quarta-feira, 17 de junho de 2026

Refúgio entre folhas de chá

Um lugar distante. Uma bela cadeia de montanhas em alguma região da China. Não importa onde.  Na verdade, é ainda melhor. Nem mesmo eu sei onde estou, talvez não me encontrem também. 

Fiquei enjoado algumas vezes no caminho, especialmente nas estradas de curvas perigosamente sinuosas. Me peguei pensando do motivo de não conseguirem fazer estradas retas, e imagino que, se a única opção foram as curvas mortais, bem, deve ser um bom motivo. Mas, aos poucos, a paisagem foi calando até meu pensamento, Conforme fui abrindo as janelas e não mais sentindo o nariz arder pela poeira, mas sentindo um cheiro novo, que ainda não reconhecia, fui me deixando levar. Não parecia ter chovido mas ainda assim as montanhas estavam cobertas de uma vegetação densa e de incontáveis tons de verde de um sem número de plantas que eu jamais saberia o nome, mas uma coisa ela ostentava em uníssono: o seu brilho. É como se eu, de repente, entrasse numa caverna onde cada centímetro das paredes e do chão estão incrustados de jades brilhantes. Fiquei sem conseguir dizer nada no primeiro dia e noite aqui, e meu anfitrião pode ter pensado que eu sou um tanto arrogante, ou obtuso, ou ainda os dois. 

Precisava absorver.

A casa tinha 3 andares, e combinava madeira e alvenaria, em tijolos cor de terracota aparentes. Até os móveis eram de madeira, alguns rústicos, como um tronco cortado ao meio e usado como aparador, e outros mais elaborados. E tudo ainda tinha aquele cheiro, que eu ainda não entendia direito, e que agora se misturava com o da comida sendo preparada lá embaixo.

Claro, não preciso dizer que vim fugir, me esconder. Tentar cortar relações com qualquer coisa além daquelas montanhas.  Mas não deu certo. Porque as cicatrizes, o que dói, o que ainda está aberto, tudo isso veio comigo.

Há uma comunidade produtora de chá aqui, e finalmente pude ver como é, da colheita até a torra. Que experiência deliciosa, o aroma das folhas aquecidas preenchendo o ar de perfume. Provei um Puerh maduro único, certamente vendido a preço de ouro. Vale cada centavo. O fogo era aceso por trás de grandes estruturas de barro com um grande tacho encaixado. Não era uma grande fogueira, cada uma delas tinha alguns galhos mais ou menos finos de lenha, de modo que as pessoas ainda conseguiam mexer nos tachos usando luvas mas sem se incomodar demasiado com o calor. 

Não é como se aquele lugar estivesse parado ou separado do tempo. Não, mas tudo seguia um ritmo, não exatamente lento, mas que fazia sentido! As folhas precisam de tempo, a colheita em cada fase produz um chá de sabor diferente. Nos primeiros dias, quando me mostraram, com vários copinhos na minha frente, eu não entendi direito. Claro, percebi que alguns eram mais ácidos e outros de sabor tão suave que eu nem sentia. Algumas folhas esperavam mais tempo, outras eram colhidas e torradas imediatamente, o ritmo da torra precisa ser constante, nem rápido demais e nem lento demais, ou cansaria sem necessidade ou acabaria queimando e passando do ponto ideal. Eles sabiam reconhecer isso pelo aroma e pela textura das folhas passando entre os dedos.

Percebi o quanto essas pessoas vivem ao redor desse cultivo. Mas lembrei do cheiro mofado de um quarto sujo. Ao mexerem nas folhas durante a torra, elas liberam o aroma do chá, ao revirar o que há em mim exala-se apenas o odor putrefato de um corpo deixado para se desfazer.

Ando caminhando por aí, observando longos aglomerados de bambu. Durante a noite as pessoas catavam larvas que vivem no interior dos bambus e as fritam. Me pareceu estranho mas o sabor era ótimo. Cogumelos crescendo ao redor das árvores, os quais ficam uma delícia fritos ou cozidos em sopa. O lugar parece saído de um conto de fadas, ou eu é que nunca saí o bastante pra conhecer outros mundos assim. Parei numa ponte de madeira outro dia, observando um penhasco verde lá embaixo. O trabalho da ponte deveria ser considerado obra de artista. Ligava a área do cultivo a uma parte mais selvagem do lugar, onde caçam ou coletavam coisas (como as larvas nos bambus). Claro que fiquei um bom tempo ali, com um pouco de medo da altura, mas impressionado com aquele oceano verde na minha frente em diversos formatos e em composição com o céu de um azul límpido, claro, e a brisa que, mais uma vez, me fazia carinho. 

Em nada, absolutamente nada, isso lembrava a cidade caótica, onde as pessoas vêm e vão o tempo todo, trombando umas nas outras, mas sem nunca perceber quem são as que estão ao seu lado. Claro que eu poderia me perder aqui, mas quem disse que por saber andar na cidade eu estou menos perdido? Quantas vezes eu andei por aí, ouvindo aquela correria, o barulho dos carros, crianças passando, adolescentes fazendo bagunça, e eu sem conseguir falar com ninguém? Ou quando saia com amigos, mesa cheia, risadas, comentários, e eu ainda me sentindo sozinho, mesmo quando falava? Ainda me sentia perdido. Olhava ao redor e sabia que aquelas pessoas, no outro dia, ou na próxima semana, sairiam sem mim, se cansariam, ou trocariam mensagens, enquanto eu ficava só em pequenas respostas educadas, protocolares. Isso não é estar, ainda mais, perdido?

Durante a época da colheita do chá, a pequenina aldeia não dorme. Todos se revezam entre colher, separar, torrar e enrolar o chá. Um rapaz bonito e moreno mexia com naturalidade, enquanto algumas poucas gotas de suor surgiam nos seus braços. Me ofereci para ajudar e ele me ensinou a mexer, usando uma luva grossa e sentindo o perfume subir, enquanto eu mesmo revirava as folhas. O sol quente junto com a umidade de toda essa mata ao redor gruda na pele, destrói qualquer sinal de perfume e substitui pelo próprio cheiro. Mas a brisa que constantemente dança com o perfume do chá e o frescor da mata é recompensa generosa. 

