até a Missa sem sentir que atravesso um deserto.
Sorrir um pouco.
Só isso.


Há épocas da vida em que sobreviver deixa de ser uma abstração heroica e passa a significar tarefas humildes.

Escovar os dentes.
Trocar os lençóis.
Permanecer.

Sei que tentei enfeitar demais.
Talvez porque a beleza seja uma forma de pedir desculpas pela própria tristeza.
Mas a verdade é mais simples.
Tenho medo.
Estou cansado.

Ainda não voltei.
Talvez nunca volte.

E, mesmo assim, nesta madrugada em que as casas ao redor já apagaram suas luzes, escrevo.
Não para provar a força que não tenho.
Não para transformar dor em lição.

Escrevo porque esta página é uma das poucas coisas que consegui alcançar hoje.
E, por enquanto, isso precisa bastar.

"Se pudesse desejar algo para mim, não desejaria riqueza nem poder, mas a paixão da possibilidade; desejaria apenas um olho que, eternamente jovem, ardesse de desejo de ver a possibilidade."  (Kierkegaard)

domingo, 14 de junho de 2026

Uma janela acesa


Cantem sobre o homem que venceu exércitos.
Não os de ferro.
Os de segunda-feira.
Cantem sobre o homem que enfrentou monstros.
Não dragões.
Boletos.
Hospitais.
Quartos mofados.
O silêncio após o abandono.
Cantem sobre o homem que perdeu tudo.
E compareceu ao trabalho na manhã seguinte.

Um homem se ergue. Você escolhe o cenário. Seja um campo de guerra sangrento, com todos os seus companheiros mortos ao seu lado, membros decepados por espadas, flechas e lanças e então, ao olhar ao redor, vê que apenas seu inimigo permanece de pé. E o homem se ergue, em seus olhos a dor. Ele avança. 

Ou, num maldito dia qualquer um jovem abre os olhos, e fita as paredes mofadas com tinta descascando do pequeno quarto que ele aluga com o que sobra do dinheiro que ele ganha em vários empregos horríveis. Todo o resto vai para o pagamento do seu chefe, um agiota desprezível, mas que lhe emprestou o dinheiro para o tratamento de câncer da mãe. Ela não resistiu. E o homem se ergue, em seus olhos a dor.

Sequer ficou sabendo que seu outro filho morrera pouco tempo antes, mas ela já nem conseguia externalizar estranheza. A doença a destruiu a tal ponto que tudo que ela sentia eram pequenos estímulos, e já não se pode dizer que conseguia interpretá-los. Também não sentia dor mas, cada vez que olhava nos olhos do filho mais velho, via apenas isso, dor. E o homem se ergue, em seus olhos a dor. O rapaz voltava para casa e via apartamentos iluminados. Atrás de cada janela, uma vida inacessível. Não sei por que escrevo isto.

Estava sozinha no mundo, isolada pela doença. Seu filho? Isolado pela dor. Sem tempo para nada além de uma vida de trabalho, e ele só se obrigava a sobreviver porque sabia que esse era o desejo de sua mãe. Aquela criatura frágil, ligada a esse mundo por um fiapo invisível de vida, o obrigava a se levantar de madrugada, carregar incontáveis caixas, fazer entregas para pessoas que sequer o olhavam como humano, não o reconheciam. E, a cada manhã, o homem se ergue, em seus olhos a dor. 

Sua mãe morria. E, do lado de fora, o vendedor de frutas negociava maçãs. Alguém chegava em casa com um bolo para comemorar o aniversário da filha. Eram cinco da tarde quando ligaram para que ele fosse ao hospital uma última vez. Alguns momentos antes diziam em tom monótono: hora da morte... Ele nunca prestou atenção aos número exatos.

Fazia vários outros trabalhos: restaurante de macarrão, cobrava dívidas, limpava banheiros.  Lavava pratos como quem recolhe escudos partidos. Cobrava dívidas como quem conta cadáveres. Esfregava banheiros enquanto o ácido lhe devorava as unhas. E voltava pra casa suado e sujo, exausto demais para um banho sequer. E, na outra manhã, o homem se ergue, em seus olhos a dor. Não sei por que escrevo isto. Talvez porque alguém precise registrar que ele existiu. Enquanto lavava pratos, as janelas dos prédios se apagavam uma a uma. 

