“A grandeza do homem está em saber-se miserável.”
(Blaise Pascal)
Há uma frase que ouvi do Luiz Felipe Pondé, e que ele parece repetir muito, causando estranhamento: "não confio em pessoas que não têm vícios." Ele isso sem distinção de sexo ou gênero; fala do ser humano enquanto tal. E não se trata, evidentemente, de uma exaltação do vício, mas de algo mais profundo: uma reflexão sobre a natureza humana.
Refletir acerca disso exige, antes de tudo, um deslocamento do senso comum para uma tradição mais antiga do pensamento. Existe na filosofia o que se convencionou chamar de moralismo, não no sentido vulgar de quem dita regras, mas no sentido francês do moraliste: aquele que observa o homem por dentro, com atenção quase clínica às suas contradições, quedas e fraquezas. É uma tradição que floresce sobretudo a partir do século XVII, com autores como Pascal, La Rochefoucauld e outros, profundamente atentos à miséria e à grandeza humanas.
O moralista, nesse sentido, não é alguém distante do vício, mas alguém que o conhece, muitas vezes porque o experimentou. Enquanto o homem acredita ter pleno domínio sobre sua vontade, enquanto imagina ser senhor absoluto de seus atos, ele permanece cego para aquilo que realmente é. É o encontro com o limite, quando a vontade falha, quando o desejo arrasta, quando a razão se humilha, que produz uma compreensão mais verdadeira da condição humana.
O vício, seja ele qual for, tem essa capacidade perturbadora: revela que não somos tão livres, tão racionais ou tão íntegros quanto gostaríamos de acreditar. Mesmo diante de grandes esforços morais, descobrimos que algo em nós escapa, insiste, retorna. É aí que a ilusão de pureza começa a ruir e, com ela, nasce uma forma mais honesta de lucidez.
Não é coincidência que muitos grandes observadores da alma humana tenham sido homens marcados por excessos. Pascal, por exemplo, era profundamente envolvido com jogos de azar; foi justamente essa experiência que o levou a contribuir decisivamente para o cálculo das probabilidades. O contato com o vício não o tornou menor, mas mais atento à fragilidade humana.
Em Blaise Pascal, essa intuição alcança uma forma quase dolorosamente lúcida. Poucos pensadores compreenderam com tanta precisão o descompasso entre aquilo que o homem pensa ser e aquilo que efetivamente é. Para Pascal, a grande tragédia humana não é a miséria em si, mas a incapacidade de reconhecê-la. O homem que ignora sua queda vive numa espécie de divertimento permanente, fugindo de si para não encarar o vazio que o habita.
A moral pascaliana nasce exatamente desse ponto: o homem é simultaneamente grande e miserável. Grande porque pensa, miserável porque não domina nem a si. Essa tensão atravessa toda a sua obra e impede qualquer moral simplista. Não há, em Pascal, espaço para um ideal de virtude auto erigida, conquistada pela força da vontade. O homem não se salva por acúmulo de boas ações, mas pela lucidez que o leva a reconhecer que não pode salvar-se sozinho.
O vício, nesse contexto, aparece menos como um escândalo moral e mais como um sintoma antropológico. Ele revela a desordem do desejo, a fragilidade da razão, a instabilidade da vontade. Pascal não observa o homem de cima, mas de dentro, e talvez por isso sua filosofia seja tão desconfortável. Ela não permite máscaras. Quem lê Pascal com honestidade raramente sai ileso.
Há também, em sua moral, uma desconfiança radical do orgulho travestido de virtude. O homem que se acredita justo torna-se cego; o que se reconhece miserável torna-se, paradoxalmente, mais verdadeiro. É nesse sentido que Pascal pode afirmar que o conhecimento de Deus passa necessariamente pelo conhecimento da própria miséria. Não se trata de um pessimismo existencial, mas de uma recusa da ilusão.
Assim, a filosofia moral de Pascal se aproxima intimamente da lógica cristã da conversão: não há subida sem descida prévia, não há luz sem a travessia da noite, não há graça sem o reconhecimento da necessidade dela. A moral não nasce da força, mas da verdade, o que nos leva ao próximo ponto.
Essa intuição não é exclusiva da filosofia. A tradição bíblica converge para o mesmo ponto ao valorizar figuras como o pecador arrependido, a prostituta, o adúltero, o ladrão. Não porque o pecado seja bom, mas porque aquele que reconhece sua queda conhece a verdade sobre si. Há uma sabedoria paradoxal nisso: quanto mais alguém se sabe pecador, mais próximo está da realidade e, na linguagem da fé, mais próximo de Deus. Ao contrário, quanto mais alguém se julga limpo, correto e virtuoso, mais distante costuma estar dessa verdade fundamental.