É algo a sonhar. Porque na realidade, de volta ao meu quarto, o sol queima de forma ingrata. Acordo com um calor parado, como se eu tivesse esquecido de respirar. O lençol úmido do meu suor, e eu penso se terei coragem de lavar ainda hoje, Mesmo com a cortina fechada, a luz do sol ainda teima em passar pelas laterais. Não tenho dinheiro para comprar cortinas maiores. Nem para pintar as paredes que, com a umidade e o calor exalam um cheiro forte de mofo, de algo esquecido há muito tempo ali, e eu não sei se o quarto foi esquecido ou eu mesmo. O cheiro incomoda meu nariz, acho que vou começar a espirrar de novo.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Confissão e continuação

Sei que tentei enfeitar demais. Como se as palavras pudessem pintar com belas cores, as dores daqueles cem amores, que eu via partir sem mim. Na verdade me sentia sozinho, sim, sem enfeites, sozinho. E via as fotos das pessoas sorrindo juntas, e então lembrava do meu corpo pesado demais pra se mover, uma semana inteira deitado, carne ferida, deprimido demais para me mexer. E sabia que a culpa não era exatamente a palavra certa aqui.

Isso porque há aquele primeiro ímpeto: o de jogar a culpa no outro. O outro me deixou, me abandonou, me esqueceu. Mas, na verdade, não foi bem assim. Eu escolhi não ir, mesmo se não estivesse em meio a um episódio depressivo não iria. Então não teve culpado aqui, apenas uma confluência de eventos. Fui à missa e depois voltei pra casa, com uma chuva gelada em mim enquanto observava as casas com luzes apagadas, as pessoas aqui dormem cedo, trabalham cedo. Sem enfeites: eu estava sozinho.

As pessoas aqui dormem cedo.
As luzes apagam uma após a outra.
Os despertadores tocarão antes do amanhecer.
Há uma disciplina silenciosa nas casas vizinhas.
Enquanto isso, continuo acordado.
Meu corpo desconhece os horários do mundo.

A cidade recolhia suas xícaras, apagava suas televisões, beijava os filhos na testa.
Eu media a madrugada em comprimidos e insônia.

Também voltei à psiquiatra, mas ajustes de medicação sempre demoram. Tenho tentado não sentir culpa com isso também. Li em alguma rede social que, se algum atleta machuca o joelho, ninguém questiona o longo período de recuperação que ele tem até voltar, isso se voltar a ser como antes. Mas, em se tratando da saúde mental, é esperado que alguns dias sejam suficiente. Mas olhe só, fiquei quatro meses afastado, depois me demiti, e isso já faz um ano. 

Quatro meses é tempo suficiente para uma criança aprender a sustentar a própria cabeça.
Quatro meses é tempo suficiente para as estações mudarem de roupa.
Quatro meses não foram suficientes para que eu aprendesse a habitar meu próprio corpo novamente.

Um ano.
As pessoas dizem "um ano" com a mesma facilidade com que dizem "bom dia".
Um ano.
Doze meses.
Cinquenta e duas semanas.
Trezentas e sessenta e cinco manhãs tentando descobrir qual versão de mim acordaria naquele dia.

Mas eu não voltei ao normal. Me chamaram para ajudar na abertura de uma exposição, e isso provavelmente me renderia um emprego: não consegui sair da cama por dias. Sem enfeites: eu não saí da cama.

Não sei se voltarei a ser como antes. Até porque foi o antes que me deixou como estou agora. Foi o fluxo exagerado de trabalho que não era meu, tudo que aceitei sem precisar, cobrindo a função de várias pessoas ao invés de só dizer que não podia fazer isso. Se antes eu não conseguia negar por medo, agora nego por falta de saúde. Sem enfeites: tive medo. 

Vou entoando, quase ao modo de salmodia: 

Não sei se quero voltar ao que era antes.
Foi o antes que me trouxe até aqui.

Dizem para voltar ao normal.
Mas foi o normal que me adoeceu.

Talvez a cura não seja retorno.
Talvez seja deserção.

Não quero voltar a ser quem ignorava o próprio cansaço.
Não quero voltar a ser amado apenas pela minha utilidade.

Não quero voltar a chamar de força aquilo que era abandono de mim mesmo.

Então talvez não tenha um antes para voltar, mas algo a ser construído a partir daquilo que ficou. Como canta Oswaldo Montenegro "onde você ainda se reconhece, na foto passada ou no espelho de agora?" Durante muito tempo procurei a resposta. Hoje suspeito que ela habite justamente o intervalo entre os dois. Nem a fotografia de quem eu fui. Nem o espelho de quem me tornei. Mas a mão trêmula que tenta aproximá-los sem saber qual deles deve sobreviver.

Então as coisas estão assim. Não me aproximo muito do outro, porque acabo me isolando, quando tento, preciso enfrentar um monte de coisa dentro de mim antes de falar a primeira palavra... E vejo-o sorrindo, sorrindo, e queria sorrir com ele... Sair da cama e sorrir um pouco.

Queria sair da cama.
Abrir a janela.
Fazer café.
Responder uma mensagem sem ensaiá-la por horas.
Caminhar até a Missa sem sentir que atravesso um deserto.
Sorrir um pouco.
Só isso.


Há épocas da vida em que sobreviver deixa de ser uma abstração heroica e passa a significar tarefas humildes.

Escovar os dentes.
Trocar os lençóis.
Permanecer.

Sei que tentei enfeitar demais.
Talvez porque a beleza seja uma forma de pedir desculpas pela própria tristeza.
Mas a verdade é mais simples.
Tenho medo.
Estou cansado.

Ainda não voltei.
Talvez nunca volte.

E, mesmo assim, nesta madrugada em que as casas ao redor já apagaram suas luzes, escrevo.
Não para provar a força que não tenho.
Não para transformar dor em lição.

Escrevo porque esta página é uma das poucas coisas que consegui alcançar hoje.
E, por enquanto, isso precisa bastar.

"Se pudesse desejar algo para mim, não desejaria riqueza nem poder, mas a paixão da possibilidade; desejaria apenas um olho que, eternamente jovem, ardesse de desejo de ver a possibilidade."  (Kierkegaard)

domingo, 14 de junho de 2026

Uma janela acesa


Cantem sobre o homem que venceu exércitos.
Não os de ferro.
Os de segunda-feira.
Cantem sobre o homem que enfrentou monstros.
Não dragões.
Boletos.
Hospitais.
Quartos mofados.
O silêncio após o abandono.
Cantem sobre o homem que perdeu tudo.
E compareceu ao trabalho na manhã seguinte.

Um homem se ergue. Você escolhe o cenário. Seja um campo de guerra sangrento, com todos os seus companheiros mortos ao seu lado, membros decepados por espadas, flechas e lanças e então, ao olhar ao redor, vê que apenas seu inimigo permanece de pé. E o homem se ergue, em seus olhos a dor. Ele avança. 

Ou, num maldito dia qualquer um jovem abre os olhos, e fita as paredes mofadas com tinta descascando do pequeno quarto que ele aluga com o que sobra do dinheiro que ele ganha em vários empregos horríveis. Todo o resto vai para o pagamento do seu chefe, um agiota desprezível, mas que lhe emprestou o dinheiro para o tratamento de câncer da mãe. Ela não resistiu. E o homem se ergue, em seus olhos a dor.

