quarta-feira, 23 de setembro de 2026

História Crítica dos BLs Tailandeses XI: ERA V — O próprio passado: memória, retorno e reinvenção (2024–2026)

Fase I: A indústria descobre sua própria memória (2024)

Algumas das séries que definiram o final do ano anterior ainda estavam sendo exibidas quando janeiro chegou. Last Twilight, Pit Babe, The Sign, Cherry Magic Thailand e Dead Friend Forever atravessavam a fronteira artificial do calendário, lembrando uma coisa bastante óbvia que periodizações históricas costumam fingir não saber: gêneros não mudam de fase à meia-noite do dia 31 de dezembro.

Mas havia algo diferente no ar.

O BL tailandês completava dez anos desde Love Sick.

Já existiam veteranos. Já existiam carreiras longas o suficiente para serem divididas em fases.

Havia atores que haviam trocado de parceiros, empresas ou posições dentro da indústria. Havia ships capazes de sustentar uma terceira ou quarta obra. Havia atores cuja primeira passagem pelo gênero acontecera quando uma parcela dos novos intérpretes ainda estava na escola. Havia diretores reconhecíveis pelo estilo, autores associados a determinados tipos de narrativa e produtoras com repertórios suficientemente extensos para que o próprio nome da empresa criasse expectativa.

O gênero adquirira aquilo que em 2014 simplesmente não poderia possuir: passado. E passado, quando permanece vivo, começa a interferir no presente.

Por isso 2024 pode ser compreendido menos como o ano de uma nova ruptura formal e mais como o momento em que todas as rupturas anteriores passam a coexistir com a memória de onde vieram. Uma produção pode reunir veteranos.

Pode recuperar uma dupla.
Pode desfazer outra.
Pode adaptar uma propriedade estrangeira já conhecida.
Pode transformar um casal secundário em protagonista.
Pode apresentar uma nova geração utilizando estruturas empresariais construídas pelas anteriores.
Pode colocar um ator de Make It Right diante de um parceiro que ainda está começando.
Pode devolver OffGun a um ambiente profissional depois de oito anos de história conjunta.
Pode transformar o casal secundário de Pit Babe nos protagonistas de uma nova série poucos meses depois.
Pode juntar dois atores veteranos que nunca haviam formado um ship.
Pode recomeçar.

Em 2024, recomeçar deixa de significar começar do zero.

Uma das obras mais interessantes para abrir esse movimento é My Stand-In.

Up Poompat, que nossa história já conhecia como Gene em Lovely Writer, retorna agora num registro quase oposto.

Seu Ming está longe da delicadeza desconfortável do escritor que observava a indústria BL sendo construída ao redor de sua própria obra. Aqui encontramos um personagem possessivo, emocionalmente destrutivo e preso a uma relação marcada desde o início pela substituição. Poom Phuripan interpreta Joe, dublê e substituto corporal de outro ator. Essa condição profissional torna-se também condição afetiva.

Joe percebe progressivamente que Ming se aproxima dele porque seu corpo lembra outra pessoa, especialmente quando visto de costas. A crueldade da premissa está aí. Joe não é inicialmente amado como Joe. É amado como superfície disponível para que alguém imagine outro homem.

Depois de sua morte, o elemento fantástico leva essa lógica ainda mais longe: sua consciência passa a ocupar outro corpo. A série transforma, portanto, aquilo que poderia ser apenas melodrama romântico numa pergunta sobre identidade. Se o corpo muda, quem permanece?

Se alguém se apaixona por uma imagem, ama a pessoa ou aquilo que projetou sobre ela? Se um homem vive profissionalmente substituindo outro diante da câmera e afetivamente substituindo outro diante do amante, em que momento consegue existir sem servir de cópia?

A trajetória de Up acrescenta outra camada. Em Lovely Writer, ele protagonizava uma obra que examinava a fabricação dos romances BL. Em My Stand-In, retorna dentro de uma produção muito mais erotizada e emocionalmente violenta, demonstrando o quanto um ator pode utilizar a própria memória anterior justamente para surpreender o público. Não acompanhamos apenas Ming. Também acompanhamos Up deixando Gene para trás. Esse tipo de comparação torna-se possível porque a indústria já possui tempo.

Veteranos que finalmente se encontram

Wandee Goodday oferece outra forma de memória. Great Sapol interpreta Yoryak, lutador de boxe, enquanto Inn Sarin vive Wandee, médico cuja vida afetiva sai do controle depois de uma rejeição. Uma relação inicialmente construída em torno de sexo e conveniência adquire progressivamente intimidade. A novidade não está propriamente na estrutura de amigos com benefícios. Está também nos intérpretes.

Great já atravessava a televisão tailandesa havia anos e havia aparecido no nosso percurso em Manner of Death. Inn chegara ao centro de nossa análise com The Miracle of Teddy Bear, trazendo consigo experiência anterior nos lakorns. Nenhum dos dois precisava ser apresentado como jovem promessa.

Quando GreatInn surge, a indústria demonstra outra capacidade: formar um ship novo a partir de dois atores que já possuem carreira. Isso modifica a sensação produzida pela dupla pois há segurança física, e há experiência. Os personagens são adultos com profissões estabelecidas.

Sexo, desejo, consentimento, insegurança corporal e vulnerabilidade podem ser tratados dentro de uma relação em que o primeiro beijo não precisa carregar sozinho toda a descoberta do mundo.

A série conserva muito da leveza da comédia romântica, mas seus protagonistas pertencem a uma geração de atores que já sabe ocupar a câmera. É outro sinal de amadurecimento industrial. O BL deixa de precisar buscar novidade apenas na juventude. Pode produzir novidade através do encontro entre experiências anteriores.

A universidade permanece, agora como memória confortável

Ao mesmo tempo, We Are retorna quase obstinadamente àquilo que parecia mais familiar.

Universidade.
Amigos.
Casais múltiplos.
Brincadeiras.
Ciúmes.
Convívio cotidiano.

O elenco, porém, transforma completamente o significado desse retorno.

Pond Naravit e Phuwin Tangsakyuen chegam com uma trajetória conjunta que passa por Fish Upon the Sky e Never Let Me Go. Winny Thanawin e Satang Kittiphop já haviam conquistado espaço dentro do ecossistema GMMTV. Aou Thanaboon e Boom Tharatorn vinham acumulando pequenas participações e reconhecimento.

Outros atores completam um conjunto em que a amizade possui peso quase tão grande quanto os romances. O resultado lembra, de maneira distante, uma característica que estava no coração de Love Sick: o mundo não termina no casal principal.

Há grupos. Há convivência. Há pessoas entrando e saindo de quartos, corredores, bares e atividades universitárias.

O espectador pode escolher favoritos. Pode acompanhar várias relações. Pode permanecer pela companhia.

Mas aquilo que em 2014 parecia uma descoberta do próprio formato agora surge como conforto. A universidade deixou de ser inevitabilidade. Por isso pode voltar a ser prazer.

A indústria já passou por máfia, investigação criminal, viagem temporal, reencarnação, política, horror, melodrama histórico e drama existencial. Ninguém precisa mais provar que o BL consegue sair do campus. Voltar ao campus torna-se escolha. Em certo sentido, We Are é quase uma memória inconsciente da primeira fase. A diferença está em tudo aquilo que aconteceu entre uma coisa e outra.

Uma geração pode herdar uma propriedade estrangeira

O retorno à juventude adquire outra forma em My Love Mix-Up! Thailand. Gemini Norawit e Fourth Nattawat, cuja ascensão em My School President havia sido tão rápida, assumem agora uma adaptação tailandesa de uma propriedade japonesa já conhecida do público BL internacional.

A premissa conserva o mecanismo central do original: um equívoco envolvendo uma borracha e o nome de um colega transforma uma pequena confusão escolar em cadeia de mal-entendidos afetivos. O que importa historicamente, entretanto, é a circulação.

Nos primeiros capítulos de nossa história, Japão aparecia principalmente como uma das fontes culturais através das quais yaoi e BL haviam chegado ao imaginário tailandês. Uma década depois, uma obra japonesa contemporânea pode ser readaptada oficialmente utilizando uma das duplas tailandesas de maior projeção recente.

Já não existe uma linha simples entre centro e periferia, origem e reprodução, mas circulação asiática de propriedades, públicos e convenções. 

GeminiFourth também chega carregando sua própria memória. O espectador que os acompanhou em My School President não começa do zero. A nova história precisa negociar com uma química já conhecida. A propriedade estrangeira recebe atores que possuem repertório próprio.

A adaptação passa a existir no encontro entre duas memórias.

E, por falar em memória, talvez nenhuma dupla da GMMTV torne essa consciência temporal tão evidente quanto OffGun.

Em The Trainee, Gun Atthaphan interpreta Ryan, jovem que entra como estagiário num ambiente profissional ligado à produção audiovisual. Off Jumpol vive Jane, figura mais experiente dentro desse espaço de trabalho. O deslocamento parece simples, mas basta olhar para trás:

Puppy Honey.
Theory of Love.
Not Me.
Cooking Crush.
Agora The Trainee.

O espectador não acompanha apenas personagens diferentes interpretados pelos mesmos atores. Acompanha envelhecimento. Mudança de corpo. Mudança de registro. Mudança de posição social.

Nos primeiros trabalhos, grande parte da energia vinha da descoberta do casal. Agora a própria familiaridade pode ser utilizada como recurso. Off e Gun já não precisam convencer o público de que possuem alguma forma de presença conjunta, essa etapa ficou no passado, podem concentrar-se nos personagens. Há ainda uma ironia bonita na escolha do ambiente profissional.

Uma dupla que atravessou grande parte da história moderna do BL protagoniza uma série sobre jovens aprendendo como funciona uma indústria criativa. Jane orienta Ryan. OffGun, sem que a série precise dizer isso, já pertence à geração que poderia orientar quem está chegando. O ship envelheceu. E sobreviveu ao envelhecimento. Isso, por si só, constitui um acontecimento histórico.

No mesmo catálogo GMM TV, Only Boo! olha para o outro extremo. Keen Suvijak e Sea Dechchart aparecem como rostos de uma geração muito mais nova.

A história combina juventude, romance e o desejo de entrar no universo idol, permitindo que carreira artística e relação amorosa se choquem. A premissa parece leve, mas contém uma questão que se tornou cada vez mais importante para o próprio BL tailandês.

