segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Criação, contemplação e transfiguração II

Leia a parte I aqui

A segunda parte da obra traz uma complexa montagem da cena final do Fausto de Goethe, que se inicia com um longo, e belíssimo, prelúdio orquestral, que se estende por cento e sessenta e seis compassos e é escrito à maneira de uma abertura operística, antecipa alguns dos temas que se apresentarão mais adiante no movimento. A exposição se inicia quase em silêncio, representando uma montanha rochosa e arborizada, morada de vários anacoretas cujas vozes se ouve num coro destinado a criar uma tênue atmosfera completada com sussurros e ecos. 

Rarefação. 

Cordas em registros altos, 
harmonia suspensa, 
motivos ascendentes interrompidos. 

Nada se afirma plenamente; 
tudo parece emergir de neblina. 

Momento de pura contemplação. 

Essa parte parece diluir a densidade da primeira, abrindo espaço para uma espécie de contemplação metafísica. Desloca o ouvinte para outra dimensão temporal. Não há pulsação heroica. A orquestra constrói a paisagem onde a redenção ocorrerá: um espaço de altura, eco e distância.

Fechando os olhos é possível ver o panorama. Um homem caminha por um caminho de pedras, escavado no meio de uma montanha, e vê, sentados em blocos ou porções da rocha, com rosários em mãos, os corpos magros, mas aparência de profunda sabedoria e contemplação. Se acabamos de ouvir, e ver, o Espírito Criador insuflar ar nos pulmões do mundo, aqui vemos a elevação de um desses homens, caído, mas que pela redenção e intercessão, se eleva. Uma vez mais surpreende aquilo dito à pouco: surpreende que um contingente tão grande produza uma música tão pessoal. A paisagem que se mostra  a nós é pessoal, é o Paraíso, sim, mas visto pelos olhos de um homem. É a visão pessoal de um panorama gigantesco. 

Os personagens começam a surgir, conduzindo Fausto cada vez mais alto. O primeiro a surgir, o Pater Ecstaticus, faz com que a atmosfera de ser paisagem e passa a ser impulso. A voz entra como quem já está em movimento, lançada para cima por linhas vocais que parecem não encontrar repouso. O canto não descreve uma experiência espiritual; ele a encena em tempo real. A orquestra se mantém leve, móvel, quase suspensa, para que essa verticalidade não encontre resistência. Há algo de impaciente nesse êxtase: a música sobe antes mesmo de saber para onde, como se a própria ascensão fosse a forma de conhecimento. Ele sabe das incertezas de Fausto. Já experimentando a redenção, ele não a descreve para o pecador, mas o introduz no primeiro modo da relação com o divino, aquela que ouvimos na primeira parte: o êxtase imediate diante da grandeza:

"Eterno deleite ardente,
amor que arde eternamente!"

Logo em seguida, a entrada do Pater Profundus altera completamente a gravidade do espaço. Se antes tudo se elevava, agora a música se ancora. O timbre grave e a escrita mais densa criam a sensação de peso, de interioridade, de profundidade terrestre. Não se trata de oposição dramática, mas de complemento estrutural: Mahler estabelece um eixo completo entre altura e abismo. A redenção que se desenha nessa parte não é puramente celeste; ela exige espessura, matéria, uma descida real. A montanha espiritual onde a cena se passa não é apenas um lugar de elevação, mas de enraizamento. O Pater olha com a firmeza de um São Jerônimo, mesmo a suplicar a redenção do homem:

"Ó amor todo-poderoso,
que tudo sustentas,
faz com que este coração pesado
também se eleve à luz."

Mahler, embora judeu, trabalha muito bem com temas cristãos, e discussões acontecem em torno da sua conversão, o que considero desnecessário. Convertido ou não, sua obra está profundamente imbuída de sentido cristão. O paralelo entre esses dois primeiros personagens traçam como uma cruz, vertical e horizontal, ligando céu e terra: a redenção passa pela cruz. Mesmo não declarada literalmente, é desenhada na forma da peça.

A partir desse equilíbrio entre impulso e gravidade, os coros angélicos começam a surgir como luz difusa. As vozes femininas e infantis não entram como personagens com psicologia definida, mas como campo de ressonância. A textura clareia, os intervalos se abrem, e a música começa a sugerir um espaço de graça. O material da primeira parte da sinfonia reaparece de forma distante, como memória que retorna sem se impor. O que antes era afirmação criadora agora se torna promessa de transfiguração. Não há pressa; a música aprende a sustentar o tempo. Talvez por isso seja um a obra de difícil digestão, por assim dizer, pois se apresenta longa e repleta de detalhes, e apesar de seu tamanho monumental, também contém grandes momentos contemplativos.

"Restos mortais
trazemos conosco;
elevamos a essência
para regiões puras.

Quem foi tocado
pelo amor divino
eleva-se
para além de si."

Quando surgem as penitentes, a cena ganha proximidade cada vez mais humana. A escrita vocal torna-se mais íntima, mais delicada, quase camerística. Não há grandiosidade orquestral aqui; há insistência suave. Essas vozes não proclamam, intercedem. O movimento da música deixa de ser puramente vertical e passa a ser relacional. A redenção deixa de ser ideia abstrata e começa a se configurar como gesto, como cuidado, como aproximação.

"Nós que nos purificamos
no arrependimento,
trazemos este espírito
para a luz.

Ele errou,
mas buscou o bem;
por isso é conduzido
à graça."

A entrada de Margarida marca o verdadeiro centro afetivo da segunda parte. A música se humaniza. A linha vocal é longa, sustentada, e a orquestra abre espaço ao redor dela, como se a própria textura sonora se tornasse respirável. 

"Inclina-te,
ó Virgem pura,
para este espírito
que outrora amei.

Ele se elevou
na busca constante;
agora aproxima-se
da luz eterna.

Permite que eu o guie,
que eu o conduza
para a visão divina."

Margarida não aparece como figura dramática de ópera; ela é presença de intercessão, de memória transformada. O timbre lírico traz calor ao que antes era apenas luminosidade distante. Nesse momento, a sinfonia encontra um ponto de convergência: tudo o que foi vertical, profundo ou etéreo passa a girar em torno dessa voz que liga o humano ao transcendente. A tonalidade começa a se estabilizar, e com ela a sensação de direção.

O Doutor Marianus retoma a energia expansiva. Sua entrada não rompe o clima contemplativo, mas o projeta para fora. A escrita se torna mais afirmativa, o gesto vocal mais declamatório, e a orquestra começa a recuperar a amplitude da primeira parte da sinfonia. O que até então era interiorização passa a ser exaltação. A música prepara uma epifania, mas não a antecipa de forma abrupta; ela constrói um caminho de elevação progressiva. Marianus nomeia o que se aproxima, mas não o encerra. Ele aponta:

"Ó Rainha do céu,
Soberana do mundo,
deixa-me contemplar
teu mistério.