Sequer ficou sabendo que seu outro filho morrera pouco tempo antes, mas ela já nem conseguia externalizar estranheza. A doença a destruiu a tal ponto que tudo que ela sentia eram pequenos estímulos, e já não se pode dizer que conseguia interpretá-los. Também não sentia dor mas, cada vez que olhava nos olhos do filho mais velho, via apenas isso, dor. E o homem se ergue, em seus olhos a dor. O rapaz voltava para casa e via apartamentos iluminados. Atrás de cada janela, uma vida inacessível. Não sei por que escrevo isto.

Estava sozinha no mundo, isolada pela doença. Seu filho? Isolado pela dor. Sem tempo para nada além de uma vida de trabalho, e ele só se obrigava a sobreviver porque sabia que esse era o desejo de sua mãe. Aquela criatura frágil, ligada a esse mundo por um fiapo invisível de vida, o obrigava a se levantar de madrugada, carregar incontáveis caixas, fazer entregas para pessoas que sequer o olhavam como humano, não o reconheciam. E, a cada manhã, o homem se ergue, em seus olhos a dor. 

Sua mãe morria. E, do lado de fora, o vendedor de frutas negociava maçãs. Alguém chegava em casa com um bolo para comemorar o aniversário da filha. Eram cinco da tarde quando ligaram para que ele fosse ao hospital uma última vez. Alguns momentos antes diziam em tom monótono: hora da morte... Ele nunca prestou atenção aos número exatos.

Fazia vários outros trabalhos: restaurante de macarrão, cobrava dívidas, limpava banheiros.  Lavava pratos como quem recolhe escudos partidos. Cobrava dívidas como quem conta cadáveres. Esfregava banheiros enquanto o ácido lhe devorava as unhas. E voltava pra casa suado e sujo, exausto demais para um banho sequer. E, na outra manhã, o homem se ergue, em seus olhos a dor. Não sei por que escrevo isto. Talvez porque alguém precise registrar que ele existiu. Enquanto lavava pratos, as janelas dos prédios se apagavam uma a uma. 

Em algum momento ele encontrou um namorado. Um rapaz delicado, sonhador, de aparência angelical, e que viu nele não uma sombra de ser humano, mas um companheiro fiel. Ficaram juntos por um bom tempo. Com ele, conseguia sorrir, e até diminuiu um pouco a carga de trabalho para poder aproveitar mais de sua companhia. Mas ele também não ficou muito tempo. Alguém com aquela aparência logo perceberia que merece mais da vida. O rapaz possuía a beleza imprudente das coisas que acreditam no amanhã. Ao lado dele, o jovem sem nome reaprendeu a rir sem pedir desculpas. Mas quem nasceu olhando para o horizonte dificilmente aprende a amar quem vive soterrado. E, numa manhã qualquer, restou apenas a marca do outro travesseiro sobre o lençol. Ainda assim, na outra manhã, o homem se ergue, em seus olhos a dor. 

O amante partiu. O ônibus das seis passou exatamente no horário aquele dia. Também eu conheci manhãs semelhantes. Às cinco da tarde daquele dia,  quando o amante já não estava ali, aquele quarto pareceu de novo velho, mofado e descascado. Perdeu o sono. Levantou-se de novo às cinco da manhã. Observou uma única janela acesa do outro lado da rua. Perguntou-se quem já havia acordado. Agora também são cinco da manhã. Esta também é apenas uma janela acesa. 

O nosso jovem sem nome se fechou ainda mais. Vivia num silêncio profundo, esqueceu o som de sua própria voz. E ninguém sequer o olhava por tempo o bastante para perceber que o silêncio era apenas a superfície de um oceano de águas violentas: como alguém que descansa sozinho num campo de batalha ensanguentado, sem saber se haverá terra para onde retornar. Escrevo enquanto a madrugada avança e os vizinhos dormem.

Não há testemunhas além desta página.

Ninguém percebe.

Ninguém percebia.
Ninguém percebia que aquele rapaz havia sobrevivido à própria biografia.
Que enterrara o irmão.
Que assistira a mãe desaparecer antes da morte.
Que negociara com agiotas.
Que vendera os próprios dias por salários insuficientes.
Que amara.
Que perdera.
Ninguém percebia.
Porque continuava.
Porque entregava trocos corretos.
Porque baixava os olhos.
Porque chegava no horário.
Porque não chorava no ônibus. Nem em outro lugar.
Porque o mundo exige dos sobreviventes a delicadeza de não perturbarem a paisagem.
E o homem se ergue.
E veste a própria pele.
E lava o próprio rosto.
E engole o gosto metálico da madrugada.
E o homem se ergue.
Não porque a esperança o visite.
Não porque a vida tenha melhorado.
Não porque exista recompensa.
Ergue-se porque ainda respira.
E respirar, mesmo quando até o ar parece querer sua morte, 
é a forma mais feroz de resistência.

Enquanto escrevo estas linhas, alguém ri num bar.
Alguém beija ou fode pela primeira vez.
Alguém escolhe a cor das cortinas da casa nova.
O mundo prossegue com sua espantosa falta de cerimônia.

A cidade adormeceu há horas.
Há roupas esquecidas nos varais.
Há copos por lavar nas pias.
Há crianças sonhando.
Há amantes respirando no mesmo ritmo.
Há viúvos despertos diante da televisão acesa.
Há quem reze.
Há quem amaldiçoe.
E eu escrevo.

A Linguagem Corrompida do Amor

Quantos sentimentos brutalmente conflitantes podem caber num relacionamento? Ou melhor, como podemos chamar um relacionamento tão repleto de dores, conflitos, encontros e desencontros?

Há amores que cabem em palavras simples: afeto, desejo, companhia. Outros exigem vocabulários inteiros e, ainda assim, permanecem indecifráveis. Talvez porque alguns sentimentos nasçam já contaminados pela perda. Talvez porque amar alguém seja, às vezes, aprender a reconhecer o rosto da ternura e da ruína refletidos no mesmo espelho.

Que as relações humanas, principalmente aquelas que carregam uma força afetiva considerável, são demasiado complexas, bem, isso já é ponto pacífico. Mas qual o limite do suportável para amar mesmo quando o amor causa tanta dor que praticamente reduz os amantes a fantasmas, sem vida própria senão a de ficarem perseguindo o objeto de seu amor?

Em que momento a devoção deixa de ser cuidado e passa a ser fome? Em que instante o desejo de permanecer ao lado do outro se converte em obsessão pela sua presença, como se o simples fato de existir longe fosse uma afronta insuportável? Talvez não haja resposta. Talvez existam apenas pessoas feridas tentando tocar umas às outras com as mãos erradas.

