Sempre que revisito uma obra, busco reencontrar nela aquelas primeiras impressões e, conferir se são passíveis de um aprofundamento. Não é como se eu buscasse teorizar tudo que eu assistisse, mas, uma vez internalizado, o processo analítico se torna como uma segunda natureza. Não significa tampouco que eu só assista, ou ouça, coisas de alta qualidade, não, mas em tudo que consumo, busco encontrar algo de real.
Com algo real me refiro aquilo de que já falei tantas e tantas vezes: alguma experiência humana real, daquelas comuns a todos nós e, ou, num aprofundamento, algum aspecto deliberadamente colocado ali. Talvez seja essa uma forma de ocupar a mente e me distrair do fato de que, em verdade, não há com quem possa compartilhar essas impressões.
Dito isso, retomei "Tokyo in April is..." (2023) uma vez mais, e já revi essa série uma porção de vezes. Talvez já até tenha comentado sobre esses aspectos aqui, mas a quantidade de remédios que tomo e meu Transtorno Bipolar me dão certa cota de esquecimento, me permitindo revisitar também as reflexões e, se já não o fim, aprofundá-las.
Estrelada pelos belíssimos Sakurai Yuki (do grupo EXILE) como o introvertido Kazuma e Takamatsu Aloha como o brilhante Ren, chefe do departamento criativo de uma enorme empresa. A série passa aquela sensação familiar, um pedaço da vida recortado de todo o resto. Como já comentei a respeito dos aspectos de sombra e luz numa série de artigos, aqui essa exposição ganha uma atenção mais especial. A luz e a sombra são parte integrante da história tanto quanto os próprios personagens.
Dispensando detalhes da sinopse, ambos eram amigos na juventude, mas acabaram se separando por dez anos, morando em diferentes países, e só agora conseguiram se reencontrar. Essa nova ligação, cortada de modo abrupto e demasiado violento para garotos de quinze anos, precisa ser reconstruída, mesmo que ambos desejem reaver o relacionamento o mais breve possível.
Daí então iniciamos com uma contraposição interessante: é o introvertido Kazuma quem faz o papel ativo (inclusive na cama) de expressar o que sente, enquanto Ren e sua personalidade descontraída, na verdade, esconde seus traumas. Temos um interessante jogo de personalidades que se atraem. A reaproximação física é imediata, ao passo que a emocional demora mais a acontecer.
É esse jogo interno de emoções, em contraste com as ações, que são explorados numa luminosidade que permite ao espectador compreender o interior do personagem, mesmo sem palavras. Como disse, Kazuma é descrito como brilhante, não apenas no sentido de ser o melhor no que faz, mas também por estar sempre no centro das atenções. Mas, ao se encontrar sozinho com Ren depois de uma noite de bebedeira, nós o vemos no escuro, envolto em penumbra.
E não apenas nós. Mesmo depois de se tornar amigo com benefícios de Kazuma, e fazerem sexo todos os dias, o outro não pode vê-lo e ele não emite nenhum som. O motivo disso é um trauma explicado posteriormente, mas diz muito do personagem ao se esconder na escuridão, com medo de que, aquele que ele mais esperava, o veja na luz.
Ao passo em que, conforme a aproximação lenta revele que a confiança existe entre ambos, a vida vai se tornando mais colorida. Pouco a pouco eles passam a se fazer companhia no trabalho, comem juntos, afinal sempre estão juntos depois do expediente, e não demoram a passar as folgas juntos. Os momentos, antes "apenas" sexo, agora era de companhia. Eles passam a se ver também no dia seguinte, depois do sexo. Não apenas as cortinas se abrem ao amanhecer, os sorrisos se tornam mais vivos e uma saturação maior mostra como, conforme a barreira vai sendo vencida, a vulnerabilidade se torna exposta, e isso só pode ser feito quando a confiança se prova.
O uso da cor no cinema raramente é decorativo. Ele opera como um sistema semântico que antecede a própria fala dos personagens. Desde os estudos de teoria da cor de Goethe até as formulações mais aplicadas do design moderno, consolidou-se a ideia de que a temperatura cromática não apenas descreve um ambiente, mas induz um estado perceptivo. Cores frias, dessaturadas ou levemente esmaecidas tendem a instaurar distância emocional, introspecção e suspensão temporal; cores quentes, saturadas e luminosas convocam proximidade, vitalidade e sensação de abrigo. A psicologia da percepção visual, articulada por autores como Rudolf Arnheim em Arte e percepção visual (1954), já indicava que a cor atua como força estrutural no campo da imagem: ela organiza o olhar e modela a emoção antes mesmo que o espectador formule um pensamento consciente. No audiovisual contemporâneo, essa gramática se refinou com o uso de filtros, gradação digital e desenho de produção, permitindo que a paleta cromática funcione como um subtexto contínuo.
