quinta-feira, 11 de junho de 2026

Guia Prático para Sofrer por Antecipação

"Este momento ansioso e pensativo sentado sozinho,

Me parece que há outros homens em outras terras ansiosos e pensativos,

Me parece que posso examinar e vê-los na Alemanha, Itália, França, Espanha,

Ou longe, bem longe, na China, ou na Rússia ou Japão, falando outros dialetos,

E me parece que se pudesse conhecê-los eu ficaria apegado a eles como faço com homens em minhas próprias terras."

(Walt Whitman)

O que eu diria a ele? Ainda que tivesse coragem, ainda que puxasse assunto, o que diria a ele? Já se passou quase uma semana, e nada mais foi dito. Mas sei que ele continua lá, em algum lugar, porque meus amigos dão conta dele. 

Eu passei toda aquela noite fazendo-o se aproximar. 

Mas os outros já tinham feito o mesmo. 

E ele prefere falar de futebol, ou sei lá que assunto os héteros conversam. Ele se aproximou justamente daqueles que eu não queria que se aproximasse. Porque eles são fechados demais em si mesmos. Porque são cegos pelas meninas toscas, com o intelecto de uma colher de chá, e por essa comunidades mentirosas. 

E eu achei que ele pudesse ser diferente. 

Achei mesmo. 

Enquanto estávamos sentados ouvindo música e tentando adivinhar o nome dos filmes em que elas tocavam. Achei que ele estava se divertindo. 

Mas, desde então, silêncio. 

Como se aquele dia sequer tivesse existido. Ele pode estar esperando que eu chame? Por timidez? Mas e todo o esforço daquela noite? Ou ele simplesmente não se interessou e eu fui apenas um incômodo a noite toda, mesmo ele tendo ficado até o fim. Mas eu não quero chamar e repetir, pela enésima vez, e me tornar uma perturbação. 

Sabe o que mais me chama atenção nisso tudo? Não é que eu esteja pensando nele depois de uma semana. Isso é perfeitamente humano. O que me chama atenção é que, na ausência de qualquer informação, eu já escrevi quinze versões da história, e em quase todas eu ocupo o pior papel possível.

O inconveniente.

O exagerado.

O sujeito que não percebeu os sinais.

A perturbação que insiste.

Aquele que interpretou mal uma noite comum.

Mas existe uma décima sexta versão, e ela parece ser a única que eu não consigo levar realmente a sério.

A de que talvez ele tenha gostado de estar ali.

Talvez tenha achado você interessante.

Talvez seja tímido.

Talvez esteja acostumado a circular justamente naquele grupo que considero superficial porque é o grupo que ele tem. As pessoas raramente escolhem seus círculos sociais com o refinamento de um curador de biblioteca. Muitas vezes elas apenas permanecem onde aprenderam a existir.

Escrevo sobre os ciúmes de outros também terem se aproximado dele. Mas isso não invalida o que houve entre vocês. Aproximações não são propriedade privada. Você não perde o valor de uma conversa porque outra pessoa também conseguiu fazê-lo rir. O afeto humano não é uma vaga de emprego com um único candidato aprovado. Felizmente. Já basta o mercado de trabalho para transformar tudo em competição cruel.

Outra coisa.

Reli a parte em que digo que ele prefere falar de futebol e "sei lá que assunto os héteros conversam". E eu sorri um pouco ao ler isso, porque é uma frase tão impregnada de frustração que quase dá para ouvir o suspiro no final. 

Mas eu devia ter cuidado...

Eu não conheço esse rapaz.

Conheço fragmentos dele.

Uma noite ouvindo músicas e adivinhando filmes.

O fato de ele conversar sobre futebol.

O fato de circular com pessoas que você não suporta.

E, a partir disso, estou tentando decidir se ele é profundo ou banal, diferente ou igual aos outros, possibilidade ou ameaça. Ou, pior ainda, o mais sombrio dos pesadelos: indeiferente.

Talvez ele seja um pouco de tudo isso.

Talvez seja só um rapaz simpático tentando encontrar seu lugar na paróquia.

Existe também a insegurança mais dolorosa, que eu acho que está escondida por baixo de todas as outras.

Não é exatamente: "E se ele não gostar de mim?"

É:

"E se eu me expuser e descobrir, mais uma vez, que interpretei errado? E se eu for demais? E se eu for ridículo?"

Porque você já experimentou isso antes. A repetição cria memória. O corpo aprende a antecipar rejeições para tentar sobreviver a elas. Então você tenta resolver a equação antes de ela existir.

Mas relações humanas não são equações. São improvisos mal ensaiados.