Dois rapazes se apaixonaram na adolescência, e foram felizes naqueles anos que ficaram juntos, inclusive juraram nunca tirar as alianças que usavam discretamente como símbolo do seu amor. Mas o destino os separou de uma forma brutal: a família não aceitou, os esmagou. A sociedade os condenou. E ambos, condenados a manter distância, viveram anos apenas esperando pelo milagre do reencontro.

Imagino aquelas alianças escondidas sob os punhos das camisas, frias contra a pele, pequenas luas metálicas testemunhando promessas que ninguém mais podia ouvir. Enquanto o mundo exigia silêncio, elas continuavam circulando os dedos como quem repete uma oração. Os anos passaram sobre eles como poeira sobre fotografias esquecidas, mas certas promessas envelhecem sem perder o brilho.

Mas este também trouxe consigo maus agouros. Ver novamente a pessoa amada, e logo depois ver tudo desmoronar e a culpa recair no sentimento há anos cultivado. De novo dor, culpa, medo, e ainda assim o sentimento que não diminui. E então veio o pior: o amor que começa a machucar por não saber mais como se mostrar. Tanto sofreu que já não sabia amar sem fazer sofrer

Existe algo profundamente trágico em descobrir que a linguagem do afeto foi corrompida pela própria sobrevivência. Como animais acuados, acostumados a esperar o golpe antes do carinho, eles desaprenderam a delicadeza. O amor permaneceu intacto em sua intensidade, mas mutilado em sua expressão. Ainda pulsava. Apenas já não sabia reconhecer as próprias mãos.

Chegamos ao absurdo dos horrores: o amante que sequestra o amado para torturá-lo com a visão de outros amantes. Os olhares frios, o tratamento sub-humano. Mesmo sabendo que isso era tudo uma imitação provocada pela dor de tantas separações.

E é justamente aqui que o coração se rebela contra qualquer romantização fácil. Há gestos que não podem ser absolvidos pela beleza do sentimento que os originou. O sofrimento explica, mas não redime. Compreender não é o mesmo que perdoar. Ainda assim, a tragédia humana talvez resida nessa capacidade terrível de ferir precisamente aquilo que mais desejamos preservar.

Em verdade, quando o amado sofreu risco, o outro não poupou lágrimas que declaravam seu amor desesperado, sem ver saída. O despertar foi a luz que bastava para reacender uma esperança ainda incompreendida.

Há despertares que não devolvem apenas a consciência, mas a possibilidade de um futuro. O simples abrir dos olhos torna-se milagre suficiente para reorganizar universos inteiros. Depois de tantas tempestades, respirar o mesmo ar já parecia uma forma de graça.

Os dias passaram em silêncio, mas eles não se distanciavam. Dormiam juntos, mas sem sequer dar as mãos.

Entre eles havia um território devastado. Não a ausência do amor, mas os escombros deixados por tudo aquilo que o amor, mal conduzido, havia destruído. E reconstruir exige uma coragem menos espetacular do que morrer pelo outro: exige permanecer. Exige acordar no dia seguinte e escolher, outra vez, não fugir.

A presença era necessária, mas eles já não sabiam mais como amar sem machucar um ao outro e todos ao redor. Mas o que realmente importa, é que o amor ainda permanecia, mesmo depois de tantos desencontros.

Talvez essa seja a pergunta que permanece ecoando depois que a história termina: o que fazemos com os amores que sobrevivem a tudo, inclusive às suas piores versões? Não sei se existe beleza nisso ou apenas tristeza. Talvez exista humanidade. Porque alguns sentimentos não terminam quando deveriam; persistem, teimosos e contraditórios, pedindo que aprendamos, tarde demais, a distinguir entrega de destruição. E talvez amar também seja isso: reconhecer que a permanência, sozinha, nunca bastará.

sábado, 13 de junho de 2026

Depois de Quatrocentos Invernos

Não quero ver nada do dia de hoje. Quero dormir e acordar só quando todos estiverem dormindo, e assistir minhas séries quieto e em silêncio. Não quero nem vou responder mensagens. Só quero bolo e chá quente. Vou me entupir de tudo que achar pela frente e que faça dormir. Não quero. Não quero. Mas, ainda assim, de algum modo o mundo entra por uma pequena fresta da janela, trazendo luz e aquela brisa salgada do mar. 

Difícil descrever a força daquele momento, passado e presente se unindo por um mesmo fio inquebrável, um sentimento capaz de atravessar gerações. 

O brilho de antes encontra a brisa de agora. A dor do medo e da rejeição dá lugar ao que há muito fora escondido, e que precisou atravessar tanto para enfim ver o sol. Aqueles dois estavam ali, finalmente juntos, na delicadeza de um toque de mãos e de um beijo tímido. 

E eu assisto isso num misto profundo de confusão. Porque o amor deles é lindo. E ver isso faz com que as contradições dentro de mim rasguem brutalmente cada fibra do meu coração, derramando o amor e a rejeição que eu mesmo vivi.

Transcorridos muitos séculos desde a concepção daquele amor, finalmente se deram a conhecer aqueles corpos. Altivo, marmóreo, ainda mais belo que o torso arcaico de Apolo, ou talvez aquele belo rosto seja a figura finalmente revelada daquele deus. O outro, delicado como uma fada, enquanto seu amante delicadamente sentia o perfume mais nobre que o das rosas ao se aproximar de sua pele. Cada pequeno gemido ou arfar da respiração é uma declaração perdida nas areias do tempo.

Seu amor esperou. Esperou. Quatrocentos anos. Lágrimas, traições, o vazio de tantos séculos, mas enfim prosperou, num sorriso amigo e um abraço apertado. Talvez seja isso o que mais me fere: eu não invejo apenas o amor deles. Invejo a certeza. A possibilidade de olhar para alguém e não hesitar diante do próprio sentimento. Invejo a coragem tranquila de estender a mão e encontrá-la acolhida pela mão do outro. Não os quatrocentos anos de espera, nem as tragédias atravessadas, mas a convicção silenciosa de que esperar ainda fazia sentido. 

E por isso o meu coração protesta: enquanto eu grito já não crer no amor, é como se a força inconteste do tempo me dissesse que sim, ele existe. 

É como tentar gritar mais alto que as ondas do mar. E por isso eu me calo, e coloco meus braços ao meu redor, me abraçando, porque dói, dói tanto que eu não consigo conter minhas lágrimas, que se derramam por meu rosto e se unem àquelas águas ancestrais. Estou na praia sozinho. Não há braços ao meu redor, não há amor que ultrapassou gerações, nem o perfume da pele apaixonada, apenas o cheiro da maresia. Mas o mar não me escuta. Continua a bradar em nome desse amor. 