O que acontece quando amar alguém pode interferir na imagem profissional necessária para tornar-se artista? O problema pertence simultaneamente à ficção e ao mundo que produz a ficção.

Depois de anos discutindo fanservice, ships, contratos, gerenciamento de imagem e expectativas de fandom, uma história sobre jovem aspirante a idol já não consegue separar facilmente romance e indústria.

Keen também exemplifica a integração crescente entre música e atuação. A nova geração não é formada apenas para permanecer diante da câmera. Precisa cantar. Dançar. Participar de eventos. Falar com fandom. Sustentar presença digital. O ator BL aproxima-se cada vez mais do artista de entretenimento completo.

Joong, Aou, Santa e Pond formaram o grupo JASP.ER. Keen, Barcode, Aungpao e Ashi vão formar o CLO'VER.

Aquilo que para White e Captain ainda estava sendo improvisado em 2014 passa a constituir infraestrutura disponível para quem estreia dez anos depois.

MAME retorna aos casais que seu próprio universo criou. Love Sea oferece outra forma de continuidade. Fort Thitipong e Peat Wasuthorn, apresentados ao grande público como Prapai e Sky em Love in the Air, recebem agora novos personagens dentro de outra obra associada ao universo criativo de MAME.

A transferência é reveladora. FortPeat já não depende de PrapaiSky. A química comercial sobrevive aos personagens que a criaram. A nova narrativa desloca o casal para outro ambiente e explora novamente erotização, vulnerabilidade e as tensões entre alguém acostumado a proteger-se e alguém disposto a atravessar suas defesas. O processo é quase didático.

Primeiro, uma obra apresenta dois atores como casal secundário ou como parte de uma estrutura compartilhada. O público responde. A empresa preserva a combinação. Depois, entrega outra propriedade. O ship passa de consequência de casting a ativo empresarial. MAME havia aprendido essa lógica ao longo de anos, e em 2024, ela já faz parte do funcionamento ordinário de seu ecossistema.

A mesma permanência aparece em Two Worlds. Max Kornthas e Nat Natasitt já haviam construído uma trajetória dentro do universo Domundi/Mandee, com Cutie Pie e posteriormente outros projetos.

Agora entram numa fantasia ligada a universos paralelos, deslocando a dupla para uma forma narrativa bastante diferente daquela que primeiro consolidou sua popularidade. Esse movimento interessa menos pela simples mudança de cenário e mais por aquilo que confirma. Um ship estável pode tornar-se instrumento para experimentar gênero.

O público chega pelos atores. A obra utiliza essa confiança para levá-los a outro lugar. É uma inversão completa em relação ao início da indústria, quando a série precisava primeiro produzir o casal. Agora, às vezes, o casal ajuda a produzir a série.

Poucos casos demonstram tão rapidamente a estratégia de construção de catálogo quanto This Love Doesn't Have Long Beans.

Em Pit Babe, Sailub Hemmawich e Pon Thanapon haviam formado Alan e Jeff, um casal importante dentro de um elenco muito maior. Ali já observávamos como a CHANGE2561 parecia utilizar a série não apenas para apresentar PavelPooh, mas para colocar diversos atores diante do público e testar possíveis combinações.

Em 2024, essa hipótese encontra confirmação: SailubPon recebe protagonismo.

A nova história abandona as pistas de corrida e entra no universo da gastronomia, colocando os atores dentro de outra dinâmica romântica e profissional.

O deslocamento importa: AlanJeff não precisou de continuação, mas SailubPon precisou apenas de outra história. A empresa transforma atenção secundária em investimento posterior. Isso é precisamente aquilo que companhias com repertório aprendem a fazer. Um casal que funciona na periferia de uma obra pode tornar-se centro da próxima.

A série anterior passa, retrospectivamente, a funcionar como audição pública. Nesse sentido, This Love Doesn't Have Long Beans constitui uma pequena prova de que Pit Babe não havia lançado somente uma narrativa. Lançara uma geração empresarial.

A própria centralidade de Pavel Naret em Pit Babe, ainda muito presente no início de 2024, reforça essa tese. Nós o conhecemos desde 2 Moons 2. Vimos a instabilidade daquela franquia. Vimos atores dispersarem-se. Vimos Joong encontrar outra casa. Vimos Nine seguir outro caminho. Vimos carreiras reorganizarem-se.

Anos depois, Pavel encontrou em Babe um personagem capaz de recentralizar sua imagem. Sua trajetória impede qualquer leitura demasiado linear da indústria. Carreiras não crescem sempre.Às vezes desaparecem. Mudam de direção. Perdem um ship. Encontram outro. Esperam. Retornam. 

2024 está cheio desses retornos. 

4Minutes talvez seja um dos casos mais simbólicos.

Bible Wichapas havia sido apresentado a uma audiência enorme através de Vegas em KinnPorsche. VegasPete tornou-se uma das relações mais discutidas daquela produção, mas a história industrial da dupla não permaneceu intacta.

Quando Bible retorna ao centro de outra grande produção da Be On Cloud, ele já não está ligado ao mesmo parceiro. Jes Jespipat entra como Tyme. Bible interpreta Great.

A série trabalha tempo, culpa, violência, desejo e percepção dentro de uma estrutura fragmentada em que acontecimentos podem assumir significados diferentes conforme a narrativa avança.

A erotização permanece forte, como seria esperado de uma empresa que havia construído grande parte da identidade de KinnPorsche sobre a combinação entre desejo e espetáculo.

Mas existe aqui um teste industrial mais importante: Bible consegue sobreviver a VegasPete? A própria existência da série já oferece uma resposta parcial.

O ator pode carregar consigo reconhecimento anterior sem precisar reconstruir literalmente a dupla que o tornou conhecido.

Jes, por sua vez, chega com uma carreira de televisão muito mais ampla, criando outro encontro entre repertórios.

De novo, 2024 mostra que formar um casal novo não significa necessariamente juntar duas pessoas novas. Pode significar reorganizar duas biografias.

Century of Love leva esse problema de memória para dentro da própria narrativa.

Daou Pittaya e Offroad Kantapon, que haviam encontrado projeção como dupla em Love in Translation, retornam numa história construída ao redor de longevidade, reencarnação e espera.

San atravessa décadas sustentado por forças sobrenaturais enquanto aguarda o retorno de um amor perdido. Quando a pessoa que parece corresponder àquela promessa finalmente surge, a forma assumida por essa reencarnação desestabiliza expectativas construídas durante uma vida inteira.

O melodrama encontra fantasia. A fantasia encontra o lakorn.

E o romance masculino encontra uma tradição narrativa tailandesa profundamente acostumada a destino, família, promessa, sacrifício e vidas que atravessam gerações. DaouOffroad também amadurece como dupla.

Love in Translation havia servido como apresentação.

Century of Love exige peso melodramático muito maior.

É outro exemplo de um ship fixo que recebe material progressivamente mais exigente. A memória profissional começa a produzir expectativa de crescimento.

Jack & Joker: U Steal My Heart! realiza movimento semelhante com Yin Anan e War Wanarat.

A dupla havia conquistado público primeiro dentro do formato reduzido de En of Love, depois ganhara uma versão expandida de Love Mechanics,agora retorna com outros personagens e outra identidade narrativa.

Jack e Joker pertencem a um universo de crime, golpes, dívidas, desigualdade e pessoas tentando sobreviver às próprias escolhas. O que antes era romance universitário turbulento transforma-se numa história de ação, disfarces e reparação. A comparação entre as duas etapas é reveladora. YinWar já não precisa de VeeMark. Pode transportar o capital afetivo produzido por aqueles personagens para uma propriedade diferente.

O ship adquire cada vez mais biografia. Cada nova obra passa a funcionar como capítulo dessa biografia, sem que os personagens anteriores precisem ser ressuscitados. Esse mecanismo será cada vez mais importante para compreender a longevidade dos pares.

Nenhum caso talvez seja tão delicado para a memória recente da GMMTV quanto Kidnap.

Ohm Pawat chega carregando uma das trajetórias mais longas de toda a geração intermediária.

Make It Right, com duas temporadas e um especial
He's Coming to Me.
Bad Buddy.

Outros trabalhos fora e dentro do ecossistema BL. Durante anos, diferentes parceiros marcaram fases distintas de sua carreira.

Em Kidnap, ele aparece ao lado de Leng Thanaphon, antigo amigo de colégio.

A narrativa utiliza crime e sequestro como ponto de partida para a aproximação entre Min e Q, mas industrialmente existe outra história acontecendo ao mesmo tempo. Uma nova dupla está sendo apresentada ao lado de um ator cuja imagem já possui enorme carga de memória.

Leng não entra num espaço vazio. Entra diante de um fandom que conhece o passado de Ohm. Essa assimetria torna OhmLeng um caso particularmente interessante.

O veterano precisa permitir que o novo parceiro exista sem transformar cada cena numa comparação. O recém-chegado precisa construir presença própria sem fingir que a história anterior não aconteceu. Esse tipo de situação só se torna possível numa indústria suficientemente antiga para possuir antigas duplas. O BL começa a enfrentar algo que cinema, televisão e música conhecem há muito tempo. O público lembra. 

Mas o passado também pode ser reorganizado em novas combinações. No final do ano, Perfect 10 Liners leva essa lógica ainda mais longe.

A produção utiliza uma estrutura extensa e múltiplos casais, recuperando a universidade como grande espaço de convivência enquanto combina atores com trajetórias muito diferentes.

ForceBook chega depois de Enchanté, A Boss and a Babe e Only Friends. Já conhecemos sua evolução.

Mas outra combinação chama atenção de maneira especial: Perth Tanapon e Santa Pongsapak. Perth pertence à memória de Love by Chance. Santa havia construído trajetória própria ao lado de Earth Katsamonnat em projetos como 7 Project e My Only 12%. Agora dois atores conhecidos por parcerias anteriores são reorganizados. Isso representa uma etapa nova na maturidade do sistema. O ship não precisa terminar porque um ator perdeu a possibilidade de formar outro. A experiência anterior pode ser reaproveitada.

O fandom também aprende, com maior ou menor elegância, a lidar com substituição, mudança e recomposição. A indústria descobre que possui peças móveis. Não no sentido desumanizador de atores intercambiáveis, mas no sentido histórico de carreiras que não precisam permanecer aprisionadas à primeira combinação bem-sucedida.

