quinta-feira, 30 de abril de 2026

Engenharia Religiosa: Manipulação e empobrecimento da Fé na Igreja Católica III

Leia a parte II aqui

O movimento da New Age só pôde alcançar uma repercussão mundial em prazo tão rápido graças ao emprego maciço da estimulação contraditória que reduz milhões de seus adeptos à credulidade imbecil e a uma subserviência patética. Não há nenhum precedente histórico para este fenômeno. Ele não se assemelha em nada àquilo que nos séculos passados, e em muitas civilizações diversas, se admitia como fé religiosa. A fé pode predispor um homem a acreditar em prodígios e milagres, isto é, em rupturas da ordem natural costumeira; pode também levá-lo a aceitar a autoridade de um guru ou santo cujo saber permaneça fora de toda possibilidade de controle; pode ainda fazê-lo aceitar alegremente sacrifícios sem vantagem aparente imediata. A fé pode exigir de um homem que ele contrarie o bom senso, desobedeça à sua disposição natural ou lute contra seus mais óbvios interesses.

O milagre, porém, nunca foi sinônimo de grotesco. O extraordinário autêntico conserva inteligibilidade, ordem interna e finalidade. Não basta que algo pareça incomum para que seja reconhecido como sinal sobrenatural; é preciso que manifeste uma adequação profunda à estrutura da realidade e aos fins do homem. Os povos antigos podiam crer em profetas que prometessem cura, redenção, sentido último ou vida eterna; não teriam, contudo, mobilizado sua existência em torno de banalidades espetaculares, fenômenos arbitrários ou curiosidades sem valor espiritual.

É precisamente aqui que se revela a degradação contemporânea da experiência religiosa. O fenômeno pseudorreligioso moderno produz uma credulidade amputada de discernimento, uma fé esvaziada de inteligência e desligada de qualquer tradição ascética séria. Já não se pergunta pela origem dos impulsos interiores, pela retidão dos afetos, pela autenticidade das consolações ou pelo valor espiritual das experiências. Aceita-se como “mover de Deus” praticamente toda alteração emocional intensa, todo arrepio coletivo, toda atmosfera psicologicamente carregada.

Ora, isso representa uma ruptura radical com a tradição mística cristã. Durante séculos, a Igreja desenvolveu com rigor admirável uma verdadeira ciência do discernimento espiritual. Não apenas reconhecia a complexidade da vida interior, mas ensinava sistematicamente a distinguir consolações autênticas de ilusões psicológicas, tentações, autoengano ou interferências espirituais desordenadas.

Santa Teresa d’Ávila alerta repetidamente contra a confiança ingênua em experiências extraordinárias, advertindo que não são lágrimas, doçuras ou transportes que medem a santidade, mas o crescimento efetivo em humildade, caridade e desapego. São João da Cruz vai ainda mais longe ao denunciar o apego às consolações como infantilismo espiritual, verdadeira gula da alma que busca a Deus não por Ele mesmo, mas pelos efeitos subjetivos que Sua presença aparentemente produz.

Se essa tradição de discernimento permanecesse viva no imaginário católico médio, muitos fenômenos hoje celebrados como expressão máxima de espiritualidade despertariam antes prudência do que entusiasmo. A ausência de formação mística não produz abertura espiritual, mas credulidade desarmada.

A destruição gradual da religiosidade tradicional e do imaginário ascético não conduziu, como prometeram seus apologistas, a uma consciência mais esclarecida, racional ou madura. Produziu precisamente o contrário: um homem simultaneamente cético e crédulo, incapaz de crer no essencial e disposto a aceitar qualquer sucedâneo emocional.

A resposta a esse paradoxo é, como já indicado, quase pavloviana. Submetido continuamente a estímulos contraditórios — morais, afetivos, simbólicos e informacionais — o homem moderno encontra-se psiquicamente exausto. Sua imaginação, saturada por slogans, publicidade, estímulos audiovisuais, hiperconectividade e alternância constante entre culpa e gratificação, já não serve de ponte ordenada entre inteligência e vontade, mas converte-se em campo de batalha.

Nesse contexto, a experiência religiosa não escapa à lógica geral. Ela passa a competir no mesmo mercado de estímulos. Precisa ser intensa, rápida, sensorialmente marcante, imageticamente forte, psicologicamente recompensadora. A interioridade torna-se incapaz de sustentar silêncio prolongado, monotonia fecunda, repetição ritual, estudo paciente ou oração árida.

Uma alma formada exclusivamente sob esse regime já não sabe habitar o deserto interior onde tradicionalmente amadurece a fé.

É por isso que ambientes espirituais excessivamente dependentes de impacto emocional não representam apenas um estilo pastoral entre outros. Em seus excessos, tornam-se sintoma de uma patologia cultural mais ampla: a incapacidade moderna de suportar realidade sem estímulo.

O sujeito contemporâneo já não busca a verdade, mas alívio; não busca conformação a Cristo, mas reorganização afetiva imediata; não deseja atravessar a noite escura, mas evitar a todo custo qualquer experiência de vazio. E porque não suporta a aridez, necessita constantemente de novos impulsos.

Aqui reencontramos, sob forma religiosa, mecanismos já observados em outros contextos. Gurdjieff compreendia empiricamente o poder da alternância entre humilhação e alívio; Pavlov demonstrou os efeitos da ruptura reiterada de cadeias previsíveis de resposta; Sargant descreveu o aumento de sugestionabilidade após estados intensos de desgaste nervoso. Não se trata de afirmar identidade material entre tais fenômenos e experiências religiosas contemporâneas, mas de reconhecer analogias funcionais suficientemente evidentes para exigir prudência.

Como observou o Pro. Olavo: "Boa parte do fascínio escravizador exercido sobre seus discípulos pelo taumaturgo armênio Georges Ivanovich Gurdjieff, por exemplo, se devia tão-somente à “mágica” das ab-reações repetidas. De fato, Gurdjieff ora esmagava os coitados sob pilhas de exigências constrangedoras, ora os induzia a descargas aliviantes que lhes davam a impressão de plenitude e liberdade, só para depois serem repentinamente jogados de novo em provações humilhantes. 

Gurdjieff manejava igualmente bem a estimulação contraditória. Raramente dizia alguma coisa com sentido identificável, mas deixava sempre no ar pelo menos meia dúzia de intenções possíveis, fazendo com que os discípulos se extenuassem em vãs ginásticas hermenêuticas. Prometia aos alunos uma exposição teórica que finalmente poria tudo em pratos limpos, e lhes dava um sistema cosmológico completo, que nas semanas seguintes era inteiramente substituído por outro, e por outro, até que a confusão mental crescesse à escala cósmica." 

Olavo percebeu ainda que, o que Gurdjieff aplicava, encontrava explicação no trabalho de Sargant e Pavlov. "O que Sargant descobriu logo depois disso foi de estarrecer. Pavlov já tinha reparado que o paciente, após chegar à inversão dos reflexos, se tornava muito mais sensível aos estímulos do que era antes. As mesmas reações, em suma, podiam ser provocadas com estímulos cada vez mais leves. Pavlov denominara a isto a fase paradoxal da mutação, a que se seguia uma fase ultraparadoxal: 'No terceiro estágio da inibição protetora, a fase ultraparadoxal, as respostas e o condicionamento condicionado positivos começam, de repente, a se transformar em negativos”. O que Sargant percebeu foi que a fase ultraparadoxal era acompanhada de “uma sugestionabilidade aumentada ao extremo... de maneira que o indivíduo se torna receptivo a influências do seu meio-ambiente às quais era imune antes': era possível, portanto, hipnotizar um sujeito contra a sua vontade. Nada adiantava o indivíduo tentar resistir às sugestões: 

'Apesar de muitos médicos hipnotizadores insistirem em que a cooperação do paciente é essencial, na verdade os sujeitos podem ser hipnotizados contra sua própria vontade... Quando uma pessoa normal resiste de maneira ativa, o sistema nervoso é esgotado e, mantendo-se constante a pressão, é possível induzi-la ao transe com bastante facilidade... Tentativas repetidas em geral dão certo... Quando o sujeito acostumou-se a ser hipnotizado, pode ser induzido ao transe sem se dar conta do que está lhe acontecendo'.” 

Com a descoberta da hipnose forçada, o uso conjugado da estimulação incoerente e das ab-reações repetidas abria os mais promissores horizontes aos manipuladores da mente. Para reduzir um homem a uma obediência canina, já não havia necessidade de discursos em alto-falantes, de gritos, ameaças ou tortura mental. Por um lado, bastava regular o fluxo de informações contraditórias para levar o sujeito ao desespero que o inclinava à mutação súbita de suas convicções; de outro lado, essas informações seriam tanto mais explosivas em seus efeitos quanto mais silenciosa e discreta fosse a sua penetração — de preferência, subliminar.

Quando uma pedagogia espiritual depende estruturalmente de repetidas descargas emocionais, alternância entre culpa e consolo, pertencimento intensificado e vulnerabilidade afetiva, o mínimo intelectualmente honesto é suspender a ingenuidade.

O problema final talvez seja ainda mais profundo. Uma vez naturalizados esses mecanismos, eles deixam de parecer anomalias e passam a constituir linguagem ordinária de formação religiosa. A manipulação já não precisa ocultar-se: confunde-se com método pastoral.

A culminação desse processo não é apenas o empobrecimento da inteligência individual, mas a corrosão da própria liberdade interior. Quando elites culturais, políticas, comerciais ou religiosas legitimam técnicas de condicionamento psicológico como ferramentas aceitáveis de adesão e mobilização, pouco importa quem detenha momentaneamente o poder simbólico: a derrota já ocorreu no nível mais fundamental.

Perde-se a consciência livre.

Perde-se a interioridade.

Perde-se, em última instância, a capacidade mesma de responder livremente ao chamado de Deus.

É nesse ponto que a crise deixa de ser apenas pastoral e revela sua verdadeira gravidade: trata-se de uma crise da alma. Uma alma que não consegue subir as escadas, não por causa da Noite Escura, que convida à subida, mas porque não sabe onde ficam as escadas e, por isso, perde a beleza do jardim.

Existe uma Igreja maior, mais antiga, mais silenciosa e mais livre do que muitos chegaram a conhecer. Uma Igreja que canta com anjos e santos os mais belos hinos; que sofre, padece e sangra com os mártires, fecundando com seu testemunho novas gerações de cristãos. Uma Igreja que ensina, exorta e corrige; que refletiu durante séculos sobre os abismos e as alturas da alma humana; que acolhe sem banalizar, fascina sem manipular e atrai pela beleza sem jamais perder de vista a Verdade de sua missão.

