Devaneios Pessoais
"Eu sustento com palavras o silêncio do meu abandono." (Manoel de Barros)
segunda-feira, 18 de maio de 2026
Me olhando no espelho
sábado, 16 de maio de 2026
Hostias et preces tibi, Domine
Iniciam-se os festejos em honra ao Divino Espírito Santo. Fiéis de toda parte acorrem em cânticos, ladainhas, procissões com a bandeira vermelha cheia de fitas coloridas hasteada. O suor de décadas de fé acompanham a romaria. Quantos terços foram rezados, os dedos trêmulos pela idade, a mente turva sem obedecer ao recordar os mistérios de cada dezena, mas a certeza de aquele Divino não decepcionaria. A ele se confiam, com a saúde dos pais e dos filhos, com a esperança de que aquele que partiu um dia retorne ao seio da família.
Que prece faria ao Divino? A graça da santidade, certamente, é a única coisa que deveria ser pedida. A maior proximidade com o mesmo Divino, no entanto... Acho que seria mais egoísta. Porque a graça da santidade já é algo que, para ser ao menos querida, precisa ser querida por alguém. Um sujeito onde a santidade se manifestaria, que se deixasse moldar por ela. E eu? Bem, eu já não sou tanto assim. Talvez pedisse, se fosse alguém, por uma razão, um motivo que fosse. Algo que fizesse meu coração bater, um rumo. Mas coração eu já não tenho, e a única prece que tenho feito nos últimos tempos, todas as noites, é a de não mais acordar.
Talvez fizesse uma prece como a de Clarice:
"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o. amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar."
Ou talvez eu só fique quieto, em silêncio, como todas as noites antes de adormecer, e faça desse silêncio, a minha prece, como pobre pecador que, olhando a imensidão e a miséria do próprio ser, não se atreve a dizer nada, sendo sua presença uma prece, que a Ele já conhece. E, ainda assim, esperando não mais acordar.
"Os objetos só têm sentido quando têm sentido, fora disso... Eles precisam ser olhados, manuseados. Como nós. Se ninguém me ama, viro uma coisa ainda mais triste do que essas porque ando, falo, indo e vindo como uma sombra, vazio. Vazio. É o peso de papel sem papel, o cinzeiro sem cinza, o anjo sem anjo, fico aquela adaga ali fora do peito. Para que serve uma adaga fora do peito?" (Lygia Fagundes Telles)
sexta-feira, 15 de maio de 2026
Esperando a noite chegar
Vi as mensagens logo cedo. Tinha combinado de sair e caminhar um pouco com minha prima, às 5h da manhã, mas a chuva não parou até agora. As outras foram chegando com o avançar da manhã, em meio a uma onda de barulho e caos: com a chuva ficamos confinados, crianças se irritam, e parecem ocupar cada pequeno canto da casa. Os adultos se irritam, e o resultado é uma célula inconstante prestes a colapsar.
Chegaram mensagens longas, comovente, admito, de um rapaz que pedia ajuda. Irmão de Igreja, entendo, mas não tenho, no momento, nada em dinheiro. As outras, áudios longos, e Deus sabe o quanto odeio ouvir áudios, não sei do que se trata. Talvez escute amanhã, ou depois. Queria mesmo não ouvir nunca.
Alguns amigos também, mas não estou com vontade. Um deles gosta de se gabar para as meninas mas, bem, eu não me beneficio nada com isso. Se vou ouvir que mandou nudes para uma garota, quero pelo menos fazer parte da lista de transmissão. O outro, bem, sinto como se nunca fosse ouvido. Decidiu acompanhar uma nova história, porque viu algo sobre um personagem na internet, não porque falei sobre a série e fiquei um tempão procurando um vídeo interessante sobre o sistema de batalhas e a qualidade da animação aliada à história. Tudo bobagem pra ele. Mas, o que ele diz, nesse momento, é bobagem para mim.
Vou me unir apenas ao som da água descendo pela corrente das calhas, e a playlist indie, violão e voz. Apenas. Como se a casa inteira estivesse molhada por dentro.
Hoje não será um dia que começarei nada, exceto as séries que vou ver à noite.