A própria presença de Perfect 10 Liners, iniciada em 2024 e avançando para o ano seguinte, indica quanto a universidade ainda consegue servir de palco para novas genealogias mesmo depois de tudo o que aconteceu fora dela.

O campus permanece. Mas quem entra nele carrega dez anos de história nas costas.

The Rebound recupera Meen Nichakoon e Ping Krittanun numa narrativa ligada ao basquete.

A dupla já havia atravessado produções anteriores e demonstrava que nem todo ship precisa alcançar o nível de fenômeno de GMM TV ou Domundi para manter continuidade. Existe uma camada intermediária extremamente importante. Casais com fandom suficiente para continuar recebendo trabalhos. Atores que constroem carreira por repetição. Empresas que apostam na familiaridade acumulada. Esse estrato constitui boa parte da indústria real. Se observássemos somente os grandes fenômenos, perderíamos a sustentação do mercado.

Sunset x Vibes realiza algo semelhante com Mos Panuwat e Bank Mondop, que carregavam consigo a memória de Big Dragon.

A nova obra mistura ambiente profissional, desejo e elementos fantásticos, demonstrando novamente que um casal conhecido pode ser transferido para uma estrutura narrativa diferente sem precisar carregar seus antigos personagens.

Battle of the Writers faz o mesmo com Tutor Koraphat e Yim Pharinyakorn. Os dois haviam crescido dentro do universo Domundi/Mandee, inicialmente como parte do repertório de Cutie Pie e depois em projetos que lhes deram maior centralidade.

Agora entram numa história ligada à escrita, imaginação e representação visual de mundos ficcionais. A trajetória é exatamente aquela que a Domundi começara a aperfeiçoar anos antes.

Apresentar.
Observar.
Cultivar.
Promover.
Reaproveitar.

Mas nem toda combinação alcança imediatamente ZeeNuNew. Isso não impede que outras sejam transformadas em linhas próprias dentro do catálogo. 

Por isso Your Sky possui interesse particular: a Domundi já não pode viver apenas de sua primeira ou segunda geração.

Uma empresa que deseja durar precisa resolver um problema simples e brutal: apresentar gente nova antes que seu catálogo envelheça inteiro diante do público: Thomas Teetut e Kong Kongpob aparecem como parte dessa renovação.

A estrutura romântica utiliza elementos bastante familiares, incluindo proximidade produzida por circunstâncias e uma dinâmica que dialoga com fórmulas clássicas do gênero. Mas a função empresarial é diferente daquela de 2016. Os novos atores entram num sistema pronto.

Quando Captain e White começaram, quase tudo isso precisava ser descoberto. Quando uma nova dupla Domundi começa em 2024, existe uma estrada asfaltada. Pode tropeçar nela, naturalmente. Humanos mantêm esse talento admirável. Mas a estrada existe.

A GMMTV enfrenta o mesmo problema. Não basta preservar OffGun, TayNew, EarthMix ou outras duplas estabelecidas. É preciso produzir sucessão.

Only Boo! já participava desse movimento. Outros projetos de 2024 mostram a mesma preocupação.

No final do ano, ThamePo: Heart That Skips a Beat aproxima ainda mais o BL do universo idol. William Jakrapatr, integrante do LYKN, assume Thame, enquanto Est Supha interpreta Po.

A presença de um artista que já pertence efetivamente a um grupo musical faz a integração entre ficção e indústria quase desaparecer. 

A série fala de música, imagem, carreira e grupo utilizando pessoas que vivem dentro desse ecossistema. Aquilo que durante anos víamos como estratégia promocional torna-se matéria da própria narrativa. O ator canta porque o personagem canta. O personagem pertence a um grupo porque o intérprete também conhece aquele mundo.

O fandom musical pode encontrar o BL. O fandom BL pode encontrar o grupo. A circulação se completa.

The Heart Killers, iniciada no final de 2024, oferece outro exemplo claro da liberdade conquistada. First Kanaphan e Khaotung Thanawat chegam como dupla já consolidada. Joong Archen e Dunk Natachai também.

Em vez de reuni-los numa universidade confortável, a série os coloca dentro de uma narrativa de assassinos, investigação, sedução e humor negro sob direção de Jojo Tichakorn.

Dois ships conhecidos compartilham a mesma obra. Cada um traz seu próprio fandom. Cada dupla possui repertório anterior. A série pode brincar com expectativas porque as expectativas já existem. FirstKhaotung não começa em The Heart Killers. JoongDunk também não. O espectador carrega The Eclipse, Only Friends, Star in My Mind e outras memórias para dentro da nova produção.

Essa bagagem interfere na recepção.

Em 2014, o ator precisava convencer o público de uma personagem. Em 2024, às vezes precisa negociar também com os fantasmas de todas as anteriores.

A continuidade não pertence apenas aos atores. Spare Me Your Mercy demonstra isso de maneira particularmente clara.

A obra se conecta ao repertório de Sammon, autora que já acompanhamos através de Manner of Death e Triage. Mais uma vez medicina, crime, ética e desejo encontram-se. 

Tor Thanapob e JJ Krissanapoom assumem personagens envolvidos numa investigação que passa pela morte de pacientes e pela questão da eutanásia. O tema modifica o tipo de dilema moral colocado diante do romance.

O médico não existe apenas para fornecer profissão atraente ao protagonista: a profissão é o problema.

Quando aliviar o sofrimento pode aproximar-se de provocar a morte? Quem possui autoridade para decidir? Como investigar alguém quando aquilo que parece crime pode ser defendido como misericórdia? Até onde ética profissional e ética individual coincidem?

A presença de atores com carreiras amplas fora do núcleo tradicional do BL reforça novamente a dissolução das fronteiras.

Sammon também funciona como autora reconhecível. O público já pode associar seu nome a determinado universo de histórias. Isso é tradição. Não apenas personagens e atores possuem memória. Autores também passam a possuir obra.

Em camadas menos centrais, 2024 continua produzindo uma quantidade impressionante de pequenas experiências.

I Saw You in My Dream utiliza sonhos e antecipação como dispositivo para aproximar personagens e transformar aquilo que deveria pertencer ao inconsciente em problema concreto para a vida afetiva. Monster Next Door trabalha proximidade física e diferença de personalidade, colocando lado a lado maneiras muito distintas de habitar o mundo social.

Deep Night desloca o romance para ambientes noturnos de entretenimento e performance, permitindo que desejo, trabalho e imagem pública se misturem em espaços raramente ocupados pelos primeiros BLs. Knock Knock, Boys! utiliza convivência compartilhada e conversas mais francas sobre sexo e experiência afetiva, lembrando que a comédia ainda pode servir como espaço para personagens falarem sobre aquilo que séries anteriores frequentemente deixavam apenas implícito.

Memory in the Letter recorre novamente ao fantástico para trabalhar distância, comunicação e impossibilidade. 

1000 Years Old e OMG! Vampire demonstram como vampiros, criaturas sobrenaturais e comédia podem agora conviver tranquilamente com a estrutura BL sem precisar justificar a combinação.

City of Stars aproxima romance, celebridade e exposição pública, tema inevitavelmente pertinente numa indústria em que a imagem digital dos próprios atores se tornou parte essencial de suas carreiras.

Nenhuma dessas obras precisa ser transformada artificialmente em marco histórico.Seu conjunto importa mais que qualquer caso isolado. A abundância é o fato.

O BL tailandês de 2024 consegue produzir obras médicas, universitárias, policiais, sobrenaturais, esportivas, profissionais, gastronômicas, musicais e fantásticas ao mesmo tempo. Aquilo que em 2022 ainda chamávamos de transbordamento agora constitui rotina.

Every You, Every Me: os mesmos rostos, outras vidas

Every You, Every Me oferece uma brincadeira particularmente adequada a esse momento histórico.

Top Piyawat e Mick Monthon, que já cruzaram nosso percurso em produções anteriores, são utilizados através de diferentes histórias e identidades. A repetição dos mesmos intérpretes transforma-se em princípio formal.

O espectador reconhece os rostos. Os personagens mudam. É quase uma destilação daquilo que a própria indústria aprendeu a fazer com os ships. Dois atores podem amar-se de novo.

E de novo. E de outra maneira.

Não porque os personagens tenham reencarnado necessariamente, mas porque a dupla profissional funciona como estrutura capaz de receber novas ficções.

O ship torna-se espécie de repertório teatral. O público aceita o jogo.

Sabe que aqueles homens não são as mesmas pessoas da história anterior. Mas parte do prazer vem justamente de reconhecê-los. Depois de tantos anos discutindo a independência progressiva entre ator, personagem e casal promocional, uma obra desse tipo parece quase inevitável.

Projetos como Fourever You acrescentam outra camada importante.

Earth Katsamonnat já está conosco desde Until We Meet Again e, antes disso, pertence àquela rara história de atores abertamente queer que conseguiram visibilidade significativa dentro do gênero. Sua carreira atravessou parceiros, empresas, papéis e fases diferentes.

Quando aparece novamente dentro de um conjunto de novos casais e novas possibilidades, sua presença carrega memória. Ele não precisa representar a mesma função. O próprio fato de continuar já significa alguma coisa.

A indústria de 2024 possui atores que sobreviveram tempo suficiente para que sua permanência possa ser comparada com aquilo que eram cinco anos antes.

Isso parece banal em indústrias maduras, mas no BL tailandês, é uma conquista recente, e esse contraste entre veteranos e recém-chegados é talvez a melhor maneira de compreender 2024.

E então Love Sick retorna

No meio de todas essas recombinações, remakes, novos parceiros, veteranos e gerações emergentes, a indústria realiza o gesto que oferece a este primeiro grande ciclo seu encerramento mais natural.

Love Sick 2024 retorna à história de Phun e Noh.

Dez anos depois.

A mesma propriedade que utilizamos para marcar o início de nossa primeira era reaparece quando tudo aquilo que ela ajudou a tornar possível já existe.

Almond Poomsuwan e Progress Passawish assumem os papéis centrais da nova geração. Eles entram em personagens que não chegam vazios à tela.

Phun e Noh já possuem memória.

Existem leitores que conheceram a novel.Existem espectadores que acompanharam White Nawat e Captain Chonlathorn. Existem músicas associadas à primeira adaptação.

Existem cenas lembradas. Existem expectativas.

Há pessoas assistindo ao remake capazes de recordar exatamente onde estavam quando conheceram aquela história uma década antes.

Essa situação seria impossível em 2014.

