Fase I: A indústria descobre sua própria memória (2024)
Algumas das séries que definiram o final do ano anterior ainda estavam sendo exibidas quando janeiro chegou. Last Twilight, Pit Babe, The Sign, Cherry Magic Thailand e Dead Friend Forever atravessavam a fronteira artificial do calendário, lembrando uma coisa bastante óbvia que periodizações históricas costumam fingir não saber: gêneros não mudam de fase à meia-noite do dia 31 de dezembro.
Mas havia algo diferente no ar.
O BL tailandês completava dez anos desde Love Sick.
Já existiam veteranos. Já existiam carreiras longas o suficiente para serem divididas em fases.
Havia atores que haviam trocado de parceiros, empresas ou posições dentro da indústria. Havia ships capazes de sustentar uma terceira ou quarta obra. Havia atores cuja primeira passagem pelo gênero acontecera quando uma parcela dos novos intérpretes ainda estava na escola. Havia diretores reconhecíveis pelo estilo, autores associados a determinados tipos de narrativa e produtoras com repertórios suficientemente extensos para que o próprio nome da empresa criasse expectativa.
O gênero adquirira aquilo que em 2014 simplesmente não poderia possuir: passado. E passado, quando permanece vivo, começa a interferir no presente.
Por isso 2024 pode ser compreendido menos como o ano de uma nova ruptura formal e mais como o momento em que todas as rupturas anteriores passam a coexistir com a memória de onde vieram. Uma produção pode reunir veteranos.
Pode desfazer outra.
Pode adaptar uma propriedade estrangeira já conhecida.
Pode transformar um casal secundário em protagonista.
Pode apresentar uma nova geração utilizando estruturas empresariais construídas pelas anteriores.
Pode colocar um ator de Make It Right diante de um parceiro que ainda está começando.
Pode devolver OffGun a um ambiente profissional depois de oito anos de história conjunta.
Pode transformar o casal secundário de Pit Babe nos protagonistas de uma nova série poucos meses depois.
Pode juntar dois atores veteranos que nunca haviam formado um ship.
Pode recomeçar.
Em 2024, recomeçar deixa de significar começar do zero.
Uma das obras mais interessantes para abrir esse movimento é My Stand-In.
Up Poompat, que nossa história já conhecia como Gene em Lovely Writer, retorna agora num registro quase oposto.
Seu Ming está longe da delicadeza desconfortável do escritor que observava a indústria BL sendo construída ao redor de sua própria obra. Aqui encontramos um personagem possessivo, emocionalmente destrutivo e preso a uma relação marcada desde o início pela substituição. Poom Phuripan interpreta Joe, dublê e substituto corporal de outro ator. Essa condição profissional torna-se também condição afetiva.
Joe percebe progressivamente que Ming se aproxima dele porque seu corpo lembra outra pessoa, especialmente quando visto de costas. A crueldade da premissa está aí. Joe não é inicialmente amado como Joe. É amado como superfície disponível para que alguém imagine outro homem.
Depois de sua morte, o elemento fantástico leva essa lógica ainda mais longe: sua consciência passa a ocupar outro corpo. A série transforma, portanto, aquilo que poderia ser apenas melodrama romântico numa pergunta sobre identidade. Se o corpo muda, quem permanece?
Se alguém se apaixona por uma imagem, ama a pessoa ou aquilo que projetou sobre ela? Se um homem vive profissionalmente substituindo outro diante da câmera e afetivamente substituindo outro diante do amante, em que momento consegue existir sem servir de cópia?
A trajetória de Up acrescenta outra camada. Em Lovely Writer, ele protagonizava uma obra que examinava a fabricação dos romances BL. Em My Stand-In, retorna dentro de uma produção muito mais erotizada e emocionalmente violenta, demonstrando o quanto um ator pode utilizar a própria memória anterior justamente para surpreender o público. Não acompanhamos apenas Ming. Também acompanhamos Up deixando Gene para trás. Esse tipo de comparação torna-se possível porque a indústria já possui tempo.
Wandee Goodday oferece outra forma de memória. Great Sapol interpreta Yoryak, lutador de boxe, enquanto Inn Sarin vive Wandee, médico cuja vida afetiva sai do controle depois de uma rejeição. Uma relação inicialmente construída em torno de sexo e conveniência adquire progressivamente intimidade. A novidade não está propriamente na estrutura de amigos com benefícios. Está também nos intérpretes.