The Gaze com as disputas e intrigas, homens com dores e dificuldade de amar, assim como em The Gaze, com as disputas e intrigas, homens com dores e dificuldade de amar; Double Helix, com um passado dolorido que marcou cada um deles de um modo diferente: um que nega o amor, que só traz dor, e outro capaz de causar qualquer dor por esse mesmo amor. Em Journey With You a beleza histórica de uma China dividida e em guerra, e dois amantes tentando sobreviver às disputas politicas que sufocam seus sentimentos. A dor da traição pode ser vencida pelo cuidado e pela sinceridade?
Há dias em que viver se resume a esperar a noite chegar.
quinta-feira, 14 de maio de 2026
Refúgio e sombra
Consegui encontrar algum alívio pro grande abismo da solidão, naquela madrugada que foi ficando mais e mais fria, ao passo em que as histórias, os amores, os sorrisos, os beijos, foram me aquecendo. É, foi uma madrugada solitária, mas não foi ruim.
A beleza deles me lembrou o torso arcaico de Apolo, uma beleza que não podia ser descrita, lamento muito se alguém chegar a ler essas palavras um dia, mas não, não posso descrever o quanto são belos. Só pude ficar a contemplar, a pele iluminada pelo sol, perfeita, sorrisos lindos e olhos brilhantes como as estrelas do universo, vestes em simplicidade ideal, nada exagerado.
Assim como naquele dia, buscarei refúgio naqueles ermos tristes, é verdade, mas onde encontro companhia para dividir a solidão. Um homem escolheu seu destino: a dor no lugar da dor do seu amado. Eu não tive escolha, não amado, mas ambos ficamos na solidão daqueles quartos frios.
Por dias. Semanas. Anos.
Sem saber quando acabaria, sem saber se a cabeça um dia vai voltar a ser como era antes.
Nem sempre funciona. Às vezes as sombras tomam conta de mim e eu fico lá, parado no escuro, esperando. Esperando. Não sei o motivo da espera. Não sei se estou esperando, mas fico lá, no escuro, talvez onde eu já seja um só com toda essa sombra.
"(...) A melancolia é um prazer sensual deliberadamente provocado. Quantas pessoas se fecham para ficar mais tristes, ou para chorar à beira de um riacho, ou escolher um livro sentimental! Estamos constantemente construindo e desconstruindo a nós mesmos." (Gustave Flaubert)
quinta-feira, 7 de maio de 2026
Um livro ridiculamente grande
"Move-se a mão que escreve, e tendo escrito, segue adiante; Nem toda a tua Piedade ou o teu Saber a atrairão de volta, para que risque sequer metade de uma linha; Nem todas as tuas Lágrimas lavarão uma só de tuas Palavras." (Omar Khayyam)
Acho que queria contar algo pra alguém. Aconteceram algumas coisas interessantes nos últimos dias, mas não tenho com quem compartilhar.
A DMD Land 3 parece ter sido incrível. Não gosto muito de shows mas nesse eu iria. Apresentações memoráveis, como o dueto TleFirstone, ou o palco das Divas com Genie Ja... Ohm arrasando ao som de Crazy in Love, Nunew, Kong, Namping com visuais impecáveis e os fofos da 5° geração juntos. Também algumas carinhas novas mostradas como já da 6° geração, entre elas o Ton Saran, velho conhecido.
Continuo deslumbrado também com o visual etéreo, idílico, de Flower Boy. As flores silvestres, a forma como o povo se vê como parte do campo, unidos a ele. Também impressionado com o Peak e Pearl no auge da beleza. Poucas vezes combinaram atores tão lindos juntos. Chorei com Love You Teacher, Santa tá tão bem nesse papel que não duvido que receba prêmios por ele. Ele e Perth estão mostrando uma história linda de superação e companheirismo. Enfim...
Mas para ninguém posso contar essas coisas, a ninguém interessa, assim como eu não me interesso pelos outros.
Apenas fico sentado aqui, ou deitado e ignorando toda a existência que há fora do meu quarto. Vejo as pessoas passarem pra lá e pra cá. Correndo, ocupadas. Mas para quê? Para que esse esforço? Nada disso faz sentido pra mim.