Na primeira versão, quase tudo parecia descoberta, o público aprendia os personagens. A indústria aprendia o público. Os atores aprendiam aquilo que significava tornar-se ship. Produtores aprendiam até onde a atenção poderia sobreviver fora dos episódios. Fãs organizavam legendas, páginas, vídeos e comunidades enquanto o próprio vocabulário ainda estava sendo estabilizado. Em 2024, a nova versão encontra uma infraestrutura inteira esperando por ela.

O remake já nasce dentro de uma indústria que conhece:

ships;
fanservice;
OSTs;
eventos;
merchandising;
fandom internacional;
redes sociais;
agências especializadas;
plataformas digitais;
conteúdo promocional;

e a possibilidade de transformar atores adolescentes em artistas com carreira planejada para continuar depois da série.

O contraste não poderia ser maior. Mas a história ainda começa com jovens.

Uniformes.
Amigos.
Música.
Confusão.
Desejo.

A descoberta de que determinado vínculo já não cabe confortavelmente dentro da palavra amizade.

Isso talvez seja o mais bonito.

Depois de uma década inteira tentando descobrir quantas formas o BL poderia vestir, a indústria retorna à simplicidade do primeiro amor. Não porque tenha esquecido aquilo que aprendeu, mas porque agora pode olhar para aquilo de onde veio.

O remake funciona quase como um experimento histórico involuntário. Quando a matéria narrativa permanece reconhecível e o ambiente industrial muda completamente, conseguimos observar aquilo que dez anos fizeram ao gênero.

Mudou a maneira de filmar.
Mudou a expectativa de atuação.
Mudou a relação entre série e promoção.
Mudou o modo como o público internacional acompanha os episódios.
Mudou a velocidade com que cenas circulam.
Mudou a forma como um ship pode ser construído.
Mudou a relação entre atores e redes sociais.
Mudou o próprio significado de chamar alguma coisa de BL.

Em 2014, Love Sick estava ajudando a descobrir se uma produção centrada em rapazes apaixonados poderia sustentar público suficiente para tornar-se fenômeno continuado. Em 2024, ninguém precisa fazer essa pergunta.

O público já existe.
As empresas já existem.
Os concorrentes já existem.
As convenções já existem.
A memória já existe.

Por isso a nova versão carrega uma responsabilidade que a primeira jamais teve. Precisa conversar com espectadores que já conhecem aquela história sem transformar nostalgia em museu. Precisa permitir que novos atores ocupem personagens marcados por outros intérpretes. Precisa existir para adolescentes de 2024 sem apagar aquilo que a obra representou para jovens de 2014.

Essa tensão torna o remake historicamente mais interessante do que qualquer comparação simples de qualidade.

Não precisamos decidir qual Phun é melhor. Não precisamos decidir qual Noh é definitivo.

A pergunta realmente útil é outra: o que significa contar novamente Love Sick depois de tudo aquilo que aconteceu porque histórias como Love Sick foram contadas?

A diferença entre as duas versões está também no espectador. Quem acompanhou a primeira série envelheceu. Alguns permaneceram no fandom. Outros partiram e voltaram. Muitos conheceram dezenas ou centenas de BLs durante a década seguinte. Há espectadores que chegam ao remake sem qualquer memória da primeira adaptação. E há uma geração ainda mais jovem para quem 2014 já pertence a uma espécie de pré-história digital.

A mesma obra passa, portanto, a unir temporalidades.

Para uns, descoberta. Para outros, retorno.

O remake transforma fandom em memória coletiva. Há algo quase excessivamente perfeito na imagem de Almomd e Progress, que já nascem com o carisma de uma década de cultivo.

Em 2014, dois rapazes de uniforme aparecem diante de um público que ainda não sabe exatamente o tamanho daquilo que está começando.

Em 2024, outros dois rapazes vestem os mesmos personagens diante de uma indústria capaz de produzir máfia, horror, viagem temporal, melodrama histórico, thrillers médicos, séries políticas, romances profissionais, histórias sobre deficiência, reencarnação, idols e universos paralelos.

Entre essas duas imagens existem dez anos.

White e Captain.

Krist e Singto.

Off e Gun.

Max e Tul.

Perth e Saint.

Fluke e Ohm.

Mew e Gulf.

Bright e Win.

Billkin e PP.

Earth e Mix.

Ohm e Nanon.

Zee e NuNew.

Gemini e Fourth.

Pavel e Pooh.

E dezenas de outros nomes que passaram, permaneceram, desapareceram ou ainda retornarão.

Existem produtoras que nasceram. Outras que mudaram. Algumas que desapareceram.

Diretores construíram filmografias. Autores transformaram novels em universos.

Músicas tornaram-se memória de gerações.

Casais fictícios geraram casais promocionais. Casais promocionais sobreviveram a seus personagens. Atores se tornaram casais reais. Alguns não sobreviveram uns aos outros.

Atores mudaram de parceiro.

Fandoms aceitaram.

Fandoms recusaram.

Empresas aprenderam.

Às vezes aprenderam coisas erradas.

Mas aprenderam.

E, depois de tudo isso, Phun e Noh voltam.

Não para demonstrar que nada mudou.

Justamente para tornar visível o quanto mudou.

História Crítica dos BLs Tailandeses X: ERA IV — Quando a fórmula transbordou: o BL depois de seus próprios limites (2022–2023)


 "Antes de você, 
eu não tinha entendido o significado do amor verdadeiro. 
Mas o dia em que eu finalmente compreendi, 
foi justamente o último..." 
(Image Suthitha, OST de I Feel You Linger in the Air)

Fase II: Mil maneiras de amar, a multiplicação das formas (2023)

Se 2022 foi o ano em que o BL demonstrou que podia vestir outras formas, 2023 começa quando essa descoberta já não precisa mais ser defendida. Não existe uma direção única.

O romance entre homens pode habitar um restaurante aberto durante a madrugada, uma mansão dos anos 1920, uma oficina mecânica, uma pista de corrida, uma delegacia, um escritório, uma cozinha universitária, um universo sobrenatural ou uma relação construída entre pessoas que sequer enxergam o mundo da mesma maneira.

A diversidade formal deixa de parecer experiência e torna-se condição normal da indústria.

Talvez por isso 2023 seja menos fácil de resumir que os anos anteriores. Não aparece uma nova fórmula destinada a substituir a antiga. Surgem linhagens simultâneas, algumas delicadas, outras violentas; algumas profundamente comerciais, outras quase intimistas; umas interessadas em erotização, outras em silêncio, memória ou trabalho.

O BL já não precisa caminhar numa única direção.

Pode espalhar-se.

Moonlight Chicken oferece uma boa porta de entrada para esse momento.

Sob a direção de Aof Noppharnach, a série acompanha Jim, interpretado por Earth Pirapat, proprietário de um pequeno restaurante especializado em arroz com frango, e Wen, vivido por Mix Sahaphap. O encontro entre os dois acontece durante a noite, mas a relação precisa sobreviver àquilo que aparece quando amanhece.

Trabalho.
Dinheiro.
Família.
Responsabilidade.
Relacionamentos anteriores.
Diferença de idade.
Cansaço.

Jim já não é um jovem descobrindo o amor. É um homem que aprendeu a organizar a vida ao redor daquilo que consegue controlar e que percebe qualquer nova intimidade como ameaça ao equilíbrio precário que construiu. Wen também não chega vazio. Carrega uma relação anterior com Alan, interpretado por First Kanaphan, que se recusa a desaparecer apenas porque os sentimentos mudaram.

O romance existe dentro de uma rede de pessoas que trabalham, sofrem, devem dinheiro, sustentam parentes e precisam continuar abrindo o restaurante no dia seguinte. Esse cotidiano material distingue Moonlight Chicken.

A pobreza e a classe não funcionam apenas como decoração dramática. O dinheiro determina escolhas. A série também reúne gerações diferentes do sistema GMMTV.

EarthMix já constitui um ship consolidado.FirstKhaotung aparece dentro de outra configuração afetiva.

Gemini Norawit e Fourth Nattawat, recém-saídos do fenômeno de My School President, surgem como Heart e Li Ming. O núcleo dos dois jovens oferece outro tipo de delicadeza.

Heart vive com deficiência auditiva e sofre profundamente com o isolamento imposto pela própria família. Li Ming aprende a comunicar-se com ele não como gesto heroico, mas porque deseja realmente conhecê-lo. O relacionamento nasce do esforço de aproximar mundos. Um adendo interessante é que, embora lançado depois, Moonlight Chicken foi gravado antes de My School President, sendo esta, portanto, sua primeira experiência na atuação, já sustentando uma carga dramática invejável. 

Esse contraste entre gerações é muito bonito: enquanto Jim teme mudanças porque já acumulou perdas demais, Li Ming deseja partir porque ainda precisa descobrir que vida pode construir. Num único elenco, a GMMTV coloca veteranos, ships consolidados e sua nova geração de estrelas.

Se Enchanté havia apresentado ForceBook sem conseguir transformar a série no mesmo fenômeno que a dupla viria a se tornar, A Boss and a Babe (2023) oferece a Force Jiratchapong e Book Kasidet um material muito mais ajustado às suas qualidades.

Book interpreta Cher, jovem expansivo que chega como estagiário a uma empresa de jogos e imediatamente desestabiliza a rotina de Gun, seu chefe, vivido por Force.

A oposição é simples: Gun é contido, profissional e pouco acessível. Cher fala demais, atravessa formalidades com facilidade e possui uma energia que recusa a distância que a hierarquia profissional deveria impor entre eles.

O que em Enchanté ainda parecia uma química em formação encontra aqui um ritmo muito mais natural. Force funciona melhor quando pode explorar a rigidez de um personagem cuja compostura começa gradualmente a falhar; Book encontra em Cher um papel que utiliza sua energia, humor e expressividade em vez de tentar contê-los.

A importância da série para nossa história não está em inaugurar uma nova linguagem, está em demonstrar que um ship fixo também pode ser desenvolvida por tentativa. A primeira obra não precisa descobrir imediatamente a combinação ideal entre dois atores. Uma empresa pode perceber potencial mesmo quando a série inicial possui recepção apenas moderada, preservar a dupla e procurar outro material. Foi exatamente o que aconteceu com ForceBook.

Enchanté apresentou. A Boss and a Babe consolidou. E Only Friends, ainda no mesmo ano, testaria até onde os dois poderiam ir.

