domingo, 25 de outubro de 2026

Atravessando o Sagrado

Ao, onde a penumbra parece guardar o silêncio de muitas gerações, começa a formar-se o cortejo. Há, primeiro, um movimento quase imperceptível: o roçar das vestes, o discreto encontro dos passos sobre o pavimento brilhante, o tilintar distante de um metal. Então surge a cruz processional, erguida acima das cabeças, abrindo caminho como quem anuncia a chegada de alguém esperado desde sempre. Não há pressa. Cada gesto parece obedecer a uma ordem antiga, aprendida muito antes daqueles homens e conservada através dos séculos. A igreja, até então povoada de murmúrios e pequenas inquietações, recolhe-se pouco a pouco diante daquela passagem.

O som do órgão ressoa com imponência e majestade, e a voz firme de um canto se faz ecoar não como se soasse num lugar fechado, mas parece estender-se infinitamente.

Avançam os ministros, vestidos de preto e branco. As batinas descem-lhes até os tornozelos, enquanto as sobrepelizes, leves e alvas, deixam entrever as rendas delicadas, trabalhadas como se mãos pacientes tivessem procurado imitar a geometria das flores. Alguns trazem as mãos unidas diante do peito; outros sustentam os altos castiçais, cujas chamas vacilam suavemente ao ritmo da caminhada. O ouro do metal recolhe a luz das velas, multiplica-a em pequenos reflexos e devolve-a às paredes, às colunas, aos rostos dos fiéis. Nada ali parece desejar chamar a atenção para si. Até a beleza dos objetos, tão cuidadosamente lavrados, parece existir para apontar além deles.

O turíbulo oscila nas mãos do ministro, suspenso por suas correntes prateadas. A cada movimento, desprende-se uma pequena nuvem de incenso, primeiro tênue, depois mais espessa, que sobe lentamente e se desfaz sob os arcos da igreja. Seu perfume mistura resina, madeira e uma doçura austera, dessas que parecem pertencer mais à memória do que aos sentidos. A fumaça passa diante das imagens, contorna as velas, atravessa os feixes de luz e desaparece nas alturas, como se a própria pedra respirasse uma oração. Ao longe, o canto litúrgico acompanha a marcha, ora sustentado numa única nota, ora desdobrado em frases longas que encontram eco na abóbada. As vozes não procuram vencer o silêncio, mas habitá-lo.

Atrás dos ministros vêm os clérigos, revestidos das vestes próprias do seu ofício. Sobre o branco do linho, destacam-se os tecidos dourados, os bordados delicados, as cruzes e os desenhos vegetais que percorrem estolas, dalmáticas e casulas. Os rostos permanecem graves, solenes, os olhos quase sempre baixos, as mãos recolhidas. O brilho dos paramentos contrasta com a simplicidade dos gestos, e é precisamente desse contraste que nasce sua dignidade. Homens comuns, feitos da mesma carne frágil daqueles que os contemplam, caminham revestidos de sinais que não lhes pertencem inteiramente.

Quando o bispo aparece, distinguem-se a mitra, o báculo e a riqueza discreta dos ornamentos que lhe cobrem os ombros. Avança com passos medidos, acompanhado pelos ministros que o assistem, enquanto a luz repousa por instantes sobre os fios dourados de suas vestes. Não caminha como quem toma posse de um palco, mas como alguém conduzido ao cumprimento de um dever que o ultrapassa. A mitra ergue-se entre as cabeças inclinadas; o báculo acompanha seu passo; as mãos, por vezes, elevam-se para abençoar traçando cruzes no ar. E, no entanto, quanto mais solene se torna sua presença, mais evidente parece que aquela solenidade não encontra nele seu destino, não é nele o seu fim. Também ele caminha para o altar. Também ele deverá deter-se diante de algo maior.

Dos bancos, os fiéis acompanham a passagem em silêncio. Algumas mulheres trazem véus de renda sobre os cabelos, brancos ou negros. Há homens de mãos postas, crianças que se erguem discretamente para enxergar melhor, idosos cuja imobilidade parece guardar muitos anos de familiaridade com aqueles ritos. Uns inclinam a cabeça à passagem da cruz; outros acompanham com os olhos o movimento dos castiçais, até que a chama desapareça entre os paramentos. Aqui e ali, um rosário repousa entre os dedos. São pequenos movimentos de uma assembleia que, mesmo sem caminhar fisicamente, acompanha o cortejo em direção ao mesmo mistério.

E assim a procissão percorre lentamente a nave, esse longo caminho entre a porta e o altar, entre o rumor da rua e o recolhimento do santuário. Sob os pés dos ministros, sucedem-se as pedras do pavimento; acima deles, as colunas parecem erguer-se numa sucessão interminável, como árvores antigas de uma floresta feita para a oração. A cruz segue adiante, as velas continuam ardendo, o incenso torna a subir. Há uma espécie de música silenciosa na repetição dos passos, no balanço quase imperceptível das vestes, na harmonia das distâncias conservadas entre aqueles que avançam. Tudo se move, mas nada parece precipitado. Por alguns instantes, até o tempo parece caminhar mais devagar.

Ao aproximar-se do presbitério, o cortejo começa a desfazer sua ordem de marcha. Os ministros ocupam seus lugares, os castiçais são conduzidos aos pontos determinados, os paramentos acomodam-se em novas dobras. Aquilo que, durante alguns minutos, atravessara a nave em movimento agora se recolhe em torno do altar. Vêm as reverências, as genuflexões, as inclinações profundas. O corpo inteiro participa dessa linguagem antiga: os joelhos se dobram, as cabeças se abaixam, as mãos se unem. Até o ouro parece inclinar-se com aqueles que o vestem.

Então se compreende que a procissão não era apenas uma entrada, nem uma apresentação da dignidade dos ministros ou da riqueza dos ornamentos. Era uma passagem. O esplendor dos tecidos, o perfume do incenso, a claridade das velas, o canto e a cadência dos passos haviam conduzido os sentidos até aquele lugar onde todos os sinais parecem recolher-se diante de um único centro. A beleza que atravessou a igreja não termina em si mesma. Detém-se diante do altar, como a palavra que, depois de muito procurar sua expressão, finalmente se cala.

E resta, por um instante, a imagem de toda aquela humanidade reunida: os homens revestidos de ouro, os ministros vestidos de branco, as mulheres sob seus véus, as crianças silenciosas, os velhos de mãos trêmulas. Todos igualmente pequenos diante do mistério que se aproxima. A fumaça do incenso ainda flutua sobre suas cabeças, e a última nota do canto parece resistir por um momento entre as colunas, antes de desaparecer.

A procissão terminou. A igreja, porém, parece continuar caminhando. Agora em silêncio, voltada para o altar, à espera de que o eterno se faça presente no tempo mas... 

Como as coisas ficaram assim?

A porta estava fechada havia quarenta anos. Ou cinquenta. Ninguém sabia ao certo, e ninguém parecia particularmente interessado em descobrir. A última pessoa que guardara a chave morrera havia tanto tempo que até seu nome desaparecera das conversas. Depois vieram os herdeiros, as disputas, os relatórios, os pedidos de restauração, as promessas de políticos e uma infinidade de papéis assinados por gente que jamais precisou entrar ali. No fim, nada aconteceu. As pessoas continuaram morrendo, os políticos continuaram prometendo e a igreja continuou apodrecendo. Cada um cumprindo sua vocação.

Uma das portas laterais estava entreaberta. Talvez algum ladrão tivesse forçado a fechadura. Talvez a própria madeira, cansada de sustentar tantos anos de abandono, tivesse finalmente desistido. Foi por ali que eu entrei. O cheiro veio primeiro: mofo, pedra molhada, madeira podre e alguma coisa mais funda, um odor antigo, como o de uma casa onde alguém morreu e ninguém se deu ao trabalho de abrir as janelas.

A luz entrava pelas vidraças quebradas, atravessando o pó que flutuava no ar. Não havia nada de celestial nisso. Era apenas poeira, pesadas camadas, iluminadas por um sol indiferente que também entrava pelas janelas de hospitais, prisões e banheiros públicos. 

A nave se estendia diante de mim, comprida e vazia. Os bancos ainda estavam lá, pelo menos alguns. Outros haviam sido arrancados, empilhados ou destruídos por cupins. O verniz desaparecera quase por completo. Nas partes mais úmidas, a madeira adquirira uma cor escura e doentia, como a carne de uma fruta esquecida no fundo de uma gaveta.

Pensei nas pessoas que um dia se sentaram ali.

Mulheres de véu, homens engomados, crianças obrigadas a permanecer quietas durante cerimônias que não compreendiam. Velhos que talvez tivessem passado metade da vida pedindo a Deus mais alguns anos e a outra metade pedindo que Ele acabasse logo com aquilo. Devia haver entre eles gente feliz. Ao menos suponho. A felicidade sempre me pareceu uma coisa difícil de verificar.

Agora, sobre os bancos, havia penas, excrementos de pombos e folhas secas trazidas pelo vento. Uma árvore crescera junto à parede e suas raízes começavam a levantar as pedras do chão. Era uma ironia razoável. Durante séculos, os homens arrancaram árvores para construir templos; bastou deixarem um deles vazio para que uma árvore resolvesse recuperá-lo.

No alto, ainda pendia um lustre de bronze. Faltavam-lhe quase todas as peças. Uma corrente enferrujada sustentava o que restara daquela antiga ostentação. Imaginei-o aceso, lançando reflexos sobre as rendas dos ministros, sobre o ouro dos paramentos, sobre as cabeças humildemente inclinadas. Agora sustentava teias de aranha tão espessas que pareciam algum tipo de decoração funerária.

As aranhas, pelo menos, continuavam cumprindo sua missão.

Caminhei pelo corredor central, e era fácil imaginar uma procissão avançando por ali.