Acabei de ler a frase: “Não finja não ter interesse nas coisas românticas dessa vida só porque alguém tem preguiça de te oferecer.” E isso foi um golpe pra mim... Porque eu me tornei alguém descrente no amor, de tal modo que, sempre que me aproximo de alguém, já penso incomodar. Saber que isso é uma característica do Borderline não ajuda. Tento me afastar, ao mesmo tempo que continuo querendo me aproximar, mas com aversão a qualquer um. Isso porque eu sei como termina, e sempre termina igual: comigo escrevendo sozinho, de madrugada. Mesmo jurando que não iria mais fazer isso. Mesmo não tendo mais o que dizer do que aquilo que já disse tantas e tantas vezes. Me sinto de novo como o último capítulo de um livro ridiculamente grande que ninguém se dispõe a ler.
Vejo que se tornou comum na internet o discurso da solitude, de como é importante aproveitar e apreciar a própria companhia, como ir ao cinema ou num café sozinho. Mas vejo também que essas pessoas não parecem ter experimentado o mais baixo da solidão. Aquele ponto em que, olhando a redor, vê-se o homem absolutamente sozinho, sem que ninguém, amigos ou família o entenda. Esse entende a solidão, e pode se acostumar com ela, como quem se acostuma com uma doença sem cura, mas nunca gostar dela, nunca apreciar.
quarta-feira, 6 de maio de 2026
Indo dormir
Preciso traduzir um silêncio que já dura vários e vários dias. A única coisa de que consigo me lembrar é de me afundar na cama, por incontáveis tempos, e de ver os dias passando, pelo vislumbre de uma luz fraca que invade as beiradas das cortinas, e do choro de criança, que vem e vai, como se estivesse preso numa sinfonia infernal entre silêncios e um tutti brutal.
Com muito custo eu levantei e fui ao ensaio, completa e absolutamente desinteressado em cada uma das peças musicais que eu mesmo havia escolhido. É assim ultimamente, tudo tem ficado assim, sem graça, sei lá.
Pensei no que poderia fazer durante a noite, pois parece o único momento com o mínimo de paz que eu tenho, já que durante o dia é inviável ler, escrever ou assistir. Estou revendo Kiseki ~ Dear to Me, mas não tem me prendido, mesmo com a qualidade de uma produção taiwanesa. Pensei em maratonar Be Loved in House: I Do, mas, por alguma razão, nem mesmo a ideia de rever o corpo perfeito do Aaron Lai ou o belíssimo Hank Wang. Mesmo sendo um dos meus BLs favoritos, a ideia não me agradou. Optei por um daqueles filmes de super-heróis. Não foi ruim mas... É assim, ultimamente tudo tem ficado assim, sem graça.
Estou com um pouco de sono, coloquei um concerto para violino para assistir, e isso me faz lembrar que eu deveria tomar meu remédio, e dormir um pouco, já que, há semanas, meu sono está desregulado e isso com certeza vem afetando meu humor, com ciclagens cada vez mais rápidas e mais violentas. Montei uma nova playlist com música japonesas estilo indie, mas não sei quantas faixas ouvi antes de, mais uma vez, me afundar na cama e deixar a mente no vazio.
Quero comer bolo, Bem doce. E por isso sei que não paro de engordar. Estou com quase cem quilos, quarenta à mais do que eu costumava ter. E não tenho força pra sair da cama, quem dirá fazer os exercícios necessários pra mudar isso.
É, acho que vou dormir. Baixei de novo os apps de encontros mas... Bem, o espelho me impede de seguir adiante. Não estou interessado em mais nada. É uma noite fresca, mas sem brisa. Tenho um coração, mas sem teogonia. Não tem nenhum cara atrás de mim me fodendo, então é melhor só ir dormir mesmo.
