Já disse em mais de uma ocasião que algumas obras merecem ser revisitadas sempre, especialmente os clássicos. Para o homem de estudos, cada contato é um aprofundamento, não apenas na obra em si, mas em todo o contexto humano em que ela se encaixa. E por essa razão é que são clássicas: elas guardam consigo aquela experiência comum aos homens de todos os tempos, e por isso atravessam as gerações e as mais diversas culturas, e continuam falando aos coração e a inteligência. Daqui a cinquenta ou cem anos as peças de Shakespeare, a Nona de Beethoven, a Ilíada e a Odisseia ou os Sonetos de Camões ainda continuarão importantes, pois ainda vão conter essa experiência humana comum: ainda falarão aos homens de todas as épocas. Ainda não me atrevo a falar sobre elas, me limito a, consciente de minha limitação, aprender com elas.
Por isso venho me debruçando em análises menos ambiciosas. Ainda sobre esses mesmos elementos humanos comuns a todos, mas vistos em obras que não são clássicas, mas importantes para mim. Elas não dialogam com toda a humanidade, mas comigo. Aqueles que se interessam por esses estudos não dariam atenção a elas, ao passo que quem gosta delas, não se interessam por essas análises que misturam filosofia, religião, sociologia, literatura, psicologia, e outras áreas afins. Bom, de todo modo, me servem como exercício, enquanto me obrigam a observar e buscar no meu divertimento, algo que acrescente.
"Your Sky" (2024) é, de longe, uma de minhas séries favoritas, e figura dentre aquelas que eu busco quando preciso ver algo belo. Ou seja, quando as coisas não vão bem, ela me serve como uma fuga, ou válvula de escape, por ser um mundo tão diferente do real que me faz, ainda que temporariamente, esquecer a verdade. Ela me coloca diante de várias perspectivas: a primeira delas é a idealização. Um mundo onde o amor é real, onde o carinho e suas demonstrações é real. Não é aquele amor dolorido, embora existam lágrimas e barreiras a serem superadas: Teerak (Kong) teme que Muenfah (Thomas) não o ame de verdade e que seu relacionamento seja apenas a mentira que criaram para manter um pretendente inconveniente distante, ao mesmo tempo que serve para que Teerak não o enfrente diretamente. Depois, a não aprovação do namoro de ambos, são provações que aparecem, mas não são como as tragédias gregas ou as óperas de Wagner.
Na literatura e na psicologia, a idealização sempre caminhou lado a lado com a necessidade de fuga. Não se trata apenas de evasão infantil, mas de uma estratégia simbólica de sobrevivência. Em Sigmund Freud, em O mal-estar na civilização (1930), a fantasia surge como uma espécie de refúgio contra a dureza do princípio de realidade: o sujeito constrói pequenas ilhas onde o desejo pode existir sem ser esmagado pela exigência do mundo externo. Já Donald Winnicott, em O brincar e a realidade (1971), sugere que o espaço imaginativo não é uma mentira, mas uma zona intermediária onde o indivíduo consegue respirar. Ali, a idealização não é negação do real, mas um modo de torná-lo suportável. É assim comigo. Nesse sentido, mundos como o de Your Sky não são apenas escapismo; funcionam como o que Gaston Bachelard chamaria de “topofilia imaginária” em A poética do espaço (1958): lugares interiores onde o sujeito se recolhe para recompor a própria sensibilidade. O espectador não foge porque despreza o mundo, mas porque precisa retornar a ele menos ferido.
O mundo deles é completamente idílico: todos são incrivelmente bonitos, toda a paleta de cores é cuidadosamente escolhida para reforçar a personalidade de cada um. O mundo de Teerak é claro, brilhante, não saturado nem frio, as cores em tom pastel dão um ar de tranquilidade e, ao mesmo tempo, de um mundo separado. Não há como não lembrar dos ursinhos carinhosos: ele está sempre sorridente, fofo, mesmo ingênuo, mas sempre preocupado com todos. O mundo de Fah é noturno, maduro, sério. Seu bar na orla passa a ideia de luxo e segurança, mas é solitário em comparação a família afetuosa do companheiro. Ambos se completam: é inquestionável a infantilidade de Teerak, ao mesmo tempo que Fah é fechado num mundo sério, tão sério que ele perde frequentemente o controle das emoções por não saber lidar com elas. E ambos se ajudam com isso.
No campo das cores e da visualidade, o contraste entre os universos cromáticos de Teerak e Fah pode ser lido à luz de uma longa tradição teórica. Em Johann Wolfgang von Goethe, na Teoria das cores (1810), as tonalidades claras e suaves são associadas a estados de serenidade e abertura, enquanto as cores profundas e escuras evocam interioridade e gravidade, exatamente como na série. Já Wassily Kandinsky, em Do espiritual na arte (1911), descreve a cor como uma vibração da alma: os tons pastel e luminosos tenderiam a produzir leveza e proximidade, ao passo que os azuis escuros e as paletas noturnas chamam o espectador para uma experiência mais introspectiva. No cinema e na televisão contemporâneos, essa herança se transforma em linguagem emocional. A saturação reduzida e as paletas suaves criam um efeito de suspensão temporal, quase como se o mundo fosse filtrado por uma memória afetiva. Já os ambientes noturnos, iluminados por luzes quentes e sombras densas, sugerem maturidade, conflito interior e proteção. A alternância entre esses universos cromáticos não apenas diferencia os personagens; constrói um diálogo visual entre inocência e experiência, entre abrigo e inquietação.