Great já atravessava a televisão tailandesa havia anos e havia aparecido no nosso percurso em Manner of Death. Inn chegara ao centro de nossa análise com The Miracle of Teddy Bear, trazendo consigo experiência anterior nos lakorns. Nenhum dos dois precisava ser apresentado como jovem promessa.
Quando GreatInn surge, a indústria demonstra outra capacidade: formar um ship novo a partir de dois atores que já possuem carreira. Isso modifica a sensação produzida pela dupla pois há segurança física, e há experiência. Os personagens são adultos com profissões estabelecidas.
Sexo, desejo, consentimento, insegurança corporal e vulnerabilidade podem ser tratados dentro de uma relação em que o primeiro beijo não precisa carregar sozinho toda a descoberta do mundo.
A série conserva muito da leveza da comédia romântica, mas seus protagonistas pertencem a uma geração de atores que já sabe ocupar a câmera. É outro sinal de amadurecimento industrial. O BL deixa de precisar buscar novidade apenas na juventude. Pode produzir novidade através do encontro entre experiências anteriores.
Ao mesmo tempo, We Are retorna quase obstinadamente àquilo que parecia mais familiar.
Amigos.
Casais múltiplos.
Brincadeiras.
Ciúmes.
Convívio cotidiano.
O elenco, porém, transforma completamente o significado desse retorno.
Pond Naravit e Phuwin Tangsakyuen chegam com uma trajetória conjunta que passa por Fish Upon the Sky e Never Let Me Go. Winny Thanawin e Satang Kittiphop já haviam conquistado espaço dentro do ecossistema GMMTV. Aou Thanaboon e Boom Tharatorn vinham acumulando pequenas participações e reconhecimento.
Outros atores completam um conjunto em que a amizade possui peso quase tão grande quanto os romances. O resultado lembra, de maneira distante, uma característica que estava no coração de Love Sick: o mundo não termina no casal principal.
Há grupos. Há convivência. Há pessoas entrando e saindo de quartos, corredores, bares e atividades universitárias.
O espectador pode escolher favoritos. Pode acompanhar várias relações. Pode permanecer pela companhia.
Mas aquilo que em 2014 parecia uma descoberta do próprio formato agora surge como conforto. A universidade deixou de ser inevitabilidade. Por isso pode voltar a ser prazer.
A indústria já passou por máfia, investigação criminal, viagem temporal, reencarnação, política, horror, melodrama histórico e drama existencial. Ninguém precisa mais provar que o BL consegue sair do campus. Voltar ao campus torna-se escolha. Em certo sentido, We Are é quase uma memória inconsciente da primeira fase. A diferença está em tudo aquilo que aconteceu entre uma coisa e outra.
O retorno à juventude adquire outra forma em My Love Mix-Up! Thailand. Gemini Norawit e Fourth Nattawat, cuja ascensão em My School President havia sido tão rápida, assumem agora uma adaptação tailandesa de uma propriedade japonesa já conhecida do público BL internacional.
A premissa conserva o mecanismo central do original: um equívoco envolvendo uma borracha e o nome de um colega transforma uma pequena confusão escolar em cadeia de mal-entendidos afetivos. O que importa historicamente, entretanto, é a circulação.
Nos primeiros capítulos de nossa história, Japão aparecia principalmente como uma das fontes culturais através das quais yaoi e BL haviam chegado ao imaginário tailandês. Uma década depois, uma obra japonesa contemporânea pode ser readaptada oficialmente utilizando uma das duplas tailandesas de maior projeção recente.
Já não existe uma linha simples entre centro e periferia, origem e reprodução, mas circulação asiática de propriedades, públicos e convenções.
GeminiFourth também chega carregando sua própria memória. O espectador que os acompanhou em My School President não começa do zero. A nova história precisa negociar com uma química já conhecida. A propriedade estrangeira recebe atores que possuem repertório próprio.
A adaptação passa a existir no encontro entre duas memórias.
E, por falar em memória, talvez nenhuma dupla da GMMTV torne essa consciência temporal tão evidente quanto OffGun.
Em The Trainee, Gun Atthaphan interpreta Ryan, jovem que entra como estagiário num ambiente profissional ligado à produção audiovisual. Off Jumpol vive Jane, figura mais experiente dentro desse espaço de trabalho. O deslocamento parece simples, mas basta olhar para trás:
Theory of Love.
Not Me.
Cooking Crush.
Agora The Trainee.
O espectador não acompanha apenas personagens diferentes interpretados pelos mesmos atores. Acompanha envelhecimento. Mudança de corpo. Mudança de registro. Mudança de posição social.