"Ora, o amor!... Essa história de amor, absoluto e incoerente, é muito difícil de achar... eu, pelo menos, nunca o vi... o que vejo, por aí, é um instinto de aproximação." (Rachel de Queiroz)
quinta-feira, 30 de abril de 2026
Engenharia Religiosa: Manipulação e empobrecimento da Fé na Igreja Católica III
O movimento da New Age só pôde alcançar uma repercussão mundial em prazo tão rápido graças ao emprego maciço da estimulação contraditória que reduz milhões de seus adeptos à credulidade imbecil e a uma subserviência patética. Não há nenhum precedente histórico para este fenômeno. Ele não se assemelha em nada àquilo que nos séculos passados, e em muitas civilizações diversas, se admitia como fé religiosa. A fé pode predispor um homem a acreditar em prodígios e milagres, isto é, em rupturas da ordem natural costumeira; pode também levá-lo a aceitar a autoridade de um guru ou santo cujo saber permaneça fora de toda possibilidade de controle; pode ainda fazê-lo aceitar alegremente sacrifícios sem vantagem aparente imediata. A fé pode exigir de um homem que ele contrarie o bom senso, desobedeça à sua disposição natural ou lute contra seus mais óbvios interesses.
AGOSTINHO, Santo. Confissões. Trad. J. Oliveira Santos; A. Ambrósio de Pina. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2017.
AUGELLI, Marielza. Hipnose é nova arma usada em roubo na Itália. O Estado de São Paulo, São Paulo, 9 dez. 1990.
BANDLER, Richard; GRINDER, John. The structure of magic I: a book about language and therapy. Palo Alto: Science and Behavior Books, 1975.
BENTO XVI. Carta encíclica Deus Caritas Est. São Paulo: Paulinas, 2006.
______. Spe Salvi: sobre a esperança cristã. São Paulo: Paulinas, 2007.
BERNAYS, Edward. Propaganda. Brooklyn: Ig Publishing, 2005.
CARVALHO, Olavo de. O jardim das aflições: de Epicuro à ressurreição de César: ensaio sobre o materialismo e a religião civil. 3. ed. Campinas: Vide Editorial, 2015.
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 11. ed. São Paulo: Loyola, 2000.
CONCÍLIO VATICANO II. Constituição dogmática Lumen Gentium. In: COMPÊNDIO do Concílio Vaticano II. Petrópolis: Vozes, 2000.
CONWAY, Flo; SIEGELMAN, Jim. Snapping: America’s epidemic of sudden personality change. Philadelphia: J. B. Lippincott, 1978.
CONWAY, Flo; SIEGELMAN, Jim. The awesome power of the MindProbers. Science Digest, maio 1983.
DIÓGENES LAÉRCIO. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Livro X, §6.
EPICURO. Carta a Heródoto. In: DIÓGENES LAÉRCIO. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Livro X, 78-80.
FARGES, Albert. Les phénomènes mystiques distingués de leurs contrafaçons humaines et diaboliques. Paris: Maison de la Bonne Presse, 1920.
FRANCISCO. Exortação apostólica Gaudete et Exsultate. São Paulo: Paulus, 2018.
GEISER, Robert L. Modificação do comportamento e sociedade controlada. Trad. Áurea Weissenberg. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.
GURDJIEFF, George Ivanovich. Meetings with remarkable men. New York: Dutton, 1963.
IRINEU DE LIÃO, Santo. Contra as heresias. São Paulo: Paulus, 1995.
JOÃO DA CRUZ, São. Noite escura; Subida do Monte Carmelo; Cântico espiritual. Petrópolis: Vozes, diversas edições.
JOÃO PAULO II. Exortação apostólica Catechesi Tradendae. São Paulo: Paulinas, 1979.
LE BON, Gustave. Psicologia das multidões. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2008.
MANNHEIM, Karl. Estratégia do grupo nazista. In: ______. Diagnóstico do nosso tempo. Trad. Octávio Alves Velho. Rio de Janeiro: Zahar, 1961.
MEERLOO, Joost A. M. Lavagem cerebral: menticídio, o rapto do espírito. Trad. Eugênia Moraes Andrade; Raul de Moraes. São Paulo: Ibrasa, 1980.
REBOUL, Olivier. A doutrinação. Trad. Heitor Ferreira da Costa. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1980.
