sábado, 16 de maio de 2026

Hostias et preces tibi, Domine

Iniciam-se os festejos em honra ao Divino Espírito Santo. Fiéis de toda parte acorrem em cânticos, ladainhas, procissões com a bandeira vermelha cheia de fitas coloridas hasteada. O suor de décadas de fé acompanham a romaria. Quantos terços foram rezados, os dedos trêmulos pela idade, a mente turva sem obedecer ao recordar os mistérios de cada dezena, mas a certeza de aquele Divino não decepcionaria. A ele se confiam, com a saúde dos pais e dos filhos, com a esperança de que aquele que partiu um dia retorne ao seio da família. 

Que prece faria ao Divino? A graça da santidade, certamente, é a única coisa que deveria ser pedida. A maior proximidade com o mesmo Divino, no entanto... Acho que seria mais egoísta. Porque a graça da santidade já é algo que, para ser ao menos querida, precisa ser querida por alguém. Um sujeito onde a santidade se manifestaria, que se deixasse moldar por ela. E eu? Bem, eu já não sou tanto assim. Talvez pedisse, se fosse alguém, por uma razão, um motivo que fosse. Algo que fizesse meu coração bater, um rumo. Mas coração eu já não tenho, e a única prece que tenho feito nos últimos tempos, todas as noites, é a de não mais acordar. 

Talvez fizesse uma prece como a de Clarice: 

"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o. amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar."

Ou talvez eu só fique quieto, em silêncio, como todas as noites antes de adormecer, e faça desse silêncio, a minha prece, como pobre pecador que, olhando a imensidão e a miséria do próprio ser, não se atreve a dizer nada, sendo sua presença uma prece, que a Ele já conhece. E, ainda assim, esperando não mais acordar.

"Os objetos só têm sentido quando têm sentido, fora disso... Eles precisam ser olhados, manuseados. Como nós. Se ninguém me ama, viro uma coisa ainda mais triste do que essas porque ando, falo, indo e vindo como uma sombra, vazio. Vazio. É o peso de papel sem papel, o cinzeiro sem cinza, o anjo sem anjo, fico aquela adaga ali fora do peito. Para que serve uma adaga fora do peito?" (Lygia Fagundes Telles)

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Esperando a noite chegar

“Era um dia parado, úmido e igual a todos.”
(Julio Ramón Ribeyro)

Vi as mensagens logo cedo. Tinha combinado de sair e caminhar um pouco com minha prima, às 5h da manhã, mas a chuva não parou até agora. As outras foram chegando com o avançar da manhã, em meio a uma onda de barulho e caos: com a chuva ficamos confinados, crianças se irritam, e parecem ocupar cada pequeno canto da casa. Os adultos se irritam, e o resultado é uma célula inconstante prestes a colapsar.

Chegaram mensagens longas, comovente, admito, de um rapaz que pedia ajuda. Irmão de Igreja, entendo, mas não tenho, no momento, nada em dinheiro. As outras, áudios longos, e Deus sabe o quanto odeio ouvir áudios, não sei do que se trata. Talvez escute amanhã, ou depois. Queria mesmo não ouvir nunca.

Alguns amigos também, mas não estou com vontade. Um deles gosta de se gabar para as meninas mas, bem, eu não me beneficio nada com isso. Se vou ouvir que mandou nudes para uma garota, quero pelo menos fazer parte da lista de transmissão. O outro, bem, sinto como se nunca fosse ouvido. Decidiu acompanhar uma nova história, porque viu algo sobre um personagem na internet, não porque falei sobre a série e fiquei um tempão procurando um vídeo interessante sobre o sistema de batalhas e a qualidade da animação aliada à história. Tudo bobagem pra ele. Mas, o que ele diz, nesse momento, é bobagem para mim. 

Vou me unir apenas ao som da água descendo pela corrente das calhas, e a playlist indie, violão e voz. Apenas. Como se a casa inteira estivesse molhada por dentro.

Hoje não será um dia que começarei nada, exceto as séries que vou ver à noite. 

The Gaze com as disputas e intrigas, homens com dores e dificuldade de amar, assim como em The Gaze, com as disputas e intrigas, homens com dores e dificuldade de amar; Double Helix, com um passado dolorido que marcou cada um deles de um modo diferente: um que nega o amor, que só traz dor, e outro capaz de causar qualquer dor por esse mesmo amor. Em Journey With You a beleza histórica de uma China dividida e em guerra, e dois amantes tentando sobreviver às disputas politicas que sufocam seus sentimentos. A dor da traição pode ser vencida pelo cuidado e pela sinceridade? 

Há dias em que viver se resume a esperar a noite chegar.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Refúgio e sombra

Consegui encontrar algum alívio pro grande abismo da solidão, naquela madrugada que foi ficando mais e mais fria, ao passo em que as histórias, os amores, os sorrisos, os beijos, foram me aquecendo. É, foi uma madrugada solitária, mas não foi ruim. 

A beleza deles me lembrou o torso arcaico de Apolo, uma beleza que não podia ser descrita, lamento muito se alguém chegar a ler essas palavras um dia, mas não, não posso descrever o quanto são belos. Só pude ficar a contemplar, a pele iluminada pelo sol, perfeita, sorrisos lindos e olhos brilhantes como as estrelas do universo, vestes em simplicidade ideal, nada exagerado.

Assim como naquele dia, buscarei refúgio naqueles ermos tristes, é verdade, mas onde encontro companhia para dividir a solidão. Um homem escolheu seu destino: a dor no lugar da dor do seu amado. Eu não tive escolha, não amado, mas ambos ficamos na solidão daqueles quartos frios. 

Por dias. Semanas. Anos. 

Sem saber quando acabaria, sem saber se a cabeça um dia vai voltar a ser como era antes.

Nem sempre funciona. Às vezes as sombras tomam conta de mim e eu fico lá, parado no escuro, esperando. Esperando. Não sei o motivo da espera. Não sei se estou esperando, mas fico lá, no escuro, talvez onde eu já seja um só com toda essa sombra. 

"(...) A melancolia é um prazer sensual deliberadamente provocado. Quantas pessoas se fecham para ficar mais tristes, ou para chorar à beira de um riacho, ou escolher um livro sentimental! Estamos constantemente construindo e desconstruindo a nós mesmos." (Gustave Flaubert) 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Um livro ridiculamente grande

"Move-se a mão que escreve, e tendo escrito, segue adiante; Nem toda a tua Piedade ou o teu Saber a atrairão de volta, para que risque sequer metade de uma linha; Nem todas as tuas Lágrimas lavarão uma só de tuas Palavras." (Omar Khayyam)

Acho que queria contar algo pra alguém. Aconteceram algumas coisas interessantes nos últimos dias, mas não tenho com quem compartilhar. 

A DMD Land 3 parece ter sido incrível. Não gosto muito de shows mas nesse eu iria. Apresentações memoráveis, como o dueto TleFirstone, ou o palco das Divas com Genie Ja... Ohm arrasando ao som de Crazy in Love, Nunew, Kong, Namping com visuais impecáveis e os fofos da 5° geração juntos. Também algumas carinhas novas mostradas como já da 6° geração, entre elas o Ton Saran, velho conhecido.

Continuo deslumbrado também com o visual etéreo, idílico, de Flower Boy. As flores silvestres, a forma como o povo se vê como parte do campo, unidos a ele. Também impressionado com o Peak e Pearl no auge da beleza. Poucas vezes combinaram atores tão lindos juntos. Chorei com Love You Teacher, Santa tá tão bem nesse papel que não duvido que receba prêmios por ele. Ele e Perth estão mostrando uma história linda de superação e companheirismo. Enfim... 

Mas para ninguém posso contar essas coisas, a ninguém interessa, assim como eu não me interesso pelos outros. 

Apenas fico sentado aqui, ou deitado e ignorando toda a existência que há fora do meu quarto. Vejo as pessoas passarem pra lá e pra cá. Correndo, ocupadas. Mas para quê? Para que esse esforço? Nada disso faz sentido pra mim. 

Acabei de ler a frase: “Não finja não ter interesse nas coisas românticas dessa vida só porque alguém tem preguiça de te oferecer.” E isso foi um golpe pra mim... Porque eu me tornei alguém descrente no amor, de tal modo que, sempre que me aproximo de alguém, já penso incomodar. Saber que isso é uma característica do Borderline não ajuda. Tento me afastar, ao mesmo tempo que continuo querendo me aproximar, mas com aversão a qualquer um. Isso porque eu sei como termina, e sempre termina igual: comigo escrevendo sozinho, de madrugada. Mesmo jurando que não iria mais fazer isso. Mesmo não tendo mais o que dizer do que aquilo que já disse tantas e tantas vezes. Me sinto de novo como o último capítulo de um livro ridiculamente grande que ninguém se dispõe a ler.