A verdade é que eu não sei;

Eu não sei se ele espera uma mensagem.

Não sei se ele se interessou.

Não sei se me achou intenso demais.

Não sei se ficou nervoso.

Não sei sequer se ele percebeu que aquela noite teve o peso que teve para mim.

E, diante desse não saber, há apenas duas opções.

A primeira é não fazer nada. Proteger. Guardar a dignidade intacta. Continuar imaginando, daqui a seis meses, o que teria acontecido se tivesse mandado uma mensagem simples.

A segunda é correr um risco pequeno, proporcional à realidade. Não uma declaração dramática digna de um romance russo escrito por alguém com febre. Só algo humano.

"Oi, lembrei daquela noite ouvindo música e tentando adivinhar os filmes. Foi divertido. Como você está?"

É só isso.

Não exige reciprocidade romântica.

Não exige resposta imediata.

Não transforma ninguém em protagonista de uma tragédia grega.

E, se a conversa morrer depois disso, você terá uma dor diferente da fantasia. Menor, mais concreta. Não a dor infinita do "e se?", mas a tristeza comum das coisas que não floresceram.

Há ainda uma terceira possibilidade, mais silenciosa.

Eu estou carente de ser visto. Não apenas desejado, mas visto. Com toda a estranheza, meu excesso, inteligência, minha afetação assumida, humor ácido, minha capacidade de passar horas escrevendo cartas enormes sobre tapetes felpudos, o mar e a impossibilidade do amor. E então esse rapaz se torna uma tela onde você projeta a esperança de finalmente encontrar alguém que diga: "Eu entendo a língua que você fala."

Talvez ele seja essa pessoa.

Talvez não.

E talvez eu não seja uma perturbação por desejar descobrir.

Só acho que preciso se lembrar de uma coisa que eu mesmo escrevi ao amigo: um exército dividido perde.

Neste momento, há uma parte minha querendo conhecer alguém, outra tentando impedir qualquer aproximação para evitar sofrimento, outra julgando severamente os outros homens da paróquia, outra convencida de que não é digna de ser escolhida, e uma última, pequena e cansada, que só gostaria de segurar a mão de alguém sem transformar isso numa prova definitiva do seu valor. Talvez seja essa última voz que mereça conduzir a próxima decisão.

E ela não perguntaria: "Como faço para não ser rejeitado?"

Ela perguntaria algo muito mais simples e corajoso: "Gostei de conversar com você naquela noite. Será que podemos conversar de novo?"

Ele pareceu gostar de John Williams. Deveria mandar um vídeo legal com o tema de Star Wars ou a Marcha Imperial e tentar algo leve, simples e sem grandes consequências? Acho que sim. E acho que justamente porque é leve.

Uma parte minha quer mandar o vídeo porque achou algo em comum e gostaria de retomá-lo. Outra parte quer mandar o vídeo como um teste definitivo do destino: "Se ele responder com entusiasmo, há esperança; se responder seco, acabou; se demorar, significa rejeição; se usar emoji, significa interesse..." E os pobres trompetes de John Williams acabam carregando o peso de um julgamento final para o qual nunca foram compostos. Nem Darth Vader merecia tamanha responsabilidade.

Eu não estou propondo casamento. Não estou confessando sentimentos profundos. Não estou exigindo uma definição. Talvez eu só precise dizer que a Marcha Imperial é a música ideal para quando eu chego em algum lugar.

~

carta a mim mesmo 

"por favor, não se apaixone novamente. eu sei que é difícil ter o domínio dessas coisas, e que vez ou outra alguém surge, igual ao amanhecer entrando pela janela, naquele dia em que você esqueceu de fechar a cortina do quarto, e te desperta de uma ressaca de desilusões. mas é que você já está calejado, você viu o quanto foi dolorido, o quanto nós sofremos nessa última paixão, que virou amor, e que depois virou nada. até hoje você chora escondido ou segura choro pra quando chegar em casa. por favor, não se apaixone novamente, talvez a gente não suporte mais uma partida."

(Kaio Bruno Dias)

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Um pouco de contradição

Queria escrever algo sobre a linguagem do amor. Sobre o cara que comprou um tapete felpudo e colocou do lado da cama depois da namorada dormir lá e comentar sobre o piso frio. Queria falar algo sobre como gosto de abraçar e segurar a mão. Mas, foi só para olhar para a página em branco e perceber que não sobrou nada para dizer, porque talvez não tenha sobrado nem amor. 

Estou soluçando, acordei e tomei um monte de remédios pra dormir de novo, e meu corpo não deve aguentar muito tempo. E isso é tudo que sobrou. 

