Não vou permitir que se torne esperança. Ao contrário do que dizem, ela não é uma virtude, mas a ponte que nos leva a um reino de desespero, já deserto depois de todas suas flores morrerem e, assim como seus habitantes, secarem ao sol ardente.
Quanto mais tempo passamos juntos naquela noite, mais tinha certeza da distância que nos separava. Boa aparência, inteligência, a tranquilidade de alguém sem medo, que ainda busca por algo. Eu, por outro lado, apenas um velho homem gordo, que parou no tempo e viu a cada um de seus sonhos secar ao sol.
Dois amigos conversavam enquanto preparavam a comemoração do aniversário de namoro de um deles. Fizeram a comida, espalharam velas e decoraram tudo com carinho na esperança de que aquilo aproximasse o casal. Um deles, mais desinibido, sugeria que fizessem sexo em todos os cômodos do apartamento, ou mais especificamente na sacada, com uma bela vista das luzes dos prédios de Bangkok. Uma ideia tentadora, mas o outro desconversou.
No fim, o namorado não apareceu. O amigo, voltou pra ajudar a desmontar tudo mas, percebeu que seria bobagem. Comeram eles mesmos. Secaram a garrafa de vinho e, não fosse a desilusão sonolenta do outro, teriam eles mesmos desbravado aquela sacada.
Essa cena me deu ideias, é claro, como aquele amigo que se sentia distante do amado. Mas a minha distância é diferente. E não é porque saímos juntos que significa algo. Não vou permitir, nunca mais, que algo se torne esperança dentro de mim.
Domingo à noite, notificação de mensagem. Um agradecimento frio pela noite. E outra pessoa pedindo alguma coisa.
Florescerás novamente!
Morrerei para viver.
(Klopstock ampliado por Gustav Mahler na Sinfonia n° 2 "Ressurreição")
Um dia, depois deste breve descanso a que chamamos morte, toda a poeira voltará a erguer-se. Nada do que foi amado desaparecerá completamente. As mãos que semearam lágrimas não colheram apenas silêncio. Há um chamado antigo, anterior à própria carne, e ele continua ecoando quando os ossos já não respondem.
O coração, cansado de perder, imagina que tudo lhe foi arrancado. Mas existe uma contabilidade que não pertence aos homens, como cantou Santa Teresinha: "quem ama, não sabe calcular". O desejo sincero, a beleza contemplada por um instante, a luta travada na escuridão, o amor oferecido mesmo quando não correspondido, nada disso se dissolve inteiramente no esquecimento.
O sofrimento parece definitivo apenas enquanto estamos dentro dele. A morte parece soberana apenas enquanto a observamos de baixo. Mas há uma luz que não se deixa medir pelos olhos. E para ela sobe, lentamente, tudo aquilo que o amor tornou verdadeiro.
Talvez o amor seja apenas uma forma particularmente refinada de desencontro. Duas pessoas aproximam-se convencidas de que buscam uma à outra, quando na verdade perseguem fantasmas diferentes. Uma procura abrigo, a outra aventura. Uma deseja permanência, a outra reconhecimento. Quando finalmente se encontram, já estão ocupadas demais tentando amar as versões imaginárias que criaram para perceber quem está diante delas.
Os mais otimistas chamam isso de tentativa. Eu chamaria de estatística. Algumas pessoas vencem na loteria. Outras encontram alguém no momento exato em que ambos ainda possuem energia suficiente para suportar as imperfeições mútuas. O resto passa anos decorando apartamentos para visitantes que nunca chegam, comprando flores para mesas que permanecerão vazias, escrevendo mensagens que recebem apenas respostas educadas.
E mesmo quando acontece, mesmo quando o amor parece triunfar por um breve período, há algo de profundamente trágico nele. Porque amar é tornar-se vulnerável à ausência. Toda afeição já traz dentro de si a semente do luto. Os amantes celebram aniversários como quem ergue monumentos contra o tempo, fingindo não saber que o tempo sempre vence. Alguns descobrem isso numa despedida. Outros descobrem décadas depois, diante de um túmulo. O resultado muda pouco.
Talvez o amor seja apenas o mais bem-sucedido golpe publicitário da história da humanidade. Vende-se como remédio para a solidão e frequentemente termina acrescentando novas formas dela. Exige coragem, exposição, renúncia e paciência; em troca oferece algumas fotografias felizes e uma quantidade considerável de ansiedade. Ainda assim as pessoas continuam tentando. Talvez porque a alternativa seja admitir que estamos todos sozinhos. E essa verdade, por mais provável que pareça, continua sendo indigesta.
O sofrimento parece definitivo apenas enquanto estamos dentro dele. Mas parece que estamos sempre dentro dele.
Domingo à noite, notificação de mensagem.
Um agradecimento frio pela noite.
E outra pessoa pedindo alguma coisa.









