“Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.” (Mt 15,8)
Já no Domingo de Páscoa deste ano da graça de 2026 a internet estava repleta de vídeos dos salmos entoados na Vigília Pascal. A celebração, que acontece na noite anterior, é a mãe de todas as vigílias, proclamando as alegrias da ressureição, bem como a história da salvação do povo de Deus. Revisitando episódios dessa história, a Vigília é repleta de significados e seus textos estão profundamente ligados uns aos outros, tornando o todo uma forma inteligível que permite a contemplação dos mistérios pascais. Por isso ela deve ser preparada com tamanho zelo que permita aos fiéis experimentarem os frutos espirituais desse tesouro da nossa Igreja. Assim ensina o Concílio Vaticano II: “A liturgia é o cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde promana toda a sua força.” (Sacrosanctum Concilium, n. 10)
A Liturgia dessa noite é cheia de detalhes e, como dito, de um simbolismo profundo. O lucernário, que proclama, como os profetas que são lidos alguns instantes depois, anuncia a luz de Cristo e que, com sua chegada, efetivamente se torna a luz do mundo ao iluminar as trevas da noite. A noite escura se torna noite feliz que contempla Cristo ressurgir. Os fiéis se preparam para o sagrado Tríduo Pascal durante as cinco semanas da Quaresma, por meio de exercícios espirituais, do jejum, da oração e das práticas de caridade. Assim vivem a alegria da ressureição com o coração purificado e elevado, de modo a ter mais e mais consciência desse que é o centro e ápice da nossa fé.
É por isso que a Igreja orienta sempre o preparo, o zelo e a formação constante daqueles que estão envolvidos nas celebrações. É apenas por meio de um aprofundamento permanente do mistério eucarístico que podemos, em nossas comunidades, transmitir mais efetivamente a nossa fé. Com efeito, na noite santa em que Jesus rompeu as trevas do pecado e da morte, são batizados os novos cristãos, e a vida cristã continua, alimentada pelos sacramentos e pela Palavra, na caminhada da Igreja rumo ao céu, como aponta o Papa Francisco, na Desiderio Desideravi: “A formação litúrgica não é simplesmente a aquisição de conhecimentos, mas sobretudo a capacidade de viver plenamente o mistério celebrado. Trata-se de formar o povo de Deus para entrar no mistério e deixar-se plasmar por ele.” (n. 41)
Bem, voltando aos vídeos que pulularam a internet imediatamente após a Vigília, vemos um cada vez mais crescente fenômeno da digitalização das nossas paróquias. Se, antes, havia uma certa impressão coletiva de que missa era coisa de senhorinha desocupada, sendo o correspondente análogo ao senhor desocupado que joga dominó no banco da praça, percebemos que nossas comunidades, longe disso, possuem não só grande efetivo jovem como profissional atuando nas linhas pastorais. Não são poucas as pastorais da comunicação que transmitem e registram suas celebrações com equipamentos e qualidade ímpar, além de músicos de verdadeira habilidade. No entanto, o uso indevido dessa habilidade pode ser justamente a causa de certas inconveniências.
Não foram raros os registros de salmos cantados com virtuosismo. Mas, nesses momentos, o ambão se tornava antes um palco onde poderiam os cantores extravasarem suas vozes, do que verdadeiramente Mesa da Palavra. Romano Amerio, em seu colossal Iota Unum, expõe a já algo deturpada Liturgia da Palavra que adquiroi, pós-Concílio Vaticano II, igualdade com a Eucaristia, mas aqui a coisa é elevada ainda mais: se na Liturgia Eucarística o sacerdote é aquele que apresenta o sacrifício eucarístico para o bem do povo de Deus, a Liturgia da Palavra se torna momento do protagonismo leigo, de que se tanto tem falado recentemente.