Olavo de Carvalho aponta, numa construção que vai desde a concepção galilaica das substâncias até suas consequências longínquas na moral por meio do cartesiano e, mais tarde, no puritanismo protestante. Segundo ele, a solidariedade dos santos, e dos pecadores, no sofrimento comum do destino humano era substituída pela convivência ascética entre os eleitos que cultivavam um sacrossanto horror aos desviantes e dos réprobos. As histórias de conversões de ladrões, assassinos, as cenas de arrependimento público e a convivência entre santos e pecadores, tudo isso era muito comum na idade média.
Toda a origem do moralismo moderno advém da confluência de dois elementos: a ciência galilaica com a sua redução das aparências sensíveis como produto da imaginação humana e, por outro, o ascetismo visual protestante que suprime as imagens, suprimindo, portanto, toda a estética do templo Cristão. Ainda no meio protestante, a doutrina do predestinacionismo, que separando antecipadamente os eleitos e os condenados, mas sem que houvesse meios de distingui-los na vida real, só deixava ao crente a alternativa de comportar-se em público como se fosse um dos eleitos para evitar escândalo. Tornava-se então uma obrigação que todos encarnassem uma nova mulher de César. A moral tornava-se, assim, indistinguível da decência, da austeridade no traje e na conduta, da polidez, das boas aparências. Instantaneamente a Europa se recobre de pessoas vestidas de preto. Qualquer tipo de pecado visível ou vício? Absolutamente desprezível, não era mais experiência humana, era aberração.
Na teologia católica, o pecado nunca é o ponto final da narrativa, mas o lugar onde ela pode recomeçar. Não há antropologia cristã sem a consciência da queda, assim como não há soteriologia sem a esperança da restauração. O reconhecimento da própria miséria não é, portanto, um exercício de autodepreciação, mas um ato de verdade, e a verdade, no cristianismo, é sempre relacional: ela se dá diante de Deus. Não
O perdão não nasce da negação da culpa, mas do seu reconhecimento. É por isso que a Escritura insiste tanto na confissão do coração contrito, não como formalidade moral, mas como abertura existencial. Aquele que se sabe ferido deixa de exigir de si uma pureza impossível e, justamente por isso, torna-se capaz de acolher a misericórdia. A conversão cristã não é o gesto heroico de quem se torna impecável, mas o movimento humilde de quem aprende a cair voltando-se para a luz.
Nesse sentido, o pecado reconhecido pode tornar-se pedagógico: não porque seja desejável, mas porque desmascara a ilusão da autossuficiência. O homem que nunca caiu facilmente confunde virtude com rigidez; o que caiu e foi perdoado aprende a diferença entre justiça e misericórdia. A caminhada cristã não se faz por saltos de perfeição, mas por passos incertos, muitas vezes marcados por recaídas, sempre atravessados pela graça.
Há algo profundamente evangélico nessa lógica: os que se julgam sãos dispensam o médico; os que reconhecem sua enfermidade sabem que precisam ser curados. O cristianismo não começa com o elogio da virtude, mas com a proclamação da misericórdia. E talvez por isso o santo seja, quase sempre, alguém que conhece intimamente a própria fragilidade, não alguém que jamais pecou, mas alguém que aprendeu a recomeçar.
Em Santo Agostinho, a consciência do pecado não é um dado moral, mas uma experiência interior que rasga a alma, ele se confessa! O coração inquieto não é apenas o que deseja mal, mas o que deseja desordenadamente. Antes da conversão, Agostinho não ignora o bem, ele o ama, mas não consegue escolhê-lo. Sua miséria não está na falta de luz, mas na incapacidade de permanecer nela. Há algo profundamente místico nessa percepção: o pecado não é simples erro, é desvio do amor.
Pascal herda esse olhar interior e o radicaliza. Se Agostinho narra a própria queda como caminho providencial, Pascal descreve a condição humana como um abismo silencioso onde o homem se distrai para não escutar o próprio vazio. Ambos, porém, coincidem no essencial: o conhecimento de si é inseparável do conhecimento de Deus. A ferida não é negada, nem romantizada, ela é o lugar onde a graça pode tocar.
Há, em ambos, uma mística da humilhação: não a humilhação infligida, mas aquela que nasce quando a ilusão do controle se desfaz. "Tarde demais eu te amei!" O homem descobre que não é senhor nem da própria vontade. Esse reconhecimento não conduz ao desespero, mas à oração. Para Agostinho, chorar diante de Deus é já um início de cura; para Pascal, reconhecer a própria miséria é o único ponto de partida honesto para a fé.
Ignorou-se completamente que a experiência do fracasso, do erro e da culpa tem um efeito profundamente humanizador. Ela quebra o orgulho, desfaz a arrogância moral e impede que o sujeito se coloque acima dos outros. Por isso, desconfio de quem se apresenta como irretocável. A virtude ostentada costuma esconder não apenas autoengano, mas também um tipo perigoso de soberba.
Continua