Nos primeiros trabalhos, grande parte da energia vinha da descoberta do casal. Agora a própria familiaridade pode ser utilizada como recurso. Off e Gun já não precisam convencer o público de que possuem alguma forma de presença conjunta, essa etapa ficou no passado, podem concentrar-se nos personagens. Há ainda uma ironia bonita na escolha do ambiente profissional.
Uma dupla que atravessou grande parte da história moderna do BL protagoniza uma série sobre jovens aprendendo como funciona uma indústria criativa. Jane orienta Ryan. OffGun, sem que a série precise dizer isso, já pertence à geração que poderia orientar quem está chegando. O ship envelheceu. E sobreviveu ao envelhecimento. Isso, por si só, constitui um acontecimento histórico.
No mesmo catálogo GMM TV, Only Boo! olha para o outro extremo. Keen Suvijak e Sea Dechchart aparecem como rostos de uma geração muito mais nova.
A história combina juventude, romance e o desejo de entrar no universo idol, permitindo que carreira artística e relação amorosa se choquem. A premissa parece leve, mas contém uma questão que se tornou cada vez mais importante para o próprio BL tailandês.
O que acontece quando amar alguém pode interferir na imagem profissional necessária para tornar-se artista? O problema pertence simultaneamente à ficção e ao mundo que produz a ficção.
Depois de anos discutindo fanservice, ships, contratos, gerenciamento de imagem e expectativas de fandom, uma história sobre jovem aspirante a idol já não consegue separar facilmente romance e indústria.
Keen também exemplifica a integração crescente entre música e atuação. A nova geração não é formada apenas para permanecer diante da câmera. Precisa cantar. Dançar. Participar de eventos. Falar com fandom. Sustentar presença digital. O ator BL aproxima-se cada vez mais do artista de entretenimento completo.
Joong, Aou, Santa e Pond formaram o grupo JASP.ER. Keen, Barcode, Aungpao e Ashi vão formar o CLO'VER.
Aquilo que para White e Captain ainda estava sendo improvisado em 2014 passa a constituir infraestrutura disponível para quem estreia dez anos depois.
A transferência é reveladora. FortPeat já não depende de PrapaiSky. A química comercial sobrevive aos personagens que a criaram. A nova narrativa desloca o casal para outro ambiente e explora novamente erotização, vulnerabilidade e as tensões entre alguém acostumado a proteger-se e alguém disposto a atravessar suas defesas. O processo é quase didático.
Primeiro, uma obra apresenta dois atores como casal secundário ou como parte de uma estrutura compartilhada. O público responde. A empresa preserva a combinação. Depois, entrega outra propriedade. O ship passa de consequência de casting a ativo empresarial. MAME havia aprendido essa lógica ao longo de anos, e em 2024, ela já faz parte do funcionamento ordinário de seu ecossistema.
A mesma permanência aparece em Two Worlds. Max Kornthas e Nat Natasitt já haviam construído uma trajetória dentro do universo Domundi/Mandee, com Cutie Pie e posteriormente outros projetos.
Agora entram numa fantasia ligada a universos paralelos, deslocando a dupla para uma forma narrativa bastante diferente daquela que primeiro consolidou sua popularidade. Esse movimento interessa menos pela simples mudança de cenário e mais por aquilo que confirma. Um ship estável pode tornar-se instrumento para experimentar gênero.
O público chega pelos atores. A obra utiliza essa confiança para levá-los a outro lugar. É uma inversão completa em relação ao início da indústria, quando a série precisava primeiro produzir o casal. Agora, às vezes, o casal ajuda a produzir a série.
Poucos casos demonstram tão rapidamente a estratégia de construção de catálogo quanto This Love Doesn't Have Long Beans.
Em Pit Babe, Sailub Hemmawich e Pon Thanapon haviam formado Alan e Jeff, um casal importante dentro de um elenco muito maior. Ali já observávamos como a CHANGE2561 parecia utilizar a série não apenas para apresentar PavelPooh, mas para colocar diversos atores diante do público e testar possíveis combinações.
Em 2024, essa hipótese encontra confirmação: SailubPon recebe protagonismo.
A nova história abandona as pistas de corrida e entra no universo da gastronomia, colocando os atores dentro de outra dinâmica romântica e profissional.
O deslocamento importa: AlanJeff não precisou de continuação, mas SailubPon precisou apenas de outra história. A empresa transforma atenção secundária em investimento posterior. Isso é precisamente aquilo que companhias com repertório aprendem a fazer. Um casal que funciona na periferia de uma obra pode tornar-se centro da próxima.