Vejo que se tornou comum na internet o discurso da solitude, de como é importante aproveitar e apreciar a própria companhia, como ir ao cinema ou num café sozinho. Mas vejo também que essas pessoas não parecem ter experimentado o mais baixo da solidão. Aquele ponto em que, olhando a redor, vê-se o homem absolutamente sozinho, sem que ninguém, amigos ou família o entenda. Esse entende a solidão, e pode se acostumar com ela, como quem se acostuma com uma doença sem cura, mas nunca gostar dela, nunca apreciar.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Indo dormir

Preciso traduzir um silêncio que já dura vários e vários dias. A única coisa de que consigo me lembrar é de me afundar na cama, por incontáveis tempos, e de ver os dias passando, pelo vislumbre de uma luz fraca que invade as beiradas das cortinas, e do choro de criança, que vem e vai, como se estivesse preso numa sinfonia infernal entre silêncios e um tutti brutal.

Com muito custo eu levantei e fui ao ensaio, completa e absolutamente desinteressado em cada uma das peças musicais que eu mesmo havia escolhido. É assim ultimamente, tudo tem ficado assim, sem graça, sei lá. 

Pensei no que poderia fazer durante a noite, pois parece o único momento com o mínimo de paz que eu tenho, já que durante o dia é inviável ler, escrever ou assistir. Estou revendo Kiseki ~ Dear to Me, mas não tem me prendido, mesmo com a qualidade de uma produção taiwanesa. Pensei em maratonar Be Loved in House: I Do, mas, por alguma razão, nem mesmo a ideia de rever o corpo perfeito do Aaron Lai ou o belíssimo Hank Wang. Mesmo sendo um dos meus BLs favoritos, a ideia não me agradou. Optei por um daqueles filmes de super-heróis. Não foi ruim mas... É assim, ultimamente tudo tem ficado assim, sem graça.

Estou com um pouco de sono, coloquei um concerto para violino para assistir, e isso me faz lembrar que eu deveria tomar meu remédio, e dormir um pouco, já que, há semanas, meu sono está desregulado e isso com certeza vem afetando meu humor, com ciclagens cada vez mais rápidas e mais violentas. Montei uma nova playlist com música japonesas estilo indie, mas não sei quantas faixas ouvi antes de, mais uma vez, me afundar na cama e deixar a mente no vazio. 

Quero comer bolo, Bem doce. E por isso sei que não paro de engordar. Estou com quase cem quilos, quarenta à mais do que eu costumava ter. E não tenho força pra sair da cama, quem dirá fazer os exercícios necessários pra mudar isso.

É, acho que vou dormir. Baixei de novo os apps de encontros mas... Bem, o espelho me impede de seguir adiante. Não estou interessado em mais nada. É uma noite fresca, mas sem brisa. Tenho um coração, mas sem teogonia. Não tem nenhum cara atrás de mim me fodendo, então é melhor só ir dormir mesmo.

"Ora, o amor!... Essa história de amor, absoluto e incoerente, é muito difícil de achar... eu, pelo menos, nunca o vi... o que vejo, por aí, é um instinto de aproximação." (Rachel de Queiroz) 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Engenharia Religiosa: Manipulação e empobrecimento da Fé na Igreja Católica III

Leia a parte II aqui

O movimento da New Age só pôde alcançar uma repercussão mundial em prazo tão rápido graças ao emprego maciço da estimulação contraditória que reduz milhões de seus adeptos à credulidade imbecil e a uma subserviência patética. Não há nenhum precedente histórico para este fenômeno. Ele não se assemelha em nada àquilo que nos séculos passados, e em muitas civilizações diversas, se admitia como fé religiosa. A fé pode predispor um homem a acreditar em prodígios e milagres, isto é, em rupturas da ordem natural costumeira; pode também levá-lo a aceitar a autoridade de um guru ou santo cujo saber permaneça fora de toda possibilidade de controle; pode ainda fazê-lo aceitar alegremente sacrifícios sem vantagem aparente imediata. A fé pode exigir de um homem que ele contrarie o bom senso, desobedeça à sua disposição natural ou lute contra seus mais óbvios interesses.

O milagre, porém, nunca foi sinônimo de grotesco. O extraordinário autêntico conserva inteligibilidade, ordem interna e finalidade. Não basta que algo pareça incomum para que seja reconhecido como sinal sobrenatural; é preciso que manifeste uma adequação profunda à estrutura da realidade e aos fins do homem. Os povos antigos podiam crer em profetas que prometessem cura, redenção, sentido último ou vida eterna; não teriam, contudo, mobilizado sua existência em torno de banalidades espetaculares, fenômenos arbitrários ou curiosidades sem valor espiritual.

É precisamente aqui que se revela a degradação contemporânea da experiência religiosa. O fenômeno pseudorreligioso moderno produz uma credulidade amputada de discernimento, uma fé esvaziada de inteligência e desligada de qualquer tradição ascética séria. Já não se pergunta pela origem dos impulsos interiores, pela retidão dos afetos, pela autenticidade das consolações ou pelo valor espiritual das experiências. Aceita-se como “mover de Deus” praticamente toda alteração emocional intensa, todo arrepio coletivo, toda atmosfera psicologicamente carregada.

Ora, isso representa uma ruptura radical com a tradição mística cristã. Durante séculos, a Igreja desenvolveu com rigor admirável uma verdadeira ciência do discernimento espiritual. Não apenas reconhecia a complexidade da vida interior, mas ensinava sistematicamente a distinguir consolações autênticas de ilusões psicológicas, tentações, autoengano ou interferências espirituais desordenadas.

Santa Teresa d’Ávila alerta repetidamente contra a confiança ingênua em experiências extraordinárias, advertindo que não são lágrimas, doçuras ou transportes que medem a santidade, mas o crescimento efetivo em humildade, caridade e desapego. São João da Cruz vai ainda mais longe ao denunciar o apego às consolações como infantilismo espiritual, verdadeira gula da alma que busca a Deus não por Ele mesmo, mas pelos efeitos subjetivos que Sua presença aparentemente produz.

Se essa tradição de discernimento permanecesse viva no imaginário católico médio, muitos fenômenos hoje celebrados como expressão máxima de espiritualidade despertariam antes prudência do que entusiasmo. A ausência de formação mística não produz abertura espiritual, mas credulidade desarmada.

A destruição gradual da religiosidade tradicional e do imaginário ascético não conduziu, como prometeram seus apologistas, a uma consciência mais esclarecida, racional ou madura. Produziu precisamente o contrário: um homem simultaneamente cético e crédulo, incapaz de crer no essencial e disposto a aceitar qualquer sucedâneo emocional.

A resposta a esse paradoxo é, como já indicado, quase pavloviana. Submetido continuamente a estímulos contraditórios — morais, afetivos, simbólicos e informacionais — o homem moderno encontra-se psiquicamente exausto. Sua imaginação, saturada por slogans, publicidade, estímulos audiovisuais, hiperconectividade e alternância constante entre culpa e gratificação, já não serve de ponte ordenada entre inteligência e vontade, mas converte-se em campo de batalha.

Nesse contexto, a experiência religiosa não escapa à lógica geral. Ela passa a competir no mesmo mercado de estímulos. Precisa ser intensa, rápida, sensorialmente marcante, imageticamente forte, psicologicamente recompensadora. A interioridade torna-se incapaz de sustentar silêncio prolongado, monotonia fecunda, repetição ritual, estudo paciente ou oração árida.

Uma alma formada exclusivamente sob esse regime já não sabe habitar o deserto interior onde tradicionalmente amadurece a fé.

É por isso que ambientes espirituais excessivamente dependentes de impacto emocional não representam apenas um estilo pastoral entre outros. Em seus excessos, tornam-se sintoma de uma patologia cultural mais ampla: a incapacidade moderna de suportar realidade sem estímulo.

O sujeito contemporâneo já não busca a verdade, mas alívio; não busca conformação a Cristo, mas reorganização afetiva imediata; não deseja atravessar a noite escura, mas evitar a todo custo qualquer experiência de vazio. E porque não suporta a aridez, necessita constantemente de novos impulsos.