A situação foi vexatória. Com ares daquele estilo de hinódia pentecostal, melismas infindáveis, dancinhas para marcar o ritmo e ritmos exagerados como marchinhas quase carnavalescas, paráfrases e melodias seculares além de, claro notas altíssimas, os shows foram variados Brasil afora. Certamente poderiamos dizer que são ouvintes dos grandes corais ou intérpretes protestantes norte-americanos que, de origem anglicana ou luterana, produziram hinos como Amazing Grace e How Great Thou Art, mas não, infelizmente a influência é apenas dos nomes da música gospel nacional que, numa manobra pérfida das novas comunidades pentecostais, transformaram nossas assembleias em plateias inertes do sequestro da Palavra de Deus. Se no Êxodo o povo aclamou a Deus convocando "cantemos ao Senhor que fez brilhar a sua glória!" (Ex 15, 1), nas nossas paróquias ouvimos apenas a glória dos que queriam aparecer.
Em outro momento já cheguei a tratar da questão do canto litúrgico, bem como da influência maléfica das ditas comunidades nas nossas paróquias, mas é sempre bom relembrar, ainda que em linhas gerais, o papel do canto litúrgico, bem como o lugar especialíssimo dos salmos nas nossas celebrações. O ponto principal é que “a música sacra será tanto mais santa quanto mais intimamente estiver unida à ação litúrgica, quer exprimindo mais suavemente a oração, quer favorecendo a unanimidade, quer enriquecendo de maior solenidade os ritos sagrados.” (Sacrosanctum Concilium, n. 112)
Os salmos, sendo bíblicos, tornaram a base sobre a qual se ergueu todo o canto litúrgico da Igreja Católica, não apenas nesse âmbito mas também a música profana (no sentido secular do termo, não pejorativo) bebeu dessa fonte desde muito cedo. “Os salmos são o canto da Igreja; neles a própria Igreja fala com Cristo e de Cristo” ensinava Santo Agostinho.
São os salmos que ditam parte do ritmo celebrativo: os penitenciais lamentos ouvidos na Quaresma, como o Miserere (Sl 50) e o De Profundis (Sl 130), não apenas condensam o espírito desse tempo, é a partir deles que os demais textos vão se desenrolando, tornando assim a Liturgia uma vivência profunda da Igreja que, no mundo todo, percorre o mesmo caminho. É deles que brota a inspiração para todo canto verdadeiramente litúrgico. Com efeito, tanto o Gradual Romano quando o Gradual Simples trazem, em sua totalidade, antífonas intercaladas com salmos e, em algumas ocasiões, versículos de outras partes da Sagrada Escritura, intercalados ou emoldurados pelos salmos.
“O salmo responsorial, que se segue à primeira leitura, é parte integrante da liturgia da Palavra e tem grande importância litúrgica e pastoral, pois favorece a meditação da Palavra de Deus.” (IGMR, n. 61). No momento específico da Liturgia da Palavra, o Salmo Responsorial, restaurado em sua forma à pedido do Concílio Vaticano II, é intercalado por duas leituras, servindo como ponte para que, aprofundando o espírito de entendimento, possamos chegar ao Evangelho, no ápice da Revelação, com a devida meditação da Palavra.
Bem, a resposta na internet aos desmantelos da Vigília Pascal foi imediata. É uma graça que tantos tenham despertado para a necessidade de uma celebração digna, zelosa e, no mínimo, obediente. Mas é claro que eles não são os únicos. As opiniões foram diversas, com o grupo protestante, que ainda não percebeu que o é, e que legitima essa expressão litúrgica como reflexo de um tempo de avivamento (o uso da expressão teológica e historicamente protestante não é coincidência). De outro lado ainda vinham os apóstolos das boas intenções defender que no serviço eclesial, seja ele qual e como for, já basta a intencionalidade para servir. É bem verdade que toda obra divina se opera no homem a partir de sua disponibilidade, não por condicionamento do homem mas por respeito à sua liberdade, mas, ainda assim, é a partir da abertura à graça, e não na disponibilidade como fim ao invés de meio. Para esses, qualquer um que esteja servindo, do jeito que for, já está certo. De nada valem ou importam formações, no nível técnico daquilo que se faz como no sentido espiritual.