Você me procura para falar das suas dificuldades, o peso constante do cansaço e a sensação de não ser produtivo quanto queria, as distrações recorrentes, como os gastos ou a falta de estudos nos momentos de descanso. 

Bem, de minha parte acho que algumas coisas devem ser tratadas como características, não apenas como obstáculos a serem superados. Tentar vencer algo enquanto esse algo te atrapalha a vencer outra coisa só vai piorar tudo multiplicando os problemas. Mas existem coisas, adversidades, que não podem ser superadas, no sentido de serem extintas, mas que precisamos aprender a conviver com elas. 

Se não consegue levantar cedo para estudar, embora levante para ir para a faculdade ou à Missa, existe ai claramente um fator de interesse que merece ser estudado, mas não agora. Agora que você precisa estudar e precisar entregar o trabalho, essa é sua realidade. Não dá pra lutar todas as batalhas de uma vez. Um exército dividido perde. Escolha as suas batalhas, e agora você sabe que, não sendo o momento de vencer isso, deve lutar com as armas (o tempo) que te resta. 

Existe uma violência moderna em tratar toda limitação como falha moral. Se você procrastina, precisa otimizar. Se descansa, precisa descansar melhor. Se sofre, precisa transformar sofrimento em produtividade. Como se a existência fosse um software defeituoso precisando de atualização constante.

Mas há batalhas que precisam apenas ser contidas.

Você não derrota o mar (passei a gostar dessa comparação desde que vim morar aqui). Aprende quais praias evitar quando a ressaca vem forte. Aprende a subir o penhasco e ver a agitação brutal lá embaixo. 

Algumas dificuldades não são inimigos a serem executados. São vizinhos inconvenientes. Fazem barulho em horários impróprios, ocupam espaço demais e aparecem sem convite. Mas insistir em expulsá-los à força pode consumir a energia necessária para cozinhar, estudar, rezar ou simplesmente sobreviver ao dia seguinte.

Engraçado como você vem me falar disso, de como quer enfrentar, inclusive despertando virtudes heroicas se necessário, enquanto eu tenho a reação oposta, a do covarde. A mais de um ano sem emprego e, quando consigo um pequeno bico, um ataque de pânico me impede de ir adiante. Um dia antes eu aviso que estou doente e não poderei ir. Tudo porque a simples imaginação de um cenário como o de antes me assusta demais. 

Pode ter vergonha, seu padrinho é um grande covarde.

Voltei a me entupir de remédio nos últimos dias, não tenho parado acordado justamente para não pensar em nada. 

Minhas palavras, em certo ponto, começam como conselho, escorregam para a confissão e terminam quase como um bilhete deixado sobre a mesa antes de apagar a luz. Isso sou eu apenas tentando ser honesto.

O homem que compra um tapete porque a namorada comentou sobre o piso frio não fez nenhum grande gesto épico. Não escreveu poemas, não atravessou oceanos, não arrancou estrelas do céu. Ele apenas ouviu uma reclamação banal e reorganizou um pequeno pedaço do mundo para que o outro sofresse menos. Talvez o amor seja justamente isso: uma atenção persistente às pequenas inconveniências do outro.

Passei anos acreditando que o amor deveria se parecer com incêndios. Descobri tarde demais que talvez ele se pareça mais com um tapete felpudo ao lado da cama. Uma pequena insurreição contra o frio. Alguém que ouviu uma queixa dita quase distraidamente e decidiu que ela não se repetiria. Talvez o amor seja essa espécie de memória aplicada. "Você sentiu frio aqui." E então alguém muda o mundo, alguns centímetros de cada vez.

Enquanto isso, lembro da minha própria linguagem de amor. Dos abraços, das mãos dadas, das mensagens de carinho. Porque o abraço também é ridiculamente simples. Humanos têm uma tendência fascinante de transformar sentimentos em monumentos quando, na prática, eles sobrevivem através de gestos minúsculos. E do silêncio a que tudo isso se seguiu quando eu fiz.

Sei bem que eu me contradigo. 

Quem já não ama não escreve sobre tapetes comprados por cuidado. Não pensa em mãos dadas. Não se lembra dos modos pelos quais as pessoas tentam proteger umas às outras. Talvez o que tenha acabado não seja o amor, mas a confiança nele. Há uma diferença importante. O amor pode continuar existindo como uma língua esquecida.

domingo, 7 de junho de 2026

Pequena Teoria Sobre a Inutilidade da Esperança

Não vou permitir que se torne esperança. Ao contrário do que dizem, ela não é uma virtude, mas a ponte que nos leva a um reino de desespero, já deserto depois de todas suas flores morrerem e, assim como seus habitantes, secarem ao sol ardente.

