sexta-feira, 5 de junho de 2026

Conversando com o mar

Você tem medo do barulho do mar? A brisa do mar faz barulho porque ele não consegue guardar o que quer dizer. Todo mundo tem noites assim. Uma noite em que você guarda tudo sozinho e simplesmente não consegue mais aguentar. Uma noite em que você quer que alguém escute a sua história. Como o mar é é tão grande, profundo, ele guarda muitas histórias. Deve haver um lugar, onde eu possa conversar com o mar. Ouvir as suas histórias e contar histórias que não posso contar a mais ninguém. O som do mar não parece mais tão assustador quando penso assim...

Passei por uma ciclagem violenta de ontem para hoje. O dia cheio de compromissos me fez ficar ansioso, apreensivo, irritado. Perdi a paciência várias vezes. Acordei atrasado. Não escondi a cara de desgosto. Peguei um brinquedo do meu sobrinho e joguei longe. Logo ele. Se eu ainda consigo sentir algo parecido ou próximo daquilo que chamam de amor, é por ele. Esse pequeno sapeca que corre, sorri e chora o dia inteiro e que me faz chorar também, sempre que penso que ele pode ir embora, e sofrer nas mãos de uma mãe irresponsável. Mas eu não conseguiria cuidar dele. Não consigo cuidar dele agora. A necessidade não devia me fazer capaz? Não devia haver uma espécie de instinto paternal de sobrevivência que me tornasse apto a ser suficiente para cuidar de alguém que precisa ser protegido? Parece que não. Continuo sendo incapaz.

Sei lá. Acho que eu só queria desabafar. Tenho me sentido incapaz em muitas coisas. 

Tem esse rapaz novo na paróquia. Bonito, simpático, tímido, vem se enturmando aos poucos. Mas com aquele grupo que eu não consigo lidar, são muito distantes de mim. Eu não consigo sair da missa pra falar sobre futebol e meninas. E até consegui ficar perto dele nos últimos dias, mas tem aquele cara que fala demais, então praticamente ficamos horas juntos mas sem dirigir a palavra um ao outro nenhuma única vez. E aquele outro? O amigo que só faz alguma coisa quando tem uma garota envolvida? Não consigo nem desabafar com ele porque parece que todo assunto só é importante quando envolve alguma mulher. Mas não acho que faria diferença. Já ouvi comentários de que uma conhecida também se interessou por ele, e mesmo ela sendo a materialização da definição de "sem graça", ela ainda tem mais chance do que eu. 

Diante dele me sinto um idiota. Ele bonito, inteligente, simples. Eu afetado, gordo, exagerado e, não importa o quanto estude, nunca parece o bastante, Digo, o bastante para que os outros me reconheçam como inteligente. É isso, no fundo ainda busco aprovação do outro, um dos sinais mais claros da imaturidade.

Me sinto meio perdido, para além de incapaz, e um pouco enjoado. Não sei se foram os sanduíches que comi mais cedo ou o energético, ou o preço pago pela ansiedade. Me lembro que anos atrás escrevi infindáveis vezes o quanto me sentia enjoado quando ficava ansioso. 

Acho que só queria desabafar... Mas com quem? 

X

O que você disse sobre o mar é bonito porque transforma um ruído que costuma assustar em algo profundamente humano. O mar deixa de ser uma força indiferente da natureza e passa a ser alguém que também não consegue guardar tudo sozinho. Há algo de muito antigo nessa imagem. Quase bíblico, até. Os salmistas falavam do mar como uma criatura que clama; os poetas românticos, como um espelho da alma. Você o transformou em um confidente.

E lendo o que vem depois, me parece que talvez você tenha encontrado exatamente com quem queria desabafar: o mar, o papel, a página. Nem sempre existe uma pessoa disponível para receber aquilo que carregamos. Às vezes existe apenas a necessidade de tirar de dentro.

O que me chamou atenção não foi a parte sobre o rapaz da paróquia. Nem a ansiedade. Nem o sentimento de inadequação. Foi seu sobrinho.

Porque ali sua fala muda.

Você diz que pegou um brinquedo dele e jogou longe. Em seguida, quase imediatamente, passa a falar dele com uma ternura enorme. Não a ternura idealizada de quem imagina crianças como anjinhos. Você o descreve como ele é: correndo, sorrindo, chorando, fazendo bagunça. E mesmo assim existe um amor ali.