Teriam passado por aquele corredor centenas de vezes. Talvez milhares. Sempre com a mesma gravidade, como se o universo dependesse da posição de uma vela ou da inclinação de uma cabeça. E talvez, dependesse mesmo, não o universo, mas suas almas. Agora era preciso prestar atenção para não tropeçar nos buracos do pavimento.

Não havia qualquer vestígio do antigo perfume. Nenhuma lembrança de olíbano, mirra ou benjoim. Pensei em todas as orações que aquele lugar havia acompanhado. Todas as súplicas, agradecimentos, funerais, missas solenes, festas de padroeiro. O incenso subira durante décadas, talvez séculos, diante de homens convencidos de que suas preces também subiam. As orações também tinham desaparecido.

Os altares laterais estavam mutilados. Num deles, um santo perdera as duas mãos; noutro, uma imagem de Nossa Senhora conservara o rosto, mas não a coroa. A tinta descascara em grandes placas, deixando aparecer camadas anteriores, cores antigas, rostos esquecidos sob outros rostos. Parecia que até os santos tinham sido obrigados a envelhecer ali dentro.

Havia um crucifixo junto a uma parede.

Cristo permanecia preso à madeira, embora um dos braços tivesse se soltado da cruz. O rosto estava coberto de poeira, o corpo manchado pela umidade. Algumas pessoas talvez considerassem aquela imagem ofensiva. Eu achei que nunca o tinham representado de maneira tão convincente.

Os homens passaram séculos ornamentando a dor de Cristo até transformá-la numa coisa bonita de se contemplar. Douraram suas feridas, poliram seus instrumentos de tortura, colocaram pedras preciosas ao redor de sua agonia. Ali, finalmente, não havia douramento suficiente para esconder a miséria.

Era apenas um homem pregado numa madeira apodrecida. Talvez fosse a imagem mais honesta de toda a igreja.

Continuei até o presbitério. O altar permanecia no lugar, normalmente as pessoas não se aproximavam muito, por reverência, daquele local.

Senti uma obstinação naquele altar. Sobrevivera às infiltrações, aos cupins, aos saqueadores e à estupidez administrativa. Continuava ali, imóvel, depois que todos os homens encarregados de honrá-lo tinham desaparecido. Me aproximei e fiz algo quase indigno, o toquei com as pontas dos dedos.

A pedra estava fria.

Pensei nas mãos que um dia haviam tocado aquele altar, nos beijos depositados sobre sua superfície, nos sacerdotes que se inclinaram diante dele, nas palavras pronunciadas em voz baixa, em latim, quando toda a assembleia parecia conter a respiração.

Quantas vezes teriam sido repetidas? Quantos homens teriam subido aqueles degraus convencidos de participar de algo eterno? Quantos teriam morrido acreditando que as paredes continuariam ali, acolhendo outros homens, outras palavras, outras gerações?

Uma casa abandonada é triste porque já não abriga ninguém. Uma igreja abandonada é pior. Ela foi construída para abrigar uma esperança que se pretendia maior que a morte, e agora precisa da caridade de alguma associação de preservação histórica para não desabar sobre os próprios santos porque a Igreja que a ergueu já não se importa mais. Os templos agora são abertos, pintados de branco, com uma mesa no meio, e tudo que passe disso é adorno desnecessário, o dizem.

Ergui os olhos.

Parte do teto havia cedido, deixando uma abertura irregular por onde se via o céu. Algumas plantas cresciam entre as pedras. Pombos haviam construído ninhos sobre os capitéis. Da antiga pintura da abóbada restavam fragmentos: uma asa, parte de uma mão, o contorno de um rosto voltado para cima.

Talvez fosse um anjo.

Talvez apenas um pedaço de reboco particularmente bem colocado.

Não importava.

O vento entrou pela abertura e levantou a poeira do presbitério. Durante alguns segundos, ela flutuou diante do altar, formando uma nuvem fina, quase dourada, que se dissolveu lentamente na luz.

Lembrei-me das procissões.

O ouro, as velas, as vozes, o incenso. Toda aquela beleza cuidadosamente organizada, toda aquela humanidade avançando pelo corredor central como se a repetição dos mesmos gestos pudesse manter o mundo inteiro em seu lugar.

Onde tinham ido parar?

Em que ano começaram a faltar os fiéis? Quando foi celebrada a última missa? Quem decidiu fechar as portas? Teria sido uma decisão solene, anunciada com tristeza, ou simplesmente aconteceu numa terça-feira qualquer, quando alguém percebeu que já não valia a pena pagar pela manutenção do telhado?

Imagino que tenha sido assim.

As coisas raramente acabam com a dignidade que lhes atribuímos depois. Um casamento termina por causa de uma conversa idiota na cozinha. Uma amizade desaparece entre duas mensagens que ninguém respondeu. Um homem abandona a profissão depois de passar anos dizendo a si mesmo que precisava apenas descansar.

E uma igreja fecha porque há infiltrações, faltam recursos, o padre envelheceu, os fiéis morreram ou começaram a frequentar outro lugar.

Não há trombetas.

Não há terremotos.

Não há nenhuma voz descendo do céu para anunciar que aquilo que parecia eterno acaba de chegar ao fim.

Alguém simplesmente gira a chave.

E passam quarenta anos.

Ou cinquenta.

Fiquei ali algum tempo, olhando para o altar. Não rezei. Também não senti vontade de blasfemar. Ambas as coisas me pareceram excessivamente solenes para um lugar que havia sido derrotado por água da chuva e falta de manutenção.

Senti apenas uma tristeza antiga, dessas que não chegam a produzir lágrimas. Uma tristeza seca, desagradável, quase física, como a dor nas costas depois de dormir numa cama ruim.

Talvez porque aquela igreja me lembrasse alguma coisa.

Eu também conhecia a experiência de continuar existindo depois que uma parte importante da vida havia terminado. Conhecia o constrangimento de permanecer no mesmo lugar enquanto outras pessoas seguiam adiante. Conhecia a humilhação de olhar para aquilo que um dia parecera promissor e encontrar apenas sinais de desgaste.

A diferença era que a igreja ainda possuía alguma utilidade.

Poderiam restaurá-la.

Eu não sabia o que fariam comigo.

Sentei-me num dos degraus do altar, entre o pó e o reboco. O céu começava a escurecer. Pelas janelas partidas entrava um vento úmido, trazendo o cheiro das árvores e o ruído distante dos carros.

Lá fora, as pessoas continuavam vivendo. Voltavam do trabalho, compravam pão, brigavam com os filhos, pagavam contas, faziam amor, adoeciam, morriam. Algumas talvez passassem diante daquela igreja todos os dias sem jamais olhar para ela.

Era compreensível.

O mundo não tem obrigação de conservar aquilo que amamos.

Mas fiquei pensando nos homens que haviam construído aquela nave, nos artesãos que entalharam os altares, nas mulheres que bordaram toalhas, nos sacerdotes que aprenderam cada gesto, nas gerações inteiras que depositaram ali suas alegrias e seus mortos.

Todos eles tinham oferecido alguma coisa.

E agora não havia ninguém para receber.

Levantei-me quando já quase não conseguia distinguir os detalhes do interior. Caminhei de volta pelo corredor, desviando dos buracos, das pedras soltas, dos excrementos dos pombos.

Antes de sair, olhei uma última vez para o fundo da igreja.

O altar desaparecia na escuridão.

Pensei que talvez algum dia alguém restaurasse tudo aquilo. Limpassem as paredes, reconstruíssem os bancos, recuperassem o douramento, consertassem os vitrais. Talvez até voltassem a celebrar missa ali. Seria bonito. As pessoas tirariam fotografias, os jornais publicariam matérias, alguma autoridade discursaria sobre a importância da memória.

Depois iriam embora.

Fechei a porta como pude.

A madeira rangeu, mas não chegou a encaixar.

Tentei outra vez.

Não adiantou.

Deixei assim.

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Tomar café quando ninguém tá te apressando

Tem um prazer que dura 4 minutos e você quase nunca tem tempo pra ele: tomar café devagar. Sem celular, sem pressa, só você e a xícara quente na mão. Não é só sobre o café, embora ele seja parte quase indispensável, é sobre os 4 minutos que ninguém tá te cobrando nada.

A gente toma café correndo, em pé, engolindo. Mas quando consegue sentar 4 minutos e tomar devagar, o dia muda. Você sente o cheiro, sente o quente, olha pela janela.

É curioso porque é o mesmo café de todo dia, mas quando toma devagar parece outro. Não mudou o café, mudou o tempo que você deu pra ele. Ou que deu para si mesmo.

Te venderam que prazer tem que ser caro, tem que ser brunch de R$80. Mentira. O melhor café da sua vida não foi o mais caro, foi aquele que você tomou com calma num dia que não tava atrasado. A gente gasta dinheiro com café chique e não tem 4 minutos de paz pra tomar o café simples que já tem em casa.

Me lembro de dias em que colocava o café na xícara e, em seguida, entravam no escritório com mil problemas, me chamavam em outro lugar e eu só voltava pra mim mesa umas cinco horas depois, e olhava triste pro café frio.

Mas também em alguns dias eu ficava olhando a fumaça se levantar, e sentia o aroma preenchendo o espaço e meio que me acolher. E só então começava o dia, como Honoré de Balzac, que dizia que, com café, as ideias marchavam como um exército.

Prazer não é sobre o que você toma, é sobre o tempo que você se dá pra sentir.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Roga por nós

Nossa Senhora é um dos orgulhos de nosso Brasil: tanto pela devoção à padroeira de nossa nação, sob o título de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, generalíssima do Exército Brasileiro e padroeira de Brasília, cujo santuário basílica atrai fiéis de toda parte do país e de todo o mundo, para pedir e agradecer, quanto pelo igualmente grandioso Círio de Nazaré, que reúne mais de 2 milhões de fiéis, segundo dados da Polícia Civil e do próprio portal do santuário. Outros títulos despertam grande devoção entre nosso povo: Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora do Carmo e tantos outros dão nome a incontáveis paróquias, e um conhecido hino resume tanto carinho: "Roga por nós, ó Mãe tão pia!  Eis-nos aqui para te louvar.  Piedosa virgem, ó Maria, para te pedir e suplicar."