Quanto mais tempo passamos juntos naquela noite, mais tinha certeza da distância que nos separava. Boa aparência, inteligência, a tranquilidade de alguém sem medo, que ainda busca por algo. Eu, por outro lado, apenas um velho homem gordo, que parou no tempo e viu a cada um de seus sonhos secar ao sol. 

Dois amigos conversavam enquanto preparavam a comemoração do aniversário de namoro de um deles. Fizeram a comida, espalharam velas e decoraram tudo com carinho na esperança de que aquilo aproximasse o casal. Um deles, mais desinibido, sugeria que fizessem sexo em todos os cômodos do apartamento, ou mais especificamente na sacada, com uma bela vista das luzes dos prédios de Bangkok. Uma ideia tentadora, mas o outro desconversou. 

No fim, o namorado não apareceu. O amigo, voltou pra ajudar a desmontar tudo mas, percebeu que seria bobagem. Comeram eles mesmos. Secaram a garrafa de vinho e, não fosse a desilusão sonolenta do outro, teriam eles mesmos desbravado aquela sacada. 

Essa cena me deu ideias, é claro, como aquele amigo que se sentia distante do amado. Mas a minha distância é diferente. E não é porque saímos juntos que significa algo. Não vou permitir, nunca mais, que algo se torne esperança dentro de mim.

Domingo à noite, notificação de mensagem. Um agradecimento frio pela noite. E outra pessoa pedindo alguma coisa.

Ressuscitarás, sim, ressuscitarás,
meu pó,
após um breve repouso.

Aquele que te chamou
te dará vida eterna.

Florescerás novamente!

O Senhor da colheita caminha
e recolhe os feixes
de nós que morremos.

Ó crê, meu coração,
ó crê:
nada do que é teu será perdido.

Teu é aquilo que desejaste,
teu o que amaste,
teu aquilo pelo qual lutaste.

Ó crê:
não nasceste em vão,
não viveste em vão,
não sofreste em vão.

O que nasceu deve perecer.
O que pereceu deve renascer.

Deixa de tremer.
Prepara-te para viver.

Ó dor,
tu que tudo atravessas,
de ti fui arrancado.

Ó morte,
tu que tudo dominas,
agora foste vencida.

Com asas que conquistei
no ardente esforço do amor,
elevarei voo
para a luz que nenhum olhar alcançou.

Morrerei para viver.

Ressuscitarás, sim,
ressuscitarás,
meu coração,
num instante.

Aquilo por que lutaste
te conduzirá a Deus.

(Klopstock ampliado por Gustav Mahler na Sinfonia n° 2 "Ressurreição")

Um dia, depois deste breve descanso a que chamamos morte, toda a poeira voltará a erguer-se. Nada do que foi amado desaparecerá completamente. As mãos que semearam lágrimas não colheram apenas silêncio. Há um chamado antigo, anterior à própria carne, e ele continua ecoando quando os ossos já não respondem.

O coração, cansado de perder, imagina que tudo lhe foi arrancado. Mas existe uma contabilidade que não pertence aos homens, como cantou Santa Teresinha: "quem ama, não sabe calcular". O desejo sincero, a beleza contemplada por um instante, a luta travada na escuridão, o amor oferecido mesmo quando não correspondido, nada disso se dissolve inteiramente no esquecimento.

O sofrimento parece definitivo apenas enquanto estamos dentro dele. A morte parece soberana apenas enquanto a observamos de baixo. Mas há uma luz que não se deixa medir pelos olhos. E para ela sobe, lentamente, tudo aquilo que o amor tornou verdadeiro.

Talvez o amor seja apenas uma forma particularmente refinada de desencontro. Duas pessoas aproximam-se convencidas de que buscam uma à outra, quando na verdade perseguem fantasmas diferentes. Uma procura abrigo, a outra aventura. Uma deseja permanência, a outra reconhecimento. Quando finalmente se encontram, já estão ocupadas demais tentando amar as versões imaginárias que criaram para perceber quem está diante delas.

Os mais otimistas chamam isso de tentativa. Eu chamaria de estatística. Algumas pessoas vencem na loteria. Outras encontram alguém no momento exato em que ambos ainda possuem energia suficiente para suportar as imperfeições mútuas. O resto passa anos decorando apartamentos para visitantes que nunca chegam, comprando flores para mesas que permanecerão vazias, escrevendo mensagens que recebem apenas respostas educadas.