Depois vem uma conclusão que me parece injusta consigo mesmo.

Você diz que não conseguiria cuidar dele.

Mas o que está usando como prova?

O fato de estar cansado? Ansioso? Irritado? De ter perdido a paciência num dia ruim?

Se fosse um personagem de Dostoiévski, você provavelmente seria mais generoso na interpretação. Veria um homem esgotado, atormentado por suas próprias insuficiências, mas que continua preocupado com o destino de uma criança e sofre ao imaginar seu sofrimento.

A própria angústia que você sente já aponta para algo importante: pessoas completamente indiferentes não costumam passar horas se perguntando se seriam capazes de proteger alguém.

Quanto ao rapaz da paróquia... bem, acho que aí existe uma armadilha muito humana.

Você o observa de longe e vê apenas as qualidades.
Depois olha para si mesmo e vê apenas os defeitos.

É uma comparação impossível de vencer.

Você conhece os bastidores da sua vida. Conhece suas crises, seus remédios, seus fracassos, suas inseguranças, suas noites insones.

Dele você conhece apenas a fachada.

Talvez ele tenha suas próprias ciclagens, seus próprios medos, suas próprias inadequações. Talvez não. Mas você não sabe.

E é curioso que, enquanto se descreve como "afetado, gordo, exagerado", o texto inteiro demonstra outra coisa: uma pessoa capaz de refletir profundamente sobre arte, religião, música, literatura, relações humanas. Nem todo mundo vive nesse registro. Nem todo mundo consegue.

O problema é que essas qualidades raramente aliviam a solidão.

Uma biblioteca inteira não substitui uma conversa boa.
Uma coleção de sinfonias não substitui um abraço.

E talvez seja isso que esteja doendo mais do que o resto.

Quando você pergunta "Mas com quem?", fiquei pensando naquela imagem inicial.

Talvez hoje tenha sido com o mar.
Talvez amanhã seja com um amigo.
Talvez com alguém que ainda não percebeu que vocês têm uma história para contar um ao outro.

Mas, por enquanto, você já fez uma coisa importante: não guardou tudo sozinho.

E às vezes, numa noite difícil, isso já é bastante.

Antes de qualquer coisa IV

 IV. Elegia

Foi tão pouco
que quase não aconteceu.

Um movimento leve
sob a superfície imóvel dos dias,
como o vento que enruga a água
e desaparece antes que alguém o veja.

Não houve sorriso.
Não houve palavras suficientes
para construir qualquer futuro.

Apenas um instante.

Mas alguma coisa,
escondida sob camadas de torpor,
ergueu a cabeça por um momento
como um animal ferido
saindo da toca para olhar a luz.

Talvez fosse esperança.

Não.

Esperança é um nome grande demais.

Foi só um pequeno consolo,
e mesmo assim
eu já apertava suas mãos contra a garganta,
com medo de vê-lo crescer.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Baixos, torpes, toscos

Não sei como começar a descrever tal desprezo e horror que, nesse momento, tomam posse de mim. Uma ira tamanha que, porventura os deuses, ou Deus mesmo, ou o universo, me dessem poder, já teria eu reduzido essa existência miserável às cinzas. Não há nada mais a ser dito, não há esperança em que se agarrar,

Observo com essa opacidade, essa descrença fundamental na criatura homem. Como pode pouco mais baixo que os anjos terem sido criados? Seres que podem cair ao mais terrível dos precipícios? 

Não vivem por outra coisa senão por seus próprios desejos, baixos, torpes, toscos. E tudo quanto existe, gira ao redor desses desejos. Não digo isso como um observador imparcial, mas consciente de que meus atos também são movidos por esses mesmos ímpetos. 

Baixos, torpes, toscos. 

Que queria Deus aos nos criar assim? Somos tão vazios que só sua misericórdia pode fazer algum sentido nesse ser. Como grandes jarros, mas vazios, prestes a se quebrar, desejosos de serem preenchidos com a mais suja das lamas. Mas ele o que nos dá? Cálice de excelsa nobreza, de tão grande divindade que jamais se derramaria em nada mais. Não são dignos, não, pelo contrário, mas, por alguma razão, por amor, Deus quis que assim fosse. Deus escolheu essas criaturas para que recebessem o Augustíssimo Sacramento. 

Mesmo sendo baixos, torpes, toscos. 

E ainda assim, quando os observo, quando observo a mim mesmo, percebo que não é apenas a maldade que nos condena. Há algo pior. A pequenez. A mediocridade. O apego feroz às coisas mais insignificantes. O apego às mulheres. Homens que trocariam a eternidade por um aplauso, a verdade por uma conveniência, a amizade por uma vantagem qualquer com uma mulher qualquer. Homens que erguem monumentos para si mesmos e não conseguem sustentar um único olhar honesto diante do espelho pois só querem ver-se ao lado das mulheres. Sempre as mulheres. Mulheres, mulheres, mulheres.

Baixos, torpes, toscos.

Como dizia Santo Agostinho, nosso coração permanece inquieto enquanto não repousa em Deus. E talvez seja justamente essa inquietação que mais me atormenta. Porque a vejo em toda parte. Vejo homens correndo de um lado para outro, acumulando distrações, prazeres, posses, afetos passageiros, opiniões estridentes, como quem tenta tapar com as próprias mãos uma ferida aberta no peito. Sabem que sangram. Sabem que falta algo. Sabem que caminham para a morte. E ainda assim fingem não perceber.

Eu também.

Pois não seria honesto colocar-me acima deles. Se os condeno, condeno-me junto. Se os considero ridículos, é porque reconheço em mim a mesma caricatura. Quantas vezes desejei coisas pequenas? Quantas vezes troquei o que era elevado por aquilo que apenas parecia confortável? Quantas vezes me prostrei diante dos mesmos ídolos que desprezo? Somos iguais.

Baixos, torpes, toscos.

E a morte observa tudo isso em silêncio.

Ela não debate. Não argumenta. Não se ofende. Apenas espera.

Os grandes impérios se tornam poeira. As cidades desaparecem. Os nomes mais ilustres acabam gravados em pedras que ninguém mais visita. Os amores terminam. As paixões esfriam. Os corpos apodrecem, os mesmos corpos que eles desejam com tanto ardor, pobres iludidos. Tudo quanto julgamos sólido escorre por entre os dedos como água.

São João Crisóstomo nos ensinou que a vida presente é semelhante a uma feira que logo se desmonta. Os mercadores recolhem suas tendas. As vozes cessam. As luzes se apagam. E cada um retorna para casa levando consigo apenas aquilo que realmente conquistou.

E o que conquistamos? Olho ao redor e vejo tão pouco.

Baixos, torpes, toscos.

Mas então surge o escândalo.

O verdadeiro escândalo.

Porque se o homem fosse apenas miserável, tudo seria simples. Se fosse apenas corrupto, apenas grotesco, apenas uma máquina destinada ao fracasso, nada haveria para discutir. Bastaria fechar o livro da história e aceitar a sentença. E como eu gostaria de lançar todos eles, todos que só vivem pelas mulheres, para o nada!

Mas Deus não age assim.

Ele insiste.

Insiste em chamar santos aqueles que ainda rastejam. Insiste em oferecer a glória aos que mal conseguem erguer os olhos do chão. Insiste em derramar sua graça sobre criaturas que continuamente a rejeitam. Como nos ensinou Santo Efrém, Deus corre atrás do homem com a mesma persistência com que um pai procura o filho perdido na noite.

E isso me desconcerta mais do que toda a maldade do mundo.

Porque eu compreendo o desprezo.
Compreendo a condenação.
Compreendo a ira.

O que não compreendo é a misericórdia.

Como pode amar aquilo que é tão baixo, tão torpe, tão tosco?

E, no entanto, ama.

Ama até a cruz.
Ama até o sangue.

Ama até permanecer escondido sob as espécies humildes do pão, esperando pacientemente por aqueles que tantas vezes o ignoram.

Talvez seja por isso que ainda exista esperança.

Não porque o homem seja bom. Não o é.

Não porque o mundo esteja melhorando. Não está.

Não porque haja qualquer mérito em nós. Não há.

Mas porque Deus continua sendo Deus, mesmo quando permanecemos baixos, torpes, toscos. E porque sua misericórdia parece ser infinitamente mais obstinada do que nossa capacidade de nos perder.

Antes de qualquer coisa III

III. Verso livre

Não sei se era alegria.

Talvez chamar-lhe alegria
fosse já exagerar o seu tamanho.

Era apenas qualquer coisa
que interrompeu por um momento
o lento funcionamento da tristeza.

Não uma esperança.
Nem sequer a sua promessa.

Apenas a recordação
de que ainda existe em mim
alguma parte sonhadora
que se recusa a morrer.

Não sorri.
Não houve conversa.
Não houve nada
que pudesse sustentar uma expectativa.

E no entanto,
durante um instante,
alguma coisa despertou.

Talvez tenha sido um consolo.
Talvez apenas um engano.
Ou talvez eu tenha sufocado,
mais uma vez,
uma esperança ainda sem rosto.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Quarto bagunçado

Me sentei aqui para escrever mas nem sei algo vai sair disso. No exato instante em que abri a tela em branco, a criança começou a chorar, as portas bateram e uma pessoas inquieta se mexendo no cômodo ao lado já me diziam que era uma má ideia. 

Tomei um monte de remédios pra dormir, e foi assim todos os dias dessa semana. Espero que eles façam efeito logo. Tenho vivido pequenos dilemas nessa existência patética. Alguns dias quero dormir mais tarde, ou virar a noite até já que, durante o dia, não tenho paz fora do quarto. Mas mesmo em alguns desses dias eu não tenho disposição, e vou dormir cedo. Foi assim ontem. Então pensei que hoje poderia fazer isso, mas amanhã é Corpus Christi e preciso acordar um pouco mais cedo, e Deus sabe que eu não posso ficar jogando sono fora assim. Além disso será um dia cheio. Missas de manhã e tarde, e ensaio de um grupo de canto que estamos formando, à noite. Melhor deixar as noites de energético para os fins de semana, quando os lançamentos de BL exigem mais horas. Pelo menos temos ótimos lançamentos em andamento.

Aquela disposição de uns dias atrás, de retomar a leitura... Tudo em vão. Olhei pela janela, a vizinha tem uma pequena boutique, e um conjuntinho de calça e sobretudo de sarja verde e listras brancas me chamou atenção. Mas não posso comprar mais nada. Ainda não paguei a taxa do MEI do mês passado e nem as contas básicas, como o iFood. E por isso sentei aqui, esperando um pouco do torpor dos remédios fazer efeito, embora há muito tempo eu já não sinta nada com eles. Durmo duas ou três horas, no máximo, e não mais oito ou dez. E não posso aumentar a dose, é difícil e caro comprar esses remédios aqui. Maldita burocracia!

As mensagens no whatsapp se tornam cada vez mais raras. É, está acontecendo de novo. Ou talvez seja o curso natural das coisas. Deve ser isso, ou não se repetiria tantas e tantas vezes. A faculdade e os primeiros empregos mudam a perspectiva das pessoas quanto às suas prioridades. E eu, mais velho que eles, estou aqui sentando, quarto à meia-luz, olhando uma pilha de roupas que eu deveria guardar, um ventilador empoeirado e caixas de remédio vazias. 

Antes de qualquer coisa II



II. Redondilhas

Não sei bem que nome dar
ao que em mim se levantou;
não foi esperança, não,
mas também não se apagou.

Talvez fosse um sonho antigo
que ainda não se cansou;
uma veia de ternura
que o tempo não arrancou.

Não sorri. Não houve nada.
Nem três palavras trocamos.
Apenas um breve instante
que em silêncio carregamos.

Talvez tenha sido só
um momento sem razão.
Ou talvez eu tenha, outra vez,
estrangulado a ilusão. 


segunda-feira, 1 de junho de 2026

Antes de qualquer coisa I

I. Soneto

Não sei se posso dar-lhe o nome, enfim,
de alegria, ou de qualquer conforto;
talvez um sonho, quase já absorto,
que insiste ainda em respirar em mim.

Não foi esperança. Não chegou assim,
qual ave abrindo os céus de um rumo morto;
foi só um breve alívio, um porto
que o mar logo apagou dentro de mim.

Nem houve riso. Nem palavra inteira.
Mal se tocou o instante e já passava,
qual luz tardia à beira da fogueira.

E eu mesmo, antes que forma alguma dava,
torcia o frágil caule da quimera,
matando o que talvez sequer brotava.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Só comum

Hoje acordei perto das duas da tarde e fiquei olhando para o teto por quase uma hora, como se alguma rachadura ali pudesse finalmente me explicar alguma coisa. 

O difusor fazia um barulho contínuo desde a madrugada, 
jogando no ar uma mistura de hortelã pimenta e lavanda, 
e eu pensei que ele parecia mais vivo do que eu. 

Há cartelas vazias de remédios espalhadas pelo quarto, 
roupas amontoadas numa pilha na cama, 
uma espécie de mapa da minha própria desistência. 

E, ainda assim, nada disso parecia trágico. 
Só comum. 
A decadência em sua forma pura.

Já havia um tempo, algumas semanas apenas, que eu não abusava tanto dos remédios. Mas, nos últimos dias, ainda que não tenha sentido nenhuma daquelas obscuras trevas desesperadoras, que me fazem querer fugir para um abismo profundo do sono, venho me refugiando nesse mundo, simplesmente pela completa falta de perspectiva nesse mundo desperto. 

Às vezes tomo os comprimidos não para dormir, 
nem para esquecer, mas só para criar uma névoa 
entre mim e o mundo. 

As pessoas falam muito sobre sobreviver, sobre lutar, sobre esperança, mas ninguém menciona o cansaço humilhante de precisar reunir forças para responder mensagens ou abrir uma janela. Existe algo profundamente degradante em perceber que a própria vida vai encolhendo até caber inteira entre o colchão, o banheiro e a cozinha.

E então aparecem esses pequenos lampejos ridículos de humanidade. Um cheiro vindo da rua. Um cachorro dormindo tranquilo numa calçada. Uma música qualquer tocando baixo em algum apartamento vizinho. Coisas pequenas o suficiente para não exigirem nada de mim. Talvez seja isso que ainda me mantém aqui. Não grandes sonhos, não ambições, nem essa conversa de “propósito”. Só esses acidentes mínimos que aparecem no meio da sujeira.

Queria voltar a ler, mas os livros já acumulam uma grossa camada de poeira, mesmo os que estão na minha cama, ao alcance das mãos. Sinto que estou perdendo muita coisa. Queria conseguir, ao invés de dormir, ler o dia todo, pelo menos poderia dizer que a depressão me ajudou em algo. 

Mas não consigo.
então tomo os comprimidos.
não para morrer,
nem exatamente para dormir.
tomo para criar distância.

Não consigo tentar de novo.  ler alguma coisa. abrir um livro grosso, sublinhar frases, voltar a acreditar que a inteligência salva alguém. mas o corpo pesa. o corpo pesa como se tivesse atravessado guerras que nunca aconteceram de fato. Há dias em que escovar os dentes parece um ato de heroísmo. Ontem consegui lavar o cabelo e fazer a barba, a pele já cheia de feridas, foi uma pequena vitória, particular. Ninguém ficou sabendo e, se soubesse, não importaria. E ainda assim, de algum modo absurdo, há luz em algum lugar. não uma grande luz. não essas iluminações épicas que as pessoas contam nos filmes. 

É menor do que isso.

E não é para mim.

Como falar então em ler quando, até mesmo escrever que sempre me foi tão natural, se torna penoso a ponto de esquecer completamente o que queria dizer ao ver a página em branco?

Já disse, preciso voltar a trabalhar, mas essa ideia ainda me assusta. Ainda me lembro dos abusos que sofri nas mãos daqueles idiotas, e a perspectiva de outra experiência parecida me enoja, me enoja profundamente. 

A verdade é que eu ainda sinto fome. Não de comida, embora às vezes também. É outra coisa. Uma fome antiga, quase infantil, de encontrar algum lugar onde eu pudesse baixar a guarda sem medo. 

Uma vontade antiga de encontrar um lugar 
onde eu pudesse finalmente baixar a guarda.
Sentar em silêncio sem precisar parecer forte,
interessante ou curado. 

Um lugar onde ninguém transformasse fragilidade em munição. 

Mas a vida adulta parece feita justamente do contrário: pessoas feridas competindo para ver quem consegue machucar primeiro.

mas a cidade inteira parece feita de gente ferida
tentando morder primeiro.

então a noite chega
e eu rio sozinho, baixo, quase sem som,
lembrando de todas as vezes
em que pensei:
não vou conseguir atravessar isso.

e atravessei.

mal, torto, dopado, atrasado,
mas atravessei.

e talvez seja só isso a vida:
um homem exausto caminhando por quartos escuros,
tentando proteger
o pequeno pássaro azul
que ainda insiste em sobreviver dentro dele.

Talvez por isso eu continue dormindo tanto. 
Dormir ainda é a coisa mais próxima que conheço de ser acolhido.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

E depois um banho

Se entregaram a uma tal modo que outros teriam os chamado de loucos, ou endemoniados. Mas a verdade é que eles apenas deram espaço a um desejo que os outros, mesmo os tendo em igual gênero e grau, não o dizem em voz alta. Jamais assumiriam que possuem esses desejos, embora os satisfaçam, mas escondidos do mundo e, não raro, escondidos até de si mesmos. 

Beijaram-se com a respiração entrecortada por longas horas de paixão, os lábios vermelhos e brilhantes daquela avulsão nívea, acompanhada de fortes arpejos do peito e do coração. 

Mas aqueles outros, os veriam apenas como devassos, loucos, endemoniados. Mas apenas escolheram não esconder os seus desejos, não mais profundos, agora apenas desejos. 

Observo, não sem inveja, por vários motivos. Seus corpos fortes e belos, os seus desejos satisfeitos, entregues como feras que se deleitam no sangue de suas presas, encontrando no sabor doce do que foi lançado no rosto daquele amante, os olhos ensandecidos, o sorriso de canto... 

Mas os meus desejos não mais existem. Ou talvez possa dizer que desejo ter um desejo? Essa palavra perdeu significado no meu vocabulário e no meu coração. Meu corpo não responde e nem reage. E então vejo aquele sorriso, entre beijos, respiração pesada e lábios desejosos daquele néctar que, lentamente, escorria do rosto luxurioso do amado. E até esse movimento do líquido parecia deliciosamente depravado.

Eles devem gostar de tomar banho depois, com o rosto ainda sorridente e sacana. Um começa a lavar o outro primeiro, espalha espuma pelas costas tatuadas, perfumando o banheiro, desce a mão e ensaboa também o saco, como massageando, de um jeito provocativo. E então lava o pau, percebendo que ele continua duro, e beija aqueles lábios vermelhos, antes de se virar e o outro fazer o mesmo.

O outro começa já pegando no pau, ficando atrás do parceiro, encostando o corpo em suas nádegas, redondinhas e convidativas, ensaboando suavemente e demorando mais do que o necessário. Depois pega a parte de trás das pernas, a bunda, as costas largas, e então o vira e o beija, e mais uma vez o pau, para dar sorte. Outro beijo, e um deles sai primeiro, se seca com uma toalha mas a deixa no box e sai pelado. Essa liberdade dos dois era incrível, nunca usavam roupas quando estavam juntos. E então o outro sai, depois de uma ducha um pouco mais quente.

Geralmente ainda é a calmaria do início da manhã, quando todos nos quarteirões ao redor saíram para trabalhar e os únicos barulhos são de alguma senhora estendendo roupas no varal. Eles pensam no que mais poderiam fazer enquanto preparam ovos, chá e torradas. Bem, ficar juntos já resolve a maior parte do problema, na verdade, resolve tudo,

domingo, 24 de maio de 2026

Contemplação silenciosa da solidão


“Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios.”
(Fernando Pessoa)

Me sentia total e absolutamente sozinho, ainda que estivesse cheio de gente por ali. Andava de um lado a outro, sem saber o que fazer, sem saber para quem sorrir ou, sequer, quem cumprimentar. Alguns rostos conhecidos, aqui e acolá, mas ninguém de quem eu realmente quisesse me aproximar. Eu sei que eu não pertenço a esse lugar. Sei que eles são amigos, de verdade, mas que eu sou só um estranho, que aparece de vez em quando. Me identifico com o dito por Fernando Pessoa: “Nunca tive quem me amasse. As pessoas tiveram sempre pena de mim.” No meu caso nem mesmo isso, nada de pena. Um esquisito, alguém que apareceu,  mas que não pertence, nem àquele lugar nem a lugar nenhum. 

