Já vinha pressentindo isso há alguns dias. Dizem que, com a experiência de muito tempo, as pessoas de certos lugares conseguem sentir quando se aproxima a chuva, ou a tempestade. São pessoas do sertão árido ou marinheiros de longa data, habilidade aprendida por medo, ou necessidade, ou os dois.
Sempre sinto uma forte dor de cabeça. É o primeiro sinal. Meu corpo costuma saber antes de mim quando alguma coisa está prestes a desabar.
Junto a ela uma sensação de crescente inquietação. Antes o corpo era tomado pelo torpor, aquele característico da anedonia que faz os dias passarem sem que se perceba. O moribundo jaz na cama, e passam as horas, os dias, e ele ainda continua lá. No meu caso é como se apenas as noites existissem. E então tudo muda quando a depressão se recolhe, cedendo lugar para outro demônio.
A névoa matutina é violentamente dissipada pela luz do sol. Eu não gosto do sol. Sempre odiei. Me faz lembrar daqueles dias desconfortáveis de verão que não conseguimos dormir direito, e viramos de um lado pro outro, o suor por todo o corpo, e a aquela brecha atrevida fazendo uma luz incômoda tocar o corpo, mesmo quando lhe damos às costas. Há qualquer coisa de ofensivo naquela insistência luminosa de que o dia precisa começar.
Tomado de imensa fúria na noite de hoje. Meio de semana, contemplo a imensidão da minha incompetência: praticamente um incapaz. Praticamente um incapaz. Não há nada de nobre nisso. É simplesmente humilhante. Depois de (mais) um dia de inutilidade, uma fuga da realidade: de volta para as histórias. Há fugas que nos escondem do mundo. Estas, às vezes, me devolvem algum mundo. Elas já se tornaram meu porto seguro. Certamente alguém diria que é apenas uma fuga, e eu sei que muitas vezes de fato o é. Mas aprendo muito do mundo que não consigo viver por ter sido me tirada a vontade de sair da cama.
Tenho consciência dos limites dos recortes apresentados. Mas também sei que até mesmo o enfoque que é dado me faz compreender: ele também tem algo a me dizer.
Meu professor dizia que a primeira coisa a se fazer, sempre, de modo real, crescente e permanente, é enriquecer com a experiência humana. Talvez seja por isso que eu tenha aprendido a procurar vidas onde não consigo viver a minha. Ariano Suassuna, certa vez, já de idade avançada e sensibilidade ainda afiada, citou o Albert Camus, que elaborou que o único problema filosófico importante seria o do suicídio. O sujeito avalia a vida, avalia a si mesmo, e chega a conclusão de que isso é inviável, de que não vale a pena. Mas Ariano discordava do filósofo franco-argelino: para ele o suicídio era apenas parte, ou sintoma, do real problema, que seria o do sofrimento humano. Este sim é o maior problema de todos e que seu conterrâneo Leandro Gomes de Barros havia eternizado de modo mais bem elaborado que Camus.
Aprendo com as histórias muito desse sofrimento, das diversas dores advindas da partida, da morte, da separação, da incompreensão. Mas também aprendo sobre a esperança, uma que muitas vezes penso ter perdido totalmente, e que algum personagem me recorda, ao sorrir doce e ternamente, ao declarar seu amor, ao abraçar alguém, a sorrir novamente. Não ligo que digam, apesar de crer que ninguém se importa realmente, que seja uma fuga. Talvez seja fuga. Mas às vezes parece que é o único lugar para onde ainda consigo fugir. E, se ninguém se importa realmente, ao menos aqueles personagens não sabem disso. Pois cada vez que sorrio, me despertando de pesada agonia, ou que derramo lágrimas, mesmo em intensa euforia, percebo uma coisa estranha: na solitude de minha tela, encontro um mundo que não viveria nem se dez vidas eu tivesse. Na solitude da tela, ao menos, ninguém me pede para ser outra coisa.”
Mas hoje a fúria me dominou, por um bom tempo eu precisei me esforçar para me concentrar. Um aspecto do sofrimento me veio atormentar: a recordação da traição antiga e a verdade das relações presentes. Os personagens traem-se entre si... Mas não me trocam por uma vagabunda qualquer e depois me avisam isso por mensagem no dia que vão morar com ela. Por isso me refugiei naquelas cenas, de amor, de traição e partida e, aos poucos elas me acalmaram.
Catarse.
A ficção fez aquilo que a minha razão não conseguiu. Aqueles versos que criei em mente, em troqueu, batiam em minha cabeça como se fossem passos, e depois desapareceram, se desfizeram, perderam-se na névoa. Bom que o dia de ira findou. Pena que a poesia se perdeu. Talvez amanhã ela volte, como a depressão. E talvez a poesia precise da ira para morrer e, como a Fênix ou Benu, renascer. Embora seja belo falar da esperança, admito que ainda encontro no sofrimento humano assunto mais interessante para as letras.
Me resta agora, depois de longa noite em companhia de tantos personagens: cabelos azuis em beijos apaixonados na bancada de uma cozinha, estudantes tímidos e fofos tomando sorvete depois de uma passada na livraria, mafiosos perigosos e jovens com responsabilidade sobre ombros vacilantes como os de uma criança de doze anos.
A noite passou.
A tempestade, não sei.
Me resta agora... esperar os próximos dias, de ira ou euforia.
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Leandro Gomes de Barros






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