terça-feira, 14 de julho de 2026

O sussurro do vento

Não sei se fiquei irritado por ciúmes ou por reconhecer, mais uma vez, o velho desenho das coisas se repetindo. O frio sopra nessa ilha com uma insistência quase pessoal. Há uma risada escondida no vento. Não é humana. Nunca foi. Hoje o frio me conhece, me abraça e, em meu ouvido, o demônio ri baixo, como quem já conhece o final da história e apenas espera que eu também descubra. 

Empurro a porta do bar e ninguém parece notar minha chegada. Talvez porque todos ali estejam ocupados demais sobrevivendo a si mesmos. A fumaça dos cigarros demora para subir. A umidade do lugar deixa tudo pesado. O piano, velho e desafinado, insiste em tocar alguma coisa de Mahler. Não sei qual peça, talvez aquele tema infantil transformado em marcha fúnebre irônica? Talvez nenhuma. Talvez seja apenas aquela gargalhada de que ele falava, escondida entre notas altas, aquela música estranha que não lamenta a tragédia, mas sorri dela, ou a que apenas registra os golpes pesados do destino até o fim.

Sem cumprimento até mesmo do cara que limpa os copos com um pouco de estopa. Apenas abrem espaço na mesa, como se já esperassem minha derrota. Peço um whisky, ou melhor, já me trazem o copo. Acho que minha cara já diz tudo, ou todos ali busquem a mesma coisa. Duplo.

"O erro", diz um homem de cabelos brancos sem sequer levantar os olhos do copo, continuando o que parece ser a conversa com a pausa mais longa já registrada entre homens, e talvez até entre macacos, "é continuar esperando que alguém retribua."

Ele gira lentamente o gelo entre os dedos. E eu reconheço, assentindo lentamente enquanto deixo o brilho dos olhos se esvair na ondulação da bebida em minhas mãos. Essa maldita sensação de achar que algo pode ser correspondido. Minha versão jovem gastou dezenas de páginas falando sobre como é impossível para duas pessoas se tocarem realmente. Estamos longe demais, separados em absoluto por um campo invisível, a nossa própria consciência, incapaz de comunicar ao outro o que somos e, portanto, incapaz de forçar o outro a nos observar. Não importa a beleza do azul do céu ou do mar, se a cor favorita de alguém é o amarelo. Olhando pela janela vejo apenas um ameaçador cinza, e umas poucas gaivotas voando, provavelmente em busca de abrigo da tempestade que se aproxima.

"Esperança sempre cobra juros altos."

Não respondo. Só bebo. O álcool queima por um instante, mas logo perde a utilidade.

"Pelo menos você ainda espera", comenta outro, olhando pela janela embaçada. "A maioria já aprendeu que ninguém busca ninguém. Cada um corre apenas atrás do próprio desejo. O outro é só um espelho conveniente."

Já há muto deixei de acreditar no amor, no sentido romântico da coisa. Acredito no amor de uma mãe pelo filho, e do filho pela mãe, pranteando um ao outro seu luto, seja na guerra ou no pacífico ciclo normal da vida. Mas no amor, como contam as histórias apaixonadas? Não.

Lá fora, um casal atravessa a rua correndo para fugir de uma pancada de chuva. Logo vai passar, mas penso comigo: bem feito!

Sempre vejo isso.

Os meninos fazem dos próprios afetos uma religião improvisada. Orbitam mulheres como pequenos planetas desesperados, convencidos de que existe um centro do universo escondido dentro de outro corpo.

E eu rio deles.

Rio porque parecem ridículos. Porque esse amor é ridículo. "Todas as cartas de amor são ridículas", alguém diz, ao canto, e eu olho e vejo que ele escreve alguma coisa. Talvez uma carta de amor ridícula. O riso macabro dessa vez é meu. Mas dura pouco.

Porque descubro que também passo meus dias girando em torno de alguma coisa. Não de uma mulher. De pessoas. Da paróquia. Da necessidade absurda de manter unida uma comunidade que parece ter escolhido a fragmentação como vocação. Engulo humilhações, reorganizo ruínas, tento salvar vínculos que talvez nunca tenham existido. Enquanto isso, minha depressão me concede energia suficiente apenas para viver pelos outros. Nunca para mim.

"Você ainda mede sua existência pelos olhos deles."

A frase vem calma, e eu não sei quem a disse. Talvez aquele homem magro sentado na ponta da mesa, o mais perto da porta.

Talvez eu mesmo.

E então sinto o cansaço que vinha ignorando até então. Um peso gigantesco sob minhas costas, de pessoas e mais pessoas querendo algo, eu querendo corresponder, melhorar e, ao mesmo tempo, sei que elas me deram isso por ser um incômodo. Mas da forma como o fazem, só se torna um incômodo pra mim também. E eu me vejo na obrigação de fazer um monte de coisas que não quero, de um jeito que não quero, que vai terminar num resultado que, desde o primeiro momento, sabia que ia dar errado.

"Esse é o desespero."

Fico olhando o copo. O gelo já derreteu e a bebida agora parece remédio.

"Não", alguém interrompe, soltando uma pequena risada pelo nariz. "Você não está com raiva deles."

Levanto os olhos e homem do bigode continua olhando para um ponto qualquer do teto.

"Você está com raiva de continuar precisando deles."

"Mentira."

Ninguém responde.

"Mentira" 

Repito mais baixo. Mas minha voz já não parece tão convencida.