A série anterior passa, retrospectivamente, a funcionar como audição pública. Nesse sentido, This Love Doesn't Have Long Beans constitui uma pequena prova de que Pit Babe não havia lançado somente uma narrativa. Lançara uma geração empresarial.
A própria centralidade de Pavel Naret em Pit Babe, ainda muito presente no início de 2024, reforça essa tese. Nós o conhecemos desde 2 Moons 2. Vimos a instabilidade daquela franquia. Vimos atores dispersarem-se. Vimos Joong encontrar outra casa. Vimos Nine seguir outro caminho. Vimos carreiras reorganizarem-se.
Anos depois, Pavel encontrou em Babe um personagem capaz de recentralizar sua imagem. Sua trajetória impede qualquer leitura demasiado linear da indústria. Carreiras não crescem sempre.Às vezes desaparecem. Mudam de direção. Perdem um ship. Encontram outro. Esperam. Retornam.
2024 está cheio desses retornos.
E 4Minutes talvez seja um dos casos mais simbólicos.
Bible Wichapas havia sido apresentado a uma audiência enorme através de Vegas em KinnPorsche. VegasPete tornou-se uma das relações mais discutidas daquela produção, mas a história industrial da dupla não permaneceu intacta.
Quando Bible retorna ao centro de outra grande produção da Be On Cloud, ele já não está ligado ao mesmo parceiro. Jes Jespipat entra como Tyme. Bible interpreta Great.
A série trabalha tempo, culpa, violência, desejo e percepção dentro de uma estrutura fragmentada em que acontecimentos podem assumir significados diferentes conforme a narrativa avança.
A erotização permanece forte, como seria esperado de uma empresa que havia construído grande parte da identidade de KinnPorsche sobre a combinação entre desejo e espetáculo.
Mas existe aqui um teste industrial mais importante: Bible consegue sobreviver a VegasPete? A própria existência da série já oferece uma resposta parcial.
O ator pode carregar consigo reconhecimento anterior sem precisar reconstruir literalmente a dupla que o tornou conhecido.
Jes, por sua vez, chega com uma carreira de televisão muito mais ampla, criando outro encontro entre repertórios.
De novo, 2024 mostra que formar um casal novo não significa necessariamente juntar duas pessoas novas. Pode significar reorganizar duas biografias.
Century of Love leva esse problema de memória para dentro da própria narrativa.
Daou Pittaya e Offroad Kantapon, que haviam encontrado projeção como dupla em Love in Translation, retornam numa história construída ao redor de longevidade, reencarnação e espera.
San atravessa décadas sustentado por forças sobrenaturais enquanto aguarda o retorno de um amor perdido. Quando a pessoa que parece corresponder àquela promessa finalmente surge, a forma assumida por essa reencarnação desestabiliza expectativas construídas durante uma vida inteira.
O melodrama encontra fantasia. A fantasia encontra o lakorn.
E o romance masculino encontra uma tradição narrativa tailandesa profundamente acostumada a destino, família, promessa, sacrifício e vidas que atravessam gerações. DaouOffroad também amadurece como dupla.
Love in Translation havia servido como apresentação.
Century of Love exige peso melodramático muito maior.
É outro exemplo de um ship fixo que recebe material progressivamente mais exigente. A memória profissional começa a produzir expectativa de crescimento.
Jack & Joker: U Steal My Heart! realiza movimento semelhante com Yin Anan e War Wanarat.
A dupla havia conquistado público primeiro dentro do formato reduzido de En of Love, depois ganhara uma versão expandida de Love Mechanics,agora retorna com outros personagens e outra identidade narrativa.
Jack e Joker pertencem a um universo de crime, golpes, dívidas, desigualdade e pessoas tentando sobreviver às próprias escolhas. O que antes era romance universitário turbulento transforma-se numa história de ação, disfarces e reparação. A comparação entre as duas etapas é reveladora. YinWar já não precisa de VeeMark. Pode transportar o capital afetivo produzido por aqueles personagens para uma propriedade diferente.
O ship adquire cada vez mais biografia. Cada nova obra passa a funcionar como capítulo dessa biografia, sem que os personagens anteriores precisem ser ressuscitados. Esse mecanismo será cada vez mais importante para compreender a longevidade dos pares.
Nenhum caso talvez seja tão delicado para a memória recente da GMMTV quanto Kidnap.
Ohm Pawat chega carregando uma das trajetórias mais longas de toda a geração intermediária.
