Sob cada folha havia um universo trabalhando.
Fungos.
Insetos.
A lenta liturgia da decomposição.
Uma folha desprendeu-se.
A névoa subia lentamente entre os pinheiros.
As folhas estremeciam.
"Eu sustento com palavras o silêncio do meu abandono." (Manoel de Barros)
Sob cada folha havia um universo trabalhando.
Fungos.
Insetos.
A lenta liturgia da decomposição.
Uma folha desprendeu-se.
A névoa subia lentamente entre os pinheiros.
As folhas estremeciam.
Eu estava presente, estava mesmo. Não foi como antes, como tantas vezes, em que as vozes soavam distantes, como se eu não participasse. Eu participei, e fiquei bem com isso.
Sentei de frente a ele, e ele sorriu durante a conversa, durante as brincadeiras. Foi ótimo. Foi mesmo.
Mas sim, eu senti que ele não olhava pra mim do mesmo jeito. Os olhos brilhavam por causa da conversa, não por mim.
Mas alguma coisa mudou, porque isso não doeu como sempre. Não, eu só fiquei ali, sentado, sorrindo, mas sem me machucar. Acho que comecei a aceitar que, mesmo quando pessoas caminham juntas, podem olhar para lugares diferentes.
Observei ele subir e desaparecer na floresta, ouvia seu riso junto o farfalhar dos seus pés. Sorri ao vê-lo contente, mesmo sem saber para onde ele iria. O céu, de um azul vivo, estava brilhante por entre as copas das longas árvores, não ventava, era tudo silêncio, o único som era o da minha respiração e o daquele garoto correndo, e até esse foi sumindo.
Tentei segui-lo de algum modo, e ele sorriu e acenou de uma clareira, mas não consegui ver muito, a luz do céu azul ali brilhava com tanta intensidade que o envolvia num halo branco cristalino e ofuscante, certamente algo de divino, e me lembrei que ele disse algo sobre encontrar uma flor mágica naquelas montanhas. E então ele se virou mais uma vez e sumiu por entre as luzes, árvores e folhas no chão.
Não tornei a vê-lo e tampouco me lembro como voltei ao acampamento em que estávamos. Por dois dias procuramos por ele, ou melhor, os aldeões procuraram. Tudo que encontraram foi o seu tênis, branco, perto das tais flores. O homem que o achou não conseguiu descrever o que viu, apenas disse que aquele jovem havia retornado para a montanha.
Pela manhã o mar desaparece.
Não porque tenha partido. Apenas a névoa resolveu ocultá-lo, como quem estende um véu delicado entre os olhos e aquilo que ainda insiste em existir. Conheço o caminho até a praia. Conheço o cheiro salgado que chega antes das ondas. Conheço o rumor da maré encontrando as pedras. E, no entanto, caminho como quem atravessa um país desconhecido.
Não vejo o brilho límpido do sol refletido e brilhando na água.
Há dias em que a memória também amanhece assim.
Nenhuma imagem se apresenta inteira. Tudo surge envolto por uma claridade leitosa, onde os contornos se dissolvem antes de serem compreendidos. Restam apenas pequenos clarões. Um sorriso, antes brilhante como a luz do sol refletida nas águas. Um gesto. A inclinação quase imperceptível de um rosto. Como o perfume de uma flor que permanece depois que suas pétalas já caíram.
As gaivotas atravessam a névoa sem saber que desapareceram para quem as observa.
Talvez a verdade seja sempre assim.
Ela não chega como um relâmpago.
Vem como a maré. Primeiro cobre os pés. Depois os joelhos. Quando percebemos, já levou embora a areia onde julgávamos estar seguros. Afundo, se deixar, serei levado pela ressaca do mar. Ou pela lembrança distante e difusa daquele doce olhar.
Durante dias procurei destruir a lembrança.
Foi inútil.
A lembrança não se quebra.
Ela, com sorte, talvez mude de luz.
Aquilo que antes resplandecia agora permanece imóvel, como uma antiga pintura guardada numa sala onde ninguém mais abre as janelas. A beleza continua ali, mas já não aquece. Tornou-se um objeto do tempo. A poeira se acumula.
Talvez seja isso crescer.
Descobrir que certas imagens não morrem.
Apenas deixam de nos pertencer.
O vento aumenta.
A névoa dança lentamente sobre a água, transformando o horizonte numa única matéria branca, onde céu e mar já não sabem qual deles começa ou termina. Tudo parece suspenso. Até o silêncio possui peso.