Porque parece que algo me acertou com força no estômago. É verdade. E odeio que seja assim. Passam meses, passam anos, e algo bobo como ver um homem ir estupidamente atrás de uma mulher me irrita. Porque parece que ele desperdiça sua potência. Acho que toda relação entre homem e mulher é estúpida, burra. O homem não pode encontrar seu potencial ao lado de uma mulher. Apenas sozinho ou, mais raramente, com outro homem. Talvez ainda eu tenha desperdiçado com meu potencial e assim me incomode quando vejo outra pessoa fazendo isso. Por isso ri do idiota que abraça a mulher para correr na chuva.

O silêncio volta a ocupar a mesa. Só então percebo outro homem, discreto, quase apagado pela fumaça. Escreve alguma coisa num guardanapo enquanto fuma. Olhei rapidamente por cima do seu ombro.

"Todo encontro é um equívoco que dura o tempo suficiente para receber um nome."

Ele dobra o papel e o guarda no bolso como quem sabe que ninguém lhe pediria para ler.

Mais adiante, uma mulher de voz muito baixa fala quase sem mover os lábios.

"Você confunde servir com desaparecer."

Há delicadeza naquela frase. Por isso ela dói mais.

"Pensa que Deus lhe pediu as duas coisas."

Não pediu, e ainda assim eu me doei ao outro até não sobrar mais nada. Em todos os campos. Aquele que amei, quando ainda era capaz de amar, se gaba de se encontrar com uma mulher estúpida. Os idiotas da paróquia vivem recolhidos numa religião industrial, vivem como se tivessem de cumprir horário na missa, batendo ponto e fazendo o mínimo num trabalho. Entram na igreja como quem registra ponto. Cantam como quem aperta parafusos eternamente sem saber como ou porquê. Terminam a missa olhando o relógio antes mesmo da bênção. 

Ninguém tenta me consolar.

Nem eles.

Nem o vento.

Nem Mahler, cuja música continua fazendo da tristeza uma espécie de ironia cósmica.

Um homem de sobretudo permanece olhando para o copo vazio há tanto tempo que imagino ter esquecido por que entrou ali. Quando finalmente fala, parece pedir licença ao próprio silêncio.

"O absurdo talvez comece justamente quando percebemos que não existe garantia alguma de sermos lembrados."

Faz um gesto para o garçom.

"Ponha outra."

Eu não serei lembrado quando me for. Já não sou agora. Não peço pra encher o copo. minha bebida já está amarga demais. Os comprimidos dissolvidos nela têm gosto de amanhã recusado.

Lá fora, o vento continua soprando.

Alguém diz que aquela gargalhada sempre esteve ali. Mas agora já não sei se era o vento. Talvez o demônio nunca tenha rido. Talvez aquela gargalhada sempre tenha sido minha. Outro responde que ela nunca terá a última palavra. 

Talvez fosse apenas o eco da minha própria voz voltando das montanhas.

Os dois parecem igualmente convencidos.

Eu já não sei.

Só sei que, esta noite, o frio conhece meu nome melhor do que qualquer pessoa. Começo a reconhecer a peça no piano enquanto caio no sono.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Desregulando

Eu devia tentar regular o meu sono. É imperioso que eu o faça, essa é como a lição primeira do tratamento do Transtorno Bipolar: tome a medicação e tenha uma rotina organizada. Estou tomando a medicação, mas se tem algo desorganizado na minha vida, tem sido minha rotina. 

As noites vêm sendo meu único refúgio. Consigo largar o celular e me concentrar nas histórias. Tenho assistido mais de quinze séries esses dias. E os dias são um tormento, onde durmo a maior parte deles, acordo para comer, dou meia volta pela casa e corro pra cama. Outros hábitos também estão desorganizados, como às vezes comer bolo às três da madrugada ou tomar banho às cinco para ir dormir. 

Nos últimos dois dias vi o que parece ser um episódio de euforia. Senti alguns dos sinais de sempre: uma dor de cabeça incômoda, pensamentos acelerando lentamente em horários aleatórios. Consegui ir no ensaio do canto, e numa reunião de coordenadores da paróquia. Falei um monte em ambas, e isso é péssimo porque, se em alguns dias eu entrar em depressão de novo, ainda vou ter que cumprir com todas as obrigações assumidas. Vou ter que fazer todo o projeto gráfico da festa de São Francisco de Assis, no Jubileu Franciscano de 800 anos, vou ter que cantar... Até o começo da semana eu vinha adiando várias artes, foi o episódio começar e eu adiantar quase vinte projetos que estava estagnados. 

De todo modo, hoje eu acordei, até disposto. Mas dei uma volta rápida na casa, pensei que daqui a pouco as mensagens começariam a chegar. Tomei os remédios pra dormir, coloquei mais uma série e, depois do primeiro episódio, dormi e acordei por volta das 17h. Talvez amanhã aumente a dose pra ver se chego até 20h. 

É, eu definitivamente devia regular meu sono.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Borrão


Um borrão, 
é a única forma de definir os últimos dias. 

Indo dormir tarde, 
acordando no fim da manhã 
e tomando remédio pra dormir de novo 
e só acordar quando fosse noite novamente. 

A ideia de ver o mundo me assustava. 
Aterrorizava. 
Não me lembro de quase nada. 

E então passou um dia, 
e outro, 
e outro... 

E ainda estava lá. 

Fui deixando uma mensagem para depois, 
e depois, 
e depois...  

Ainda estava lá. 

O assunto havia caducado, 
e eu ainda não tinha resposta. 

