Cuidado. Esse sempre foi um tema querido, bem como temido, por mim. Não é nenhuma novidade que eu sou um cara preocupado com quem amo, e gosto que as pessoas se sintam bem perto de mim. Mas também não é novidade que tenho grande facilidade para afastar as pessoas, justamente porque elas não se sentem assim. Tão logo isso acontece, eu me decepciono, com o outro e comigo, e acabo por me tornar realmente desagradável. Mas demorei muito para entender isso.
Do ponto de vista psicológico, o cuidado ocupa um lugar ambíguo na constituição do sujeito: ele é simultaneamente vínculo e ameaça. Essa teoria do apego demonstra que quanto maior a necessidade de proximidade emocional, maior a sensibilidade à percepção de afastamento. O que se interpreta como indiferença externa, muitas vezes, é amplificado por sistemas internos de alerta que reagem à mínima oscilação no comportamento do outro.
No momento, escuto pela décima vez essa semana, Inmo Yang tocar o Concerto para Violino do Sibelius. Assim como o virtuoso faz o arco se tornar um borrão no instrumento, as coisas mudam rápido dentro de mim, como um movimento no fundo do oceano, que só depois de muito tempo agita a superfície. Só após perder as pessoas que mais amava, repetidas vezes, é que fui entender que o problema estava em mim.
As flutuações de humor no Transtorno Afetivo Bipolar não se limitam a alternâncias visíveis entre euforia e tristeza; tratam-se de variações na intensidade da energia psíquica, na velocidade do pensamento, na percepção de si e do outro. Estudos clínicos descrevem que essas oscilações podem comprometer a estabilidade relacional, pois modificam a previsibilidade do comportamento, elemento central para a manutenção de vínculos seguros.
Descobrir o Transtorno Afetivo Bipolar foi algo libertador. Eu sabia finalmente de quem estava apanhando, muito embora ainda não tenha aprendido a bater de volta. O diagnóstico, em muitos casos, funciona como reorganizador narrativo da própria história. Ele não elimina o sofrimento, mas oferece linguagem para descrevê-lo. Ainda hoje venho descobrindo novos comportamentos que, percebo, são reflexos dessas variações de humor. Como observa Kay Redfield Jamison, ao escrever sobre a própria bipolaridade, nomear a condição não reduz a dor, mas impede que ela seja confundida com falha moral. Era exatamente como me sentia, e ia adiante: achava se tratar de uma falha intrinsecamente existencial.
Foi só quando comecei a estudar sobre que entendi o que acontecia: o Transtorno Bipolar cansa as pessoas. E isso dói pra caramba! Não é só oscilação, não é como TPM. É perceber olhares diferentes, paciência diminuindo e distâncias surgindo e crescendo.
Pesquisas apontam que familiares e amigos de pessoas com transtornos de humor frequentemente relatam exaustão emocional. A imprevisibilidade gera desgaste. O problema não reside em falta de afeto, mas na dificuldade de sustentar constância diante de variações intensas. A literatura clínica é clara: o transtorno não é apenas individual, ele é relacional, aliás, é por isso que transtorna.
No Transtorno Bipolar há alterações na regulação emocional e na intensidade das respostas afetivas, o que pode gerar, dentre outras coisas: reatividade elevada, variações abruptas de energias e maior sensibilidade à rejeição. Não é exagero, mas um cérebro desregulado.
Neurobiologicamente, há disfunções na modulação de circuitos ligados à dopamina, serotonina e norepinefrina, impactando tanto o humor quanto a motivação. Essa desregulação pode fazer com que pequenas frustrações sejam experimentadas como grandes ameaças, ampliando a percepção de abandono.
Tem dias que eu sou intenso demais. Hoje mandava mensagens sobre quatro assuntos ao mesmo tempo para um amigo. Em outros dias, eu demoro oito horas para dizer uma única palavra, e isso confunde as pessoas. Eu não tenho medo só dos episódios, principalmente quando vou sentindo que eles vão piorar. Eu tenho um medo constante de ser abandonado por causa deles.
Na literatura sobre transtornos do humor, essa alternância entre hipersociabilidade e retraimento é frequentemente descrita como fator de tensão interpessoal. O outro nunca sabe qual versão encontrará. E previsibilidade é um dos pilares da confiança.
Houve um tempo em que eu conseguia me obrigar a sustentar as relações. Eu queria meus amigos por perto, mas os afastava mesmo assim. Porque após algumas horas, eu estava exausto, eu só queria desaparecer, mas ainda precisava sorrir, cantar e, no dia seguinte, tinha que trabalhar. E então as minhas reações exageradas, especialmente as que escrevia, acabaram por afastar todos eles.