Aqui reencontramos, sob forma religiosa, mecanismos já observados em outros contextos. Gurdjieff compreendia empiricamente o poder da alternância entre humilhação e alívio; Pavlov demonstrou os efeitos da ruptura reiterada de cadeias previsíveis de resposta; Sargant descreveu o aumento de sugestionabilidade após estados intensos de desgaste nervoso. Não se trata de afirmar identidade material entre tais fenômenos e experiências religiosas contemporâneas, mas de reconhecer analogias funcionais suficientemente evidentes para exigir prudência.

Como observou o Pro. Olavo: "Boa parte do fascínio escravizador exercido sobre seus discípulos pelo taumaturgo armênio Georges Ivanovich Gurdjieff, por exemplo, se devia tão-somente à “mágica” das ab-reações repetidas. De fato, Gurdjieff ora esmagava os coitados sob pilhas de exigências constrangedoras, ora os induzia a descargas aliviantes que lhes davam a impressão de plenitude e liberdade, só para depois serem repentinamente jogados de novo em provações humilhantes. 

Gurdjieff manejava igualmente bem a estimulação contraditória. Raramente dizia alguma coisa com sentido identificável, mas deixava sempre no ar pelo menos meia dúzia de intenções possíveis, fazendo com que os discípulos se extenuassem em vãs ginásticas hermenêuticas. Prometia aos alunos uma exposição teórica que finalmente poria tudo em pratos limpos, e lhes dava um sistema cosmológico completo, que nas semanas seguintes era inteiramente substituído por outro, e por outro, até que a confusão mental crescesse à escala cósmica." 

Olavo percebeu ainda que, o que Gurdjieff aplicava, encontrava explicação no trabalho de Sargant e Pavlov. "O que Sargant descobriu logo depois disso foi de estarrecer. Pavlov já tinha reparado que o paciente, após chegar à inversão dos reflexos, se tornava muito mais sensível aos estímulos do que era antes. As mesmas reações, em suma, podiam ser provocadas com estímulos cada vez mais leves. Pavlov denominara a isto a fase paradoxal da mutação, a que se seguia uma fase ultraparadoxal: 'No terceiro estágio da inibição protetora, a fase ultraparadoxal, as respostas e o condicionamento condicionado positivos começam, de repente, a se transformar em negativos”. O que Sargant percebeu foi que a fase ultraparadoxal era acompanhada de “uma sugestionabilidade aumentada ao extremo... de maneira que o indivíduo se torna receptivo a influências do seu meio-ambiente às quais era imune antes': era possível, portanto, hipnotizar um sujeito contra a sua vontade. Nada adiantava o indivíduo tentar resistir às sugestões: 

'Apesar de muitos médicos hipnotizadores insistirem em que a cooperação do paciente é essencial, na verdade os sujeitos podem ser hipnotizados contra sua própria vontade... Quando uma pessoa normal resiste de maneira ativa, o sistema nervoso é esgotado e, mantendo-se constante a pressão, é possível induzi-la ao transe com bastante facilidade... Tentativas repetidas em geral dão certo... Quando o sujeito acostumou-se a ser hipnotizado, pode ser induzido ao transe sem se dar conta do que está lhe acontecendo'.” 

Com a descoberta da hipnose forçada, o uso conjugado da estimulação incoerente e das ab-reações repetidas abria os mais promissores horizontes aos manipuladores da mente. Para reduzir um homem a uma obediência canina, já não havia necessidade de discursos em alto-falantes, de gritos, ameaças ou tortura mental. Por um lado, bastava regular o fluxo de informações contraditórias para levar o sujeito ao desespero que o inclinava à mutação súbita de suas convicções; de outro lado, essas informações seriam tanto mais explosivas em seus efeitos quanto mais silenciosa e discreta fosse a sua penetração — de preferência, subliminar.

Quando uma pedagogia espiritual depende estruturalmente de repetidas descargas emocionais, alternância entre culpa e consolo, pertencimento intensificado e vulnerabilidade afetiva, o mínimo intelectualmente honesto é suspender a ingenuidade.

O problema final talvez seja ainda mais profundo. Uma vez naturalizados esses mecanismos, eles deixam de parecer anomalias e passam a constituir linguagem ordinária de formação religiosa. A manipulação já não precisa ocultar-se: confunde-se com método pastoral.

A culminação desse processo não é apenas o empobrecimento da inteligência individual, mas a corrosão da própria liberdade interior. Quando elites culturais, políticas, comerciais ou religiosas legitimam técnicas de condicionamento psicológico como ferramentas aceitáveis de adesão e mobilização, pouco importa quem detenha momentaneamente o poder simbólico: a derrota já ocorreu no nível mais fundamental.

Perde-se a consciência livre.

Perde-se a interioridade.

Perde-se, em última instância, a capacidade mesma de responder livremente ao chamado de Deus.

É nesse ponto que a crise deixa de ser apenas pastoral e revela sua verdadeira gravidade: trata-se de uma crise da alma. Uma alma que não consegue subir as escadas, não por causa da Noite Escura, que convida à subida, mas porque não sabe onde ficam as escadas e, por isso, perde a beleza do jardim.

Existe uma Igreja maior, mais antiga, mais silenciosa e mais livre do que muitos chegaram a conhecer. Uma Igreja que canta com anjos e santos os mais belos hinos; que sofre, padece e sangra com os mártires, fecundando com seu testemunho novas gerações de cristãos. Uma Igreja que ensina, exorta e corrige; que refletiu durante séculos sobre os abismos e as alturas da alma humana; que acolhe sem banalizar, fascina sem manipular e atrai pela beleza sem jamais perder de vista a Verdade de sua missão.

É esta Igreja que não cabe em nenhum carisma particular, em nenhuma estética passageira, em nenhum grupo ou linguagem emocional específica. Ela é maior do que nossas preferências, mais profunda do que nossas experiências imediatas e mais exigente do que nossos entusiasmos. Nela há espaço para o silêncio e para o canto, para a inteligência e para as lágrimas, para a ação e para a contemplação, para a ascese austera e para a alegria luminosa dos santos. Ela compreende e abarca o homem inteiro, não apenas seus impulsos mais acessíveis ou suas fragilidades emocionais.

Há uma Igreja que não cabe em nenhum de nós, mas que abarca e compreende cada um, aqui na terra, peregrinos na estrada desse mundo rumo ao Céu, nas almas que padecem no Purgatório e, enfim, com os santos que contemplam a glória de Deus e que não cessam de interceder por nós! 

“Gloria Dei vivens homo; vita autem hominis visio Dei.”(Santo Irineu)

*“A glória de Deus é o homem vivo; e a vida do homem é a visão de Deus.”

Referências

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Engenharia Religiosa: Manipulação e empobrecimento da Fé na Igreja Católica II

Leia a parte I aqui

As técnicas modernas de influência psíquica avançaram em precisão, alcance e sofisticação muito além do que o homem comum tende a considerar plausível. Ao mesmo tempo, a capacidade média de defesa crítica parece reduzir-se proporcionalmente, especialmente em contextos marcados por hiperestimulação digital, fragilidade identitária e pobreza formativa. O resultado é um ambiente no qual os instrumentos de mobilização afetiva se tornam cada vez mais eficazes precisamente na medida em que se tornam menos visíveis.

No campo religioso, essa assimetria revela-se particularmente preocupante: a sede legítima de transcendência, pertença e cura interior pode tornar-se matéria-prima para formas pastorais que, ainda que bem-intencionadas em muitos casos, substituem progressivamente formação por experiência, contemplação por estímulo e amadurecimento espiritual por dependência afetiva reiterada.

A literatura do século XX não apenas imaginou sociedades submetidas ao controle técnico da consciência, mas antecipou com notável precisão mecanismos que hoje nos parecem banais. Não por acaso, após o sucesso de Admirável Mundo Novo (1932), Aldous Huxley retornaria décadas depois ao tema em Regresso ao Admirável Mundo Novo, já não no registro ficcional, mas analítico. O que antes aparecia como distopia começava a revelar-se possibilidade concreta: a modelagem do comportamento humano por técnicas de sugestão, condicionamento, repetição simbólica e manipulação ambiental. A hipótese de uma sociedade conduzida menos pela força explícita e mais pela indução psicológica deixava o campo da imaginação literária para tornar-se objeto de investigação pública.

Não se tratava, tampouco, de especulação abstrata. Em ambientes políticos, a instrumentalização psicológica das massas já havia demonstrado seu poder nos regimes totalitários, onde propaganda, repetição ritualística, slogans, culto imagético e saturação emocional atuavam conjuntamente para dissolver o juízo individual no comportamento coletivo. Jacques Ellul demonstrou, em sua análise da propaganda moderna, que o homem contemporâneo não é persuadido primordialmente por argumentos, mas por ambientes psicológicos totalizantes, nos quais símbolos, afetos e reflexos passam a operar mais fortemente que conteúdos racionais. A adesão deixa de ser fruto de convencimento e converte-se em adaptação psíquica ao meio.

Também em contextos criminais surgem registros eloquentes desse tipo de vulnerabilidade. Em reportagem publicada no jornal O Estado de São Paulo, a correspondente Marielza Augelli descreveu uma curiosa onda de crimes ocorridos na Itália, nos quais assaltantes dispensavam armas convencionais e recorriam a técnicas de indução psíquica e hipnose instantânea. Caixas de banco e comerciantes relatavam estados de torpor e confusão, entregando voluntariamente grandes quantias em dinheiro para só depois perceberem o ocorrido. Mais importante que a exatidão técnica dos relatos é o dado antropológico: a constatação pública de que a consciência humana pode ser desorganizada, ainda que momentaneamente, mediante estímulos adequadamente estruturados.

Essa mesma constatação não passou despercebida a organizações de caráter sectário ou pseudomístico. Diversos movimentos religiosos heterodoxos do século XX fizeram amplo uso de isolamento social, repetição verbal, quebra de rotina, saturação afetiva, privação de sono, hiperestimulação sensorial e alternância entre acolhimento e culpa. O objetivo não era necessariamente transmitir doutrina, mas produzir estados de receptividade aumentada. Guardadas as proporções clínicas e morais, interessa notar que o mecanismo elementar permanece semelhante: enfraquecer momentaneamente as defesas reflexivas do indivíduo para facilitar sua adesão a um discurso previamente estruturado.

O problema central, portanto, não reside numa caricata teoria conspiratória segundo a qual líderes religiosos dominariam secretamente técnicas ocultas de manipulação, mas no fato muito mais banal e perigoso de que certos mecanismos psicológicos podem ser reproduzidos empiricamente, por tentativa, observação e repetição, mesmo sem plena consciência conceitual de quem os aplica. Um líder aprende quais estímulos produzem maior resposta coletiva e passa a repeti-los. Outro observa o efeito e incorpora o modelo. Em pouco tempo forma-se uma gramática afetiva padronizada.

No campo religioso, esse fenômeno adquire especial gravidade porque incide justamente sobre indivíduos em busca de sentido, pertença e estabilidade identitária. Jovens em situação de vulnerabilidade afetiva, conflitos familiares, carência paterna ou fragilidade emocional encontram nesses ambientes uma experiência de acolhimento intensificado. Some-se a isso uma formação catequética frequentemente insuficiente — incapaz de oferecer instrumentos mínimos de discernimento doutrinal, histórico e litúrgico — e obtém-se um terreno particularmente fértil para confundir intensidade emocional com profundidade espiritual.

Não é necessário, pois, supor má-fé universal. Muitas vezes, o próprio agente pastoral encontra-se igualmente capturado pela lógica performática que reproduz. Ele também aprendeu a identificar “resultado” com resposta emocional visível: lágrimas, abraços, catarse coletiva, sensação de pertença, entusiasmo imediato. A eficácia psicológica passa a funcionar como critério de validação pastoral. E aquilo que deveria conduzir gradualmente ao amadurecimento da inteligência da fé reduz-se à administração de estímulos.

É nesse ponto que a observação de Pavlov sobre os efeitos da estimulação contraditória se torna particularmente elucidativa. Quando cadeias previsíveis de estímulo e resposta são reiteradamente quebradas, produz-se um estado de confusão psíquica e vulnerabilidade aumentada. O sujeito busca desesperadamente reorganização interna e tende a aderir ao primeiro modelo coerente oferecido. Politicamente, esse mecanismo foi explorado em contextos de doutrinação. Religiosamente, manifesta-se na alternância entre exaltação e culpa, acolhimento irrestrito e repreensão moral intensa, festa sensorial e recolhimento dramático, pertencimento grupal e ameaça implícita de exclusão espiritual.

O neurofisiologista russo Ivan Pavlov (1849-1936) foi o descobridor dos reflexos condicionados produzidos pelo jogo estímulo-resposta. A idéia de moldar o comportamento humano pela aplicação planejada de castigos e recompensas era uma extensão das descobertas de Pavlov, e boa parte da “reeducação” recebida pelos prisioneiros soviéticos consistia simplesmente nisso. Mas a doutrinação teria resultados escassos se não fosse uma segunda descoberta de Pavlov: a dos efeitos da estimulação incoerente. Ele estudou isto em cachorros. Programando-os inicialmente para salivar de fome à visão de uma luz vermelha que acendia tão logo lhes era oferecido um bife, Pavlov passou em seguida a lhes mostrar ora o bife com a luz apagada, ora a luz sem o bife. Eles ficaram completamente atordoados. Quebradas as cadeias dos reflexos condicionados, o cérebro entrava em pane. O mais surpreendente foi o modo pelo qual os cachorros se adaptaram à nova situação: “A inibição prolongada dos reflexos adquiridos — escreveu Pavlov — suscita angústia intolerável, da qual o sujeito se livra mediante reações opostas às suas condutas habituais. Um cão se afeiçoará ao funcionário do laboratório, que detestava, e tentará atacar o dono, de quem gostava”. 

A mudança de atitude dos prisioneiros, portanto, não era determinada pelo conteúdo político da doutrinação, mas sim pelo efeito acumulado de estimulações contraditórias, que os levavam ao desespero até que a personalidade, literalmente, virasse do avesso. A doutrinação apenas fornecia o modelo pronto do novo discurso, que completava a transformação. Eis em que consistia a “lavagem cerebral”. Depois disso, porém, os conhecimentos sobre a vulnerabilidade do cérebro humano à influência externa aumentaram muito.

O resultado não é maturidade, mas dependência afetiva. A fé deixa de ser adesão racional e sobrenatural à verdade revelada para converter-se em circuito emocional de recompensa, culpa, alívio e retorno. A comunidade já não funciona prioritariamente como corpo místico orientado ao crescimento espiritual e sacramental, mas como ambiente regulador de carências psíquicas e identidade social.

Depois disso, o restante do fenômeno se torna quase previsível.

Boa parte do discurso dessas comunidades retorna constantemente ao adágio de “ir contra as modas do mundo”. Do ponto de vista teológico, tal princípio é irrepreensível: trata-se, em última análise, da própria conversão, isto é, da ruptura com o pecado e da reordenação da vida em direção a Cristo. A dificuldade começa quando essa verdade elementar é reduzida à adesão quase exclusiva a um determinado "estilo" espiritual, como se a participação naquele grupo constituísse, ipso facto, a realização plena dessa ruptura com o mundo. O carisma, para além de um dos muitos modos de ajudar na conversão, torna-se cadeia, prisão escura que não permite a luz da Igreja inteira, em sua infinita riqueza, preencher o espírito humano.

Forma-se, assim, um curioso paradoxo: ao mesmo tempo em que afirmam combater a mundanidade, certos grupos acabam privando seus membros de boa parte do patrimônio espiritual católico. A Igreja, justamente por sua universalidade e profundidade histórica, jamais confinou a santidade a uma única linguagem afetiva ou forma de experiência religiosa. Há nela vida ativa e contemplativa; missão e clausura; pregação pública e silêncio interior; lágrimas de conversão e disciplina intelectual; fervor sensível e aridez espiritual. Cabe aqui a pergunta: o que se perde quando a Igreja local se molda por esse paradigma?

A tradição cristã não propõe apenas momentos de intensidade emocional, mas um itinerário integral de amadurecimento humano e sobrenatural. “Deus priva a alma do gosto e do sabor das coisas espirituais para purificá-la.”, o ensinamento da Noite Escura de São João da Cruz aponta para o fato de que a ausência desses momentos de catarse também são de grandioso proveito para a alma cristã. Há tempo para comoção e também para estudo; para consolação e para aridez; para experiência comunitária e para solidão fecunda diante de Deus. A inteligência da fé, a ascese moral, a vida sacramental e a contemplação silenciosa não são acessórios opcionais, mas dimensões constitutivas da vida cristã madura. Santa Teresa D'Ávila vai nos ensinar que “nem sempre consiste a perfeição em muitos gostos, mas em maior amor.” A vida cristã não é feita de apenas um momento, ela é sempre viva, pulsante, ao que o Papa Francisco apelou: “Não é saudável amar o silêncio e fugir do encontro com o outro, desejar o repouso e rejeitar a atividade, buscar a oração e menosprezar o serviço.” 