No entanto, como era de se esperar, a ocasião também entristece pela quantidade de abusos litúrgicos, que levam muitos fiéis a confundir os atos de devoção com a liberdade para toda e qualquer ação durante as celebrações. As penitências do povo de Deus, expressas pelos fiéis que se ajoelham nas escadarias, carregam imagens, velas e outros símbolos das graças recebidas, são expressão de fé autêntica e salutar. Mas, em outros lugares, as lideranças de nossas paróquias encontram grande dificuldade em honrar a Mãe do povo fiel de modo correto. Digo “correto”, pois seria errôneo dizer “indigno”, quando muitos o fazem com a melhor das intenções.

O problema surge da falta de formação. Seja entre as lideranças, seja entre membros do clero, enxergamos uma deficiência latente.

Não se trata de uma exigência secundária, tampouco de um preciosismo reservado a especialistas. O Concílio Vaticano II, na constituição Sacrosanctum Concilium, ensinou que a participação plena, consciente e ativa dos fiéis na liturgia pertence à própria natureza das celebrações (n. 14). Para isso, determinou que os pastores se empenhassem na formação litúrgica do povo cristão, com diligência e paciência (n. 19). O mesmo documento distingue claramente a liturgia das práticas de piedade popular: estas são recomendadas, mas devem harmonizar-se com a ação litúrgica e conduzir os fiéis a ela, pois a liturgia, por sua natureza, lhes é superior (n. 13). A devoção, por mais antiga e comovente que seja, não autoriza que se confundam seus gestos próprios com os ritos da Igreja.

São João Paulo II voltou a advertir, na encíclica Ecclesia de Eucharistia, que a celebração eucarística não é propriedade particular do sacerdote nem da comunidade que a realiza (n. 52). Não cabe, portanto, a cada paróquia reinventar a Missa segundo suas preferências, como se as normas litúrgicas constituíssem obstáculos à criatividade. Mais recentemente, o Papa Francisco, na carta apostólica Desiderio desideravi (2022), dedicou especial atenção à necessidade da formação litúrgica, distinguindo a formação para a liturgia daquela que acontece pela própria experiência da celebração (nn. 34–47). A formação não pode limitar-se ao aprendizado de rubricas, mas também não pode dispensá-las: os gestos, os sinais, o silêncio e as palavras da liturgia possuem uma linguagem própria, recebida da tradição da Igreja, que precisa ser conhecida para ser verdadeiramente vivida.

Essa formação também está relacionada à maneira como os fiéis acolhem os frutos espirituais dos sacramentos e sacramentais. Os sacramentos conferem a graça de Cristo pela ação sacramental, embora seus frutos em cada pessoa estejam relacionados às disposições com que são recebidos; os sacramentais, por sua vez, não conferem a graça da mesma maneira, mas, pela oração da Igreja, preparam para recebê-la e dispõem a cooperar com ela (Catecismo da Igreja Católica, nn. 1128 e 1670). Formar liturgicamente uma comunidade é ajudá-la a reconhecer aquilo que recebe e a participar com maior consciência e fruto. Não é a abundância de enfeites, o volume da música ou a grandiosidade de uma apresentação que torna uma celebração espiritualmente fecunda.

Mas infelizmente o que vemos, e em dias como esses a internet se enche de manifestações desse tipo, são verdadeiros shows de estilo teatral e circense, quando não carnavalescos.

Em minha própria paróquia, uma de nossas comunidades realizou uma encenação do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida no rio. Encenação bem feita, preparada com carinho e atenção aos detalhes: o barco, as vestes dos pescadores e até as redes de pesca, mas que não caberia de modo algum durante a missa e, penso, nem diante do altar. Outra comunidade criou uma estrutura para acolher a imagem que incluía um grande arco e canhões de luz que acompanharam as crianças que entraram dançando para a coroação, num espetáculo nada menos do que carnavalesco, com direito inclusive a tiros de confete.

Aqui é necessário recordar o princípio da “nobre simplicidade”, estabelecido pela Sacrosanctum Concilium (n. 34): os ritos devem resplandecer pela clareza e sobriedade, sem acréscimos desnecessários. O próprio espaço litúrgico possui uma hierarquia de sinais que não pode ser ignorada. A Instrução Geral do Missal Romano determina que o presbitério se distinga do restante da igreja (n. 295) e reconhece no altar o centro da ação de graças eucarística (n. 296), estabelecendo ainda critérios de sobriedade para sua ornamentação e para os objetos nele colocados (nn. 305–306). O altar não é cenário, nem o presbitério uma extensão do salão paroquial. Quando encenações, coreografias, efeitos luminosos e adereços disputam com ele a atenção dos fiéis, corre-se o risco de inverter a ordem dos sinais sagrados. O Concílio também estabelece que ninguém, nem mesmo o sacerdote, pode por iniciativa própria acrescentar, retirar ou modificar elementos da liturgia (SC, n. 22, §3). É perfeitamente possível promover belas representações da história de Nossa Senhora Aparecida ou coroações cuidadosamente preparadas; a questão é reconhecer que nem toda expressão de fé, por mais bem-intencionada que seja, tem lugar dentro da ação litúrgica. E que a dignidade do espaço sagrado continua a merecer respeito mesmo fora dela.

As crianças não têm culpa. As coordenações, sim, já que parecem priorizar sempre o show ao invés de uma devoção que encontra seu lugar no coração do povo: os Arautos do Evangelho, que cuidam de um santuário nessa cidade, sempre realizam a coroação acompanhada de hinos tradicionais, mas de forma sóbria e solene: Nossa Senhora é levada num andor em um estilo quase militar, mas não há excesso de crianças vestidas de anjinho unicamente para as mães verem; a coisa é levada a sério.

Em nossas paróquias, se o objetivo é promover demonstrações de uma fé sentimentalista, deveriam encontrar lugar em outros momentos ou espaços, como à frente da igreja, num salão ou algo do tipo, acompanhadas, por exemplo, de uma cantata feita pelas próprias crianças, seguida de uma confraternização. É apenas uma sugestão, mas aponta para algo mais profundo: nossas paróquias precisam encontrar maneiras de expressar suas homenagens de modo sóbrio nas celebrações ou fora delas. O mesmo vale para homenagens como o Dia das Mães e o Dia dos Pais: o presbitério sempre se torna palco, enquanto a mesma apresentação, seguida de confraternização no salão paroquial, seria mais adequada.

O problema, afinal, não é a alegria do povo, nem sua necessidade de manifestar publicamente a fé. O problema começa quando se toma a intensidade da emoção como medida da qualidade de uma celebração. Uma comunidade pode emocionar-se profundamente e, ainda assim, desconhecer o sentido dos ritos que celebra. Pode organizar uma apresentação impecável, mobilizar dezenas de voluntários, arrancar lágrimas da assembleia e continuar oferecendo uma formação litúrgica miserável. É uma contradição que deveria inquietar, sobretudo, aqueles que possuem a responsabilidade de conduzir e formar o povo de Deus.

Olavo de Carvalho faz comentários interessantes em uma de suas aulas acerca desse tema. Ele recorda de um aluno (ou ex-aluno), que o escreveu dizendo que foi a um encontro de uma comunidade religiosa, um encontro em que tinha milhares de pessoas e que apareceu lá um padre e que só pela presença todos sabiam que era um santo. A resposta do professor foi "olha, pense bem essa frase: identificar um santo pela presença é um dom angélico. Ninguém tem esse dom. Ninguém pode conhecer um santo pela simples presença. Ninguém. E, se você estudar as vidas dos santos e a vida do próprio Jesus Cristo, verá que a presença de nenhum deles era muito impressionante."

A própria Bíblia diz que Jesus Cristo não tinha encantos mas, ao contrário, na cruz sequer tinha aparência humana. E, se a presença dele, se a simples presença mostrasse santidade, todo mundo teria se convertido e não somente aqueles poucos. O próprio Jesus não tinha isso, se sabia e se confirmava a missão de Jesus pelos seus milagres e ele fazia os milagres exatamente por causa disso. Ele diria: "Olhando para mim, vocês não vão acreditar no que eu estou fazendo, mas veja o que eu estou fazendo."

Naquele quando perguntam: "Quem é você? Você é o Messias que estamos esperando ou devemos esperar outro?" Ele diz "é o João Batista que está perguntando isso, digam a João o que vocês viram e ouviram. Vocês viram o paralítico andar, viram o cego enxergar. Em suma, pelos seus frutos os conhecereis. Daí, o rapaz dizia: "Não, pela pregação, todo mundo chorou." Se você quer saber o que é uma pregação de um santo: São Vicente Ferrer fez uma pregação em Paris durante sessenta dias e sessenta noites sem parar para comer, dormir ou ir ao banheiro. Isto é um santo. Agora, porque o sujeito falou bonito e fez você chorar, é um santo?

Então, o mundo hoje está cheio dessas organizações que preparam encenações coletivas para emocionar as pessoas, para fazer o homem de classe média chorar, e as pessoas ficam arrebatadas por isso. E elas não percebem que isso é uma caricatura grotesca, monstruosa da religião. O Pe. Pio jamais impressionou ninguém pela sua presença. Você olha o retrato do Pe. Pio e diz: "não me impressionei nada, ele parece o homem da padaria". O fato é que se você chegar para confessar com ele, não precisa confessar, ele dirá que os seus pecados são este, este e este. Isso não para uma pessoa, mas para milhares, inclusive seu próprio.

Infelizmente, continuamos a confundir a intensidade das emoções com a profundidade da fé, como se uma celebração se tornasse mais digna de Cristo quanto maior fosse o espetáculo oferecido aos fiéis. São João Paulo II, ao lamentar os abusos e as inovações indevidas na liturgia, recordou que “a liturgia nunca é propriedade privada de alguém, nem do celebrante, nem da comunidade onde são celebrados os Mistérios” (Ecclesia de Eucharistia, 52). É uma advertência que nossas comunidades deveriam levar a sério. Afinal, se até a celebração dos santos mistérios é submetida às preferências de cada coordenação, que formação litúrgica estamos oferecendo ao povo de Deus? E que fé estamos cultivando, quando parece mais importante emocionar a assembleia do que ensiná-la a reconhecer o mistério que celebra?

Nossa Senhora não precisa que transformemos a Missa em espetáculo para que sua grandeza seja reconhecida. A Igreja já lhe reserva um lugar singular entre todos os santos. O que nos falta, tantas vezes, não é entusiasmo para homenageá-la, mas formação para compreender aquilo que celebramos. E talvez seja essa a homenagem que mais urgentemente lhe devemos: uma fé capaz de ultrapassar a emoção e tornar-se verdadeira reverência.

Rogai por nós Santa Mãe de Deus,
para que sejamos dignos das promessas de Cristo!

REFERÊNCIAS
Concílio Vaticano II, Sacrosanctum Concilium, nn. 13–14, 19, 22, 34, 59–61 e 124; Lumen gentium, n. 67
Olavo de Carvalho. Seminário de Filosofia, aula 39.
São João Paulo II, Ecclesia de Eucharistia, n. 52. e Discurso no Encontro com Representantes das Comunidades Indígenas do Brasil
Papa Francisco, Desiderio desideravi, nn. 34–47.
Instrução Geral do Missal Romano, nn. 295–306.
Catecismo da Igreja Católica, nn. 1128 e 1667–1670.

domingo, 11 de outubro de 2026

O dia veio mesmo assim

Na noite escura, eu buscava
o que eu não sei nomear;
minha alma, em velhas ânsias,
já não sabia esperar.

Estava inquieto, 
não foi só um compromisso cancelado
foi mais uma decepção,
mais uma vez que saí da vida dos outos

Nem uma estrela no céu;
só nuvens, grossas, cerradas.
Do mangue, o canto dos sapos
corria às ruas molhadas.

Depois, quando vir os risos e sorrisos,
e olhar ao redor e não ver ninguém,
vou lembrar de cada vez que cancelei algo como hoje

Por fora, a chuva parara;
por dentro, não acabava.
Na pele, agulhas de gelo;
no rosto, o sal que queimava.

Tudo doía, e continua doendo,
como se tivesse corrido uma maratona,
e minhas pernas cobrassem uma taxa 
de cansaço e fadiga

Na carne de um cadáver adiado
caía a chuva que restou;
no lençol, um lago de sal
que nem a noite enxugou.

Eu tremia, 
e me escondia atrás de uma porta,
não conseguia fingir um sorriso,
e os outros já temiam meu rosto

De novo, o mesmo recado;
de novo, o mesmo pesar.
Não era a estrada o meu medo:
era não voltarem a chamar.

Me disseram que já estão com medo de mim,
que meu olhar sempre diz que estou com raiva

Na tela, coube um “não posso”;
não coube o resto da dor.
Do outro lado, um amigo;
deste, o medo e o tremor.

Não perceberam que não é apenas raiva,
de mim, de tudo, de todos, 
até da chuva e da brisa

Meu velho voltou ao trabalho;
e outra também seguiu.
Olhei tudo o que já fui
e não soube por onde ir.

E eu não consigo seguir

Eu me lembrava das salas,
dos quadros, do que ensinei;
lembrava também as feridas
e os lugares que deixei.

E eu ainda não consigo seguir,
como é patético,
ficar aqui na cama, 
enquanto o mundo segue e anda

De tanta coisa que eu soube,
nenhuma me socorria;
eu sabia falar de séculos,
mas não atravessar um dia.

E então esses dias foram se acumulando
semanas
meses
anos
e eu não conseguia seguir

As noites iam ficando
quentes demais para dormir;
eu evitava o verão
e os dias que tinham de vir.

E o que era difícil naquele lugar,
tornou difícil tudo mais

Eles vinham. Sempre vinham.
Uma tarde. Outra manhã.
Outro dia.
Outro dia terrível.

E eu ia dormir, 
esperando que o próximo fosse melhor.

Fiquei, e não fiquei mais leve;
só deixei de me obrigar.
O corpo, cansado da noite,
já não sabia levantar.

Dormi esperando a dor passar,
ou as dores

Acordei com gosto de ontem,
com os ossos ainda em sal;
nem toda ressaca vem do vinho,
a minha veio do temporal.

Olhei pela janela, 
céu coberto de nuvens

Já não havia força.
O corpo, largado,
só pensava na cama que,
embora vazia,
não era mais fria.

Queria fazer disso poesia,
boa poesia, que repetissem 
como experiência humana,
mas nem isso conseguia.

Não conseguia.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Mais uma coisa que não terminei

Era um corpo passado por séculos,
embora de séculos não tivesse vivido; 
já não ouvia, tampouco respondia, 
sobrevivia dos sonhos ao eco perdido.

A mente, cansada de tanto existir, 
já não sabia distinguir 
se o passado era lembrança 
ou se era o futuro que deixara de vir.

Não lembrava direito quem tinha sido, 
nem quando deixara de ser; 
se alguém perguntasse por ele, 
talvez nem soubesse responder.

A rosa, parece, um dia floriu, 
mas logo murchou, perdeu suas cores; 
ficaram-lhe apenas os espinhos, 
para afastar os últimos amores.

Todos parecem encontrar alguma luz, 
alguma aurora, algum sinal de esperança; 
a mim só resta esse sol inconveniente, 
que muda a estação, mas nada mais muda.

E faz calor. Um calor desgraçado. 
A roupa se cola ao corpo cansado; 
até dormir, que não exige talento, 
parece um trabalho demasiado.

As noites se multiplicam, e os dias se perdem 
por entre débeis tentativas 
de salvar, com duas braçadas, 
um naufrágio de vidas inteiras.

E nada funciona. Nem isto. 
Nem a rima que agora procuro, 
nem o verso que nasce torto, 
nem o silêncio que vem depois do escuro.

O mundo não deve nem sequer me odiar, 
pois até isso já seria reconhecimento demais. 
O ódio exige algum trabalho, 
e ninguém se ocupa de quem ficou para trás.

Por fim, restou apenas a carne gorda, 
esse amontoado de matéria fatigada, 
que ainda respira por hábito,
depois que a alma se fez névoa dissipada.

Quis escrever um poema sobre o fracasso, 
mas fracassei também ao procurar a palavra. 
Fiz versos como quem remenda a própria roupa: 
o tecido era pouco, e a costura não bastava.

Até mesmo estas palavras soam tolas, 
como tudo o que tentei e não terminei; 
pois quem as escreve perdeu até... 
Não.
 
Também este verso eu estraguei.

domingo, 4 de outubro de 2026

Ouro e Cinzas


Era apenas, mas não somente,
um pequeno punhado de cinzas,
guardado em relicário,
por delicado ourives lavrado.

Em nobre ouro envolvido,
em brilho e esplendor,
tão diverso do áspero burel
que em vida, pobrezinho, usou.

Continuava pequeno,
em cinzas penitentes;
mas reluzia o Cristo anunciado,
que contempla eternamente.

Pequeno quis ser em vida,
pequeno permanecia;
mas no ouro que o envolvia
o esplendor de Cristo reluzia.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Uma tarde qualquer

Sabe quando sente que algo se perdeu, e que já não pode mais ser recuperado? Algo como aquele tempo passado, quando o corpo ainda não tinha as marcas de agora. Mas não refiro só a isso, não é um saudosismo, nem arrependimento por algo que poderia ter feito, ou que poderia ter sido. É um pouco diferente, é um buraco deixado por algo que há tanto tempo me acompanhou que eu nem sequer sei mais o seu nome: ocupava tanto espaço dentro de mim que eu pensava que se tratava de mim mesmo, e nunca cheguei a pensar que poderia perder.

Mas se perdeu. Não sei dizer bem ao certo quanto, talvez um pouco por vez, como água vazando de um barril por um buraco num cantinho que ninguém, até que esteja vazio. 

Essa perda se torna mais sensível em dias como hoje. Ontem eu precisava ficar quieto e sozinho, por isso dormi o dia inteiro, e cancelei o que tinha pra hoje. Mas hoje acordei diferente, talvez o descanso tenha sido suficiente, e então quando me deitei, sem sono, e olhei para a janela com o sol brilhando nesse dia fresco de início da primavera, peguei um livro e, logo nas primeiras páginas, eu senti de novo. Porque as palavras caíram tão fundo, como num desfiladeiro, e se perderam como um grito distante, e não as ouvi chegar ao chão. Talvez continuem caído pra sempre, porque o vazio parece não ter fim. 

E então, mesmo sozinho, penso que poderia... Fazer algo que os homens fazem sozinhos. Mas não tinha vontade, quando elaborei essa ideia, é como se ela também caísse, sem encontrar o chão. 

Nos últimos dias eu tenho me perguntado em que página os outros estão. Não na mesma que eu, isso é certo. 

No que eles estão pensando?

Ontem me vi completamente sozinho, sem ninguém para falar. Olhei nos meus contatos e vi que não podia conversar sobre isso com nenhum deles. Hoje é dia de festa na paróquia, não quis ir, não quero ver as pessoas de lá. Algo meio José Régio "se ao que busco saber nenhum de vós me responde..." Mas é uma constatação dura, a da solidão. E Clarice tinha razão quando disse, naquela entrevista, que o adulto é triste e solitário.

É uma tarde qualquer. Nenhuma mensagem. Absolutamente sozinho.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

História Crítica dos BLs Tailandeses XI: ERA V — O próprio passado: memória, retorno e reinvenção (2024–2026)

Fase I: A indústria descobre sua própria memória (2024)

Algumas das séries que definiram o final do ano anterior ainda estavam sendo exibidas quando janeiro chegou. Last Twilight, Pit Babe, The Sign, Cherry Magic Thailand e Dead Friend Forever atravessavam a fronteira artificial do calendário, lembrando uma coisa bastante óbvia que periodizações históricas costumam fingir não saber: gêneros não mudam de fase à meia-noite do dia 31 de dezembro.

Mas havia algo diferente no ar.

O BL tailandês completava dez anos desde Love Sick.

Já existiam veteranos. Já existiam carreiras longas o suficiente para serem divididas em fases.

Havia atores que haviam trocado de parceiros, empresas ou posições dentro da indústria. Havia ships capazes de sustentar uma terceira ou quarta obra. Havia atores cuja primeira passagem pelo gênero acontecera quando uma parcela dos novos intérpretes ainda estava na escola. Havia diretores reconhecíveis pelo estilo, autores associados a determinados tipos de narrativa e produtoras com repertórios suficientemente extensos para que o próprio nome da empresa criasse expectativa.

O gênero adquirira aquilo que em 2014 simplesmente não poderia possuir: passado. E passado, quando permanece vivo, começa a interferir no presente.

Por isso 2024 pode ser compreendido menos como o ano de uma nova ruptura formal e mais como o momento em que todas as rupturas anteriores passam a coexistir com a memória de onde vieram. Uma produção pode reunir veteranos.

Pode recuperar uma dupla.
Pode desfazer outra.
Pode adaptar uma propriedade estrangeira já conhecida.
Pode transformar um casal secundário em protagonista.
Pode apresentar uma nova geração utilizando estruturas empresariais construídas pelas anteriores.
Pode colocar um ator de Make It Right diante de um parceiro que ainda está começando.
Pode devolver OffGun a um ambiente profissional depois de oito anos de história conjunta.
Pode transformar o casal secundário de Pit Babe nos protagonistas de uma nova série poucos meses depois.
Pode juntar dois atores veteranos que nunca haviam formado um ship.
Pode recomeçar.

Em 2024, recomeçar deixa de significar começar do zero.

Uma das obras mais interessantes para abrir esse movimento é My Stand-In.

Up Poompat, que nossa história já conhecia como Gene em Lovely Writer, retorna agora num registro quase oposto.

Seu Ming está longe da delicadeza desconfortável do escritor que observava a indústria BL sendo construída ao redor de sua própria obra. Aqui encontramos um personagem possessivo, emocionalmente destrutivo e preso a uma relação marcada desde o início pela substituição. Poom Phuripan interpreta Joe, dublê e substituto corporal de outro ator. Essa condição profissional torna-se também condição afetiva.

Joe percebe progressivamente que Ming se aproxima dele porque seu corpo lembra outra pessoa, especialmente quando visto de costas. A crueldade da premissa está aí. Joe não é inicialmente amado como Joe. É amado como superfície disponível para que alguém imagine outro homem.

Depois de sua morte, o elemento fantástico leva essa lógica ainda mais longe: sua consciência passa a ocupar outro corpo. A série transforma, portanto, aquilo que poderia ser apenas melodrama romântico numa pergunta sobre identidade. Se o corpo muda, quem permanece?

Se alguém se apaixona por uma imagem, ama a pessoa ou aquilo que projetou sobre ela? Se um homem vive profissionalmente substituindo outro diante da câmera e afetivamente substituindo outro diante do amante, em que momento consegue existir sem servir de cópia?

A trajetória de Up acrescenta outra camada. Em Lovely Writer, ele protagonizava uma obra que examinava a fabricação dos romances BL. Em My Stand-In, retorna dentro de uma produção muito mais erotizada e emocionalmente violenta, demonstrando o quanto um ator pode utilizar a própria memória anterior justamente para surpreender o público. Não acompanhamos apenas Ming. Também acompanhamos Up deixando Gene para trás. Esse tipo de comparação torna-se possível porque a indústria já possui tempo.

Veteranos que finalmente se encontram

Wandee Goodday oferece outra forma de memória. Great Sapol interpreta Yoryak, lutador de boxe, enquanto Inn Sarin vive Wandee, médico cuja vida afetiva sai do controle depois de uma rejeição. Uma relação inicialmente construída em torno de sexo e conveniência adquire progressivamente intimidade. A novidade não está propriamente na estrutura de amigos com benefícios. Está também nos intérpretes.

Great já atravessava a televisão tailandesa havia anos e havia aparecido no nosso percurso em Manner of Death. Inn chegara ao centro de nossa análise com The Miracle of Teddy Bear, trazendo consigo experiência anterior nos lakorns. Nenhum dos dois precisava ser apresentado como jovem promessa.

Quando GreatInn surge, a indústria demonstra outra capacidade: formar um ship novo a partir de dois atores que já possuem carreira. Isso modifica a sensação produzida pela dupla pois há segurança física, e há experiência. Os personagens são adultos com profissões estabelecidas.

Sexo, desejo, consentimento, insegurança corporal e vulnerabilidade podem ser tratados dentro de uma relação em que o primeiro beijo não precisa carregar sozinho toda a descoberta do mundo.

A série conserva muito da leveza da comédia romântica, mas seus protagonistas pertencem a uma geração de atores que já sabe ocupar a câmera. É outro sinal de amadurecimento industrial. O BL deixa de precisar buscar novidade apenas na juventude. Pode produzir novidade através do encontro entre experiências anteriores.

A universidade permanece, agora como memória confortável

Ao mesmo tempo, We Are retorna quase obstinadamente àquilo que parecia mais familiar.

Universidade.
Amigos.
Casais múltiplos.
Brincadeiras.
Ciúmes.
Convívio cotidiano.

O elenco, porém, transforma completamente o significado desse retorno.

Pond Naravit e Phuwin Tangsakyuen chegam com uma trajetória conjunta que passa por Fish Upon the Sky e Never Let Me Go. Winny Thanawin e Satang Kittiphop já haviam conquistado espaço dentro do ecossistema GMMTV. Aou Thanaboon e Boom Tharatorn vinham acumulando pequenas participações e reconhecimento.

Outros atores completam um conjunto em que a amizade possui peso quase tão grande quanto os romances. O resultado lembra, de maneira distante, uma característica que estava no coração de Love Sick: o mundo não termina no casal principal.

Há grupos. Há convivência. Há pessoas entrando e saindo de quartos, corredores, bares e atividades universitárias.

O espectador pode escolher favoritos. Pode acompanhar várias relações. Pode permanecer pela companhia.

Mas aquilo que em 2014 parecia uma descoberta do próprio formato agora surge como conforto. A universidade deixou de ser inevitabilidade. Por isso pode voltar a ser prazer.

A indústria já passou por máfia, investigação criminal, viagem temporal, reencarnação, política, horror, melodrama histórico e drama existencial. Ninguém precisa mais provar que o BL consegue sair do campus. Voltar ao campus torna-se escolha. Em certo sentido, We Are é quase uma memória inconsciente da primeira fase. A diferença está em tudo aquilo que aconteceu entre uma coisa e outra.

Uma geração pode herdar uma propriedade estrangeira

O retorno à juventude adquire outra forma em My Love Mix-Up! Thailand. Gemini Norawit e Fourth Nattawat, cuja ascensão em My School President havia sido tão rápida, assumem agora uma adaptação tailandesa de uma propriedade japonesa já conhecida do público BL internacional.

A premissa conserva o mecanismo central do original: um equívoco envolvendo uma borracha e o nome de um colega transforma uma pequena confusão escolar em cadeia de mal-entendidos afetivos. O que importa historicamente, entretanto, é a circulação.

Nos primeiros capítulos de nossa história, Japão aparecia principalmente como uma das fontes culturais através das quais yaoi e BL haviam chegado ao imaginário tailandês. Uma década depois, uma obra japonesa contemporânea pode ser readaptada oficialmente utilizando uma das duplas tailandesas de maior projeção recente.

Já não existe uma linha simples entre centro e periferia, origem e reprodução, mas circulação asiática de propriedades, públicos e convenções. 

GeminiFourth também chega carregando sua própria memória. O espectador que os acompanhou em My School President não começa do zero. A nova história precisa negociar com uma química já conhecida. A propriedade estrangeira recebe atores que possuem repertório próprio.

A adaptação passa a existir no encontro entre duas memórias.

E, por falar em memória, talvez nenhuma dupla da GMMTV torne essa consciência temporal tão evidente quanto OffGun.

Em The Trainee, Gun Atthaphan interpreta Ryan, jovem que entra como estagiário num ambiente profissional ligado à produção audiovisual. Off Jumpol vive Jane, figura mais experiente dentro desse espaço de trabalho. O deslocamento parece simples, mas basta olhar para trás:

Puppy Honey.
Theory of Love.
Not Me.
Cooking Crush.
Agora The Trainee.

O espectador não acompanha apenas personagens diferentes interpretados pelos mesmos atores. Acompanha envelhecimento. Mudança de corpo. Mudança de registro. Mudança de posição social.

Nos primeiros trabalhos, grande parte da energia vinha da descoberta do casal. Agora a própria familiaridade pode ser utilizada como recurso. Off e Gun já não precisam convencer o público de que possuem alguma forma de presença conjunta, essa etapa ficou no passado, podem concentrar-se nos personagens. Há ainda uma ironia bonita na escolha do ambiente profissional.

Uma dupla que atravessou grande parte da história moderna do BL protagoniza uma série sobre jovens aprendendo como funciona uma indústria criativa. Jane orienta Ryan. OffGun, sem que a série precise dizer isso, já pertence à geração que poderia orientar quem está chegando. O ship envelheceu. E sobreviveu ao envelhecimento. Isso, por si só, constitui um acontecimento histórico.

No mesmo catálogo GMM TV, Only Boo! olha para o outro extremo. Keen Suvijak e Sea Dechchart aparecem como rostos de uma geração muito mais nova.

A história combina juventude, romance e o desejo de entrar no universo idol, permitindo que carreira artística e relação amorosa se choquem. A premissa parece leve, mas contém uma questão que se tornou cada vez mais importante para o próprio BL tailandês.

O que acontece quando amar alguém pode interferir na imagem profissional necessária para tornar-se artista? O problema pertence simultaneamente à ficção e ao mundo que produz a ficção.

Depois de anos discutindo fanservice, ships, contratos, gerenciamento de imagem e expectativas de fandom, uma história sobre jovem aspirante a idol já não consegue separar facilmente romance e indústria.

Keen também exemplifica a integração crescente entre música e atuação. A nova geração não é formada apenas para permanecer diante da câmera. Precisa cantar. Dançar. Participar de eventos. Falar com fandom. Sustentar presença digital. O ator BL aproxima-se cada vez mais do artista de entretenimento completo.

Joong, Aou, Santa e Pond formaram o grupo JASP.ER. Keen, Barcode, Aungpao e Ashi vão formar o CLO'VER.

Aquilo que para White e Captain ainda estava sendo improvisado em 2014 passa a constituir infraestrutura disponível para quem estreia dez anos depois.

MAME retorna aos casais que seu próprio universo criou. Love Sea oferece outra forma de continuidade. Fort Thitipong e Peat Wasuthorn, apresentados ao grande público como Prapai e Sky em Love in the Air, recebem agora novos personagens dentro de outra obra associada ao universo criativo de MAME.

A transferência é reveladora. FortPeat já não depende de PrapaiSky. A química comercial sobrevive aos personagens que a criaram. A nova narrativa desloca o casal para outro ambiente e explora novamente erotização, vulnerabilidade e as tensões entre alguém acostumado a proteger-se e alguém disposto a atravessar suas defesas. O processo é quase didático.

Primeiro, uma obra apresenta dois atores como casal secundário ou como parte de uma estrutura compartilhada. O público responde. A empresa preserva a combinação. Depois, entrega outra propriedade. O ship passa de consequência de casting a ativo empresarial. MAME havia aprendido essa lógica ao longo de anos, e em 2024, ela já faz parte do funcionamento ordinário de seu ecossistema.

A mesma permanência aparece em Two Worlds. Max Kornthas e Nat Natasitt já haviam construído uma trajetória dentro do universo Domundi/Mandee, com Cutie Pie e posteriormente outros projetos.

Agora entram numa fantasia ligada a universos paralelos, deslocando a dupla para uma forma narrativa bastante diferente daquela que primeiro consolidou sua popularidade. Esse movimento interessa menos pela simples mudança de cenário e mais por aquilo que confirma. Um ship estável pode tornar-se instrumento para experimentar gênero.

O público chega pelos atores. A obra utiliza essa confiança para levá-los a outro lugar. É uma inversão completa em relação ao início da indústria, quando a série precisava primeiro produzir o casal. Agora, às vezes, o casal ajuda a produzir a série.

Poucos casos demonstram tão rapidamente a estratégia de construção de catálogo quanto This Love Doesn't Have Long Beans.

Em Pit Babe, Sailub Hemmawich e Pon Thanapon haviam formado Alan e Jeff, um casal importante dentro de um elenco muito maior. Ali já observávamos como a CHANGE2561 parecia utilizar a série não apenas para apresentar PavelPooh, mas para colocar diversos atores diante do público e testar possíveis combinações.

Em 2024, essa hipótese encontra confirmação: SailubPon recebe protagonismo.

A nova história abandona as pistas de corrida e entra no universo da gastronomia, colocando os atores dentro de outra dinâmica romântica e profissional.

O deslocamento importa: AlanJeff não precisou de continuação, mas SailubPon precisou apenas de outra história. A empresa transforma atenção secundária em investimento posterior. Isso é precisamente aquilo que companhias com repertório aprendem a fazer. Um casal que funciona na periferia de uma obra pode tornar-se centro da próxima.

A série anterior passa, retrospectivamente, a funcionar como audição pública. Nesse sentido, This Love Doesn't Have Long Beans constitui uma pequena prova de que Pit Babe não havia lançado somente uma narrativa. Lançara uma geração empresarial.

A própria centralidade de Pavel Naret em Pit Babe, ainda muito presente no início de 2024, reforça essa tese. Nós o conhecemos desde 2 Moons 2. Vimos a instabilidade daquela franquia. Vimos atores dispersarem-se. Vimos Joong encontrar outra casa. Vimos Nine seguir outro caminho. Vimos carreiras reorganizarem-se.

Anos depois, Pavel encontrou em Babe um personagem capaz de recentralizar sua imagem. Sua trajetória impede qualquer leitura demasiado linear da indústria. Carreiras não crescem sempre.Às vezes desaparecem. Mudam de direção. Perdem um ship. Encontram outro. Esperam. Retornam. 

2024 está cheio desses retornos. 

E 4Minutes talvez seja um dos casos mais simbólicos.

Bible Wichapas havia sido apresentado a uma audiência enorme através de Vegas em KinnPorsche. VegasPete tornou-se uma das relações mais discutidas daquela produção, mas a história industrial da dupla não permaneceu intacta.

Quando Bible retorna ao centro de outra grande produção da Be On Cloud, ele já não está ligado ao mesmo parceiro. Jes Jespipat entra como Tyme. Bible interpreta Great.

A série trabalha tempo, culpa, violência, desejo e percepção dentro de uma estrutura fragmentada em que acontecimentos podem assumir significados diferentes conforme a narrativa avança.

A erotização permanece forte, como seria esperado de uma empresa que havia construído grande parte da identidade de KinnPorsche sobre a combinação entre desejo e espetáculo.

Mas existe aqui um teste industrial mais importante: Bible consegue sobreviver a VegasPete? A própria existência da série já oferece uma resposta parcial. O ator pode carregar consigo reconhecimento anterior sem precisar reconstruir literalmente a dupla que o tornou conhecido.

Jes, por sua vez, chega com uma carreira de televisão muito mais ampla, criando outro encontro entre repertórios.

De novo, 2024 mostra que formar um casal novo não significa necessariamente juntar duas pessoas novas. Pode significar reorganizar duas biografias.

Century of Love leva esse problema de memória para dentro da própria narrativa.

Daou Pittaya e Offroad Kantapon, que haviam encontrado projeção como dupla em Love in Translation, retornam numa história construída ao redor de longevidade, reencarnação e espera.

San atravessa décadas sustentado por forças sobrenaturais enquanto aguarda o retorno de um amor perdido. Quando a pessoa que parece corresponder àquela promessa finalmente surge, a forma assumida por essa reencarnação desestabiliza expectativas construídas durante uma vida inteira.

O melodrama encontra fantasia. A fantasia encontra o lakorn. E o romance masculino encontra uma tradição narrativa tailandesa profundamente acostumada a destino, família, promessa, sacrifício e vidas que atravessam gerações. DaouOffroad também amadurece como dupla.

Love in Translation havia servido como apresentação. Century of Love exige peso melodramático muito maior.

É outro exemplo de um ship fixo que recebe material progressivamente mais exigente. A memória profissional começa a produzir expectativa de crescimento.

Jack & Joker: U Steal My Heart! realiza movimento semelhante com Yin Anan e War Wanarat.

A dupla havia conquistado público primeiro dentro do formato reduzido de En of Love, depois ganhara uma versão expandida de Love Mechanics,agora retorna com outros personagens e outra identidade narrativa.

Jack e Joker pertencem a um universo de crime, golpes, dívidas, desigualdade e pessoas tentando sobreviver às próprias escolhas. O que antes era romance universitário turbulento transforma-se numa história de ação, disfarces e reparação. A comparação entre as duas etapas é reveladora. YinWar já não precisa de VeeMark. Pode transportar o capital afetivo produzido por aqueles personagens para uma propriedade diferente.

O ship adquire cada vez mais biografia. Cada nova obra passa a funcionar como capítulo dessa biografia, sem que os personagens anteriores precisem ser ressuscitados. Esse mecanismo será cada vez mais importante para compreender a longevidade dos pares.

Nenhum caso talvez seja tão delicado para a memória recente da GMMTV quanto Kidnap.

Ohm Pawat chega carregando uma das trajetórias mais longas de toda a geração intermediária.

Make It Right, com duas temporadas e um especial
He's Coming to Me.
Bad Buddy.

Outros trabalhos fora e dentro do ecossistema BL. Durante anos, diferentes parceiros marcaram fases distintas de sua carreira.

Em Kidnap, ele aparece ao lado de Leng Thanaphon, antigo amigo de colégio.

A narrativa utiliza crime e sequestro como ponto de partida para a aproximação entre Min e Q, mas industrialmente existe outra história acontecendo ao mesmo tempo. Uma nova dupla está sendo apresentada ao lado de um ator cuja imagem já possui enorme carga de memória.

Leng não entra num espaço vazio. Entra diante de um fandom que conhece o passado de Ohm. Essa assimetria torna OhmLeng um caso particularmente interessante.

O veterano precisa permitir que o novo parceiro exista sem transformar cada cena numa comparação. O recém-chegado precisa construir presença própria sem fingir que a história anterior não aconteceu. Esse tipo de situação só se torna possível numa indústria suficientemente antiga para possuir antigas duplas. O BL começa a enfrentar algo que cinema, televisão e música conhecem há muito tempo. O público lembra. 

Mas o passado também pode ser reorganizado em novas combinações. No final do ano, Perfect 10 Liners leva essa lógica ainda mais longe.

A produção utiliza uma estrutura extensa e múltiplos casais, recuperando a universidade como grande espaço de convivência enquanto combina atores com trajetórias muito diferentes.

ForceBook chega depois de Enchanté, A Boss and a Babe e Only Friends. Já conhecemos sua evolução.

Mas outra combinação chama atenção de maneira especial: Perth Tanapon e Santa Pongsapak. Perth pertence à memória de Love by Chance. Santa havia construído trajetória própria ao lado de Earth Katsamonnat em projetos como 7 Project e My Only 12%. Agora dois atores conhecidos por parcerias anteriores são reorganizados. Isso representa uma etapa nova na maturidade do sistema. O ship não precisa terminar porque um ator perdeu a possibilidade de formar outro. A experiência anterior pode ser reaproveitada.

O fandom também aprende, com maior ou menor elegância, a lidar com substituição, mudança e recomposição. A indústria descobre que possui peças móveis. Não no sentido desumanizador de atores intercambiáveis, mas no sentido histórico de carreiras que não precisam permanecer aprisionadas à primeira combinação bem-sucedida.

A própria presença de Perfect 10 Liners, iniciada em 2024 e avançando para o ano seguinte, indica quanto a universidade ainda consegue servir de palco para novas genealogias mesmo depois de tudo o que aconteceu fora dela.

O campus permanece. Mas quem entra nele carrega dez anos de história nas costas.

The Rebound recupera Meen Nichakoon e Ping Krittanun numa narrativa ligada ao basquete.

A dupla já havia atravessado produções anteriores e demonstrava que nem todo ship precisa alcançar o nível de fenômeno de GMM TV ou Domundi para manter continuidade. Existe uma camada intermediária extremamente importante. Casais com fandom suficiente para continuar recebendo trabalhos. Atores que constroem carreira por repetição. Empresas que apostam na familiaridade acumulada. Esse estrato constitui boa parte da indústria real. Se observássemos somente os grandes fenômenos, perderíamos a sustentação do mercado.

Sunset x Vibes realiza algo semelhante com Mos Panuwat e Bank Mondop, que carregavam consigo a memória de Big Dragon.

A nova obra mistura ambiente profissional, desejo e elementos fantásticos, demonstrando novamente que um casal conhecido pode ser transferido para uma estrutura narrativa diferente sem precisar carregar seus antigos personagens.

Battle of the Writers faz o mesmo com Tutor Koraphat e Yim Pharinyakorn. Os dois haviam crescido dentro do universo Domundi/Mandee, inicialmente como parte do repertório de Cutie Pie e depois em projetos que lhes deram maior centralidade.

Agora entram numa história ligada à escrita, imaginação e representação visual de mundos ficcionais. A trajetória é exatamente aquela que a Domundi começara a aperfeiçoar anos antes.

Apresentar.
Observar.
Cultivar.
Promover.
Reaproveitar.

Mas nem toda combinação alcança imediatamente ZeeNuNew. Isso não impede que outras sejam transformadas em linhas próprias dentro do catálogo. 

Por isso Your Sky possui interesse particular: a Domundi já não pode viver apenas de sua primeira ou segunda geração.

Uma empresa que deseja durar precisa resolver um problema simples e brutal: apresentar gente nova antes que seu catálogo envelheça inteiro diante do público: Thomas Teetut e Kong Kongpob aparecem como parte dessa renovação.

A estrutura romântica utiliza elementos bastante familiares, incluindo proximidade produzida por circunstâncias e uma dinâmica que dialoga com fórmulas clássicas do gênero. Mas a função empresarial é diferente daquela de 2016. Os novos atores entram num sistema pronto.

Quando Captain e White começaram, quase tudo isso precisava ser descoberto. Quando uma nova dupla Domundi começa em 2024, existe uma estrada asfaltada. Pode tropeçar nela, naturalmente. Humanos mantêm esse talento admirável. Mas a estrada existe.

A GMMTV enfrenta o mesmo problema. Não basta preservar OffGun, TayNew, EarthMix ou outras duplas estabelecidas. É preciso produzir sucessão.

Only Boo! já participava desse movimento. Outros projetos de 2024 mostram a mesma preocupação.

No final do ano, ThamePo: Heart That Skips a Beat aproxima ainda mais o BL do universo idol. William Jakrapatr, integrante do LYKN, assume Thame, enquanto Est Supha interpreta Po.

A presença de um artista que já pertence efetivamente a um grupo musical faz a integração entre ficção e indústria quase desaparecer. 

A série fala de música, imagem, carreira e grupo utilizando pessoas que vivem dentro desse ecossistema. Aquilo que durante anos víamos como estratégia promocional torna-se matéria da própria narrativa. O ator canta porque o personagem canta. O personagem pertence a um grupo porque o intérprete também conhece aquele mundo.

O fandom musical pode encontrar o BL. O fandom BL pode encontrar o grupo. A circulação se completa.

The Heart Killers, iniciada no final de 2024, oferece outro exemplo claro da liberdade conquistada. First Kanaphan e Khaotung Thanawat chegam como dupla já consolidada. Joong Archen e Dunk Natachai também.

Em vez de reuni-los numa universidade confortável, a série os coloca dentro de uma narrativa de assassinos, investigação, sedução e humor negro sob direção de Jojo Tichakorn.

Dois ships conhecidos compartilham a mesma obra. Cada um traz seu próprio fandom. Cada dupla possui repertório anterior. A série pode brincar com expectativas porque as expectativas já existem. FirstKhaotung não começa em The Heart Killers. JoongDunk também não. O espectador carrega The Eclipse, Only Friends, Star in My Mind e outras memórias para dentro da nova produção.

Essa bagagem interfere na recepção.

Em 2014, o ator precisava convencer o público de uma personagem. Em 2024, às vezes precisa negociar também com os fantasmas de todas as anteriores.

A continuidade não pertence apenas aos atores. Spare Me Your Mercy demonstra isso de maneira particularmente clara.

A obra se conecta ao repertório de Sammon, autora que já acompanhamos através de Manner of Death e Triage. Mais uma vez medicina, crime, ética e desejo encontram-se. 

Tor Thanapob e JJ Krissanapoom assumem personagens envolvidos numa investigação que passa pela morte de pacientes e pela questão da eutanásia. O tema modifica o tipo de dilema moral colocado diante do romance.

O médico não existe apenas para fornecer profissão atraente ao protagonista: a profissão é o problema.

Quando aliviar o sofrimento pode aproximar-se de provocar a morte? Quem possui autoridade para decidir? Como investigar alguém quando aquilo que parece crime pode ser defendido como misericórdia? Até onde ética profissional e ética individual coincidem?

A presença de atores com carreiras amplas fora do núcleo tradicional do BL reforça novamente a dissolução das fronteiras.

Sammon também funciona como autora reconhecível. O público já pode associar seu nome a determinado universo de histórias. Isso é tradição. Não apenas personagens e atores possuem memória. Autores também passam a possuir obra.

Em camadas menos centrais, 2024 continua produzindo uma quantidade impressionante de pequenas experiências.

I Saw You in My Dream utiliza sonhos e antecipação como dispositivo para aproximar personagens e transformar aquilo que deveria pertencer ao inconsciente em problema concreto para a vida afetiva. Monster Next Door trabalha proximidade física e diferença de personalidade, colocando lado a lado maneiras muito distintas de habitar o mundo social.

Deep Night desloca o romance para ambientes noturnos de entretenimento e performance, permitindo que desejo, trabalho e imagem pública se misturem em espaços raramente ocupados pelos primeiros BLs. Knock Knock, Boys! utiliza convivência compartilhada e conversas mais francas sobre sexo e experiência afetiva, lembrando que a comédia ainda pode servir como espaço para personagens falarem sobre aquilo que séries anteriores frequentemente deixavam apenas implícito.

Memory in the Letter recorre novamente ao fantástico para trabalhar distância, comunicação e impossibilidade. 

1000 Years Old e OMG! Vampire demonstram como vampiros, criaturas sobrenaturais e comédia podem agora conviver tranquilamente com a estrutura BL sem precisar justificar a combinação.

City of Stars aproxima romance, celebridade e exposição pública, tema inevitavelmente pertinente numa indústria em que a imagem digital dos próprios atores se tornou parte essencial de suas carreiras.

Nenhuma dessas obras precisa ser transformada artificialmente em marco histórico. Seu conjunto importa mais que qualquer caso isolado. A abundância é o fato.

O BL tailandês de 2024 consegue produzir obras médicas, universitárias, policiais, sobrenaturais, esportivas, profissionais, gastronômicas, musicais e fantásticas ao mesmo tempo. Aquilo que em 2022 ainda chamávamos de transbordamento agora constitui rotina.

Every You, Every Me oferece uma brincadeira particularmente adequada a esse momento histórico.

Top Piyawat e Mick Monthon, que já cruzaram nosso percurso em produções anteriores, são utilizados através de diferentes histórias e identidades. A repetição dos mesmos intérpretes transforma-se em princípio formal.

O espectador reconhece os rostos. Os personagens mudam. É quase uma destilação daquilo que a própria indústria aprendeu a fazer com os ships. Dois atores podem amar-se de novo.

E de novo. E de outra maneira.

Não porque os personagens tenham reencarnado necessariamente, mas porque a dupla profissional funciona como estrutura capaz de receber novas ficções.

O ship torna-se espécie de repertório teatral. O público aceita o jogo.

Sabe que aqueles homens não são as mesmas pessoas da história anterior. Mas parte do prazer vem justamente de reconhecê-los. Depois de tantos anos discutindo a independência progressiva entre ator, personagem e casal promocional, uma obra desse tipo parece quase inevitável.

Projetos como Fourever You acrescentam outra camada importante.

Earth Katsamonnat já está conosco desde Until We Meet Again e, antes disso, pertence àquela rara história de atores abertamente queer que conseguiram visibilidade significativa dentro do gênero. Sua carreira atravessou parceiros, empresas, papéis e fases diferentes.

Quando aparece novamente dentro de um conjunto de novos casais e novas possibilidades, sua presença carrega memória. Ele não precisa representar a mesma função. O próprio fato de continuar já significa alguma coisa.

A indústria de 2024 possui atores que sobreviveram tempo suficiente para que sua permanência possa ser comparada com aquilo que eram cinco anos antes.

Isso parece banal em indústrias maduras, mas no BL tailandês, é uma conquista recente, e esse contraste entre veteranos e recém-chegados é talvez a melhor maneira de compreender 2024.

A obra apresenta nomes bastante conhecidos, e a premissa é simples: quatro calouros da universidade se envolvem com quatro veteranos da faculdade de medicina, cada casal com um arco próprio de 8 episódios. Ao final, a obra ficou no ar por quase dois anos, contando as pausas entre gravações. 

O primeiro arco é de Earth Katsamonnat que, como Easter, reencontra Hill, personagem de Pond Ponlawit (180 Degree Longitude Passes Through Us), que era sua antiga paixão de sua cidade natal e que ele sempre achou que gostava de sua irmã. Agora, ao se reencontrarem, Hill pode consertar esse desentendido. Depois acompanhamos North e Johan, Bas Suradet (o veterano de 2 Moons e GenY que se reencontra no Studio Wabi Sabi) e Maxky Ratchata. North é a linha que vai passar por todos os arcos: ele é o amigo de todas as horas, seja para tomar um café ou fazer uma mudança para um apartamento assombrado. 

A segunda parte da série contou com os arcos de Tonliew e Bever, onde antigos amigos que já nutriam sentimentos se reencontram, e precisam se entender, especialmente quando segredos de um passado trágico e dolorido começam a ressurgir. O peso dramático é maior que nas duas primeiras temporadas e os amigos aqui encontram o espaço de apoio para o protagonista. Agora uma temporada especial: depois de dez anos, dois atores de Love Sick retornam, como protagonistas e não apenas mais dois nomes num elenco que parecia o catálogo telefônico. Oat Tharathon interpreta Dao, e Ngern Anupart dá vida a Arthir. Dao consegue se comunicar com fantasmas, e se muda para um apartamento assombrado por ser mais barato. Ao descobri isso, o vizinho Arthit começar a pedir que ele o ajude a encontrar sua falecida mãe. A história equilibra comédia, com as constantes investidas de Arthit, com momentos delicados do drama da perda da mãe e o peso de ver tantas histórias de pessoas que já se foram. 

Uma quinta temporada é adicionada graças ao apelo do público: Tiger e Nao, personagens de Pie Saranvut, de Restart(ed) e Golf Pasatorn se mostraram tão carismáticos, especialmente nos arcos de Easter e North, que sua história também foi adaptada, e acabou por ser uma das melhores do conjunto. Tiger cresceu num lar hostil, filho da máfia, e encontra na família de Nao o acolhimento de uma família carinhosa, embora simples, e então decide ir contra todos para viver com Nao, inclusive fazer coisas de que se arrepende, para poder se livrar de sua família. Seu irmão também esconde sentimentos por seu parceiro de negócios, interpretados por Aong Sittan e Ome Sutthipong respectivamente, numa espécie de preparação para a série solo de ambos, que virá logo depois. 

E então Love Sick retorna

O reencontro de Ngern e Oat, que participaram de Love Sick é tão apropriado para o momento que quase se torna irônico. Oat, em entrevista, chega a brincar que, o que está destinado para ser seu, no caso Ngern, vai voltar para você mais cedo ou mais tarde. E é no meio de todas essas recombinações, remakes, novos parceiros, veteranos e gerações emergentes, que a indústria realiza o gesto que oferece a este primeiro grande ciclo seu encerramento mais natural.

Love Sick 2024 retorna à história de Phun e Noh.

Dez anos depois.

A mesma propriedade que utilizamos para marcar o início de nossa primeira era reaparece quando tudo aquilo que ela ajudou a tornar possível já existe.

Almond Poomsuwan e Progress Passawish assumem os papéis centrais da nova geração. Eles entram em personagens que não chegam vazios à tela.

Phun e Noh já possuem memória.

Existem leitores que conheceram a novel.Existem espectadores que acompanharam White Nawat e Captain Chonlathorn. Existem músicas associadas à primeira adaptação.

Existem cenas lembradas. Existem expectativas.

Há pessoas assistindo ao remake capazes de recordar exatamente onde estavam quando conheceram aquela história uma década antes.

Essa situação seria impossível em 2014.

Na primeira versão, quase tudo parecia descoberta, o público aprendia os personagens. A indústria aprendia o público. Os atores aprendiam aquilo que significava tornar-se ship. Produtores aprendiam até onde a atenção poderia sobreviver fora dos episódios. Fãs organizavam legendas, páginas, vídeos e comunidades enquanto o próprio vocabulário ainda estava sendo estabilizado. Em 2024, a nova versão encontra uma infraestrutura inteira esperando por ela.

O remake já nasce dentro de uma indústria que conhece:

ships;
fanservice;
OSTs;
eventos;
merchandising;
fandom internacional;
redes sociais;
agências especializadas;
plataformas digitais;
conteúdo promocional;

e a possibilidade de transformar atores adolescentes em artistas com carreira planejada para continuar depois da série.

O contraste não poderia ser maior. Mas a história ainda começa com jovens.

Uniformes.
Amigos.
Música.
Confusão.
Desejo.

A descoberta de que determinado vínculo já não cabe confortavelmente dentro da palavra amizade.

Isso talvez seja o mais bonito.

Depois de uma década inteira tentando descobrir quantas formas o BL poderia vestir, a indústria retorna à simplicidade do primeiro amor. Não porque tenha esquecido aquilo que aprendeu, mas porque agora pode olhar para aquilo de onde veio.

O remake funciona quase como um experimento histórico involuntário. Quando a matéria narrativa permanece reconhecível e o ambiente industrial muda completamente, conseguimos observar aquilo que dez anos fizeram ao gênero.

Mudou a maneira de filmar.
Mudou a expectativa de atuação.
Mudou a relação entre série e promoção.
Mudou o modo como o público internacional acompanha os episódios.
Mudou a velocidade com que cenas circulam.
Mudou a forma como um ship pode ser construído.
Mudou a relação entre atores e redes sociais.
Mudou o próprio significado de chamar alguma coisa de BL.

Em 2014, Love Sick estava ajudando a descobrir se uma produção centrada em rapazes apaixonados poderia sustentar público suficiente para tornar-se fenômeno continuado. Em 2024, ninguém precisa fazer essa pergunta.

O público já existe.
As empresas já existem.
Os concorrentes já existem.
As convenções já existem.
A memória já existe.

Por isso a nova versão carrega uma responsabilidade que a primeira jamais teve. Precisa conversar com espectadores que já conhecem aquela história sem transformar nostalgia em museu. Precisa permitir que novos atores ocupem personagens marcados por outros intérpretes. Precisa existir para adolescentes de 2024 sem apagar aquilo que a obra representou para jovens de 2014.

Essa tensão torna o remake historicamente mais interessante do que qualquer comparação simples de qualidade.

Não precisamos decidir qual Phun é melhor. Não precisamos decidir qual Noh é definitivo.

A pergunta realmente útil é outra: o que significa contar novamente Love Sick depois de tudo aquilo que aconteceu porque histórias como Love Sick foram contadas?

A diferença entre as duas versões está também no espectador. Quem acompanhou a primeira série envelheceu. Alguns permaneceram no fandom. Outros partiram e voltaram. Muitos conheceram dezenas ou centenas de BLs durante a década seguinte. Há espectadores que chegam ao remake sem qualquer memória da primeira adaptação. E há uma geração ainda mais jovem para quem 2014 já pertence a uma espécie de pré-história digital.

A mesma obra passa, portanto, a unir temporalidades.

Para uns, descoberta. Para outros, retorno.

O remake transforma fandom em memória coletiva. Há algo quase excessivamente perfeito na imagem de Almomd e Progress, que já nascem com o carisma de uma década de cultivo.

Em 2014, dois rapazes de uniforme aparecem diante de um público que ainda não sabe exatamente o tamanho daquilo que está começando.

Em 2024, outros dois rapazes vestem os mesmos personagens diante de uma indústria capaz de produzir máfia, horror, viagem temporal, melodrama histórico, thrillers médicos, séries políticas, romances profissionais, histórias sobre deficiência, reencarnação, idols e universos paralelos.

Entre essas duas imagens existem dez anos.

White e Captain.

Krist e Singto.

Off e Gun.

Max e Tul.

Perth e Saint.

Fluke e Ohm.

Mew e Gulf.

Bright e Win.

Billkin e PP.

Earth e Mix.

Ohm e Nanon.

Zee e NuNew.

Gemini e Fourth.

Pavel e Pooh.

E dezenas de outros nomes que passaram, permaneceram, desapareceram ou ainda retornarão.

Existem produtoras que nasceram. Outras que mudaram. Algumas que desapareceram.

Diretores construíram filmografias. Autores transformaram novels em universos.

Músicas tornaram-se memória de gerações.

Casais fictícios geraram casais promocionais. Casais promocionais sobreviveram a seus personagens. Atores se tornaram casais reais. Alguns não sobreviveram uns aos outros.

Atores mudaram de parceiro.

Fandoms aceitaram.

Fandoms recusaram.

Empresas aprenderam.

Às vezes aprenderam coisas erradas.

Mas aprenderam.

E, depois de tudo isso, Phun e Noh voltam.

Não para demonstrar que nada mudou.

Justamente para tornar visível o quanto mudou.