muitos estão bêbados,
Devaneios Pessoais
"Eu sustento com palavras o silêncio do meu abandono." (Manoel de Barros)
sexta-feira, 22 de maio de 2026
Mesmo assim
muitos estão bêbados,
quinta-feira, 21 de maio de 2026
Aquecendo o inverno
Uma das coisas que considero mais interessantes na literatura universal é que cada obra condensa, ao seu modo, aquelas experiências que poderiam ser chamadas extremas: nela encontramos a mais prístina bondade ou mais abissal crueldade, a leviandade, a sensibilidade... Todo o que compõe o homem, aquilo que forma seu imaginário, e que em cada um de nós se encontra em diversas proporções, ali podemos também encontrar, conhecer e reconhecer as mais diferentes experiências humanas, de forma que, numa vida, podemos viver dezenas, ou até centenas, de outras vidas, de modo que cada um daqueles personagens, do mais vil, maquiavélico, inocente ou caridoso, passa a habitar também em nós, isto é, assim como nossa experiência real vai compondo quem somos, as experiências que temos por meio da arte também encontram lugar e passam a fazer parte de nosso ser.
Há, por vezes, um grande choque de realidade. E aqui já me refiro a uma obra específica. Um jovem, que sempre viveu rejeitando a virulência fundamental de sua família, de repente encontra noutra casa, na simplicidade de uma pequena família que se refez, um calor que ele jamais conhecera. As noites não eram mais de tensão sobre o futuro violento moldado pelos laços de sangue, mas eram sorrisos e partilha das coisas boas de cada dia, de modo que aquele momento, que sempre pareceu uma tortura, se tornou tão agradável que o sabor daquela comida o emocionou, e ele se esforçou para não chorar. Essa cena de Lately, It's Winter Season me partiu o coração.
Suer trazia consigo uma fachada alta: seu alto desempenho no futebol, que ele gostava de fazer, era sua própria recompensa pelo alto desempenho nas disciplinas avançadas, exigido por sua família. O garoto bonito escondia na perfeição pública um repúdio por quem queriam que ele fosse, um mundo que ele sempre negou. Encontrou em Nao, o garoto falante do time de futebol, ciumento com o irmão e péssimo em tudo menos nos jogos, uma autenticidade até então desconhecida. Porque para ele tudo sempre fora mentira: a imagem de família bem sucedida que era usada para esconder os negócios violentos e ilegais da máfia tailandesa, bem como sua própria imagem que escondia essa verdade grotesca e servia, até para ele mesmo, como forma de convencimento de que ele podia ser diferente. A máscara que ele ostentava era, e sempre foi, a manifestação não de uma mentira, mas de algo que ele queria ter.
Mas então veio sua iniciação naquele mundo do qual ele sempre fugiu. O disparar da arma o manchou de sangue, um sangue que não era dele. Não era como o sangue da sua boca que aparecia quando brigava com os moleques da vizinhança de Nao. Não, esse era um sangue brutalmente quente. E em quem ele pensou quando finalmente saiu de lá? Naquele menino alegria, que falava palavrão e tinha pose de briguento, mas que adorava comer doces num café com as paredes pintadas de um rosa neon enjoativo.
Ele se lançou nos braços de Nao sem nenhuma máscara. Sem pose de bom menino e nem de aluno exemplar. Ainda sujo daquele sangue em seu pescoço e parte de seu rosto, ele deixou rolar pesadas lágrimas de desespero, arrependimento por um pecado que ele não queria cometer. Ele nunca chorara antes. E então, pediu perdão. Perdão ao Nao, que nem mesmo sabia o que podia ter acontecido, inocente que estava dormindo depois de jogar por várias horas. Mas ali, Nao era a bondade que ele ousara manchar, mesmo que obrigado. Nao era tudo aquilo que ele queria ser e que agora, maculado uma vez por todas, jamais seria. E então, ao implorar perdão, se alguém tão bom e puro lhe perdoasse, talvez ainda existisse alguma chance de redenção para ele. Talvez aquele abraço, quente, numa noite marcada pela frieza de uma execução, fosse o único refúgio possível para ele que percebera que não poderia mais viver ignorando aquela verdade, mas que precisaria ostentar de uma vez por todas uma máscara para esconder seu pecado.