A tela escurece e os créditos sobem, indiferentes ao tumulto que deixaram para trás. Alguém desliga as câmeras, desmonta cenários, volta para casa. Mas aquilo que despertaram permanece sentado ao meu lado. Descubro, com uma irritação quase infantil, que a ficção tem o péssimo hábito de continuar vivendo dentro de nós depois que termina. Carregamos seus fantasmas para a cozinha, para a cama desarrumada, para o primeiro gole de chá já morno.

E eu já não sei mais em que acreditar.

Ainda assim, permaneço diante do mar. Talvez porque uma parte de mim deseje estar errada. Talvez porque, apesar de tudo o que perdi e de tudo o que nego em voz alta, exista um silêncio antigo dentro do peito que ainda escuta as ondas como quem espera ouvir o próprio nome.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Guia Prático para Sofrer por Antecipação

"Este momento ansioso e pensativo sentado sozinho,

Me parece que há outros homens em outras terras ansiosos e pensativos,

Me parece que posso examinar e vê-los na Alemanha, Itália, França, Espanha,

Ou longe, bem longe, na China, ou na Rússia ou Japão, falando outros dialetos,

E me parece que se pudesse conhecê-los eu ficaria apegado a eles como faço com homens em minhas próprias terras."

(Walt Whitman)

O que eu diria a ele? Ainda que tivesse coragem, ainda que puxasse assunto, o que diria a ele? Já se passou quase uma semana, e nada mais foi dito. Mas sei que ele continua lá, em algum lugar, porque meus amigos dão conta dele. 

Eu passei toda aquela noite fazendo-o se aproximar. 

Mas os outros já tinham feito o mesmo. 

E ele prefere falar de futebol, ou sei lá que assunto os héteros conversam. Ele se aproximou justamente daqueles que eu não queria que se aproximasse. Porque eles são fechados demais em si mesmos. Porque são cegos pelas meninas toscas, com o intelecto de uma colher de chá, e por essa comunidades mentirosas. 

E eu achei que ele pudesse ser diferente. 

Achei mesmo. 

Enquanto estávamos sentados ouvindo música e tentando adivinhar o nome dos filmes em que elas tocavam. Achei que ele estava se divertindo. 

Mas, desde então, silêncio. 

Como se aquele dia sequer tivesse existido. Ele pode estar esperando que eu chame? Por timidez? Mas e todo o esforço daquela noite? Ou ele simplesmente não se interessou e eu fui apenas um incômodo a noite toda, mesmo ele tendo ficado até o fim. Mas eu não quero chamar e repetir, pela enésima vez, e me tornar uma perturbação. 

Sabe o que mais me chama atenção nisso tudo? Não é que eu esteja pensando nele depois de uma semana. Isso é perfeitamente humano. O que me chama atenção é que, na ausência de qualquer informação, eu já escrevi quinze versões da história, e em quase todas eu ocupo o pior papel possível.

O inconveniente.

O exagerado.

O sujeito que não percebeu os sinais.

A perturbação que insiste.

Aquele que interpretou mal uma noite comum.

Mas existe uma décima sexta versão, e ela parece ser a única que eu não consigo levar realmente a sério.

A de que talvez ele tenha gostado de estar ali.

Talvez tenha achado você interessante.

Talvez seja tímido.

Talvez esteja acostumado a circular justamente naquele grupo que considero superficial porque é o grupo que ele tem. As pessoas raramente escolhem seus círculos sociais com o refinamento de um curador de biblioteca. Muitas vezes elas apenas permanecem onde aprenderam a existir.

Escrevo sobre os ciúmes de outros também terem se aproximado dele. Mas isso não invalida o que houve entre vocês. Aproximações não são propriedade privada. Você não perde o valor de uma conversa porque outra pessoa também conseguiu fazê-lo rir. O afeto humano não é uma vaga de emprego com um único candidato aprovado. Felizmente. Já basta o mercado de trabalho para transformar tudo em competição cruel.

Outra coisa.

Reli a parte em que digo que ele prefere falar de futebol e "sei lá que assunto os héteros conversam". E eu sorri um pouco ao ler isso, porque é uma frase tão impregnada de frustração que quase dá para ouvir o suspiro no final. 

Mas eu devia ter cuidado...

Eu não conheço esse rapaz.

Conheço fragmentos dele.

Uma noite ouvindo músicas e adivinhando filmes.

O fato de ele conversar sobre futebol.

O fato de circular com pessoas que você não suporta.

E, a partir disso, estou tentando decidir se ele é profundo ou banal, diferente ou igual aos outros, possibilidade ou ameaça. Ou, pior ainda, o mais sombrio dos pesadelos: indeiferente.

Talvez ele seja um pouco de tudo isso.

Talvez seja só um rapaz simpático tentando encontrar seu lugar na paróquia.

Existe também a insegurança mais dolorosa, que eu acho que está escondida por baixo de todas as outras.

Não é exatamente: "E se ele não gostar de mim?"

É:

"E se eu me expuser e descobrir, mais uma vez, que interpretei errado? E se eu for demais? E se eu for ridículo?"

Porque você já experimentou isso antes. A repetição cria memória. O corpo aprende a antecipar rejeições para tentar sobreviver a elas. Então você tenta resolver a equação antes de ela existir.

Mas relações humanas não são equações. São improvisos mal ensaiados.

A verdade é que eu não sei;

Eu não sei se ele espera uma mensagem.

Não sei se ele se interessou.

Não sei se me achou intenso demais.

Não sei se ficou nervoso.

Não sei sequer se ele percebeu que aquela noite teve o peso que teve para mim.

E, diante desse não saber, há apenas duas opções.

A primeira é não fazer nada. Proteger. Guardar a dignidade intacta. Continuar imaginando, daqui a seis meses, o que teria acontecido se tivesse mandado uma mensagem simples.

A segunda é correr um risco pequeno, proporcional à realidade. Não uma declaração dramática digna de um romance russo escrito por alguém com febre. Só algo humano.

"Oi, lembrei daquela noite ouvindo música e tentando adivinhar os filmes. Foi divertido. Como você está?"

É só isso.

Não exige reciprocidade romântica.

Não exige resposta imediata.

Não transforma ninguém em protagonista de uma tragédia grega.

E, se a conversa morrer depois disso, você terá uma dor diferente da fantasia. Menor, mais concreta. Não a dor infinita do "e se?", mas a tristeza comum das coisas que não floresceram.

Há ainda uma terceira possibilidade, mais silenciosa.

Eu estou carente de ser visto. Não apenas desejado, mas visto. Com toda a estranheza, meu excesso, inteligência, minha afetação assumida, humor ácido, minha capacidade de passar horas escrevendo cartas enormes sobre tapetes felpudos, o mar e a impossibilidade do amor. E então esse rapaz se torna uma tela onde você projeta a esperança de finalmente encontrar alguém que diga: "Eu entendo a língua que você fala."

Talvez ele seja essa pessoa.