É esta Igreja que não cabe em nenhum carisma particular, em nenhuma estética passageira, em nenhum grupo ou linguagem emocional específica. Ela é maior do que nossas preferências, mais profunda do que nossas experiências imediatas e mais exigente do que nossos entusiasmos. Nela há espaço para o silêncio e para o canto, para a inteligência e para as lágrimas, para a ação e para a contemplação, para a ascese austera e para a alegria luminosa dos santos. Ela compreende e abarca o homem inteiro, não apenas seus impulsos mais acessíveis ou suas fragilidades emocionais.

Há uma Igreja que não cabe em nenhum de nós, mas que abarca e compreende cada um, aqui na terra, peregrinos na estrada desse mundo rumo ao Céu, nas almas que padecem no Purgatório e, enfim, com os santos que contemplam a glória de Deus e que não cessam de interceder por nós! 

“Gloria Dei vivens homo; vita autem hominis visio Dei.”(Santo Irineu)

*“A glória de Deus é o homem vivo; e a vida do homem é a visão de Deus.”

Referências

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Engenharia Religiosa: Manipulação e empobrecimento da Fé na Igreja Católica II

Leia a parte I aqui

As técnicas modernas de influência psíquica avançaram em precisão, alcance e sofisticação muito além do que o homem comum tende a considerar plausível. Ao mesmo tempo, a capacidade média de defesa crítica parece reduzir-se proporcionalmente, especialmente em contextos marcados por hiperestimulação digital, fragilidade identitária e pobreza formativa. O resultado é um ambiente no qual os instrumentos de mobilização afetiva se tornam cada vez mais eficazes precisamente na medida em que se tornam menos visíveis.

No campo religioso, essa assimetria revela-se particularmente preocupante: a sede legítima de transcendência, pertença e cura interior pode tornar-se matéria-prima para formas pastorais que, ainda que bem-intencionadas em muitos casos, substituem progressivamente formação por experiência, contemplação por estímulo e amadurecimento espiritual por dependência afetiva reiterada.

A literatura do século XX não apenas imaginou sociedades submetidas ao controle técnico da consciência, mas antecipou com notável precisão mecanismos que hoje nos parecem banais. Não por acaso, após o sucesso de Admirável Mundo Novo (1932), Aldous Huxley retornaria décadas depois ao tema em Regresso ao Admirável Mundo Novo, já não no registro ficcional, mas analítico. O que antes aparecia como distopia começava a revelar-se possibilidade concreta: a modelagem do comportamento humano por técnicas de sugestão, condicionamento, repetição simbólica e manipulação ambiental. A hipótese de uma sociedade conduzida menos pela força explícita e mais pela indução psicológica deixava o campo da imaginação literária para tornar-se objeto de investigação pública.

Não se tratava, tampouco, de especulação abstrata. Em ambientes políticos, a instrumentalização psicológica das massas já havia demonstrado seu poder nos regimes totalitários, onde propaganda, repetição ritualística, slogans, culto imagético e saturação emocional atuavam conjuntamente para dissolver o juízo individual no comportamento coletivo. Jacques Ellul demonstrou, em sua análise da propaganda moderna, que o homem contemporâneo não é persuadido primordialmente por argumentos, mas por ambientes psicológicos totalizantes, nos quais símbolos, afetos e reflexos passam a operar mais fortemente que conteúdos racionais. A adesão deixa de ser fruto de convencimento e converte-se em adaptação psíquica ao meio.

Também em contextos criminais surgem registros eloquentes desse tipo de vulnerabilidade. Em reportagem publicada no jornal O Estado de São Paulo, a correspondente Marielza Augelli descreveu uma curiosa onda de crimes ocorridos na Itália, nos quais assaltantes dispensavam armas convencionais e recorriam a técnicas de indução psíquica e hipnose instantânea. Caixas de banco e comerciantes relatavam estados de torpor e confusão, entregando voluntariamente grandes quantias em dinheiro para só depois perceberem o ocorrido. Mais importante que a exatidão técnica dos relatos é o dado antropológico: a constatação pública de que a consciência humana pode ser desorganizada, ainda que momentaneamente, mediante estímulos adequadamente estruturados.

Essa mesma constatação não passou despercebida a organizações de caráter sectário ou pseudomístico. Diversos movimentos religiosos heterodoxos do século XX fizeram amplo uso de isolamento social, repetição verbal, quebra de rotina, saturação afetiva, privação de sono, hiperestimulação sensorial e alternância entre acolhimento e culpa. O objetivo não era necessariamente transmitir doutrina, mas produzir estados de receptividade aumentada. Guardadas as proporções clínicas e morais, interessa notar que o mecanismo elementar permanece semelhante: enfraquecer momentaneamente as defesas reflexivas do indivíduo para facilitar sua adesão a um discurso previamente estruturado.

O problema central, portanto, não reside numa caricata teoria conspiratória segundo a qual líderes religiosos dominariam secretamente técnicas ocultas de manipulação, mas no fato muito mais banal e perigoso de que certos mecanismos psicológicos podem ser reproduzidos empiricamente, por tentativa, observação e repetição, mesmo sem plena consciência conceitual de quem os aplica. Um líder aprende quais estímulos produzem maior resposta coletiva e passa a repeti-los. Outro observa o efeito e incorpora o modelo. Em pouco tempo forma-se uma gramática afetiva padronizada.

No campo religioso, esse fenômeno adquire especial gravidade porque incide justamente sobre indivíduos em busca de sentido, pertença e estabilidade identitária. Jovens em situação de vulnerabilidade afetiva, conflitos familiares, carência paterna ou fragilidade emocional encontram nesses ambientes uma experiência de acolhimento intensificado. Some-se a isso uma formação catequética frequentemente insuficiente — incapaz de oferecer instrumentos mínimos de discernimento doutrinal, histórico e litúrgico — e obtém-se um terreno particularmente fértil para confundir intensidade emocional com profundidade espiritual.

Não é necessário, pois, supor má-fé universal. Muitas vezes, o próprio agente pastoral encontra-se igualmente capturado pela lógica performática que reproduz. Ele também aprendeu a identificar “resultado” com resposta emocional visível: lágrimas, abraços, catarse coletiva, sensação de pertença, entusiasmo imediato. A eficácia psicológica passa a funcionar como critério de validação pastoral. E aquilo que deveria conduzir gradualmente ao amadurecimento da inteligência da fé reduz-se à administração de estímulos.

É nesse ponto que a observação de Pavlov sobre os efeitos da estimulação contraditória se torna particularmente elucidativa. Quando cadeias previsíveis de estímulo e resposta são reiteradamente quebradas, produz-se um estado de confusão psíquica e vulnerabilidade aumentada. O sujeito busca desesperadamente reorganização interna e tende a aderir ao primeiro modelo coerente oferecido. Politicamente, esse mecanismo foi explorado em contextos de doutrinação. Religiosamente, manifesta-se na alternância entre exaltação e culpa, acolhimento irrestrito e repreensão moral intensa, festa sensorial e recolhimento dramático, pertencimento grupal e ameaça implícita de exclusão espiritual.

O neurofisiologista russo Ivan Pavlov (1849-1936) foi o descobridor dos reflexos condicionados produzidos pelo jogo estímulo-resposta. A idéia de moldar o comportamento humano pela aplicação planejada de castigos e recompensas era uma extensão das descobertas de Pavlov, e boa parte da “reeducação” recebida pelos prisioneiros soviéticos consistia simplesmente nisso. Mas a doutrinação teria resultados escassos se não fosse uma segunda descoberta de Pavlov: a dos efeitos da estimulação incoerente. Ele estudou isto em cachorros. Programando-os inicialmente para salivar de fome à visão de uma luz vermelha que acendia tão logo lhes era oferecido um bife, Pavlov passou em seguida a lhes mostrar ora o bife com a luz apagada, ora a luz sem o bife. Eles ficaram completamente atordoados. Quebradas as cadeias dos reflexos condicionados, o cérebro entrava em pane. O mais surpreendente foi o modo pelo qual os cachorros se adaptaram à nova situação: “A inibição prolongada dos reflexos adquiridos — escreveu Pavlov — suscita angústia intolerável, da qual o sujeito se livra mediante reações opostas às suas condutas habituais. Um cão se afeiçoará ao funcionário do laboratório, que detestava, e tentará atacar o dono, de quem gostava”. 

A mudança de atitude dos prisioneiros, portanto, não era determinada pelo conteúdo político da doutrinação, mas sim pelo efeito acumulado de estimulações contraditórias, que os levavam ao desespero até que a personalidade, literalmente, virasse do avesso. A doutrinação apenas fornecia o modelo pronto do novo discurso, que completava a transformação. Eis em que consistia a “lavagem cerebral”. Depois disso, porém, os conhecimentos sobre a vulnerabilidade do cérebro humano à influência externa aumentaram muito.

O resultado não é maturidade, mas dependência afetiva. A fé deixa de ser adesão racional e sobrenatural à verdade revelada para converter-se em circuito emocional de recompensa, culpa, alívio e retorno. A comunidade já não funciona prioritariamente como corpo místico orientado ao crescimento espiritual e sacramental, mas como ambiente regulador de carências psíquicas e identidade social.

Depois disso, o restante do fenômeno se torna quase previsível.

Boa parte do discurso dessas comunidades retorna constantemente ao adágio de “ir contra as modas do mundo”. Do ponto de vista teológico, tal princípio é irrepreensível: trata-se, em última análise, da própria conversão, isto é, da ruptura com o pecado e da reordenação da vida em direção a Cristo. A dificuldade começa quando essa verdade elementar é reduzida à adesão quase exclusiva a um determinado "estilo" espiritual, como se a participação naquele grupo constituísse, ipso facto, a realização plena dessa ruptura com o mundo. O carisma, para além de um dos muitos modos de ajudar na conversão, torna-se cadeia, prisão escura que não permite a luz da Igreja inteira, em sua infinita riqueza, preencher o espírito humano.

Forma-se, assim, um curioso paradoxo: ao mesmo tempo em que afirmam combater a mundanidade, certos grupos acabam privando seus membros de boa parte do patrimônio espiritual católico. A Igreja, justamente por sua universalidade e profundidade histórica, jamais confinou a santidade a uma única linguagem afetiva ou forma de experiência religiosa. Há nela vida ativa e contemplativa; missão e clausura; pregação pública e silêncio interior; lágrimas de conversão e disciplina intelectual; fervor sensível e aridez espiritual. Cabe aqui a pergunta: o que se perde quando a Igreja local se molda por esse paradigma?