He's Coming to Me.
Bad Buddy.
Outros trabalhos fora e dentro do ecossistema BL. Durante anos, diferentes parceiros marcaram fases distintas de sua carreira.
Em Kidnap, ele aparece ao lado de Leng Thanaphon, antigo amigo de colégio.
A narrativa utiliza crime e sequestro como ponto de partida para a aproximação entre Min e Q, mas industrialmente existe outra história acontecendo ao mesmo tempo. Uma nova dupla está sendo apresentada ao lado de um ator cuja imagem já possui enorme carga de memória.
Leng não entra num espaço vazio. Entra diante de um fandom que conhece o passado de Ohm. Essa assimetria torna OhmLeng um caso particularmente interessante.
O veterano precisa permitir que o novo parceiro exista sem transformar cada cena numa comparação. O recém-chegado precisa construir presença própria sem fingir que a história anterior não aconteceu. Esse tipo de situação só se torna possível numa indústria suficientemente antiga para possuir antigas duplas. O BL começa a enfrentar algo que cinema, televisão e música conhecem há muito tempo. O público lembra.
Mas o passado também pode ser reorganizado em novas combinações. No final do ano, Perfect 10 Liners leva essa lógica ainda mais longe.
A produção utiliza uma estrutura extensa e múltiplos casais, recuperando a universidade como grande espaço de convivência enquanto combina atores com trajetórias muito diferentes.
ForceBook chega depois de Enchanté, A Boss and a Babe e Only Friends. Já conhecemos sua evolução.
Mas outra combinação chama atenção de maneira especial: Perth Tanapon e Santa Pongsapak. Perth pertence à memória de Love by Chance. Santa havia construído trajetória própria ao lado de Earth Katsamonnat em projetos como 7 Project e My Only 12%. Agora dois atores conhecidos por parcerias anteriores são reorganizados. Isso representa uma etapa nova na maturidade do sistema. O ship não precisa terminar porque um ator perdeu a possibilidade de formar outro. A experiência anterior pode ser reaproveitada.
O fandom também aprende, com maior ou menor elegância, a lidar com substituição, mudança e recomposição. A indústria descobre que possui peças móveis. Não no sentido desumanizador de atores intercambiáveis, mas no sentido histórico de carreiras que não precisam permanecer aprisionadas à primeira combinação bem-sucedida.
A própria presença de Perfect 10 Liners, iniciada em 2024 e avançando para o ano seguinte, indica quanto a universidade ainda consegue servir de palco para novas genealogias mesmo depois de tudo o que aconteceu fora dela.
O campus permanece. Mas quem entra nele carrega dez anos de história nas costas.
The Rebound recupera Meen Nichakoon e Ping Krittanun numa narrativa ligada ao basquete.
A dupla já havia atravessado produções anteriores e demonstrava que nem todo ship precisa alcançar o nível de fenômeno de GMM TV ou Domundi para manter continuidade. Existe uma camada intermediária extremamente importante. Casais com fandom suficiente para continuar recebendo trabalhos. Atores que constroem carreira por repetição. Empresas que apostam na familiaridade acumulada. Esse estrato constitui boa parte da indústria real. Se observássemos somente os grandes fenômenos, perderíamos a sustentação do mercado.
Sunset x Vibes realiza algo semelhante com Mos Panuwat e Bank Mondop, que carregavam consigo a memória de Big Dragon.
A nova obra mistura ambiente profissional, desejo e elementos fantásticos, demonstrando novamente que um casal conhecido pode ser transferido para uma estrutura narrativa diferente sem precisar carregar seus antigos personagens.
Battle of the Writers faz o mesmo com Tutor Koraphat e Yim Pharinyakorn. Os dois haviam crescido dentro do universo Domundi/Mandee, inicialmente como parte do repertório de Cutie Pie e depois em projetos que lhes deram maior centralidade.
Agora entram numa história ligada à escrita, imaginação e representação visual de mundos ficcionais. A trajetória é exatamente aquela que a Domundi começara a aperfeiçoar anos antes.
Observar.
Cultivar.
Promover.
Reaproveitar.
Mas nem toda combinação alcança imediatamente ZeeNuNew. Isso não impede que outras sejam transformadas em linhas próprias dentro do catálogo.
Por isso Your Sky possui interesse particular: a Domundi já não pode viver apenas de sua primeira ou segunda geração.
Uma empresa que deseja durar precisa resolver um problema simples e brutal: apresentar gente nova antes que seu catálogo envelheça inteiro diante do público: Thomas Teetut e Kong Kongpob aparecem como parte dessa renovação.