Talvez não.

E talvez eu não seja uma perturbação por desejar descobrir.

Só acho que preciso se lembrar de uma coisa que eu mesmo escrevi ao amigo: um exército dividido perde.

Neste momento, há uma parte minha querendo conhecer alguém, outra tentando impedir qualquer aproximação para evitar sofrimento, outra julgando severamente os outros homens da paróquia, outra convencida de que não é digna de ser escolhida, e uma última, pequena e cansada, que só gostaria de segurar a mão de alguém sem transformar isso numa prova definitiva do seu valor. Talvez seja essa última voz que mereça conduzir a próxima decisão.

E ela não perguntaria: "Como faço para não ser rejeitado?"

Ela perguntaria algo muito mais simples e corajoso: "Gostei de conversar com você naquela noite. Será que podemos conversar de novo?"

Ele pareceu gostar de John Williams. Deveria mandar um vídeo legal com o tema de Star Wars ou a Marcha Imperial e tentar algo leve, simples e sem grandes consequências? Acho que sim. E acho que justamente porque é leve.

Uma parte minha quer mandar o vídeo porque achou algo em comum e gostaria de retomá-lo. Outra parte quer mandar o vídeo como um teste definitivo do destino: "Se ele responder com entusiasmo, há esperança; se responder seco, acabou; se demorar, significa rejeição; se usar emoji, significa interesse..." E os pobres trompetes de John Williams acabam carregando o peso de um julgamento final para o qual nunca foram compostos. Nem Darth Vader merecia tamanha responsabilidade.

Eu não estou propondo casamento. Não estou confessando sentimentos profundos. Não estou exigindo uma definição. Talvez eu só precise dizer que a Marcha Imperial é a música ideal para quando eu chego em algum lugar.

~

carta a mim mesmo 

"por favor, não se apaixone novamente. eu sei que é difícil ter o domínio dessas coisas, e que vez ou outra alguém surge, igual ao amanhecer entrando pela janela, naquele dia em que você esqueceu de fechar a cortina do quarto, e te desperta de uma ressaca de desilusões. mas é que você já está calejado, você viu o quanto foi dolorido, o quanto nós sofremos nessa última paixão, que virou amor, e que depois virou nada. até hoje você chora escondido ou segura choro pra quando chegar em casa. por favor, não se apaixone novamente, talvez a gente não suporte mais uma partida."

(Kaio Bruno Dias)

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Um pouco de contradição

Queria escrever algo sobre a linguagem do amor. Sobre o cara que comprou um tapete felpudo e colocou do lado da cama depois da namorada dormir lá e comentar sobre o piso frio. Queria falar algo sobre como gosto de abraçar e segurar a mão. Mas, foi só para olhar para a página em branco e perceber que não sobrou nada para dizer, porque talvez não tenha sobrado nem amor. 

Estou soluçando, acordei e tomei um monte de remédios pra dormir de novo, e meu corpo não deve aguentar muito tempo. E isso é tudo que sobrou. 

Você me procura para falar das suas dificuldades, o peso constante do cansaço e a sensação de não ser produtivo quanto queria, as distrações recorrentes, como os gastos ou a falta de estudos nos momentos de descanso. 

Bem, de minha parte acho que algumas coisas devem ser tratadas como características, não apenas como obstáculos a serem superados. Tentar vencer algo enquanto esse algo te atrapalha a vencer outra coisa só vai piorar tudo multiplicando os problemas. Mas existem coisas, adversidades, que não podem ser superadas, no sentido de serem extintas, mas que precisamos aprender a conviver com elas. 

Se não consegue levantar cedo para estudar, embora levante para ir para a faculdade ou à Missa, existe ai claramente um fator de interesse que merece ser estudado, mas não agora. Agora que você precisa estudar e precisar entregar o trabalho, essa é sua realidade. Não dá pra lutar todas as batalhas de uma vez. Um exército dividido perde. Escolha as suas batalhas, e agora você sabe que, não sendo o momento de vencer isso, deve lutar com as armas (o tempo) que te resta. 

Existe uma violência moderna em tratar toda limitação como falha moral. Se você procrastina, precisa otimizar. Se descansa, precisa descansar melhor. Se sofre, precisa transformar sofrimento em produtividade. Como se a existência fosse um software defeituoso precisando de atualização constante.

Mas há batalhas que precisam apenas ser contidas.

Você não derrota o mar (passei a gostar dessa comparação desde que vim morar aqui). Aprende quais praias evitar quando a ressaca vem forte. Aprende a subir o penhasco e ver a agitação brutal lá embaixo. 

Algumas dificuldades não são inimigos a serem executados. São vizinhos inconvenientes. Fazem barulho em horários impróprios, ocupam espaço demais e aparecem sem convite. Mas insistir em expulsá-los à força pode consumir a energia necessária para cozinhar, estudar, rezar ou simplesmente sobreviver ao dia seguinte.

Engraçado como você vem me falar disso, de como quer enfrentar, inclusive despertando virtudes heroicas se necessário, enquanto eu tenho a reação oposta, a do covarde. A mais de um ano sem emprego e, quando consigo um pequeno bico, um ataque de pânico me impede de ir adiante. Um dia antes eu aviso que estou doente e não poderei ir. Tudo porque a simples imaginação de um cenário como o de antes me assusta demais. 

Pode ter vergonha, seu padrinho é um grande covarde.

Voltei a me entupir de remédio nos últimos dias, não tenho parado acordado justamente para não pensar em nada. 

Minhas palavras, em certo ponto, começam como conselho, escorregam para a confissão e terminam quase como um bilhete deixado sobre a mesa antes de apagar a luz. Isso sou eu apenas tentando ser honesto.

O homem que compra um tapete porque a namorada comentou sobre o piso frio não fez nenhum grande gesto épico. Não escreveu poemas, não atravessou oceanos, não arrancou estrelas do céu. Ele apenas ouviu uma reclamação banal e reorganizou um pequeno pedaço do mundo para que o outro sofresse menos. Talvez o amor seja justamente isso: uma atenção persistente às pequenas inconveniências do outro.

Passei anos acreditando que o amor deveria se parecer com incêndios. Descobri tarde demais que talvez ele se pareça mais com um tapete felpudo ao lado da cama. Uma pequena insurreição contra o frio. Alguém que ouviu uma queixa dita quase distraidamente e decidiu que ela não se repetiria. Talvez o amor seja essa espécie de memória aplicada. "Você sentiu frio aqui." E então alguém muda o mundo, alguns centímetros de cada vez.

Enquanto isso, lembro da minha própria linguagem de amor. Dos abraços, das mãos dadas, das mensagens de carinho. Porque o abraço também é ridiculamente simples. Humanos têm uma tendência fascinante de transformar sentimentos em monumentos quando, na prática, eles sobrevivem através de gestos minúsculos. E do silêncio a que tudo isso se seguiu quando eu fiz.