Permite que eu me eleve
ao teu esplendor,
pois o espírito humano
anseia pela graça."

A Mater Gloriosa surge quase fora do tempo. Sua presença é breve e leve, situada em registro agudo, com acompanhamento rarefeito. Não há desenvolvimento temático elaborado, nem grande clímax associado diretamente a ela. A função é outra: ela legitima o processo que já está em curso. A música não precisa descrevê-la; basta que ela apareça como horizonte. É menos uma personagem do que um ponto de orientação para o que virá. A solista canta suas duas únicas linhas, de límpida beleza, sem dúvida uma das mais belas de toda a obra, em atmosfera de reverência, geralmente de fora ou acima do palco, sempre em destaque. Ela autoriza a entrada de Fausto no céu:

"Vem! Eleva-te às esferas superiores.
Se ele pressentir tua presença, seguirá sem desviar."

A partir daí, Mahler começa a reunir todos os planos sonoros que vinham se formando separadamente. Coros retornam, temas reaparecem, e a textura orquestral se expande. O material da primeira parte ressurge, mas não como repetição literal. Ele retorna transformado pela travessia da segunda parte. A monumentalidade inicial volta impregnada de interioridade. O que antes era criação agora é redenção em processo. A música cresce não por ruptura, mas por acumulação.

No Chorus Mysticus, essa acumulação se converte em síntese. O início é contido, quase contemplativo. As vozes entram sem urgência, e a harmonia se estabelece com clareza serena. Aos poucos, camadas se somam, e a música começa a expandir-se de dentro para fora. Não há uma divisão brusca entre seções; há um crescimento orgânico, contínuo. O motivo do Veni Creator reaparece integrado ao novo contexto, unindo criação e redenção numa mesma estrutura tonal e simbólica. O clímax não se impõe como explosão dramática, mas como expansão luminosa sustentada. Quando a massa sonora atinge plenitude, coros, orquestra, órgão, o efeito não é de vitória externa, mas de elevação compartilhada.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Criação, contemplação e transfiguração I

Sinfonia n.º 8 em Eb de Gustav Mahler, "Sinfonia dos Mil"

Existem algumas obras que se tornam verdadeiras lendas, colossos que transcendem o tempo e ainda despertam maravilhamento de quem tem contato com elas. Isso porque não são apenas peças musicais, ou livros, ou esculturas, são uma parte profunda do espírito humano que foi ali conservada e passada a posteridade. Essa estupefação que sentimos não é mais do que o reconhecimento do que há de nós ali, isto é, daquelas experiências comuns a todo homem, e que por isso parecem passar despercebidas. Mas elas estão lá, transcendendo o tempo, pois pertencem ao homem desde seu primeiro pensamento.

Por essa razão algumas obras parecem ser tão grandiosas que dispensam qualquer palavra ou explicação. Mesmo o idioma não é empecilho para a apreciação: como dizia Platão, a música é ensinada diretamente ao coração. Por muito tempo eu me vi diante da Sinfonia n.° 8 de Mahler dessa forma, como quem fica diante de uma gigantesca catedral, maravilhado por passar pela porta e então olhar para cima e ficar sem palavras. E, de fato, elas não são necessárias, mas um escritor como eu pode se aproveitar dessas mesmas palavras para me aprofundar de algum modo no que vem sido transmitido pelas gerações por meio da obra. 

Em linhas gerais, a Sinfonia n.º 8 em Eb de Gustav Mahler é uma das obras corais de maior escala do repertório orquestral clássico. Como exige uma enorme quantidade de instrumentistas e membros do coro, é frequentemente chamada "Sinfonia dos Mil", embora a obra se interprete muitas vezes com menos de mil intérpretes e o próprio Mahler não tenha aprovado esse apelido. Eu, por outro lado, gosto muito, aliás, nomes como "Trágica" e "Patética" dão um certo charme.

A estrutura da obra não é convencional; em vez de seguir a estrutura normal em vários movimentos, a obra está dividida em duas partes. Como disse, a semelhança é como uma catedral, ela nos eleva, abarcando completamente quem somos e voltando nosso olhar para o alto. A primeira parte é baseada no texto latino de um hino cristão escrito no século IX por Rabano Mauro para as festividades do Pentecostes, Veni Creator Spiritus e a segunda parte é um arranjo das palavras da cena final do Fausto de Goethe. As duas partes estão unidas por uma ideia comum, a da redenção através do poder do amor, unidade transmitida mediante temas musicais comuns. A obra é vocal de uma ponta à outra, sendo a introdução do segundo andamento a única passagem puramente instrumental. Não é uma sinfonia com solistas e coros, mas sim uma sinfonia para solistas, coros e orquestra.

Se compararmos com as sinfonias anteriores, vemos que Mahler buscou oferecer uma grande abertura à luz, depois do pessimismo que pairou as sinfonias 5, 6 e 7. 

Sem mais delongas, a obra abre com uma força impressionante. Até o mais desatento ouvinte percebe que algo diferente aconteceu.Tanto coro quanto orquestra entram de modo a transformar todo o ambiente. O silêncio e o brilho no olhar é a única reação possível. Muitos críticos consideram a peça, embora grande em número, musicalmente menos complexa que outras, como a 5° Sinfonia, que demanda grande estudo das orquestras, mas e o otimismo pouco convincente. Mas acredito que eu tenha compreendido Mahler. Um número tão grande de músicos exigira um esforço grandioso demais para conectar cada parte, e isso talvez não fosse necessário: a unidade de elementos dispares, como o hino cristão e a cena do Fausto, já são suficientes.

A combinação dos efetivos dessa primeira parte é, como disse, arrebatadora. A entrada dos solistas acrescenta cores enquanto os dois coros começam como um diálogo entre si, e os metais apresentam o tema que, com algumas variações, se tornará um elemento de união em toda a obra. Uma série de combinações se segue, solistas, coros, trechos instrumentais. Numa fragmentação temática, característica do compositor que, normalmente, apresenta um tema marcante para retomá-lo quase uma hora depois ou, até mesmo, em outra peça. Todas essas explorações demonstram a energia criadora, aquele impulso criativo. Aqui me recordo do famoso poema de William Blake, não pelo tom pessimista, mas pela estupefação diante da variedade da criação:

"Quando os astros lançaram os seus dardos,
E regaram de lágrimas os céus,
Sorriu Ele ao ver sua criação?
Quem deu vida ao cordeiro também te criou?"

Uma delicada transição liga o início grandioso, até que todos, instrumentos e vozes se combinam numa recapitulação do primeiro tema, ao clímax, que conta com instrumentos posicionados fora do palco, finalizando de forma transcendente. Essa transição interioriza o impulso criador, antes demonstrado na força do conjunto. Há uma nítida redução do corpo sonoro, o que pode causar estranhamento ao público geral: com um contingente tão numeroso, não seria de se estranhar que a obra fosse repleta de grandes explosões a todo momento, quase ao modo do Réquiem de Verdi, que repete o Dies Irae diversas vezes e em outras insere o coro para fortalecer ainda mais o impacto do juízo final.