A estrutura romântica utiliza elementos bastante familiares, incluindo proximidade produzida por circunstâncias e uma dinâmica que dialoga com fórmulas clássicas do gênero. Mas a função empresarial é diferente daquela de 2016. Os novos atores entram num sistema pronto.
Quando Captain e White começaram, quase tudo isso precisava ser descoberto. Quando uma nova dupla Domundi começa em 2024, existe uma estrada asfaltada. Pode tropeçar nela, naturalmente. Humanos mantêm esse talento admirável. Mas a estrada existe.
A GMMTV enfrenta o mesmo problema. Não basta preservar OffGun, TayNew, EarthMix ou outras duplas estabelecidas. É preciso produzir sucessão.
Only Boo! já participava desse movimento. Outros projetos de 2024 mostram a mesma preocupação.
No final do ano, ThamePo: Heart That Skips a Beat aproxima ainda mais o BL do universo idol. William Jakrapatr, integrante do LYKN, assume Thame, enquanto Est Supha interpreta Po.
A presença de um artista que já pertence efetivamente a um grupo musical faz a integração entre ficção e indústria quase desaparecer.
A série fala de música, imagem, carreira e grupo utilizando pessoas que vivem dentro desse ecossistema. Aquilo que durante anos víamos como estratégia promocional torna-se matéria da própria narrativa. O ator canta porque o personagem canta. O personagem pertence a um grupo porque o intérprete também conhece aquele mundo.
O fandom musical pode encontrar o BL. O fandom BL pode encontrar o grupo. A circulação se completa.
The Heart Killers, iniciada no final de 2024, oferece outro exemplo claro da liberdade conquistada. First Kanaphan e Khaotung Thanawat chegam como dupla já consolidada. Joong Archen e Dunk Natachai também.
Em vez de reuni-los numa universidade confortável, a série os coloca dentro de uma narrativa de assassinos, investigação, sedução e humor negro sob direção de Jojo Tichakorn.
Dois ships conhecidos compartilham a mesma obra. Cada um traz seu próprio fandom. Cada dupla possui repertório anterior. A série pode brincar com expectativas porque as expectativas já existem. FirstKhaotung não começa em The Heart Killers. JoongDunk também não. O espectador carrega The Eclipse, Only Friends, Star in My Mind e outras memórias para dentro da nova produção.
Essa bagagem interfere na recepção.
Em 2014, o ator precisava convencer o público de uma personagem. Em 2024, às vezes precisa negociar também com os fantasmas de todas as anteriores.
A continuidade não pertence apenas aos atores. Spare Me Your Mercy demonstra isso de maneira particularmente clara.
A obra se conecta ao repertório de Sammon, autora que já acompanhamos através de Manner of Death e Triage. Mais uma vez medicina, crime, ética e desejo encontram-se.
Tor Thanapob e JJ Krissanapoom assumem personagens envolvidos numa investigação que passa pela morte de pacientes e pela questão da eutanásia. O tema modifica o tipo de dilema moral colocado diante do romance.
O médico não existe apenas para fornecer profissão atraente ao protagonista: a profissão é o problema.
Quando aliviar o sofrimento pode aproximar-se de provocar a morte? Quem possui autoridade para decidir? Como investigar alguém quando aquilo que parece crime pode ser defendido como misericórdia? Até onde ética profissional e ética individual coincidem?
A presença de atores com carreiras amplas fora do núcleo tradicional do BL reforça novamente a dissolução das fronteiras.
Sammon também funciona como autora reconhecível. O público já pode associar seu nome a determinado universo de histórias. Isso é tradição. Não apenas personagens e atores possuem memória. Autores também passam a possuir obra.
Em camadas menos centrais, 2024 continua produzindo uma quantidade impressionante de pequenas experiências.
I Saw You in My Dream utiliza sonhos e antecipação como dispositivo para aproximar personagens e transformar aquilo que deveria pertencer ao inconsciente em problema concreto para a vida afetiva. Monster Next Door trabalha proximidade física e diferença de personalidade, colocando lado a lado maneiras muito distintas de habitar o mundo social.
Deep Night desloca o romance para ambientes noturnos de entretenimento e performance, permitindo que desejo, trabalho e imagem pública se misturem em espaços raramente ocupados pelos primeiros BLs. Knock Knock, Boys! utiliza convivência compartilhada e conversas mais francas sobre sexo e experiência afetiva, lembrando que a comédia ainda pode servir como espaço para personagens falarem sobre aquilo que séries anteriores frequentemente deixavam apenas implícito.