SARGANT, William. A possessão da mente. s.l.: s.n., s.d.
SARGANT, William. Battle for the mind: a physiology of conversion and brain-washing. London: Heinemann, 1957.
TERESA DE JESUS, Santa. Livro da Vida; Castelo Interior. São Paulo: Paulus, s.d.
Engenharia Religiosa: Manipulação e empobrecimento da Fé na Igreja Católica II
As técnicas modernas de influência psíquica avançaram em precisão, alcance e sofisticação muito além do que o homem comum tende a considerar plausível. Ao mesmo tempo, a capacidade média de defesa crítica parece reduzir-se proporcionalmente, especialmente em contextos marcados por hiperestimulação digital, fragilidade identitária e pobreza formativa. O resultado é um ambiente no qual os instrumentos de mobilização afetiva se tornam cada vez mais eficazes precisamente na medida em que se tornam menos visíveis.
Engenharia Religiosa: Manipulação e empobrecimento da Fé na Igreja Católica I
O Jardim das Aflições (1995) é uma das principais obras do Prof. Olavo de Carvalho, articulada a partir de uma conferência sobre a presença do Estado na liberdade individual, elabora uma crítica densa à modernidade, conectando a filosofia de Epicuro ao que ele descreve como a expansão do poder estatal e a asfixia da vida intelectual. O livro percorre temas que vão da história das ideias à psicologia, argumentando que o projeto da modernidade ocidental conduz a um coletivismo que degrada a consciência individual e a busca pela verdade transcendente.
O obra circula ao redor da a ideia de "Império Romano" não apenas como um período histórico, mas como um arquétipo político que se repete. Para ele, a história do Ocidente é marcada pela tentativa recorrente de restaurar a unidade imperial romana, a Pax Romana, onde o Estado se torna o centro organizador de todos os aspectos da vida humana.
O autor argumenta que essa estrutura imperial ressurge sob diferentes máscaras (como o Sacro Império, o Imperialismo Napoleônico ou o Globalismo moderno), mas sempre com a mesma característica: a absorção da esfera espiritual e intelectual pelo poder político. Nessa visão, o "Império" é o esforço de criar um paraíso terrestre (o jardim) que, ao tentar controlar a realidade e eliminar o sofrimento por meio da administração estatal, acaba por gerar a "aflição" ao sufocar a liberdade e a consciência individual.
Como já tratei em outras oportunidades, as Novas Comunidades, como Colo de Deus, Samaria, Fraternidade São João Paulo II, Missão Recado, dentre tantas outras que, a nível diocesano ou até nacional, trazem sempre em seus números impressionantes conquistas na, dita, evangelização. Que não se trata de evangelização verdadeira acho que já o tratei suficientemente, no entanto, há muito ainda a ser explorado para que possamos compreender o fenômeno que domina quase hegemonicamente a mentalidade dos nossos jovens católicos.
Em O Jardim das Aflições, Olavo de Carvalho mostra como técnicas de persuasão e manipulação de consciência são usadas no meio politico. A pesquisa é toda dele, o que eu fiz foi apenas aplicar o dito no recorte religioso, especificamente o brasileiro.
terça-feira, 28 de abril de 2026
Qualquer coisa
Aquela conversa era uma troca de provocações. Mesmo que ele, talvez não desse conta disso completamente. Dois homens com tesão falando sobre isso o dia todo. O pau torando nas calças e a gente fingindo que não está pensando em sexo o dia todo.
Acho que os homens são assim. Ao menos a maioria deles. Alguns devem se concentrar em ganhar dinheiro, ser ou parecer bem sucedido mas, no fim do dia, parece que tudo é feito com o objetivo de comer alguém. E talvez seja mesmo.
Ele queria enfiar os dedos em alguma garota, descontar o acumulado, enquanto chupa com ferocidade os peitos dela. Eu queria colocá-lo no meu colo, bater uma pra ele até ver aquele rostinho claro ficar vermelho, e cuspir porra por toda parte.
Ele não tem ideia, ou finge, do quanto seria bom se me deixasse fazer isso.