Sei bem que eu me contradigo. 

Quem já não ama não escreve sobre tapetes comprados por cuidado. Não pensa em mãos dadas. Não se lembra dos modos pelos quais as pessoas tentam proteger umas às outras. Talvez o que tenha acabado não seja o amor, mas a confiança nele. Há uma diferença importante. O amor pode continuar existindo como uma língua esquecida.

domingo, 7 de junho de 2026

Pequena Teoria Sobre a Inutilidade da Esperança

Não vou permitir que se torne esperança. Ao contrário do que dizem, ela não é uma virtude, mas a ponte que nos leva a um reino de desespero, já deserto depois de todas suas flores morrerem e, assim como seus habitantes, secarem ao sol ardente.

Quanto mais tempo passamos juntos naquela noite, mais tinha certeza da distância que nos separava. Boa aparência, inteligência, a tranquilidade de alguém sem medo, que ainda busca por algo. Eu, por outro lado, apenas um velho homem gordo, que parou no tempo e viu a cada um de seus sonhos secar ao sol. 

Dois amigos conversavam enquanto preparavam a comemoração do aniversário de namoro de um deles. Fizeram a comida, espalharam velas e decoraram tudo com carinho na esperança de que aquilo aproximasse o casal. Um deles, mais desinibido, sugeria que fizessem sexo em todos os cômodos do apartamento, ou mais especificamente na sacada, com uma bela vista das luzes dos prédios de Bangkok. Uma ideia tentadora, mas o outro desconversou. 

No fim, o namorado não apareceu. O amigo, voltou pra ajudar a desmontar tudo mas, percebeu que seria bobagem. Comeram eles mesmos. Secaram a garrafa de vinho e, não fosse a desilusão sonolenta do outro, teriam eles mesmos desbravado aquela sacada. 

Essa cena me deu ideias, é claro, como aquele amigo que se sentia distante do amado. Mas a minha distância é diferente. E não é porque saímos juntos que significa algo. Não vou permitir, nunca mais, que algo se torne esperança dentro de mim.

Domingo à noite, notificação de mensagem. Um agradecimento frio pela noite. E outra pessoa pedindo alguma coisa.

Ressuscitarás, sim, ressuscitarás,
meu pó,
após um breve repouso.

Aquele que te chamou
te dará vida eterna.

Florescerás novamente!

O Senhor da colheita caminha
e recolhe os feixes
de nós que morremos.

Ó crê, meu coração,
ó crê:
nada do que é teu será perdido.

Teu é aquilo que desejaste,
teu o que amaste,
teu aquilo pelo qual lutaste.

Ó crê:
não nasceste em vão,
não viveste em vão,
não sofreste em vão.

O que nasceu deve perecer.
O que pereceu deve renascer.

Deixa de tremer.
Prepara-te para viver.

Ó dor,
tu que tudo atravessas,
de ti fui arrancado.

Ó morte,
tu que tudo dominas,
agora foste vencida.

Com asas que conquistei
no ardente esforço do amor,
elevarei voo
para a luz que nenhum olhar alcançou.

Morrerei para viver.

Ressuscitarás, sim,
ressuscitarás,
meu coração,
num instante.

Aquilo por que lutaste
te conduzirá a Deus.

(Klopstock ampliado por Gustav Mahler na Sinfonia n° 2 "Ressurreição")

Um dia, depois deste breve descanso a que chamamos morte, toda a poeira voltará a erguer-se. Nada do que foi amado desaparecerá completamente. As mãos que semearam lágrimas não colheram apenas silêncio. Há um chamado antigo, anterior à própria carne, e ele continua ecoando quando os ossos já não respondem.

O coração, cansado de perder, imagina que tudo lhe foi arrancado. Mas existe uma contabilidade que não pertence aos homens, como cantou Santa Teresinha: "quem ama, não sabe calcular". O desejo sincero, a beleza contemplada por um instante, a luta travada na escuridão, o amor oferecido mesmo quando não correspondido, nada disso se dissolve inteiramente no esquecimento.

O sofrimento parece definitivo apenas enquanto estamos dentro dele. A morte parece soberana apenas enquanto a observamos de baixo. Mas há uma luz que não se deixa medir pelos olhos. E para ela sobe, lentamente, tudo aquilo que o amor tornou verdadeiro.

Talvez o amor seja apenas uma forma particularmente refinada de desencontro. Duas pessoas aproximam-se convencidas de que buscam uma à outra, quando na verdade perseguem fantasmas diferentes. Uma procura abrigo, a outra aventura. Uma deseja permanência, a outra reconhecimento. Quando finalmente se encontram, já estão ocupadas demais tentando amar as versões imaginárias que criaram para perceber quem está diante delas.

Os mais otimistas chamam isso de tentativa. Eu chamaria de estatística. Algumas pessoas vencem na loteria. Outras encontram alguém no momento exato em que ambos ainda possuem energia suficiente para suportar as imperfeições mútuas. O resto passa anos decorando apartamentos para visitantes que nunca chegam, comprando flores para mesas que permanecerão vazias, escrevendo mensagens que recebem apenas respostas educadas.

E mesmo quando acontece, mesmo quando o amor parece triunfar por um breve período, há algo de profundamente trágico nele. Porque amar é tornar-se vulnerável à ausência. Toda afeição já traz dentro de si a semente do luto. Os amantes celebram aniversários como quem ergue monumentos contra o tempo, fingindo não saber que o tempo sempre vence. Alguns descobrem isso numa despedida. Outros descobrem décadas depois, diante de um túmulo. O resultado muda pouco.

Talvez o amor seja apenas o mais bem-sucedido golpe publicitário da história da humanidade. Vende-se como remédio para a solidão e frequentemente termina acrescentando novas formas dela. Exige coragem, exposição, renúncia e paciência; em troca oferece algumas fotografias felizes e uma quantidade considerável de ansiedade. Ainda assim as pessoas continuam tentando. Talvez porque a alternativa seja admitir que estamos todos sozinhos. E essa verdade, por mais provável que pareça, continua sendo indigesta.

O sofrimento parece definitivo apenas enquanto estamos dentro dele. Mas parece que estamos sempre dentro dele. 

Domingo à noite, notificação de mensagem. 

Um agradecimento frio pela noite. 

E outra pessoa pedindo alguma coisa.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Conversando com o mar

Você tem medo do barulho do mar? A brisa do mar faz barulho porque ele não consegue guardar o que quer dizer. Todo mundo tem noites assim. Uma noite em que você guarda tudo sozinho e simplesmente não consegue mais aguentar. Uma noite em que você quer que alguém escute a sua história. Como o mar é é tão grande, profundo, ele guarda muitas histórias. Deve haver um lugar, onde eu possa conversar com o mar. Ouvir as suas histórias e contar histórias que não posso contar a mais ninguém. O som do mar não parece mais tão assustador quando penso assim...