Penso então que existem músicas destinadas a nunca terminar.
Não porque continuam tocando.
Mas porque continuam ecoando onde já não existe som.
Há melodias que permanecem intactas.
Somos nós que já não conseguimos ouví-las.
Quando, por um instante, a bruma se abre, não procuro teu rosto.
Vejo apenas duas figuras diminuindo a distância entre si. Caminham devagar, como se soubessem que certas palavras pertencem apenas ao espaço de uma respiração. Uma delas inclina levemente a cabeça, aproximando-se da outra, como quem deseja confiar-lhe, num quase sussurro, tudo aquilo que o coração jamais aprenderá a dizer de longe. Se aproxime, chegue mais perto para ouvir o que eu sinto.
Logo depois, o branco retorna.
O mar recolhe lentamente suas ondas. A maré apaga as pegadas sem conseguir apagar o caminho por onde caminharam.
Permaneço imóvel.
Não esperando que a névoa se desfaça. Algumas paisagens nasceram para existir justamente assim.
Porque há lembranças que Deus, ou o tempo, ou simplesmente a misericórdia do esquecimento, preferiu envolver em bruma. Foi assim com aquele anjo caído que, vivendo entre feras, se tornou ele também uma fera. Disfarçada pela própria luz, que agora se extingue em meio a névoa.
E talvez esteja certo. Nem toda beleza foi feita para permanecer nítida.
Algumas existem apenas para nos ensinar que até a luz mais delicada pode desaparecer sem deixar de ter sido luz.
Pela manhã o mar desaparece.
Não porque tenha partido. Apenas a névoa resolveu ocultá-lo, como ocultou aos poucos a lembrança daquele sorriso, daquela voz de anjo, daquele cristalino amor que escondia o horror de uma fera.
Um altar profanado, um santo que foi roubado
A mesma mão
que parecia nascer para afagar
escondia, sob a pele morna,
garras de fera,
esperando que a ternura dormisse.
(Fernando Pessoa)
Quão vãos são os desejos, aqueles nascidos do mais breve dos acasos e que, como criança que vê algo e imediatamente só pensa naquilo, passa o homem a desejar o objeto de seu desejo como se toda sua felicidade, vida e existência, do nível mais atômico ao metafísico, dependesse de o ter.
E então, de decepção em decepção aquela alegria de um novo desejo, aquele despertar dos sentidos, do olhar aguçado e ouvidos atentos que fazem com que todo nosso centro gravitacional gire ao redor da coisa desejada, aos poucos começa a se desfazer. Cada coincidência parece um sinal. Então, sem que ninguém anuncie, o som dos sinos daquele templo ecoa a impermanência das coisas. Montanhas são destruídas pelo tempo. Flores caem. Enquanto uns sorriem, outros tantos pranteiam a própria sorte, e não querem nem mesmo consolo: aquilo que uma vez amaram já não existe mais. As amizades de ontem não existem mais, quantos ainda vemos todo dia e quantos nem sabemos onde estão? Passou. Os desejos também passam, de algum jeito. Mesmo que demore, como as areias de um deserto um dia podem ter sido uma grande montanha, e hoje nem sequer ficam seguras entre os dedos.
Tudo se esvai.
Apenas levamos menos tempo para virar pó. Como carne humana envelhece, apodrece, cai no chão e morre, servindo apenas como alimento para os vermes que serão nutridos do que restou desses desejos, rastejando então pela próxima vida, apenas em busca de saciar sua fome, aquela não saciada jamais.
Não restarão, no entanto, aos vermes e ao chão, nem mesmo as lembranças da vida pregressa, dos amores que não os amou. Poderão os homens não os terem amados e, antes disso, os desprezado. Cometeram inúmeros pecados. Mas já não se recordam de nada, senão que continuam rastejando, desejando algo, por desejar e nada mais. Talvez não muito diferente do que era quando homem, do que quando, caminhando decidido, olhou o céu no fim da tarde pela última vez: um risco cor-de-rosa tingia o entardecer. Não se lembra do nome que amou, da casa em que viveu, nem dos pecados que julgava imperdoáveis. Deu mais um passo e, assim o dizem, um leve sorriso enquanto olhava aquele céu, como se o mundo lhe oferecesse uma despedida que ele já não era capaz de compreender.