O esforço de mascaramento, conceito estudado em psicologia social, consiste em suprimir estados internos para corresponder às expectativas externas. Esse processo, quando prolongado, conduz ao esgotamento psíquico. Sustentar uma performance constante exige energia que nem sempre está disponível.
Era um esforço silencioso: me controlar, me calar, me diminuir. Para não perder ninguém. Mas ainda assim os vínculos iam se desgastando. E eu só queria estabilidade, o suficiente para que eu pudesse cuidar, e ser cuidado, ou ao menos compreendido. Em alguns momentos aceitava ser apenas tolerado.
Aristóteles definia a amizade como uma reciprocidade de benevolência reconhecida. C. S. Lewis, séculos depois, diria que a amizade nasce quando alguém diz: “O quê? Você também?”. Ambas as formulações apontam para um elemento comum: reconhecimento. Cuidar e ser cuidado exige que o outro permaneça, mesmo quando o humor oscila.
Alguns dias atrás, eu não saí com alguns amigos da igreja, como tínhamos combinado quase um mês antes, para comemorar o aniversário de um amigo e o meu. Não gosto de combinar as coisas com antecedência assim, porque nunca sei como vou estar quando chegar o dia, e o pior cenário aconteceu. E de novo ver aquelas fotos deles, sorrindo, sem nenhuma mensagem (além do meu amigo, justiça seja feita), como se minha ausência sequer tivesse sido notada, doeu pra caramba. Como doeu anos atrás, quando vi os mesmos amigos que enchiam minha casa saírem sem mim, até que hoje nenhum deles fala comigo. Sem brigas, sem conversa sobre nada, apenas o afastamento silencioso.
O sentimento de exclusão ativa áreas cerebrais semelhantes às da dor física. A experiência de ser deixado de fora não é mero capricho emocional; ela é registrada como ameaça à sobrevivência social, elemento fundamental para a espécie humana.
Decidi rever See Your Love, série taiwanesa de 2024, sobre o jovem cuidador, exímio no que faz, mas que, no entanto, não consegue emprego por conta de sua deficiência auditiva. Acaba se tornando cuidador de um cara rico que vive fugindo do trabalho e da família, e ambos mudam a vida um do outro ao aceitarem uma coisa: deficiente ou não, todos temos limitações e não podemos viver sozinhos.
Acho belo sempre que a presença do outro provoca essa mudança. Jiang Shao Peng (o belíssimo Jin Yun) não é só um cuidador, ele é o melhor, o mais dedicado, o mais determinado, e ainda assim não é contratado por ninguém. Inclusive debocham pois, como alguém como ele se comunicaria com os pacientes? Bem, ao conhecer o herdeiro "mimado" Yang Zi Xiang, ele aceita a dureza de uma verdade contra a qual ele lutou a vida toda: ele tem suas limitações por causa da sua deficiência, mas precisar do outro não o torna inferior, porque Zi Xiang também precisa, assim como seus pais precisam. Zi Xiang, por sua vez, percebe que apenas fingir ser um mimado não resolve os problemas, e então mostra que é mais do que capaz e preparado para assumir o legado de sua família, e é justamente por isso que ele também deve ter o direito de viver como quiser.
Ambos caminham juntos até entenderem isso, por meio de gestos de cuidado. O primeiro, literalmente, mostrando ser o primeiro que realmente olhou pro jovem mimado como alguém que precisa de cuidado, fazendo-o se sentir diferente de quando sua família simplesmente decidiu seu futuro. E então esse jovem decide aprender linguagem de sinais para se comunicar com alguém que, supostamente, só ficaria com ele por algumas semanas, o que toca o outro, já que todos sempre consideram a dificuldade na comunidade o ponto chave para afastá-lo. E então é dessa forma que eles se aproximam.
Na cultura contemporânea, a figura do cuidador ganhou relevo não apenas como função prática, mas como metáfora ética da interdependência humana. Em sociedades marcadas pela valorização da autonomia radical e da performance individual, o cuidador encarna uma contranarrativa: ele lembra que a vulnerabilidade não é exceção, mas condição estrutural da existência. Autores como Joan Tronto e Nel Noddings, ao desenvolverem a chamada “ética do cuidado”, sustentam que toda organização social se funda, ainda que invisivelmente, em redes de dependência mútua. Cuidar não é gesto acessório, mas infraestrutura da vida. Na literatura e no cinema recentes, o cuidador aparece frequentemente como aquele que, ao assistir o outro, revela também a própria limitação. A interdependência deixa de ser sinal de fraqueza e passa a ser reconhecimento da finitude compartilhada. Nesse sentido, a narrativa do jovem cuidador que precisa aceitar a própria limitação antes de sustentar a do outro ecoa uma tese antropológica fundamental: ninguém é plenamente autossuficiente, e a recusa dessa verdade tende a produzir isolamento e sofrimento.