Aqui encontramos, passagens de delicada orquestração, diálogos entre os solistas adquirindo uma característica quase camerística. Ao mesmo tempo em que apresenta uma complexa gama de contrapontos na superposição do tema principal e suas variações, ele também apresenta esse lado de textura leve, como o louvor simples de uma flor que desabrocha ao amanhecer e o do sol que brilha intensamente a pino. É impressionante como Mahler consegue trabalhar tão bem uma obra desse porte, dando-a uma personalidade tão pessoal. Quando o tema principal retoma, num crescendo, mais uma vez, a estupefação é inevitável. 

O texto do Veni Creator combina com a musicalização a medida que explora essa força do Espírito Criador. Essa energia converge, como que costurando cada ala da orquestra e do coro. O Espírito vai formando, soprando vida: após a explosão da criação, ele pessoalmente vai delineando a beleza de cada uma das partes. Conclui-se a invocação, ou o louvor, ao Espírito Criador, com seu despertar numa retomada brilhante daquele início magistral. É belo notar que, assim como vai acontecer no fim da obra, não se trata apenas da finalização do texto, mas de uma transmissão complexa do seu sentido mais profundo. 

O Espírito Santo, terceira pessoa da Santíssima Trindade, tem papel central na teologia católica, por isso creio que vale a pena aprofundar um pouco mais nesse tema aqui explorado de forma tão magistral pela música.

Santo Ambrósio é uma das grandes fontes patrísticas sobre o tema. Ele insiste na consubstancialidade do Espírito com o Pai e o Filho, que viria mais tarde ser parte da disputa e cisma entre o cristianismo do oriente e do ocidente. Ele descreve o Espírito como aquele que vivifica, santifica e torna possível o conhecimento de Deus. Sua reflexão estabelece a base para entender o Espírito não apenas como força, mas como pessoa divina que atua na Igreja e na alma. No contexto do Veni Creator, Ambrósio ajuda a ler a invocação não como metáfora poética, mas como súplica real à presença que transforma e ilumina o intelecto humano. Musicalmente falando, a complexidade da combinação dos diversos elementos, como dito, solistas, coro, instrumentos, mostram essa iluminação, no sentido da participação humana na criação das coisas belas que apontam para Deus.

Essa concepção vai bem de encontro com Santo Agostinho, que aponta que em uma leitura estética e existencial, o Espírito é o que move o interior da alma em direção ao bem e ao belo. A invocação do hino torna-se então um pedido por esse amor que ilumina e ordena o desejo. A partir daí, São Basílio afirma o papel do Espírito Santo na divinização do ser humano. O Espírito não apenas cria, mas eleva e conforma à vida divina. Ele é apresentado como luz que permite ver a Luz.

Mais recentemente, o Papa Leão XIII, na Encíclica Divinum Illud Munus (1897), primeira grande encíclica dedicada inteiramente ao Espírito Santo, o descreve o como princípio de vida e santificação da Igreja, aquele que distribui dons e carismas e sustenta a unidade. O documento insiste na necessidade de invocar o Espírito constantemente, tanto na vida pessoal quanto eclesial. Essa perspectiva ilumina o Veni Creator como oração comunitária que pede renovação e fecundidade. Essa prece por renovação também pode ser lida como redenção, perdão, ponto central da segunda parte, que veremos mais a frente, traçando assim a união entre os polos vocais da obra, unidos pela ação do Espírito, apresentado como alma da Igreja, o que dialoga com a ideia de impulso vital, sublime, presente na música de Mahler.

Essa mesma leitura se encontra na Constituição Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, onde o Paráclito é aquele que distribui os dons, dentre eles o Temor de Deus, que resulta no pedido de constante renovação e fidelidade. O Espírito é princípio de comunhão e também de missão. Na segunda parte, as penitentes rogam pela participação de Fausto na unidade do Paraíso, e têm como missão a redenção do mesmo. A criação aqui não é apenas cósmica, mas eclesial e histórica.

Do mesmo modo, São João Paulo II, na Encíclica Dominum et Vivificantem (1986) apresenta o Espírito como aquele que convence o mundo do pecado e o conduz à verdade plena, mas também como fonte de vida e de renovação interior, em consonância com afirmação do Vaticano II. Ele enfatiza a ação do Espírito na história e na consciência humana. A encíclica dialoga com a ideia de que o Espírito atua como sopro criador contínuo. O Veni Creator torna-se, nesse contexto, um pedido de recriação do coração humano e de abertura ao sentido último da existência. 

Hans Urs von Balthasar, em sua Teodramática,  vê o Espírito como aquele que introduz o ser humano no drama divino. O Espírito é a liberdade de Deus que se comunica e faz participar da vida trinitária. Ele também relaciona o Espírito à beleza e à forma, como aquele que permite perceber a glória. Essa relação fica mais do que clara quando levamos em consideração a beleza transcendente da Sinfonia.

Essas referências formam um campo sólido para sustentar uma leitura densa do Veni Creator como invocação ao princípio criador, iluminador e elevador que atravessa a teologia, a liturgia e a experiência estética. A composição de Mahler aponta para a atração do alto. Esse olhar atento me faz ter ainda maior admiração, mas não o temor de antes. Me lembro bem de considerar a peça difícil demais, complexa demais, quase uma massa disforme de sons que não me soavam claros. Isso porque a leitura técnica não é capaz de substituir a audição atenta que, por sua vez, pode ser enriquecida pela parte técnica. 

Com a finalização do hino, sem intervalo, passa-se a segunda parte da peça. Ela não funciona como movimento sinfônico tradicional. Ela é uma paisagem sonora contínua, organizada por entradas sucessivas de planos espirituais.

Continua

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Ternura em câmera lenta

A cena dura um pouco mais de dez minutos, após uma conversa desagradável o Chef pensa em usar a cozinha do restaurante, já vazio, para preparar algo, mas logo perde a paciência. Os cortes se tornam mais e mais violentos até que ele começa a lançar tudo ao chão, não só os ingredientes como os pratos e tudo mais que há por perto. Por fim, se senta, completamente exausto, completamente frustrado, com a cabeça entre as mãos trêmulas. 

Surge então aquela jovem figura que o encantara nos últimos dias. O jovem de paladar único e refinado, uma diamante que ele encontrara, estava ali de pé, diante dele. O Chef se levantou, rapidamente, com os olhos marejados, e o outro pareceu não se importar. Com o olhar terno e em silêncio ele se abaixa e começar a recolher os cacos dos pratos que foram quebrados. Não há nele sinal de condenação, pelo contrário, há uma ternura acolhedora que faz o outro se sentir abraçado. 