Talvez esses comentários sejam os mais toscos. São sempre coisas do tipo "será que esses que estão criticando também estão servindo?", num tom zombeteiro de que estar ali já basta por si só, e ignorando o fato de que todo ministério na Igreja, sempre foi, executado depois da devida preparação. Até mesmo os cristãos dos primeiros séculos, já que esse discurso também é sempre um ataque ao movimento conservador como sendo proponente de um excessivo apego a estética medieval, sem levar em consideração o apego atual à estética, diga-se brega, protestante, somente viviam efetivamente como cristãos depois de uma preparação por algum cristão que já vivia sua fé. O Sacramento da Confirmação e a Profissão de Fé que são comuns hoje são, em verdade, memória das profissões públicas de conversão cristã. Ninguém é cristão sem preparo, e é verdade que Cristo mesmo pode fazê-lo, mas aqui observamos apenas uma desculpa para a indolência dos músicos. Por experiência própria, como músico inclusive, sei que estes estão sempre entre os mais arrogantes das nossas igrejas justamente pela ideia do "só eu sei fazer então faço como eu achar melhor." E nossas assembleias que lutem.
Vejam bem, preparo não significa somente a busca pela excelência técnica, também isto, mas é a busca pelo melhor servir, e na Igreja quem define isso é o Magistério. Não é uma exclusão do simples ou do habilidoso, mas um apontamento para a falta de norte. A Igreja ensina que o canto gregoriano é seu canto por excelência e tão mais litúrgica será uma composição quanto ela se aproximar desse gênero tão sublime. O simples pode cumprir seu dever e buscar melhorar. Aquele que sabe cantar bem pode, e deve, por obrigação moral inclusive, buscar adaptar o canto ao mais apropriado ao momento. Ninguém entra num bar ou no churrasco do fim de semana e pede para tocar Beethoven ou Mozart. Mas na igreja somos obrigados a ouvir sertanejo e gospel como cativos.
Infelizmente parece que o movimento de crescente conscientização não veio de cima. Com efeito não encontramos orientações de bispos e nem de padres, com raras exceções, que busquem acompanhar e orientar de perto as suas equipes nas celebrações. Em nada a liturgia parece ocupar o espaço prioritário que a Igreja ensina. Estamos órfãos. Até mesmo entre as linhas leigas, mas de grande alcance, notamos um medo em lidar com a arrogante empáfia dos músicos.
Um exemplo disso foi o do maestro Delphim Rezende Porto, atuante em todo o Brasil e condecorado por sua atuação na pastoral litúrgica publicou, em seu perfil no Instagram, apenas um breve vídeo dizendo que a música deve ser apenas lida pela sua concordância com o espírito da comunidade, o que ele descreve como cumpridora ou não do seu objetivo, e ainda chega a debochar dos que dão os primeiros passos no canto gregoriano. Em última análise, ele diz que, se uma assembleia está acostumada com o estilo protestante, não tem problema cantar esse estilo, já que o gregoriano, por exemplo, destoaria de tal modo que ali já não serviria para levar o povo a melhor rezar, por não fazer parte da sensibilidade daquele povo. Não duvido do conhecimento do maestro mas nem por isso deixo de notar que sua análise está errada ou, no mínimo, incompleta. A sensibilidade, tal qual a Igreja nos instrui, é ensinada, a catequese serve para isso, a mistagogia serve para isso.
Aqui se encontra também fenômeno recente da onda crescente das mídias digitais: a subserviência pastoral. O maestro Delphim atua numa das maiores arquidioceses do país, e seu conteúdo é conhecido para muito além da mesma, mas justamente por isso ele não pode dizer o que pensa sem ser podado pelas autoridades, leia-se os bispos, ou acusado de desobediente, resultando em pena pastoral e descrédito. Mesmo sabendo que, no Brasil, as pessoas só invocam a obediência ao bispo local quando convém. Fenômeno parecido aconteceu com O Catequista. Anos atrás o casal de catequistas Alexandre e Viviane Varella, que assinam o blog, e que hoje são credenciados na Sala de Imprensa da Santa Sé, não tinham papas na língua ao denunciar desmantelos na Igreja do Brasil. Me recordo das muitas postagens sobre as picaretagens protestantes, as denúncias contra a Teologia da Libertação, com o que eles chamaram de "Catequese de Boteco", isto é, catequese real com uma linguagem acessível, não no sentido dúbio ao que estamos acostumados, mas no sentido comum de falar sem rodeios e sem mascarar a verdade. Infelizmente, depois do crescimento do seu apostolado, já notamos uma posição mais meio-termo, já que sua oficialização não permite que criem polêmicas com nomes blindados de nosso clero tupiniquim.