Memory in the Letter recorre novamente ao fantástico para trabalhar distância, comunicação e impossibilidade.
1000 Years Old e OMG! Vampire demonstram como vampiros, criaturas sobrenaturais e comédia podem agora conviver tranquilamente com a estrutura BL sem precisar justificar a combinação.
City of Stars aproxima romance, celebridade e exposição pública, tema inevitavelmente pertinente numa indústria em que a imagem digital dos próprios atores se tornou parte essencial de suas carreiras.
Nenhuma dessas obras precisa ser transformada artificialmente em marco histórico.Seu conjunto importa mais que qualquer caso isolado. A abundância é o fato.
O BL tailandês de 2024 consegue produzir obras médicas, universitárias, policiais, sobrenaturais, esportivas, profissionais, gastronômicas, musicais e fantásticas ao mesmo tempo. Aquilo que em 2022 ainda chamávamos de transbordamento agora constitui rotina.
Every You, Every Me oferece uma brincadeira particularmente adequada a esse momento histórico.
Top Piyawat e Mick Monthon, que já cruzaram nosso percurso em produções anteriores, são utilizados através de diferentes histórias e identidades. A repetição dos mesmos intérpretes transforma-se em princípio formal.
O espectador reconhece os rostos. Os personagens mudam. É quase uma destilação daquilo que a própria indústria aprendeu a fazer com os ships. Dois atores podem amar-se de novo.
E de novo. E de outra maneira.
Não porque os personagens tenham reencarnado necessariamente, mas porque a dupla profissional funciona como estrutura capaz de receber novas ficções.
O ship torna-se espécie de repertório teatral. O público aceita o jogo.
Sabe que aqueles homens não são as mesmas pessoas da história anterior. Mas parte do prazer vem justamente de reconhecê-los. Depois de tantos anos discutindo a independência progressiva entre ator, personagem e casal promocional, uma obra desse tipo parece quase inevitável.
Projetos como Fourever You acrescentam outra camada importante.
Earth Katsamonnat já está conosco desde Until We Meet Again e, antes disso, pertence àquela rara história de atores abertamente queer que conseguiram visibilidade significativa dentro do gênero. Sua carreira atravessou parceiros, empresas, papéis e fases diferentes.
Quando aparece novamente dentro de um conjunto de novos casais e novas possibilidades, sua presença carrega memória. Ele não precisa representar a mesma função. O próprio fato de continuar já significa alguma coisa.
A indústria de 2024 possui atores que sobreviveram tempo suficiente para que sua permanência possa ser comparada com aquilo que eram cinco anos antes.
Isso parece banal em indústrias maduras, mas no BL tailandês, é uma conquista recente, e esse contraste entre veteranos e recém-chegados é talvez a melhor maneira de compreender 2024.
No meio de todas essas recombinações, remakes, novos parceiros, veteranos e gerações emergentes, a indústria realiza o gesto que oferece a este primeiro grande ciclo seu encerramento mais natural.
Love Sick 2024 retorna à história de Phun e Noh.
Dez anos depois.
A mesma propriedade que utilizamos para marcar o início de nossa primeira era reaparece quando tudo aquilo que ela ajudou a tornar possível já existe.
Almond Poomsuwan e Progress Passawish assumem os papéis centrais da nova geração. Eles entram em personagens que não chegam vazios à tela.
Phun e Noh já possuem memória.
Existem leitores que conheceram a novel.Existem espectadores que acompanharam White Nawat e Captain Chonlathorn. Existem músicas associadas à primeira adaptação.
Existem cenas lembradas. Existem expectativas.
Há pessoas assistindo ao remake capazes de recordar exatamente onde estavam quando conheceram aquela história uma década antes.
Essa situação seria impossível em 2014.
Na primeira versão, quase tudo parecia descoberta, o público aprendia os personagens. A indústria aprendia o público. Os atores aprendiam aquilo que significava tornar-se ship. Produtores aprendiam até onde a atenção poderia sobreviver fora dos episódios. Fãs organizavam legendas, páginas, vídeos e comunidades enquanto o próprio vocabulário ainda estava sendo estabilizado. Em 2024, a nova versão encontra uma infraestrutura inteira esperando por ela.
O remake já nasce dentro de uma indústria que conhece:
fanservice;
OSTs;
eventos;
merchandising;
fandom internacional;
redes sociais;
agências especializadas;
plataformas digitais;
conteúdo promocional;
e a possibilidade de transformar atores adolescentes em artistas com carreira planejada para continuar depois da série.