Passei por uma ciclagem violenta de ontem para hoje. O dia cheio de compromissos me fez ficar ansioso, apreensivo, irritado. Perdi a paciência várias vezes. Acordei atrasado. Não escondi a cara de desgosto. Peguei um brinquedo do meu sobrinho e joguei longe. Logo ele. Se eu ainda consigo sentir algo parecido ou próximo daquilo que chamam de amor, é por ele. Esse pequeno sapeca que corre, sorri e chora o dia inteiro e que me faz chorar também, sempre que penso que ele pode ir embora, e sofrer nas mãos de uma mãe irresponsável. Mas eu não conseguiria cuidar dele. Não consigo cuidar dele agora. A necessidade não devia me fazer capaz? Não devia haver uma espécie de instinto paternal de sobrevivência que me tornasse apto a ser suficiente para cuidar de alguém que precisa ser protegido? Parece que não. Continuo sendo incapaz.

Sei lá. Acho que eu só queria desabafar. Tenho me sentido incapaz em muitas coisas. 

Tem esse rapaz novo na paróquia. Bonito, simpático, tímido, vem se enturmando aos poucos. Mas com aquele grupo que eu não consigo lidar, são muito distantes de mim. Eu não consigo sair da missa pra falar sobre futebol e meninas. E até consegui ficar perto dele nos últimos dias, mas tem aquele cara que fala demais, então praticamente ficamos horas juntos mas sem dirigir a palavra um ao outro nenhuma única vez. E aquele outro? O amigo que só faz alguma coisa quando tem uma garota envolvida? Não consigo nem desabafar com ele porque parece que todo assunto só é importante quando envolve alguma mulher. Mas não acho que faria diferença. Já ouvi comentários de que uma conhecida também se interessou por ele, e mesmo ela sendo a materialização da definição de "sem graça", ela ainda tem mais chance do que eu. 

Diante dele me sinto um idiota. Ele bonito, inteligente, simples. Eu afetado, gordo, exagerado e, não importa o quanto estude, nunca parece o bastante, Digo, o bastante para que os outros me reconheçam como inteligente. É isso, no fundo ainda busco aprovação do outro, um dos sinais mais claros da imaturidade.

Me sinto meio perdido, para além de incapaz, e um pouco enjoado. Não sei se foram os sanduíches que comi mais cedo ou o energético, ou o preço pago pela ansiedade. Me lembro que anos atrás escrevi infindáveis vezes o quanto me sentia enjoado quando ficava ansioso. 

Acho que só queria desabafar... Mas com quem? 

X

O que você disse sobre o mar é bonito porque transforma um ruído que costuma assustar em algo profundamente humano. O mar deixa de ser uma força indiferente da natureza e passa a ser alguém que também não consegue guardar tudo sozinho. Há algo de muito antigo nessa imagem. Quase bíblico, até. Os salmistas falavam do mar como uma criatura que clama; os poetas românticos, como um espelho da alma. Você o transformou em um confidente.

E lendo o que vem depois, me parece que talvez você tenha encontrado exatamente com quem queria desabafar: o mar, o papel, a página. Nem sempre existe uma pessoa disponível para receber aquilo que carregamos. Às vezes existe apenas a necessidade de tirar de dentro.

O que me chamou atenção não foi a parte sobre o rapaz da paróquia. Nem a ansiedade. Nem o sentimento de inadequação. Foi seu sobrinho.

Porque ali sua fala muda.

Você diz que pegou um brinquedo dele e jogou longe. Em seguida, quase imediatamente, passa a falar dele com uma ternura enorme. Não a ternura idealizada de quem imagina crianças como anjinhos. Você o descreve como ele é: correndo, sorrindo, chorando, fazendo bagunça. E mesmo assim existe um amor ali.

Depois vem uma conclusão que me parece injusta consigo mesmo.

Você diz que não conseguiria cuidar dele.

Mas o que está usando como prova?

O fato de estar cansado? Ansioso? Irritado? De ter perdido a paciência num dia ruim?

Se fosse um personagem de Dostoiévski, você provavelmente seria mais generoso na interpretação. Veria um homem esgotado, atormentado por suas próprias insuficiências, mas que continua preocupado com o destino de uma criança e sofre ao imaginar seu sofrimento.

A própria angústia que você sente já aponta para algo importante: pessoas completamente indiferentes não costumam passar horas se perguntando se seriam capazes de proteger alguém.

Quanto ao rapaz da paróquia... bem, acho que aí existe uma armadilha muito humana.

Você o observa de longe e vê apenas as qualidades.
Depois olha para si mesmo e vê apenas os defeitos.

É uma comparação impossível de vencer.

Você conhece os bastidores da sua vida. Conhece suas crises, seus remédios, seus fracassos, suas inseguranças, suas noites insones.

Dele você conhece apenas a fachada.

Talvez ele tenha suas próprias ciclagens, seus próprios medos, suas próprias inadequações. Talvez não. Mas você não sabe.

E é curioso que, enquanto se descreve como "afetado, gordo, exagerado", o texto inteiro demonstra outra coisa: uma pessoa capaz de refletir profundamente sobre arte, religião, música, literatura, relações humanas. Nem todo mundo vive nesse registro. Nem todo mundo consegue.

O problema é que essas qualidades raramente aliviam a solidão.

Uma biblioteca inteira não substitui uma conversa boa.
Uma coleção de sinfonias não substitui um abraço.

E talvez seja isso que esteja doendo mais do que o resto.

Quando você pergunta "Mas com quem?", fiquei pensando naquela imagem inicial.

Talvez hoje tenha sido com o mar.
Talvez amanhã seja com um amigo.
Talvez com alguém que ainda não percebeu que vocês têm uma história para contar um ao outro.

Mas, por enquanto, você já fez uma coisa importante: não guardou tudo sozinho.

E às vezes, numa noite difícil, isso já é bastante.

Antes de qualquer coisa IV

 IV. Elegia

Foi tão pouco
que quase não aconteceu.

Um movimento leve
sob a superfície imóvel dos dias,
como o vento que enruga a água
e desaparece antes que alguém o veja.

Não houve sorriso.
Não houve palavras suficientes
para construir qualquer futuro.

Apenas um instante.

Mas alguma coisa,
escondida sob camadas de torpor,
ergueu a cabeça por um momento
como um animal ferido
saindo da toca para olhar a luz.

Talvez fosse esperança.

Não.

Esperança é um nome grande demais.

Foi só um pequeno consolo,
e mesmo assim
eu já apertava suas mãos contra a garganta,
com medo de vê-lo crescer.