Sabe, sempre me impressiona como, no caso do Rachmaninoff, não dá para separar o compositor do pianista. Ele não escrevia “para piano”, ele escrevia a partir do corpo ao piano. Há uma fisicalidade muito própria na música dele: acordes largos, linhas cantáveis que parecem voz humana, e uma espécie de respiração interna que não é mecânica, mas quase orgânica.
O Concerto nº 2 nasce de um lugar muito específico: o fracasso. Depois da estreia desastrosa da Primeira Sinfonia, ele entra num bloqueio profundo, quase uma depressão paralisante. É só após um tratamento com o Dr. Nikolai Dahl, algo entre terapia e hipnose, que ele volta a compor. E o Concerto nº 2 surge como uma espécie de retorno à vida. Aqueles acordes iniciais, quase como sinos ou passos firmes, parecem dizer: ainda é possível continuar.
Já o Concerto nº 3 é quase uma extensão desse aspecto fracassado do compositor, é como se ele dissesse "a minha depressão e superação surpreendeu? então mergulhem comigo no abismo em que estive. Não é mais o renascimento, é o confronto com o vazio. Ele o escreve para sua primeira turnê nos Estados Unidos, sabendo que enfrentaria um público exigente e comparações inevitáveis. A peça é de uma densidade impressionante, mas o mais curioso é que o próprio Rachmaninoff dizia preferir uma execução clara, sem excessos. Não era para ser uma batalha de virtuosismo, mas uma arquitetura emocional precisa. Existe ali uma tensão constante entre contenção e abismo.
Talvez por isso essas obras sobrevivam de forma tão viva: porque nelas a técnica nunca é fim, é sempre meio para dizer algo que está além dela, no caso, uma experiência existencial profunda, eternizada nas páginas das partituras.
Com relação a esses concertos, existem execuções de referência, para próximas gerações não é? São duas peças de dificuldade considerável. Gosto, por por exemplo, das execuções de Yunchan Lin e do Seong-jin Cho. Na verdade são minha favoritas. Mas sei que nomes como os da Martha Argerich e Evgeny Kissin são de peso. Esses dois que citei, além dos concursos vencidos, já são considerados referência na execução dessas peças? Gosto de pensar neles como a "execução definitiva", devido o encantamento, deslumbramento, que provocam em mim.
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Dá pra sentir que você escuta com critério, não só por impacto imediato. Vou ser direto: sim, existem “execuções de referência”, mas elas não são fixas nem hierárquicas de forma absoluta. Elas se formam por uma mistura de tradição crítica, gravações influentes e… o tempo.
Sobre Yunchan Lim e Seong-Jin Cho: eles já são levados muito a sério, mas ainda estão em processo de consolidação como referência histórica.
Seong-Jin Cho e o Concerto n°2: extremamente sólido, elegante, com controle e lirismo refinado. Ele já está mais estabelecido discograficamente. Não é “a gravação histórica definitiva”, mas é uma referência contemporânea de alto nível.
Yunchan Lim e o Concerto n° 3 no Van Cliburn em 2022: o que ele fez foi tão impactante que já entrou no imaginário coletivo. Muitos músicos experientes falam daquela execução como algo “geracional”. Mas ainda é cedo para dizer que é uma referência canônica, isso exige repetição ao longo dos anos e gravações de estúdio/turnês consistentes.
Agora, se você quer um mapa mais claro, especialmente para os concertos 2 e 3 do Rachmaninoff 2 eu organizaria assim (não como ranking rígido, mas como camadas de “peso histórico”):
Começando com aquelas execuções que são as maiores referências históricas (e, por isso, quase incontornáveis). Essas são gravações moldaram a forma como ouvimos essas obras.
Sergei Rachmaninoff (o próprio compositor) é o primeiro da lista, claro, apresentando uma técnica mais leve do que se imagina hoje, mas autoridade absoluta de estilo. Fraseado direto, sem sentimentalismo excessivo. Vladimir Horowitz e sua interpretação do Concerto n° 3 apresenta em várias gravações, mas com destaque para a de 1951 com Reiner, um virtuosismo elétrico, tensão constante. Para muitos, ainda o padrão de referência nessa peça. E então Sviatoslav Richter, no Concerto n° 2 com Wislocki, pelo peso, arquitetura e profundidade. Menos “romântico” que os outros, mais estrutural.