E mesmo quando acontece, mesmo quando o amor parece triunfar por um breve período, há algo de profundamente trágico nele. Porque amar é tornar-se vulnerável à ausência. Toda afeição já traz dentro de si a semente do luto. Os amantes celebram aniversários como quem ergue monumentos contra o tempo, fingindo não saber que o tempo sempre vence. Alguns descobrem isso numa despedida. Outros descobrem décadas depois, diante de um túmulo. O resultado muda pouco.

Talvez o amor seja apenas o mais bem-sucedido golpe publicitário da história da humanidade. Vende-se como remédio para a solidão e frequentemente termina acrescentando novas formas dela. Exige coragem, exposição, renúncia e paciência; em troca oferece algumas fotografias felizes e uma quantidade considerável de ansiedade. Ainda assim as pessoas continuam tentando. Talvez porque a alternativa seja admitir que estamos todos sozinhos. E essa verdade, por mais provável que pareça, continua sendo indigesta.

O sofrimento parece definitivo apenas enquanto estamos dentro dele. Mas parece que estamos sempre dentro dele. 

Domingo à noite, notificação de mensagem. 

Um agradecimento frio pela noite. 

E outra pessoa pedindo alguma coisa.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Conversando com o mar

Você tem medo do barulho do mar? A brisa do mar faz barulho porque ele não consegue guardar o que quer dizer. Todo mundo tem noites assim. Uma noite em que você guarda tudo sozinho e simplesmente não consegue mais aguentar. Uma noite em que você quer que alguém escute a sua história. Como o mar é é tão grande, profundo, ele guarda muitas histórias. Deve haver um lugar, onde eu possa conversar com o mar. Ouvir as suas histórias e contar histórias que não posso contar a mais ninguém. O som do mar não parece mais tão assustador quando penso assim...

Passei por uma ciclagem violenta de ontem para hoje. O dia cheio de compromissos me fez ficar ansioso, apreensivo, irritado. Perdi a paciência várias vezes. Acordei atrasado. Não escondi a cara de desgosto. Peguei um brinquedo do meu sobrinho e joguei longe. Logo ele. Se eu ainda consigo sentir algo parecido ou próximo daquilo que chamam de amor, é por ele. Esse pequeno sapeca que corre, sorri e chora o dia inteiro e que me faz chorar também, sempre que penso que ele pode ir embora, e sofrer nas mãos de uma mãe irresponsável. Mas eu não conseguiria cuidar dele. Não consigo cuidar dele agora. A necessidade não devia me fazer capaz? Não devia haver uma espécie de instinto paternal de sobrevivência que me tornasse apto a ser suficiente para cuidar de alguém que precisa ser protegido? Parece que não. Continuo sendo incapaz.

Sei lá. Acho que eu só queria desabafar. Tenho me sentido incapaz em muitas coisas. 

Tem esse rapaz novo na paróquia. Bonito, simpático, tímido, vem se enturmando aos poucos. Mas com aquele grupo que eu não consigo lidar, são muito distantes de mim. Eu não consigo sair da missa pra falar sobre futebol e meninas. E até consegui ficar perto dele nos últimos dias, mas tem aquele cara que fala demais, então praticamente ficamos horas juntos mas sem dirigir a palavra um ao outro nenhuma única vez. E aquele outro? O amigo que só faz alguma coisa quando tem uma garota envolvida? Não consigo nem desabafar com ele porque parece que todo assunto só é importante quando envolve alguma mulher. Mas não acho que faria diferença. Já ouvi comentários de que uma conhecida também se interessou por ele, e mesmo ela sendo a materialização da definição de "sem graça", ela ainda tem mais chance do que eu. 

Diante dele me sinto um idiota. Ele bonito, inteligente, simples. Eu afetado, gordo, exagerado e, não importa o quanto estude, nunca parece o bastante, Digo, o bastante para que os outros me reconheçam como inteligente. É isso, no fundo ainda busco aprovação do outro, um dos sinais mais claros da imaturidade.

Me sinto meio perdido, para além de incapaz, e um pouco enjoado. Não sei se foram os sanduíches que comi mais cedo ou o energético, ou o preço pago pela ansiedade. Me lembro que anos atrás escrevi infindáveis vezes o quanto me sentia enjoado quando ficava ansioso. 

Acho que só queria desabafar... Mas com quem? 

X

O que você disse sobre o mar é bonito porque transforma um ruído que costuma assustar em algo profundamente humano. O mar deixa de ser uma força indiferente da natureza e passa a ser alguém que também não consegue guardar tudo sozinho. Há algo de muito antigo nessa imagem. Quase bíblico, até. Os salmistas falavam do mar como uma criatura que clama; os poetas românticos, como um espelho da alma. Você o transformou em um confidente.

