À direita, a montanha desaparecia na névoa. À esquerda, o vale se abria por entre as árvores.
Ele caminhava.
E, pela primeira vez em muito tempo, não precisava dizer nada.
Caminhando lentamente aquele jovem buscava ficar longe, de todo aquele barulho, de todas aquelas conversas e apontamentos. Aprendera a sorrir o tempo todo, mas os prêmios que isso lhe rendeu apenas servem para enfeitar as prateleiras. Não é como se ele não gostasse do que fazia, mas o preço que precisava ser pago para fazer o que gosta é que é alto demais.
Buscava ali algum descanso. Não como naqueles casos em que, farto de tudo, buscou se refugir escondendo do mundo. Não. Seu irmão passara os últimos anos ali, estudando as técnicas de cultivo de chá e, por isso, indicou que ele ficasse alguns dias. Ele só queria descansar.
Nos primeiros dias, caminhava sem pressa. Às vezes passava longos minutos sem ouvir uma voz, e o silêncio daquele lugar não parecia vazio, como os silêncios que conhecera na cidade, sempre interrompidos por alguma máquina, alguma notificação na rede social onde todos só queriam destilar ódio ou alguma pessoa chamando seu nome.
o canto distante de um pássaro que ele não sabia o nome,
o rangido da madeira sob seus pés.
Eram sons pequenos, mas ocupavam o mundo inteiro. Caminhava, respirava, e continuava caminhando. Talvez fosse isso que procurava, embora ainda não soubesse dar nome: um lugar onde não precisasse preencher cada instante com alguma coisa.
A viagem era longa, aquele lugar era o mais distante que ele já havia ficado de uma cidade. A estrada era sinuosa mas, a cada curva, se abria uma nova e deslumbrante paisagem. A estrada subia devagar, parecia que nunca teria fim.
Sem dizer nada ele se confortava. No silêncio.
O verde imenso que recobria a cadeia de montanhas, a névoa que dividia espaço com a floresta e o sol brilhante no céu azul em cores tão belas que um artista de décadas de treino dificilmente conseguiria reproduzir. Nem a câmera que ele apontou, aqui e ali, podia captar aquela beleza construída por dez mil anos de história, seguindo a antiquíssima regra do mundo.
Havia alguma coisa naquela paisagem que o fazia perceber a própria pequenez. As montanhas não tinham pressa. As árvores haviam crescido ali muito antes que alguém pensasse em construir uma estrada, e continuariam crescendo depois que aquela estrada estivesse esquecida. A névoa chegava pela manhã e desaparecia quando queria; o sol atravessava as copas em manchas móveis; as folhas novas surgiam sem pedir licença às antigas. Ele estava acostumado a medir a vida por compromissos, temporadas, gravações, prêmios e datas marcadas em agendas. Ali, entretanto, o tempo parecia obedecer a outras regras. Uma flor abria quando chegava sua hora. O chá era colhido quando estava pronto. A montanha simplesmente permanecia.
Subiu um pequeno morro até a cada do homem que iria hospedá-lo. Era um sobrado e, pela altura, daria pra ver boa parte da região dali. O dono da casa era um jovem, de corpo forte, mas muito gentil. O estranhamento entre um homem acostumado a ter pessoas fazendo tudo por ele, e outro acostumado a fazer tudo sozinho, no entanto, não foi empecilho para a aproximação,
Logo os dois passaram a caminhar juntos, desde cedo, colhendo flores de chá ou cortando bambus. A comida era sempre feita com as coisas que a pequena aldeia produzia. E era sempre farta, de variedades e sorrisos. Não falavam o tempo todo. Às vezes um caminhava alguns passos à frente e o outro ficava para trás, ocupado com alguma planta, e depois se encontravam novamente sem que nenhum dos dois precisasse chamar. Quando chovia, um segurava o cesto enquanto o outro protegia as folhas. Quando voltavam cansados e, logo, havia uma xícara fumegando esperando por eles sobre a mesa. Aos poucos, aquelas pequenas coisas começaram a adquirir uma importância que ele não saberia explicar. Não houve um momento preciso em que percebeu que estava apaixonado. Talvez tivesse acontecido numa manhã qualquer, enquanto alguém cortava bambu no quintal e o cheiro do chá recém-preparado atravessava a casa.
Ele aprendeu alguns dos segredos dos chás, e não vivia mais sem beber, e apreciar cada nota, cada detalhe do sabor, enquanto conversava com todos.