A tradição cristã não propõe apenas momentos de intensidade emocional, mas um itinerário integral de amadurecimento humano e sobrenatural. “Deus priva a alma do gosto e do sabor das coisas espirituais para purificá-la.”, o ensinamento da Noite Escura de São João da Cruz aponta para o fato de que a ausência desses momentos de catarse também são de grandioso proveito para a alma cristã. Há tempo para comoção e também para estudo; para consolação e para aridez; para experiência comunitária e para solidão fecunda diante de Deus. A inteligência da fé, a ascese moral, a vida sacramental e a contemplação silenciosa não são acessórios opcionais, mas dimensões constitutivas da vida cristã madura. Santa Teresa D'Ávila vai nos ensinar que “nem sempre consiste a perfeição em muitos gostos, mas em maior amor.” A vida cristã não é feita de apenas um momento, ela é sempre viva, pulsante, ao que o Papa Francisco apelou: “Não é saudável amar o silêncio e fugir do encontro com o outro, desejar o repouso e rejeitar a atividade, buscar a oração e menosprezar o serviço.” 

As comunidades aqui analisadas, ao absolutizarem seu próprio carisma — o que em si não seria problemático, já que ordens e congregações legitimamente possuem espiritualidades próprias — frequentemente operam uma redução prática do horizonte católico. Tudo deve convergir para a experiência catártica. Nenhum retiro, encontro ou celebração pode escapar ao ciclo previsível de excitação afetiva, descarga emocional e sensação de renovação subjetiva.

O efeito espiritual dessa dinâmica já havia sido intuído por São João da Cruz, “muitos buscam em Deus consolações, e poucos buscam a Deus” ao denunciar aquilo que chamou de gula espiritual: a busca desordenada por consolações sensíveis, confundidas com crescimento interior. Como a catarse vem e passa, deseja-se novamente sua repetição. E porque a experiência, por natureza, não pode sustentar-se indefinidamente, torna-se necessário buscá-la de forma crescente. Multiplicam-se encontros, retiros, congressos e vigílias que, embora variem em nomenclatura e estética, reproduzem estrutura substancialmente idêntica.

As pregações frequentemente ilustram esse mecanismo. Iniciam-se com uma passagem bíblica, um tema moral ou alguma referência doutrinal, mas gradualmente abandonam o desenvolvimento intelectual para deslocar-se ao campo afetivo: conflitos familiares, culpa sexual, carências paternas, traumas, rejeição, necessidade de pertencimento. Não há aqui problema em reconhecer a dor humana — a Igreja sempre o fez —, mas em transformar sistematicamente a experiência religiosa num circuito de indução emocional previsível, repetitivo até a exaustão.

O conteúdo doutrinal deixa de constituir o centro ordenador e converte-se em mero gatilho narrativo para produção de resposta psíquica. A teologia já não ilumina a experiência; passa a legitimá-la retrospectivamente.

A consequência mais grave talvez seja justamente o empobrecimento doutrinal. O fiel, embora frequentemente muito ativo e sinceramente engajado, permanece catequeticamente infantilizado. Aprende a identificar fé com intensidade, oração com emoção, presença de Deus com consolo sensível, comunidade com fusão afetiva e conversão com adesão grupal.

Existe uma Igreja que muitos desses jovens jamais conheceram. Uma Igreja anterior ao cronograma de retiros, aos palcos iluminados e à pedagogia da excitação permanente. Uma Igreja de silêncio, inteligência, liturgia, direção espiritual, leitura paciente, noites interiores e perseverança sem aplausos. Uma Igreja em que a ausência de consolo não é sinal de abandono, mas frequentemente o início da maturidade. A pergunta proibida é: que Igreja é essa que eu não conheço?

Ao invés de ser introduzido à vastidão da tradição católica — Padres da Igreja, doutores, escolas espirituais, liturgia, mística, filosofia cristã, lectio divina, silêncio contemplativo, vida sacramental profunda — vê-se funcionalmente limitado a um repertório estreito de experiências repetidas.

Não surpreende, portanto, que muitos desses jovens vivam numa busca incessante por novas experiências capazes de reproduzir a mesma descarga inicial. Mudam-se nomes, slogans, camisetas, pregadores e cidades; preserva-se a mesma estrutura. O evento seguinte promete aquilo que o anterior já não consegue fornecer com igual intensidade. 

Não se fala jamais do silêncio contemplativo, e da dificuldade que é vivê-lo em nossa época de barulho e estimulação permanente. Mas quem disse que seria fácil? Ao se render a oração inquieta, desaparece do horizonte a contemplativa, ao passo que a Igreja sempre admitiu a dificuldade real na tensão entre o mundo e o cristão. No Catecismo, por exemplo, ensina que “A oração passa habitualmente por uma luta.” (CIC, 2725).

Nesse sentido, o problema não consiste meramente em excessos emocionais ocasionais, mas na substituição gradual do desenvolvimento integral da vida cristã por uma pedagogia de dependência afetiva. A formação cede lugar à excitação; o aprofundamento, à repetição; a liberdade espiritual, à necessidade constante de estímulo. São João Paulo II afirma que “a finalidade definitiva da catequese é pôr alguém não apenas em contato, mas em comunhão, em intimidade com Jesus Cristo.” Em absoluta sintonia, Bento XVI diz que “não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa.” Não conhecemos verdadeiramente uma pessoa por um único aspecto. Se pensarmos em nossos amigos, conhecemos suas qualidades, defeitos, medos, aspiração e uma infinidade de sutilezas que, por mais anos que sigam a relação, jamais se esgotam. Assim o é com Cristo: a relação com Ele jamais se escuta, e não se resume a uma única forma de conhecê-lo.

Quando o Catecismo ensina que “o progresso espiritual tende à união cada vez mais íntima com Cristo”, ele afirma justamente que devemos, ao longo da vida, buscar a intimidade nos caminhos que Cristo mesmo nos dá.

A Igreja oferece infinitamente mais. Seu tesouro espiritual não se reduz a uma pedagogia de impacto, mas abarca toda a complexidade do humano elevado pela graça. Nela há espaço para o entusiasmo juvenil, mas também para a paciência monástica; para a música festiva, mas também para o silêncio do coro; para a missão pública, mas igualmente para o recolhimento de uma alma diante do Santíssimo em aridez completa.

Talvez o sinal mais seguro de maturidade espiritual seja justamente este: quando o fiel já não necessita de estímulos extraordinários para perseverar. Quando permanece. Quando reza sem sentir. Quando estuda sem aplausos. Quando serve sem performance. Quando compreende, enfim, que a vida cristã não consiste numa sucessão de experiências intensas, mas numa lenta conformação da alma a Cristo. “Todos na Igreja [...] são chamados à santidade.” Afirma o Concílio Vaticano II. Esse chamado se dá de várias formas, que se apresentam a nós como um oceano: alguns conheceram Jesus na agitação das pregações, outros no silêncio da clausura, mas estes sempre estiveram em contato uns com os outros. Santa Teresinha escrevia cartas de dentro do convento. Inúmeros foram aqueles que visitaram Santo Antão em busca de orientação. Embora bispo, Santo Agostinho é profundamente contemplativo, e o mesmo se diz de Santo Tomás que, na universidade, enquanto escrevia e ditava diversas obras ao mesmo tempo, jamais abandonava a oração e nem a ação, com efeito, foi no mesmo espírito que escreveu a Suma Teológica, que ele compôs os mais belos hinos eucarísticos da Igreja.

Engenharia Religiosa: Manipulação e empobrecimento da Fé na Igreja Católica I

O Jardim das Aflições (1995) é uma das principais obras  do Prof. Olavo de Carvalho, articulada a partir de uma conferência sobre a presença do Estado na liberdade individual, elabora uma crítica densa à modernidade, conectando a filosofia de Epicuro ao que ele descreve como a expansão do poder estatal e a asfixia da vida intelectual. O livro percorre temas que vão da história das ideias à psicologia, argumentando que o projeto da modernidade ocidental conduz a um coletivismo que degrada a consciência individual e a busca pela verdade transcendente.

O obra circula ao redor da a ideia de "Império Romano" não apenas como um período histórico, mas como um arquétipo político que se repete. Para ele, a história do Ocidente é marcada pela tentativa recorrente de restaurar a unidade imperial romana, a Pax Romana, onde o Estado se torna o centro organizador de todos os aspectos da vida humana.

O autor argumenta que essa estrutura imperial ressurge sob diferentes máscaras (como o Sacro Império, o Imperialismo Napoleônico ou o Globalismo moderno), mas sempre com a mesma característica: a absorção da esfera espiritual e intelectual pelo poder político. Nessa visão, o "Império" é o esforço de criar um paraíso terrestre (o jardim) que, ao tentar controlar a realidade e eliminar o sofrimento por meio da administração estatal, acaba por gerar a "aflição" ao sufocar a liberdade e a consciência individual.

Como já tratei em outras oportunidades, as Novas Comunidades,  como Colo de Deus, Samaria,  Fraternidade São João Paulo II, Missão Recado, dentre tantas outras que, a nível diocesano ou até nacional, trazem sempre em seus números impressionantes conquistas na, dita, evangelização. Que não se trata de evangelização verdadeira acho que já o tratei suficientemente, no entanto, há muito ainda a ser explorado para que possamos compreender o fenômeno que domina quase hegemonicamente a mentalidade dos nossos jovens católicos.

Em O Jardim das Aflições, Olavo de Carvalho mostra como técnicas de persuasão e manipulação de consciência são usadas no meio politico. A pesquisa é toda dele, o que eu fiz foi apenas aplicar o dito no recorte religioso, especificamente o brasileiro. 

O contato prolongado com determinado grupo social torna o homem mais próximo do pensamento que domina esse mesmo grupo. Com as Novas Comunidades não poderia ser diferente. Meu último artigo buscou mostrar justamente como se dá, por meio de diversos aparatos de sugestão e manipulação, na mentalidade dos jovens. Aqui, quer retroagir para tornar ainda mais compreensível que essas técnicas não surgiram do nada, bem como seus objetivos não foram alcançados sem uma ação premeditada. O primeiro ponto a ser notado é que o convívio com esses grupos, que possuem linguagem própria e estrita, tornam por tornar a mentalidade de seus membros incapazes de conceber algo que sai da esfera de comunicação. Se eles não falam sobre, não existe. 

O homem moralmente embotado já não consegue “sentir” a bondade ou maldade intrínseca de seus atos. Embora conheça perfeitamente as normas sociais que aprovam ou desaprovam certos comportamentos, ele não as vê senão como convenções mecânicas, e pode até continuar a obedecê-las exteriormente por mero hábito, mas sem pensar sequer em lhes aderir de coração. Ao frequentar os eventos, shows, reuniões e retiros, esses jovens cada vez mais alinham sua mente ao pensamento grupal, o restante da vida eclesial torna-se completamente estranho. A doutrina universal perde-se nos discursos da comunidade.