É só depois disso, que há um diálogo. O jovem diz que parece haver ratos por ali, e o Chef concorda, tornando o ambiente mais calmo. E então, o resto do episódio segue.

Essa cena do terceiro episódio de Bite Me, um BL de 2021 que passou bem despercebido pelo público justamente por conta da presença de cenas como a que descrevi. Já naquela época as pessoas não conseguiam conseguir um ritmo diferente do frenético. Em séries americanas a coisa é quase imperceptível, os personagens se conhecem num instante e, noutro, já estão transando. Todo e qualquer rastro de conexão foi perdido. Isso se contrasta muito quando vemos a literatura no geral e acompanhamos histórias em que as pessoas levam meses, até anos, para se aproximarem. 

Do mesmo modo, uma séria ambientada num restaurante em que a conexão humana se dá na velocidade do preparo de um prato, se tornou entediante ao grande público. 

As músicas têm menos de três minutos, as séries agora são divididas em mil partes para caberem em vídeos de dois minutos. Ouvir algo como uma Paixão segundo S. Mateus do Bach ou uma ópera de Wagner com mais de três horas? Isso nunca existiu, é lenda!

As pessoas não têm mais tempo, embora vendam seu tempo o tempo todo. O trabalho precisa ser em um prazo mínimo. A rotina precisa ser milimetricamente cronometrada, ou então falta tempo. Falta tempo para sentar e, em silêncio, observar o belo Mark Siwat se abaixar e catar os pedaços de louça quebrada no chão, enquanto o Chef o observa com os olhos marejados e, naquele momento, eles se conectem pouco e pouco, sem nem mesmo entender o motivo. Mas estão ali, o jovem está ali. E poderia estar em outro lugar. 

Mas está ali. 

Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

(Mário Quintana)

A inesperada aura sombria de Mozart II

Parte I aqui

Talvez uma boa forma de entender esse concerto seja ouvir como quem assiste a um teatro, o teatro interior de Mozart interpretado por Uchida. Não vamos ouvir necessariamente uma tempestade, de novo, no sentido romântico do termo. O piano soa mais como a consciência do herói que desperta na tempestade. E é esse despertar que assistimos.

É o momento que os místicos chamariam de vigília: quando a alma percebe que não está sozinha dentro de si. A tempestade não é exterior; é o mundo interior que começa a falar em voz própria.

Como era prática comum na época de Mozart, o primeiro movimento começa com uma introdução orquestral. Sombria, inquietante, evocando um confronto. Mas logo ganham mais força à medida que a música inicia uma passagem de transição. A orquestra faz uma pausa como se estivesse respirando, e os instrumentos de sopro tentam introduzir uma ideia contrastante; a música tempestuosa, no entanto, recomeça antes que possa se desenvolver completamente.

Como em certas tragédias gregas, o coro anuncia um destino antes que o protagonista possa compreendê-lo. A profecia de um oráculo. A consciência tenta falar, os sopros insinuam outro caminho, mas a necessidade retorna, insistente, como uma lei antiga.

O piano entra com um novo tema próprio, uma melodia calma e patética. Quando a orquestra retorna ao tema sombrio de rufar de tambores que abriu o movimento, o solista junta-se a ela com passagens rápidas e agitadas. Após uma passagem orquestral, o solista retorna com uma versão mais brilhante da música que tocou inicialmente. Esse tema solo alterna com o rufar de tambores ameaçadores da orquestra, como se o piano estivesse em diálogo com algum antagonista. Ambos soam como confronto e às vezes, como integração. Por fim, o piano não soa sentimentalista, mas cristalino, mesmo nas passagens de difícil execução.

É a velha dialética entre a alma e o mundo: em Santo Agostinho, a inquietação que só encontra repouso ao reconhecer sua origem; em Goethe, a consciência que aprende a caminhar entre forças opostas, mas sem aquela brutalidade do autor, como no Fausto ou no Jovem Werther. O piano aqui não vence a sombra, aprende a falar com ela.

A regência de Uchida é vivaz, poucas vezes vi maestros demonstrarem tamanho envolvimento e movimentos tão rápidos e precisos quanto ela. Não há “solista contra orquestra”, e sim um organismo que respira junto. Ela usa o corpo para “respirar” antes das entradas: isso molda o tempo de todo o conjunto. Cada um de seus gestos é como o proferir de uma frase, não é como uma dramatização, mas uma transpiração daquilo que ela canta.

Como se o tempo musical fosse também tempo respirado. A sombra, então, não é inimiga: é o intervalo necessário entre duas respirações. Sem ela, não haveria frase, nem forma, nem consciência.

Mozart intitula o lento segundo movimento de "Romance", um termo que geralmente indica uma peça em estilo vocal simples, com um tema principal e uma ou duas seções centrais contrastantes. Este Romance não é exceção; ele começa com uma bela melodia que proporciona um respiro após a tempestade e o estresse do primeiro movimento. Após uma primorosa seção que mantém o clima tranquilo, as sombras retornam na agitada seção final do movimento. Esses momentos de respiro aparecem em toda a peça. São pequenas suspensões antes de entradas, de respostas, como quem toma fôlego. É nessas pausas em que a orquestra aparece mais que Uchida usa para se comunicar, não apenas com olhares, mas com aqueles movimentos, como quem comunica diretamente aos instrumentos.

Esse movimento é como aquelas tardes em que a vida parece reconciliada consigo mesma — mas apenas por instantes. A sombra retorna não como catástrofe, mas como lembrança de que toda paz, neste mundo, é provisória. Ainda assim, a melodia insiste: como se cantar fosse a única forma de atravessar a noite afastando o medo. Como a Alice de Lewis Carrol numa floresta repleta de criaturas estranhas que nunca se revelam totalmente.

O solista inicia o final com um tema pontuado por acordes dissonantes e arrepiantes: fogo! Esse tema alterna com ideias contrastantes, incluindo uma melodia alegre em tom maior para os instrumentos de sopro. Após vários desenvolvimentos, a orquestra para e o solista executa uma cadência final. A coda subsequente retorna ao tom brilhante de Ré maior. No teatro, o público do século XVIII geralmente exigia finais felizes, mesmo em tragédias, na ópera de Mozart, por exemplo, depois que Dom Giovanni desce ao inferno, os outros personagens retornam para nos assegurar que “Este é o destino de todos os malfeitores”.

Mas todo final luminoso carrega a memória do abismo que o precedeu. Como nas comédias de Shakespeare, a ordem é restaurada, e, no entanto, algo foi visto, algo foi sabido, e não pode ser esquecido. As cicatrizes sempre permanecem.