Essa sequência é particularmente preciosa porque acontece em pouco tempo. Em uma obra, Force e Book participam de uma comédia romântica de escritório relativamente confortável; na outra, precisam lidar com sexualidade mais explícita, egoísmo, manipulação, ciúme e relações moralmente instáveis.

O ship deixa de determinar o tipo de história e torna-se um instrumento que pode atravessar registros diferentes.

A Boss and a Babe também participa da saída gradual da universidade como espaço obrigatório. Ainda lidamos com juventude e formação profissional, mas o romance precisa conviver com escritório, hierarquia, carreira e responsabilidades que pertencem ao início da vida adulta.

A relação chefe-estagiário levanta inevitavelmente uma diferença de poder que a comédia frequentemente suaviza, mas sua presença já revela como o BL começa a procurar conflitos em ambientes profissionais antes ocupados apenas de maneira ocasional.

Há ainda um aspecto empresarial revelador.

A GMMTV demonstra paciência.

Em vez de abandonar ForceBook porque Enchanté não havia alcançado o nível de repercussão de seus maiores sucessos, continua investindo nos dois até encontrar um projeto capaz de tornar mais evidente aquilo que funcionava na dupla.

Essa política será cada vez mais importante nas gerações seguintes pois alguns ships explodem imediatamente, enquanto outros precisam ser cultivados. ForceBook pertence claramente ao segundo grupo. E talvez seja justamente por isso que sua trajetória nos interessa tanto: ela permite enxergar uma empresa aprendendo que química, atuação e familiaridade também amadurecem.

Enquanto Moonlight Chicken observa a vida adulta pela intimidade cotidiana, Only Friends prefere retirar qualquer verniz de pureza.

Dirigida por Jojo Tichakorn, a série reúne Force Jiratchapong e Book Kasidet como Top e Mew, First Kanaphan e Khaotung Thanawat como Sand e Ray, além de Neo Trai e Mark Pakin como Boston e Nick.

Amizade, sexo, dependência, ciúme, alcoolismo, desejo e traição circulam entre os personagens de maneira quase contagiosa.

A grande liberdade de Only Friends está em permitir que personagens queer sejam moralmente desorganizados. Eles não precisam representar modelos.

Podem mentir.
Trair.
Desejar a pessoa errada.
Ferir alguém.
Voltar atrás.
Ou não.

Depois de anos em que muitos BLs precisavam proteger cuidadosamente a imagem romântica de seus pares, Jojo utiliza justamente atores associados a ships populares para contar uma história em que os casais não recebem essa proteção. Isso produz um jogo industrial fascinante.

ForceBook e FirstKhaotung chegam carregando fandoms prévios. A série, contudo, não pode permitir que a necessidade de preservar esses ships elimine a sujeira dos personagens.

Neo e Mark formam outra combinação importante. Neo já atravessara diferentes papéis e parceiros desde ’Cause You’re My Boy, enquanto Mark começava a consolidar uma presença capaz de ultrapassar funções secundárias.

A série funciona quase como teste de maturidade para um fandom que precisa separar progressivamente ator, ship e personagem. Essa distinção se tornará cada vez mais necessária.

Outro caminho para a vida adulta aparece em Bed Friend.

Produzida dentro do ecossistema Domundi/Mandee, a série apresenta Net Siraphop e James Supamongkon como King e Uea, colegas de trabalho cuja relação inicialmente física adquire complexidade emocional.

A erotização é evidente, mas o núcleo de Uea acrescenta trauma familiar, abuso e assédio profissional, impedindo que o sexo funcione apenas como elemento promocional.

Também encontramos aqui uma Domundi muito diferente daquela que enfrentara a pandemia com Why R U?. A empresa já possui estrutura de elenco, música, publicidade e promoção capaz de sustentar novos ships paralelamente a ZeeNuNew. O crescimento da Domundi deixa de depender de um fenômeno único.

A mesma lógica de mobilidade aparece de maneira quase didática com ForceBook.

Depois de Enchanté, a dupla protagoniza A Boss and a Babe, comédia romântica ambientada no trabalho, e poucos meses depois aparece em Only Friends, em registro completamente distinto. O contraste é mais importante que qualquer análise exaustiva da primeira série: num mesmo ano, o ship pode ser doce, cômico e relativamente confortável numa produção, depois sexualmente tenso e moralmente instável em outra. A dupla deixa de ser gênero.

Essa talvez seja uma das maiores conquistas industriais da fase.

Essa mobilidade dos ships coexistia, contudo, com outra função bastante antiga do BL: a universidade ainda permanecia como espaço privilegiado para apresentar novos rostos e testar novas combinações.

Destiny Seeker (2023) demonstra, já em 2023, oferece um exemplo curioso da capacidade de sobrevivência da universidade.

Depois de tudo aquilo que o BL já havia aprendido a fazer, rivalidades estudantis, dormitórios, faculdades e amizades juvenis continuavam disponíveis. A diferença estava na maneira como essas convenções podiam ser utilizadas.

Earth Chitsanupong e Bank Nuttawatt (Friend Forever) protagonizam a série como Songkhram e Ai, jovens colocados em posições rivais dentro do ambiente universitário. O conflito inicial pertence a uma tradição que o espectador reconhece imediatamente: competição, provocações e convivência progressivamente transformadas em atração.

Nada disso é propriamente novo, mas já não precisa ser. Em 2023, uma série universitária pode existir sem carregar a responsabilidade de redefinir o gênero.

Pode concentrar sua força na química dos intérpretes, no desenvolvimento do casal e numa abordagem da intimidade física mais confortável do que aquela encontrada em boa parte das produções universitárias da primeira geração.

É justamente esse aspecto que torna Destiny Seeker útil.

A estrutura lembra o passado, mas o tratamento dos atores e do desejo pertence a outra fase.

Earth e Bank conseguem transformar o material relativamente familiar numa dupla capaz de permanecer na memória do público, e essa permanência acaba sendo mais importante que qualquer inovação específica do roteiro.

Aqui encontramos novamente aquele fenômeno que já se tornou recorrente em nossa história: a série pode ser modesta, o ship pode sobreviver a ela.

Quando os dois voltam a aparecer juntos em projetos posteriores, já não precisam ser apresentados do zero. Existe uma lembrança anterior, uma expectativa, uma familiaridade construída em Destiny Seeker.

A universidade continua, portanto, cumprindo uma de suas funções mais antigas. Ainda é um excelente lugar para apresentar pessoas.

Essa lógica torna My Destiny especialmente útil como documento.

Mais do que procurar nela uma obra destinada a modificar os rumos da indústria, interessa observar a quantidade de rostos e combinações que passam por sua estrutura.

Projetos desse tipo funcionam quase como catálogo provisório de uma geração. Alguns intérpretes já chegam conhecidos de outras produções, outros ainda estão tentando conquistar espaço. Algumas duplas serão preservadas, e outras desaparecerão rapidamente. Certos atores retornarão anos depois com parceiros completamente diferentes.

E há combinações, como aquela recuperada de Destiny Seeker, cuja presença depende justamente da memória acumulada anteriormente. O espectador reconhece. A empresa aproveita esse reconhecimento.

A produção é organizada como uma antologia de doze histórias relativamente independentes, geralmente desenvolvidas em blocos curtos.

O formato possui uma vantagem industrial evidente.

Uma temporada convencional aposta grande parte de seus recursos numa única combinação de protagonistas. Uma antologia desse tipo pode colocar diante do público diversos atores, testar diferentes dinâmicas e observar quais rostos ou pares deixam alguma coisa para trás quando seu pequeno arco termina.

É quase uma coleção de possibilidades.

O interesse historiográfico de My Universe está menos na tentativa de decidir qual dos doze segmentos é artisticamente superior e mais em observar o elenco como conjunto.

Alguns atores chegam trazendo pequenas histórias anteriores, outros entram quase como desconhecidos.

Há ainda pares que já demonstraram química em outro projeto e são recuperados porque existe uma memória pronta para ser ativada. Nesse sentido, a reaparição de uma combinação ligada a Destiny Seeker é especialmente reveladora.

Esse mecanismo deixa cada vez mais claro que a escalação de uma produção não serve apenas às necessidades daquela história. Também funciona como oportunidade para medir recepção, formar repertório e manter atores visíveis entre projetos maiores.

Em outras palavras, o elenco passa a carregar duas temporalidades. Existe o presente da narrativa que estamos assistindo. E existe o futuro potencial das carreiras que ainda não sabemos quais serão. Essa incerteza é parte do valor documental dessas obras.

Observadas no lançamento, parecem apenas reunir jovens atores. Observadas anos depois, permitem perguntar: quem permaneceu? quem encontrou um ship? quem mudou de empresa? quem amadureceu como intérprete? quem desapareceu? quem precisou esperar anos até encontrar a obra certa?

A série torna-se quase uma fotografia de turma cuja importância só será inteiramente conhecida depois. Alguns arcos merecem atenção especial.

Casanova Begins abre a antologia com uma premissa que já anuncia a liberdade formal do projeto. Gym Thunyah Teerakachornkit interpreta Pluem, jovem morto há dois anos cuja alma desperta inesperadamente no corpo de Kim, um rapaz conhecido justamente por sua vida de “casanova”. Prame Pumipat Paiboon vive Khunkao, antigo namorado de Pluem, de quem ele tenta novamente se aproximar.
A fantasia possui uma regra cruel: se alguém descobrir sua verdadeira identidade, Pluem morrerá novamente em poucas horas.

O romance nasce, portanto, de um paradoxo. Para recuperar o homem que ama, Pluem precisa convencê-lo de um sentimento cuja origem não pode explicar. O corpo que Khunkao vê não corresponde à pessoa que ele conheceu, enquanto Pluem precisa descobrir quanto de uma relação depende da identidade, da memória e da aparência através da qual reconhecemos alguém. Logo no primeiro segmento, a antologia deixa claro que não pretende limitar-se ao romance universitário convencional.

Em seguida, Marry Go Round recupera uma dupla que nosso leitor já conhece: Earth Chitsanupong Soeksiri e Bank Nuttawatt Thanathaveeprasert, protagonistas de Destiny Seeker, retornam agora como Tob e Boss. Tob e Boss estão prestes a casar, e a história acompanha preparativos, inseguranças e conflitos familiares que ameaçam transformar uma celebração em teste de resistência para o relacionamento.