Como a inteligência humana não opera no vazio, mas apenas elabora e transforma os dados que recebe da esfera sensível, é natural que, quando um homem já não sente a realidade de alguma coisa, o conceito dessa coisa, o esquema que corresponde a ela no plano da inteligência abstrata, logo comece a lhe parecer também vazio de sentido. Nessas horas, somente a um autêntico filósofo ocorrerá tomar consciência do seu depauperamento interior e sair em busca do sentimento perdido, para dar vida nova ao conceito. A maioria simplesmente adaptará o conceito ao estado atual da sua alma. É por isso que os fiéis se tornam cada vez mais e mais homogêneos em ação e pensamento. No homem sem maiores interesses morais, o conceito esvaziado não tem mais função, e será simplesmente esquecido. Mas, se esse homem for um letrado, ele não suportará ser o único a sentir como sente. 

Nos membros da comunidade, tudo gira apenas e tão somente ao carisma da mesma. A forma de falar e até os cacoetes mentais, bem como os aspectos mais externos e superficiais: a forma de vestir, as músicas, a forma de decorar encontros, reuniões... Eles até podem participar de uma vida paroquial, mas a verdadeira vida espiritual é apenas aquela que a comunidade lhe dá;

O que intriga é: como um homem de personalidade normal pode ser transformado de tal maneira que seu senso moral se torne idêntico ao de um sociopata de nascença? Como se pode inocular artificialmente a perversidade moral? Pois é óbvio que, se não existisse esta possibilidade, determinados movimentos sociais e políticos só poderiam recrutar seus adeptos nos hospitais psiquiátricos e jamais passariam de clubes de excêntricos. Como disse no meu último artigo sobre esse tema, esses jovens não possuem ainda nenhuma defesa intelectual e psicológica, muito menos teológica, coisa nem os adultos possuem. Por isso que são atacados em idade tenra, quando são incapazes de perceber o que está acontecendo.

Não há talvez no mundo um setor de pesquisas em que governos, partidos políticos, organizações religiosas e pseudo-religiosas, empresas e sindicatos tenham investido mais do que no dos meios de subjugar a mente humana. Como observa Olavo de Carvalho, o século XX legou um verdadeiro arsenal de técnicas voltadas à modelagem do comportamento e da percepção humana, cujo refinamento supera, em alcance e eficácia social, grande parte dos avanços técnicos de outros campos.

O desenvolvimento dessas ferramentas não se deu de modo casual ou disperso. Ainda no final do século XIX, Gustave Le Bon já observava, em sua Psicologia das Multidões, a transformação qualitativa do indivíduo ao ser absorvido pela massa, tornando-se mais suscetível à sugestão, ao contágio emocional e à perda de discernimento individual. Décadas mais tarde, Edward Bernays, aplicando princípios da psicanálise ao campo da publicidade e da opinião pública, consolidaria as bases da propaganda moderna ao demonstrar que desejos, hábitos e decisões coletivas poderiam ser moldados por meio da manipulação indireta de símbolos, impulsos e afetos. Não por acaso, tais descobertas rapidamente ultrapassaram o âmbito comercial, tornando-se instrumentos privilegiados de engenharia social e política nos regimes totalitários do século XX, nos quais a mobilização das massas já não dependia exclusivamente de coerção física, mas da fabricação de adesão psicológica e imaginária.

Longe de permanecerem restritos a laboratórios, arquivos militares ou círculos acadêmicos, esses conhecimentos foram progressivamente incorporados ao cotidiano, tornando-se instrumentos correntes em campanhas eleitorais, publicidade comercial, movimentos ideológicos e organizações de massa. A sociedade contemporânea não apenas conhece mecanismos sofisticados de influência psíquica: ela os integrou à própria normalidade de suas relações simbólicas, comunicacionais e institucionais.

Tal normalização produz um efeito particularmente relevante: a erosão gradual da capacidade de discernimento sob exposição contínua a estímulos fragmentados, repetitivos e emocionalmente dirigidos. O indivíduo moderno é submetido a um bombardeio quase permanente de imagens, slogans, narrativas e experiências calculadas para suscitar respostas previsíveis, predispondo as massas a estados psicológicos de adesão acrítica, ansiedade difusa e dependência simbólica.

A coisa que mais impressiona o estudioso do assunto é a onipresença da manipulação da mente na vida contemporânea. Sem ela, os grandes movimentos de massa que marcam a história do século simplesmente não teriam podido existir.

É impossível imaginar o que teria sido da propaganda comunista sem os reflexos condicionados e sem a lavagem cerebral inventada pelos chineses; o que teria sido do fascismo e do nazismo sem a técnica da estimulação contraditória com que esses movimentos desorganizavam a sociedade civil; como teriam se desenrolado os dois conflitos mundiais e dezenas de conflitos locais e revoluções sem o uso maciço da guerra psicológica; o que teria sido dos governos ocidentais e dos grandes empreendimentos capitalistas sem o controle do imaginário e a “modificação de comportamento” que exercem sobre populações que não têm disto a menor suspeita; que fim teriam levado as organizações esotéricas e pseudo-esotéricas e o movimento da New Age sem as técnicas de hipnose instantânea e comunicação subconsciente com que reduzem à escravidão mental seus milhões de discípulos em todo o mundo; qual teria sido a sorte da indústria das comunicações de massas sem o uso da influência subliminar pela qual reduzem à passividade mais idiota o público jovem de todos os países.

Se retirássemos, enfim, do panorama histórico do século XX as técnicas de manipulação da mente, nada teria podido acontecer como aconteceu. Elas foram seguramente mais decisivas, na produção da história contemporânea, do que todas as outras técnicas concebidas em todos os outros domínios, incluindo a bomba atômica e os computadores. Elas estão entre as causas primordiais do acontecer histórico no nosso tempo, e no entanto os historiadores continuam a ignorá-las.

No homem hipnotizado, a maioria das funções psíquicas continua operando normalmente. Ele fala, raciocina, recorda e sente como se estivesse desperto. Apenas uma função é suspensa: o juízo reflexivo que, retornando sobre os conteúdos da representação, os julga como efetivos ou possíveis, verdadeiros ou falsos, verossímeis ou inverossímeis, prováveis ou improváveis. Dito de outro modo: o hipnotizado sabe distinguir entre imagens, mas não sabe julgar o valor cognitivo das imagens.

*Guardadas as proporções clínicas, interessa aqui não a hipnose em sentido estrito, mas a analogia funcional. Certas dinâmicas coletivas contemporâneas parecem operar precisamente mediante a suspensão parcial do juízo reflexivo, privilegiando adesão emocional, repetição simbólica e experiência intensiva em detrimento da análise conceitual.*

Quanto mais profundo o transe hipnótico, mais dificultoso se torna o juízo de valor cognitivo, até que se chegue à completa despersonalização.

No campo religioso, esse fenômeno adquire potência singular. Diferentemente da publicidade ou da propaganda política, a religião opera sobre disposições naturalmente abertas ao mistério, ao pertencimento e à transcendência. Quando técnicas modernas de mobilização afetiva se infiltram nesse ambiente, o resultado não é apenas influência psicológica, mas uma possível reconfiguração da própria experiência de fé, deslocando-a do eixo contemplativo, doutrinal e sacramental para formas intensificadas de adesão emocional e identidade coletiva.

Se o século XX aperfeiçoou técnicas cada vez mais sofisticadas de influência psíquica, uma de suas formas mais eficazes talvez tenha sido justamente aquela que não busca convencer pela coerência, mas desarmar a inteligência pela saturação e pela contradição. Mais do que transmitir uma ideia específica, trata-se de produzir um estado mental em que a exigência de verdade se torna secundária, substituída pelo conforto emocional, pela acomodação psicológica ou pela mera adesão funcional.

Olavo de Carvalho identifica nesse mecanismo uma tendência moderna ao embotamento voluntário da inteligência: não importa tanto se uma explicação é verdadeira, coerente ou suficiente, mas se ela é capaz de reduzir tensões internas, eliminar angústias e oferecer ao indivíduo uma sensação imediata de estabilidade psíquica. Nesse contexto, explicações contraditórias podem coexistir sem gerar desconforto cognitivo, desde que cumpram sua função tranquilizadora. A contradição deixa de ser percebida como problema e passa a integrar o próprio ambiente psíquico do indivíduo contemporâneo.

Tal dinâmica não se limita ao plano filosófico ou cultural, mas encontra respaldo em práticas psicológicas e comunicacionais concretas. Diversas abordagens terapêuticas e comportamentais contemporâneas passaram a privilegiar menos a investigação racional do sofrimento e mais a reorganização subjetiva da experiência por meio da manipulação de imagens mentais, narrativas internas e respostas emocionais. Em vez de confrontar o sujeito com a inteligibilidade do real, busca-se frequentemente apenas reduzir sintomas pela reformulação perceptiva da experiência.

A lógica é simples: se determinada representação mental produz alívio, sua adequação à realidade torna-se secundária. O que se procura não é conhecimento, mas funcionalidade psíquica. Nesse sentido, observa-se uma passagem gradual do ideal clássico de formação da inteligência para um paradigma de gestão emocional da consciência.

Esse deslocamento alcança expressão particularmente refinada nas técnicas modernas de comunicação e persuasão. A Programação Neurolinguística, por exemplo, ao operar mediante padrões sutis de linguagem verbal e não verbal, busca contornar as barreiras críticas do interlocutor e influenciar diretamente seus estados emocionais, disposições internas e processos decisórios. Seu funcionamento não depende prioritariamente da força argumentativa, mas da modulação indireta da percepção e da resposta afetiva.

Não se trata, portanto, de mero charlatanismo ou superstição pseudocientífica. O êxito dessas técnicas reside precisamente em sua eficácia prática. Como já alertava a revista Science Digest em 1983, a disponibilização indiscriminada de ferramentas como a PNL representava o risco de converter tecnologias legítimas de comunicação em instrumentos de manipulação interpessoal e controle social.

O aspecto decisivo, porém, não reside apenas na possibilidade de induzir comportamentos específicos, mas na gradual habituação da consciência a operar sob regimes de contradição administrada. Quando exposto continuamente a mensagens, estímulos e experiências mutuamente incompatíveis, porém emocionalmente gratificantes, o indivíduo perde progressivamente a sensibilidade intelectual ao contraditório.

É precisamente esse estado de dessensibilização cognitiva, aqui entendido como efeito da estimulação contraditória, que interessa ao presente ensaio. Mais do que erro doutrinal ou deficiência formativa, ele constitui uma alteração prática do modo pelo qual o sujeito percebe, organiza e julga a realidade, tornando-se progressivamente mais suscetível a estruturas simbólicas fundadas em intensidade afetiva, repetição e pertencimento.