Em algum momento ele encontrou um namorado. Um rapaz delicado, sonhador, de aparência angelical, e que viu nele não uma sombra de ser humano, mas um companheiro fiel. Ficaram juntos por um bom tempo. Com ele, conseguia sorrir, e até diminuiu um pouco a carga de trabalho para poder aproveitar mais de sua companhia. Mas ele também não ficou muito tempo. Alguém com aquela aparência logo perceberia que merece mais da vida. O rapaz possuía a beleza imprudente das coisas que acreditam no amanhã. Ao lado dele, o jovem sem nome reaprendeu a rir sem pedir desculpas. Mas quem nasceu olhando para o horizonte dificilmente aprende a amar quem vive soterrado. E, numa manhã qualquer, restou apenas a marca do outro travesseiro sobre o lençol. Ainda assim, na outra manhã, o homem se ergue, em seus olhos a dor. 

O amante partiu. O ônibus das seis passou exatamente no horário aquele dia. Também eu conheci manhãs semelhantes. Às cinco da tarde daquele dia,  quando o amante já não estava ali, aquele quarto pareceu de novo velho, mofado e descascado. Perdeu o sono. Levantou-se de novo às cinco da manhã. Observou uma única janela acesa do outro lado da rua. Perguntou-se quem já havia acordado. Agora também são cinco da manhã. Esta também é apenas uma janela acesa. 

O nosso jovem sem nome se fechou ainda mais. Vivia num silêncio profundo, esqueceu o som de sua própria voz. E ninguém sequer o olhava por tempo o bastante para perceber que o silêncio era apenas a superfície de um oceano de águas violentas: como alguém que descansa sozinho num campo de batalha ensanguentado, sem saber se haverá terra para onde retornar. Escrevo enquanto a madrugada avança e os vizinhos dormem.

Não há testemunhas além desta página.

Ninguém percebe.

Ninguém percebia.
Ninguém percebia que aquele rapaz havia sobrevivido à própria biografia.
Que enterrara o irmão.
Que assistira a mãe desaparecer antes da morte.
Que negociara com agiotas.
Que vendera os próprios dias por salários insuficientes.
Que amara.
Que perdera.
Ninguém percebia.
Porque continuava.
Porque entregava trocos corretos.
Porque baixava os olhos.
Porque chegava no horário.
Porque não chorava no ônibus. Nem em outro lugar.
Porque o mundo exige dos sobreviventes a delicadeza de não perturbarem a paisagem.
E o homem se ergue.
E veste a própria pele.
E lava o próprio rosto.
E engole o gosto metálico da madrugada.
E o homem se ergue.
Não porque a esperança o visite.
Não porque a vida tenha melhorado.
Não porque exista recompensa.
Ergue-se porque ainda respira.
E respirar, mesmo quando até o ar parece querer sua morte, 
é a forma mais feroz de resistência.

Enquanto escrevo estas linhas, alguém ri num bar.
Alguém beija ou fode pela primeira vez.
Alguém escolhe a cor das cortinas da casa nova.
O mundo prossegue com sua espantosa falta de cerimônia.

A cidade adormeceu há horas.
Há roupas esquecidas nos varais.
Há copos por lavar nas pias.
Há crianças sonhando.
Há amantes respirando no mesmo ritmo.
Há viúvos despertos diante da televisão acesa.
Há quem reze.
Há quem amaldiçoe.
E eu escrevo.

A Linguagem Corrompida do Amor

Quantos sentimentos brutalmente conflitantes podem caber num relacionamento? Ou melhor, como podemos chamar um relacionamento tão repleto de dores, conflitos, encontros e desencontros?

Há amores que cabem em palavras simples: afeto, desejo, companhia. Outros exigem vocabulários inteiros e, ainda assim, permanecem indecifráveis. Talvez porque alguns sentimentos nasçam já contaminados pela perda. Talvez porque amar alguém seja, às vezes, aprender a reconhecer o rosto da ternura e da ruína refletidos no mesmo espelho.

