quarta-feira, 15 de julho de 2026

A Perda da Imaginação

Nos últimos meses minhas imagens se tornaram mais fracas. Por um lado eu sei que meu ambiente limitado tem sido também um limitador da minha imaginação. Mesmo o trabalho sendo um inferno, eu tinha algum caminho para andar, ver a floração do Jacatirão, o verde brilhante da grama do vizinho, um ou outro visitante da galeria que me despertava pela beleza. Agora eu tenho a minha casa, apenas, e o sufoco que ela traz, pois estou confinado ao meu quarto. É verdade que as séries poderiam ser uma boa fonte de inspiração mas, o efeito geral do espaço ainda consegue entorpecer essa visão. A inspiração está lá, eu só não consigo colocá-la em palavras. 

Parece que toda vez que eu me sento para escrever, não é mais como aquela torrente de antes, em que as páginas se multiplicavam com facilidade. Não. É como se um único parágrafo exigisse um esforço tremendo. E não se trata de qualidade. Ainda que fosse de modo um pouco caótico, revisitando aqueles textos eu consigo identificar várias formas: por vezes a aglutinação de palavras é presente, mas refletindo um interior igualmente caótico, que só consegue enumerar suas dores. Mas em outras vezes é fácil perceber a forma poética ao tratar da dor, dos desencontros. Também não faltam exemplos da forma ensaística, onde busco justamente analisar a solidão do homem à luz de algumas obras, nomeadamente Neon Genesis Evangelion, sem dúvida o assunto de que mais falei até hoje, ou peças musicais como as sinfonias de Tchaikovsky e Mahler e os concertos de Rachmaninoff e Chopin, companheiros de longas noites de solidão. 

Gostava de ser um escritor bastante produtivo. Claro que muitos podem questionar a qualidade de alguém que multiplica suas dores em palavras quase sem fim, mas são a expressão de impressões, e se as impressões se repetem, qual é o problema de registrar as expressões. 

Um dos problemas que consigo identificar é minha dificuldade em ler. Sempre li muito, do tipo que ia dormir de madrugada, e isso ia me enriquecendo. Me lembro de adotar, quase sem perceber, um estilo mais solene, épico ou até místico enquanto lia Camões, Homero e São João da Cruz. Mas hoje, tenho encontrado dificuldade em ler. Minha atenção e memória foram gravemente comprometidas. Na minha cama, nesse momento, se encontra uma coletânea da poesia de Álvaro de Campos, o segundo tomo de Dom Quixote (que literalmente faz mais de um ano que tento terminar, sendo que o primeiro li em menos de um mês), e um almanaque de música clássica que, acredito, não passei do primeiro capítulo.

Tento criar pequenos objetivos. Ler dez páginas por dia. Tentar algo mais simples, quando devorei os primeiros volumes de As Crônicas de Nárnia em poucos dias. Mas olhar minhas estantes e ver a quantidade de livros, clássicos da mais alta qualidade, obras grande de profundidade filosófica e teológica, bem como alguns outros assuntos, me fazem ficar ainda mais deprimido. Sim, eu sei que não devo me cobrar muito, e que criar esses pequenos momentos, sem a pressão de me tornar um literato da noite para o dia, é um bom caminho, mas não tem dado muitos resultados.

E, então voltando ao tema da minha situação atual, me recordo que lia bastante no ônibus, indo e voltando do trabalho, e isso nunca prejudicou a qualidade da leitura. Quando encontrava algo especial, fotografava e trabalhava em cima depois. Será que deveria escolher um horário para ler fora de casa? Quem sabe caminhar até o jardim da igreja ou do bairro ao lado, apenas com um marcador, sem celular.

Me encontro numa espécie de ciclo vicioso, aquele que tantas vezes descrevi com a figura o ourobouros: um ciclo infernal. Para melhorar a estabilidade do meu Transtorno Bipolar, porque não quero resumir a minha personalidade ao meu CID, preciso de uma rotina e, no momento, minha rotina tem sido: assista o quanto pode a noite porque durante o dia, a casa pequena, o barulho, tudo isso. E então não tenho vontade de pegar algo e ler como antes, com aquele prazer em conhecer mundos, pessoas e situações que nem em dez vidas eu viveria. 

Me recordo das longas paisagens de Proust, e sei que encontrarei algo parecido em Tolkien, me encantei com as descrições minuciosas do sertão em Euclides da Cunha, cada uma dessas coisas me ajudava a descrever a paisagem ao redor. Os romances e tragédias, o amor não correspondido, os ciúmes extremos. Tudo isso resultava nas imagens, as que eu multiplicava, dava meu próprio tom, colocava em mim.  

Mas, para sair desse ciclo, precisaria encontrar um emprego, e as crises de pânico se tornam um empecilho grande. Me lembro das humilhações dos últimos empregos. Se tentar continuar no mundo da arte, o ego inflamado dos artista, se voltar para a escola, a rotina desgastante de uma burocracia sem fim... Esse medo me paralisa, e se não consigo fazer aquilo de que tenho medo, não consigo continuar multiplicando minhas imagens como estrelas no céu, gravadas na grande muralha do tempo. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário