terça-feira, 25 de agosto de 2026

Até que as montanhas deixem de existir

À direita, a montanha desaparecia na névoa. À esquerda, o vale se abria por entre as árvores.

Ele caminhava.

E, pela primeira vez em muito tempo, não precisava dizer nada.

Caminhando lentamente aquele jovem buscava ficar longe, de todo aquele barulho, de todas aquelas conversas e apontamentos. Aprendera a sorrir o tempo todo, mas os prêmios que isso lhe rendeu apenas servem para enfeitar as prateleiras. Não é como se ele não gostasse do que fazia, mas o preço que precisava ser pago para fazer o que gosta é que é alto demais. 

Buscava ali algum descanso. Não como naqueles casos em que, farto de tudo, buscou se refugir escondendo do mundo. Não. Seu irmão passara os últimos anos ali, estudando as técnicas de cultivo de chá e, por isso, indicou que ele ficasse alguns dias. Ele só queria descansar.

Nos primeiros dias, caminhava sem pressa. Às vezes passava longos minutos sem ouvir uma voz, e o silêncio daquele lugar não parecia vazio, como os silêncios que conhecera na cidade, sempre interrompidos por alguma máquina, alguma notificação na rede social onde todos só queriam destilar ódio ou alguma pessoa chamando seu nome. 

Ali havia o vento nas folhas, 
o canto distante de um pássaro que ele não sabia o nome, 
o rangido da madeira sob seus pés. 

Eram sons pequenos, mas ocupavam o mundo inteiro. Caminhava, respirava, e continuava caminhando. Talvez fosse isso que procurava, embora ainda não soubesse dar nome: um lugar onde não precisasse preencher cada instante com alguma coisa.

A viagem era longa, aquele lugar era o mais distante que ele já havia ficado de uma cidade. A estrada era sinuosa mas, a cada curva, se abria uma nova e deslumbrante paisagem. A estrada subia devagar, parecia que nunca teria fim. 

Sem dizer nada ele se confortava. No silêncio.

O verde imenso que recobria a cadeia de montanhas, a névoa que dividia espaço com a floresta e o sol brilhante no céu azul em cores tão belas que um artista de décadas de treino dificilmente conseguiria reproduzir. Nem a câmera que ele apontou, aqui e ali, podia captar aquela beleza construída por dez mil anos de história, seguindo a antiquíssima regra do mundo. 

Havia alguma coisa naquela paisagem que o fazia perceber a própria pequenez. As montanhas não tinham pressa. As árvores haviam crescido ali muito antes que alguém pensasse em construir uma estrada, e continuariam crescendo depois que aquela estrada estivesse esquecida. A névoa chegava pela manhã e desaparecia quando queria; o sol atravessava as copas em manchas móveis; as folhas novas surgiam sem pedir licença às antigas. Ele estava acostumado a medir a vida por compromissos, temporadas, gravações, prêmios e datas marcadas em agendas. Ali, entretanto, o tempo parecia obedecer a outras regras. Uma flor abria quando chegava sua hora. O chá era colhido quando estava pronto. A montanha simplesmente permanecia.

Subiu um pequeno morro até a cada do homem que iria hospedá-lo. Era um sobrado e, pela altura, daria pra ver boa parte da região dali. O dono da casa era um jovem, de corpo forte, mas muito gentil. O estranhamento entre um homem acostumado a ter pessoas fazendo tudo por ele, e outro acostumado a fazer tudo sozinho, no entanto, não foi empecilho para a aproximação,

Logo os dois passaram a caminhar juntos, desde cedo, colhendo flores de chá ou cortando bambus. A comida era sempre feita com as coisas que a pequena aldeia produzia. E era sempre farta, de variedades e sorrisos. Não falavam o tempo todo. Às vezes um caminhava alguns passos à frente e o outro ficava para trás, ocupado com alguma planta, e depois se encontravam novamente sem que nenhum dos dois precisasse chamar. Quando chovia, um segurava o cesto enquanto o outro protegia as folhas. Quando voltavam cansados e, logo, havia uma xícara fumegando esperando por eles sobre a mesa. Aos poucos, aquelas pequenas coisas começaram a adquirir uma importância que ele não saberia explicar. Não houve um momento preciso em que percebeu que estava apaixonado. Talvez tivesse acontecido numa manhã qualquer, enquanto alguém cortava bambu no quintal e o cheiro do chá recém-preparado atravessava a casa.

Ele aprendeu alguns dos segredos dos chás, e não vivia mais sem beber, e apreciar cada nota, cada detalhe do sabor, enquanto conversava com todos. 

No começo, não sabia distinguir quase nada. Bebia e apenas dizia que era bom. Depois começou a perceber que um tinha uma nota mais doce, outro uma amargura breve que desaparecia logo, outro deixava na boca um perfume que lembrava flores que ainda não sabia nomear. Aprendeu que o chá também tinha seu tempo. Não se podia apressar seu sabor, assim como não se podia pedir à montanha que chegasse mais depressa ao verão. Algumas coisas precisavam apenas permanecer na água quente até que estivessem prontas para entregar aquilo que guardavam.

O resto do país se perguntava o que fazia nas férias o ator querido dos holofotes, mas ele nem ligava, aquilo não eram férias: ele descobrira um novo lar.

O rapaz que acolheu, por quem logo se apaixonou, fez com ele cada canto daquela casa uma lembrança especial. Havia a varanda onde o vento fazia tocar o pequeno sino, a mesa onde tomavam chá ao fim da tarde, a porta que rangia quando alguém entrava depressa, a janela de onde se podia ver a montanha quando a névoa permitia. Havia até o caminho entre a casa e os campos, que ele aprendeu a reconhecer não pela distância, mas pelas pequenas coisas que apareciam nele: uma pedra clara junto à trilha, uma árvore inclinada sobre o caminho, uma parte do terreno onde as flores cresciam mais baixas. Depois de algum tempo, já não precisava pensar para saber onde estava. O corpo sabia antes dele. Bastava virar uma esquina e alguma lembrança vinha ao encontro. Cada passo da casa até os campos e dos campos até a parte da aldeia onde preparavam as folhas de chá era, agora, familiar.

Não chorou quando precisou voltar, porque ele sabia que não era uma despedida. Com efeito, sempre que surgia uma brecha na agenda, é lá que ele ia. Acampava no topo das montanhas, ia conhecendo mais à fundo a mata fechada, e amava.

Amava o aroma do chá tanto quanto o perfume do seu amor. Amava o céu azul e o som do vento agitando a copa das árvores. Amava quando seu irmão o visitava, e logo saía correndo, para reencontrar os amigos da aldeia. 

O irmão também aprendera aqueles caminhos. Bem antes dele. Havia uma trilha que preferia, porque de determinado ponto era possível ver o vale inteiro; outra levava até uma árvore antiga onde costumavam descansar depois de subir a montanha. Às vezes discutiam sobre qual chá era melhor, e ele fingia não concordar apenas para prolongar a conversa. O irmão ria. Depois o vento passava pelas folhas, falava de uma flor mágica que ele iria reencontrar um dia, e por alguns instantes ninguém dizia nada. Anos mais tarde, quando voltasse àquele mesmo lugar sozinho, seria justamente aquele silêncio que lembraria primeiro.

Um dia, seu irmão foi para longe mais uma vez, e não mais voltou. Se perdeu em meio à luz de uma área distante na floresta. A floresta havia chamado seu Pequeno Príncipe. E então ele chorou. A montanha continuava permanecendo.

Naquele dia, a floresta estava especialmente clara. A luz atravessava as árvores em longas faixas e desaparecia sobre o chão coberto de folhas. Por algum tempo ninguém soube dizer exatamente onde ele havia estado pela última vez. Havia apenas caminhos que continuavam adiante, todos parecendo levar a algum lugar. As flores continuavam abertas. O vento continuava passando entre os galhos. O pequeno sino da varanda continuou tocando naquela tarde, embora ninguém tivesse ido até a casa. Foi então que ele percebeu uma das crueldades da natureza: ela não sabe quando alguém morreu. As árvores continuam crescendo.

Mas não deixou de até lá, sempre que podia. Voltava e encontrava tudo quase igual. A mesma estrada longa e sinuosa, as mesmas árvores, os mesmos campos onde o chá crescia em linhas que acompanhavam as curvas do terreno. Apenas ele havia mudado.  Sabia que ali, seu irmão estaria com ele, na brisa que parecia soar como seu sorriso ao agitar o pequeno sino dos ventos na varanda. E tinha seu amado. 

Havia dias em que caminhava até a árvore onde o irmão costumava descansar e permanecia ali sem fazer nada. Não rezava, não falava, não procurava respostas. Apenas ficava. Talvez porque naquele lugar ainda fosse possível imaginar que, se esperasse tempo suficiente, ouviria outra vez aquele riso vindo de algum ponto da floresta.

Aprendera a apreciar o silêncio que ele buscara há tanto. Ficavam dias sem trocar mais do que umas poucas palavras, mas não era desconfortável, apenas não era necessário.

A separação com seu amor também não o distanciou daquelas montanhas. Enquanto o homem forte estudava e se preparava para caçar, ele continuou andando por aqueles lugares, pois cada pequena trilha, cada árvore ao redor do chalé, cada som, cada aroma, tudo lembrava seu amor. 

A espera demorou mais que o previsto. O exército roubara do seu homem mais do que prometera. E ele continuava esperando. Paciente. O homem que amava também passou a existir naqueles lugares mesmo quando não estava neles. 

Uma determinada árvore lembrava seus braços. 

Uma trilha lembrava a maneira como caminhava. 

O orvalho da manhã era como o outro saía do banho, sem roupa e com várias gotas pelo corpo perfeito, só para provocá-lo. 

O cheiro das folhas molhadas trazia de volta uma tarde de chuva em que haviam ficado abrigados sob o beiral da casa. 

Até o chá, que antes era apenas chá, começou a possuir nomes que não estavam escritos em nenhuma embalagem: este era o que ele gostava; aquele era o que bebiam quando fazia frio; outro era o que haviam descoberto juntos. A memória tinha transformado a montanha numa casa ainda maior.

Dois anos se tornaram três. 

Depois quatro. 

Depois cinco. 

Os números avançavam enquanto a montanha permanecia. A cada estação, alguma coisa mudava: as flores desapareciam, o verde escurecia, a névoa chegava mais cedo, o frio demorava mais a partir. Mas a montanha continuava ali, enorme e silenciosa, como se cinco anos fossem apenas um intervalo breve entre duas manhãs. Ele começou a pensar que talvez fosse isso que significava esperar. Não permanecer imóvel, mas continuar vivendo enquanto o tempo fazia seu trabalho. As folhas cresciam. Eram colhidas. Voltavam a crescer. O chá era preparado. Bebido. A água esfriava. Outra água era colocada no fogo.

Quantos milênios se passaram até que aquelas montanhas se formassem? E ele sabia que, sem esse tempo, elas jamais seriam como era. Naquela tarde, como em tantas outras, preparou o chá sem pensar muito no que fazia. 

A água ferveu, 

a fumaça subiu lentamente 

e durante algum tempo ficou suspensa diante dele, 

misturando-se à luz amarela do meio da tarde. 

Ele segurou a xícara com as duas mãos. 

Já conhecia aquele sabor havia anos. Sabia quando estava pronto apenas pelo aroma. Bebeu um pouco e olhou para as montanhas. Não esperava nenhuma novidade. Depois de tantos anos, aprendera que esperar também era isso: tomar o mesmo chá, olhar a mesma paisagem e ainda assim acreditar que alguma coisa poderia acontecer. Por um momento, o mundo inteiro pareceu suspenso: o vento, a fumaça do chá, as folhas, até o pequeno ruído dos pássaros. Ele não se levantou. Não conseguiu. Apenas olhou. E então ele avistou, ao longe, a figura daquele homem. E não acreditou no que viu. Será que sua cabeça lhe pregava uma peça? Será que a floresta se compadecera dele e então o chamava, como chamou seu irmão?

O homem parou por um instante, como se também precisasse ter certeza de que aquele que estava diante dele era real. Depois correu. Não havia mais montanha, nem estrada, nem anos, nem espera. Havia apenas aqueles poucos metros entre os dois. Ele correu como quem atravessava não uma clareira, mas cinco anos inteiros. E quando finalmente o alcançou, o abraço. A força de um urso pressionando-o contra peitos de aço. Quase o fez perder o equilíbrio.

Era real. Ali, no topo daquela montanha, com o sol e as árvores como testemunha, o seu amor permaneceria vivo, pelos próximos dez mil anos, ou até que as montanhas deixem de existir. 

Ficaram ali por algum tempo, sem dizer nada. Não havia necessidade. O sol descia lentamente sobre as árvores, e a luz atravessava a névoa em longas faixas douradas. O chá já havia esfriado sobre a mesa. Ao longe, o vento passava pelas copas e fazia a montanha parecer respirar. Ele olhou para aquele homem e depois para tudo aquilo que havia aprendido a amar: a casa, os campos, a floresta, as trilhas, o silêncio. Pensou no irmão, nos anos de espera, nas pessoas que haviam partido e nas que haviam permanecido. Talvez a montanha soubesse alguma coisa sobre isso. Talvez não. 

Ela estava ali antes deles e estaria depois. Mas naquele instante, por um breve momento, pareceu testemunhar aquele reencontro. E ele soube que, ali no topo daquela montanha, com o sol e as árvores como testemunha, o seu amor permaneceria vivo pelos próximos dez mil anos, ou até que as montanhas deixassem de existir.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

O sol desfaz a névoa

Já vinha pressentindo isso há alguns dias. Dizem que, com a experiência de muito tempo, as pessoas de certos lugares conseguem sentir quando se aproxima a chuva, ou a tempestade. São pessoas do sertão árido ou marinheiros de longa data, habilidade aprendida por medo, ou necessidade, ou os dois. 

Sempre sinto uma forte dor de cabeça. É o primeiro sinal. Meu corpo costuma saber antes de mim quando alguma coisa está prestes a desabar.

Junto a ela uma sensação de crescente inquietação. Antes o corpo era tomado pelo torpor, aquele característico da anedonia que faz os dias passarem sem que se perceba. O moribundo jaz na cama, e passam as horas, os dias, e ele ainda continua lá. No meu caso é como se apenas as noites existissem. E então tudo muda quando a depressão se recolhe, cedendo lugar para outro demônio. 

A névoa matutina é violentamente dissipada pela luz do sol. Eu não gosto do sol. Sempre odiei. Me faz lembrar daqueles dias desconfortáveis de verão que não conseguimos dormir direito, e viramos de um lado pro outro, o suor por todo o corpo, e a aquela brecha atrevida fazendo uma luz incômoda tocar o corpo, mesmo quando lhe damos às costas. Há qualquer coisa de ofensivo naquela insistência luminosa de que o dia precisa começar. 

Tomado de imensa fúria na noite de hoje. Meio de semana, contemplo a imensidão da minha incompetência: praticamente um incapaz. Praticamente um incapaz. Não há nada de nobre nisso. É simplesmente humilhante.  Depois de (mais) um dia de inutilidade, uma fuga da realidade: de volta para as histórias. Há fugas que nos escondem do mundo. Estas, às vezes, me devolvem algum mundo. Elas já se tornaram meu porto seguro. Certamente alguém diria que é apenas uma fuga, e eu sei que muitas vezes de fato o é. Mas aprendo muito do mundo que não consigo viver por ter sido me tirada a vontade de sair da cama. 

Tenho consciência dos limites dos recortes apresentados. Mas também sei que até mesmo o enfoque que é dado me faz compreender: ele também tem algo a me dizer. 

Meu professor dizia que a primeira coisa a se fazer, sempre, de modo real, crescente e permanente, é enriquecer com a experiência humana. Talvez seja por isso que eu tenha aprendido a procurar vidas onde não consigo viver a minha. Ariano Suassuna, certa vez, já de idade avançada e sensibilidade ainda afiada, citou o Albert Camus, que elaborou que o único problema filosófico importante seria o do suicídio. O sujeito avalia a vida, avalia a si mesmo, e chega a conclusão de que isso é inviável, de que não vale a pena. Mas Ariano discordava do filósofo franco-argelino: para ele o suicídio era apenas parte, ou sintoma, do real problema, que seria o do sofrimento humano. Este sim é o maior problema de todos e que seu conterrâneo Leandro Gomes de Barros havia eternizado de modo mais bem elaborado que Camus.

Aprendo com as histórias muito desse sofrimento, das diversas dores advindas da partida, da morte, da separação, da incompreensão. Mas também aprendo sobre a esperança, uma que muitas vezes penso ter perdido totalmente, e que algum personagem me recorda, ao sorrir doce e ternamente, ao declarar seu amor, ao abraçar alguém, a sorrir novamente. Não ligo que digam, apesar de crer que ninguém se importa realmente, que seja uma fuga. Talvez seja fuga. Mas às vezes parece que é o único lugar para onde ainda consigo fugir. E, se ninguém se importa realmente, ao menos aqueles personagens não sabem disso. Pois cada vez que sorrio, me despertando de pesada agonia, ou que derramo lágrimas, mesmo em intensa euforia, percebo uma coisa estranha: na solitude de minha tela, encontro um mundo que não viveria nem se dez vidas eu tivesse. Na solitude da tela, ao menos, ninguém me pede para ser outra coisa.”

Mas hoje a fúria me dominou, por um bom tempo eu precisei me esforçar para me concentrar. Um aspecto do sofrimento me veio atormentar: a recordação da traição antiga e a verdade das relações presentes. Os personagens traem-se entre si... Mas não me trocam por uma vagabunda qualquer e depois me avisam isso por mensagem no dia que vão morar com ela. Por isso me refugiei naquelas cenas, de amor, de traição e partida e, aos poucos elas me acalmaram. 

Catarse. 

A ficção fez aquilo que a minha razão não conseguiu. Aqueles versos que criei em mente, em troqueu, batiam em minha cabeça como se fossem passos, e depois desapareceram, se desfizeram, perderam-se na névoa. Bom que o dia de ira findou. Pena que a poesia se perdeu. Talvez amanhã ela volte, como a depressão. E talvez a poesia precise da ira para morrer e, como a Fênix ou Benu, renascer. Embora seja belo falar da esperança, admito que ainda encontro no sofrimento humano assunto mais interessante para as letras. 

Me resta agora, depois de longa noite em companhia de tantos personagens: cabelos azuis em beijos apaixonados na bancada de uma cozinha, estudantes tímidos e fofos tomando sorvete depois de uma passada na livraria, mafiosos perigosos e jovens com responsabilidade sobre ombros vacilantes como os de uma criança de doze anos. 

A noite passou. 

A tempestade, não sei. 

Me resta agora... esperar os próximos dias, de ira ou euforia.

X

Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?

Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?

Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?

Leandro Gomes de Barros

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Às cinco da manhã


Dizem que o sertanejo sabe
quando a chuva vai chegar,
que o marinheiro sente o vento
antes da tempestade começar.

Eu também aprendi um jeito
de saber que algo vem:
primeiro dói minha cabeça,
depois eu não quero ninguém.

O corpo sabe antes da alma,
e a alma demora a entender.
Talvez seja assim que a tristeza avisa
que está cansada de se esconder.

Primeiro vem o torpor,
depois vem a agitação.
Um dia eu não sinto nada,
no outro, sinto até o chão.

Passam as horas pela casa,
passam os dias também.
Eu continuo na mesma cama,
sem saber se vou além.

Meu professor dizia:
“Vá conhecer a vida.”

Eu queria.

Mas como conhecer o mundo
quando a cama parece maior que a estrada?
Como atravessar uma cidade
se levantar já parece uma jornada?

Então fui ver histórias.

Disseram que era fuga.
Talvez fosse.

Mas quem foge para algum lugar
ainda precisa saber para onde ir.
E se eu não consigo sair de casa,
talvez ainda possa assistir alguém partir.

Vi gente chegando,
vi gente indo embora,
vi quem perdeu um amor
e quem encontrou alguém na mesma hora.

Vi gente rindo na rua,
pegando um trem, atravessando o mar.
Vi gente dizendo “eu te amo”
e tendo alguém para abraçar.

E pensei:

por que a vida deles acontece
e a minha parece esperar?

Camus perguntou
se valia a pena viver.
Suassuna perguntou
por que viver dói.

Eu, que não sou Camus nem Suassuna,
tenho uma pergunta menor:

por que às vezes
eu quero tanto viver
justamente quando não consigo levantar?

Talvez eu tenha aprendido
a conhecer a vida pela televisão.

Não é a vida inteira, eu sei.
São pedaços.
Recortes.
Alguns minutos escolhidos
por alguém que escreveu uma história.

Mas até um pedaço de vida
pode ensinar alguma coisa.

Aprendi que as pessoas sofrem.
Que partem.
Que morrem.
Que se perdem umas das outras.

Aprendi também
que às vezes alguém volta.

E quando volta,
há uma música.

Quando alguém se apaixona,
os violinos começam a tocar.
Quando tudo parece perdido,
alguma coisa insiste em voltar.

Por que na ficção
o amor sempre encontra um jeito
de voltar para casa?

Na vida real
às vezes ele só vai embora.

Personagem nenhum me fez aquilo.

Eles traem, é verdade.
Se despedem.
Mentem.
Morrem.

Mas nenhum deles me escreveu uma mensagem
dizendo que ia morar com outra pessoa
justamente naquele dia.

A ficção, pelo menos,
tem a delicadeza de mentir direito.

Na televisão,
até a traição tem preparação.
Há uma música triste,
uma porta fechada,
alguém olhando pela janela.

Na vida,
às vezes é só uma mensagem.

E pronto.

Como se uma vida inteira
pudesse caber numa tela pequena.

Talvez por isso eu tenha voltado às histórias.

Não porque sejam verdadeiras,
mas porque por algumas horas
eu consigo acreditar
que alguma coisa ainda pode acontecer.

Falam de Deus,
da morte,
do destino,
de tudo que um homem não consegue explicar.

Eu, depois de tanto pensar nisso,
fui procurar alguém na televisão
que pudesse me ensinar a amar.

Tinha cabelo azul.
Era tímido.
E parecia feliz.

Talvez seja ridículo.

Mas ele sorriu
e eu sorri também.

E por alguns minutos
a minha vida coube
naquela pequena alegria.

Se a vida é tão bonita,
por que eu não quero sair da cama?

Se o mundo é tão grande,
por que meu quarto me basta?

Eu vejo tanta gente vivendo
e não sei por que continuo aqui,
se quando o mundo está acontecendo
tudo o que eu quero é dormir.

Talvez eu esteja cansado
de chegar sempre atrasado.

Talvez a vida esteja passando
e eu esteja olhando pela janela.

Talvez eu tenha medo
de abrir a porta
e descobrir que lá fora
ninguém estava esperando.

Eu perguntei ao dia
por que insistia em nascer,
se eu ainda não sabia
se queria amanhecer.

Mas ninguém respondeu.

O relógio respondeu primeiro.

Depois a geladeira.

Depois algum carro
passando longe na rua.

A casa inteira parecia saber
que uma manhã estava chegando.

Só eu não sabia.

O único a falar sou eu,
sentado na cama,
às cinco da manhã,
irritado com o sol
que ainda nem nasceu.

E pensei:

se amanhã eu acordar melhor,
isso quer dizer que passou?

E se amanhã eu acordar pior,
quanto tempo ainda vai durar?

Ninguém respondeu.

Talvez ninguém saiba.

Talvez seja esse o problema:

a gente passa a vida perguntando
a pessoas que também estão tentando descobrir.

Então fiquei ali.

Sem resposta.
Sem filosofia.
Sem Camus.
Sem Suassuna.

Só eu,
a cama,
a televisão apagada
e a madrugada.

E, pela primeira vez naquela noite,
não precisei responder nada.

A tristeza podia ficar.

A raiva também.

Eu perguntei ao dia
por que insistia em nascer,
se eu ainda não sabia
se queria amanhecer.

Mas ninguém respondeu.
O único a falar sou eu,
sentado na cama, 
às cinco da manhã, 
irritado com o sol 
que ainda nem nasceu.

Amanhã eu vejo.

Hoje, por enquanto,
eu só queria dormir.

E talvez,
quando amanhecer,
eu descubra outra vez
que ainda estou aqui.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A orquestra lá fora

Os últimos dias na cama estão fragmentados na minha cabeça. Uma névoa densa ao meu redor, onde eu me refugio. Porque fora dali, para além da névoa, há a civilização, com todo seu barulho. É como uma longa peça dodecafónica que ninguém, em sã consciência, se disporia a ouvir. Não. Não é como se eu estivesse no meio da civilização. Depois do meu quarto tem apenas mais algumas paredes, poucos metros entre uma fina camada de madeira e mais barulho. E nem quero saber o que tem lá fora. 

Percebi, ao sentar na frente da TV para assistir, como num clique, que eu me fascino tanto com as histórias que vejo porque, na verdade, elas mostram pessoas e suas vidas, e vidas essas que não estão confinadas dentro de um quarto de 4m². 

Essas pessoas estão vivas. 

Elas saem,
riem com os amigos, 
conhecem novas pessoas, 
se apaixonam, 
acabam ficando juntas 
e tantas outras coisas. 

Os violinos entram primeiro, quase tímidos; depois crescem, e então vêm os metais, largos, terríveis, anunciando que alguma coisa irá acontecer. A percussão marca o passo. Tudo parece perdido por alguns compassos. Mas, para eles, no fim, a melodia daquele amor retorna.

Eu saí. 
Ri, 
sorri. 

E depois voltei pra dentro da minha névoa. 

Um dia.
Dois.
Três talvez.
O tempo havia perdido a métrica.
E eu ainda estava lá.

E a névoa parecia cada vez mais pesada. 

Mesmo assim, cada vez que saí, o barulho me acertou como uma gigantesca massa sonora.

TROMBETAS.
METAIS.
PERCUSSÃO.

Tudo ao mesmo tempo, sem piedade, como se todas as trombetas do Apocalipse tivessem descido sobre a cidade e um maestro raivoso, enlouquecido em seu próprio dia de ira, regesse aquela Sinfonia Trágica.

A família estava reunida, mas eu não quis ver ninguém. Fiquei deitado, imóvel, escondido embaixo das cobertas como se elas fossem as paredes de uma fortaleza.

E então, uma vez na cama, envolto por pesadas cobertas no dia mais frio do inverno, lá vem a névoa de novo, lentamente fechando meus olhos. 

E o som vai sumindo, 

como um clarinete cada vez mais distante.

Lentamente...

Cada vez mais longe...

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

A Grande Montanha Nevada

I. Prelúdio: Allegro del cammino

Era uma viagem longa.
Já estávamos na estrada havia muitos meses.
A mãe ligava quase todos os dias.
Dizia sentir saudades.

A avó telefonava também.
Quase nunca para conversar.
Gostava apenas de mostrar o pôr do sol.
Como se dissesse:

"Veja. Hoje ele também aconteceu daqui."

Em cada pequena aldeia,
escondida entre longas faixas de mata fechada,
descobríamos uma maneira diferente de cultivar a terra.

Pareciam lugares onde o tempo,
em vez de passar,
aprendia apenas a respirar devagar.

Tudo permanecia.

E, no entanto,

tudo crescia

como crescem as folhas do chá.

Havia aldeias em que nem mesmo os cães latiam para os estrangeiros. 
Era como se esperassem alguém que ainda não chegara. 
Ou alguém que jamais partiria.

A próxima parada seria a Grande Montanha Nevada.

II. Scherzo da montanha

Falava dela
como quem apresenta um velho amigo.

Ou melhor,

como quem conduz alguém,
pela primeira vez,
até uma obra-prima.

Contou que o chá daquela montanha 
era mais limpo, mais encorpado
que o que bebíamos naquela hora.

O da semana anterior,
disse sorrindo,
era elegante.

Este...

marchava como um velho general.

Depois riu.

Gostava de comparar pessoas
com diferentes chás.

Seu irmão,
dizia,
possuía um aroma floral, sedutor

O aroma permanecia nas mãos,
mesmo depois da xícara vazia e, 
mesmo assim, alguns aromas só se revelam 
quando a água esfria.

Era estranho.
E bonito.

Nunca falava de si.

Há pessoas que se escondem atrás das palavras. 
Outras, das lembranças. 
Ele se escondia atrás daquilo que admirava. 
Talvez seja essa a forma mais delicada de confissão.

Falava da montanha.

Das flores.

Do vento.

Do chá.

Só muito tempo depois compreendi
que era sempre dele
que falava.

Às vezes me pergunto 
se os homens inventaram o chá 
para beber o tempo ou se foi o tempo 
que inventou o chá para aprender 
a permanecer.

Enquanto subíamos,
voltou a mencionar uma flor.

Chamava-a de flor mágica.

Não porque tivesse qualquer poder.
Mas porque nunca conseguia lembrar seu verdadeiro nome.

Disse que a encontrara,
anos antes,
escondida nas partes mais profundas da montanha.

Enquanto falava, 
uma pétala desprendeu-se de algum lugar. 
Nenhum de nós olhou para cima.

Sorria enquanto contava.
Queria que também a víssemos.

Havia qualquer coisa naquela lembrança
que parecia lavar,
sem esforço algum,
a poeira acumulada no coração.

A certa altura 
deixei de saber se seguíamos a trilha 
ou se era a trilha que nos conduzia.
As árvores pareciam antigas demais 
para serem apenas árvores.

Havia nelas uma paciência mineral.

III. Intermezzo da flor azul

Depois falou da morte.

Não como quem teme.
Nem como quem deseja.

Falou dela
como se descrevesse uma estação do ano.

Disse que havia uma espécie de limpeza
no retorno de todas as coisas à terra.

A terra jamais desperdiça um corpo. 
O húmus conhece uma canção
que os homens ainda chamam de silêncio.

Que talvez a vida
só pudesse ser compreendida
quando deixava de pertencer inteiramente
a nós.

Continuou caminhando.

Como se ainda respondesse
a uma conversa iniciada dias antes.

Ninguém entendeu.

Talvez porque falasse conosco.
Talvez porque falasse apenas consigo.

Conhecia cada trilha.

Cada curva.

Cada pedra.

Sabia exatamente onde pisaria,
embora tudo nos parecesse igual.

Mas não era.

Ninguém se perde
dentro da própria casa.

Às vezes corria como uma criança.
Apontava um desnível da montanha.

Dizia que, por um lado,
estavam as plantações.

Do outro,
o mundo inteiro.

Existem lugares que primeiro nos recebem. 
Depois nos reconhecem.

Foi então que me perguntei,
não quando ele conheceu aquele lugar,
mas quando aquele lugar
passou a conhecê-lo.

Quando a floresta começou,
silenciosamente,
a morar dentro dele.

Sob cada folha havia um universo trabalhando.

Fungos.

Insetos.

A lenta liturgia da decomposição.

A montanha parecia compreender,
muito antes de nós,
que toda despedida
é também um alimento.

Numa noite,
recebeu uma notícia.

Correu sozinho para o meio das árvores.

Ajoelhou-se.
Nenhuma árvore tentou consolá-lo. 
Essa talvez seja a forma mais antiga da misericórdia.
A relva bebeu suas lágrimas.

Chorava porque, ao saber,
que a morte havia levado alguém.

E, levando-o,

arrancara dele
alguma coisa
que jamais voltaria.

No dia seguinte,

o sol dissolveu lentamente
o orvalho das folhas.

Seu rosto já não carregava revolta.

Nem resignação.

Havia apenas
uma paz difícil de explicar.

Como quem atravessara uma longa noite.

Houve uma noite,
e uma manhã.

IV. Adagio da névoa

E ele viu
que ainda era possível
chamar aquilo de mundo.

Voltamos a andar.
Ele parecia ter voltado a andar também.

Mais tarde,
correu por uma trilha
que só ele parecia enxergar.

Uma folha desprendeu-se.

Não sei por que
me lembrei dele.

As árvores eram altas.
Suas copas deixavam cair,
entre um ramo e outro,

fragmentos
do azul mais intenso
que já vi.

Azul como aquelas flores.

As mesmas flores
que ele queria reencontrar.

O terreno descia.
Depois subia abruptamente.

Qualquer homem
negociaria os próprios pulmões
para alcançar
o cume daquela montanha.

Uma névoa espessa começou a cobrir boa parte do lugar.
Não escondia a montanha. 
Apenas retirava dela aquilo que ainda julgávamos possuir.

Olhei para cima.

Lá estava ele.

Sorriu.

Acenou.

A luz atravessava a névoa
e fazia dele
quase uma figura de vitral.

Branco.

Azul.

Verde.

As cores deixavam de possuir fronteiras.

Misturavam-se lentamente
como tinta dissolvida na água.

Então

O farfalhar de seus pés cessou.

Foi o primeiro silêncio que fez ruído.

Depois,

o canto dos pássaros.

A névoa tornou-se ainda mais espessa.

Foi então
que ouvi os gritos
daqueles que tinham
medo de perdê-lo

V. Coda: A respiração da floresta

Dias e noites
procuraram por ele.

Perto das raízes
de uma árvore antiga,

cresciam
as flores azuis.

Pareciam iluminar,
por si mesmas,
aquele pedaço escuro da floresta.

Não cresciam ali.
Esperavam.

O vento passava entre os galhos.
Alguma folha seca estalava.

À distância,
quase parecia um chamado.

Os homens continuavam procurando,
continuavam procurando,
mesmo quando já sabiam que procuravam outra coisa.
continuavam buscando.

Dia.

Noite.

Dia.

Noite.

Encontraram apenas
algo.

Não sei dizer o quê.

Ninguém jamais conseguiu saber,
qual era seu estado.

Houve quem dissesse
que certas coisas
não pertencem às palavras.

O homem que voltou da montanha
falava pouco.
Quando alguém perguntava,
baixava os olhos.

E respondia apenas:

"Ele retornou para a montanha."

Nunca explicou.

Ninguém insistiu.

A névoa subia lentamente entre os pinheiros.

As folhas estremeciam.

A montanha parecia preparar,
em silêncio,
um chá antigo,
feito de vento,
de pedra,
de memória.

Talvez fosse esse
o sabor
de quem retorna
para casa.

Desde então,
sempre que a névoa desce cedo,

há quem pare por um instante
para escutar.

Não porque espere vê-lo voltar.

Mas porque algumas florestas
aprendem o nome daqueles

que um dia
aceitaram o seu chamado.

Durante muito tempo pensei que a montanha o tivesse levado.
Hoje imagino outra possibilidade.
Talvez montanhas não chamam ninguém.