Que as relações humanas, principalmente aquelas que carregam uma força afetiva considerável, são demasiado complexas, bem, isso já é ponto pacífico. Mas qual o limite do suportável para amar mesmo quando o amor causa tanta dor que praticamente reduz os amantes a fantasmas, sem vida própria senão a de ficarem perseguindo o objeto de seu amor?

Em que momento a devoção deixa de ser cuidado e passa a ser fome? Em que instante o desejo de permanecer ao lado do outro se converte em obsessão pela sua presença, como se o simples fato de existir longe fosse uma afronta insuportável? Talvez não haja resposta. Talvez existam apenas pessoas feridas tentando tocar umas às outras com as mãos erradas.

Dois rapazes se apaixonaram na adolescência, e foram felizes naqueles anos que ficaram juntos, inclusive juraram nunca tirar as alianças que usavam discretamente como símbolo do seu amor. Mas o destino os separou de uma forma brutal: a família não aceitou, os esmagou. A sociedade os condenou. E ambos, condenados a manter distância, viveram anos apenas esperando pelo milagre do reencontro.

Imagino aquelas alianças escondidas sob os punhos das camisas, frias contra a pele, pequenas luas metálicas testemunhando promessas que ninguém mais podia ouvir. Enquanto o mundo exigia silêncio, elas continuavam circulando os dedos como quem repete uma oração. Os anos passaram sobre eles como poeira sobre fotografias esquecidas, mas certas promessas envelhecem sem perder o brilho.

Mas este também trouxe consigo maus agouros. Ver novamente a pessoa amada, e logo depois ver tudo desmoronar e a culpa recair no sentimento há anos cultivado. De novo dor, culpa, medo, e ainda assim o sentimento que não diminui. E então veio o pior: o amor que começa a machucar por não saber mais como se mostrar. Tanto sofreu que já não sabia amar sem fazer sofrer

Existe algo profundamente trágico em descobrir que a linguagem do afeto foi corrompida pela própria sobrevivência. Como animais acuados, acostumados a esperar o golpe antes do carinho, eles desaprenderam a delicadeza. O amor permaneceu intacto em sua intensidade, mas mutilado em sua expressão. Ainda pulsava. Apenas já não sabia reconhecer as próprias mãos.

Chegamos ao absurdo dos horrores: o amante que sequestra o amado para torturá-lo com a visão de outros amantes. Os olhares frios, o tratamento sub-humano. Mesmo sabendo que isso era tudo uma imitação provocada pela dor de tantas separações.

E é justamente aqui que o coração se rebela contra qualquer romantização fácil. Há gestos que não podem ser absolvidos pela beleza do sentimento que os originou. O sofrimento explica, mas não redime. Compreender não é o mesmo que perdoar. Ainda assim, a tragédia humana talvez resida nessa capacidade terrível de ferir precisamente aquilo que mais desejamos preservar.

Em verdade, quando o amado sofreu risco, o outro não poupou lágrimas que declaravam seu amor desesperado, sem ver saída. O despertar foi a luz que bastava para reacender uma esperança ainda incompreendida.

Há despertares que não devolvem apenas a consciência, mas a possibilidade de um futuro. O simples abrir dos olhos torna-se milagre suficiente para reorganizar universos inteiros. Depois de tantas tempestades, respirar o mesmo ar já parecia uma forma de graça.

Os dias passaram em silêncio, mas eles não se distanciavam. Dormiam juntos, mas sem sequer dar as mãos.

Entre eles havia um território devastado. Não a ausência do amor, mas os escombros deixados por tudo aquilo que o amor, mal conduzido, havia destruído. E reconstruir exige uma coragem menos espetacular do que morrer pelo outro: exige permanecer. Exige acordar no dia seguinte e escolher, outra vez, não fugir.

A presença era necessária, mas eles já não sabiam mais como amar sem machucar um ao outro e todos ao redor. Mas o que realmente importa, é que o amor ainda permanecia, mesmo depois de tantos desencontros.