O tema alegre dos instrumentos de sopro que retorna para encerrar o concerto parece oferecer aos ouvintes uma resolução otimista semelhante. Ele chega não como explosão triunfal, mas como claridade súbita. Em Uchida, muitas vezes soa quase irônico, ou pelo menos ambivalente. O sorriso dela é, com o perdão da palavra, quase diabólico, como se fosse Mozart sorrindo com a desgraça do próprio destino

É a luz do amanhecer depois de uma noite de vigília: não apaga a escuridão que houve, mas a torna suportável. A claridade não nega a sombra; apenas a reposiciona dentro da memória. Talvez porque toda verdadeira forma clássica saiba disso: a luz que dura é aquela que aprendeu a conviver com a noite. E a música, ao terminar, não dissipa a sombra, apenas nos ensina a escutá-la.

No entanto, a aura sombria permanece,
como uma sombra.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A inesperada aura sombria de Mozart I

Interpretação de referência:
Mitsuko Uchida, piano e regência
Camerata Salzburg

Concerto para Piano N° 20, K.466 em Dm de Wolfgang Amadeus Mozart

Algumas obras, e alguns músicos, se tornam lendários, incorporados a uma história profundamente enraizada não apenas naqueles frequentadores assíduos das salas de concerto mas também naqueles que nem imaginam a origem daquilo que ouvem na espera de um atendimento eletrônico ou, simplesmente, num elevador, e que logo saem assobiando, não uma música qualquer, mas algo que transcende gerações.

Há melodias que vivem como antigas divindades domésticas: não sabemos seus nomes, mas habitam a casa. Elas atravessam paredes, corredores, elevadores, e nos seguem como uma memória anterior à própria biografia.

Não só compositores fazem parte desse número. Certa vez ouvi que todos sempre lembrariam de Beethoven, mas não de quem tocou Beethoven. É uma meia verdade. Claro que o nome do grande compositor da incomparável Sinfonia "Coral" é um colosso indestrutível. Mas, às vezes, alguns grandes intérpretes também se tornam grandes.

Talvez porque a música, como queria Platão, seja uma recordação de algo que a alma já soube. O intérprete não apenas executa: ele reabre a passagem para esse lugar esquecido. Alguns tornam-se, assim, barqueiros de um rio invisível.

Enquanto buscava uma execução de referência, de preferência com algum dos pianistas que já conhecia, acabei me deparando com duas grandes pianistas: a portuguesa Maria João Pires e a japonesa (naturalizada britânica) Mitsuko Uchida, uma lenda do piano. Mas, claro, não é dela necessariamente que quero falar, mas interpretação que ela faz da peça escolhida: o Concerto para Piano N° 20, K.466 em Dm de Mozart. Há intérpretes que iluminam a partitura; outros que a atravessam como quem atravessa uma noite. Uchida pertence a essa segunda classe: não clareia a sombra, mas a torna habitável. Muito provavelmente porque também nela habita seu coração.

Pronto, o nome Mozart já diz tudo! Me lembro que, ao dar aulas numa escola de uma realidade vulnerável, alguns alunos reconheciam o nome, muito embora não soubessem do que se trata. De fato, Mozart merece a fama de seu nome preceder qualquer coisa, sua obra magnífica tornou seu nome maior que o próprio homem, numa extrapolação poética, claro.

Como certos astros, seu nome chega antes da luz. E, no entanto, por trás da claridade cristalina que associamos a Mozart, existe sempre uma noite delicada, quase educada, que nunca se impõe, apenas permanece. 

Guardadas as devidas proporções, o nome de Mitsuko Uchida também ecoa, embora mais limitado às salas de concerto. Não vou enumerar os prêmios e os feitos acadêmicos dessa grande pianista, mas exaltar sua interpretação por aquilo que mais me chamou atenção: Mitsuko brilha no palco, não por sua figura, mas por incorporar a peça de tal que modo que cada apresentação se torna um evento. O motivo para ter escolhido sua apresentação como referência para essa reflexão foram as marcas de sua personalidade: a entrada com sorriso largo, não sério e nem tenso como tantos outros, ela está absolutamente confortável com o que vai interpretar, e isso não vem apenas dos anos de prática, mas de da incorporação de que falei. Ao se colocar diante do piano ela não se põe frente a um instrumento e aos músicos da orquestra, é mais do que isso. O piano é apenas extensão de si, ou ela é extensão do piano, não há como saber.

Há artistas que dominam a obra; outros que a escutam. E há aqueles raros que parecem já ter vivido dentro dela, como se retornassem a um lugar conhecido. O sorriso de Uchida não é leveza superficial: é o de quem entra numa região onde luz e sombra já foram reconciliadas. Fiquei hipnotizado quando a vi pela primeira vez.

E, ao se posicionar ao piano, como de costume, um gesto (para mim) inesperado: ela se levanta. Não vai apenas tocar, mas também reger, como maestrina desse grande acontecimento. Não é ato de arrogância, mas apenas de tal intimidade com a obra e os músicos que o dueto entre piano e orquestra pode tornar-se ainda mais próximo.

Nesse gesto há algo de antigo: como se o músico fosse também sacerdote de um rito. O concerto deixa de ser exibição e se torna cerimônia, não para afastar a sombra, mas para lhe dar forma audível.

Com exceção do seu Réquiem e da ópera Don Giovanni, não me lembro de outra peça do compositor que tenha sido descrita assim: o lado sombrio de Mozart. Com efeito, me lembro de uma expressão de Nodame Cantabile que deixa claro que esse gigante possui um panorama visual cor de rosa. Outra extrapolação poética, dessa vez da excêntrica protagonista. Mitsuko segue a prática que era usual para Mozart, ele também, na estreia do concerto, executou o solo enquanto regia a orquestra.

Mas toda paisagem cor-de-rosa tem sua hora crepuscular. Em Mozart, a sombra não rasga o tecido da forma: ela o atravessa como a tarde atravessa um jardim clássico. Nada se rompe, e ainda assim tudo se obscurece levemente.

O que significa dizer que se trata de um lado sombrio? A primeira vista, até para mim que tenho alguma prática, o piano ainda soa brilhante, as passagens rápidas de um virtuosismo elegante, mas sombrio não seria a primeira palavra que me surgiu a mente. Essa peça é um dos poucos concertos de Mozart em modo menor (e o único em ré menor). Esse tom, em Mozart, costuma marcar momentos de conflito moral e metafísico. Mozart é um compositor clássico, no sentido histórico do termo, e não romântico como Beethoven ou barroco como Bach, portanto, podemos entender sombrio aqui como um drama iluminado por dentro, uma dicotomia entre luz e escuridão, mas não ao modo grandioso como vemos no período romântico, com passagens de catarse em rompantes de alegria ou fúria...

