Parece-me, uma vez mais, que as pessoas comuns já não esperam muito de si mesmas nem dos outros além de que trabalhem vorazmente e consigam intercalar longas jornadas com alguns momentos de alegria, sempre limitados pelo tempo, pelo cansaço e pelo pouco dinheiro que resta depois que a existência recebeu sua cobrança mensal.
Então toca o alarme e uma nova semana começa. O trabalho, os compromissos, as mensagens, as cobranças.
Os encontros entre o eu e o outro, com todas as dores provenientes das relações que não compreendem inteiramente, dos afetos que não conseguem dizer aquilo que desejariam, da impossibilidade de tocar realmente a experiência interior daquele que está diante de nós. Em algum ponto desse processo, parece mais fácil reduzir o mundo. As pessoas refugiam-se então em pequenos recortes da realidade.
Perdem-se em e-mails que ninguém lê, listas de tarefas que, se deixassem de ser cumpridas, talvez não fizessem falta alguma, metas cuja realização produz um prazer suficientemente curto para evitar que se pergunte para que serviam.
Há um alívio no dever cumprido. Não importa tanto se o dever possuía importância. Importa que, por alguns instantes, ele consiga silenciar outras perguntas.
Do que você tem medo? Por que você o matou? Por que precisa que alguém o reconheça? O que restará de você quando já não desempenhar a função pela qual aprendeu a medir seu valor? O que deseja realmente daquele que ama? O que fará quando aquilo que deseja entrar em conflito com aquilo que o outro deseja?
São perguntas inconvenientes.
Planilhas, pelo menos, possuem células. A angústia não teve essa delicadeza.
É possível, então, construir uma existência aparentemente sem conflitos não porque os conflitos foram resolvidos, mas porque uma parte cada vez maior da realidade foi excluída da atenção. Trabalhar. Comprar. Descansar. Recomeçar. O mundo torna-se administrável precisamente porque foi reduzido.
Acho que não preciso me demorar muito mais para dizer que essa é uma forma diminuída de existência.
Mas talvez seja necessário acrescentar outra coisa: diminuir a existência não significa necessariamente torná-la menos dolorosa. Às vezes significa apenas empobrecer o vocabulário com o qual a dor poderia ser compreendida. É aqui que a obra de arte adquire uma função muito mais importante do que aquela reservada ao entretenimento.
Olavo de Carvalho insistiu, em diferentes momentos de sua reflexão sobre o imaginário e sobre os modos do discurso, na importância de formar a imaginação antes de exigir dela julgamentos adequados sobre a realidade.
A literatura, entendida aqui no sentido mais amplo que interessa a esta reflexão, incluindo narrativa, drama, poesia, cinema e outras formas artísticas, expande o campo das possibilidades humanas que uma consciência consegue conceber.
Uma única vida é pequena. Por mais longa que seja, não podemos ocupar todas as posições. Não podemos ser simultaneamente pai e filho, abandonador e abandonado, covarde e herói, assassino e vítima, adolescente e velho, rei e mendigo, santo e criminoso. Não podemos viver todas as escolhas para descobrir o que elas significariam. A imaginação oferece uma aproximação. Não substitui a experiência, mas amplia-a. Nos torna participantes da possibilidade!
Quando acompanhamos uma história, permitimos provisoriamente que outra estrutura de possibilidades entre em nossa consciência. Experimentamos motivos que talvez nunca tenham sido nossos e consideramos decisões que talvez jamais precisemos tomar. Reconhecemos paixões das quais nos julgávamos incapazes. Descobrimos que uma atitude que parecia absurda vista de fora pode possuir uma lógica devastadoramente clara quando observada de dentro. Isso não significa absolver tudo.
Compreender nunca significou absolver.
Significa apenas recusar a pobreza moral daquele que julga antes de conseguir imaginar. Esse é um dos sentidos mais profundos da educação do imaginário. Quanto mais situações humanas conseguimos contemplar seriamente, maior se torna nosso vocabulário existencial. Não apenas o número de palavras que conhecemos, mas o número de possibilidades humanas que somos capazes de reconhecer.
Uma pessoa pode chegar a uma obra acreditando que só existem coragem ou covardia. Encontra Shinji e descobre a responsabilidade. Pode acreditar que independência significa não precisar de ninguém. Encontra Asuka e percebe como essa independência pode depender desesperadamente do olhar alheio. Pode acreditar que identidade é algo simplesmente possuído. Encontra Rei e precisa perguntar de onde vem aquilo que chama de “eu”. Pode imaginar que amar significa compreender completamente. Encontra Misato, Kaji, Shinji, Asuka e Kaworu e descobre que justamente amamos aqueles cuja interioridade nunca possuímos inteiramente.