Num segundo momento, colocaria os intérpretes consagrados canônicamente, ou seja, aqueles que, no século XX se tornaram as principais referências na execução dessas peças, seja pela interpretação ou pela precisão técnica.
Começando com a gigante Martha Argerich e o Concerto n° 3, com Chailly, onde apresentou uma energia quase explosiva e liberdade rítmica numa apresentação de risco constante. Não é “tradicional”, mas é icônica. Quem já ouviu a Martha sabe que ela é sempre esse fenômeno impossível de conter.
Ao contrário de muitos grandes pianistas que constroem sua autoridade pela solidez e pela coerência, ela se consagra pelo risco. Há algo na forma como ela toca que parece sempre à beira do descontrole, mas nunca cai. É como se a música estivesse acontecendo pela primeira vez, ali, diante de você. Isso dá às interpretações dela uma qualidade quase elétrica, imprevisível.
E talvez seja aí que a gente entenda uma coisa importante: um músico não se torna referência apenas por tocar “corretamente” ou “melhor”, mas por revelar algo da obra que passa a ser impossível esquecer depois.
No caso da Argerich, ela não apenas interpreta. Ela reacende a música. E, depois disso, mesmo quando ouvimos outras versões, carregamos aquela chama como medida invisível. É curioso pensar que a consagração de um intérprete não vem só da fidelidade à partitura, mas da capacidade de, por um instante, fazer com que a obra pareça inevitável naquele exato modo.
Voltando aos pianistas, Byron Janis, com Dorati, apresentou aquilo que é o sonho da maioria dos pianistas: executar uma peça dessa dificuldade com uma técnica cristalina e abordagem equilibrada entre lirismo e virtuosismo. O mesmo vale para Emil Gilels, também com o Terceiro Concerto, é altame altamente respeitado pelo som nobre e um controle absoluto. Por fim, Van Cliburn apresentou em Moscou, em 1958, uma apresentação histórica, que se consagrou pelo peso de seu nome mas ainda sim de altíssimo nível. Aliás a escolha de Yunchan Lim de tocar essa peça no concurso que leva seu nome revela o respeito dessa interpretação.
Passando para uma categoria de referências mais modernas, algo como “clássicos recentes”, já temos nomes como o de Evgeny Kissin por sua técnica impecável, leitura intensa e controlada. Daniil Trifonov, com Nézet-Séguin, se mostrou extremamente detalhista, quase obsessivo, misturando virtuosismo com introspecção. Leif Ove Andsnes interpretou o n° 3 mais contido, elegante, menos excessivo, assim como Stephen Hough com um estilo intelectual, refinado, menos “romântico de massa”.
Então, numa última camada, colocaria os mais atuais, e onde se encontram os seus favoritos, e que estão redefinindo o panorama contemporâneo. Yunchan Lim já é um fenômeno. Se mantiver o nível, tem tudo para virar referência histórica futura. Seong-Jin Cho apresenta, não apenas com Rachmaninoff, elegância, clareza e maturidade e, por isso, é muito respeitado. Alexander Malofeev tem uma técnica absurda, mas ainda está formando identidade interpretativa, e Beatrice Rana surge com grande profundidade e controle impressionantes no Concerto n° 2.
Se você diz que prefere Lim e Cho, isso não é falta de referência, mas um gosto afinado com a sensibilidade contemporânea. Eles tendem e evitar excesso de rubato “romântico pesado", buscar clareza estrutural e a manter intensidade sem perder transparência, enquanto intérpretes mais antigos (especialmente em Rachmaninoff) às vezes soam mais expansivos, até indulgentes. Mas, no fundo, o mais interessante é que cada geração não substitui a anterior mas reinterpreta o mesmo abismo emocional que se encontra na alma do compositor e codificada na partitura. E Rachmaninoff é exatamente isso: um lugar onde técnica extrema e confissão íntima se encontram.