Apenas respondem,
quando 
alguém,
desde 
muito antes,
já lhes pertence.

domingo, 2 de agosto de 2026

Retornando

Eu estava presente, estava mesmo. Não foi como antes, como tantas vezes, em que as vozes soavam distantes, como se eu não participasse. Eu participei, e fiquei bem com isso.

Sentei de frente a ele, e ele sorriu durante a conversa, durante as brincadeiras. Foi ótimo. Foi mesmo.

Mas sim, eu senti que ele não olhava pra mim do mesmo jeito. Os olhos brilhavam por causa da conversa, não por mim. 

Mas alguma coisa mudou, porque isso não doeu como sempre. Não, eu só fiquei ali, sentado, sorrindo, mas sem me machucar. Acho que comecei a aceitar que, mesmo quando pessoas caminham juntas, podem olhar para lugares diferentes. 

Observei ele subir e desaparecer na floresta, ouvia seu riso junto o farfalhar dos seus pés. Sorri ao vê-lo contente, mesmo sem saber para onde ele iria. O céu, de um azul vivo, estava brilhante por entre as copas das longas árvores, não ventava, era tudo silêncio, o único som era o da minha respiração e o daquele garoto correndo, e até esse foi sumindo.

Tentei segui-lo de algum modo, e ele sorriu e acenou de uma clareira, mas não consegui ver muito, a luz do céu azul ali brilhava com tanta intensidade que o envolvia num halo branco cristalino e ofuscante, certamente algo de divino, e me lembrei que ele disse algo sobre encontrar uma flor mágica naquelas montanhas. 

E então ele se virou mais uma vez, 

e sumiu 

por entre as luzes, árvores e folhas no chão. 

Não tornei a vê-lo e tampouco me lembro como voltei ao acampamento. Por dois dias procuramos por ele, ou melhor, os aldeões procuraram. Tudo que encontraram foi o seu tênis, branco, perto das tais flores. O homem que o achou não conseguiu descrever o que viu, 

talvez nunca consiga, 

apenas disse que aquele jovem, 

como o Pequeno Príncipe da floresta, 

havia retornado para a montanha. 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Garras Escondidas V - Bruma

Pela manhã o mar desaparece.

Não porque tenha partido. Apenas a névoa resolveu ocultá-lo, como quem estende um véu delicado entre os olhos e aquilo que ainda insiste em existir. Conheço o caminho até a praia. Conheço o cheiro salgado que chega antes das ondas. Conheço o rumor da maré encontrando as pedras. E, no entanto, caminho como quem atravessa um país desconhecido.

Não vejo o brilho límpido do sol refletido e brilhando na água. 

Há dias em que a memória também amanhece assim.

Nenhuma imagem se apresenta inteira. Tudo surge envolto por uma claridade leitosa, onde os contornos se dissolvem antes de serem compreendidos. Restam apenas pequenos clarões. Um sorriso, antes brilhante como a luz do sol refletida nas águas. Um gesto. A inclinação quase imperceptível de um rosto. Como o perfume de uma flor que permanece depois que suas pétalas já caíram.

As gaivotas atravessam a névoa sem saber que desapareceram para quem as observa.

Talvez a verdade seja sempre assim.

Ela não chega como um relâmpago.

Vem como a maré. Primeiro cobre os pés. Depois os joelhos. Quando percebemos, já levou embora a areia onde julgávamos estar seguros. Afundo, se deixar, serei levado pela ressaca do mar. Ou pela lembrança distante e difusa daquele doce olhar.

Durante dias procurei destruir a lembrança.

Foi inútil.

A lembrança não se quebra.

Ela, com sorte, talvez mude de luz.

Aquilo que antes resplandecia agora permanece imóvel, como uma antiga pintura guardada numa sala onde ninguém mais abre as janelas. A beleza continua ali, mas já não aquece. Tornou-se um objeto do tempo. A poeira se acumula.

Talvez seja isso crescer.

Descobrir que certas imagens não morrem.

Apenas deixam de nos pertencer.

O vento aumenta.

A névoa dança lentamente sobre a água, transformando o horizonte numa única matéria branca, onde céu e mar já não sabem qual deles começa ou termina. Tudo parece suspenso. Até o silêncio possui peso.

Penso então que existem músicas destinadas a nunca terminar.

Não porque continuam tocando.

Mas porque continuam ecoando onde já não existe som.

Há melodias que permanecem intactas.

Somos nós que já não conseguimos ouví-las.

Quando, por um instante, a bruma se abre, não procuro teu rosto.

Vejo apenas duas figuras diminuindo a distância entre si. Caminham devagar, como se soubessem que certas palavras pertencem apenas ao espaço de uma respiração. Uma delas inclina levemente a cabeça, aproximando-se da outra, como quem deseja confiar-lhe, num quase sussurro, tudo aquilo que o coração jamais aprenderá a dizer de longe. Se aproxime, chegue mais perto para ouvir o que eu sinto.

Logo depois, o branco retorna.

O mar recolhe lentamente suas ondas. A maré apaga as pegadas sem conseguir apagar o caminho por onde caminharam.

Permaneço imóvel.

Não esperando que a névoa se desfaça. Algumas paisagens nasceram para existir justamente assim.

Porque há lembranças que Deus, ou o tempo, ou simplesmente a misericórdia do esquecimento, preferiu envolver em bruma. Foi assim com aquele anjo caído que, vivendo entre feras, se tornou ele também uma fera. Disfarçada pela própria luz, que agora se extingue em meio a névoa.

E talvez esteja certo. Nem toda beleza foi feita para permanecer nítida.

Algumas existem apenas para nos ensinar que até a luz mais delicada pode desaparecer sem deixar de ter sido luz.

Pela manhã o mar desaparece.

Não porque tenha partido. Apenas a névoa resolveu ocultá-lo, como ocultou aos poucos a lembrança daquele sorriso, daquela voz de anjo, daquele cristalino amor que escondia o horror de uma fera.