Falemos de maneira clara: é no ambiente juvenil que tais mecanismos encontram talvez seu terreno mais fértil. Não por acaso, encontros de jovens, retiros, festivais religiosos e mesmo determinadas celebrações litúrgicas passaram a operar mediante uma linguagem cuidadosamente estruturada para produzir catarse emocional intensa e sincronização afetiva coletiva.

Nesses ambientes, a dinâmica é relativamente previsível. Em momentos chamados de “animação”, geralmente marcados por músicas festivas, coreografias e forte estímulo corporal, os participantes são conduzidos a estados de excitação coletiva nos quais cantar, pular, levantar os braços e repetir palavras de ordem se tornam respostas quase automáticas. Em seguida, o registro pode mudar abruptamente para tonalidades penitenciais ou intimistas: iluminação reduzida, música lenta, fala pausada, apelos emocionais e convites ao recolhimento, ao choro e à exteriorização pública da vulnerabilidade.

Essa alternância entre excitação e recolhimento não é neutra. Ela opera precisamente pela produção de estados emocionais intensificados e sucessivos, predispondo os participantes à receptividade máxima. Temas recorrentes como conflitos familiares, ausência paterna, carência afetiva, culpa sexual, ansiedade, solidão e baixa autoestima são frequentemente mobilizados como gatilhos de identificação imediata. Considerando-se que o público-alvo dessas iniciativas é majoritariamente composto por adolescentes e jovens adultos, sujeitos ainda em processo de consolidação identitária, afetiva e espiritual, o impacto dessas práticas torna-se ainda mais significativo.

Em muitos casos, práticas simbólicas coletivas aprofundam esse processo. Não são raros exercícios nos quais figuras representativas de pai e mãe são colocadas diante da assembleia, seguidos de pregações sobre abandono, perdão, feridas emocionais e reconciliação familiar, culminando em convites para abraços ritualizados ou outras formas públicas de descarga afetiva. Embora tais experiências sejam frequentemente descritas como belas ou transformadoras, sua estrutura suscita questões importantes. Trata-se, em última análise, de mobilização emocional em larga escala sobre conteúdos psíquicos profundamente individuais, frequentemente relacionados a traumas, conflitos familiares e vulnerabilidades que pertencem propriamente ao âmbito do acompanhamento psicológico particular.

O problema não reside na emoção em si, tampouco na possibilidade legítima de experiências religiosas intensas, mas na transformação sistemática da afetividade em principal via de adesão e validação da experiência espiritual.

Tal dinâmica se torna ainda mais delicada quando associada à formação religiosa precária que caracteriza parcela significativa do público envolvido. Muitos jovens chegam a esses ambientes sem catequese minimamente sólida, sem repertório doutrinal básico e sem familiaridade com a tradição intelectual, ascética ou litúrgica da Igreja. Em tais circunstâncias, a experiência subjetivamente intensa passa a ocupar, na prática, o lugar de critério de autenticidade religiosa. Depois dessas experiências, muito raramente buscam uma formação mais sólida ou sequer consideram enxergar a Igreja sob um ponto de vista mais amplo

A consequência é uma inversão silenciosa, porém decisiva: já não é a verdade objetiva da fé que interpreta e ordena a experiência, mas a intensidade da experiência que passa a validar subjetivamente a verdade da fé. Forma-se, assim, um ambiente especialmente propício à dessensibilização crítica descrita anteriormente. A coerência doutrinal, a inteligibilidade teológica e a organicidade litúrgica tornam-se progressivamente secundárias diante da capacidade de determinada prática produzir sensação de pertencimento, consolo psíquico ou impacto emocional imediato.

O uso disseminado e não refletido de tais mecanismos arrisca produzir efeitos que ultrapassam o âmbito estritamente religioso. Quando a manipulação emocional passa a ser percebida como linguagem pastoral ordinária, corre-se o risco de legitimar formas sutis de influência psicológica como meios normais de condução humana. Nesse cenário, sinceridade, prudência e discernimento cedem espaço à eficácia emocional e à administração estratégica de estados psíquicos coletivos.

Mais grave ainda: quando tais dinâmicas deixam de ser percebidas criticamente inclusive por agentes formadores, lideranças e intelectuais religiosos, enfraquece-se a própria capacidade institucional de reconhecer o problema. A ausência de resistência conceitual ou prudencial não elimina o fenômeno; apenas o torna mais difuso, mais naturalizado e, por isso mesmo, mais difícil de diagnosticar.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Qualquer coisa

Aquela conversa era uma troca de provocações. Mesmo que ele, talvez não desse conta disso completamente. Dois homens com tesão falando sobre isso o dia todo. O pau torando nas calças e a gente fingindo que não está pensando em sexo o dia todo. 

Acho que os homens são assim. Ao menos a maioria deles. Alguns devem se concentrar em ganhar dinheiro, ser ou parecer bem sucedido mas, no fim do dia, parece que tudo é feito com o objetivo de comer alguém. E talvez seja mesmo.

Ele queria enfiar os dedos em alguma garota, descontar o acumulado, enquanto chupa com ferocidade os peitos dela. Eu queria colocá-lo no meu colo, bater uma pra ele até ver aquele rostinho claro ficar vermelho, e cuspir porra por toda parte. 

Ele não tem ideia, ou finge, do quanto seria bom se me deixasse fazer isso.

Talvez tenha passado o dia olhando pra uma planilha estúpida no computador, com mente no tesão que passava como eletricidade percorrendo seu corpo. Eu passei o dia me retorcendo na cama, enlouquecido com cada coisa que ele me dizia, como quando disse que ficara completamente pelado ao chegar do trabalho, ou como ia bater punheta em todos os cantos da casa pra aliviar a coisa. 

Os momentos de luxúria ensandecida se dividem com a apatia de cada dia. Ao mesmo tempo que sentia o calor do quarto aumentar por minha causa, se abria os olhos, ainda vi tudo coberto por uma fina camada de poeira, um véu me separando de tudo o mais.

Que droga! 

É um desperdício que toda aquela porra seja jogada fora. Eu engoliria tudo, e o beijaria, e isso o deixaria louco, e então faríamos como animais, meus dedos em seu rabo, seu pau na minha boca, até cairmos para o lado, exaustos. 

Talvez ele pense nisso hoje à noite, antes de bater mais uma pensando naquela garota sem graça. Eu não sei se vou me forçar a assistir outra noite triste e, em vão, tentar dormir amanhã. Os dias têm sido um saco. Muito barulho, insuportável. 

E às vezes, na maior parte das vezes, nem consigo ouvir muita coisa. É como se tudo, mesmo que ao meu lado, estivesse distante. Ouço como se fosse ao longe, minha anuviada, e ainda assim muitas vezes me encho de fúria.

Por isso eu prefiro voltar a pensar em como seria se estivesse lá com ele. Talvez também ficasse distante de tudo o mais, apenas ciente e consciente de sua presença.

No banho, fitaria seu corpo branco cheio de marcas dos meus lábios. Passaria sabão pelo seu corpo, com uma mão, e a outra já no meu pau. Não tem problema, homens não ficam satisfeitos facilmente. Nunca é demais. Daria a ele mais uma punheta gostosa, antes de me virar de costas para ele empinar a bunda, o rabo pronto pra receber seu cacete, que já estava duro. Ele mete devagar, não é tão grande mas é bem grosso, e parece me rasgar, me fazendo gemer e sorrir. Porra, que moleque gostoso! E ele começa a bombar mais rápido, gozou dentro de mim, encostando a cabeça nas minhas costas. Me viro e gozo no seu pau, olhando mais uma vez as marcas. 

Ficariam ali por semanas: 

lembrança de que eu estive ali e fiz meu aquele corpo, daquele cara que, como eu, pensa em sexo o tempo todo. 

Depois cada um vai pra um lugar, faculdade, caminhar pela rua e pensar no vazio. Aula de estatística e energético. Eu sentaria pra ouvir música e tomar uma cerveja. 

Qualquer coisa assim. 

O chá que fiz ficou fraco, e esfriou logo. Acho que perdi o jeito. O de ontem tinha gosto de terra. Os remédios pra dormir já não ajudam mais. Não tenho bebido, pois com os remédios a ressaca é sempre horrível. Não sei o que fazer. Cada dia me sinto mais perdido, até mesmo ao conversar com um cara assim e falar bobagens. 

Será que eu só quero sexo? Quando penso em alguém, só consigo pensar nisso. Conhecer uma pessoa, me aproximar, tudo isso é muito chato, me cansa só de imaginar. Acho que, depois da última vez, quando ouvi algumas das piores palavras da minha vida, não sou mais capaz de amar. Finalmente. Amar é uma droga ou, como disse o velho Buck: o amor é um cão dos diabos.

Não vou tomar banho com ninguém. A única interação será com desconhecidos dos vídeos na internet. Um pouco de vento nessa noite, mais ou menos fresca, em que vou dormir sem saber se quero dormir, assistir, ou simplesmente desaparecer. 

Passei mais um chá, preto, e dessa vez não ficou tão ruim. Mas nunca mais senti o sabor como antes. Começou a chover um pouquinho. O calor podia finalmente dar uma trégua de alguns meses, mas no jornal disse que volta a ficar quente ainda essa semana. Droga!

"talvez o amor seja sexo. talvez o amor seja uma tigela de mingau. talvez o amor seja um rádio desligado." (Charles Bukowski)

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Sentindo falta

Tenho sentido falta dos amigos.

De vez em quando, de quando em vez, me surge algo que chama a atenção, em meio a apatia de alguns episódios depressivos. São raros. Lampejos de luz.

Isso porque, nesses dias, é tudo escuridão. Silêncio e escuridão. Não é exatamente tristeza, porque isso já seria alguma coisa. É mais como se nada tivesse graça. Aos poucos tudo vai ficando assim, sem graça, vazio, sem contorno.

Por fora, parece desinteresse, ou ingratidão. E uma vez mais eu vejo as pessoas se afastando. Porque eu não consigo ser como elas. Eu não consigo sair quando elas querem. Não fico feliz com as mesmas coisas. Outros pensam que eu estou com preguiça, ou irritado. 

Tento assistir algo... 
E não me prende. Os homens bonitos parecem não ser tão bonitos assim. 

Tento descansar... 
E não descanso.

Tento ouvir música... 
E só percebo que ela não me tocou mais, quando ela acabou. 

Tento puxar assunto... 
E as coisas não fluem, e isso é uma das que mais machucam. 

É como se a vida, de todos, continuasse, mas eu não consigo alcançar. 