A obra não fornece necessariamente uma resposta, ela aumenta a quantidade e a qualidade das perguntas que podemos suportar. Talvez uma existência enriquecida por histórias seja precisamente uma existência na qual somos capazes de permanecer um pouco mais diante de uma realidade desagradável antes de classificá-la, condená-la ou simplesmente fingir que ela não existe. Nesse sentido, Neon Genesis Evangelion não oferece apenas personagens com os quais alguém possa identificar-se, oferece formas para pensar experiências.
O Campo A.T. oferece uma forma para pensar a fronteira. A Instrumentalidade oferece uma forma para pensar o desejo de escapar da separação. Asuka dá forma à identidade que precisa desesperadamente de reconhecimento. Rei, à identidade que começa recebida e procura tornar-se escolha. Misato, à fragmentação de quem consegue funcionar sem jamais conseguir integrar inteiramente aquilo que vive. Kaworu, à esperança de uma relação que parece suspender temporariamente o ferimento. Shinji, à consciência que precisa descobrir se deseja continuar existindo quando existir significa continuar exposto aos outros.
Talvez seja essa uma das maiores e mais belas capacidades da arte: dar forma ao que antes era apenas sofrimento indistinto. Não curá-lo. Não justificá-lo. Não transformá-lo necessariamente em ensinamento. Dar-lhe forma. E, dando-lhe forma, permitir que seja contemplado.
O encerramento da série televisiva realiza essa operação de maneira quase literal. O mundo exterior desaparece progressivamente. Cenários tornam-se abstratos, corpos perdem consistência. Personagens surgem como vozes, acusações, lembranças e possibilidades. A própria animação parece abandonar a obrigação de representar um espaço físico coerente. É como se a forma da série sofresse aquilo que seus personagens estão sofrendo. As fronteiras que organizavam o mundo deixam de funcionar.
Shinji torna-se objeto de investigação.
Quem é você? Quem é você para os outros? Quem é você quando ninguém mais define aquilo que deve ser?
Até então ele havia tentado responder a essas perguntas através de imagens externas.
Sou piloto. Sou filho de Gendo. Sou alguém de quem Asuka não gosta. Sou alguém de quem Misato precisa. Sou alguém que Kaworu amou. Sou alguém inútil. Sou alguém necessário.
Cada definição possui algum grau de verdade, mas nenhuma consegue contê-lo. A sequência da realidade alternativa torna essa instabilidade especialmente clara.
Subitamente, outro mundo é possível.
Outras relações. Outro Shinji, outra Asuka, outra Misato, outra configuração familiar. Não precisamos concluir que aquela realidade seja a “verdadeira” solução. Sua função é mais radical. Ela demonstra que aquilo que Shinji tomava como necessidade talvez contivesse contingência. Se as circunstâncias fossem outras, ele poderia reconhecer-se de outra maneira.
Se aquilo que chama de “eu” depende parcialmente das relações dentro das quais esse eu se reconhece, então uma mudança de perspectiva modifica também o campo da identidade possível. Isso não significa que basta “pensar positivo”. Seria uma conclusão espantosamente banal para uma obra que dedicou vinte e seis episódios a complicar exatamente esse problema.
A percepção possui poder, mas não possui soberania absoluta. Shinji não consegue apagar o abandono paterno decidindo interpretá-lo alegremente. Não consegue desfazer a morte. Não consegue eliminar a existência dos outros.
O que pode começar a mudar é a relação que mantém com aquilo que aconteceu e com as descrições que construiu a partir disso. Quando reconhece que talvez possa amar a si mesmo, a palavra importante é justamente talvez.Não há iluminação definitiva. Há abertura.
Depois de passar grande parte da narrativa tratando o próprio desprezo como fato objetivo, aparece uma possibilidade alternativa: talvez aquilo que sinto a meu respeito não seja idêntico àquilo que sou. É uma diferença pequena, é verdade, mas pode conter um mundo inteiro.
O encerramento famoso, com os personagens reunidos ao redor de Shinji, pode parecer triunfal se isolado do restante da série. Mas não é necessário lê-lo como canonização psicológica. Pode ser simplesmente o momento em que uma possibilidade antes inconcebível torna-se imaginável.
Shinji pode existir.
Pode desejar existir.
Pode admitir a hipótese de que sua existência não dependa exclusivamente daquilo que consegue oferecer aos demais.
Isso não responde ainda como viverá. A série termina antes. E talvez seja necessário que termine. Porque imaginar que se possui direito à existência é uma coisa. Voltar ao mundo onde outras pessoas também possuem esse direito é outra muito diferente.