Nos últimos meses minhas imagens se tornaram mais fracas. Por um lado eu sei que meu ambiente limitado tem sido também um limitador da minha imaginação. Mesmo o trabalho sendo um inferno, eu tinha algum caminho para andar, ver a floração do Jacatirão, o verde brilhante da grama do vizinho, um ou outro visitante da galeria que me despertava pela beleza. Agora eu tenho a minha casa, apenas, e o sufoco que ela traz, pois estou confinado ao meu quarto. É verdade que as séries poderiam ser uma boa fonte de inspiração mas, o efeito geral do espaço ainda consegue entorpecer essa visão. A inspiração está lá, eu só não consigo colocá-la em palavras.
Parece que toda vez que eu me sento para escrever, não é mais como aquela torrente de antes, em que as páginas se multiplicavam com facilidade. Não. É como se um único parágrafo exigisse um esforço tremendo. E não se trata de qualidade. Ainda que fosse de modo um pouco caótico, revisitando aqueles textos eu consigo identificar várias formas: por vezes a aglutinação de palavras é presente, mas refletindo um interior igualmente caótico, que só consegue enumerar suas dores. Mas em outras vezes é fácil perceber a forma poética ao tratar da dor, dos desencontros. Também não faltam exemplos da forma ensaística, onde busco justamente analisar a solidão do homem à luz de algumas obras, nomeadamente Neon Genesis Evangelion, sem dúvida o assunto de que mais falei até hoje, ou peças musicais como as sinfonias de Tchaikovsky e Mahler e os concertos de Rachmaninoff e Chopin, companheiros de longas noites de solidão.
Gostava de ser um escritor bastante produtivo. Claro que muitos podem questionar a qualidade de alguém que multiplica suas dores em palavras quase sem fim, mas são a expressão de impressões, e se as impressões se repetem, qual é o problema de registrar as expressões.
Um dos problemas que consigo identificar é minha dificuldade em ler. Sempre li muito, do tipo que ia dormir de madrugada, e isso ia me enriquecendo. Me lembro de adotar, quase sem perceber, um estilo mais solene, épico ou até místico enquanto lia Camões, Homero e São João da Cruz. Mas hoje, tenho encontrado dificuldade em ler. Minha atenção e memória foram gravemente comprometidas. Na minha cama, nesse momento, se encontra uma coletânea da poesia de Álvaro de Campos, o segundo tomo de Dom Quixote (que literalmente faz mais de um ano que tento terminar, sendo que o primeiro li em menos de um mês), e um almanaque de música clássica que, acredito, não passei do primeiro capítulo.
Tento criar pequenos objetivos. Ler dez páginas por dia. Tentar algo mais simples, quando devorei os primeiros volumes de As Crônicas de Nárnia em poucos dias. Mas olhar minhas estantes e ver a quantidade de livros, clássicos da mais alta qualidade, obras grande de profundidade filosófica e teológica, bem como alguns outros assuntos, me fazem ficar ainda mais deprimido. Sim, eu sei que não devo me cobrar muito, e que criar esses pequenos momentos, sem a pressão de me tornar um literato da noite para o dia, é um bom caminho, mas não tem dado muitos resultados.
E, então voltando ao tema da minha situação atual, me recordo que lia bastante no ônibus, indo e voltando do trabalho, e isso nunca prejudicou a qualidade da leitura. Quando encontrava algo especial, fotografava e trabalhava em cima depois. Será que deveria escolher um horário para ler fora de casa? Quem sabe caminhar até o jardim da igreja ou do bairro ao lado, apenas com um marcador, sem celular.
Me encontro numa espécie de ciclo vicioso, aquele que tantas vezes descrevi com a figura o ourobouros: um ciclo infernal. Para melhorar a estabilidade do meu Transtorno Bipolar, porque não quero resumir a minha personalidade ao meu CID, preciso de uma rotina e, no momento, minha rotina tem sido: assista o quanto pode a noite porque durante o dia, a casa pequena, o barulho, tudo isso. E então não tenho vontade de pegar algo e ler como antes, com aquele prazer em conhecer mundos, pessoas e situações que nem em dez vidas eu viveria.
Me recordo das longas paisagens de Proust, e sei que encontrarei algo parecido em Tolkien, me encantei com as descrições minuciosas do sertão em Euclides da Cunha, cada uma dessas coisas me ajudava a descrever a paisagem ao redor. Os romances e tragédias, o amor não correspondido, os ciúmes extremos. Tudo isso resultava nas imagens, as que eu multiplicava, dava meu próprio tom, colocava em mim.