A mudança de posição é interessante. Em Destiny Seeker, Earth e Bank pertenciam ainda ao universo da aproximação, da rivalidade e da descoberta. Aqui recebem personagens que já ultrapassaram a formação do casal e precisam perguntar se estão preparados para transformar a relação em compromisso duradouro.O reencontro também demonstra que Destiny Seeker havia produzido algo que podia ser transportado. Não necessariamente uma franquia. Uma familiaridade. O público reconhece EarthBank e pode aceitar imediatamente outra relação porque a química percebida anteriormente já funciona como capital afetivo.

Right Time Right You abandona o compromisso já estabelecido e volta à possibilidade do recomeço. Milk Natchanon Supravorawong interpreta Phat, que retorna à Tailândia tentando reorganizar a vida depois de uma decepção amorosa. Junior Chokkorn Deotrakul vive Mok, irmão mais novo do melhor amigo de Phat, cuja aproximação transforma aquilo que deveria ser apenas um período de recuperação numa possibilidade inesperada.

O arco utiliza uma pergunta simples: é possível encontrar a pessoa adequada num momento em que ainda não estamos preparados para encontrá-la? O título já contém o conflito. Não basta ser a pessoa certa. Existe também o tempo certo. Junior merece ser guardado na memória porque Mok reaparecerá no encerramento da própria antologia. My Universe começa, assim, a mostrar que seus segmentos não são inteiramente descartáveis depois que terminam. Alguns personagens continuam existindo fora do pequeno espaço inicialmente concedido a eles. Ele também vai voltar em 2014 com Live in Love.

A ideia de destino passa do tempo para a superstição em You Are My So(ul)mateTop Piyawat Phongkanittanon interpreta Son, criado dentro de uma família que acredita que encontrar a mesma pessoa casualmente três vezes constitui sinal de que ela é sua alma gêmea. Mick Monthon Viseshsin vive Korn.

O encontro repetido transforma uma crença familiar quase folclórica numa pergunta romântica: quando coincidências começam a parecer destino, estamos reconhecendo alguma ordem do universo ou apenas atribuindo sentido àquilo que desejamos que tenha significado?

Mick merece atenção especial porque já o encontramos em La Cuisine, onde a intimidade nascia de comida, rotina e convivência. Aqui ele entra numa história organizada por coincidência e predestinação.
Sua presença também se prolonga dentro da própria My Universe. Ele e Top vão retornar numa espécie de antologia própria em 2024, e Top retorna também no aclamado, e violento, The Bagkok Boy.

Lucky Love trabalha outra manifestação da mesma obsessão pelo acaso. Cheetah Chonphiphat Phajee interpreta Meen, que atravessa um término doloroso e aceita cuidar do restaurante de um veterano. É nesse espaço que encontra Jeng, vivido por Putter Phubase Pratumrat. O restaurante funciona como espaço de reconstrução. 

Meen não sai deliberadamente procurando outro amor. Primeiro precisa continuar vivendo depois da relação anterior. O encontro com Jeng aparece no intervalo entre uma perda e a tentativa de reorganizar o cotidiano. A “sorte” do título adquire, então, uma conotação menos mágica. Talvez sorte seja simplesmente estar em determinado lugar quando já havíamos desistido de esperar alguma coisa dele. Putter será uma grata surpresa no ano seguinte, numa obra de especial delicadeza: I Saw You In My Dreams.

The Camp Fire recupera dois nomes que já carregavam alguma memória própria dentro do BL. Turbo Chanokchon Boonmanawong interpreta Camp e Kaownah Kittipat Kaewcharoen vive Phol. Kaownah já havia adquirido reconhecimento anos antes em TharnType, como Lhong, personagem cuja função dramática o colocava numa posição bastante diferente da de protagonista romântico. Posteriormente, Kaownah e Turbo também trabalhariam juntos em Love Stage!! Thailand, consolidando uma familiaridade anterior que My Universe pode reaproveitar. Aqui os dois são levados para um espaço isolado.

Uma viagem de acampamento retira Camp e Phol de suas rotinas e oferece aquilo que tantas histórias românticas conhecem bem: distância do mundo habitual suficiente para que sentimentos guardados deixem de poder ser adiados. Fogueira, natureza, noite e isolamento fornecem quase toda a engenharia necessária. A familiaridade entre os atores faz o restante.

O interesse documental está igualmente nos atores. São nomes pertencentes a uma camada do mercado que ainda busca maior estabilização, precisamente o tipo de intérprete que uma antologia extensa consegue colocar diante de um público já habituado a descobrir novas duplas. Nem todos os experimentos precisam produzir um fenômeno imediato. A circulação já possui valor.

Fake Love desloca a antologia para terreno mais psicológico. Rew Passakon e North Chatchaong vivem dentro de uma relação inicialmente organizada por pretextos falsos, manipulação e aparência. Aqui a velha fórmula do relacionamento encenado perde parte da leveza que normalmente a acompanha. A pergunta deixa de ser apenas quando a mentira se transformará em amor. Interessa também saber o que acontece quando duas pessoas passam tempo suficiente representando determinado sentimento para que já não consigam localizar com precisão onde a atuação terminou.

A proximidade entre performance e afeto tem ainda uma ressonância inevitável dentro da história industrial que estamos contando. Depois de anos discutindo fanservice, ships e fabricação pública de intimidade, qualquer ficção sobre sentimentos encenados carrega ecos que o fandom reconhece imediatamente, mesmo quando a narrativa não está falando literalmente da indústria BL.

Em Pisces of Me, Nam Thanabadee surge ao lado de Nix Ketchanat Suwannabut, explorando a vida de irmãos gêmeos inseparáveis que precisam lidar com questões do crescimento: se apaixonar por um novo conhecido e ir estudar longe do irmão que sempre esteve ao seu lado. Numa narrativa delicada e envolvente a reflexão sobre o limite da presença e da liberdade se faze importante. 

A história utiliza signos do zodíaco e, especialmente, a simbologia associada a Peixes para trabalhar timidez, fantasia interior, hesitação e desencontro. O elemento astrológico prolonga uma obsessão que percorre vários arcos. Destino. Coincidência. Sorte. Alma gêmea. Compatibilidade. My Universe parece constantemente perguntar se existe alguma ordem anterior que aproxima duas pessoas.

A antologia finalmente assume por completo aquilo que o título prometia. Existe um universo. Mesmo que suas histórias tenham sido distribuídas em pequenos blocos e protagonizadas por combinações diferentes, algumas vidas continuam para além do episódio que lhes foi originalmente destinado. O reencontro também possui função industrial.

Junior e Cheetah já não chegam como rostos inteiramente novos. O público teve tempo para conhecê-los em outros segmentos, formar alguma relação com os personagens e perceber sua reaparição como acontecimento. A antologia cria a própria memória enquanto ainda está sendo exibida. Esse talvez seja o aspecto mais interessante de My Universe.

Algumas duplas chegam com uma genealogia anterior, como EarthBank ou TurboKaownah. Outros intérpretes chegam praticamente como possibilidades abertas. O resultado é mais complexo que uma simples coleção de romances. A produção funciona simultaneamente como ficção, catálogo e laboratório.

Para o espectador, existem doze histórias. Para os atores, existem doze oportunidades. Para a indústria, existe um conjunto inteiro de perguntas:

Quem o público reconheceu?
Quem produziu química?
Qual dupla merece retornar?
Qual ator funciona melhor em outra combinação?
Quem consegue sustentar protagonismo?
Quem ainda precisa amadurecer?
Quem será lembrado quando uma nova série precisar de elenco?

Observada em seu lançamento, My Universe parece uma sucessão de pequenos romances. Observada historicamente, transforma-se numa fotografia de uma camada inteira da indústria tentando descobrir quais rostos carregarão consigo para os anos seguintes. Alguns já chegaram com passado. Outros encontrarão futuro. E alguns permanecerão apenas ali. Essa diferença não diminui a importância da fotografia. É justamente aquilo que a torna histórica.

Em meio a essa multiplicidade, I Feel You Linger in the Air parece deslocar o tempo para outra velocidade.

Jom, interpretado por Nonkul Chanon Santinatornkul, é lançado para uma época anterior da história tailandesa e encontra Khun Yai, vivido por Bright Rapheephong.

A viagem temporal poderia transformar-se apenas num dispositivo de fantasia. A série prefere tratá-la como experiência de perda.

Jom pertence a outro tempo, ele sabe coisas que as pessoas ao seu redor ainda não viveram. Conhece liberdades que naquele mundo possuem limites diferentes. E, sobretudo, ama alguém sabendo que o próprio tempo talvez o reclame de volta. Esse conhecimento transforma cada aproximação em algo delicadamente provisório.

O amor como coisa que permanece no ar

Poucas séries do período possuem relação tão sensorial com o passado: casas antigas, madeira, tecidos, água, jardins, luz e silêncio constroem um mundo no qual o tempo parece possuir textura. A própria ideia contida no título é belíssima. Algo permanece depois que aquilo que o produziu já partiu.

Um perfume.
Uma presença.
Uma memória.

O amor de Jom e Yai passa a existir sob essa lógica, nenhum dos dois pode controlar inteiramente o tempo. Podem apenas deixar algo nele.

A série trabalha com uma espécie de melancolia antecipada. O espectador acompanha o nascimento do vínculo já consciente de que a própria estrutura temporal ameaça sua continuidade.

Por isso muitos gestos pequenos ganham peso desproporcional: um toque pode sobreviver mais na memória do que uma grande declaração, um lugar pode transformar-se em testemunha e um objeto pode continuar existindo depois que as pessoas desapareceram. O passado deixa de ser cenário bonito e transforma-se na própria matéria emocional da obra.

A história também possui desigualdade

A viagem ao passado traz consigo classe, gênero, hierarquias familiares e limitações sociais que o romance não consegue simplesmente ignorar. Yai pertence a uma estrutura social específica. Jom chega deslocado dela.

Outros personagens vivem formas de amor ainda mais limitadas pelas condições daquele período. A fantasia temporal permite observar aquilo que mudou e aquilo que permanece reconhecível. Isso aproxima a série de uma reflexão sobre memória histórica. Nós sabemos que aquelas pessoas não poderão viver todas as possibilidades que o futuro conhece. Mas elas ainda desejam.

Nonkul retorna às origens de nossa história

A presença de Nonkul possui um valor historiográfico particularmente bonito.

Ele já aparecia em Love’s Coming, uma das obras que utilizamos no prólogo para observar aquilo que existia às vésperas da formação industrial do BL.