Talvez tenha passado o dia olhando pra uma planilha estúpida no computador, com mente no tesão que passava como eletricidade percorrendo seu corpo. Eu passei o dia me retorcendo na cama, enlouquecido com cada coisa que ele me dizia, como quando disse que ficara completamente pelado ao chegar do trabalho, ou como ia bater punheta em todos os cantos da casa pra aliviar a coisa.
Os momentos de luxúria ensandecida se dividem com a apatia de cada dia. Ao mesmo tempo que sentia o calor do quarto aumentar por minha causa, se abria os olhos, ainda vi tudo coberto por uma fina camada de poeira, um véu me separando de tudo o mais.
Que droga!
É um desperdício que toda aquela porra seja jogada fora. Eu engoliria tudo, e o beijaria, e isso o deixaria louco, e então faríamos como animais, meus dedos em seu rabo, seu pau na minha boca, até cairmos para o lado, exaustos.
Talvez ele pense nisso hoje à noite, antes de bater mais uma pensando naquela garota sem graça. Eu não sei se vou me forçar a assistir outra noite triste e, em vão, tentar dormir amanhã. Os dias têm sido um saco. Muito barulho, insuportável.
E às vezes, na maior parte das vezes, nem consigo ouvir muita coisa. É como se tudo, mesmo que ao meu lado, estivesse distante. Ouço como se fosse ao longe, minha anuviada, e ainda assim muitas vezes me encho de fúria.
Por isso eu prefiro voltar a pensar em como seria se estivesse lá com ele. Talvez também ficasse distante de tudo o mais, apenas ciente e consciente de sua presença.
No banho, fitaria seu corpo branco cheio de marcas dos meus lábios. Passaria sabão pelo seu corpo, com uma mão, e a outra já no meu pau. Não tem problema, homens não ficam satisfeitos facilmente. Nunca é demais. Daria a ele mais uma punheta gostosa, antes de me virar de costas para ele empinar a bunda, o rabo pronto pra receber seu cacete, que já estava duro. Ele mete devagar, não é tão grande mas é bem grosso, e parece me rasgar, me fazendo gemer e sorrir. Porra, que moleque gostoso! E ele começa a bombar mais rápido, gozou dentro de mim, encostando a cabeça nas minhas costas. Me viro e gozo no seu pau, olhando mais uma vez as marcas.
Ficariam ali por semanas:
lembrança de que eu estive ali e fiz meu aquele corpo, daquele cara que, como eu, pensa em sexo o tempo todo.
Depois cada um vai pra um lugar, faculdade, caminhar pela rua e pensar no vazio. Aula de estatística e energético. Eu sentaria pra ouvir música e tomar uma cerveja.
Qualquer coisa assim.
O chá que fiz ficou fraco, e esfriou logo. Acho que perdi o jeito. O de ontem tinha gosto de terra. Os remédios pra dormir já não ajudam mais. Não tenho bebido, pois com os remédios a ressaca é sempre horrível. Não sei o que fazer. Cada dia me sinto mais perdido, até mesmo ao conversar com um cara assim e falar bobagens.
Será que eu só quero sexo? Quando penso em alguém, só consigo pensar nisso. Conhecer uma pessoa, me aproximar, tudo isso é muito chato, me cansa só de imaginar. Acho que, depois da última vez, quando ouvi algumas das piores palavras da minha vida, não sou mais capaz de amar. Finalmente. Amar é uma droga ou, como disse o velho Buck: o amor é um cão dos diabos.
Não vou tomar banho com ninguém. A única interação será com desconhecidos dos vídeos na internet. Um pouco de vento nessa noite, mais ou menos fresca, em que vou dormir sem saber se quero dormir, assistir, ou simplesmente desaparecer.
Passei mais um chá, preto, e dessa vez não ficou tão ruim. Mas nunca mais senti o sabor como antes. Começou a chover um pouquinho. O calor podia finalmente dar uma trégua de alguns meses, mas no jornal disse que volta a ficar quente ainda essa semana. Droga!
"talvez o amor seja sexo. talvez o amor seja uma tigela de mingau. talvez o amor seja um rádio desligado." (Charles Bukowski)






.jpeg)