Me lembro das coisas que aprendi com a terapia no último ano, em tratamento no CAPS. No transtorno bipolar, especialmente em fases depressivas, isso pode acontecer porque o cérebro reduz a resposta ao prazer, à motivação e ao interesse. Ou seja: Não é que nada presta, é que naquele momento, o sistema emocional não está conseguindo registrar as coisas do mesmo jeito. E esse detalhe muda tudo porque quando você entende isso, você para de se atacar por “não aproveitar a vida”… e começa a agir com estratégia. O que costuma ajudar nesses momentos: Reduzir a meta do dia; Criar pequenos momentos; Manter algum contato com o mundo; Não esperar vontade para começar; Proteger sono e rotina; Repetir pequenas ações até o prazer reaparecer. 

Na depressão bipolar, a vontade nem sempre vem antes. Muitas vezes ela volta depois da ação consistente. E então eu insisto naquela série que lembro que me fez bem quando vi. Naquele sorriso, naquela história. 

Mas, isso foi o que aprendi. Ou talvez não tenha aprendido, porque ainda não consigo fazer assim. A vida parece continuar, mas não pra mim. As coisas perdem a cor, tudo que resta é a sensação do suor na minha cama. Sei que devia tomar um banho. Mandar alguma mensagem. Abrir a janela e deixar o ar do outono renovar um pouco aquele peso úmido do verão. 

Eu sinto saudades das pessoas, dos amigos, é verdade. Não é que elas parecem sem graça, eu é que não consigo acompanhar. E então o silêncio delas, machuca. Mas eu não consigo responder, não consigo... Me conectar. Nada parece valer o esforço. Mas eu sinto falta dos amigos. Sair dá trabalho. Me arrumar dá trabalho. Qualquer coisa se torna difícil demais. Mas eu sinto falta dos amigos. 

Quanto mais esses episódios duram, mais eu me afasto de tudo e todos. Os dias em casa se multiplicam. Um fim de semana. Uma semana. Duas. Um mês. E então já faz um ano que saí do emprego. De repente não tem mais pizza depois da missa, e depois nem mais aquela conversa depois da missa. As mensagens diminuem. Os grupos se calam. Mas só pra mim. 

E eu sigo sentindo falta dos amigos. 

E, ainda assim, maybe they just don't give a damn...

“Você acha que sua dor e seu coração partido não têm precedentes na história do mundo, mas então você lê. Foram os livros que me ensinaram que as coisas que mais me atormentavam eram as mesmas coisas que me conectavam com todas as pessoas que estavam vivas, que já tinham estado vivas.” (James Baldwin)

terça-feira, 21 de abril de 2026

Assuntos de Liturgia


Que a CNBB é um órgão que há muito ocupa-se de basicamente falar ao vento dando voltas como farrapos, não é nenhuma novidade para nenhum fiel atento. Não foi uma surpresa quando, durante a 62° Assembleia dos Bispos do Brasil, publicaram uma reflexão acerca dos "Assuntos de Liturgia." Antes melhor seria se continuassem em sua empáfia ignorância do assunto, num caso claro em que, optando pelo silêncio parecendo desconhecer o assunto, preferiram falar e dar a certeza que o desconhecem. 

Como não poderia ser diferente, o apelo à obediência é sempre tomado como pilar onde sustentam, porca miséria, as suas desobediências. Disfarçada de uma suposta preocupação com a evolução do permanente caminhar da reforma litúrgica proposta pelo Concílio Vaticano II, em detrimento de ambos extremos, seja o conservadorismo seco e estéril tanto como a criatividade pessoal que tem, em muitas comunidades, preferência sobre a comunidade celebrante e a fecundidade que a celebração tem sobre esta. Bem, como é fácil perceber, a nota na verdade apenas ataca, com aquele ar de superioridade débil, as comunidades conservadoras, enquanto incentiva, as invencionices da nossa "liturgia brasileira."

"Sob o influxo do Movimento Litúrgico, reconheceram que a forma
ritual, então prevista nos livros litúrgicos, já não favorecia suficientemente o
envolvimento direto, consciente e efetivo dos fiéis. Do mesmo modo, a
ministerialidade então vigente não expressava de maneira adequada a riqueza
da pertença eclesial em sua complexa dinâmica de comunhão, como
manifestação viva da diversidade de membros que compõem o Corpo de Cristo."

Não há esforço algum em afirmar que a liturgia que, por tantos séculos, formou e alimentou a vida de tantos santos, conhecidos ou não, simplesmente, de um dia para o outro, tornara-se obsoleta e, até mesmo, prejudicial à vida da Igreja. Aqueles que, em união como pastores de um só rebanho, deveriam defender, ao custo de suas próprias vidas, como tantos outros fizeram desde o princípio da Igreja, agora a atacam como se todos os séculos estivessem errados e então, depois de dois mil anos caminhando na escuridão de uma ritualística fechada, o Espírito do Concílio, desceu sobre nós despertando então a dinâmica manifestação do Corpo de Cristo.

Apelando ao pontificado do Papa Francisco, e seus esforços para uma celebração efetivamente participativa, não no sentido que aqui entende-se, de que todos devem fazer algo, o que multiplica nas nossas paróquia cada vez mais o crescimento de sub-casta sacerdotal, os assim chamados ministros. Da comunhão (que, não raramente, atuam como acólitos, destruindo uma das mais ricas fontes de vocações da Igreja), da acolhida (que nada mais fazem do que dizer "bom dia", sem nenhum acolhida verdadeira na comunidade) e outros que, sob a desculpa de ajudar o ministério sacerdotal, mais atrapalham do que ajudam.

Voltando ao Papa Francisco, que várias vezes apelou para uma formação que efetivamente colocasse a comunidade ciente da celebração que participam, arrogam para si, não sem razão, a primazia pelo ensino, discernimento e acompanhamento das nossas equipes de liturgia, seguindo, é claro, o Guia Litúrgico-Pastoral da CNBB. Bem, mas os senhores bispos não o fazem, e creio que realmente é melhor que não o façam, se a liturgia aqui definida for justamente a que, sob pretexto de inclusão, apela ao pauperismo simplista (sim, o gerúndio se faz necessário) e torna por transformar nossas assembleias em teatros, mimetismo de religiões afro ou protestantismos, numa massa amorfa que já não se parece mais com nada, mas que acolhe a todos, e confunde a todos igualmente. 

Não esquecem de atacar também, embora sem citar nomes como fizeram numa nota de cunho político poucos anos atrás, por ocasião das eleições presidenciais, o crescente movimento formativo, encabeçado por leigos que, cansados dessa realidade, buscaram nas fontes puras da Tradição, para usar a expressão de São Pio V, o que de fato significa celebrar de modo fecundo. 

"Contudo, essas mesmas comunidades veem-se também confrontadas com
critérios identitários estranhos a esse projeto eclesial, difundidos por pessoas e
grupos que atuam como formadores de opinião e que acabam por interferir na
forma celebrativa de nossas assembleias. O chamado “personalismo identitário”,
que incide diretamente sobre as celebrações litúrgicas, tende, por vezes, a
obscurecer a gratuidade da graça e a primazia da ação divina."

Em tradução ao português isso significa que o movimento conservador fecha e torna a liturgia complexa demais para o povo, não que os desmantelos que se multiplicam mais e mais não o façam, claro. Apenas o tradicional é prejudicial. A reflexão até cita, de passagem, os exageros feitos em nome da inculturação e da inclusão. Mas o faz de modo a não parecer tendenciosa ao leitor mais desatento. Não que um documento de doze páginas em linguagem formal que fala sem dizer claramente o que se pretende dizer, tenha algum alcance. Particularmente conheço bem poucos leigos, que não sejam próximos ou estudiosos eles mesmos dos assuntos eclesiais, que sequer tomem conhecimento desses documentos. A própria Assembleia é uma incógnita. Que os bispos estão reunidos, todos sabem. O motivo? Ninguém faz ideia. Mas aqui temos um bom exemplo: estão reunidos para, arrogando-se mais Igreja do que dois mil anos de Igreja, atacar aqueles que tentam ser Igreja.

Segundo a nota, nossas equipes deveriam ser formadas para, cada vez mais, afastarem-se de toda e qualquer influência pré-conciliar. Como se já não bastasse as profundas modificações já sofridas nos livros litúrgicos. Defende, de modo sutil, que a liturgia pode ser adaptada (leia-se mutilada) ao público que a assiste, mas jamais pode adquirir o caráter solene e sacro que outrora nossos pais celebraram.

"Cabe às Equipes de Liturgia articular os esforços dos diversos ministérios
litúrgicos da comunidade, incluído o ministério da presidência, para que a Liturgia
seja vivida como momento fundante da fé e da identidade eclesial. Elas
cooperam, ainda, para que a celebração não se torne propriedade de ninguém,
mas permaneça claramente como ação de Cristo e da Igreja. Seu serviço se
distingue pela promoção de um estilo celebrativo fiel aos livros litúrgicos, atento à
índole, ao grau de formação, à cultura e à religiosidade do povo, evitando que as
celebrações se submetam a arbitrariedades pessoais ou a modelos estranhos à
reforma litúrgica e à eclesiologia conciliar, frequentemente difundidos de modo
acrítico nas mídias sociais."

O movimento conservador, ao menor litúrgico, se difundiu na internet especialmente após a luz que nos foi dada pelo Santo Padre, Papa Bento XVI, em sua "Reforma da Reforma." Aos poucos os livros tradicionais, os estudos aprofundados de vários elementos, como os movimentos arquitetônicos, o canto gregoriano, a polifonia sacra, e vários outros, são hoje parte do cotidiano de muitos de nós que buscam celebrar cada vez melhor, isto é, usando dos elementos que a Igreja, como Mãe e Mestra, nos ensinou e nos deu como instrumentos de santificação. 

"As Equipes de Liturgia podem tornar-se valiosas aliadas da
pastoral diocesana - cujo primeiro responsável é o bispo - contribuindo eficazmente
para prevenir interferências indevidas de práticas litúrgico-pastorais
desconectadas da realidade local e do projeto eclesial assumido pela Igreja."

Não precisa ser nenhum estudioso para entender o que se diz: não queremos que nenhum de vocês, com inclinações conservadoras, em qualquer grau, interfira na vida das nossas igrejas. Se há alguns parágrafos eles apelavam ao pontificado de Francisco, conhecido pelo acolhimento à diversidade (embora o conservadorismo também fosse excluído ali), nossos bispos defendem justamente que os conservadores não podem, de modo algum, interferir pois, como uma doença a ser combatida, somos profundamente prejudiciais para o projeto eclesial.