Talvez essa seja a pergunta que permanece ecoando depois que a história termina: o que fazemos com os amores que sobrevivem a tudo, inclusive às suas piores versões? Não sei se existe beleza nisso ou apenas tristeza. Talvez exista humanidade. Porque alguns sentimentos não terminam quando deveriam; persistem, teimosos e contraditórios, pedindo que aprendamos, tarde demais, a distinguir entrega de destruição. E talvez amar também seja isso: reconhecer que a permanência, sozinha, nunca bastará.

sábado, 13 de junho de 2026

Depois de Quatrocentos Invernos

Não quero ver nada do dia de hoje. Quero dormir e acordar só quando todos estiverem dormindo, e assistir minhas séries quieto e em silêncio. Não quero nem vou responder mensagens. Só quero bolo e chá quente. Vou me entupir de tudo que achar pela frente e que faça dormir. Não quero. Não quero. Mas, ainda assim, de algum modo o mundo entra por uma pequena fresta da janela, trazendo luz e aquela brisa salgada do mar. 

Difícil descrever a força daquele momento, passado e presente se unindo por um mesmo fio inquebrável, um sentimento capaz de atravessar gerações. 

O brilho de antes encontra a brisa de agora. A dor do medo e da rejeição dá lugar ao que há muito fora escondido, e que precisou atravessar tanto para enfim ver o sol. Aqueles dois estavam ali, finalmente juntos, na delicadeza de um toque de mãos e de um beijo tímido. 

E eu assisto isso num misto profundo de confusão. Porque o amor deles é lindo. E ver isso faz com que as contradições dentro de mim rasguem brutalmente cada fibra do meu coração, derramando o amor e a rejeição que eu mesmo vivi.

Transcorridos muitos séculos desde a concepção daquele amor, finalmente se deram a conhecer aqueles corpos. Altivo, marmóreo, ainda mais belo que o torso arcaico de Apolo, ou talvez aquele belo rosto seja a figura finalmente revelada daquele deus. O outro, delicado como uma fada, enquanto seu amante delicadamente sentia o perfume mais nobre que o das rosas ao se aproximar de sua pele. Cada pequeno gemido ou arfar da respiração é uma declaração perdida nas areias do tempo.

Seu amor esperou. Esperou. Quatrocentos anos. Lágrimas, traições, o vazio de tantos séculos, mas enfim prosperou, num sorriso amigo e um abraço apertado. Talvez seja isso o que mais me fere: eu não invejo apenas o amor deles. Invejo a certeza. A possibilidade de olhar para alguém e não hesitar diante do próprio sentimento. Invejo a coragem tranquila de estender a mão e encontrá-la acolhida pela mão do outro. Não os quatrocentos anos de espera, nem as tragédias atravessadas, mas a convicção silenciosa de que esperar ainda fazia sentido. 

E por isso o meu coração protesta: enquanto eu grito já não crer no amor, é como se a força inconteste do tempo me dissesse que sim, ele existe. 

É como tentar gritar mais alto que as ondas do mar. E por isso eu me calo, e coloco meus braços ao meu redor, me abraçando, porque dói, dói tanto que eu não consigo conter minhas lágrimas, que se derramam por meu rosto e se unem àquelas águas ancestrais. Estou na praia sozinho. Não há braços ao meu redor, não há amor que ultrapassou gerações, nem o perfume da pele apaixonada, apenas o cheiro da maresia. Mas o mar não me escuta. Continua a bradar em nome desse amor. 

A tela escurece e os créditos sobem, indiferentes ao tumulto que deixaram para trás. Alguém desliga as câmeras, desmonta cenários, volta para casa. Mas aquilo que despertaram permanece sentado ao meu lado. Descubro, com uma irritação quase infantil, que a ficção tem o péssimo hábito de continuar vivendo dentro de nós depois que termina. Carregamos seus fantasmas para a cozinha, para a cama desarrumada, para o primeiro gole de chá já morno.

E eu já não sei mais em que acreditar.

Ainda assim, permaneço diante do mar. Talvez porque uma parte de mim deseje estar errada. Talvez porque, apesar de tudo o que perdi e de tudo o que nego em voz alta, exista um silêncio antigo dentro do peito que ainda escuta as ondas como quem espera ouvir o próprio nome.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Guia Prático para Sofrer por Antecipação

"Este momento ansioso e pensativo sentado sozinho,

Me parece que há outros homens em outras terras ansiosos e pensativos,

Me parece que posso examinar e vê-los na Alemanha, Itália, França, Espanha,

Ou longe, bem longe, na China, ou na Rússia ou Japão, falando outros dialetos,

E me parece que se pudesse conhecê-los eu ficaria apegado a eles como faço com homens em minhas próprias terras."