No começo, não sabia distinguir quase nada. Bebia e apenas dizia que era bom. Depois começou a perceber que um tinha uma nota mais doce, outro uma amargura breve que desaparecia logo, outro deixava na boca um perfume que lembrava flores que ainda não sabia nomear. Aprendeu que o chá também tinha seu tempo. Não se podia apressar seu sabor, assim como não se podia pedir à montanha que chegasse mais depressa ao verão. Algumas coisas precisavam apenas permanecer na água quente até que estivessem prontas para entregar aquilo que guardavam.
O resto do país se perguntava o que fazia nas férias o ator querido dos holofotes, mas ele nem ligava, aquilo não eram férias: ele descobrira um novo lar.
O rapaz que acolheu, por quem logo se apaixonou, fez com ele cada canto daquela casa uma lembrança especial. Havia a varanda onde o vento fazia tocar o pequeno sino, a mesa onde tomavam chá ao fim da tarde, a porta que rangia quando alguém entrava depressa, a janela de onde se podia ver a montanha quando a névoa permitia. Havia até o caminho entre a casa e os campos, que ele aprendeu a reconhecer não pela distância, mas pelas pequenas coisas que apareciam nele: uma pedra clara junto à trilha, uma árvore inclinada sobre o caminho, uma parte do terreno onde as flores cresciam mais baixas. Depois de algum tempo, já não precisava pensar para saber onde estava. O corpo sabia antes dele. Bastava virar uma esquina e alguma lembrança vinha ao encontro. Cada passo da casa até os campos e dos campos até a parte da aldeia onde preparavam as folhas de chá era, agora, familiar.
Não chorou quando precisou voltar, porque ele sabia que não era uma despedida. Com efeito, sempre que surgia uma brecha na agenda, é lá que ele ia. Acampava no topo das montanhas, ia conhecendo mais à fundo a mata fechada, e amava.
Amava o aroma do chá tanto quanto o perfume do seu amor. Amava o céu azul e o som do vento agitando a copa das árvores. Amava quando seu irmão o visitava, e logo saía correndo, para reencontrar os amigos da aldeia.
O irmão também aprendera aqueles caminhos. Bem antes dele. Havia uma trilha que preferia, porque de determinado ponto era possível ver o vale inteiro; outra levava até uma árvore antiga onde costumavam descansar depois de subir a montanha. Às vezes discutiam sobre qual chá era melhor, e ele fingia não concordar apenas para prolongar a conversa. O irmão ria. Depois o vento passava pelas folhas, falava de uma flor mágica que ele iria reencontrar um dia, e por alguns instantes ninguém dizia nada. Anos mais tarde, quando voltasse àquele mesmo lugar sozinho, seria justamente aquele silêncio que lembraria primeiro.
Um dia, seu irmão foi para longe mais uma vez, e não mais voltou. Se perdeu em meio à luz de uma área distante na floresta. A floresta havia chamado seu Pequeno Príncipe. E então ele chorou. A montanha continuava permanecendo.
Naquele dia, a floresta estava especialmente clara. A luz atravessava as árvores em longas faixas e desaparecia sobre o chão coberto de folhas. Por algum tempo ninguém soube dizer exatamente onde ele havia estado pela última vez. Havia apenas caminhos que continuavam adiante, todos parecendo levar a algum lugar. As flores continuavam abertas. O vento continuava passando entre os galhos. O pequeno sino da varanda continuou tocando naquela tarde, embora ninguém tivesse ido até a casa. Foi então que ele percebeu uma das crueldades da natureza: ela não sabe quando alguém morreu. As árvores continuam crescendo.
Mas não deixou de até lá, sempre que podia. Voltava e encontrava tudo quase igual. A mesma estrada longa e sinuosa, as mesmas árvores, os mesmos campos onde o chá crescia em linhas que acompanhavam as curvas do terreno. Apenas ele havia mudado. Sabia que ali, seu irmão estaria com ele, na brisa que parecia soar como seu sorriso ao agitar o pequeno sino dos ventos na varanda. E tinha seu amado.
Havia dias em que caminhava até a árvore onde o irmão costumava descansar e permanecia ali sem fazer nada. Não rezava, não falava, não procurava respostas. Apenas ficava. Talvez porque naquele lugar ainda fosse possível imaginar que, se esperasse tempo suficiente, ouviria outra vez aquele riso vindo de algum ponto da floresta.
Aprendera a apreciar o silêncio que ele buscara há tanto. Ficavam dias sem trocar mais do que umas poucas palavras, mas não era desconfortável, apenas não era necessário.