É precisamente aí que The End of Evangelion parece retomar a questão por outro caminho. O segundo fim: quando a consciência precisa recuperar um corpo
Se o final televisivo desmonta interiormente as imagens pelas quais Shinji compreendia a si mesmo, o filme pergunta o que acontece quando essa transformação precisa enfrentar novamente matéria, corpo e alteridade.
Na Instrumentalidade Humana, a consciência obtém aquilo que desejava: não existem mais paredes, não existem mais interiores absolutamente separados, não existe solidão no sentido comum porque não existe o indivíduo que possa permanecer sozinho. Shinji conhece aquilo que está além da fronteira. E recusa permanecer ali.
Não porque tenha concluído que o mundo é bom. Essa diferença precisa permanecer. O mundo não recebeu absolvição. As pessoas continuam capazes de ferir. Shinji continua capaz de ferir. Asuka continua capaz de rejeitá-lo. O futuro não vem acompanhado de garantia. A Instrumentalidade é recusada porque sua solução elimina também aquilo que pretendia salvar. Se o sofrimento resulta da distância entre consciências, eliminar as consciências separadas certamente elimina essa forma de sofrimento.
Assim como destruir todos os instrumentos de uma orquestra resolve definitivamente o problema das notas desafinadas.
A eficiência da solução não a torna desejável. O Campo A.T. precisa retornar.
E aquilo que durante todo o ensaio apareceu como símbolo do isolamento muda novamente de significado. A fronteira que impede acesso absoluto ao outro é a mesma que permite que o outro exista diante de mim.
Sem fronteira, não há rejeição, mas também não há acolhimento. Sem distância, não existe abandono. Mas também não existe aproximação. Sem individualidade, não existe solidão. Mas também não existe amor, porque amor exige pelo menos dois e a Instrumentalidade oferecia resposta demais e esse era seu defeito fundamental. Resolve o problema eliminando o espaço onde o problema poderia existir.
O primeiro mostraria simplesmente o que aconteceu “por dentro”. O segundo, aquilo que aconteceu “por fora”. A correspondência é útil até certo ponto. Depois percebi que, para além disso, ela começa a empobrecer. Talvez seja melhor tratá-los como duas formas diferentes de colocar o mesmo problema diante do espectador.
No anime, Shinji experimenta a possibilidade: posso relacionar-me comigo de outra maneira? No filme, a pergunta se torna mais dura: se eu voltar a ser eu, aceito também que o outro volte a ser outro?
A primeira pergunta abre a possibilidade da existência. A segunda cobra seu preço.
É relativamente fácil desejar continuar existindo numa consciência reconciliada abstratamente. Muito mais difícil é continuar desejando existir quando o mundo reaparece com pessoas que não obedecem ao nosso desejo. É aí que Asuka se torna indispensável.
O filme poderia ter terminado no momento da rejeição da Instrumentalidade, seria filosoficamente elegante, convenhamos. Seria também uma pequena trapaça. Shinji escolheria a individualidade e a tela escureceria antes que precisasse enfrentar aquilo que a individualidade significa concretamente. Mas Evangelion não lhe concede essa saída.
Há uma praia, um mar vermelho, restos de uma catástrofe impossível. E há Asuka.
Não Misato.
Não Rei.
Não Kaworu.
Asuka.
Justamente a pessoa que talvez represente de maneira mais radical aquilo que Shinji não consegue controlar. Ela não oferece a aceitação quase incondicional de Kaworu. Não carrega a estranha familiaridade materna de Rei e não ocupa a posição protetora de Misato.
Asuka resiste, contradiz, deseja, despreza, precisa, agride, sofre. É outra. Por isso o fim precisa ser com ela. Se a Instrumentalidade era a fantasia de interiorizar completamente o outro, Asuka é aquilo que não pode ser interiorizado sem deixar de ser Asuka. Ela permanece exterior. Mesmo quando está ao alcance das mãos.
E então Shinji a estrangula.
Depois de tudo o que aconteceu, o primeiro grande gesto do retorno à individualidade é violência. Seria difícil imaginar antídoto mais eficiente contra uma conclusão edificante. Shinji voltou. Suas feridas também. A escolha pela existência não o transformou instantaneamente num sujeito reconciliado. O homem que retorna da Instrumentalidade continua capaz de repetir aquilo que a tornou sedutora. Quer eliminar a resistência, quer testar a realidade, quer talvez confirmar se o outro realmente voltou, quer talvez destruir aquilo que novamente pode rejeitá-lo.
Há várias possibilidades. A cena não precisa ser reduzida a uma.
E então Asuka toca o rosto dele.
O gesto é mínimo. Depois de toda a cosmologia, quase ridiculamente pequeno.
Ela poderia lutar, poderia afastá-lo, poderia tentar matá-lo. Em vez disso, toca. Não sabemos exatamente o que significa.
Compaixão? Reconhecimento? Cansaço? Afeto?