Quase uma década depois, retorna como protagonista de uma produção historicamente ambientada, formalmente sofisticada e concebida para um público internacional já plenamente estabelecido. O ator atravessa praticamente todo o arco de transformação que estamos descrevendo.

Em 2014, aparecia próximo daquilo que ainda tentava encontrar nome. Em 2023, protagoniza uma obra que pode permitir-se falar sobre tempo, memória e história porque o gênero já não precisa explicar sua própria existência. Há algo elegantemente circular nisso.

Se I Feel You Linger in the Air transforma o tempo em matéria amorosa, La Pluie (2023) escolhe algo ainda mais íntimo. A audição.

Seu mundo parte de uma premissa fantástica de delicadeza quase imediata: algumas pessoas possuem uma condição associada à ideia de almas predestinadas. Quando começa a chover, os sons do mundo desaparecem. Resta apenas uma voz: a da pessoa que lhes estaria destinada.

Poucos dispositivos fantásticos poderiam traduzir de maneira tão simples uma fantasia amorosa muito antiga. Entre bilhões de ruídos, alguém é capaz de chegar até você. A chuva silencia o mundo. O amado permanece.

Essa imagem, por si só, já justificaria o interesse da obra, Mas La Pluie torna-se mais interessante quando começa a desconfiar da própria promessa. Se existe uma pessoa predestinada, ainda existe escolha? Amar alguém porque o universo decidiu é realmente amar? O que acontece quando desejo, afinidade e destino não apontam perfeitamente para o mesmo lugar? E se duas pessoas consideradas destinadas uma à outra simplesmente não conseguirem construir uma vida juntas?

A série utiliza uma fantasia romântica para introduzir um problema filosófico bastante antigo: a tensão entre destino e liberdade. A ideia de alma gêmea parece inicialmente oferecer conforto.

Existe alguém, e essa pessoa está lá fora. O próprio universo criou um mecanismo para que vocês se encontrem. O acaso foi eliminado. Mas eliminar o acaso também ameaça eliminar alguma coisa da escolha.

O amor perde parte de sua grandeza se for apenas cumprimento de uma ordem anterior? Ou justamente a escolha de permanecer, mesmo quando o destino já colocou duas pessoas diante uma da outra, é aquilo que finalmente transforma predestinação em amor?

La Pluie encontra sua poesia nessa dúvida.

A condição auditiva também transforma intimidade em fenômeno profundamente sensorial. Antes do corpo, existe a voz. Antes do toque, alguém é ouvido. A pessoa amada chega através de uma presença invisível.

Isso produz uma forma de proximidade curiosa: a voz consegue atravessar uma distância que o corpo ainda não venceu.

Durante a chuva, duas pessoas podem estar separadas fisicamente e, ainda assim, ocupar um espaço quase privado que o restante do mundo não consegue invadir. É como se a tempestade construísse um quarto invisível ao redor delas. Essa imagem merece espaço no capítulo porque conversa de maneira belíssima com outras produções de 2023.

I Feel You Linger in the Air pergunta o que permanece quando o tempo separa os amantes. La Pluie pergunta qual voz permanece quando todos os outros sons desaparecem. Last Twilight perguntará o que permanece do mundo quando a visão deixa de organizá-lo como antes.

Tempo.

Audição.

Visão.

Três formas diferentes de percepção transformadas em linguagem para falar de amor.

Mas La Pluie acrescenta algo particular a esse conjunto: sua verdadeira pergunta talvez não seja se existem almas predestinadas. É se a predestinação basta. E a resposta que começa a emergir é mais humana do que fantástica: p universo pode aproximar duas pessoas, mas ainda são elas que precisam decidir o que fazer depois que a chuva passa.

Se I Feel You Linger in the Air transforma tempo em melancolia, La Pluie reflete a decisão frente ao destino e  Last Twilight faz algo semelhante com a visão.

Dirigida por Aof Noppharnach, a série reúne Jimmy Jitaraphol e Sea Tawinan depois de Vice Versa.

Day, interpretado por Sea, enfrenta uma perda progressiva da visão. Mhok, vivido por Jimmy, entra em sua vida como cuidador trazendo as próprias feridas, inclusive uma relação dolorosa com perda e culpa. Uma premissa assim poderia facilmente escorregar para sentimentalismo manipulativo ou transformar a pessoa com deficiência em instrumento para o crescimento moral de quem a cerca.

Nos melhores momentos, Last Twilight procura outra coisa. Pergunta como alguém reorganiza o mundo quando aquilo que parecia permanente começa a desaparecer.

A série possui uma delicadeza curiosa na maneira como relaciona percepção e intimidade. Mhok pode enxergar fisicamente aquilo que Day já não consegue perceber da mesma maneira. Mas isso não significa que compreenda melhor. Ele precisa aprender a descrever.

A ouvir.
A esperar.
A perguntar.

Day precisa aprender quais formas de autonomia ainda deseja preservar e quais formas de ajuda consegue aceitar sem sentir que está entregando a própria vida a outra pessoa. 

A intimidade nasce dessa negociação. O cuidador precisa resistir à tentação de transformar cuidado em posse. Quem recebe cuidado precisa continuar sendo sujeito. O romance existe justamente nesse espaço difícil.

O último crepúsculo

A imagem do crepúsculo possui uma força poética quase óbvia e, ainda assim, funciona. É a luz quando já sabemos que a luz está acabando. Sua beleza depende do desaparecimento.

O “último crepúsculo” torna-se, portanto, mais que título ou imagem. Representa aquela tentativa profundamente humana de guardar alguma coisa justamente porque sabemos que não será permanente.

Day deseja ver. Mhok deseja oferecer-lhe experiências que possam permanecer. Mas a série gradualmente sugere que memória não depende apenas da imagem. 

Uma pessoa pode lembrar de uma voz, de uma textura, de um cheiro, da maneira como alguém segurou sua mão. O mundo não termina no limite da retina. Essa ideia confere à série seus momentos mais delicados.

A direção de Aof também retorna a temas que atravessam sua obra: pessoas deslocadas, famílias imperfeitas, cuidado e a possibilidade de construir comunidade através de relações escolhidas.

JimmySea amadurece visivelmente em relação a Vice Versa. A fantasia de universos paralelos dava à dupla um dispositivo externo bastante forte. Aqui boa parte das cenas precisa sobreviver simplesmente através de diálogo, gesto e confiança entre os intérpretes. A evolução do ship coincide com evolução de atuação.

Last Twilight também merece análise crítica sobre as escolhas posteriores relacionadas à deficiência e à resolução narrativa. Delicadeza estética não elimina as perguntas que a obra levanta sobre autonomia, normalidade e aquilo que considera um final satisfatório. Mas justamente por permitir esse debate, a série ocupa posição importante.

A poesia não precisa impedir a crítica.

Enquanto algumas obras tornam o romance mais delicado, Pit Babe segue quase na direção contrária.

A série entra no mundo das corridas automobilísticas, da competição, da masculinidade performática e de uma sexualidade muito mais frontal.

Pavel Naret interpreta Babe, piloto famoso e figura dominante dentro daquele universo. Pooh Krittin vive Charlie, jovem que entra em sua órbita e rapidamente transforma uma relação inicialmente marcada por atração e interesse em algo muito mais complexo.

A narrativa incorpora ainda vocabulário e convenções associadas ao Omegaverse, adaptando elementos como hierarquias biológicas, capacidades especiais e relações de poder para um produto televisivo de grande alcance. Isso, por si só, já seria notável. Um conjunto de códigos desenvolvido fortemente dentro de fanfics e literatura digital passa a compor uma série comercial tailandesa.

O corpo como espetáculo

Pit Babe não tenta esconder sua erotização.

Corrida, velocidade, suor, roupas, oficinas, camarins e cenas de intimidade participam de uma construção visual que transforma o corpo masculino em parte explícita da promessa comercial. O protagonista possui sentidos sobrenaturais e, por isso, literalmente necessita fazer sexo antes de cada corrida, para se concentrar, e o faz depois como recompensa.

Mas há uma diferença em relação a obras que simplesmente sexualizam um casal central: Pit Babe possui muitos homens. Muitos rostos. Muitas possibilidades. O elenco extenso é parte da estratégia.

Pavel chega carregando uma história que já conhecemos desde 2 Moons 2. Naquele momento, ele fazia parte de um conjunto que precisou reconstruir a própria carreira depois do colapso de uma franquia. Anos depois, retorna como protagonista de uma produção construída para lhe dar centralidade.

Sua trajetória resume muito do que este livro pretende mostrar: um fracasso industrial ou uma ruptura de ship não encerra necessariamente uma carreira. Às vezes apenas adia o momento em que determinado ator encontrará a obra capaz de reorganizar sua imagem.

Pooh, por outro lado, surge para grande parte do público como descoberta, e a combinação PavelPooh coloca lado a lado experiência acumulada e novidade.

Ao redor deles aparecem outros pares e atores, entre eles Sailub Hemmawich e Pon Thanapon (The Moment e The Moment Since) como Alan e Jeff, Nut Supanut (Oxygen) como Way, além de Garfield Pantach, Benz Atthanin (En of Love) e outros integrantes de um elenco deliberadamente numeroso.

Nem todos terão o mesmo destino, e esse é precisamente o ponto pois é aqui que a CHANGE2561 entra no tabuleiro.

A empresa por trás da produção, não utiliza Pit Babe apenas para lançar uma série. Utiliza-a para estabelecer presença dentro do mercado BL. Um elenco grande permite testar:

quem atrai público;
quais combinações produzem química;
quem funciona melhor em romance;
quem possui força individual;
quem pode cantar;
quem se adapta a eventos;
quem desenvolve fandom internacional.

A série transforma-se simultaneamente em obra e plataforma de lançamento. Essa lógica lembra os laboratórios que observamos em Y-Destiny e 7 Project, mas agora ocorre numa escala maior e com intenção empresarial ainda mais evidente. Ao redor de Pit Babe existe todo um repertório humano disponível para projetos futuros.

PavelPooh pode seguir uma direção. SailubPon, outra.

Atores inicialmente secundários podem receber novos papéis, novas duplas ou protagonismo posterior. A empresa não precisa reconstruir seu catálogo do zero a cada série, pode cultivar uma geração.

Esse é um passo muito importante pois GMM TV, Domundi, Studio Wabi Sabi, Me Mind Y, Be On Cloud e outras estruturas já haviam demonstrado formas diferentes de administrar elencos.

