terça-feira, 14 de julho de 2026

O sussurro do vento

Não sei se fiquei irritado por ciúmes ou por reconhecer, mais uma vez, o velho desenho das coisas se repetindo. O frio sopra nessa ilha com uma insistência quase pessoal. Há uma risada escondida no vento. Não é humana. Nunca foi. Hoje o frio me conhece, me abraça e, em meu ouvido, o demônio ri baixo, como quem já conhece o final da história e apenas espera que eu também descubra. 

Empurro a porta do bar e ninguém parece notar minha chegada. Talvez porque todos ali estejam ocupados demais sobrevivendo a si mesmos. A fumaça dos cigarros demora para subir. A umidade do lugar deixa tudo pesado. O piano, velho e desafinado, insiste em tocar alguma coisa de Mahler. Não sei qual peça, talvez aquele tema infantil transformado em marcha fúnebre irônica? Talvez nenhuma. Talvez seja apenas aquela gargalhada de que ele falava, escondida entre notas altas, aquela música estranha que não lamenta a tragédia, mas sorri dela, ou a que apenas registra os golpes pesados do destino até o fim.

Sem cumprimento até mesmo do cara que limpa os copos com um pouco de estopa. Apenas abrem espaço na mesa, como se já esperassem minha derrota. Peço um whisky, ou melhor, já me trazem o copo. Acho que minha cara já diz tudo, ou todos ali busquem a mesma coisa. Duplo.

"O erro", diz um homem de cabelos brancos sem sequer levantar os olhos do copo, continuando o que parece ser a conversa com a pausa mais longa já registrada entre homens, e talvez até entre macacos, "é continuar esperando que alguém retribua."

Ele gira lentamente o gelo entre os dedos. E eu reconheço, assentindo lentamente enquanto deixo o brilho dos olhos se esvair na ondulação da bebida em minhas mãos. Essa maldita sensação de achar que algo pode ser correspondido. Minha versão jovem gastou dezenas de páginas falando sobre como é impossível para duas pessoas se tocarem realmente. Estamos longe demais, separados em absoluto por um campo invisível, a nossa própria consciência, incapaz de comunicar ao outro o que somos e, portanto, incapaz de forçar o outro a nos observar. Não importa a beleza do azul do céu ou do mar, se a cor favorita de alguém é o amarelo. Olhando pela janela vejo apenas um ameaçador cinza, e umas poucas gaivotas voando, provavelmente em busca de abrigo da tempestade que se aproxima.

"Esperança sempre cobra juros altos."

Não respondo. Só bebo. O álcool queima por um instante, mas logo perde a utilidade.

"Pelo menos você ainda espera", comenta outro, olhando pela janela embaçada. "A maioria já aprendeu que ninguém busca ninguém. Cada um corre apenas atrás do próprio desejo. O outro é só um espelho conveniente."

Já há muto deixei de acreditar no amor, no sentido romântico da coisa. Acredito no amor de uma mãe pelo filho, e do filho pela mãe, pranteando um ao outro seu luto, seja na guerra ou no pacífico ciclo normal da vida. Mas no amor, como contam as histórias apaixonadas? Não.

Lá fora, um casal atravessa a rua correndo para fugir de uma pancada de chuva. Logo vai passar, mas penso comigo: bem feito!

Sempre vejo isso.

Os meninos fazem dos próprios afetos uma religião improvisada. Orbitam mulheres como pequenos planetas desesperados, convencidos de que existe um centro do universo escondido dentro de outro corpo.

E eu rio deles.

Rio porque parecem ridículos. Porque esse amor é ridículo. "Todas as cartas de amor são ridículas", alguém diz, ao canto, e eu olho e vejo que ele escreve alguma coisa. Talvez uma carta de amor ridícula. O riso macabro dessa vez é meu. Mas dura pouco.

Porque descubro que também passo meus dias girando em torno de alguma coisa. Não de uma mulher. De pessoas. Da paróquia. Da necessidade absurda de manter unida uma comunidade que parece ter escolhido a fragmentação como vocação. Engulo humilhações, reorganizo ruínas, tento salvar vínculos que talvez nunca tenham existido. Enquanto isso, minha depressão me concede energia suficiente apenas para viver pelos outros. Nunca para mim.

"Você ainda mede sua existência pelos olhos deles."