Talvez a sombra aqui seja mais próxima da que aparece em Plotino: não o mal absoluto, mas o afastamento da fonte. Uma penumbra ontológica. A música não é um grito ou um golpe, como o martelho de Mahler, ela reflete, mais como as paisagens de Sibelius. Não despenca lentamente no abismo como Tchaikovsky, mas contorna-o com elegância, como quem reconhece sua existência sem se entregar a ele.

Continua

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Anulação sem drama

“Perguntado a um grande filósofo, qual era a melhor terra do mundo, respondeu: a mais deserta, porque tinha os homens mais longe.” (Pe. Antônio Vieira)

hoje eu só quero desaparecer direito,
sem drama, sem bilhete, sem ninguém batendo à porta.
não é que algo tenha explodido,
é esse cansaço idiota de existir sem ter feito nada.
dias que te esmagam mesmo quando você fica parado.
dormir seria bom.
acordar quando o mundo já desistiu de mim,
ligar a TV, ver alguma série ruim,
esperar a noite porque a noite não pergunta nada.

Desejo a anulação do gesto e do nome,
o exílio da consciência em trevas brandas;
sou matéria exausta em rotação sem fome,
um nervo que apodrece enquanto anda.
O tempo me corrói sem violência,
e o nada, com paciência, me governa:
sou célula cansada da existência,
buscando no sono a trégua eterna.

não quero que você acabe assim.
esfarelado.
vivendo de migalhas de dia em dia,
sem livro, sem propósito, sem coragem pra se olhar no espelho.
não é vida, é um ensaio mal feito de sobrevivência.
um sujeito que respira por hábito,
que se arrasta como um cão cheio de feridas
farejando lixo só pra continuar.
não desejo isso nem pro pior inimigo.

Não quero legar-te o espólio da ruína,
meu espírito em frangalhos e ferrugem,
essa alma e uma carcaça clandestina
que vive menos que uma sombra 
ou uma fuligem.
Ser homem é mais que persistir no chão;
é não reduzir-se a um resto orgânico.
Que o teu destino escape à podridão
do existir apenas, trágico e mecânico.

no fim, é só isso:
um corpo insistindo em continuar
enquanto a alma calcula o prejuízo.
a vida não explode, ela se desfaz devagar,
célula por célula, gole por gole, noite após noite.
mas ainda assim seguimos,
não por esperança, nem por fé,
mas por essa teimosia estranha da matéria
que, mesmo sabendo do fim,
respira.

e queria parar de respirar

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

desejo num bar qualquer


Sinto que me apaixonei,
droga!
De todas as coisas ruins que poderiam acontecer,
a autossabotagem que chamamos de paixão 
é a pior.
Porque é uma desgraça que provocamos em nós mesmos,
e eu tenho agravantes.

Me apaixonei pelas costas largas,
depois que ele tirou a camiseta
que já era transparente,
sem necessidade,
e olhou com aquela expressão sacana
de quem sabe que todo mundo ali
até os caras que fingem não gostar,
matariam pra foder com ele.

Deve ser sensacional!

Me apaixonei por esse sorriso idiota,
pelo rebolado.
Anos atrás ele seria chamado de bichinha.
Hoje é só mais um gostoso dançando,
e cantando palavras provocadoras
de um jeito aleatório.

Droga, droga!

Como eu fui deixar isso acontecer? 
Só devia me sentar aqui e aproveitar pra fumar um
enquanto tomo cerveja nesse calor dos infernos.
Tinha que prestar atenção nele?

Tomo mais um gole grande e peço outra, 
mas sei que não vai dar pra afogar isso.

Mas afinal o que é isso?

Talvez só um tesão romantizado.

É, é isso. 

Porque não existe essa palhaçada de amor.

Talvez seja também um pouco de inveja
pelo corpo perfeito e o sorriso e toda essa coisa da atração
que faz estranhos sonhares estar no meio dos seus braços

Mas pra um homem como eu
em que essa realidade é impossível
só posso pedir mais uma cerveja
tomar com alguns comprimidos pra dormir

e esperar que o sono supere o desejo. 

coração e mente

coração e mente

inexplicavelmente estamos sós
sós para sempre
e era pra ser
desse jeito,
não era pra ser
jamais de outro jeito -
e quando a luta com a morte
começar
a última coisa que quero ver
são
rostos de pessoas rodeando
sobre mim -
melhor apenas meus velho amigos,
as minhas próprias muralhas,
que apenas eles estejam lá.

eu fui só mas raramente
solitário.
saciei minha sede
na fonte
que há em mim mesmo
e este foi um bom vinho,
o melhor que já provei,
e essa noite
sentado
olhando pra escuridão
agora finalmente compreendo
a escuridão e a
luz e tudo que há
entre elas.

chega uma paz no coração
e na mente
quando aceitamos o que
há:
ao nascer
nessa
vida estranha
nós temos que aceitar
o desperdício de aposta que são nossos
dias
e obter alguma satisfação no
prazer de 
deixar isso tudo
para trás.

não chore por mim.

não sofra por mim.

leia
o que escrevi
depois
esqueça
tudo.

beba da fonte
que há em você
e comece
de novo.

(Charles Bukowski) 

"As relações humanas nunca funcionavam mesmo. Só as primeiras duas semanas tinham alguns tchans; a partir daí, os parceiros perdiam o interesse. Caíam as máscaras e as verdadeiras pessoas começavam a aflorar: maníacas, imbecis, dementes, vingativas, sádicas, assassinas. A sociedade moderna tinha criado seres à sua imagem e semelhança e eles se festejavam mutuamente num duelo com a morte, dentro de uma cloaca. Eu já tinha notado que a duração máxima de uma história entre duas pessoas era de dois anos e meio. O rei Mongut do Sião tinha nove mil esposas e concubinas; o rei Salomão, do Velho Testamento, tinha 700 esposas; Augusto, o Forte, da Saxônia, tinha 365 mulheres, uma pra cada dia do ano. Segurança em números."

(Charles Bukowski)

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A jornada do herói e a memória do sagrado II

Parte I aqui

Na tradição filosófica clássica, a jornada não é compreendida como sucessão de eventos externos, mas como formação do caráter. Em Aristóteles, a virtude não nasce pronta nem é fruto de iluminação súbita: ela se constrói pelo hábito, pela repetição de escolhas corretas diante de situações difíceis. O herói é aquele que aprende a agir bem, não apesar da queda, mas por meio dela. A falha não o define, mas o educa. Nesse sentido, a jornada do herói é, antes de tudo, uma pedagogia da prudência (phronesis), da coragem e da temperança.

O cristianismo herda essa estrutura, mas a radicaliza. A jornada espiritual não culmina apenas na virtude moral, mas na transformação interior pela graça. A queda deixa de ser apenas erro humano e passa a ser condição universal: todos estão em caminho porque todos estão feridos. O mestre, aqui, não é apenas um sábio, mas alguém que ensina pelo exemplo do sacrifício. Cristo não apenas aponta o caminho; Ele é o caminho. A jornada cristã é ascética: envolve renúncia, obediência, memória e comunhão.