As comunidades aqui analisadas, ao absolutizarem seu próprio carisma — o que em si não seria problemático, já que ordens e congregações legitimamente possuem espiritualidades próprias — frequentemente operam uma redução prática do horizonte católico. Tudo deve convergir para a experiência catártica. Nenhum retiro, encontro ou celebração pode escapar ao ciclo previsível de excitação afetiva, descarga emocional e sensação de renovação subjetiva.

O efeito espiritual dessa dinâmica já havia sido intuído por São João da Cruz, “muitos buscam em Deus consolações, e poucos buscam a Deus” ao denunciar aquilo que chamou de gula espiritual: a busca desordenada por consolações sensíveis, confundidas com crescimento interior. Como a catarse vem e passa, deseja-se novamente sua repetição. E porque a experiência, por natureza, não pode sustentar-se indefinidamente, torna-se necessário buscá-la de forma crescente. Multiplicam-se encontros, retiros, congressos e vigílias que, embora variem em nomenclatura e estética, reproduzem estrutura substancialmente idêntica.

As pregações frequentemente ilustram esse mecanismo. Iniciam-se com uma passagem bíblica, um tema moral ou alguma referência doutrinal, mas gradualmente abandonam o desenvolvimento intelectual para deslocar-se ao campo afetivo: conflitos familiares, culpa sexual, carências paternas, traumas, rejeição, necessidade de pertencimento. Não há aqui problema em reconhecer a dor humana — a Igreja sempre o fez —, mas em transformar sistematicamente a experiência religiosa num circuito de indução emocional previsível, repetitivo até a exaustão.

O conteúdo doutrinal deixa de constituir o centro ordenador e converte-se em mero gatilho narrativo para produção de resposta psíquica. A teologia já não ilumina a experiência; passa a legitimá-la retrospectivamente.

A consequência mais grave talvez seja justamente o empobrecimento doutrinal. O fiel, embora frequentemente muito ativo e sinceramente engajado, permanece catequeticamente infantilizado. Aprende a identificar fé com intensidade, oração com emoção, presença de Deus com consolo sensível, comunidade com fusão afetiva e conversão com adesão grupal.

Existe uma Igreja que muitos desses jovens jamais conheceram. Uma Igreja anterior ao cronograma de retiros, aos palcos iluminados e à pedagogia da excitação permanente. Uma Igreja de silêncio, inteligência, liturgia, direção espiritual, leitura paciente, noites interiores e perseverança sem aplausos. Uma Igreja em que a ausência de consolo não é sinal de abandono, mas frequentemente o início da maturidade. A pergunta proibida é: que Igreja é essa que eu não conheço?

Ao invés de ser introduzido à vastidão da tradição católica — Padres da Igreja, doutores, escolas espirituais, liturgia, mística, filosofia cristã, lectio divina, silêncio contemplativo, vida sacramental profunda — vê-se funcionalmente limitado a um repertório estreito de experiências repetidas.

Não surpreende, portanto, que muitos desses jovens vivam numa busca incessante por novas experiências capazes de reproduzir a mesma descarga inicial. Mudam-se nomes, slogans, camisetas, pregadores e cidades; preserva-se a mesma estrutura. O evento seguinte promete aquilo que o anterior já não consegue fornecer com igual intensidade. 

Não se fala jamais do silêncio contemplativo, e da dificuldade que é vivê-lo em nossa época de barulho e estimulação permanente. Mas quem disse que seria fácil? Ao se render a oração inquieta, desaparece do horizonte a contemplativa, ao passo que a Igreja sempre admitiu a dificuldade real na tensão entre o mundo e o cristão. No Catecismo, por exemplo, ensina que “A oração passa habitualmente por uma luta.” (CIC, 2725).

Nesse sentido, o problema não consiste meramente em excessos emocionais ocasionais, mas na substituição gradual do desenvolvimento integral da vida cristã por uma pedagogia de dependência afetiva. A formação cede lugar à excitação; o aprofundamento, à repetição; a liberdade espiritual, à necessidade constante de estímulo. São João Paulo II afirma que “a finalidade definitiva da catequese é pôr alguém não apenas em contato, mas em comunhão, em intimidade com Jesus Cristo.” Em absoluta sintonia, Bento XVI diz que “não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa.” Não conhecemos verdadeiramente uma pessoa por um único aspecto. Se pensarmos em nossos amigos, conhecemos suas qualidades, defeitos, medos, aspiração e uma infinidade de sutilezas que, por mais anos que sigam a relação, jamais se esgotam. Assim o é com Cristo: a relação com Ele jamais se escuta, e não se resume a uma única forma de conhecê-lo.

Quando o Catecismo ensina que “o progresso espiritual tende à união cada vez mais íntima com Cristo”, ele afirma justamente que devemos, ao longo da vida, buscar a intimidade nos caminhos que Cristo mesmo nos dá.

A Igreja oferece infinitamente mais. Seu tesouro espiritual não se reduz a uma pedagogia de impacto, mas abarca toda a complexidade do humano elevado pela graça. Nela há espaço para o entusiasmo juvenil, mas também para a paciência monástica; para a música festiva, mas também para o silêncio do coro; para a missão pública, mas igualmente para o recolhimento de uma alma diante do Santíssimo em aridez completa.

Talvez o sinal mais seguro de maturidade espiritual seja justamente este: quando o fiel já não necessita de estímulos extraordinários para perseverar. Quando permanece. Quando reza sem sentir. Quando estuda sem aplausos. Quando serve sem performance. Quando compreende, enfim, que a vida cristã não consiste numa sucessão de experiências intensas, mas numa lenta conformação da alma a Cristo. “Todos na Igreja [...] são chamados à santidade.” Afirma o Concílio Vaticano II. Esse chamado se dá de várias formas, que se apresentam a nós como um oceano: alguns conheceram Jesus na agitação das pregações, outros no silêncio da clausura, mas estes sempre estiveram em contato uns com os outros. Santa Teresinha escrevia cartas de dentro do convento. Inúmeros foram aqueles que visitaram Santo Antão em busca de orientação. Embora bispo, Santo Agostinho é profundamente contemplativo, e o mesmo se diz de Santo Tomás que, na universidade, enquanto escrevia e ditava diversas obras ao mesmo tempo, jamais abandonava a oração e nem a ação, com efeito, foi no mesmo espírito que escreveu a Suma Teológica, que ele compôs os mais belos hinos eucarísticos da Igreja.

Engenharia Religiosa: Manipulação e empobrecimento da Fé na Igreja Católica I

O Jardim das Aflições (1995) é uma das principais obras  do Prof. Olavo de Carvalho, articulada a partir de uma conferência sobre a presença do Estado na liberdade individual, elabora uma crítica densa à modernidade, conectando a filosofia de Epicuro ao que ele descreve como a expansão do poder estatal e a asfixia da vida intelectual. O livro percorre temas que vão da história das ideias à psicologia, argumentando que o projeto da modernidade ocidental conduz a um coletivismo que degrada a consciência individual e a busca pela verdade transcendente.

O obra circula ao redor da a ideia de "Império Romano" não apenas como um período histórico, mas como um arquétipo político que se repete. Para ele, a história do Ocidente é marcada pela tentativa recorrente de restaurar a unidade imperial romana, a Pax Romana, onde o Estado se torna o centro organizador de todos os aspectos da vida humana.

O autor argumenta que essa estrutura imperial ressurge sob diferentes máscaras (como o Sacro Império, o Imperialismo Napoleônico ou o Globalismo moderno), mas sempre com a mesma característica: a absorção da esfera espiritual e intelectual pelo poder político. Nessa visão, o "Império" é o esforço de criar um paraíso terrestre (o jardim) que, ao tentar controlar a realidade e eliminar o sofrimento por meio da administração estatal, acaba por gerar a "aflição" ao sufocar a liberdade e a consciência individual.

Como já tratei em outras oportunidades, as Novas Comunidades,  como Colo de Deus, Samaria,  Fraternidade São João Paulo II, Missão Recado, dentre tantas outras que, a nível diocesano ou até nacional, trazem sempre em seus números impressionantes conquistas na, dita, evangelização. Que não se trata de evangelização verdadeira acho que já o tratei suficientemente, no entanto, há muito ainda a ser explorado para que possamos compreender o fenômeno que domina quase hegemonicamente a mentalidade dos nossos jovens católicos.