E lendo o que vem depois, me parece que talvez você tenha encontrado exatamente com quem queria desabafar: o mar, o papel, a página. Nem sempre existe uma pessoa disponível para receber aquilo que carregamos. Às vezes existe apenas a necessidade de tirar de dentro.

O que me chamou atenção não foi a parte sobre o rapaz da paróquia. Nem a ansiedade. Nem o sentimento de inadequação. Foi seu sobrinho.

Porque ali sua fala muda.

Você diz que pegou um brinquedo dele e jogou longe. Em seguida, quase imediatamente, passa a falar dele com uma ternura enorme. Não a ternura idealizada de quem imagina crianças como anjinhos. Você o descreve como ele é: correndo, sorrindo, chorando, fazendo bagunça. E mesmo assim existe um amor ali.

Depois vem uma conclusão que me parece injusta consigo mesmo.

Você diz que não conseguiria cuidar dele.

Mas o que está usando como prova?

O fato de estar cansado? Ansioso? Irritado? De ter perdido a paciência num dia ruim?

Se fosse um personagem de Dostoiévski, você provavelmente seria mais generoso na interpretação. Veria um homem esgotado, atormentado por suas próprias insuficiências, mas que continua preocupado com o destino de uma criança e sofre ao imaginar seu sofrimento.

A própria angústia que você sente já aponta para algo importante: pessoas completamente indiferentes não costumam passar horas se perguntando se seriam capazes de proteger alguém.

Quanto ao rapaz da paróquia... bem, acho que aí existe uma armadilha muito humana.

Você o observa de longe e vê apenas as qualidades.
Depois olha para si mesmo e vê apenas os defeitos.

É uma comparação impossível de vencer.

Você conhece os bastidores da sua vida. Conhece suas crises, seus remédios, seus fracassos, suas inseguranças, suas noites insones.

Dele você conhece apenas a fachada.

Talvez ele tenha suas próprias ciclagens, seus próprios medos, suas próprias inadequações. Talvez não. Mas você não sabe.

E é curioso que, enquanto se descreve como "afetado, gordo, exagerado", o texto inteiro demonstra outra coisa: uma pessoa capaz de refletir profundamente sobre arte, religião, música, literatura, relações humanas. Nem todo mundo vive nesse registro. Nem todo mundo consegue.

O problema é que essas qualidades raramente aliviam a solidão.

Uma biblioteca inteira não substitui uma conversa boa.
Uma coleção de sinfonias não substitui um abraço.

E talvez seja isso que esteja doendo mais do que o resto.

Quando você pergunta "Mas com quem?", fiquei pensando naquela imagem inicial.

Talvez hoje tenha sido com o mar.
Talvez amanhã seja com um amigo.
Talvez com alguém que ainda não percebeu que vocês têm uma história para contar um ao outro.

Mas, por enquanto, você já fez uma coisa importante: não guardou tudo sozinho.

E às vezes, numa noite difícil, isso já é bastante.

Antes de qualquer coisa IV

 IV. Elegia

Foi tão pouco
que quase não aconteceu.

Um movimento leve
sob a superfície imóvel dos dias,
como o vento que enruga a água
e desaparece antes que alguém o veja.

Não houve sorriso.
Não houve palavras suficientes
para construir qualquer futuro.

Apenas um instante.

Mas alguma coisa,
escondida sob camadas de torpor,
ergueu a cabeça por um momento
como um animal ferido
saindo da toca para olhar a luz.

Talvez fosse esperança.

Não.

Esperança é um nome grande demais.

Foi só um pequeno consolo,
e mesmo assim
eu já apertava suas mãos contra a garganta,
com medo de vê-lo crescer.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Baixos, torpes, toscos

Não sei como começar a descrever tal desprezo e horror que, nesse momento, tomam posse de mim. Uma ira tamanha que, porventura os deuses, ou Deus mesmo, ou o universo, me dessem poder, já teria eu reduzido essa existência miserável às cinzas. Não há nada mais a ser dito, não há esperança em que se agarrar,

Observo com essa opacidade, essa descrença fundamental na criatura homem. Como pode pouco mais baixo que os anjos terem sido criados? Seres que podem cair ao mais terrível dos precipícios? 

Não vivem por outra coisa senão por seus próprios desejos, baixos, torpes, toscos. E tudo quanto existe, gira ao redor desses desejos. Não digo isso como um observador imparcial, mas consciente de que meus atos também são movidos por esses mesmos ímpetos. 