CHANGE2561 entra no nicho compreendendo que uma única obra de sucesso pode funcionar como porta de entrada para uma companhia inteira de atores.

A erotização atrai atenção, o elenco permite transformá-la em futuro. A estratégia torna Pit Babe industrialmente mais interessante do que seria se observássemos apenas Babe e Charlie.

No mesmo período, outra empresa tenta construir futuro através de uma linguagem completamente diferente. The Sign reúne Billy Patchanon e Babe Tanatat sob a estrutura da Idol Factory.

Billy chega carregando uma trajetória que passa por Secret Crush on You e War of Y. Sua antiga parceria promocional não define mais a carreira. Babe representa outra etapa.

A combinação dos dois surge numa produção que mistura investigação policial, ação, fantasia, reencarnação e elementos ligados à mitologia tailandesa. Isso importa especialmente depois de tantos anos em que o BL tailandês importou ou adaptou convenções internacionais.

The Sign procura força também em referências culturais locais. O fantástico não precisa vir de um universo genérico, pode nascer de mitologia reconhecivelmente tailandesa.

A relação central atravessa presente, passado, desejo e destino dentro de uma narrativa que tenta combinar procedural policial, ação física e romance.

Nem todas essas camadas funcionam com a mesma precisão, mas a ambição é historicamente reveladora. Um BL pode imaginar-se como espetáculo de ação mitológica. Billy também oferece outro exemplo daquilo que vimos em War of Y.

Be My Favorite devolve Krist Perawat ao centro de uma produção BL, agora ao lado de Gawin Caskey.

Kawi, insatisfeito com o rumo que sua vida tomou, recebe a possibilidade de voltar no tempo e alterar decisões. Aquilo que inicialmente parece uma fantasia de correção romântica transforma-se progressivamente em reflexão sobre arrependimento, escolha e a impossibilidade de construir uma vida perfeita apenas reorganizando acontecimentos.

A escala é menor que a de Triage, mas o dispositivo temporal possui função emocional bastante eficaz. Industrialmente, porém, a combinação KristGawin é ainda mais intrigante. Krist pertence à memória de KristSingto, um dos ships fundadores da GMMTV. Gawin construiu carreira muito mais circulante, atravessando diferentes parceiros e papéis. A série coloca esses dois modelos lado a lado.

O ator historicamente ligado a um ship fixo pode retornar ao BL em outra combinação. O ator conhecido justamente por circular pode ocupar posição de protagonista. Mais uma vez, o ship mostra-se uma possibilidade de carreira, não necessariamente uma sentença vitalícia.

A mesma ideia encontra versão diferente em Laws of Attraction.

Jam Rachata e Film Thanapat haviam conquistado grande atenção em To Sir, With Love. Em vez de simplesmente repetir aquele melodrama histórico familiar, reaparecem agora num thriller jurídico contemporâneo.

Film interpreta Charn, advogado cuja moralidade é no mínimo flexível. Jam vive Tinn, homem que busca justiça depois de uma tragédia familiar. A atração nasce entre pessoas que não compartilham os mesmos métodos nem a mesma relação com o poder.

JamFilm demonstra, portanto, que um par nascido dentro de uma estrutura próxima ao lakorn pode migrar para outro gênero mantendo o interesse do público. O fenômeno já não pertence apenas às empresas tradicionalmente identificadas com BL. A televisão generalista também aprende a trabalhar a permanência de duplas.

Em Love in Translation encontramos outra porta de entrada para o mercado. Daou Pittaya e Offroad Kantapon chegam carregando uma identidade construída também pela música e pelo universo idol, os dois participaram do reality LAZ iCON, em 2021, Daou em 1º e Offroad em 2º, e formaram a boyband de T-Pop LAZ1. O grupo encerrou suas atividades em 2023, mas a amizade entre DaouOffroad garantiu a continuidade da parceria, culminando numa das duplas mais carismáticas da indústria e que vai se marcar, a partir dos próximos projetos, pela proximidade com as narrativas históricas.

A passagem para o BL exemplifica uma circulação cada vez mais intensa entre grupos musicais, programas de formação de artistas e atuação. A indústria já sabe que um fã de música pode tornar-se espectador de série. E que o espectador de série pode tornar-se público de show. As fronteiras comerciais desaparecem antes mesmo das narrativas. Outras produções são úteis principalmente como pontes.

Dangerous Romance reúne Perth Tanapon e Chimon Wachirawit, dois atores que atravessaram nosso percurso por caminhos diferentes. 

Perth carrega consigo a memória de Love by Chance. Chimon vinha de My Dear Loser e de uma carreira que por muito tempo circulou entre BL e produções juvenis mais amplas. A série os coloca juntos numa narrativa escolar atravessada por dinheiro, dívida, violência e diferença social. Mesmo permanecendo no colégio, os intérpretes já carregam uma história industrial que torna aquela combinação impossível de observar como estreia simples.

My Dear Gangster Oppa utiliza Meen Nichakoon e Ping Krittanun, dupla já reconhecida pelo público, num romance que mistura vida online, jogos e criminalidade em registro muito mais leve do que o título talvez sugira. Sua maior utilidade é demonstrar a mobilidade de ships que continuam trabalhando juntos mesmo sem transformar cada nova obra em marco histórico.

Cooking Crush realiza movimento semelhante com uma dupla muito mais antiga. Depois de Not Me, OffGun retorna a uma comédia romântica muito mais leve, centrada em culinária, universidade e competição. O contraste é quase divertido em termos historiográficos. A mesma dupla que atravessou Puppy Honey, Theory of Love e um thriller político pode simplesmente voltar à comédia. Isso comprova a maturidade do ship. OffGun já não precisa reafirmar sua importância a cada nova produção.

Pode experimentar tons.
Pode ser sério.
Pode ser político.
Pode ser leve.

A permanência permite liberdade.

Cherry Magic Thailand acrescenta outra transformação significativa. TayNew assume a adaptação tailandesa de uma propriedade japonesa já conhecida internacionalmente.

O movimento é importante porque revela uma circulação mais complexa dentro da própria cultura BL asiática. No início de nossa história, o Japão aparecia sobretudo como origem histórica de códigos yaoi/BL que seriam assimilados e transformados na Tailândia.

Agora uma obra japonesa contemporânea pode ser oficialmente readaptada por uma indústria tailandesa que já possui identidade própria, ships próprios e público internacional próprio.

A relação deixa de ser simplesmente origem e cópia e torna-se intercâmbio. As obras da MAME também serão adaptadas no Japão.

TayNew também carrega peso simbólico enorme. PeteKao havia atravessado anos até ganhar protagonismo. Agora os mesmos atores podem ocupar personagens inteiramente diferentes dentro de uma franquia importada. A memória do ship ajuda a tropicalizar outra tradição.

Nas bordas do BL, o horror também cresce.

Dead Friend Forever, produzido pela Be On Cloud e iniciado no final de 2023, abandona completamente a segurança da comédia romântica.

Um grupo de jovens encontra-se preso numa situação marcada por violência, segredos, vingança e morte. A estrutura dialoga com slasher, suspense e horror psicológico.

A presença de atores jovens ligados ao repertório da própria Be On Cloud permite novamente observar uma companhia tentando provar que o sucesso anterior de KinnPorsche não precisa aprisioná-la ao universo mafioso.

O BL pode entrar numa casa e encontrar um cadáver. Essa frase teria parecido quase absurda no começo de nosso percurso. Em 2023, já parece apenas outra possibilidade.

Shadow ocupa posição ainda mais limítrofe.

Com Singto Prachaya e Fluke Natouch entre seus nomes centrais, a produção trabalha sobrenatural, escola, memória e mistério sem encaixar-se confortavelmente na definição industrial mais estreita de BL. Sua presença é preciosa justamente por reunir dois atores que carregam pedaços enormes da história que estamos contando.

Singto vem de SOTUS, He’s Coming to Me, Friend Zone e várias experiências posteriores. Fluke atravessa My Bromance, Until We Meet Again e anos de atuação ligada ao gênero.

Quando esses rostos aparecem numa obra sobrenatural difícil de classificar, fica evidente o quanto o campo se tornou poroso. Os atores já não pertencem ao BL. Circulam através dele. Ao final de 2023, talvez seja inútil procurar uma única obra capaz de resumir o ano. Essa impossibilidade é justamente o argumento.

Moonlight Chicken encontra drama em trabalho, classe e cotidiano. Only Friends permite que personagens queer sejam sexualmente livres, egoístas, frágeis e contraditórios sem protegê-los como casais ideais. I Feel You Linger in the Air transforma amor em perfume deixado pelo tempo.

Last Twilight procura beleza no instante em que a luz parece desaparecer. Pit Babe converte erotização, motorsport e códigos de fandom em plataforma para uma nova empresa construir repertório de atores. The Sign mistura ação policial, desejo e mitologia tailandesa.

Bed Friend mostra uma Domundi suficientemente forte para produzir novos centros de fandom. Be My Favorite reorganiza carreiras e arrependimentos através do tempo. Laws of Attraction leva um ship vindo do melodrama para o thriller jurídico.

Love in Translation aproxima ainda mais indústria idol e BL. Cooking Crush demonstra que uma dupla veterana pode alternar radicalmente de tom sem precisar reconstruir sua identidade. Cherry Magic Thailand mostra o BL asiático começando a adaptar a si próprio através das fronteiras nacionais. Dead Friend Forever abre a porta do horror.

E as demais obras ocupam os espaços entre essas linhagens.

O BL já não funciona apenas como gênero narrativo. Funciona como uma rede de expectativas, práticas de fandom, formas de promoção, modelos de casting e relações entre atores e público capazes de atravessar gêneros diferentes.

Em 2022 a fórmula transbordou. Em 2023 já existe água por toda parte.

E justamente quando parece ter encontrado possibilidades quase ilimitadas, a indústria começa a olhar novamente para trás.

Love Sick já pertence ao passado.
Make It Right já pertence ao passado.
SOTUS já pertence ao passado.

Há atores veteranos. Ships históricos. Obras lembradas com nostalgia. Uma geração inteira de espectadores consegue dizer: “eu assisti quando foi lançado”. O BL tailandês finalmente possui uma coisa que, em 2014, ainda não poderia ter.

História.

Em 2024, essa história começará a tornar-se matéria-prima.