Em O Jardim das Aflições, Olavo de Carvalho mostra como técnicas de persuasão e manipulação de consciência são usadas no meio politico. A pesquisa é toda dele, o que eu fiz foi apenas aplicar o dito no recorte religioso, especificamente o brasileiro. 

O contato prolongado com determinado grupo social torna o homem mais próximo do pensamento que domina esse mesmo grupo. Com as Novas Comunidades não poderia ser diferente. Meu último artigo buscou mostrar justamente como se dá, por meio de diversos aparatos de sugestão e manipulação, na mentalidade dos jovens. Aqui, quer retroagir para tornar ainda mais compreensível que essas técnicas não surgiram do nada, bem como seus objetivos não foram alcançados sem uma ação premeditada. O primeiro ponto a ser notado é que o convívio com esses grupos, que possuem linguagem própria e estrita, tornam por tornar a mentalidade de seus membros incapazes de conceber algo que sai da esfera de comunicação. Se eles não falam sobre, não existe. 

O homem moralmente embotado já não consegue “sentir” a bondade ou maldade intrínseca de seus atos. Embora conheça perfeitamente as normas sociais que aprovam ou desaprovam certos comportamentos, ele não as vê senão como convenções mecânicas, e pode até continuar a obedecê-las exteriormente por mero hábito, mas sem pensar sequer em lhes aderir de coração. Ao frequentar os eventos, shows, reuniões e retiros, esses jovens cada vez mais alinham sua mente ao pensamento grupal, o restante da vida eclesial torna-se completamente estranho. A doutrina universal perde-se nos discursos da comunidade.

Como a inteligência humana não opera no vazio, mas apenas elabora e transforma os dados que recebe da esfera sensível, é natural que, quando um homem já não sente a realidade de alguma coisa, o conceito dessa coisa, o esquema que corresponde a ela no plano da inteligência abstrata, logo comece a lhe parecer também vazio de sentido. Nessas horas, somente a um autêntico filósofo ocorrerá tomar consciência do seu depauperamento interior e sair em busca do sentimento perdido, para dar vida nova ao conceito. A maioria simplesmente adaptará o conceito ao estado atual da sua alma. É por isso que os fiéis se tornam cada vez mais e mais homogêneos em ação e pensamento. No homem sem maiores interesses morais, o conceito esvaziado não tem mais função, e será simplesmente esquecido. Mas, se esse homem for um letrado, ele não suportará ser o único a sentir como sente. 

Nos membros da comunidade, tudo gira apenas e tão somente ao carisma da mesma. A forma de falar e até os cacoetes mentais, bem como os aspectos mais externos e superficiais: a forma de vestir, as músicas, a forma de decorar encontros, reuniões... Eles até podem participar de uma vida paroquial, mas a verdadeira vida espiritual é apenas aquela que a comunidade lhe dá;

O que intriga é: como um homem de personalidade normal pode ser transformado de tal maneira que seu senso moral se torne idêntico ao de um sociopata de nascença? Como se pode inocular artificialmente a perversidade moral? Pois é óbvio que, se não existisse esta possibilidade, determinados movimentos sociais e políticos só poderiam recrutar seus adeptos nos hospitais psiquiátricos e jamais passariam de clubes de excêntricos. Como disse no meu último artigo sobre esse tema, esses jovens não possuem ainda nenhuma defesa intelectual e psicológica, muito menos teológica, coisa nem os adultos possuem. Por isso que são atacados em idade tenra, quando são incapazes de perceber o que está acontecendo.

Não há talvez no mundo um setor de pesquisas em que governos, partidos políticos, organizações religiosas e pseudo-religiosas, empresas e sindicatos tenham investido mais do que no dos meios de subjugar a mente humana. Como observa Olavo de Carvalho, o século XX legou um verdadeiro arsenal de técnicas voltadas à modelagem do comportamento e da percepção humana, cujo refinamento supera, em alcance e eficácia social, grande parte dos avanços técnicos de outros campos.

O desenvolvimento dessas ferramentas não se deu de modo casual ou disperso. Ainda no final do século XIX, Gustave Le Bon já observava, em sua Psicologia das Multidões, a transformação qualitativa do indivíduo ao ser absorvido pela massa, tornando-se mais suscetível à sugestão, ao contágio emocional e à perda de discernimento individual. Décadas mais tarde, Edward Bernays, aplicando princípios da psicanálise ao campo da publicidade e da opinião pública, consolidaria as bases da propaganda moderna ao demonstrar que desejos, hábitos e decisões coletivas poderiam ser moldados por meio da manipulação indireta de símbolos, impulsos e afetos. Não por acaso, tais descobertas rapidamente ultrapassaram o âmbito comercial, tornando-se instrumentos privilegiados de engenharia social e política nos regimes totalitários do século XX, nos quais a mobilização das massas já não dependia exclusivamente de coerção física, mas da fabricação de adesão psicológica e imaginária.

Longe de permanecerem restritos a laboratórios, arquivos militares ou círculos acadêmicos, esses conhecimentos foram progressivamente incorporados ao cotidiano, tornando-se instrumentos correntes em campanhas eleitorais, publicidade comercial, movimentos ideológicos e organizações de massa. A sociedade contemporânea não apenas conhece mecanismos sofisticados de influência psíquica: ela os integrou à própria normalidade de suas relações simbólicas, comunicacionais e institucionais.

Tal normalização produz um efeito particularmente relevante: a erosão gradual da capacidade de discernimento sob exposição contínua a estímulos fragmentados, repetitivos e emocionalmente dirigidos. O indivíduo moderno é submetido a um bombardeio quase permanente de imagens, slogans, narrativas e experiências calculadas para suscitar respostas previsíveis, predispondo as massas a estados psicológicos de adesão acrítica, ansiedade difusa e dependência simbólica.

A coisa que mais impressiona o estudioso do assunto é a onipresença da manipulação da mente na vida contemporânea. Sem ela, os grandes movimentos de massa que marcam a história do século simplesmente não teriam podido existir.

É impossível imaginar o que teria sido da propaganda comunista sem os reflexos condicionados e sem a lavagem cerebral inventada pelos chineses; o que teria sido do fascismo e do nazismo sem a técnica da estimulação contraditória com que esses movimentos desorganizavam a sociedade civil; como teriam se desenrolado os dois conflitos mundiais e dezenas de conflitos locais e revoluções sem o uso maciço da guerra psicológica; o que teria sido dos governos ocidentais e dos grandes empreendimentos capitalistas sem o controle do imaginário e a “modificação de comportamento” que exercem sobre populações que não têm disto a menor suspeita; que fim teriam levado as organizações esotéricas e pseudo-esotéricas e o movimento da New Age sem as técnicas de hipnose instantânea e comunicação subconsciente com que reduzem à escravidão mental seus milhões de discípulos em todo o mundo; qual teria sido a sorte da indústria das comunicações de massas sem o uso da influência subliminar pela qual reduzem à passividade mais idiota o público jovem de todos os países.

Se retirássemos, enfim, do panorama histórico do século XX as técnicas de manipulação da mente, nada teria podido acontecer como aconteceu. Elas foram seguramente mais decisivas, na produção da história contemporânea, do que todas as outras técnicas concebidas em todos os outros domínios, incluindo a bomba atômica e os computadores. Elas estão entre as causas primordiais do acontecer histórico no nosso tempo, e no entanto os historiadores continuam a ignorá-las.

No homem hipnotizado, a maioria das funções psíquicas continua operando normalmente. Ele fala, raciocina, recorda e sente como se estivesse desperto. Apenas uma função é suspensa: o juízo reflexivo que, retornando sobre os conteúdos da representação, os julga como efetivos ou possíveis, verdadeiros ou falsos, verossímeis ou inverossímeis, prováveis ou improváveis. Dito de outro modo: o hipnotizado sabe distinguir entre imagens, mas não sabe julgar o valor cognitivo das imagens.

*Guardadas as proporções clínicas, interessa aqui não a hipnose em sentido estrito, mas a analogia funcional. Certas dinâmicas coletivas contemporâneas parecem operar precisamente mediante a suspensão parcial do juízo reflexivo, privilegiando adesão emocional, repetição simbólica e experiência intensiva em detrimento da análise conceitual.*

Quanto mais profundo o transe hipnótico, mais dificultoso se torna o juízo de valor cognitivo, até que se chegue à completa despersonalização.

No campo religioso, esse fenômeno adquire potência singular. Diferentemente da publicidade ou da propaganda política, a religião opera sobre disposições naturalmente abertas ao mistério, ao pertencimento e à transcendência. Quando técnicas modernas de mobilização afetiva se infiltram nesse ambiente, o resultado não é apenas influência psicológica, mas uma possível reconfiguração da própria experiência de fé, deslocando-a do eixo contemplativo, doutrinal e sacramental para formas intensificadas de adesão emocional e identidade coletiva.

Se o século XX aperfeiçoou técnicas cada vez mais sofisticadas de influência psíquica, uma de suas formas mais eficazes talvez tenha sido justamente aquela que não busca convencer pela coerência, mas desarmar a inteligência pela saturação e pela contradição. Mais do que transmitir uma ideia específica, trata-se de produzir um estado mental em que a exigência de verdade se torna secundária, substituída pelo conforto emocional, pela acomodação psicológica ou pela mera adesão funcional.

Olavo de Carvalho identifica nesse mecanismo uma tendência moderna ao embotamento voluntário da inteligência: não importa tanto se uma explicação é verdadeira, coerente ou suficiente, mas se ela é capaz de reduzir tensões internas, eliminar angústias e oferecer ao indivíduo uma sensação imediata de estabilidade psíquica. Nesse contexto, explicações contraditórias podem coexistir sem gerar desconforto cognitivo, desde que cumpram sua função tranquilizadora. A contradição deixa de ser percebida como problema e passa a integrar o próprio ambiente psíquico do indivíduo contemporâneo.

Tal dinâmica não se limita ao plano filosófico ou cultural, mas encontra respaldo em práticas psicológicas e comunicacionais concretas. Diversas abordagens terapêuticas e comportamentais contemporâneas passaram a privilegiar menos a investigação racional do sofrimento e mais a reorganização subjetiva da experiência por meio da manipulação de imagens mentais, narrativas internas e respostas emocionais. Em vez de confrontar o sujeito com a inteligibilidade do real, busca-se frequentemente apenas reduzir sintomas pela reformulação perceptiva da experiência.

A lógica é simples: se determinada representação mental produz alívio, sua adequação à realidade torna-se secundária. O que se procura não é conhecimento, mas funcionalidade psíquica. Nesse sentido, observa-se uma passagem gradual do ideal clássico de formação da inteligência para um paradigma de gestão emocional da consciência.

Esse deslocamento alcança expressão particularmente refinada nas técnicas modernas de comunicação e persuasão. A Programação Neurolinguística, por exemplo, ao operar mediante padrões sutis de linguagem verbal e não verbal, busca contornar as barreiras críticas do interlocutor e influenciar diretamente seus estados emocionais, disposições internas e processos decisórios. Seu funcionamento não depende prioritariamente da força argumentativa, mas da modulação indireta da percepção e da resposta afetiva.

Não se trata, portanto, de mero charlatanismo ou superstição pseudocientífica. O êxito dessas técnicas reside precisamente em sua eficácia prática. Como já alertava a revista Science Digest em 1983, a disponibilização indiscriminada de ferramentas como a PNL representava o risco de converter tecnologias legítimas de comunicação em instrumentos de manipulação interpessoal e controle social.

O aspecto decisivo, porém, não reside apenas na possibilidade de induzir comportamentos específicos, mas na gradual habituação da consciência a operar sob regimes de contradição administrada. Quando exposto continuamente a mensagens, estímulos e experiências mutuamente incompatíveis, porém emocionalmente gratificantes, o indivíduo perde progressivamente a sensibilidade intelectual ao contraditório.

É precisamente esse estado de dessensibilização cognitiva, aqui entendido como efeito da estimulação contraditória, que interessa ao presente ensaio. Mais do que erro doutrinal ou deficiência formativa, ele constitui uma alteração prática do modo pelo qual o sujeito percebe, organiza e julga a realidade, tornando-se progressivamente mais suscetível a estruturas simbólicas fundadas em intensidade afetiva, repetição e pertencimento.

Falemos de maneira clara: é no ambiente juvenil que tais mecanismos encontram talvez seu terreno mais fértil. Não por acaso, encontros de jovens, retiros, festivais religiosos e mesmo determinadas celebrações litúrgicas passaram a operar mediante uma linguagem cuidadosamente estruturada para produzir catarse emocional intensa e sincronização afetiva coletiva.

Nesses ambientes, a dinâmica é relativamente previsível. Em momentos chamados de “animação”, geralmente marcados por músicas festivas, coreografias e forte estímulo corporal, os participantes são conduzidos a estados de excitação coletiva nos quais cantar, pular, levantar os braços e repetir palavras de ordem se tornam respostas quase automáticas. Em seguida, o registro pode mudar abruptamente para tonalidades penitenciais ou intimistas: iluminação reduzida, música lenta, fala pausada, apelos emocionais e convites ao recolhimento, ao choro e à exteriorização pública da vulnerabilidade.

Essa alternância entre excitação e recolhimento não é neutra. Ela opera precisamente pela produção de estados emocionais intensificados e sucessivos, predispondo os participantes à receptividade máxima. Temas recorrentes como conflitos familiares, ausência paterna, carência afetiva, culpa sexual, ansiedade, solidão e baixa autoestima são frequentemente mobilizados como gatilhos de identificação imediata. Considerando-se que o público-alvo dessas iniciativas é majoritariamente composto por adolescentes e jovens adultos, sujeitos ainda em processo de consolidação identitária, afetiva e espiritual, o impacto dessas práticas torna-se ainda mais significativo.

Em muitos casos, práticas simbólicas coletivas aprofundam esse processo. Não são raros exercícios nos quais figuras representativas de pai e mãe são colocadas diante da assembleia, seguidos de pregações sobre abandono, perdão, feridas emocionais e reconciliação familiar, culminando em convites para abraços ritualizados ou outras formas públicas de descarga afetiva. Embora tais experiências sejam frequentemente descritas como belas ou transformadoras, sua estrutura suscita questões importantes. Trata-se, em última análise, de mobilização emocional em larga escala sobre conteúdos psíquicos profundamente individuais, frequentemente relacionados a traumas, conflitos familiares e vulnerabilidades que pertencem propriamente ao âmbito do acompanhamento psicológico particular.

O problema não reside na emoção em si, tampouco na possibilidade legítima de experiências religiosas intensas, mas na transformação sistemática da afetividade em principal via de adesão e validação da experiência espiritual.

Tal dinâmica se torna ainda mais delicada quando associada à formação religiosa precária que caracteriza parcela significativa do público envolvido. Muitos jovens chegam a esses ambientes sem catequese minimamente sólida, sem repertório doutrinal básico e sem familiaridade com a tradição intelectual, ascética ou litúrgica da Igreja. Em tais circunstâncias, a experiência subjetivamente intensa passa a ocupar, na prática, o lugar de critério de autenticidade religiosa. Depois dessas experiências, muito raramente buscam uma formação mais sólida ou sequer consideram enxergar a Igreja sob um ponto de vista mais amplo

A consequência é uma inversão silenciosa, porém decisiva: já não é a verdade objetiva da fé que interpreta e ordena a experiência, mas a intensidade da experiência que passa a validar subjetivamente a verdade da fé. Forma-se, assim, um ambiente especialmente propício à dessensibilização crítica descrita anteriormente. A coerência doutrinal, a inteligibilidade teológica e a organicidade litúrgica tornam-se progressivamente secundárias diante da capacidade de determinada prática produzir sensação de pertencimento, consolo psíquico ou impacto emocional imediato.

O uso disseminado e não refletido de tais mecanismos arrisca produzir efeitos que ultrapassam o âmbito estritamente religioso. Quando a manipulação emocional passa a ser percebida como linguagem pastoral ordinária, corre-se o risco de legitimar formas sutis de influência psicológica como meios normais de condução humana. Nesse cenário, sinceridade, prudência e discernimento cedem espaço à eficácia emocional e à administração estratégica de estados psíquicos coletivos.

Mais grave ainda: quando tais dinâmicas deixam de ser percebidas criticamente inclusive por agentes formadores, lideranças e intelectuais religiosos, enfraquece-se a própria capacidade institucional de reconhecer o problema. A ausência de resistência conceitual ou prudencial não elimina o fenômeno; apenas o torna mais difuso, mais naturalizado e, por isso mesmo, mais difícil de diagnosticar.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Qualquer coisa

Aquela conversa era uma troca de provocações. Mesmo que ele, talvez não desse conta disso completamente. Dois homens com tesão falando sobre isso o dia todo. O pau torando nas calças e a gente fingindo que não está pensando em sexo o dia todo. 