Baixos, torpes, toscos. 

Que queria Deus aos nos criar assim? Somos tão vazios que só sua misericórdia pode fazer algum sentido nesse ser. Como grandes jarros, mas vazios, prestes a se quebrar, desejosos de serem preenchidos com a mais suja das lamas. Mas ele o que nos dá? Cálice de excelsa nobreza, de tão grande divindade que jamais se derramaria em nada mais. Não são dignos, não, pelo contrário, mas, por alguma razão, por amor, Deus quis que assim fosse. Deus escolheu essas criaturas para que recebessem o Augustíssimo Sacramento. 

Mesmo sendo baixos, torpes, toscos. 

E ainda assim, quando os observo, quando observo a mim mesmo, percebo que não é apenas a maldade que nos condena. Há algo pior. A pequenez. A mediocridade. O apego feroz às coisas mais insignificantes. O apego às mulheres. Homens que trocariam a eternidade por um aplauso, a verdade por uma conveniência, a amizade por uma vantagem qualquer com uma mulher qualquer. Homens que erguem monumentos para si mesmos e não conseguem sustentar um único olhar honesto diante do espelho pois só querem ver-se ao lado das mulheres. Sempre as mulheres. Mulheres, mulheres, mulheres.

Baixos, torpes, toscos.

Como dizia Santo Agostinho, nosso coração permanece inquieto enquanto não repousa em Deus. E talvez seja justamente essa inquietação que mais me atormenta. Porque a vejo em toda parte. Vejo homens correndo de um lado para outro, acumulando distrações, prazeres, posses, afetos passageiros, opiniões estridentes, como quem tenta tapar com as próprias mãos uma ferida aberta no peito. Sabem que sangram. Sabem que falta algo. Sabem que caminham para a morte. E ainda assim fingem não perceber.

Eu também.

Pois não seria honesto colocar-me acima deles. Se os condeno, condeno-me junto. Se os considero ridículos, é porque reconheço em mim a mesma caricatura. Quantas vezes desejei coisas pequenas? Quantas vezes troquei o que era elevado por aquilo que apenas parecia confortável? Quantas vezes me prostrei diante dos mesmos ídolos que desprezo? Somos iguais.

Baixos, torpes, toscos.

E a morte observa tudo isso em silêncio.

Ela não debate. Não argumenta. Não se ofende. Apenas espera.

Os grandes impérios se tornam poeira. As cidades desaparecem. Os nomes mais ilustres acabam gravados em pedras que ninguém mais visita. Os amores terminam. As paixões esfriam. Os corpos apodrecem, os mesmos corpos que eles desejam com tanto ardor, pobres iludidos. Tudo quanto julgamos sólido escorre por entre os dedos como água.

São João Crisóstomo nos ensinou que a vida presente é semelhante a uma feira que logo se desmonta. Os mercadores recolhem suas tendas. As vozes cessam. As luzes se apagam. E cada um retorna para casa levando consigo apenas aquilo que realmente conquistou.

E o que conquistamos? Olho ao redor e vejo tão pouco.

Baixos, torpes, toscos.

Mas então surge o escândalo.

O verdadeiro escândalo.

Porque se o homem fosse apenas miserável, tudo seria simples. Se fosse apenas corrupto, apenas grotesco, apenas uma máquina destinada ao fracasso, nada haveria para discutir. Bastaria fechar o livro da história e aceitar a sentença. E como eu gostaria de lançar todos eles, todos que só vivem pelas mulheres, para o nada!

Mas Deus não age assim.

Ele insiste.

Insiste em chamar santos aqueles que ainda rastejam. Insiste em oferecer a glória aos que mal conseguem erguer os olhos do chão. Insiste em derramar sua graça sobre criaturas que continuamente a rejeitam. Como nos ensinou Santo Efrém, Deus corre atrás do homem com a mesma persistência com que um pai procura o filho perdido na noite.

E isso me desconcerta mais do que toda a maldade do mundo.

Porque eu compreendo o desprezo.
Compreendo a condenação.
Compreendo a ira.

O que não compreendo é a misericórdia.

Como pode amar aquilo que é tão baixo, tão torpe, tão tosco?

E, no entanto, ama.

Ama até a cruz.
Ama até o sangue.

Ama até permanecer escondido sob as espécies humildes do pão, esperando pacientemente por aqueles que tantas vezes o ignoram.

Talvez seja por isso que ainda exista esperança.

Não porque o homem seja bom. Não o é.

Não porque o mundo esteja melhorando. Não está.