Tão jovem, bonito, e forçado a cometer uma atrocidade, e pior, acreditando ser culpado, e pedindo perdão como se ele tivesse puxado o gatilho por vontade própria, e não pela maldade dos outros. Era inverno, mas o abraço daquele garoto, na porta de um simples restaurante de comida caseira, era um raio de sol que aquecia tudo aquilo.
Há um paralelo que achei particularmente interessante. Há uma espécie particular de dor em ser acolhido justamente quando nos sentimos menos dignos de acolhimento. Porque a bondade do outro deixa de ser conforto e passa a ser espelho. O que há de especialmente belo nessa cena é que ela reencontra uma das experiências espirituais mais antigas da literatura: o momento em que alguém, ao tocar a bondade verdadeira, finalmente percebe a própria ferida. Não a culpa no sentido jurídico, não a culpa racionalizada, mas a consciência dolorosa de ter sido arrancado de si mesmo. É exatamente aí que Dostoiévski aparece, não como influência estética direta, mas como presença humana fundamental.
Quando Raskólnikov se ajoelha diante de Sônia, o que ocorre não é apenas um pedido de perdão. Ele vê nela algo que já julgava impossível: uma pureza que continua existindo apesar da sordidez do mundo. Sônia, prostituída pela miséria, conserva intacta uma espécie de luz interior. E isso o destrói, porque a simples existência daquela bondade torna insuportável a permanência da máscara intelectual e moral que ele construiu para justificar seu crime. O perdão que ele busca nela não é absolvição social; é a esperança desesperada de que ainda exista um caminho de retorno ao humano.
É exatamente essa estrutura espiritual que reaparece em Suer e Nao. Nao não compreende o que aconteceu, mas isso torna a cena ainda mais poderosa: sua inocência não julga, apenas acolhe. Ele diz que vai ouvir Suer quando o outro estiver pronto pra isso, naquele momento ele oferecia seus braços. E justamente por isso o abraço se torna quase insuportável. Porque Suer já não está chorando apenas pelo ato cometido ou pela violência testemunhada; ele chora pela perda de uma possibilidade de si mesmo. O sangue em seu rosto não é apenas sangue físico: é a marca visível da entrada brutal num mundo ao qual ele jamais quis pertencer. Ao correr para Nao, ele busca aquilo que Dostoiévski compreendia tão bem: alguém diante de quem ainda seja possível existir sem cinismo.
Talvez seja por isso que certas obras contemporâneas nos atingem, me atingem, tanto quando são honestas. Não porque repitam a alta cultura, mas porque reencontram, sob novas formas, os mesmos dramas eternos da alma humana. A literatura russa do século XIX e uma série asiática recente podem parecer mundos completamente distintos, mas ambos tocam o mesmo centro: a necessidade humana de redenção, o medo de se tornar irreconhecível para si mesmo e a esperança de que o amor de alguém possa ainda salvar aquilo que restou.
Assim arte revela sua dignidade perene: quando nos faz perceber que, apesar da mudança das épocas, das linguagens e dos cenários, o coração humano continua sangrando pelas mesmas coisas. E de corações que sangram eu não só compreendo como também sangro o meu próprio.
segunda-feira, 18 de maio de 2026
Me olhando no espelho
sábado, 16 de maio de 2026
Hostias et preces tibi, Domine
Iniciam-se os festejos em honra ao Divino Espírito Santo. Fiéis de toda parte acorrem em cânticos, ladainhas, procissões com a bandeira vermelha cheia de fitas coloridas hasteada. O suor de décadas de fé acompanham a romaria. Quantos terços foram rezados, os dedos trêmulos pela idade, a mente turva sem obedecer ao recordar os mistérios de cada dezena, mas a certeza de aquele Divino não decepcionaria. A ele se confiam, com a saúde dos pais e dos filhos, com a esperança de que aquele que partiu um dia retorne ao seio da família.
Que prece faria ao Divino? A graça da santidade, certamente, é a única coisa que deveria ser pedida. A maior proximidade com o mesmo Divino, no entanto... Acho que seria mais egoísta. Porque a graça da santidade já é algo que, para ser ao menos querida, precisa ser querida por alguém. Um sujeito onde a santidade se manifestaria, que se deixasse moldar por ela. E eu? Bem, eu já não sou tanto assim. Talvez pedisse, se fosse alguém, por uma razão, um motivo que fosse. Algo que fizesse meu coração bater, um rumo. Mas coração eu já não tenho, e a única prece que tenho feito nos últimos tempos, todas as noites, é a de não mais acordar.
Talvez fizesse uma prece como a de Clarice:
"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o. amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar."
Ou talvez eu só fique quieto, em silêncio, como todas as noites antes de adormecer, e faça desse silêncio, a minha prece, como pobre pecador que, olhando a imensidão e a miséria do próprio ser, não se atreve a dizer nada, sendo sua presença uma prece, que a Ele já conhece. E, ainda assim, esperando não mais acordar.
"Os objetos só têm sentido quando têm sentido, fora disso... Eles precisam ser olhados, manuseados. Como nós. Se ninguém me ama, viro uma coisa ainda mais triste do que essas porque ando, falo, indo e vindo como uma sombra, vazio. Vazio. É o peso de papel sem papel, o cinzeiro sem cinza, o anjo sem anjo, fico aquela adaga ali fora do peito. Para que serve uma adaga fora do peito?" (Lygia Fagundes Telles)
sexta-feira, 15 de maio de 2026
Esperando a noite chegar
Vi as mensagens logo cedo. Tinha combinado de sair e caminhar um pouco com minha prima, às 5h da manhã, mas a chuva não parou até agora. As outras foram chegando com o avançar da manhã, em meio a uma onda de barulho e caos: com a chuva ficamos confinados, crianças se irritam, e parecem ocupar cada pequeno canto da casa. Os adultos se irritam, e o resultado é uma célula inconstante prestes a colapsar.
Chegaram mensagens longas, comovente, admito, de um rapaz que pedia ajuda. Irmão de Igreja, entendo, mas não tenho, no momento, nada em dinheiro. As outras, áudios longos, e Deus sabe o quanto odeio ouvir áudios, não sei do que se trata. Talvez escute amanhã, ou depois. Queria mesmo não ouvir nunca.
Alguns amigos também, mas não estou com vontade. Um deles gosta de se gabar para as meninas mas, bem, eu não me beneficio nada com isso. Se vou ouvir que mandou nudes para uma garota, quero pelo menos fazer parte da lista de transmissão. O outro, bem, sinto como se nunca fosse ouvido. Decidiu acompanhar uma nova história, porque viu algo sobre um personagem na internet, não porque falei sobre a série e fiquei um tempão procurando um vídeo interessante sobre o sistema de batalhas e a qualidade da animação aliada à história. Tudo bobagem pra ele. Mas, o que ele diz, nesse momento, é bobagem para mim.
Vou me unir apenas ao som da água descendo pela corrente das calhas, e a playlist indie, violão e voz. Apenas. Como se a casa inteira estivesse molhada por dentro.
Hoje não será um dia que começarei nada, exceto as séries que vou ver à noite.
The Gaze com as disputas e intrigas, homens com dores e dificuldade de amar, assim como em The Gaze, com as disputas e intrigas, homens com dores e dificuldade de amar; Double Helix, com um passado dolorido que marcou cada um deles de um modo diferente: um que nega o amor, que só traz dor, e outro capaz de causar qualquer dor por esse mesmo amor. Em Journey With You a beleza histórica de uma China dividida e em guerra, e dois amantes tentando sobreviver às disputas politicas que sufocam seus sentimentos. A dor da traição pode ser vencida pelo cuidado e pela sinceridade?
Há dias em que viver se resume a esperar a noite chegar.
quinta-feira, 14 de maio de 2026
Refúgio e sombra
Consegui encontrar algum alívio pro grande abismo da solidão, naquela madrugada que foi ficando mais e mais fria, ao passo em que as histórias, os amores, os sorrisos, os beijos, foram me aquecendo. É, foi uma madrugada solitária, mas não foi ruim.
A beleza deles me lembrou o torso arcaico de Apolo, uma beleza que não podia ser descrita, lamento muito se alguém chegar a ler essas palavras um dia, mas não, não posso descrever o quanto são belos. Só pude ficar a contemplar, a pele iluminada pelo sol, perfeita, sorrisos lindos e olhos brilhantes como as estrelas do universo, vestes em simplicidade ideal, nada exagerado.
Assim como naquele dia, buscarei refúgio naqueles ermos tristes, é verdade, mas onde encontro companhia para dividir a solidão. Um homem escolheu seu destino: a dor no lugar da dor do seu amado. Eu não tive escolha, não amado, mas ambos ficamos na solidão daqueles quartos frios.
Por dias. Semanas. Anos.
Sem saber quando acabaria, sem saber se a cabeça um dia vai voltar a ser como era antes.
Nem sempre funciona. Às vezes as sombras tomam conta de mim e eu fico lá, parado no escuro, esperando. Esperando. Não sei o motivo da espera. Não sei se estou esperando, mas fico lá, no escuro, talvez onde eu já seja um só com toda essa sombra.
"(...) A melancolia é um prazer sensual deliberadamente provocado. Quantas pessoas se fecham para ficar mais tristes, ou para chorar à beira de um riacho, ou escolher um livro sentimental! Estamos constantemente construindo e desconstruindo a nós mesmos." (Gustave Flaubert)
quinta-feira, 7 de maio de 2026
Um livro ridiculamente grande
"Move-se a mão que escreve, e tendo escrito, segue adiante; Nem toda a tua Piedade ou o teu Saber a atrairão de volta, para que risque sequer metade de uma linha; Nem todas as tuas Lágrimas lavarão uma só de tuas Palavras." (Omar Khayyam)
Acho que queria contar algo pra alguém. Aconteceram algumas coisas interessantes nos últimos dias, mas não tenho com quem compartilhar.
A DMD Land 3 parece ter sido incrível. Não gosto muito de shows mas nesse eu iria. Apresentações memoráveis, como o dueto TleFirstone, ou o palco das Divas com Genie Ja... Ohm arrasando ao som de Crazy in Love, Nunew, Kong, Namping com visuais impecáveis e os fofos da 5° geração juntos. Também algumas carinhas novas mostradas como já da 6° geração, entre elas o Ton Saran, velho conhecido.
Continuo deslumbrado também com o visual etéreo, idílico, de Flower Boy. As flores silvestres, a forma como o povo se vê como parte do campo, unidos a ele. Também impressionado com o Peak e Pearl no auge da beleza. Poucas vezes combinaram atores tão lindos juntos. Chorei com Love You Teacher, Santa tá tão bem nesse papel que não duvido que receba prêmios por ele. Ele e Perth estão mostrando uma história linda de superação e companheirismo. Enfim...
Mas para ninguém posso contar essas coisas, a ninguém interessa, assim como eu não me interesso pelos outros.
Apenas fico sentado aqui, ou deitado e ignorando toda a existência que há fora do meu quarto. Vejo as pessoas passarem pra lá e pra cá. Correndo, ocupadas. Mas para quê? Para que esse esforço? Nada disso faz sentido pra mim.
Acabei de ler a frase: “Não finja não ter interesse nas coisas românticas dessa vida só porque alguém tem preguiça de te oferecer.” E isso foi um golpe pra mim... Porque eu me tornei alguém descrente no amor, de tal modo que, sempre que me aproximo de alguém, já penso incomodar. Saber que isso é uma característica do Borderline não ajuda. Tento me afastar, ao mesmo tempo que continuo querendo me aproximar, mas com aversão a qualquer um. Isso porque eu sei como termina, e sempre termina igual: comigo escrevendo sozinho, de madrugada. Mesmo jurando que não iria mais fazer isso. Mesmo não tendo mais o que dizer do que aquilo que já disse tantas e tantas vezes. Me sinto de novo como o último capítulo de um livro ridiculamente grande que ninguém se dispõe a ler.
Vejo que se tornou comum na internet o discurso da solitude, de como é importante aproveitar e apreciar a própria companhia, como ir ao cinema ou num café sozinho. Mas vejo também que essas pessoas não parecem ter experimentado o mais baixo da solidão. Aquele ponto em que, olhando a redor, vê-se o homem absolutamente sozinho, sem que ninguém, amigos ou família o entenda. Esse entende a solidão, e pode se acostumar com ela, como quem se acostuma com uma doença sem cura, mas nunca gostar dela, nunca apreciar.
quarta-feira, 6 de maio de 2026
Indo dormir
Preciso traduzir um silêncio que já dura vários e vários dias. A única coisa de que consigo me lembrar é de me afundar na cama, por incontáveis tempos, e de ver os dias passando, pelo vislumbre de uma luz fraca que invade as beiradas das cortinas, e do choro de criança, que vem e vai, como se estivesse preso numa sinfonia infernal entre silêncios e um tutti brutal.
Com muito custo eu levantei e fui ao ensaio, completa e absolutamente desinteressado em cada uma das peças musicais que eu mesmo havia escolhido. É assim ultimamente, tudo tem ficado assim, sem graça, sei lá.
Pensei no que poderia fazer durante a noite, pois parece o único momento com o mínimo de paz que eu tenho, já que durante o dia é inviável ler, escrever ou assistir. Estou revendo Kiseki ~ Dear to Me, mas não tem me prendido, mesmo com a qualidade de uma produção taiwanesa. Pensei em maratonar Be Loved in House: I Do, mas, por alguma razão, nem mesmo a ideia de rever o corpo perfeito do Aaron Lai ou o belíssimo Hank Wang. Mesmo sendo um dos meus BLs favoritos, a ideia não me agradou. Optei por um daqueles filmes de super-heróis. Não foi ruim mas... É assim, ultimamente tudo tem ficado assim, sem graça.
Estou com um pouco de sono, coloquei um concerto para violino para assistir, e isso me faz lembrar que eu deveria tomar meu remédio, e dormir um pouco, já que, há semanas, meu sono está desregulado e isso com certeza vem afetando meu humor, com ciclagens cada vez mais rápidas e mais violentas. Montei uma nova playlist com música japonesas estilo indie, mas não sei quantas faixas ouvi antes de, mais uma vez, me afundar na cama e deixar a mente no vazio.
Quero comer bolo, Bem doce. E por isso sei que não paro de engordar. Estou com quase cem quilos, quarenta à mais do que eu costumava ter. E não tenho força pra sair da cama, quem dirá fazer os exercícios necessários pra mudar isso.
É, acho que vou dormir. Baixei de novo os apps de encontros mas... Bem, o espelho me impede de seguir adiante. Não estou interessado em mais nada. É uma noite fresca, mas sem brisa. Tenho um coração, mas sem teogonia. Não tem nenhum cara atrás de mim me fodendo, então é melhor só ir dormir mesmo.
"Ora, o amor!... Essa história de amor, absoluto e incoerente, é muito difícil de achar... eu, pelo menos, nunca o vi... o que vejo, por aí, é um instinto de aproximação." (Rachel de Queiroz)
quinta-feira, 30 de abril de 2026
Engenharia Religiosa: Manipulação e empobrecimento da Fé na Igreja Católica III
O movimento da New Age só pôde alcançar uma repercussão mundial em prazo tão rápido graças ao emprego maciço da estimulação contraditória que reduz milhões de seus adeptos à credulidade imbecil e a uma subserviência patética. Não há nenhum precedente histórico para este fenômeno. Ele não se assemelha em nada àquilo que nos séculos passados, e em muitas civilizações diversas, se admitia como fé religiosa. A fé pode predispor um homem a acreditar em prodígios e milagres, isto é, em rupturas da ordem natural costumeira; pode também levá-lo a aceitar a autoridade de um guru ou santo cujo saber permaneça fora de toda possibilidade de controle; pode ainda fazê-lo aceitar alegremente sacrifícios sem vantagem aparente imediata. A fé pode exigir de um homem que ele contrarie o bom senso, desobedeça à sua disposição natural ou lute contra seus mais óbvios interesses.