Não por acaso, a própria narrativa faz referência à política taiwanesa de cuidados de longo prazo, conhecida como Long-Term Care Plan 2.0, implementada em 2017, como ampliação do plano anterior (2015), em resposta ao rápido envelhecimento populacional e à queda da taxa de natalidade. Taiwan tornou-se oficialmente uma “aged society” em 2018 (mais de 14% da população com 65+), e a projeção demográfica indicava rápida transição para “super-aged society” (20% ou mais).
Ao reconhecer que a estrutura familiar tradicional já não é suficiente para sustentar o cuidado dos idosos e pessoas dependentes, o Estado assume institucionalmente aquilo que a ética do cuidado já sustentava teoricamente: a autonomia absoluta é uma ficção. O LTC 2.0 ampliou serviços domiciliares, centros comunitários e apoio financeiro, transformando o cuidado em política pública estruturante. Trata-se de uma mudança paradigmática: o cuidado deixa de ser gesto privado e passa a ser responsabilidade coletiva. Nesse sentido, a série dialoga com um fenômeno social real: o cuidado como infraestrutura demográfica de sociedades envelhecidas. A vulnerabilidade, antes percebida como exceção individual, revela-se condição populacional: todos estamos vulneráveis, precisamos de cuidado.
Cuidar. Ser cuidado. Como isso funcionaria comigo quando eu sempre acabo por afastar o outro, por me tornar um peso, fardo desagradável? E vejo isso notavelmente. Atualmente, num episódio depressivo, fiquei semanas sem conseguir sair de casa. O mesmo amigo de que falei antes me perguntou várias vezes como eu estava, me perguntou se estava bem hoje para ir à Missa, se preocupou, mas quando cheguei lá, alguém sequer foi falar comigo quando me viu? Ninguém. Mais uma vez, distâncias surgindo e crescendo. Mas, nas mensagens, continuo recebendo dezenas (sem exagero) de pedidos de favores.
O paradoxo do cuidado é que ele exige presença de ambas as partes. A filosofia do cuidado, desenvolvida por autores como Nel Noddings, sustenta que a ética nasce do encontro concreto, do “estar-com”. Sem esse gesto, resta apenas a intenção abstrata.
E ainda ousei olhar para aquele cara na assembleia, o que também se chama Gabriel. Bonito, sério, de óculos. Como se um cara magro como ele fosse olhar para um gordo desequilibrado como eu. Nem sabe que eu existo, a menos que tenha notado a bola gigante de camiseta rosa ao lado do presbitério. Essa é uma distância que nem precisou surgir.
O desejo também participa desse campo relacional. Amar implica expor-se ao risco da não reciprocidade. Como nos Cânticos, o amado é sempre figura de projeção e esperança, mas a projeção revela mais sobre quem ama do que sobre quem é amado.
Se políticas públicas tentam organizar redes de amparo para populações inteiras, é porque a solidão não é apenas falha individual, mas questão estrutural. A sociedade envelhece, os vínculos se rarefazem, as famílias se tornam menores e o cuidado precisa ser redesenhado como linguagem comum. No plano coletivo, criam-se sistemas; no plano íntimo, resta aprender a sustentar o próprio silêncio entre as notas.
Não me sinto um violino num concerto de Brahms ou Sibelius, tampouco numa sinfonia de Mahler ou Beethoven. Me sinto tocando uma partita desacompanhada do Bach.
"Jovem, eu exigia das pessoas mais do que elas podiam me dar: uma amizade contínua, uma emoção permanente. Agora eu sei pedir a elas menos do que podem me dar: uma companhia sem frases." (Albert Camus)
REFERÊNCIAS
JAMISON, Kay Redfield. Uma mente inquieta: memórias de loucura e instabilidade de humor. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
GOODWIN, Frederick K.; JAMISON, Kay Redfield. Manic-Depressive Illness: Bipolar Disorders and Recurrent Depression. 2. ed. Oxford: Oxford University Press, 2007.
BOWLBY, John. Apego: a natureza do vínculo. São Paulo: Martins Fontes, 1984.
NODDINGS, Nel. Caring: A Relational Approach to Ethics and Moral Education. Berkeley: University of California Press, 1984.
TRONTO, Joan. Moral Boundaries: A Political Argument for an Ethic of Care. New York: Routledge, 1993.
LEWIS, C. S. Os quatro amores. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Trad. Antonio de Castro Caeiro. São Paulo: Atlas, 2009.