Não porque haja qualquer mérito em nós. Não há.

Mas porque Deus continua sendo Deus, mesmo quando permanecemos baixos, torpes, toscos. E porque sua misericórdia parece ser infinitamente mais obstinada do que nossa capacidade de nos perder.

Antes de qualquer coisa III

III. Verso livre

Não sei se era alegria.

Talvez chamar-lhe alegria
fosse já exagerar o seu tamanho.

Era apenas qualquer coisa
que interrompeu por um momento
o lento funcionamento da tristeza.

Não uma esperança.
Nem sequer a sua promessa.

Apenas a recordação
de que ainda existe em mim
alguma parte sonhadora
que se recusa a morrer.

Não sorri.
Não houve conversa.
Não houve nada
que pudesse sustentar uma expectativa.

E no entanto,
durante um instante,
alguma coisa despertou.

Talvez tenha sido um consolo.
Talvez apenas um engano.
Ou talvez eu tenha sufocado,
mais uma vez,
uma esperança ainda sem rosto.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Quarto bagunçado

Me sentei aqui para escrever mas nem sei algo vai sair disso. No exato instante em que abri a tela em branco, a criança começou a chorar, as portas bateram e uma pessoas inquieta se mexendo no cômodo ao lado já me diziam que era uma má ideia. 

Tomei um monte de remédios pra dormir, e foi assim todos os dias dessa semana. Espero que eles façam efeito logo. Tenho vivido pequenos dilemas nessa existência patética. Alguns dias quero dormir mais tarde, ou virar a noite até já que, durante o dia, não tenho paz fora do quarto. Mas mesmo em alguns desses dias eu não tenho disposição, e vou dormir cedo. Foi assim ontem. Então pensei que hoje poderia fazer isso, mas amanhã é Corpus Christi e preciso acordar um pouco mais cedo, e Deus sabe que eu não posso ficar jogando sono fora assim. Além disso será um dia cheio. Missas de manhã e tarde, e ensaio de um grupo de canto que estamos formando, à noite. Melhor deixar as noites de energético para os fins de semana, quando os lançamentos de BL exigem mais horas. Pelo menos temos ótimos lançamentos em andamento.

Aquela disposição de uns dias atrás, de retomar a leitura... Tudo em vão. Olhei pela janela, a vizinha tem uma pequena boutique, e um conjuntinho de calça e sobretudo de sarja verde e listras brancas me chamou atenção. Mas não posso comprar mais nada. Ainda não paguei a taxa do MEI do mês passado e nem as contas básicas, como o iFood. E por isso sentei aqui, esperando um pouco do torpor dos remédios fazer efeito, embora há muito tempo eu já não sinta nada com eles. Durmo duas ou três horas, no máximo, e não mais oito ou dez. E não posso aumentar a dose, é difícil e caro comprar esses remédios aqui. Maldita burocracia!

As mensagens no whatsapp se tornam cada vez mais raras. É, está acontecendo de novo. Ou talvez seja o curso natural das coisas. Deve ser isso, ou não se repetiria tantas e tantas vezes. A faculdade e os primeiros empregos mudam a perspectiva das pessoas quanto às suas prioridades. E eu, mais velho que eles, estou aqui sentando, quarto à meia-luz, olhando uma pilha de roupas que eu deveria guardar, um ventilador empoeirado e caixas de remédio vazias. 

Antes de qualquer coisa II



II. Redondilhas

Não sei bem que nome dar
ao que em mim se levantou;
não foi esperança, não,
mas também não se apagou.

Talvez fosse um sonho antigo
que ainda não se cansou;
uma veia de ternura
que o tempo não arrancou.

Não sorri. Não houve nada.
Nem três palavras trocamos.
Apenas um breve instante
que em silêncio carregamos.

Talvez tenha sido só
um momento sem razão.
Ou talvez eu tenha, outra vez,
estrangulado a ilusão. 


segunda-feira, 1 de junho de 2026

Antes de qualquer coisa I

I. Soneto

Não sei se posso dar-lhe o nome, enfim,
de alegria, ou de qualquer conforto;
talvez um sonho, quase já absorto,
que insiste ainda em respirar em mim.

Não foi esperança. Não chegou assim,
qual ave abrindo os céus de um rumo morto;
foi só um breve alívio, um porto
que o mar logo apagou dentro de mim.

Nem houve riso. Nem palavra inteira.
Mal se tocou o instante e já passava,
qual luz tardia à beira da fogueira.

E eu mesmo, antes que forma alguma dava,
torcia o frágil caule da quimera,
matando o que talvez sequer brotava.