Talvez várias dessas coisas.
A potência está justamente em não saber.
Shinji para. E chora.
O outro não foi dissolvido. Não foi compreendido inteiramente. Não foi transformado numa extensão de sua vontade. Continuou sendo outro. E ainda assim houve contato. Talvez seja essa a imagem final de todo o problema. Não fusão. Toque.
A ambiguidade de Asuka é também a ambiguidade de Evangelion: ela pode inspirar Shinji e humilhá-lo, desejá-lo e rejeitá-lo. Tocar seu rosto e pronunciar uma frase que destrói qualquer esperança de sentimentalismo fácil. Ela não se transforma na recompensa recebida por Shinji depois de escolher corretamente.
Porque pessoas não deveriam funcionar como recompensas narrativas. Ela continua possuindo interioridade própria. Isso parece simples, mas toda a Instrumentalidade precisou acontecer para que a obra chegasse novamente a essa simplicidade.
Eu.
Outro.
Uma distância.
Uma mão que pode atravessá-la sem conseguir eliminá-la.
Nesse sentido, o encerramento não resolve a representação dos dilemas morais e existenciais em Neon Genesis Evangelion. Completa sua forma ao recusá-la como solução.
A série começou com consciências procurando preencher um vazio. Passou pela tentativa de compreender a si mesmas através dos outros, encontrou a dor da individuação. Imaginou a possibilidade de regressar a uma unidade anterior à separação. Construiu uma tecnologia metafísica capaz de realizar essa regressão.E, depois de alcançar aquilo que parecia ser a resposta, retornou.
Não porque tenha descoberto que o vazio era ilusão, o vazio continua. Não porque a solidão tenha sido superada. Ela continua possível. Não porque Shinji tenha finalmente compreendido Asuka.
Provavelmente não compreendeu.
Não porque Asuka tenha compreendido Shinji. Também não sabemos.
O que mudou é a exigência.
Talvez não seja necessário compreender completamente para permanecer. Talvez não seja necessário eliminar o vazio para viver. Talvez não seja necessário possuir o outro para amá-lo. Talvez uma identidade não precise tornar-se perfeita para justificar sua existência.
É pouco.
Depois de uma narrativa que colocou o planeta inteiro em risco para responder a essas perguntas, chega a ser ofensivamente pouco, mas talvez qualquer resposta maior começasse novamente a parecer Instrumentalidade. Em The End of Evangelion, o apocalipse não começa quando o mundo desaba, começa quando uma consciência já não consegue imaginar um futuro para si.
Por isso seu verdadeiro contrário talvez também não seja reconstruir cidades, derrotar monstros ou alcançar felicidade. Talvez seja algo anterior. Imaginar novamente que existe um depois.
Sem saber exatamente como será.Sem garantia de que haverá compreensão. Sem promessa de que o amor não ferirá. Sem certeza de que o outro ficará. Sem sequer a certeza de que aquilo que hoje chamamos de “eu” permanecerá idêntico. Mesmo assim, um depois.
A arte não nos entrega esse futuro, talvez sua contribuição mais discreta seja outra. Ela aumenta o número de futuros que somos capazes de imaginar. Empresta-nos vidas que não vivemos. Mostra escolhas que não fizemos. Conduz-nos até experiências que talvez tivéssemos preferido julgar de longe.
E depois nos devolve à nossa própria existência com um vocabulário um pouco maior para enfrentá-la. Não necessariamente melhores. Não necessariamente curados. Apenas menos pobres em possibilidades.
Talvez seja isso que aconteceu comigo diante de Evangelion. Não encontrei uma resposta definitiva para o vazio com que comecei. Encontrei maneiras diferentes de olhá-lo.
Algumas belas. Algumas terríveis. Algumas contraditórias.
E talvez seja precisamente por isso que ainda valha a pena retornar a elas depois de tantos anos. Uma obra não precisa responder definitivamente à pergunta para modificá-la. Às vezes basta devolver-nos a pergunta com mais dimensões do que possuía quando chegamos.
No começo havia um vazio.
No fim também.
Mas agora há alguém diante dele.
E, um pouco mais adiante, outro alguém. Entre os dois permanece uma distância.
É nela que ainda cabem o medo, a linguagem, a rejeição, o sofrimento, o desejo, a responsabilidade e aquilo que, apesar de tudo, continuamos chamando de amor.
"Eu odeio a mim mesmo mas... mas... talvez, talvez eu possa amar a mim mesmo, e talvez a minha vida possa ter um valor muito maior. É isso, eu sou nada mais, nada menos que eu mesmo. Eu sou eu, e eu quero ser eu mesmo. Eu quero continuar existindo nesse mundo. Eu mereço viver neste lugar." (Neon Genesis Evangelion)
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