Apenas abria os olhos e, 
se ainda fosse dia, 
voltava a dormir, 
ignorando o barulho ao meu redor. 

Quando o sol começava a surgir, 
depois de uma noite inteira, 
eu me isolava novamente. 

O ar do quarto foi ficando pesado, 
já cheirava mofo e suor, 
mesmo me incomodando não conseguia fazer nada. 

Meu corpo inteiro dói, 
dói muito, 
por ficar tanto tempo deitado. 

Meu cabelo está oleoso 
e a pele ressecada do frio, 
mas eu não sinto frio. 

Me olho no espelho algumas vezes, 
mas não sei o que é isso que me encara de volta. 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Um após o outro


Deitei, rolei de um lado pro outro
nada de sono.
A música baixinha, uma seleção de faixas da Kokia,
se combinava com a chuva lá fora,
mas mesmo assim não conseguia dormir.

Levantei algumas vezes,
fui ao banheiro, 
meu cabelo está bonito.
Fico com essa impressão quando lavo,
depois de alguns dias sem conseguir tomar banho.

Droga!
Falando como se eu fosse um inválido.

Decidi levantar de uma vez e ir assistir, 
afinal não consigo fazer isso durante o dia mesmo.

Não tenho conseguido fazer nada. 
Apenas passo os dias, um após o outro, esperando pela noite,
quando o silêncio me concede alguns instantes de paz. 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Alvoroço

Bastante alvoroço sendo feito sobre as sagrações episcopais que a FSSPX fez no dia de hoje, 01/07, na Suíça. Comentários exaltados, inflamados, bradando excomunhões. O Papa Leão XIV escreveu em carta um apelo em contrário, e reforçou o zelo deles pela Sagrada Tradição. O Superior da Fraternidade escreveu em resposta, implorando filial compreensão mas, ficou o dito pelo não dito e, como em 1988, as sagrações ocorreram. Não tenho o que dizer sobre isso pois, não fazendo parte da FSSPX, não fui ordenado e muito menos ordenante. Do outro lado, não tenho qualquer contato com o Santo Ofício ou os dicastérios responsáveis então, que em Roma se entendam. 

O que me chama a atenção é justamente esse número de pessoas bradando pela obediência e distribuindo excomunhões em nome da mesma. Na paróquia em que resido, nesse momento, acontece um evento chamado Cerco de Jericó, com missas no estilo da Renovação Carismática, e em todas as sete noites, os padres andam pelam igreja com o Santíssimo Sacramento enquanto as pessoas tem rompantes de emoção, choram, tocam o ostensório, e tudo ao som de Colo de Deus e tutti quanti grupo protestante. As imagens são um verdadeiro show de horrores, num espetáculo de luzes ambientado numa muralha de papelão com nomes de coisas ruins, as quais as pessoas pedem libertação, e Jesus é obrigado a participar desse teatro macabro que transformou o sacrilégio em banal. 

Sou um leigo que não consegue conduzir a pastoral que coordena. Não tenho nenhum contato com o que aconteceu na Suíça, e ainda menos com quem pode punir em Roma. Mas aqui, qualquer um que participe desse evento não tem a menor capacidade, e nem o direito, para falar com ares de julgamento sobre obediência. Sim, para usar a expressão do Santo Padre, a Fraternidade rasgou a túnica de Cristo, mas nós temos cuspido Nele. 

Portanto, me resta apenas o conselho de São Pe. Pio: reze e não se preocupe!

Pai de misericórdia, 
a quem sobem nossos louvores, 
suplicantes, vos rogamos e pedimos 
por Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor nosso, 
pela vossa Igreja santa e católica: 
concedei-lhe paz e proteção, 
unindo-a num só corpo e governando-a por toda a terra, 
em comunhão com o vosso servo o Papa Leão, 
os nossos bispos, e todos os que guardam a fé católica 
que receberam dos Apóstolos.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Um dia fechado


Não gosto muito de futebol, 
mas esse clima de Copa do Mundo não é ruim. 
Me lembro de ter torcido bastante nos últimos anos. 
Posso não gritar e pular igual a todos mas me divirto e sim, 
também torço, 
fico ansioso, 
faço parte da festa, 
de algum jeito.
Mas esse ano tá diferente. 
É uma época ruim pra um episódio depressivo. 
Hoje a família se reuniu aqui em casa. 
Eu me tranquei no quarto. 

Ninguém me viu. 

Não queria que me vissem assim: 
estou há dias sem tomar banho, 
me sinto ainda mais gordo, 
rosto inchado... 
E fiquei rolando na cama 
enquanto ouvia os gritos de comemoração, 
a ansiedade crescente em cada lance, 
os comentários técnicos sobre esse ou aquele jogador, 
e eu só via o teto fosco do meu quarto, 
a chuva caindo o dia todo lá fora. 
Fiquei com fome e queria ir ao banheiro, 
mas me obriguei a voltar a dormir.

Fui dormir de madrugada 
porque me pediram pra escrever uma nota de falecimento, 
não conhecia o senhor. 
Hoje de manhã me pediram outro anúncio 
sobre a mudança no horário de funcionamento de um lugar 
por causa do jogo, 
depois me pediram uns formulários de compras de camisetas, 
mas não sei se entendi direito. 
Talvez esteja com sono ainda, 
ou realmente ficando lerdo. 

Quero assistir a segunda temporada 
de O Último Mestre do Ar 
que já estreou há alguns dias, 
preciso terminar isso logo, 
agora os parentes foram embora. 