A separação com seu amor também não o distanciou daquelas montanhas. Enquanto o homem forte estudava e se preparava para caçar, ele continuou andando por aqueles lugares, pois cada pequena trilha, cada árvore ao redor do chalé, cada som, cada aroma, tudo lembrava seu amor.
A espera demorou mais que o previsto. O exército roubara do seu homem mais do que prometera. E ele continuava esperando. Paciente. O homem que amava também passou a existir naqueles lugares mesmo quando não estava neles.
Uma determinada árvore lembrava seus braços.
Uma trilha lembrava a maneira como caminhava.
O orvalho da manhã era como o outro saía do banho, sem roupa e com várias gotas pelo corpo perfeito, só para provocá-lo.
O cheiro das folhas molhadas trazia de volta uma tarde de chuva em que haviam ficado abrigados sob o beiral da casa.
Até o chá, que antes era apenas chá, começou a possuir nomes que não estavam escritos em nenhuma embalagem: este era o que ele gostava; aquele era o que bebiam quando fazia frio; outro era o que haviam descoberto juntos. A memória tinha transformado a montanha numa casa ainda maior.
Dois anos se tornaram três.
Depois quatro.
Depois cinco.
Os números avançavam enquanto a montanha permanecia. A cada estação, alguma coisa mudava: as flores desapareciam, o verde escurecia, a névoa chegava mais cedo, o frio demorava mais a partir. Mas a montanha continuava ali, enorme e silenciosa, como se cinco anos fossem apenas um intervalo breve entre duas manhãs. Ele começou a pensar que talvez fosse isso que significava esperar. Não permanecer imóvel, mas continuar vivendo enquanto o tempo fazia seu trabalho. As folhas cresciam. Eram colhidas. Voltavam a crescer. O chá era preparado. Bebido. A água esfriava. Outra água era colocada no fogo.
Quantos milênios se passaram até que aquelas montanhas se formassem? E ele sabia que, sem esse tempo, elas jamais seriam como era. Naquela tarde, como em tantas outras, preparou o chá sem pensar muito no que fazia.
A água ferveu,
a fumaça subiu lentamente
e durante algum tempo ficou suspensa diante dele,
misturando-se à luz amarela do meio da tarde.
Ele segurou a xícara com as duas mãos.
Já conhecia aquele sabor havia anos. Sabia quando estava pronto apenas pelo aroma. Bebeu um pouco e olhou para as montanhas. Não esperava nenhuma novidade. Depois de tantos anos, aprendera que esperar também era isso: tomar o mesmo chá, olhar a mesma paisagem e ainda assim acreditar que alguma coisa poderia acontecer. Por um momento, o mundo inteiro pareceu suspenso: o vento, a fumaça do chá, as folhas, até o pequeno ruído dos pássaros. Ele não se levantou. Não conseguiu. Apenas olhou. E então ele avistou, ao longe, a figura daquele homem. E não acreditou no que viu. Será que sua cabeça lhe pregava uma peça? Será que a floresta se compadecera dele e então o chamava, como chamou seu irmão?
O homem parou por um instante, como se também precisasse ter certeza de que aquele que estava diante dele era real. Depois correu. Não havia mais montanha, nem estrada, nem anos, nem espera. Havia apenas aqueles poucos metros entre os dois. Ele correu como quem atravessava não uma clareira, mas cinco anos inteiros. E quando finalmente o alcançou, o abraço. A força de um urso pressionando-o contra peitos de aço. Quase o fez perder o equilíbrio.
Era real. Ali, no topo daquela montanha, com o sol e as árvores como testemunha, o seu amor permaneceria vivo, pelos próximos dez mil anos, ou até que as montanhas deixem de existir.
Ficaram ali por algum tempo, sem dizer nada. Não havia necessidade. O sol descia lentamente sobre as árvores, e a luz atravessava a névoa em longas faixas douradas. O chá já havia esfriado sobre a mesa. Ao longe, o vento passava pelas copas e fazia a montanha parecer respirar. Ele olhou para aquele homem e depois para tudo aquilo que havia aprendido a amar: a casa, os campos, a floresta, as trilhas, o silêncio. Pensou no irmão, nos anos de espera, nas pessoas que haviam partido e nas que haviam permanecido. Talvez a montanha soubesse alguma coisa sobre isso. Talvez não.
Ela estava ali antes deles e estaria depois. Mas naquele instante, por um breve momento, pareceu testemunhar aquele reencontro. E ele soube que, ali no topo daquela montanha, com o sol e as árvores como testemunha, o seu amor permaneceria vivo pelos próximos dez mil anos, ou até que as montanhas deixassem de existir.







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