Ao passar então para uma defesa de um análise dos quatro principais documentos conciliares que culminam na reforma litúrgica. Criticam a ignorância desses mesmos documentos nos, já citados, grupos conservadores, ignorando eles mesmos que são os seus adeptos mais próximos que carecem de formação teológica sólida, em detrimento de uma formação sociológica que inverte a relação entre comunidade e Igreja, como é facilmente notar ao afirmarem que, somente após o Concílio Vaticano II "a Liturgia voltou a ser reconhecida como realidade constitutiva da Igreja e do próprio fundamento da sua fé, expressão viva do mistério celebrado, e não como simples ornamento ou elemento secundário da vida eclesial." Ignorando, portanto, total e completamente, a forma como era tratada a Liturgia.

Ornamento é, por definição, algo complementar ao essencial. Os brincos e colares são ornamentos da veste que cobre o corpo. Os cristais e quadros são ornamentos da casa que protege. Portanto, como pode um mero ornamento ter tomado tamanha proporção na vida da Igreja de tal modo que nada era tão difundido, incentivado, participado e tido como centro quanto a Santa Missa?

"A introdução de elementos pré-conciliares ou de criatividades individuais
desarticula a coerência da Liturgia e compromete o fluxo vivo da Tradição que os
livros litúrgicos, sob a legítima autoridade do Concílio, se propuseram a restaurar,
reconhecendo a celebração como a primeira e fundamental escola da fé. Tal
prática pode implicar na negação daquela Igreja-comunhão que a forma
simbólico-ritual é chamada a mediar e tornar visível por meio das palavras, dos
gestos, das preces, dos espaços, dos cantos e dos ministérios."

Talvez num deslize aqui o objetivo da nota se faz claro sem rodeios. Qualquer elemento tradicional não dialoga com a Igreja. Não há meio termo. Admite-se que a reforma total não só é absoluta como ainda está em caminhos de extinguir os resquícios que, inconscientemente, possam ter sido transmitidos. A Liturgia pré-conciliar é a lepra que deve ficar de fora da cidade que os bispos querem criar.

Numa nota em tom de superioridade afetada, o conservadorismo é, mais uma vez, ditado como o inimigo a ser derrotado. Como os fiéis não chegam a ler essas coisas, por falta de conhecimento ou estômago, após a Assembleia, nas formações litúrgicas seremos bombardeados com as orientações de nossos bispos, em defesa, mais uma vez, da autoridade episcopal que, existindo, se faz acima de qualquer crítica. E então, qualquer defesa da Fé em sua prístina transmissão tradicional, será posta como farisaísmo, contramão, retrocesso e qualquer outro adjetivo aos quais nossos formadores foram acostumados Que Deus tenha piedade da orfandade da Igreja no Brasil.

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Disponível em: https://www.asli.com.br/restrito/img/downloadss/6a5f352e94d507d267f0bc4b0788eab0.pdf

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Apenas pessoas


“eles não são totalmente bons nem totalmente maus,
são apenas pessoas — e pessoas são um desastre.”  (Charles Bukowski)

Não é nada sério, apenas aquele cansaço depois de ouvir as vozes de muitas pessoas. E então eu me tranco no quarto, não só fingindo que não existem, mas me refugiando num lugar tão escuro e profundo que, em verdade, eles já não conseguem me encontrar.

Cansaço, de pedidos e mais pedidos. De crenças idiotas. De onde tiraram que a Colo de Deus pode salvar a Igreja se eles só podem perder e confundir? A crença permanente de que algo vai mudar. Não vai. Isso é só um expediente falsário usado para tranquilizar a mente que se apavora diante da realidade, crua como ela se aparece.

Choro de criança, mas os adultos são ainda piores.

"Sai daí!"

"Não mexa aí!"

"Volta aqui!"

"Desce daí"

E o som insuportável das musiquinhas que usam para acalmar a criança quando não querem elas por perto.

A guerra declarada contra a beleza. Bauhaus. Também me cansa. Não percebem que mergulham cada vez mais na depressão.

Ou talvez seja apenas eu que acredito que o Belo é sim uma das coisas mais importantes de uma vida.

De todo modo, sejam essas, ou aquelas que só me tratam como enciclopédia, eu estou com preguiça. Me perguntaram se estou bem, mas não era preocupação real, apenas uma convenção boba porque eu não respondi o dia todo. Minha capacidade de responder perguntas é a única coisa que importa aos outros. 

O bolo que tentei fazer não deu certo, deixei cair um ovo no chão, derramei o açúcar, e ainda fico sem gosto. O hamburguer que pedi também não tinha gosto. Ou talvez seja só eu. 

Não quero ver e nem falar com ninguém. Quero a escuridão e o silêncio do meu quarto. 

Apenas. 

“eu estava começando a entender que as pessoas não são algo a ser consertado.
são algo a ser suportado.” (Charles Bukowski) 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Cantemos ao Senhor?

“Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.” (Mt 15,8)

Já no Domingo de Páscoa deste ano da graça de 2026 a internet estava repleta de vídeos dos salmos entoados na Vigília Pascal. A celebração, que acontece na noite anterior, é a mãe de todas as vigílias, proclamando as alegrias da ressureição, bem como a história da salvação do povo de Deus. Revisitando episódios dessa história, a Vigília é repleta de significados e seus textos estão profundamente ligados uns aos outros, tornando o todo uma forma inteligível que permite a contemplação dos mistérios pascais. Por isso ela deve ser preparada com tamanho zelo que permita aos fiéis experimentarem os frutos espirituais desse tesouro da nossa Igreja. Assim ensina o Concílio Vaticano II: “A liturgia é o cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde promana toda a sua força.” (Sacrosanctum Concilium, n. 10)

A Liturgia dessa noite é cheia de detalhes e, como dito, de um simbolismo profundo. O lucernário, que proclama, como os profetas que são lidos alguns instantes depois, anuncia a luz de Cristo e que, com sua chegada, efetivamente se torna a luz do mundo ao iluminar as trevas da noite. A noite escura se torna noite feliz que contempla Cristo ressurgir. Os fiéis se preparam para o sagrado Tríduo Pascal durante as cinco semanas da Quaresma, por meio de exercícios espirituais, do jejum, da oração e das práticas de caridade. Assim vivem a alegria da ressureição com o coração purificado e elevado, de modo a ter mais e mais consciência desse que é o centro e ápice da nossa fé.

É por isso que a Igreja orienta sempre o preparo, o zelo e a formação constante daqueles que estão envolvidos nas celebrações. É apenas por meio de um aprofundamento permanente do mistério eucarístico que podemos, em nossas comunidades, transmitir mais efetivamente a nossa fé. Com efeito, na noite santa em que Jesus rompeu as trevas do pecado e da morte, são batizados os novos cristãos, e a vida cristã continua, alimentada pelos sacramentos e pela Palavra, na caminhada da Igreja rumo ao céu, como aponta o Papa Francisco, na Desiderio Desideravi:  “A formação litúrgica não é simplesmente a aquisição de conhecimentos, mas sobretudo a capacidade de viver plenamente o mistério celebrado. Trata-se de formar o povo de Deus para entrar no mistério e deixar-se plasmar por ele.” (n. 41)

Bem, voltando aos vídeos que pulularam a internet imediatamente após a Vigília, vemos um cada vez mais crescente fenômeno da digitalização das nossas paróquias. Se, antes, havia uma certa impressão coletiva de que missa era coisa de senhorinha desocupada, sendo o correspondente análogo ao senhor desocupado que joga dominó no banco da praça, percebemos que nossas comunidades, longe disso, possuem não só grande efetivo jovem como profissional atuando nas linhas pastorais. Não são poucas as pastorais da comunicação que transmitem e registram suas celebrações com equipamentos e qualidade ímpar, além de músicos de verdadeira habilidade. No entanto, o uso indevido dessa habilidade pode ser justamente a causa de certas inconveniências. 

Não foram raros os registros de salmos cantados com virtuosismo. Mas, nesses momentos, o ambão se tornava antes um palco onde poderiam os cantores extravasarem suas vozes, do que verdadeiramente Mesa da Palavra. Romano Amerio, em seu colossal Iota Unum, expõe a já algo deturpada Liturgia da Palavra que adquiroi, pós-Concílio Vaticano II, igualdade com a Eucaristia, mas aqui a coisa é elevada ainda mais: se na Liturgia Eucarística o sacerdote é aquele que apresenta o sacrifício eucarístico para o bem do povo de Deus, a Liturgia da Palavra se torna momento do protagonismo leigo, de que se tanto tem falado recentemente.

A situação foi vexatória. Com ares daquele estilo de hinódia pentecostal, melismas infindáveis, dancinhas para marcar o ritmo e ritmos exagerados como marchinhas quase carnavalescas, paráfrases e melodias seculares além de, claro notas altíssimas, os shows foram variados Brasil afora. Certamente poderiamos dizer que são ouvintes dos grandes corais ou intérpretes protestantes norte-americanos que, de origem anglicana ou luterana, produziram hinos como Amazing Grace e How Great Thou Art, mas não, infelizmente a influência é apenas dos nomes da música gospel nacional que, numa manobra pérfida das novas comunidades pentecostais, transformaram nossas assembleias em plateias inertes do sequestro da Palavra de Deus. Se no Êxodo o povo aclamou a Deus convocando "cantemos ao Senhor que fez brilhar a sua glória!" (Ex 15, 1), nas nossas paróquias ouvimos apenas a glória dos que queriam aparecer.

Em outro momento já cheguei a tratar da questão do canto litúrgico, bem como da influência maléfica das ditas comunidades nas nossas paróquias, mas é sempre bom relembrar, ainda que em linhas gerais, o papel do canto litúrgico, bem como o lugar especialíssimo dos salmos nas nossas celebrações. O ponto principal é que “a música sacra será tanto mais santa quanto mais intimamente estiver unida à ação litúrgica, quer exprimindo mais suavemente a oração, quer favorecendo a unanimidade, quer enriquecendo de maior solenidade os ritos sagrados.” (Sacrosanctum Concilium, n. 112)

Os salmos, sendo bíblicos, tornaram a base sobre a qual se ergueu todo o canto litúrgico da Igreja Católica, não apenas nesse âmbito mas também a música profana (no sentido secular do termo, não pejorativo) bebeu dessa fonte desde muito cedo. “Os salmos são o canto da Igreja; neles a própria Igreja fala com Cristo e de Cristo” ensinava Santo Agostinho.