Resolvi fazer um café 
pra tomar enquanto terminava os tais formulários e, 
assim, estar mais disposto quando for assistir. 
Enviei pra responsável esperando respostas. 

Percebi que o café esfriou. 

Agora consigo ouvir a chuva caindo lá fora. 

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Quanta história numa folha de chá

Be my green tea in the morning,
Be my sugar honey.
You're just so great, I wonder, girl,
I wonder why you love me.
It's so lovely, can't complain.
One day I'll give you my name,
If you're down...

(Dane Amar)

Lembro que, quando mais novo, sempre detestei a palavra "chá", porque só conseguia pensar no chá de gengibre que tomava sempre que ficava resfriado. E, no clima seco de Brasília, em que a mucosa sempre ficava ressecada, isso acontecia muito, e eu detestava porque sempre descia queimando.

Depois de mais velho, recentemente mesmo, comecei a gostar de alguns chás em específico, como erva-doce e camomila porque, nas constantes crises alérgicas, eles acabam se tornando um momento quentinho, e me acalmam, já que sempre fico muito irritado nesses dias. Quando tomo junto com algum remédio pra dor, inclusive me ajudam a suportar o suficiente para continuar trabalhando, por exemplo, já que minhas crises são bem fortes e, mesmo depois de muitos anos de tratamento, não raras vezes eu preciso ir ao hospital.

Não pensava que chegaria uma época em que faria tanta questão de chás assim. Hoje tomo quase todos os dias, e nem sei bem como as coisas ficaram assim, mas eles se tornaram a minha paixão. Nunca imaginei que um hábito pudesse mudar tão silenciosamente uma rotina. Não houve um dia específico em que eu decidi gostar de chá. Foi acontecendo enquanto outras coisas deixavam de fazer sentido. Quando percebi, aqueles poucos minutos esperando a água ferver já tinham se tornado parte do cuidado que eu precisava ter comigo. Ver a água mudar de cor, os aromas tomando conta de um pequeno espaço perto de mim, o calor da caneca em minhas mãos... Comecei com os chás em saquinho, claro, antes de conhecer alguns mais elaborados e, com isso, ir criando esses momentos especiais. Hoje eles fazem parte da minha vida, em todos os horários, e possuem um significado importante pra mim. 

Como, na mesma época, comecei a tomar mais café no trabalho, especialmente no inverno, pra garantir um pouquinho mais de energia, logo uma amiga me falou do Chá-preto e Chá-verde e, pra começo de conversa, aprendi a diferença de escrever com ou sem hífen. Ambas as formas referem-se à mesma infusão feita com as folhas da Camellia sinensis. A variação ocorre unicamente por razões ortográficas e gramaticais na língua portuguesa. Escrito separadamente, trata-se de um substantivo (chá) acompanhado de um adjetivo (preto) que indica a sua cor ou tipo. É a forma ortográfica mais comum e natural no dia a dia. Chá-preto (com hífen), transforma as duas palavras em um substantivo composto, que designa especificamente o nome de uma variedade de planta e de bebida. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) registra esta versão para oficializar a designação técnica da erva. 

Talvez eu tenha gostado justamente disso. Descobrir que até uma bebida tão comum escondia pequenas histórias, regras, tradições e geografias inteiras. Cada xícara parecia abrir uma porta para algum lugar distante. Uma série recente, A Winter Sun Wakes the Wind in Spring Hills' Dream, me mostrou a beleza da preparação dessa tradição, do plantio até sua preparação. 

Voltando ao chá, passei então a variar... Um dia, ou num determinado momento, tomava uma das variações de café da máquina do trabalho, outro dia tomava chá... Aprendi a ir preparando mais forte ou mais suave e, principalmente, a ir apreciando o sabor, o aroma... Também tive outras lições, como quando preparei um chá verde forte demais e acabei com uma baita crise de ansiedade. Se tratava da erva pura, vinda diretamente da China, presente de uma amiga, e eu não sabia que seria tão forte, já que estava habituado às versões dos mercados daqui. E foi aí que eu comecei a buscar mais conhecimento, e produtos, de locais especializados. Foi curioso perceber que até o excesso podia ensinar alguma coisa. Passei a entender que chá não era apenas uma bebida quente. Existia uma delicadeza na preparação, um ritmo próprio que eu ainda precisava aprender. Alguns acabaram ficando ligados a determinadas noites, músicas e estações do ano, como se cada aroma soubesse exatamente quando deveria aparecer.

Um blend que me conquistou desde o primeiro momento foi o Xmas Eve. Chá misto de chá preto, cenoura, uva e rosa mosqueta. Ainda hoje um dos meus favoritos. Ele é puro aconchego porque combina a doçura da baunilha com o toque delicado das nozes, criando uma bebida envolvente e cheia de personalidade. A cenoura e a rosa mosqueta complementam a mistura, deixando-a com uma textura aveludada e um aroma irresistivelmente docinho. É aquele chá perfeito para momentos especiais. Cada gole traz uma sensação acolhedora, como um encontro com amigos em uma tarde fria ou um instante de paz no meio do dia. A cenoura e a rosa mosqueta dão corpo, enquanto a baunilha e as nozes garantem um sabor doce e delicado. Gosto dele sempre à noite, vendo alguma série, e fico com a caneca fumegante nas mãos mãos sentindo o aroma, como se me abraçasse, tornando aquele momento, o MEU momento. Percebi então que não era exatamente o sabor que eu guardava na memória. Era a atmosfera inteira. A caneca quente, a luz mais baixa, a série começando, o inverno lá fora. O chá acabava se tornando uma espécie de moldura para pequenas felicidades.

A experiência do chá verde me conquistou ainda mais quando experimentei uma combinação chamada Strawberry Champagne. Um misto de chá verde, chá branco, jasmim, morango e rosa mosqueta com pimenta-rosa. O doce do morango, combinado à rosa mosqueta e à pimenta-rosa, completam a textura aveludada deste chá perfeito para ser degustado nas melhores companhias. Esse é meu coringa quando preciso de uma boa dose de disposição, ao começar uma noite de maratona, por exemplo. O aroma dele é simplesmente hipnotizante, e tem o poder de me trazer de volta ao momento. É como um convite para experimentar o agora! Engraçado como alguns aromas parecem reorganizar o tempo. Existem dias em que bastam alguns segundos respirando o vapor para lembrar que nem toda noite precisa ser vencida correndo.

Depois disso vieram os chás que pareciam carregar séculos dentro das próprias folhas. Não eram apenas bebidas; Eu conheci o Puerh, uma das variações mais exclusivas desse mundo. O tão pouco conhecido chá puerh traz consigo uma grande história. Há aproximadamente 2.000 anos, de geração em geração, os agricultores da província chinesa de Yunnan (sudoeste da China) guardam zelosamente o segredo de seu cultivo, e ele só pode ser chamado de puerh se vier especificamente desta região, onde é cuidadosamente produzido. O simples ato de bebê-lo traz uma verdadeira harmonia, ao reunir as pessoas para um chá da tarde, além de transmitir paz interior. Duas combinações dele que me agradaram foram o Bourbon Vanilla e o Belgian Caramel. 

O Bourbon Vanilla é um chá precioso e sem dúvida nenhuma uma obra de arte. Seu aroma de baunilha com sabor levemente adocicado, torna-o a melhor experiência com a tradição do chá puerh. É a definição perfeita de nobreza e tradição. Já o Belgian Caramel traz um aroma ligeiramente caramelizado combinado com a ameixa, trazendo aquela sensação de estar comendo biscoitos em pleno inverno. Esses eu gosto de tomar enquanto escuto música, de preferência num ambiente com pouca luz. Essa combinação, essa atmosfera consegue me fazer esquecer por alguns momentos, seja o barulho lá de fora ou o daqui de dentro, e apenas sentir. Talvez seja justamente isso que procuro quando escrevo também. Não explicar tudo, mas construir uma atmosfera onde alguém possa permanecer por alguns minutos. Sentir os sons, o calor tomando conta, parece um mundo diferente. 

Um chá que eu desconhecia era o Rooibos e, quando experimentei, com a indicação de que era bom tomar antes de dormir, como parte de algum ritual, eu me apaixonei de imediato. O Aspalathus Linearis ou Rooibos, como é conhecido, é uma espécie de arbusto nativo de uma região na África do Sul, e por conta de sua oxidação, o resultado é mais adocicado. A versão que eu tomo contém com rooibos, groselha, abacaxi, mamão, morango e framboesa com aroma de limão e folhas de rosas. A combinação de frutas e flores nesse blend proporciona uma experiência levemente adocicada e aconchegante. Com um aroma e sabor levemente cítrico adocicado que harmoniza com a alegre composição de frutas e flores, prometendo uma experiência marcante e aconchegante para um fim de tarde. Foi quando percebi que eu já não organizava apenas a estante pelos sabores. Começava a organizar os dias. Alguns pediam energia, outros silêncio, outros apenas uma companhia discreta enquanto o mundo seguia fazendo barulho.

Com isso eu fiquei mais próximo das infusões, misturando chás, frutas, flores... Como o Berlin, um blend que combina frutas, como maçã, abacaxi, e hibisco, criando uma infusão vibrante, aromática e naturalmente adocicada, ideal para qualquer momento do dia. As bebidas mais suaves me conquistaram também. De sabor suave e marcante e um aroma que prende a atenção, o Toronto Nights se tornou o meu queridinho do chá branco. O sabor invernal combina perfeitamente com a suavidade da rosa mosqueta e o aroma cítrico da laranja e do capim-limão, se tornando a escolha ideal para aquecer os dias mais frios.

O segundo blend de chá branco foi um mais complexo:chá branco, papaia, maçã, amora e jasmim com aroma de melão, framboesa, baunilha, ameixa e flores de calêndula. A experiência sensorial é única.

Hoje percebo que quase todos os meus blends favoritos têm alguma lembrança presa a eles. Nenhum ganhou espaço apenas pelo sabor. Todos acabaram encontrando um lugar numa estação do ano, numa música, numa conversa ou num daqueles dias em que simplesmente era preciso existir um pouco mais devagar.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Noite ilustrada

Noite de tristeza fabricada. Ou acompanhada. Ou ilustrada. Na ausência do outro, do seu calor no primeiro dia do inverno, fico com o amor e o carinho das histórias de amor do outro lado do mundo. Quando, ao chegar a primavera, as flores finalmente voltaram a abrir-se ao amor depois de tantos anos. A separação do longo inverno deu lugar ao calor e às cores de um novo tempo.

Existe uma honestidade confortável nas histórias. Elas não prometem responder mensagens. Não cancelam encontros. Não desaparecem depois de alguns meses dizendo que precisam "se encontrar". Terminam quando o roteirista decide e, por mais cruel que seja o final, ao menos tiveram a decência de avisar que era ficção. Nem sempre avisam.

Fico feliz com algumas notícias, por exemplo: os atores TeeTee e Por acabaram de anunciar que o nome do seu fandom será VAVA, que significa "estrelas", já que a gente costuma associá-los com as imagens do sol e da lua, então nós ajudaríamos a compor o céu dessa história. Sim, isso me fez feliz. Assim como ficar revendo as apresentações do Perses, com o Pluggy rebolando pro Palm e o Jung. Ou ainda tantos outros exemplos, como o conteúdo dos dois novos ships TopTapMin, de Payback, e InnOngsa, de Edge of Horizon. A beleza deles me faz flutuar.

Talvez seja uma felicidade ridícula. Mas as melhores costumam ser. Enquanto isso, o mundo adulto continua produzindo planilhas, boletos, reuniões e relacionamentos que terminam por mensagens compostas com a criatividade de um aviso de vencimento bancário.

Fugaz, eu sei, mas é infinitamente melhor que as pessoas que me mandam mensagem: "pode nos ajudar?" ou áudios de mais de um minuto que eu nem sei se vou ouvir. Dormi ontem o dia todo e hoje deve ser igual. Aproveitar o frescor dos primeiros dias do inverno. Dormir. Acordar mais tarde, hoje tem o último episódio de Magic Move, a história foi média mas os protagonistas são lindos, valeu, vou acordar pra isso e nada mais.

Há quem acorde cedo para perseguir grandes sonhos. Eu acordo para assistir homens bonitos se apaixonando em idiomas que mal compreendo. E, sinceramente, nada vai me convencer de que a primeira opção seja mais sensata.

Fiquei feliz ao ver um antigo colega se assumir. Temos a mesma idade, mas só agora ele conseguiu dizer isso em voz alta, e as palavras embargadas pelo choro me mostram o quanto deve ter sido difícil para ele. O medo da rejeição, as pessoas que se distanciaram. Mas, ao mesmo tempo, suas palavras continham um suspiro de alívio. A figura dele naquele vídeo era mais leve, ele estava se livrando de amarras. Fiquei feliz.

Algumas pessoas passam metade da vida tentando sair de uma prisão construída por expectativas alheias. Quando finalmente escapam, descobrem que o mundo continua sendo o mundo. Mas ao menos a cela ficou para trás.

Imagino como deve ter sido o processo de aceitação dele. Quem finalmente o conquistou e lhe deu a segurança para fazer o que ele fez... É, ele foi corajoso, e espero que possa amar, que ainda exista amor para ele.

Talvez ainda exista mesmo. O amor tem um hábito irritante de reaparecer onde jurávamos ter visto apenas ruínas. Como ervas daninhas brotando entre rachaduras de concreto. Uma insistência quase ofensiva. Irritante. Já faz algum tempo que não bebo, porque não interage bem com as medicações (ignore o fato de eu ser viciado em tomar quatro vezes mais remédio do que foi prescrito), mas acho que hoje seria uma boa noite pra um porre daqueles.

Aqui eu, por outro lado, demonstro sinais claros do cansaço e da descrença total no amor. Meus olhos não brilham com nenhuma emoção, apenas aquelas fabricadas, assistidas. Não tenho tempo nem paciência para joguinhos de desinteresse ou, o que é ainda mais provável, desinteresse mesmo. As mensagens não respondidas são isso mesmo.

Não existe mistério escondido atrás delas. Nenhum romance epistolar interrompido pelo destino. Nenhuma paixão secreta esperando o momento certo. Às vezes uma mensagem não respondida é apenas uma mensagem não respondida. A humanidade adora transformar silêncio em narrativa porque a alternativa é admitir que quase ninguém está pensando em nós tanto quanto imaginamos.

E talvez seja isso que o inverno ensine melhor do que qualquer estação: as árvores não fingem flores quando não possuem flores. Permanecem nuas. Esperam. Sem discursos motivacionais. Sem promessas. Apenas atravessam o frio.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Refúgio entre folhas de chá

Um lugar distante. Uma bela cadeia de montanhas em alguma região da China. Não importa onde.  Na verdade, é ainda melhor. Nem mesmo eu sei onde estou, talvez não me encontrem também. 

Fiquei enjoado algumas vezes no caminho, especialmente nas estradas de curvas perigosamente sinuosas. Me peguei pensando do motivo de não conseguirem fazer estradas retas, e imagino que, se a única opção foram as curvas mortais, bem, deve ser um bom motivo. Mas, aos poucos, a paisagem foi calando até meu pensamento, Conforme fui abrindo as janelas e não mais sentindo o nariz arder pela poeira, mas sentindo um cheiro novo, que ainda não reconhecia, fui me deixando levar. Não parecia ter chovido mas ainda assim as montanhas estavam cobertas de uma vegetação densa e de incontáveis tons de verde de um sem número de plantas que eu jamais saberia o nome, mas uma coisa ela ostentava em uníssono: o seu brilho. É como se eu, de repente, entrasse numa caverna onde cada centímetro das paredes e do chão estão incrustados de jades brilhantes. Fiquei sem conseguir dizer nada no primeiro dia e noite aqui, e meu anfitrião pode ter pensado que eu sou um tanto arrogante, ou obtuso, ou ainda os dois. 

Precisava absorver.

A casa tinha 3 andares, e combinava madeira e alvenaria, em tijolos cor de terracota aparentes. Até os móveis eram de madeira, alguns rústicos, como um tronco cortado ao meio e usado como aparador, e outros mais elaborados. E tudo ainda tinha aquele cheiro, que eu ainda não entendia direito, e que agora se misturava com o da comida sendo preparada lá embaixo.

Claro, não preciso dizer que vim fugir, me esconder. Tentar cortar relações com qualquer coisa além daquelas montanhas.  Mas não deu certo. Porque as cicatrizes, o que dói, o que ainda está aberto, tudo isso veio comigo.

Há uma comunidade produtora de chá aqui, e finalmente pude ver como é, da colheita até a torra. Que experiência deliciosa, o aroma das folhas aquecidas preenchendo o ar de perfume. Provei um Puerh maduro único, certamente vendido a preço de ouro. Vale cada centavo. O fogo era aceso por trás de grandes estruturas de barro com um grande tacho encaixado. Não era uma grande fogueira, cada uma delas tinha alguns galhos mais ou menos finos de lenha, de modo que as pessoas ainda conseguiam mexer nos tachos usando luvas mas sem se incomodar demasiado com o calor. 

Não é como se aquele lugar estivesse parado ou separado do tempo. Não, mas tudo seguia um ritmo, não exatamente lento, mas que fazia sentido! As folhas precisam de tempo, a colheita em cada fase produz um chá de sabor diferente. Nos primeiros dias, quando me mostraram, com vários copinhos na minha frente, eu não entendi direito. Claro, percebi que alguns eram mais ácidos e outros de sabor tão suave que eu nem sentia. Algumas folhas esperavam mais tempo, outras eram colhidas e torradas imediatamente, o ritmo da torra precisa ser constante, nem rápido demais e nem lento demais, ou cansaria sem necessidade ou acabaria queimando e passando do ponto ideal. Eles sabiam reconhecer isso pelo aroma e pela textura das folhas passando entre os dedos.

Percebi o quanto essas pessoas vivem ao redor desse cultivo. Mas lembrei do cheiro mofado de um quarto sujo. Ao mexerem nas folhas durante a torra, elas liberam o aroma do chá, ao revirar o que há em mim exala-se apenas o odor putrefato de um corpo deixado para se desfazer.

Ando caminhando por aí, observando longos aglomerados de bambu. Durante a noite as pessoas catavam larvas que vivem no interior dos bambus e as fritam. Me pareceu estranho mas o sabor era ótimo. Cogumelos crescendo ao redor das árvores, os quais ficam uma delícia fritos ou cozidos em sopa. O lugar parece saído de um conto de fadas, ou eu é que nunca saí o bastante pra conhecer outros mundos assim. Parei numa ponte de madeira outro dia, observando um penhasco verde lá embaixo. O trabalho da ponte deveria ser considerado obra de artista. Ligava a área do cultivo a uma parte mais selvagem do lugar, onde caçam ou coletavam coisas (como as larvas nos bambus). Claro que fiquei um bom tempo ali, com um pouco de medo da altura, mas impressionado com aquele oceano verde na minha frente em diversos formatos e em composição com o céu de um azul límpido, claro, e a brisa que, mais uma vez, me fazia carinho. 

Em nada, absolutamente nada, isso lembrava a cidade caótica, onde as pessoas vêm e vão o tempo todo, trombando umas nas outras, mas sem nunca perceber quem são as que estão ao seu lado. Claro que eu poderia me perder aqui, mas quem disse que por saber andar na cidade eu estou menos perdido? Quantas vezes eu andei por aí, ouvindo aquela correria, o barulho dos carros, crianças passando, adolescentes fazendo bagunça, e eu sem conseguir falar com ninguém? Ou quando saia com amigos, mesa cheia, risadas, comentários, e eu ainda me sentindo sozinho, mesmo quando falava? Ainda me sentia perdido. Olhava ao redor e sabia que aquelas pessoas, no outro dia, ou na próxima semana, sairiam sem mim, se cansariam, ou trocariam mensagens, enquanto eu ficava só em pequenas respostas educadas, protocolares. Isso não é estar, ainda mais, perdido?

Durante a época da colheita do chá, a pequenina aldeia não dorme. Todos se revezam entre colher, separar, torrar e enrolar o chá. Um rapaz bonito e moreno mexia com naturalidade, enquanto algumas poucas gotas de suor surgiam nos seus braços. Me ofereci para ajudar e ele me ensinou a mexer, usando uma luva grossa e sentindo o perfume subir, enquanto eu mesmo revirava as folhas. O sol quente junto com a umidade de toda essa mata ao redor gruda na pele, destrói qualquer sinal de perfume e substitui pelo próprio cheiro. Mas a brisa que constantemente dança com o perfume do chá e o frescor da mata é recompensa generosa. 

É algo a sonhar. Porque na realidade, de volta ao meu quarto, o sol queima de forma ingrata. Acordo com um calor parado, como se eu tivesse esquecido de respirar. O lençol úmido do meu suor, e eu penso se terei coragem de lavar ainda hoje, Mesmo com a cortina fechada, a luz do sol ainda teima em passar pelas laterais. Não tenho dinheiro para comprar cortinas maiores. Nem para pintar as paredes que, com a umidade e o calor exalam um cheiro forte de mofo, de algo esquecido há muito tempo ali, e eu não sei se o quarto foi esquecido ou eu mesmo. O cheiro incomoda meu nariz, acho que vou começar a espirrar de novo.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Confissão e continuação

Sei que tentei enfeitar demais. Como se as palavras pudessem pintar com belas cores, as dores daqueles cem amores, que eu via partir sem mim. Na verdade me sentia sozinho, sim, sem enfeites, sozinho. E via as fotos das pessoas sorrindo juntas, e então lembrava do meu corpo pesado demais pra se mover, uma semana inteira deitado, carne ferida, deprimido demais para me mexer. E sabia que a culpa não era exatamente a palavra certa aqui.

Isso porque há aquele primeiro ímpeto: o de jogar a culpa no outro. O outro me deixou, me abandonou, me esqueceu. Mas, na verdade, não foi bem assim. Eu escolhi não ir, mesmo se não estivesse em meio a um episódio depressivo não iria. Então não teve culpado aqui, apenas uma confluência de eventos. Fui à missa e depois voltei pra casa, com uma chuva gelada em mim enquanto observava as casas com luzes apagadas, as pessoas aqui dormem cedo, trabalham cedo. Sem enfeites: eu estava sozinho.

As pessoas aqui dormem cedo.
As luzes apagam uma após a outra.
Os despertadores tocarão antes do amanhecer.
Há uma disciplina silenciosa nas casas vizinhas.
Enquanto isso, continuo acordado.
Meu corpo desconhece os horários do mundo.

A cidade recolhia suas xícaras, apagava suas televisões, beijava os filhos na testa.
Eu media a madrugada em comprimidos e insônia.

Também voltei à psiquiatra, mas ajustes de medicação sempre demoram. Tenho tentado não sentir culpa com isso também. Li em alguma rede social que, se algum atleta machuca o joelho, ninguém questiona o longo período de recuperação que ele tem até voltar, isso se voltar a ser como antes. Mas, em se tratando da saúde mental, é esperado que alguns dias sejam suficiente. Mas olhe só, fiquei quatro meses afastado, depois me demiti, e isso já faz um ano. 

Quatro meses é tempo suficiente para uma criança aprender a sustentar a própria cabeça.
Quatro meses é tempo suficiente para as estações mudarem de roupa.
Quatro meses não foram suficientes para que eu aprendesse a habitar meu próprio corpo novamente.

Um ano.
As pessoas dizem "um ano" com a mesma facilidade com que dizem "bom dia".
Um ano.
Doze meses.
Cinquenta e duas semanas.
Trezentas e sessenta e cinco manhãs tentando descobrir qual versão de mim acordaria naquele dia.

Mas eu não voltei ao normal. Me chamaram para ajudar na abertura de uma exposição, e isso provavelmente me renderia um emprego: não consegui sair da cama por dias. Sem enfeites: eu não saí da cama.

Não sei se voltarei a ser como antes. Até porque foi o antes que me deixou como estou agora. Foi o fluxo exagerado de trabalho que não era meu, tudo que aceitei sem precisar, cobrindo a função de várias pessoas ao invés de só dizer que não podia fazer isso. Se antes eu não conseguia negar por medo, agora nego por falta de saúde. Sem enfeites: tive medo. 

Vou entoando, quase ao modo de salmodia: 

Não sei se quero voltar ao que era antes.
Foi o antes que me trouxe até aqui.

Dizem para voltar ao normal.
Mas foi o normal que me adoeceu.

Talvez a cura não seja retorno.
Talvez seja deserção.

Não quero voltar a ser quem ignorava o próprio cansaço.
Não quero voltar a ser amado apenas pela minha utilidade.

Não quero voltar a chamar de força aquilo que era abandono de mim mesmo.

Então talvez não tenha um antes para voltar, mas algo a ser construído a partir daquilo que ficou. Como canta Oswaldo Montenegro "onde você ainda se reconhece, na foto passada ou no espelho de agora?" Durante muito tempo procurei a resposta. Hoje suspeito que ela habite justamente o intervalo entre os dois. Nem a fotografia de quem eu fui. Nem o espelho de quem me tornei. Mas a mão trêmula que tenta aproximá-los sem saber qual deles deve sobreviver.

Então as coisas estão assim. Não me aproximo muito do outro, porque acabo me isolando, quando tento, preciso enfrentar um monte de coisa dentro de mim antes de falar a primeira palavra... E vejo-o sorrindo, sorrindo, e queria sorrir com ele... Sair da cama e sorrir um pouco.

Queria sair da cama.
Abrir a janela.
Fazer café.
Responder uma mensagem sem ensaiá-la por horas.
Caminhar até a Missa sem sentir que atravesso um deserto.
Sorrir um pouco.
Só isso.


Há épocas da vida em que sobreviver deixa de ser uma abstração heroica e passa a significar tarefas humildes.

Escovar os dentes.
Trocar os lençóis.
Permanecer.

Sei que tentei enfeitar demais.
Talvez porque a beleza seja uma forma de pedir desculpas pela própria tristeza.
Mas a verdade é mais simples.
Tenho medo.
Estou cansado.

Ainda não voltei.
Talvez nunca volte.

E, mesmo assim, nesta madrugada em que as casas ao redor já apagaram suas luzes, escrevo.
Não para provar a força que não tenho.
Não para transformar dor em lição.

Escrevo porque esta página é uma das poucas coisas que consegui alcançar hoje.
E, por enquanto, isso precisa bastar.

"Se pudesse desejar algo para mim, não desejaria riqueza nem poder, mas a paixão da possibilidade; desejaria apenas um olho que, eternamente jovem, ardesse de desejo de ver a possibilidade."  (Kierkegaard)