O resultado na série é uma maior identificação por parte de quem vê. O padrão saturado acolhe, dá sensação de conforto e de que queremos participar ou repetir a experiência. O frio, mesmo para quem gosta desse clima, passa a ideia negativa da solidão, ela exclui até elementos que simbolizam o contrário, como uma caneca fumegante de café: é solidão e não solitude.
No cinema japonês, e consequentemente na televisão, essa sensibilidade cromática costuma operar de maneira ainda mais delicada, por vezes quase imperceptível. Não se trata apenas de alternar “frio” e “quente”, mas de modular o grau de saturação e a densidade da luz para sugerir estados afetivos. Em cenas de melancolia, isolamento ou memória, a imagem pode pender para azuis acinzentados, verdes pálidos ou tons neutros que diluem o contraste. Essa diluição cria a sensação de um mundo levemente distante, como se o presente estivesse filtrado pela lembrança ou pela hesitação. Em contrapartida, quando há acolhimento, reconciliação ou intimidade, a fotografia se permite aquecer: amarelos suaves, laranjas discretos, luzes difusas que parecem envolver os personagens. O espectador não é apenas informado de que há carinho; ele é colocado dentro de um espaço visual que o faz senti-lo.
Ingmar Bergman, cuja obra frequentemente explora a interioridade e o silêncio, via a cor como extensão do estado espiritual dos personagens. Em entrevistas reunidas em Bergman on Bergman (1970), ele comenta que a cor deve “responder ao clima interior” e que o cinema não precisa imitar a realidade cromática, mas traduzi-la em termos emocionais. Em filmes como Gritos e Sussurros (1972), o vermelho profundo domina o espaço como expressão de dor e intimidade, enquanto tons frios surgem para marcar distanciamento e angústia. Bergman não codifica a cor de forma simplista; ele a transforma em atmosfera moral. A saturação não é apenas estética, mas quase ética: ela mede a proximidade entre as almas. Imagino que se Morangos Silvestres (1957) tivesse sido filmado à cores, as cores também moldariam todo o contrasta da atmosfera jovial e melancólica dos protagonistas.
O grande mestre do cinema japonês, Akira Kurosawa, por sua vez, utilizava a cor com consciência pictórica e simbólica. Em entrevistas compiladas em Something Like an Autobiography (1982), ele afirma que a cor pode ser “um elemento dramático tão forte quanto o movimento”. Em Ran (1985), as cores dos exércitos e das paisagens não apenas diferenciam facções, mas estabelecem climas emocionais contrastantes. Kurosawa frequentemente empregava cores frias e desbotadas para sugerir fatalismo ou solidão, reservando cores mais quentes e intensas para momentos de energia vital ou proximidade humana. Essa alternância cria uma respiração visual que conduz o espectador entre a contemplação e o calor do encontro.
Ao fim, quando todas essas barreiras caem, o abraço que conforta passa da madrugada fria e cinza para a manhã ensolarada. E eles continuam com os braços e pernas entrelaçados. Assim como acompanhamos no decorrer dos episódios, as casas, sempre no escuro, mesmo com a pintura fria, passam a ter mais calor, mais luz, e os próprios personagens se identificam reciprocamente como sendo luz. Ren é a luz de Kazuma, pois trouxe sentido aquela busca que ele fazia há dez anos, desde que acordou no quarto de hospital. Kazuma é a luz de Ren, pois o faz sair das sombras de seus traumas juvenis e se permitir amar, olhando nos olhos daquele que ele ama.
Hayao Miyazaki, ainda que trabalhando no campo da animação, oferece uma formulação particularmente clara da cor como expressão afetiva. Em entrevistas reunidas em Starting Point (2008), ele comenta que as cores devem “respirar com o mundo” e que a luz quente pode transmitir a sensação de lar e pertencimento. Em obras como A Viagem de Chihiro (2001) ou Meu Amigo Totoro (1988), a alternância entre paletas frias e quentes acompanha o percurso emocional dos personagens: o frio pode marcar o desconhecido, a insegurança ou o afastamento, enquanto o calor cromático sugere acolhimento e reconexão. Miyazaki associa frequentemente a luz dourada do entardecer a momentos de cuidado e intimidade, criando uma espécie de memória visual de conforto, por isso é tão fácil se encantar com os mundos que ele cria.