AGOSTINHO, Santo. Confissões. Trad. J. Oliveira Santos; A. Ambrósio de Pina. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2017.
AUGELLI, Marielza. Hipnose é nova arma usada em roubo na Itália. O Estado de São Paulo, São Paulo, 9 dez. 1990.
BANDLER, Richard; GRINDER, John. The structure of magic I: a book about language and therapy. Palo Alto: Science and Behavior Books, 1975.
BENTO XVI. Carta encíclica Deus Caritas Est. São Paulo: Paulinas, 2006.
______. Spe Salvi: sobre a esperança cristã. São Paulo: Paulinas, 2007.
BERNAYS, Edward. Propaganda. Brooklyn: Ig Publishing, 2005.
CARVALHO, Olavo de. O jardim das aflições: de Epicuro à ressurreição de César: ensaio sobre o materialismo e a religião civil. 3. ed. Campinas: Vide Editorial, 2015.
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 11. ed. São Paulo: Loyola, 2000.
CONCÍLIO VATICANO II. Constituição dogmática Lumen Gentium. In: COMPÊNDIO do Concílio Vaticano II. Petrópolis: Vozes, 2000.
CONWAY, Flo; SIEGELMAN, Jim. Snapping: America’s epidemic of sudden personality change. Philadelphia: J. B. Lippincott, 1978.
CONWAY, Flo; SIEGELMAN, Jim. The awesome power of the MindProbers. Science Digest, maio 1983.
DIÓGENES LAÉRCIO. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Livro X, §6.
EPICURO. Carta a Heródoto. In: DIÓGENES LAÉRCIO. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Livro X, 78-80.
FARGES, Albert. Les phénomènes mystiques distingués de leurs contrafaçons humaines et diaboliques. Paris: Maison de la Bonne Presse, 1920.
FRANCISCO. Exortação apostólica Gaudete et Exsultate. São Paulo: Paulus, 2018.
GEISER, Robert L. Modificação do comportamento e sociedade controlada. Trad. Áurea Weissenberg. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.
GURDJIEFF, George Ivanovich. Meetings with remarkable men. New York: Dutton, 1963.
IRINEU DE LIÃO, Santo. Contra as heresias. São Paulo: Paulus, 1995.
JOÃO DA CRUZ, São. Noite escura; Subida do Monte Carmelo; Cântico espiritual. Petrópolis: Vozes, diversas edições.
JOÃO PAULO II. Exortação apostólica Catechesi Tradendae. São Paulo: Paulinas, 1979.
LE BON, Gustave. Psicologia das multidões. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2008.
MANNHEIM, Karl. Estratégia do grupo nazista. In: ______. Diagnóstico do nosso tempo. Trad. Octávio Alves Velho. Rio de Janeiro: Zahar, 1961.
MEERLOO, Joost A. M. Lavagem cerebral: menticídio, o rapto do espírito. Trad. Eugênia Moraes Andrade; Raul de Moraes. São Paulo: Ibrasa, 1980.
REBOUL, Olivier. A doutrinação. Trad. Heitor Ferreira da Costa. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1980.
SARGANT, William. A possessão da mente. s.l.: s.n., s.d.
SARGANT, William. Battle for the mind: a physiology of conversion and brain-washing. London: Heinemann, 1957.
TERESA DE JESUS, Santa. Livro da Vida; Castelo Interior. São Paulo: Paulus, s.d.
Engenharia Religiosa: Manipulação e empobrecimento da Fé na Igreja Católica II
As técnicas modernas de influência psíquica avançaram em precisão, alcance e sofisticação muito além do que o homem comum tende a considerar plausível. Ao mesmo tempo, a capacidade média de defesa crítica parece reduzir-se proporcionalmente, especialmente em contextos marcados por hiperestimulação digital, fragilidade identitária e pobreza formativa. O resultado é um ambiente no qual os instrumentos de mobilização afetiva se tornam cada vez mais eficazes precisamente na medida em que se tornam menos visíveis.








.jpeg)