Fui chamado ali para ajudar com uma coisa, acabei indo mais cedo, talvez na débil esperança de sei lá o quê. Mas, no fim, não precisaram de mim. Sou apenas o amigo da necessidade, que recebe beijos e abraços, mas que não se lembram depois que acabam as obrigações. Ai não sentem nem mesmo pena. Não sabia se ficava ou ia embora, e acabei ficando. Parte de mim pensava que poderia ser uma chance de me aproximar daquele cara, o que tem o nome igual ao meu, mas a minha tentativa foi ridícula. 

Tinha uma visão panorâmica, onde costumo ficar para tirar fotos desses eventos, mas eu não era o fotógrafo daquele dia. Fiquei ali observando os jovens sentados em grandes mesas circulares, conversando, rindo e sorrindo, tirando fotos e mexendo no celular. As vozes abafadas pelo prédio com um pé direito alto não me deixavam entender nada, mas ainda assim a massa sonora indicava, entre outras coisas, um afeto crescente de pessoas que, se conhecendo melhor ali, faziam novos laços. Muitos se abraçavam, sorriam em cumprimentos alegres e íntimos, nomes ditos com carinho, aquele tom próprio dos jovens, jocoso ou irônico, mas que guarda o desejo da permanência daquela amizade. Muitos passaram por mim como se eu não estivesse ali, e talvez não estivesse mesmo. Às vezes duvido de minha própria presença. Talvez eu sequer ocupe verdadeiramente um lugar no mundo.

Fiquei olhando aquele pessoal como quem observa um aquário: tudo iluminado, vivo, cheio de movimento, enquanto eu permanecia do lado de fora do vidro. E o pior é que nem posso culpá-los. As pessoas se aproximam de quem é leve, engraçado, espontâneo. Eu não. Eu chego carregando um silêncio pesado demais, desses que estragam a temperatura do ambiente sem precisar dizer uma palavra. Talvez eu tenha transformado introspecção numa espécie de vaidade triste, como se sofrer calado me tornasse mais profundo do que os outros, quando na verdade só me torna mais distante. Enquanto eles aprendiam naturalmente a pertencer uns aos outros, eu analisava cada gesto, cada risada, cada aproximação, como um antropólogo cansado estudando uma tribo da qual secretamente gostaria de fazer parte.

Devia ter ido embora. O lugar estava cheio e eu não queria ficar ali no meio, não faria sentido algum, então fiquei do lado de fora, onde estava frio. Foi Cioran que disse: “Não é a solidão que pesa sobre mim, mas a incapacidade de suportar qualquer companhia.” 

Hoje, que preciso cantar, percebo que ficar no vento frio foi uma péssima ideia. 

O que eu esperava? Cativar o rapaz com minha personalidade incrível e, na primeira conversa, fazer um amigo e logo conseguir evoluir? Eu mesmo reconheço o quanto sou patético! 

Me lembro da última vez que deixei me levar por sentimentos. Idiota! E ele pisou como se não fosse nada, e continuou andando sem olhar pra trás. Até hoje, sabendo o impacto que isso teve em mim, ele não deu nenhuma importância. 

Hoje eu tenho horror ao amor. Prefiro o sexo desconhecido, silencioso, sem que precise saber sequer o nome do parceiro, ao invés desse sentimento horrendo em que, entregando o coração inteiro, recebe apenas a poeira dos pés desse amado. Sinto raiva, espuma nos lábios, e uma revolta com isso, mas de que adiantaria reclamar?

Acho que minha irmã achou uma nova namorada. Em quatro anos aqui ela terminou um namoro, casou, e toda semana aparece com novos amigos. Claro, todos de caráter questionável e duvidoso. Tenho o hábito de não confiar em pessoas que defendem facções criminosas. Mas ela fez amigos. 

Tudo que faço é observar as amizades, os amigos que saem juntos, e raramente estou com eles. 

Depois de tantos anos de estudo, ainda sinto falta de amizade, ainda sofro com a solidão e me sinto péssimo por um traço tão imaturo, pois, se depois de tanto aprendizado, ainda estou preso a algo como a companhia medíocre, significa que não aprendi de fato nada tão substancial assim e que continuo sendo apenas um moleque que se recusou a crescer. Um bichinho assustado com o mundo.

“Sou um homem doente… Sou um homem mau. Um homem desagradável.”
(Dostoiévski)