É por isso que, na tradição católica, não existe santidade solitária. Os cristãos foram para o deserto, mas muitos iam atrás em busca de sabedoria. Os grandes santos atraíam para si multidões de pecadores que também queriam mudar e enxergavam neles grandes mestres. O crescimento virtuoso exige mediação: a Igreja, os santos, os sacramentos, a Escritura. A ideia de um herói que se forma exclusivamente pela intuição pessoal é estranha ao cristianismo, pois a verdade não é descoberta isoladamente, mas recebida, cultivada e transmitida. O retorno do herói, aqui, não é triunfo individual, mas serviço: aquele que passou pela queda retorna para sustentar os outros.

Quando a narrativa da jornada abdica desse eixo formativo, ela pode até produzir beleza e impacto visual, mas perde sua função mais profunda: ensinar a viver. A jornada do herói permanece porque ela reflete a própria estrutura da vida moral e espiritual, uma vida que só amadurece quando reconhece seus mestres, assume suas quedas e aceita que o passado não é um fardo a ser destruído, mas um solo a ser trabalhado.

É também por isso que a jornada do herói se articula tão profundamente com a religião. O mito religioso não nasce para explicar o mundo, mas para ensinar a habitá-lo. No cristianismo, a queda, o deserto, o mestre e o retorno não são metáforas literárias: são experiências espirituais. Cristo não ensina apenas com palavras, mas com a própria travessia do sofrimento à ressurreição. O discípulo só se torna apóstolo depois da perda, e a fé só amadurece depois da noite escura, e vemos isso no exemplo dos grandes santos e suas conversões, como Santo Agostinho ou São Francisco, ou suas jornadas espirituais, como São João da Cruz e Santa Tereza D'Ávila. A narrativa da salvação é, no fundo, uma pedagogia da queda.

No cinema, quando essa estrutura é respeitada, ela ressoa com força quase ritual. Pense-se não apenas em Star Wars, mas em obras como Matrix, O Senhor dos Anéis, ou mesmo em narrativas mais intimistas como Gran Torino: o mestre é sempre alguém ferido, o aprendizado é sempre incompleto, e o retorno nunca restaura o mundo como era antes. O retorno verdadeiro não é à ordem antiga, mas a uma ordem mais consciente de sua fragilidade. A jornada não promete redenção fácil; promete lucidez. O novo mostre enxerga o que antes apenas o mestre via. Luke, em O Retorno de Jedi, aparece com a postura de alguém que entende a Força, não apenas a sente em determinados momentos. Rey, ao fim, não é apenas alguém em quem a força é poderosa, mas que aprendeu com Leia e, com os mestres do passado, a sentir o equilíbrio.

Talvez por isso a tentativa de suprimir a jornada do herói provoque tanta resistência. Não se trata de apego nostálgico, mas de algo mais profundo: a recusa em aceitar que a experiência humana possa ser reduzida a improvisação pura, sem transmissão, sem memória, sem tradição. Como diria T. S. Eliot, nenhuma criação existe isolada; ela dialoga com os mortos tanto quanto com os vivos. O herói escuta vozes antigas não por fraqueza, mas porque só assim pode avançar.

No fim, a jornada do herói permanece porque ela traduz aquilo que nenhuma filosofia conseguiu abolir: o fato de que viver é atravessar. Cair, aprender, perder, escutar, retornar. A obra pode até tentar fugir desse destino, mas, como a própria vida, acaba sendo puxada de volta para ele. Não por convenção estética, mas porque é ali que o humano se reconhece.

A insistência da jornada do herói revela algo que ultrapassa a estética e toca o mistério. Toda narrativa que retorna a esse esquema o faz porque ele ecoa uma verdade antropológica e espiritual: o homem não nasce pronto, ele é chamado. Chamado a sair de si, a atravessar o deserto, a cair, a reconhecer sua insuficiência e, então, a ser conduzido, não por sua força, mas por uma luz que o precede. A jornada é, nesse sentido, uma parábola da própria economia da salvação. Há o chamado, há a queda, há o tempo da cegueira e do exílio, há o mestre que ensina, às vezes pela presença, às vezes pelo silêncio, e há o retorno, que não é restauração do passado, mas transfiguração. Por isso o passado salva: não como nostalgia, mas como memória viva. 

A fé cristã nunca propõe a destruição do que veio antes, mas sua redenção. Assim como o herói só se torna plenamente herói quando aceita carregar consigo seus mestres, seus erros e sua história, também o homem só se torna verdadeiramente livre quando reconhece que não caminha sozinho. A jornada do herói permanece porque é, no fundo, uma catequese disfarçada: um anúncio de que toda queda pode ser atravessada, toda noite pode ser habitada, e toda vida, se aceita como caminho, pode ser conduzida de volta à luz.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A jornada do herói e a memória do sagrado I

“Não se começa do zero; começa-se da queda.” (Hans Urs von Balthasar)

A jornada do herói é o percurso clássico de uma narrativa épica, envolvendo a queda ou guerra e com a queda resultando no encontro com o mestre num ponto de purificação e crescimento, e enfim o retorno do personagem, com a experiência suficiente para resolver o problema. Trata-se de um formato bastante explorado nas artes em geral, seja em mitos e lendas, bem como na literatura e no cinema, onde os personagens possuem seu papel definido pelo lugar que ocupam na história, contribuindo para o crescimento ou derrota. 

Northrop Frye observa que os grandes mitos narrativos não são invenções arbitrárias, mas estruturas recorrentes que emergem da própria experiência humana do tempo, da perda e da esperança. Em “Anatomia da Crítica”, ele descreve o romance, a epopeia e o mito como formas que gravitam em torno de um mesmo núcleo: a passagem do caos à ordem, da fragmentação à reintegração. A jornada do herói, nesse sentido, não é apenas uma técnica narrativa, mas a forma simbólica pela qual o homem tenta dar inteligibilidade ao sofrimento. O herói cai porque o mundo cai; aprende porque o mundo exige aprendizado.

Desde o primeiro filme, lançado em 1977, Star Wars retratou bem essa jornada do herói. Não só em cada um da trilogia original, mas, lendo-a como um todo também se apresenta desse modo. O jovem Luke Skywalker é o arquétipo do herói, o homem ainda inocente, sem conhecimento do tamanho da guerra em que se envolveu, necessitando da orientação de Obi-Wan e Yoda, tornando-se então, de mero aprendiz e piloto prodígio, em mestre Jedi, não só capaz de vencer a batalha, mas de até mesmo conseguir a redenção de sua contraparte, Darth Vader, e encarar de frente o inimigo final, o próprio Imperador Palpatine.