Fiquei curioso, no Lim, o que mais te pega? A precisão absurda ou aquela sensação de que ele está sempre à beira de perder o controle (mas nunca perde)?
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Eu sou fascinado pelo contraste, ou revelação, da personalidade do Lim. Ele é introspectivo, tímido nas entrevistas. Já vi apresentações, em programas mais populares, em que ele ao menos precisava dizer o nome das peças antes de tocar e falava baixinho, comedido. Mas quando começa a música, e Rachmaninoff é de uma profundidade absurda, ele simplesmente deixa transparecer uma faceta extraodinária. Não é como se tocasse de um modo violento (até porque Rachmaninoff é profundo e visceral, mas não violento), mas é como se ele transparecesse toda essa gama de sentimentos, dores, contrastes, a depressão profunda do compositor, com os dedos voando sobre as teclas. Em dado momento ele até olha pra orquestra sorrindo, uma das poucas vezes que o vi sorrindo, então me parece que ele realmente chega naquele ponto: consegue dizer o que sua voz não diz, tudo pela música que produz.
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O que você descreveu, na verdade, toca num ponto central não só do Lim, mas da própria tradição pianística russa: a música como lugar onde a pessoa finalmente se torna inteira. Essa dissociação que você percebe, o jovem quase retraído fora do palco e a intensidade quase “transfigurada” ao tocar, não é um contraste superficial. Em Rachmaninoff, ela vira linguagem. Porque o próprio compositor era assim: reservado, melancólico, profundamente autoconsciente… e, ao mesmo tempo, capaz de escrever música que parece não caber dentro de uma única vida emocional.
No Lim, o que impressiona não é só a técnica (que é absurda, claro), mas a ausência de mediação. Ele não “interpreta” no sentido teatral, mas parece atravessar a peça. E isso muda tudo.
Você percebeu algo muito sutil quando disse que não é violento. Muita gente toca o Concerto n° 3 como se fosse uma batalha, quase um espetáculo de força. O Lim não. O que ele faz é mais perigoso: ele deixa a música respirar até o limite, como se cada frase estivesse à beira de colapsar emocionalmente, mas sempre sustentada por um controle interno quase invisível.
Esse momento que você mencionou, ele olhando para a orquestra e sorrindo, é precioso. Porque ali aparece uma outra camada: não é só sofrimento ou profundidade, é comunhão. Como se, por um instante, ele saísse desse mergulho interior e reconhecesse: “isso está acontecendo agora, com outras pessoas”.
É raro.
E talvez por isso te marque tanto: fora da música, ele parece alguém que fala pouco; dentro dela, ele diz sem precisar se explicar. Tem algo quase dostoievskiano nisso: a ideia de que a verdade mais profunda do sujeito não aparece no discurso racional, mas numa espécie de revelação estética. No caso dele, o piano vira esse lugar onde o indizível encontra forma. E você colocou de um jeito muito bonito: não é que ele mostra emoções, ele deixa transparecer. Isso é diferente.
Se ele conseguir manter essa honestidade ao longo dos anos (o que não é fácil, porque a carreira pressiona para a repetição e a fórmula), ele tem tudo para se tornar uma daquelas referências que não são só técnicas, mas existenciais.
Fiquei pensando numa coisa enquanto te lia: quando você escuta o Lim, você sente mais como quem observa algo extraordinário… ou como quem é puxado para dentro junto com ele?
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Sou completamente arrastado, às vezes chego a assistir ou ouvir sua interpretação duas ou três vezes por dia, todos os dias, seja com atenção plena ou fazendo outra coisa.
É hipnotizante.
Por exemplo, no Concerto n° 3, a passagem do segundo para o terceiro movimento, até a expressão corporal dele é totalmente entregue. Às vezes me pego até mesmo segurando a respiração, para que o som dele possa preencher o ambiente todo. É como a ressaca do mar, o céu ainda cinza, e aquela imensa massa de água arrastando pro fundo de si, tenho a impressão de que se estender a mão eu poderia toca-lo e sentir a eletricidade fluindo pelo seu corpo e unindo-o ao piano e por uma linha invisivel a toda a orquestra.
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Continua