A frase vem calma, e eu não sei quem a disse. Talvez aquele homem magro sentado na ponta da mesa, o mais perto da porta.

Talvez eu mesmo.

E então sinto o cansaço que vinha ignorando até então. Um peso gigantesco sob minhas costas, de pessoas e mais pessoas querendo algo, eu querendo corresponder, melhorar e, ao mesmo tempo, sei que elas me deram isso por ser um incômodo. Mas da forma como o fazem, só se torna um incômodo pra mim também. E eu me vejo na obrigação de fazer um monte de coisas que não quero, de um jeito que não quero, que vai terminar num resultado que, desde o primeiro momento, sabia que ia dar errado.

"Esse é o desespero."

Fico olhando o copo. O gelo já derreteu e a bebida agora parece remédio.

"Não", alguém interrompe, soltando uma pequena risada pelo nariz. "Você não está com raiva deles."

Levanto os olhos e homem do bigode continua olhando para um ponto qualquer do teto.

"Você está com raiva de continuar precisando deles."

"Mentira."

Ninguém responde.

"Mentira" 

Repito mais baixo. Mas minha voz já não parece tão convencida.

Porque parece que algo me acertou com força no estômago. É verdade. E odeio que seja assim. Passam meses, passam anos, e algo bobo como ver um homem ir estupidamente atrás de uma mulher me irrita. Porque parece que ele desperdiça sua potência. Acho que toda relação entre homem e mulher é estúpida, burra. O homem não pode encontrar seu potencial ao lado de uma mulher. Apenas sozinho ou, mais raramente, com outro homem. Talvez ainda eu tenha desperdiçado com meu potencial e assim me incomode quando vejo outra pessoa fazendo isso. Por isso ri do idiota que abraça a mulher para correr na chuva.

O silêncio volta a ocupar a mesa. Só então percebo outro homem, discreto, quase apagado pela fumaça. Escreve alguma coisa num guardanapo enquanto fuma. Olhei rapidamente por cima do seu ombro.

"Todo encontro é um equívoco que dura o tempo suficiente para receber um nome."

Ele dobra o papel e o guarda no bolso como quem sabe que ninguém lhe pediria para ler.

Mais adiante, uma mulher de voz muito baixa fala quase sem mover os lábios.

"Você confunde servir com desaparecer."

Há delicadeza naquela frase. Por isso ela dói mais.

"Pensa que Deus lhe pediu as duas coisas."

Não pediu, e ainda assim eu me doei ao outro até não sobrar mais nada. Em todos os campos. Aquele que amei, quando ainda era capaz de amar, se gaba de se encontrar com uma mulher estúpida. Os idiotas da paróquia vivem recolhidos numa religião industrial, vivem como se tivessem de cumprir horário na missa, batendo ponto e fazendo o mínimo num trabalho. Entram na igreja como quem registra ponto. Cantam como quem aperta parafusos eternamente sem saber como ou porquê. Terminam a missa olhando o relógio antes mesmo da bênção. 

Ninguém tenta me consolar.

Nem eles.

Nem o vento.

Nem Mahler, cuja música continua fazendo da tristeza uma espécie de ironia cósmica.

Um homem de sobretudo permanece olhando para o copo vazio há tanto tempo que imagino ter esquecido por que entrou ali. Quando finalmente fala, parece pedir licença ao próprio silêncio.

"O absurdo talvez comece justamente quando percebemos que não existe garantia alguma de sermos lembrados."

Faz um gesto para o garçom.

"Ponha outra."

Eu não serei lembrado quando me for. Já não sou agora. Não peço pra encher o copo. minha bebida já está amarga demais. Os comprimidos dissolvidos nela têm gosto de amanhã recusado.

Lá fora, o vento continua soprando.

Alguém diz que aquela gargalhada sempre esteve ali. Mas agora já não sei se era o vento. Talvez o demônio nunca tenha rido. Talvez aquela gargalhada sempre tenha sido minha. Outro responde que ela nunca terá a última palavra. 

Talvez fosse apenas o eco da minha própria voz voltando das montanhas.

Os dois parecem igualmente convencidos.

Eu já não sei.

Só sei que, esta noite, o frio conhece meu nome melhor do que qualquer pessoa. Começo a reconhecer a peça no piano enquanto caio no sono.

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