A trilogia lançada posteriormente, chamada de prequel, também faz essa mesma apresentação, podendo ser lida também em cada filme ou num todo, resultando aqui numa espécie de divisão: enquanto Anakin, em sua queda, busca orientação no mestre corrompido, Obi-wan se percebe também ele em queda, tornando-se mais uma vez aprendiz no exílio e redimindo-se em seu encontro com Luke. A queda, como fragilidade do herói, é explorada com essa capacidade de ir tanto para um lado quanto para o outro, ressaltando e questionando também o papel do mestre. 

Mestre Yoda percebe não só sua queda, mas de toda a Ordem Jedi, pois se tornaram cegos pela República que juraram proteger, mas que minou suas forças. Muitos anos mais tarde ele se apresenta como um mestre louco, meio decrépito, rindo de qualquer coisa. É só depois que entendemos que ele ri pois vê agora o próprio Império e os Sith cometendo o mesmo erro, e se mostra como um mestre de grande poder.

Depois de muitos anos, um anova trilogia foi lançada, e parecia que teríamos uma nova apresentação da saga do herói. Rey parecia seguir os passos de Luke, pobre num lugar longe das grandes incursões da Primeira Ordem, e que se envolve na Rebelião simplesmente por ajudar um droide. Rey, de lugar nenhum, parece que vai enfrentar sua jornada.

No entanto, e aqui é o ponto em que eu queria chegar, no segundo filme dessa nova trilogia, Os últimos Jedi, vemos a escolha criativa de acabar com a forma da jornada. Com a destruição de tudo quanto representava o caminho do mestre, vemos uma guerra que avança cada vez mais violentamente sobre os rebeldes, enquanto Rey busca seu caminho e, Luke, questiona a queda da ordem baseado na própria queda. Mais uma vez, como com Obi-Wan, vemos o mestre também passando por sua jornada, obrigatoriamente mais elevada que do aprendiz. Luke então, ao invés do papel daquele que perpetua no aprendiz o conhecimento, se torna aquele cuja morte, encerra um conhecimento incompleto, que deve ser descoberto pelo instinto de Rey, caminhando assim para um fim em que ela se tornaria mestra aprendendo sozinha, ou com a própria experiência, e traçando um novo caminho, maior e melhor que o anterior.

Há, nesse gesto de ruptura, uma sensibilidade que dialoga claramente com certos pressupostos da espiritualidade contemporânea associada à chamada Nova Era. A recusa da tradição, a desconfiança do mestre, a valorização da intuição individual como fonte primária de verdade e a ideia de que o passado deve ser superado, ou mesmo destruído, para que o novo emerja, são marcas recorrentes desse imaginário. Não se trata aqui de um erro estético ou moral, mas de uma visão de mundo específica, herdeira de correntes como o gnosticismo moderno, o romantismo tardio e certas leituras psicologizadas do budismo e do taoismo, nas quais a iluminação ocorre de modo espontâneo, interior e desvinculado de uma transmissão histórica.

Essa perspectiva não é estranha ao cinema contemporâneo, nem mesmo ao próprio Star Wars, que desde sempre dialogou com espiritualidades panteístas, energias impessoais e uma ética da harmonia cósmica. A Força, enquanto princípio difuso e imanente, aproxima-se justamente mais de uma sensibilidade panteísta ou panenteísta do que de uma teologia pessoal. O problema não está nessa influência em si, mas no ponto em que ela rompe com a dimensão pedagógica do mito. Quando o caminho deixa de ser aprendido e passa a ser apenas “sentido”, a jornada perde sua densidade formativa e se aproxima mais de uma epifania subjetiva do que de uma transformação moral duradoura.

Assim, a tentativa de libertar a narrativa das amarras da tradição não produz uma ampliação do sentido, mas um esvaziamento simbólico. O herói não cresce contra o passado, mas a partir dele; não se emancipa destruindo os mestres, mas discernindo quais ensinamentos devem ser preservados, corrigidos ou aprofundados. A Nova Era oferece consolo e liberdade interior, mas raramente oferece uma ética do sacrifício e da responsabilidade, elementos sem os quais a jornada do herói se torna apenas uma experiência estética.

O resultado foi desastroso, embora visualmente deslumbrante, o filme recebeu críticas pesadas dos fás por desfazerem-se de elementos tão caros aqueles que acompanharam por anos as diversas mídias da franquia. 

No último filme, a jornada preciso ser retomada. É revelado que a General Leia foi aprendiz de seu irmão Luke e, portanto, pode treinar Rey. Um treino tradicional, em que cada lição, que foi passada por inúmeras gerações até ali, seria um legado útil no futuro. A queda, não só da personagem ao questionar sua ligação com o Lado Escuro da Força, mas também de toda a Aliança Rebelde, foram retomados num reagrupamento, onde cada coisa se encaixa novamente no devido lugar. Os ensinamentos não são mais destruídos, mas continuados, aperfeiçoados, não por uma intuição vinda do nada, mas baseados na experiência, assim como foram compilados. 

Desse modo, assim como Anakin se defronta com o Lado Escuro e acaba se corrompendo, como Luke também é confrontado e escolhe lutar redenção de seu pai e pela derrota do Imperador, Rey e Ben ficam abalados pelas promessas da corrupção, mas os mestres de todos os tempos fazem com que ela recobre a consciência. Se, no episódio VIII o passado devia ser destruído, no episódio IX vemos que é o passado que salva a galáxia. São as vozes dos antigos mestres, o Anakin redimido, o Luke e a Leia, e até outros distantes como Ahsoka, que guiam a protagonista na sua escolha final. Os antigos amigos são aqueles que conseguem reunir uma tropa capaz de vencer, enquanto no filme anterior o número só diminui.

Otto Maria Carpeaux, ao ler a história da literatura como uma sucessão de tentativas de sentido diante do absurdo histórico, percebe algo semelhante: os grandes personagens não são os que vencem sem tropeços, mas aqueles cuja derrota revela algo essencial sobre a condição humana. De Édipo a Fausto, de Dom Quixote a Raskólnikov, o que está em jogo não é o sucesso, mas a travessia. O herói carrega o mundo sobre si porque o mundo, sozinho, é insuportável. Por isso, quando a narrativa abdica dessa estrutura, não é apenas um modelo que se perde, mas uma forma de reconhecimento existencial.

Esse é um daqueles exemplos em que a obra guia o criador, mais do que o criador escreve a obra. A jornada do herói se torna a única saída, a tentativa de destruição do conceito se mostra ineficaz por um motivo, na verdade, bem simples: a jornada do herói é uma paráfrase engrandecida da própria vida. A busca por uma vida virtuosa passa pela queda, pelo mestre e pelo retorno. Isso não apenas no sentido da ética aristotélica quanto da própria ascese cristã, ou simplesmente da própria conversão cristã, que vai da queda do pecado e da morte para a salvação por meio da mestra Igreja. 

Continua