Acho que os homens são assim. Ao menos a maioria deles. Alguns devem se concentrar em ganhar dinheiro, ser ou parecer bem sucedido mas, no fim do dia, parece que tudo é feito com o objetivo de comer alguém. E talvez seja mesmo.

Ele queria enfiar os dedos em alguma garota, descontar o acumulado, enquanto chupa com ferocidade os peitos dela. Eu queria colocá-lo no meu colo, bater uma pra ele até ver aquele rostinho claro ficar vermelho, e cuspir porra por toda parte. 

Ele não tem ideia, ou finge, do quanto seria bom se me deixasse fazer isso.

Talvez tenha passado o dia olhando pra uma planilha estúpida no computador, com mente no tesão que passava como eletricidade percorrendo seu corpo. Eu passei o dia me retorcendo na cama, enlouquecido com cada coisa que ele me dizia, como quando disse que ficara completamente pelado ao chegar do trabalho, ou como ia bater punheta em todos os cantos da casa pra aliviar a coisa. 

Os momentos de luxúria ensandecida se dividem com a apatia de cada dia. Ao mesmo tempo que sentia o calor do quarto aumentar por minha causa, se abria os olhos, ainda vi tudo coberto por uma fina camada de poeira, um véu me separando de tudo o mais.

Que droga! 

É um desperdício que toda aquela porra seja jogada fora. Eu engoliria tudo, e o beijaria, e isso o deixaria louco, e então faríamos como animais, meus dedos em seu rabo, seu pau na minha boca, até cairmos para o lado, exaustos. 

Talvez ele pense nisso hoje à noite, antes de bater mais uma pensando naquela garota sem graça. Eu não sei se vou me forçar a assistir outra noite triste e, em vão, tentar dormir amanhã. Os dias têm sido um saco. Muito barulho, insuportável. 

E às vezes, na maior parte das vezes, nem consigo ouvir muita coisa. É como se tudo, mesmo que ao meu lado, estivesse distante. Ouço como se fosse ao longe, minha anuviada, e ainda assim muitas vezes me encho de fúria.

Por isso eu prefiro voltar a pensar em como seria se estivesse lá com ele. Talvez também ficasse distante de tudo o mais, apenas ciente e consciente de sua presença.

No banho, fitaria seu corpo branco cheio de marcas dos meus lábios. Passaria sabão pelo seu corpo, com uma mão, e a outra já no meu pau. Não tem problema, homens não ficam satisfeitos facilmente. Nunca é demais. Daria a ele mais uma punheta gostosa, antes de me virar de costas para ele empinar a bunda, o rabo pronto pra receber seu cacete, que já estava duro. Ele mete devagar, não é tão grande mas é bem grosso, e parece me rasgar, me fazendo gemer e sorrir. Porra, que moleque gostoso! E ele começa a bombar mais rápido, gozou dentro de mim, encostando a cabeça nas minhas costas. Me viro e gozo no seu pau, olhando mais uma vez as marcas. 

Ficariam ali por semanas: 

lembrança de que eu estive ali e fiz meu aquele corpo, daquele cara que, como eu, pensa em sexo o tempo todo. 

Depois cada um vai pra um lugar, faculdade, caminhar pela rua e pensar no vazio. Aula de estatística e energético. Eu sentaria pra ouvir música e tomar uma cerveja. 

Qualquer coisa assim. 

O chá que fiz ficou fraco, e esfriou logo. Acho que perdi o jeito. O de ontem tinha gosto de terra. Os remédios pra dormir já não ajudam mais. Não tenho bebido, pois com os remédios a ressaca é sempre horrível. Não sei o que fazer. Cada dia me sinto mais perdido, até mesmo ao conversar com um cara assim e falar bobagens. 

Será que eu só quero sexo? Quando penso em alguém, só consigo pensar nisso. Conhecer uma pessoa, me aproximar, tudo isso é muito chato, me cansa só de imaginar. Acho que, depois da última vez, quando ouvi algumas das piores palavras da minha vida, não sou mais capaz de amar. Finalmente. Amar é uma droga ou, como disse o velho Buck: o amor é um cão dos diabos.

Não vou tomar banho com ninguém. A única interação será com desconhecidos dos vídeos na internet. Um pouco de vento nessa noite, mais ou menos fresca, em que vou dormir sem saber se quero dormir, assistir, ou simplesmente desaparecer. 

Passei mais um chá, preto, e dessa vez não ficou tão ruim. Mas nunca mais senti o sabor como antes. Começou a chover um pouquinho. O calor podia finalmente dar uma trégua de alguns meses, mas no jornal disse que volta a ficar quente ainda essa semana. Droga!

"talvez o amor seja sexo. talvez o amor seja uma tigela de mingau. talvez o amor seja um rádio desligado." (Charles Bukowski)

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Sentindo falta

Tenho sentido falta dos amigos.

De vez em quando, de quando em vez, me surge algo que chama a atenção, em meio a apatia de alguns episódios depressivos. São raros. Lampejos de luz.

Isso porque, nesses dias, é tudo escuridão. Silêncio e escuridão. Não é exatamente tristeza, porque isso já seria alguma coisa. É mais como se nada tivesse graça. Aos poucos tudo vai ficando assim, sem graça, vazio, sem contorno.

Por fora, parece desinteresse, ou ingratidão. E uma vez mais eu vejo as pessoas se afastando. Porque eu não consigo ser como elas. Eu não consigo sair quando elas querem. Não fico feliz com as mesmas coisas. Outros pensam que eu estou com preguiça, ou irritado. 

Tento assistir algo... 
E não me prende. Os homens bonitos parecem não ser tão bonitos assim. 

Tento descansar... 
E não descanso.

Tento ouvir música... 
E só percebo que ela não me tocou mais, quando ela acabou. 

Tento puxar assunto... 
E as coisas não fluem, e isso é uma das que mais machucam. 

É como se a vida, de todos, continuasse, mas eu não consigo alcançar. 

Me lembro das coisas que aprendi com a terapia no último ano, em tratamento no CAPS. No transtorno bipolar, especialmente em fases depressivas, isso pode acontecer porque o cérebro reduz a resposta ao prazer, à motivação e ao interesse. Ou seja: Não é que nada presta, é que naquele momento, o sistema emocional não está conseguindo registrar as coisas do mesmo jeito. E esse detalhe muda tudo porque quando você entende isso, você para de se atacar por “não aproveitar a vida”… e começa a agir com estratégia. O que costuma ajudar nesses momentos: Reduzir a meta do dia; Criar pequenos momentos; Manter algum contato com o mundo; Não esperar vontade para começar; Proteger sono e rotina; Repetir pequenas ações até o prazer reaparecer. 

Na depressão bipolar, a vontade nem sempre vem antes. Muitas vezes ela volta depois da ação consistente. E então eu insisto naquela série que lembro que me fez bem quando vi. Naquele sorriso, naquela história. 

Mas, isso foi o que aprendi. Ou talvez não tenha aprendido, porque ainda não consigo fazer assim. A vida parece continuar, mas não pra mim. As coisas perdem a cor, tudo que resta é a sensação do suor na minha cama. Sei que devia tomar um banho. Mandar alguma mensagem. Abrir a janela e deixar o ar do outono renovar um pouco aquele peso úmido do verão. 

Eu sinto saudades das pessoas, dos amigos, é verdade. Não é que elas parecem sem graça, eu é que não consigo acompanhar. E então o silêncio delas, machuca. Mas eu não consigo responder, não consigo... Me conectar. Nada parece valer o esforço. Mas eu sinto falta dos amigos. Sair dá trabalho. Me arrumar dá trabalho. Qualquer coisa se torna difícil demais. Mas eu sinto falta dos amigos. 

Quanto mais esses episódios duram, mais eu me afasto de tudo e todos. Os dias em casa se multiplicam. Um fim de semana. Uma semana. Duas. Um mês. E então já faz um ano que saí do emprego. De repente não tem mais pizza depois da missa, e depois nem mais aquela conversa depois da missa. As mensagens diminuem. Os grupos se calam. Mas só pra mim. 

E eu sigo sentindo falta dos amigos. 

E, ainda assim, maybe they just don't give a damn...

“Você acha que sua dor e seu coração partido não têm precedentes na história do mundo, mas então você lê. Foram os livros que me ensinaram que as coisas que mais me atormentavam eram as mesmas coisas que me conectavam com todas as pessoas que estavam vivas, que já tinham estado vivas.” (James Baldwin)