O contraste não poderia ser maior. Mas a história ainda começa com jovens.
Amigos.
Música.
Confusão.
Desejo.
A descoberta de que determinado vínculo já não cabe confortavelmente dentro da palavra amizade.
Isso talvez seja o mais bonito.
Depois de uma década inteira tentando descobrir quantas formas o BL poderia vestir, a indústria retorna à simplicidade do primeiro amor. Não porque tenha esquecido aquilo que aprendeu, mas porque agora pode olhar para aquilo de onde veio.
O remake funciona quase como um experimento histórico involuntário. Quando a matéria narrativa permanece reconhecível e o ambiente industrial muda completamente, conseguimos observar aquilo que dez anos fizeram ao gênero.
Mudou a expectativa de atuação.
Mudou a relação entre série e promoção.
Mudou o modo como o público internacional acompanha os episódios.
Mudou a velocidade com que cenas circulam.
Mudou a forma como um ship pode ser construído.
Mudou a relação entre atores e redes sociais.
Mudou o próprio significado de chamar alguma coisa de BL.
Em 2014, Love Sick estava ajudando a descobrir se uma produção centrada em rapazes apaixonados poderia sustentar público suficiente para tornar-se fenômeno continuado. Em 2024, ninguém precisa fazer essa pergunta.
As empresas já existem.
Os concorrentes já existem.
As convenções já existem.
A memória já existe.
Por isso a nova versão carrega uma responsabilidade que a primeira jamais teve. Precisa conversar com espectadores que já conhecem aquela história sem transformar nostalgia em museu. Precisa permitir que novos atores ocupem personagens marcados por outros intérpretes. Precisa existir para adolescentes de 2024 sem apagar aquilo que a obra representou para jovens de 2014.
Essa tensão torna o remake historicamente mais interessante do que qualquer comparação simples de qualidade.
Não precisamos decidir qual Phun é melhor. Não precisamos decidir qual Noh é definitivo.
A pergunta realmente útil é outra: o que significa contar novamente Love Sick depois de tudo aquilo que aconteceu porque histórias como Love Sick foram contadas?
A diferença entre as duas versões está também no espectador. Quem acompanhou a primeira série envelheceu. Alguns permaneceram no fandom. Outros partiram e voltaram. Muitos conheceram dezenas ou centenas de BLs durante a década seguinte. Há espectadores que chegam ao remake sem qualquer memória da primeira adaptação. E há uma geração ainda mais jovem para quem 2014 já pertence a uma espécie de pré-história digital.
A mesma obra passa, portanto, a unir temporalidades.
Para uns, descoberta. Para outros, retorno.
O remake transforma fandom em memória coletiva. Há algo quase excessivamente perfeito na imagem de Almomd e Progress, que já nascem com o carisma de uma década de cultivo.
Em 2014, dois rapazes de uniforme aparecem diante de um público que ainda não sabe exatamente o tamanho daquilo que está começando.
Em 2024, outros dois rapazes vestem os mesmos personagens diante de uma indústria capaz de produzir máfia, horror, viagem temporal, melodrama histórico, thrillers médicos, séries políticas, romances profissionais, histórias sobre deficiência, reencarnação, idols e universos paralelos.
Entre essas duas imagens existem dez anos.
White e Captain.
Krist e Singto.
Off e Gun.
Max e Tul.
Perth e Saint.
Fluke e Ohm.
Mew e Gulf.
Bright e Win.
Billkin e PP.
Earth e Mix.
Ohm e Nanon.
Zee e NuNew.
Gemini e Fourth.
Pavel e Pooh.
E dezenas de outros nomes que passaram, permaneceram, desapareceram ou ainda retornarão.
Existem produtoras que nasceram. Outras que mudaram. Algumas que desapareceram.
Diretores construíram filmografias. Autores transformaram novels em universos.
Músicas tornaram-se memória de gerações.
Casais fictícios geraram casais promocionais. Casais promocionais sobreviveram a seus personagens. Atores se tornaram casais reais. Alguns não sobreviveram uns aos outros.
Atores mudaram de parceiro.
Fandoms aceitaram.
Fandoms recusaram.
Empresas aprenderam.
Às vezes aprenderam coisas erradas.
Mas aprenderam.
E, depois de tudo isso, Phun e Noh voltam.
Não para demonstrar que nada mudou.
Justamente para tornar visível o quanto mudou.