Mas, para sair desse ciclo, precisaria encontrar um emprego, e as crises de pânico se tornam um empecilho grande. Me lembro das humilhações dos últimos empregos. Se tentar continuar no mundo da arte, o ego inflamado dos artista, se voltar para a escola, a rotina desgastante de uma burocracia sem fim... Esse medo me paralisa, e se não consigo fazer aquilo de que tenho medo, não consigo continuar multiplicando minhas imagens como estrelas no céu, gravadas na grande muralha do tempo.
Não sei se fiquei irritado por ciúmes ou por reconhecer, mais uma vez, o velho desenho das coisas se repetindo. O frio sopra nessa ilha com uma insistência quase pessoal. Há uma risada escondida no vento. Não é humana. Nunca foi. Hoje o frio me conhece, me abraça e, em meu ouvido, o demônio ri baixo, como quem já conhece o final da história e apenas espera que eu também descubra.
Empurro a porta do bar e ninguém parece notar minha chegada. Talvez porque todos ali estejam ocupados demais sobrevivendo a si mesmos. A fumaça dos cigarros demora para subir. A umidade do lugar deixa tudo pesado. O piano, velho e desafinado, insiste em tocar alguma coisa de Mahler. Não sei qual peça, talvez aquele tema infantil transformado em marcha fúnebre irônica? Talvez nenhuma. Talvez seja apenas aquela gargalhada de que ele falava, escondida entre notas altas, aquela música estranha que não lamenta a tragédia, mas sorri dela, ou a que apenas registra os golpes pesados do destino até o fim.
Sem cumprimento até mesmo do cara que limpa os copos com um pouco de estopa. Apenas abrem espaço na mesa, como se já esperassem minha derrota. Peço um whisky, ou melhor, já me trazem o copo. Acho que minha cara já diz tudo, ou todos ali busquem a mesma coisa. Duplo.
"O erro", diz um homem de cabelos brancos sem sequer levantar os olhos do copo, continuando o que parece ser a conversa com a pausa mais longa já registrada entre homens, e talvez até entre macacos, "é continuar esperando que alguém retribua."
Ele gira lentamente o gelo entre os dedos. E eu reconheço, assentindo lentamente enquanto deixo o brilho dos olhos se esvair na ondulação da bebida em minhas mãos. Essa maldita sensação de achar que algo pode ser correspondido. Minha versão jovem gastou dezenas de páginas falando sobre como é impossível para duas pessoas se tocarem realmente. Estamos longe demais, separados em absoluto por um campo invisível, a nossa própria consciência, incapaz de comunicar ao outro o que somos e, portanto, incapaz de forçar o outro a nos observar. Não importa a beleza do azul do céu ou do mar, se a cor favorita de alguém é o amarelo. Olhando pela janela vejo apenas um ameaçador cinza, e umas poucas gaivotas voando, provavelmente em busca de abrigo da tempestade que se aproxima.
"Esperança sempre cobra juros altos."
Não respondo. Só bebo. O álcool queima por um instante, mas logo perde a utilidade.
"Pelo menos você ainda espera", comenta outro, olhando pela janela embaçada. "A maioria já aprendeu que ninguém busca ninguém. Cada um corre apenas atrás do próprio desejo. O outro é só um espelho conveniente."
Já há muto deixei de acreditar no amor, no sentido romântico da coisa. Acredito no amor de uma mãe pelo filho, e do filho pela mãe, pranteando um ao outro seu luto, seja na guerra ou no pacífico ciclo normal da vida. Mas no amor, como contam as histórias apaixonadas? Não.
Lá fora, um casal atravessa a rua correndo para fugir de uma pancada de chuva. Logo vai passar, mas penso comigo: bem feito!
Sempre vejo isso.
Os meninos fazem dos próprios afetos uma religião improvisada. Orbitam mulheres como pequenos planetas desesperados, convencidos de que existe um centro do universo escondido dentro de outro corpo.
E eu rio deles.
Rio porque parecem ridículos. Porque esse amor é ridículo. "Todas as cartas de amor são ridículas", alguém diz, ao canto, e eu olho e vejo que ele escreve alguma coisa. Talvez uma carta de amor ridícula. O riso macabro dessa vez é meu. Mas dura pouco.
Porque descubro que também passo meus dias girando em torno de alguma coisa. Não de uma mulher. De pessoas. Da paróquia. Da necessidade absurda de manter unida uma comunidade que parece ter escolhido a fragmentação como vocação. Engulo humilhações, reorganizo ruínas, tento salvar vínculos que talvez nunca tenham existido. Enquanto isso, minha depressão me concede energia suficiente apenas para viver pelos outros. Nunca para mim.