Não serve de consolo mas a Vigília Pascal não foi a única vítima na Semana Santa, com Cristo os outros dias também foram ridicularizados. Padres em jumentinhos no Domingo de Ramos, inclusive rendendo situações patéticas de queda (com as quais eu, infelizmente não consigo senão lamentar pela ideia, mas não pela queda), imitações ridículas de galos na narrativa da Paixão (sério, como alguém acha que isso pode ser uma boa ideia?), isso quando a mesma não foi completamente teatralizada, ao invés de solenemente entoada em várias vozes conforme a tradição. Na, assim chamada, Noite do Perfume (evento protestante que recentemente entrou no nosso calendário paroquial), vimos fiéis borrifando seus perfumes favoritos sobre o altar, sacrilégio escancarado, registrado e compartilhado com ares de pura espiritualidade, porém não punido e nem sequer corrigido. O santo altar é consagrado com o óleo santo pelo bispo, nele é queimado incenso recordando o antigo sacrifício judaico. E, mesmo o óleo do crisma sendo perfumado, em nenhum lugar dos livros litúrgicos se encontra a orientação de que o altar deva ser aspergido de Chanel N° 5 ou Lilly de O Boticário.
Em outro vídeo vimos a desnudação do altar. Costume que, primeiro se perdeu, depois ficou limitado aos bastidores e agora, pouco a pouco retorna, mas já encontra inimigos declarados. O altar, sem toalhas, tem sobre ele vinho derramado e depois lavado com água. O simbolismo é claro, a atitude pode até ser catequética, como a própria paroquia que divulgou o vídeo disse que foi o motivo para a ação. Mas não segue uma rúbrica simples que diz apenas que o altar deve ser desnudado em tempo oportuno após a Missa in Coena Domini. Na paróquia em que atuo mesmo, ha alguns anos, a Cruz que, na Sexta-feira adoramos enquanto a chamávamos de "Fiel madeiro da Santa Cruz. ó árvore sem igual!", foi queimada na fogueira que acenderia o Círio Pascal. Outro sacrilégio solenemente ignorado por todos quantos deviam zelar pela liturgia em nome, novamente, de uma sensibilidade pastoral sentimentalista, toscamente inspirada nas afetações teatrais dos protestantes e que foram importadas para nossa Santa Igreja pelas Novas Comunidades e dos padres carismáticos que se aproveitaram do rombo intelectual e espiritual deixado pela Teologia da Libertação.
Diante desse quadro, não se trata de um saudosismo estéril ou de um apego meramente estético, mas de uma questão de fidelidade. A liturgia não é propriedade de grupos, sensibilidades ou modismos passageiros: é tesouro vivo da Igreja, recebido, guardado e transmitido com reverência ao longo dos séculos. Os abusos que hoje se multiplicam não devem conduzir ao desânimo, mas a um renovado compromisso com a formação, com o zelo e com a verdade do culto divino. Há, felizmente, sinais de despertar entre os fiéis, um sensus fidei que resiste, questiona e busca o que é autêntico. É a partir dessa sede de verdade e beleza que pode surgir uma verdadeira restauração litúrgica: não como ruptura, mas como retorno consciente àquilo que a Igreja sempre foi e sempre ensinou.
Seguimos, na Páscoa do Senhor, penitentes numa Quaresma sem data para acabar e com poucos domingos da alegria. Bem, talvez seja a penitência própria de nosso tempo suportar, porém não aceitar e nem tampouco incentivar, esses desmantelos. Possamos, com a graça de Deus, entoar um dia algo que lhe seja mais digno de um verdadeiro hino de louvor.
REFERÊNCIAS
CONCÍLIO VATICANO II. Sacrosanctum Concilium. Constituição sobre a Sagrada Liturgia. Vaticano, 1963.
FRANCISCO, Papa. Desiderio Desideravi. Carta Apostólica sobre a formação litúrgica do povo de Deus. Vaticano, 2022.
JOÃO PAULO II, Papa. Instrução Geral do Missal Romano. Vaticano, 2002.
SANTO AGOSTINHO. Enarrationes in Psalmos. Patrologia Latina.
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