(Walt Whitman)

O que eu diria a ele? Ainda que tivesse coragem, ainda que puxasse assunto, o que diria a ele? Já se passou quase uma semana, e nada mais foi dito. Mas sei que ele continua lá, em algum lugar, porque meus amigos dão conta dele. 

Eu passei toda aquela noite fazendo-o se aproximar. 

Mas os outros já tinham feito o mesmo. 

E ele prefere falar de futebol, ou sei lá que assunto os héteros conversam. Ele se aproximou justamente daqueles que eu não queria que se aproximasse. Porque eles são fechados demais em si mesmos. Porque são cegos pelas meninas toscas, com o intelecto de uma colher de chá, e por essa comunidades mentirosas. 

E eu achei que ele pudesse ser diferente. 

Achei mesmo. 

Enquanto estávamos sentados ouvindo música e tentando adivinhar o nome dos filmes em que elas tocavam. Achei que ele estava se divertindo. 

Mas, desde então, silêncio. 

Como se aquele dia sequer tivesse existido. Ele pode estar esperando que eu chame? Por timidez? Mas e todo o esforço daquela noite? Ou ele simplesmente não se interessou e eu fui apenas um incômodo a noite toda, mesmo ele tendo ficado até o fim. Mas eu não quero chamar e repetir, pela enésima vez, e me tornar uma perturbação. 

Sabe o que mais me chama atenção nisso tudo? Não é que eu esteja pensando nele depois de uma semana. Isso é perfeitamente humano. O que me chama atenção é que, na ausência de qualquer informação, eu já escrevi quinze versões da história, e em quase todas eu ocupo o pior papel possível.

O inconveniente.

O exagerado.

O sujeito que não percebeu os sinais.

A perturbação que insiste.

Aquele que interpretou mal uma noite comum.

Mas existe uma décima sexta versão, e ela parece ser a única que eu não consigo levar realmente a sério.

A de que talvez ele tenha gostado de estar ali.

Talvez tenha achado você interessante.

Talvez seja tímido.

Talvez esteja acostumado a circular justamente naquele grupo que considero superficial porque é o grupo que ele tem. As pessoas raramente escolhem seus círculos sociais com o refinamento de um curador de biblioteca. Muitas vezes elas apenas permanecem onde aprenderam a existir.

Escrevo sobre os ciúmes de outros também terem se aproximado dele. Mas isso não invalida o que houve entre vocês. Aproximações não são propriedade privada. Você não perde o valor de uma conversa porque outra pessoa também conseguiu fazê-lo rir. O afeto humano não é uma vaga de emprego com um único candidato aprovado. Felizmente. Já basta o mercado de trabalho para transformar tudo em competição cruel.

Outra coisa.

Reli a parte em que digo que ele prefere falar de futebol e "sei lá que assunto os héteros conversam". E eu sorri um pouco ao ler isso, porque é uma frase tão impregnada de frustração que quase dá para ouvir o suspiro no final. 

Mas eu devia ter cuidado...

Eu não conheço esse rapaz.

Conheço fragmentos dele.

Uma noite ouvindo músicas e adivinhando filmes.

O fato de ele conversar sobre futebol.

O fato de circular com pessoas que você não suporta.

E, a partir disso, estou tentando decidir se ele é profundo ou banal, diferente ou igual aos outros, possibilidade ou ameaça. Ou, pior ainda, o mais sombrio dos pesadelos: indeiferente.

Talvez ele seja um pouco de tudo isso.

Talvez seja só um rapaz simpático tentando encontrar seu lugar na paróquia.

Existe também a insegurança mais dolorosa, que eu acho que está escondida por baixo de todas as outras.

Não é exatamente: "E se ele não gostar de mim?"

É:

"E se eu me expuser e descobrir, mais uma vez, que interpretei errado? E se eu for demais? E se eu for ridículo?"

Porque você já experimentou isso antes. A repetição cria memória. O corpo aprende a antecipar rejeições para tentar sobreviver a elas. Então você tenta resolver a equação antes de ela existir.