"Você ainda mede sua existência pelos olhos deles."
A frase vem calma, e eu não sei quem a disse. Talvez aquele homem magro sentado na ponta da mesa, o mais perto da porta.
Talvez eu mesmo.
E então sinto o cansaço que vinha ignorando até então. Um peso gigantesco sob minhas costas, de pessoas e mais pessoas querendo algo, eu querendo corresponder, melhorar e, ao mesmo tempo, sei que elas me deram isso por ser um incômodo. Mas da forma como o fazem, só se torna um incômodo pra mim também. E eu me vejo na obrigação de fazer um monte de coisas que não quero, de um jeito que não quero, que vai terminar num resultado que, desde o primeiro momento, sabia que ia dar errado.
"Esse é o desespero."
Fico olhando o copo. O gelo já derreteu e a bebida agora parece remédio.
"Não", alguém interrompe, soltando uma pequena risada pelo nariz. "Você não está com raiva deles."
Levanto os olhos e homem do bigode continua olhando para um ponto qualquer do teto.
"Você está com raiva de continuar precisando deles."
"Mentira."
Ninguém responde.
"Mentira"
Repito mais baixo. Mas minha voz já não parece tão convencida.
Porque parece que algo me acertou com força no estômago. É verdade. E odeio que seja assim. Passam meses, passam anos, e algo bobo como ver um homem ir estupidamente atrás de uma mulher me irrita. Porque parece que ele desperdiça sua potência. Acho que toda relação entre homem e mulher é estúpida, burra. O homem não pode encontrar seu potencial ao lado de uma mulher. Apenas sozinho ou, mais raramente, com outro homem. Talvez ainda eu tenha desperdiçado com meu potencial e assim me incomode quando vejo outra pessoa fazendo isso. Por isso ri do idiota que abraça a mulher para correr na chuva.
O silêncio volta a ocupar a mesa. Só então percebo outro homem, discreto, quase apagado pela fumaça. Escreve alguma coisa num guardanapo enquanto fuma. Olhei rapidamente por cima do seu ombro.
"Todo encontro é um equívoco que dura o tempo suficiente para receber um nome."
Ele dobra o papel e o guarda no bolso como quem sabe que ninguém lhe pediria para ler.
Mais adiante, uma mulher de voz muito baixa fala quase sem mover os lábios.
"Você confunde servir com desaparecer."
Há delicadeza naquela frase. Por isso ela dói mais.
"Pensa que Deus lhe pediu as duas coisas."
Não pediu, e ainda assim eu me doei ao outro até não sobrar mais nada. Em todos os campos. Aquele que amei, quando ainda era capaz de amar, se gaba de se encontrar com uma mulher estúpida. Os idiotas da paróquia vivem recolhidos numa religião industrial, vivem como se tivessem de cumprir horário na missa, batendo ponto e fazendo o mínimo num trabalho. Entram na igreja como quem registra ponto. Cantam como quem aperta parafusos eternamente sem saber como ou porquê. Terminam a missa olhando o relógio antes mesmo da bênção.
Ninguém tenta me consolar.
Nem eles.
Nem o vento.
Nem Mahler, cuja música continua fazendo da tristeza uma espécie de ironia cósmica.
Um homem de sobretudo permanece olhando para o copo vazio há tanto tempo que imagino ter esquecido por que entrou ali. Quando finalmente fala, parece pedir licença ao próprio silêncio.
"O absurdo talvez comece justamente quando percebemos que não existe garantia alguma de sermos lembrados."
Faz um gesto para o garçom.
"Ponha outra."
Eu não serei lembrado quando me for. Já não sou agora. Não peço pra encher o copo. minha bebida já está amarga demais. Os comprimidos dissolvidos nela têm gosto de amanhã recusado.
Lá fora, o vento continua soprando.
Alguém diz que aquela gargalhada sempre esteve ali. Mas agora já não sei se era o vento. Talvez o demônio nunca tenha rido. Talvez aquela gargalhada sempre tenha sido minha. Outro responde que ela nunca terá a última palavra.
Talvez fosse apenas o eco da minha própria voz voltando das montanhas.
Os dois parecem igualmente convencidos.
Eu já não sei.
Só sei que, esta noite, o frio conhece meu nome melhor do que qualquer pessoa. Começo a reconhecer a peça no piano enquanto caio no sono.