São os salmos que ditam parte do ritmo celebrativo: os penitenciais lamentos ouvidos na Quaresma, como o Miserere (Sl 50) e o De Profundis (Sl 130), não apenas condensam o espírito desse tempo, é a partir deles que os demais textos vão se desenrolando, tornando assim a Liturgia uma vivência profunda da Igreja que, no mundo todo, percorre o mesmo caminho. É deles que brota a inspiração para todo canto verdadeiramente litúrgico. Com efeito, tanto o Gradual Romano quando o Gradual Simples trazem, em sua totalidade, antífonas intercaladas com salmos e, em algumas ocasiões, versículos de outras partes da Sagrada Escritura, intercalados ou emoldurados pelos salmos. 

“O salmo responsorial, que se segue à primeira leitura, é parte integrante da liturgia da Palavra e tem grande importância litúrgica e pastoral, pois favorece a meditação da Palavra de Deus.” (IGMR, n. 61). No momento específico da Liturgia da Palavra, o Salmo Responsorial, restaurado em sua forma à pedido do Concílio Vaticano II, é intercalado por duas leituras, servindo como ponte para que, aprofundando o espírito de entendimento, possamos chegar ao Evangelho, no ápice da Revelação, com a devida meditação da Palavra. 

Bem, a resposta na internet aos desmantelos da Vigília Pascal foi imediata. É uma graça que tantos tenham despertado para a necessidade de uma celebração digna, zelosa e, no mínimo, obediente. Mas é claro que eles não são os únicos. As opiniões foram diversas, com o grupo protestante, que ainda não percebeu que o é, e que legitima essa expressão litúrgica como reflexo de um tempo de avivamento (o uso da expressão teológica e historicamente protestante não é coincidência). De outro lado ainda vinham os apóstolos das boas intenções defender que no serviço eclesial, seja ele qual e como for, já basta a intencionalidade para servir. É bem verdade que toda obra divina se opera no homem a partir de sua disponibilidade, não por condicionamento do homem mas por respeito à sua liberdade, mas, ainda assim, é a partir da abertura à graça, e não na disponibilidade como fim ao invés de meio. Para esses, qualquer um que esteja servindo, do jeito que for, já está certo. De nada valem ou importam formações, no nível técnico daquilo que se faz como no sentido espiritual.

Talvez esses comentários sejam os mais toscos. São sempre coisas do tipo "será que esses que estão criticando também estão servindo?", num tom zombeteiro de que estar ali já basta por si só, e ignorando o fato de que todo ministério na Igreja, sempre foi, executado depois da devida preparação. Até mesmo os cristãos dos primeiros séculos, já que esse discurso também é sempre um ataque ao movimento conservador como sendo proponente de um excessivo apego a estética medieval, sem levar em consideração o apego atual à estética, diga-se brega, protestante, somente viviam efetivamente como cristãos depois de uma preparação por algum cristão que já vivia sua fé. O Sacramento da Confirmação e a Profissão de Fé que são comuns hoje são, em verdade, memória das profissões públicas de conversão cristã. Ninguém é cristão sem preparo, e é verdade que Cristo mesmo pode fazê-lo, mas aqui observamos apenas uma desculpa para a indolência dos músicos. Por experiência própria, como músico inclusive, sei que estes estão sempre entre os mais arrogantes das nossas igrejas justamente pela ideia do "só eu sei fazer então faço como eu achar melhor." E nossas assembleias que lutem.

Vejam bem, preparo não significa somente a busca pela excelência técnica, também isto, mas é a busca pelo melhor servir, e na Igreja quem define isso é o Magistério. Não é uma exclusão do simples ou do habilidoso, mas um apontamento para a falta de norte. A Igreja ensina que o canto gregoriano é seu canto por excelência e tão mais litúrgica será uma composição quanto ela se aproximar desse gênero tão sublime. O simples pode cumprir seu dever e buscar melhorar. Aquele que sabe cantar bem pode, e deve, por obrigação moral inclusive, buscar adaptar o canto ao mais apropriado ao momento. Ninguém entra num bar ou no churrasco do fim de semana e pede para tocar Beethoven ou Mozart. Mas na igreja somos obrigados a ouvir sertanejo e gospel como cativos.

Infelizmente parece que o movimento de crescente conscientização não veio de cima. Com efeito não encontramos orientações de bispos e nem de padres, com raras exceções, que busquem acompanhar e orientar de perto as suas equipes nas celebrações. Em nada a liturgia parece ocupar o espaço prioritário que a Igreja ensina. Estamos órfãos. Até mesmo entre as linhas leigas, mas de grande alcance, notamos um medo em lidar com a arrogante empáfia dos músicos. 

Um exemplo disso foi o do maestro Delphim Rezende Porto, atuante em todo o Brasil e condecorado por sua atuação na pastoral litúrgica publicou, em seu perfil no Instagram, apenas um breve vídeo dizendo que a música deve ser apenas lida pela sua concordância com o espírito da comunidade, o que ele descreve como cumpridora ou não do seu objetivo, e ainda chega a debochar dos que dão os primeiros passos no canto gregoriano. Em última análise, ele diz que, se uma assembleia está acostumada com o estilo protestante, não tem problema cantar esse estilo, já que o gregoriano, por exemplo, destoaria de tal modo que ali já não serviria para levar o povo a melhor rezar, por não fazer parte da sensibilidade daquele povo. Não duvido do conhecimento do maestro mas nem por isso deixo de notar que sua análise está errada ou, no mínimo, incompleta. A sensibilidade, tal qual a Igreja nos instrui, é ensinada, a catequese serve para isso, a mistagogia serve para isso.  

Aqui se encontra também fenômeno recente da onda crescente das mídias digitais: a subserviência pastoral. O maestro Delphim atua numa das maiores arquidioceses do país, e seu conteúdo é conhecido para muito além da mesma, mas justamente por isso ele não pode dizer o que pensa sem ser podado pelas autoridades, leia-se os bispos, ou acusado de desobediente, resultando em pena pastoral e descrédito. Mesmo sabendo que, no Brasil, as pessoas só invocam a obediência ao bispo local quando convém. Fenômeno parecido aconteceu com O Catequista. Anos atrás o casal de catequistas Alexandre e Viviane Varella, que assinam o blog, e que hoje são credenciados na Sala de Imprensa da Santa Sé, não tinham papas na língua ao denunciar desmantelos na Igreja do Brasil. Me recordo das muitas postagens sobre as picaretagens protestantes, as denúncias contra a Teologia da Libertação, com o que eles chamaram de "Catequese de Boteco", isto é, catequese real com uma linguagem acessível, não no sentido dúbio ao que estamos acostumados, mas no sentido comum de falar sem rodeios e sem mascarar a verdade. Infelizmente, depois do crescimento do seu apostolado, já notamos uma posição mais meio-termo, já que sua oficialização não permite que criem polêmicas com nomes blindados de nosso clero tupiniquim.

Não serve de consolo mas a Vigília Pascal não foi a única vítima na Semana Santa, com Cristo os outros dias também foram ridicularizados. Padres em jumentinhos no Domingo de Ramos, inclusive rendendo situações patéticas de queda (com as quais eu, infelizmente não consigo senão lamentar pela ideia, mas não pela queda), imitações ridículas de galos na narrativa da Paixão (sério, como alguém acha que isso pode ser uma boa ideia?), isso quando a mesma não foi completamente teatralizada, ao invés de solenemente entoada em várias vozes conforme a tradição. Na, assim chamada, Noite do Perfume (evento protestante que recentemente entrou no nosso calendário paroquial), vimos fiéis borrifando seus perfumes favoritos sobre o altar, sacrilégio escancarado, registrado e compartilhado com ares de pura espiritualidade, porém não punido e nem sequer corrigido. O santo altar é consagrado com o óleo santo pelo bispo, nele é queimado incenso recordando o antigo sacrifício judaico. E, mesmo o óleo do crisma sendo perfumado, em nenhum lugar dos livros litúrgicos se encontra a orientação de que o altar deva ser aspergido de Chanel N° 5 ou Lilly de O Boticário. 

Em outro vídeo vimos a desnudação do altar. Costume que, primeiro se perdeu, depois ficou limitado aos bastidores e agora, pouco a pouco retorna, mas já encontra inimigos declarados. O altar, sem toalhas, tem sobre ele vinho derramado e depois lavado com água. O simbolismo é claro, a atitude pode até ser catequética, como a própria paroquia que divulgou o vídeo disse que foi o motivo para a ação. Mas não segue uma rúbrica simples que diz apenas que o altar deve ser desnudado em tempo oportuno após a Missa in Coena Domini. Na paróquia em que atuo mesmo, ha alguns anos, a Cruz que, na Sexta-feira adoramos enquanto a chamávamos de "Fiel madeiro da Santa Cruz. ó árvore sem igual!", foi queimada na fogueira que acenderia o Círio Pascal. Outro sacrilégio solenemente ignorado por todos quantos deviam zelar pela liturgia em nome, novamente, de uma sensibilidade pastoral sentimentalista, toscamente inspirada nas afetações teatrais dos protestantes e que foram importadas para nossa Santa Igreja pelas Novas Comunidades e dos padres carismáticos que se aproveitaram do rombo intelectual e espiritual deixado pela Teologia da Libertação.

Diante desse quadro, não se trata de um saudosismo estéril ou de um apego meramente estético, mas de uma questão de fidelidade. A liturgia não é propriedade de grupos, sensibilidades ou modismos passageiros: é tesouro vivo da Igreja, recebido, guardado e transmitido com reverência ao longo dos séculos. Os abusos que hoje se multiplicam não devem conduzir ao desânimo, mas a um renovado compromisso com a formação, com o zelo e com a verdade do culto divino. Há, felizmente, sinais de despertar entre os fiéis, um sensus fidei que resiste, questiona e busca o que é autêntico. É a partir dessa sede de verdade e beleza que pode surgir uma verdadeira restauração litúrgica: não como ruptura, mas como retorno consciente àquilo que a Igreja sempre foi e sempre ensinou.

Seguimos, na Páscoa do Senhor, penitentes numa Quaresma sem data para acabar e com poucos domingos da alegria. Bem, talvez seja a penitência própria de nosso tempo suportar, porém não aceitar e nem tampouco incentivar, esses desmantelos. Possamos, com a graça de Deus, entoar um dia algo que lhe seja mais digno de um verdadeiro hino de louvor.

“Adorai o Senhor na beleza da santidade.” Sl 96(95)

REFERÊNCIAS

CONCÍLIO VATICANO II. Sacrosanctum Concilium. Constituição sobre a Sagrada Liturgia. Vaticano, 1963.

FRANCISCO, Papa. Desiderio Desideravi. Carta Apostólica sobre a formação litúrgica do povo de Deus. Vaticano, 2022.

JOÃO PAULO II, Papa. Instrução Geral do Missal Romano. Vaticano, 2002.

SANTO AGOSTINHO. Enarrationes in Psalmos. Patrologia Latina.