Dizem que o sertanejo sabe
quando a chuva vai chegar,
que o marinheiro sente o vento
antes da tempestade começar.
Eu também aprendi um jeito
de saber que algo vem:
primeiro dói minha cabeça,
depois eu não quero ninguém.
O corpo sabe antes da alma,
e a alma demora a entender.
Talvez seja assim que a tristeza avisa
que está cansada de se esconder.
Primeiro vem o torpor,
depois vem a agitação.
Um dia eu não sinto nada,
no outro, sinto até o chão.
Passam as horas pela casa,
passam os dias também.
Eu continuo na mesma cama,
sem saber se vou além.
Meu professor dizia:
“Vá conhecer a vida.”
Eu queria.
Mas como conhecer o mundo
quando a cama parece maior que a estrada?
Como atravessar uma cidade
se levantar já parece uma jornada?
Então fui ver histórias.
Disseram que era fuga.
Talvez fosse.
Mas quem foge para algum lugar
ainda precisa saber para onde ir.
E se eu não consigo sair de casa,
talvez ainda possa assistir alguém partir.
Vi gente chegando,
vi gente indo embora,
vi quem perdeu um amor
e quem encontrou alguém na mesma hora.
Vi gente rindo na rua,
pegando um trem, atravessando o mar.
Vi gente dizendo “eu te amo”
e tendo alguém para abraçar.
E pensei:
por que a vida deles acontece
e a minha parece esperar?
Camus perguntou
se valia a pena viver.
Suassuna perguntou
por que viver dói.
Eu, que não sou Camus nem Suassuna,
tenho uma pergunta menor:
por que às vezes
eu quero tanto viver
justamente quando não consigo levantar?
Talvez eu tenha aprendido
a conhecer a vida pela televisão.
Não é a vida inteira, eu sei.
São pedaços.
Recortes.
Alguns minutos escolhidos
por alguém que escreveu uma história.
Mas até um pedaço de vida
pode ensinar alguma coisa.
Aprendi que as pessoas sofrem.
Que partem.
Que morrem.
Que se perdem umas das outras.
Aprendi também
que às vezes alguém volta.
E quando volta,
há uma música.
Quando alguém se apaixona,
os violinos começam a tocar.
Quando tudo parece perdido,
alguma coisa insiste em voltar.
Por que na ficção
o amor sempre encontra um jeito
de voltar para casa?
Na vida real
às vezes ele só vai embora.
Personagem nenhum me fez aquilo.
Eles traem, é verdade.
Se despedem.
Mentem.
Morrem.
Mas nenhum deles me escreveu uma mensagem
dizendo que ia morar com outra pessoa
justamente naquele dia.
A ficção, pelo menos,
tem a delicadeza de mentir direito.
Na televisão,
até a traição tem preparação.
Há uma música triste,
uma porta fechada,
alguém olhando pela janela.
Na vida,
às vezes é só uma mensagem.
E pronto.
Como se uma vida inteira
pudesse caber numa tela pequena.
Talvez por isso eu tenha voltado às histórias.
Não porque sejam verdadeiras,
mas porque por algumas horas
eu consigo acreditar
que alguma coisa ainda pode acontecer.
Falam de Deus,
da morte,
do destino,
de tudo que um homem não consegue explicar.
Eu, depois de tanto pensar nisso,
fui procurar alguém na televisão
que pudesse me ensinar a amar.
Tinha cabelo azul.
Era tímido.
E parecia feliz.
Talvez seja ridículo.
Mas ele sorriu
e eu sorri também.
E por alguns minutos
a minha vida coube
naquela pequena alegria.
Se a vida é tão bonita,
por que eu não quero sair da cama?
Se o mundo é tão grande,
por que meu quarto me basta?
Eu vejo tanta gente vivendo
e não sei por que continuo aqui,
se quando o mundo está acontecendo
tudo o que eu quero é dormir.
Talvez eu esteja cansado
de chegar sempre atrasado.
Talvez a vida esteja passando
e eu esteja olhando pela janela.
Talvez eu tenha medo
de abrir a porta
e descobrir que lá fora
ninguém estava esperando.
Eu perguntei ao dia
por que insistia em nascer,
se eu ainda não sabia
se queria amanhecer.
Mas ninguém respondeu.
O relógio respondeu primeiro.
Depois a geladeira.
Depois algum carro
passando longe na rua.
A casa inteira parecia saber
que uma manhã estava chegando.
Só eu não sabia.
O único a falar sou eu,
sentado na cama,
às cinco da manhã,
irritado com o sol
que ainda nem nasceu.
E pensei:
se amanhã eu acordar melhor,
isso quer dizer que passou?
E se amanhã eu acordar pior,
quanto tempo ainda vai durar?
Ninguém respondeu.
Talvez ninguém saiba.
Talvez seja esse o problema:
a gente passa a vida perguntando
a pessoas que também estão tentando descobrir.
Então fiquei ali.
Sem resposta.
Sem filosofia.
Sem Camus.
Sem Suassuna.
Só eu,
a cama,
a televisão apagada
e a madrugada.
E, pela primeira vez naquela noite,
não precisei responder nada.
A tristeza podia ficar.
A raiva também.
Eu perguntei ao dia
por que insistia em nascer,
se eu ainda não sabia
se queria amanhecer.
Mas ninguém respondeu.
O único a falar sou eu,
sentado na cama,
às cinco da manhã,
irritado com o sol
que ainda nem nasceu.
Amanhã eu vejo.
Hoje, por enquanto,
eu só queria dormir.
E talvez,
quando amanhecer,
eu descubra outra vez
que ainda estou aqui.