Garras Escondidas IV - Depois do Jardim


Houve um tempo em que bastava um sorriso
para tornar mais leve o peso dos meus dias.
Não porque fosse perfeito,
mas porque eu lhe emprestava
aquilo que meu coração guardava de mais puro.

Assim a manhã parece mais clara
quando o primeiro raio toca a relva,
embora o sol seja o mesmo
para quem apenas passa sem olhar.

Também eu julgava eterno
o que apenas florescia.

Vi muitas vezes a doçura
morar naquele rosto tranquilo.
Julguei sincero o brilho dos olhos,
a calma da voz,
a delicadeza dos gestos.

Voz que pedia que eu me aproximasse,
para ouvir declarando seu amor.
Como quem encontra uma árvore antiga
e acredita que jamais conhecerá o machado.

Hoje caminho por entre flores
que continuam abrindo suas pétalas
com a mesma inocência de antes.
O vento passa devagar.
As folhas conversam entre si.
Os pássaros ignoram
o peso das notícias humanas.

Apenas eu já não contemplo
a mesma primavera.

Descobri que certas sombras
conseguem habitar até os lugares
onde imaginávamos existir apenas luz,
havia escondia ali uma fera.

Não foi a paisagem que mudou.
Foi o olhar.

Há nuvens que não escondem o céu.
Apenas nos ensinam
que sua claridade nunca nos pertenceu.

Há verdades que não revelam
o ataque furioso daquelas garras,
apena me lembram que eu sempre estive em perigo.

Penso então nas flores.
Algumas desabrocham
sobre terras profundas e férteis.
Outras, sobre antigos pântanos,
onde a água imóvel aprende
a esconder aquilo que apodrece.

Eu via apenas a flor.

O solo permanecia oculto.

Não guardo rancor.
Apenas uma tristeza silenciosa,
semelhante àquela tarde
em que a última folha do outono
abandona o galho
sem fazer ruído.

Amanhã outras flores nascerão.
Outros jardins receberão a chuva.
O vento voltará a mover as árvores
como sempre fez.

E talvez eu também aprenda,
não a desconfiar da beleza,
mas a recordar que nem toda flor
revela a terra onde criou raízes.

Garras escondidas III - A Corrupção do Que Era Doce


 Há muitos dias um fel invisível
me sobe do peito como vinho estragado.
Não embriaga.
Apenas desperta,
como desperta a febre
quando o sangue já conhece a doença.

Era um retrato.
Hoje encontro apenas a moldura
sustentando o vazio
de algo que se perdeu num rasgar da tela

Um altar profanado, um santo que foi roubado

A mesma mão
que parecia nascer para afagar
escondia, sob a pele morna,
garras de fera, 
esperando que a ternura dormisse.

Houve um tempo
em que sua voz me parecia
mais digna da lira
que o próprio canto das Musas.

Hoje cada sílaba do seu canto 
retorna coberta do ferro
com que a verdade abriu
a carne da mentira.

Não foi o tempo
quem gastou teu retrato.
Foi a verdade,
essa ferrugem invisível
que, ao primeiro toque,
transforma ouro em óxido.

Bastou um sopro da verdade
para que a epiderme da beleza
se desprendesse inteira,
revelando o esqueleto
que sempre respirou por baixo da carne.

Não foste tu quem morreu.

Morreu o rosto
que minha memória insistia em acender
nas noites de cansaço.

Caminhas ainda.
Respiras.
Falas.

Mas aquilo que eu contemplava
já pertence
à mesma pátria
onde repousam as estrelas extintas:
continuam brilhando por algum tempo,
embora a luz
tenha partido há muito.

Garras escondidas II - Do Desengano

Do fel que trago ignoro a origem certa;
sei somente que a língua o reconhece
como conhece o mar a tempestade
antes que o céu lhe rasgue a paz deserta.

Há dentro em mim um quadro silencioso,
não porque a tela houvesse sido aberta
por mãos cruéis, nem porque o tempo avaro
lhe houvesse desbotado a antiga tinta.

Não.

O pincel não mentiu.

Mentia o olhar que lhe emprestava forma,
que via eternidade no efêmero,
ouro onde apenas cintilava o bronze,

virtude onde habitava o simulacro.

Assim costuma agir a formosura.
Reveste o espinho com aparência de lírio,
faz do cristal morada da serpente,
oculta sob a neve a cinza antiga
e oferece ao desejo um claro espelho
onde o homem, enamorado de si mesmo,
confunde a luz com aquilo que a reflete.

Quem vê somente a flor não vê as raízes.

E eu via flores.

Via um semblante tão sereno
que me parecia indigno das ruínas;
uma voz mais suave que a das Musas,
capaz de suspender, por breves horas,
o peso das misérias deste mundo.

Hoje, porém, a mesma voz ressoa
como metal ferindo o mármore frio;
cada palavra traz consigo o eco
de um templo cuja imagem foi profanada.

Não porque a pedra houvesse se alterado.

Mas porque enfim caiu o véu dos olhos.

Agora sei que a sombra já vivia
onde supunha haver perpétua aurora;
que muitas vezes a beleza apenas
aprende a imitar o rosto da virtude.

Grande é o poder do engano.

Maior, contudo, é o do coração humano,
que implora ser vencido pela forma,
e chama de eterno aquilo que deseja.

Não foste tu o artífice primeiro
do templo que ergui dentro da memória.

Fui eu.

Fui eu quem deu ao barro nome de cristal;
quem vestiu de claridade a névoa;
quem tomou por constelação um lume
destinado a extinguir-se ao menor vento.

Busquei no mundo aquilo que o mundo
jamais prometeu guardar sem mácula.

E agora resta apenas o desengano,
essa severa ciência dos que aprendem
que toda imagem vive por um fio,
e que o mais belo espelho, quando parte,
não perde o brilho.

Perde apenas o olhar
que nele acreditava.