Mas relações humanas não são equações. São improvisos mal ensaiados.

A verdade é que eu não sei;

Eu não sei se ele espera uma mensagem.

Não sei se ele se interessou.

Não sei se me achou intenso demais.

Não sei se ficou nervoso.

Não sei sequer se ele percebeu que aquela noite teve o peso que teve para mim.

E, diante desse não saber, há apenas duas opções.

A primeira é não fazer nada. Proteger. Guardar a dignidade intacta. Continuar imaginando, daqui a seis meses, o que teria acontecido se tivesse mandado uma mensagem simples.

A segunda é correr um risco pequeno, proporcional à realidade. Não uma declaração dramática digna de um romance russo escrito por alguém com febre. Só algo humano.

"Oi, lembrei daquela noite ouvindo música e tentando adivinhar os filmes. Foi divertido. Como você está?"

É só isso.

Não exige reciprocidade romântica.

Não exige resposta imediata.

Não transforma ninguém em protagonista de uma tragédia grega.

E, se a conversa morrer depois disso, você terá uma dor diferente da fantasia. Menor, mais concreta. Não a dor infinita do "e se?", mas a tristeza comum das coisas que não floresceram.

Há ainda uma terceira possibilidade, mais silenciosa.

Eu estou carente de ser visto. Não apenas desejado, mas visto. Com toda a estranheza, meu excesso, inteligência, minha afetação assumida, humor ácido, minha capacidade de passar horas escrevendo cartas enormes sobre tapetes felpudos, o mar e a impossibilidade do amor. E então esse rapaz se torna uma tela onde você projeta a esperança de finalmente encontrar alguém que diga: "Eu entendo a língua que você fala."

Talvez ele seja essa pessoa.

Talvez não.

E talvez eu não seja uma perturbação por desejar descobrir.

Só acho que preciso se lembrar de uma coisa que eu mesmo escrevi ao amigo: um exército dividido perde.

Neste momento, há uma parte minha querendo conhecer alguém, outra tentando impedir qualquer aproximação para evitar sofrimento, outra julgando severamente os outros homens da paróquia, outra convencida de que não é digna de ser escolhida, e uma última, pequena e cansada, que só gostaria de segurar a mão de alguém sem transformar isso numa prova definitiva do seu valor. Talvez seja essa última voz que mereça conduzir a próxima decisão.

E ela não perguntaria: "Como faço para não ser rejeitado?"

Ela perguntaria algo muito mais simples e corajoso: "Gostei de conversar com você naquela noite. Será que podemos conversar de novo?"

Ele pareceu gostar de John Williams. Deveria mandar um vídeo legal com o tema de Star Wars ou a Marcha Imperial e tentar algo leve, simples e sem grandes consequências? Acho que sim. E acho que justamente porque é leve.

Uma parte minha quer mandar o vídeo porque achou algo em comum e gostaria de retomá-lo. Outra parte quer mandar o vídeo como um teste definitivo do destino: "Se ele responder com entusiasmo, há esperança; se responder seco, acabou; se demorar, significa rejeição; se usar emoji, significa interesse..." E os pobres trompetes de John Williams acabam carregando o peso de um julgamento final para o qual nunca foram compostos. Nem Darth Vader merecia tamanha responsabilidade.

Eu não estou propondo casamento. Não estou confessando sentimentos profundos. Não estou exigindo uma definição. Talvez eu só precise dizer que a Marcha Imperial é a música ideal para quando eu chego em algum lugar.

~

carta a mim mesmo 

"por favor, não se apaixone novamente. eu sei que é difícil ter o domínio dessas coisas, e que vez ou outra alguém surge, igual ao amanhecer entrando pela janela, naquele dia em que você esqueceu de fechar a cortina do quarto, e te desperta de uma ressaca de desilusões. mas é que você já está calejado, você viu o quanto foi dolorido, o quanto nós sofremos nessa última paixão, que virou amor, e que depois virou nada. até hoje você chora escondido ou segura choro pra quando chegar em casa. por favor, não se apaixone novamente, talvez a gente não suporte mais uma partida."

(Kaio Bruno Dias)