A mistura dessas duas realidades também é algo interessante. Teerak amadurece ao conviver mais com Fah e conseguir enfrentar, tanto o pretendente inconveniente quanto seu pai. Fah, embora não tenha uma família disfuncional, se torna mais leve e sorridente com a família do outro.
A conquista se dá no encantamento que um gera no outro. A docilidade de Teerak, a corajosa atenção carinhosa e silenciosa de Fah. A cada encontro falso, eles vão descobrindo sentimentos verdadeiros. Se aproximam, tocam as mãos, comem sobremesa, observam o pôr do sol, assistem um filme e dormem na metade até que, mesmo sem entender completamente o motivo, se beijam. A construção é feita justamente para arrancar suspiros e dizer: ainda acredite no amor, mesmo que não seja perfeito assim. É necessário que mostremos de forma perfeita para que as imperfeições da realidade não sejam tudo aquilo que vemos.
Então temos estas combinações: um mundo "ideal", que serve como fuga. Não se apresenta com um roteiro impecável e complexo, mas nos encanta pela beleza e contraste com o mundo real. Enquanto as distopias exploram o pior que há no homem, aqui vemos o melhor que poderia haver, mesmo não sendo uma utopia. Essa beleza, mesmo inalcançável, serve como modelo e inspiração. Um respiro do mundo real, onde a beleza já deixou de ser importante, onde a utilidade do homem é mais importante que qualquer outra coisa.
A beleza, por sua vez, atravessa milênios como uma promessa de sentido. Desde as musas gregas até as figuras idealizadas da arte renascentista, o belo sempre foi compreendido como aquilo que eleva o olhar para além da contingência. Em Platão, especialmente no Banquete, a contemplação da beleza sensível é descrita como degrau inicial de uma ascensão ao Belo em si, quase uma pedagogia da alma. Um vislumbre do que seria a perfeição. Na tradição estética ocidental, essa ideia reaparece em Plotino, em suas Enéadas, quando afirma que a beleza desperta no espírito uma lembrança de sua origem mais alta. Mesmo quando secularizada, essa noção persiste. Em Friedrich Schiller, em Cartas sobre a educação estética do homem (1795), a experiência do belo é o que permite ao ser humano reconciliar razão e sensibilidade, disciplina e liberdade. Assim, quando uma série constrói personagens de aparência quase arquetípica, ela não apenas adorna a narrativa; convoca uma memória antiga de perfeição. O espectador reconhece ali uma forma ideal que não existe plenamente no mundo, mas que continua a orientá-lo como horizonte.
Por fim, a criação de um mundo onde o amor se realiza e as aspirações encontram alguma forma de resposta pode ser lida como contraponto àquilo que Byung-Chul Han denominou de “sociedade do cansaço”. Para o filósofo, vivemos sob o imperativo da performance e da produtividade, o que gera sujeitos exaustos e incapazes de repousar no outro. Em narrativas como Your Sky, o tempo se dilata: os encontros são lentos, os gestos são pequenos, o toque de mãos se torna acontecimento. Trata-se de uma espécie de contra-imaginação, um espaço onde o amor não é consumido rapidamente nem descartado, mas cultivado. Em termos literários, poderíamos lembrar o que Marcel Proust faz em Em busca do tempo perdido: a experiência afetiva só se torna profunda quando desacelerada, quando o instante se expande e permite a percepção do detalhe. Em No Caminho de Swann a beleza é apresentada como memória, nas longas descrições de paisagens que ficaram para sempre com o protagonista. O mundo idealizado dessas narrativas não ignora o sofrimento, mas o reorganiza. Em vez de um universo regido pela eficiência e pelo desgaste, surge um espaço onde o afeto tem tempo para se formar. Essa temporalidade alternativa funciona como resistência simbólica: uma lembrança de que o humano não se esgota na utilidade nem na pressa.
Assim, a idealização presente em narrativas como essa não precisa ser lida como ingenuidade. Ela se aproxima do que Paul Ricoeur chamaria de “imaginação produtiva”: a capacidade de projetar mundos possíveis que, embora irreais, iluminam o real por contraste. Ao apresentar relações mais delicadas, cores mais harmônicas e gestos mais atentos, a obra constrói um espelho invertido da sociedade exausta. Não para negá-la, mas para lembrar que outras formas de existência ainda podem ser pensadas, desejadas e, quem sabe, parcialmente vividas.
Por isso eu não só defendo como continuo apegado a essas obras: elas fecundam meu imaginário de um modo singelo e doce. Tornam o mundo um pouco menos agressivo, me fazem rir quando tudo mais me convida ao completo ceticismo do Bem, da Ordem e do Belo.








