quarta-feira, 27 de maio de 2026

E depois um banho

Se entregaram a uma tal modo que outros teriam os chamado de loucos, ou endemoniados. Mas a verdade é que eles apenas deram espaço a um desejo que os outros, mesmo os tendo em igual gênero e grau, não o dizem em voz alta. Jamais assumiriam que possuem esses desejos, embora os satisfaçam, mas escondidos do mundo e, não raro, escondidos até de si mesmos. 

Beijaram-se com a respiração entrecortada por longas horas de paixão, os lábios vermelhos e brilhantes daquela avulsão nívea, acompanhada de fortes arpejos do peito e do coração. 

Mas aqueles outros, os veriam apenas como devassos, loucos, endemoniados. Mas apenas escolheram não esconder os seus desejos, não mais profundos, agora apenas desejos. 

Observo, não sem inveja, por vários motivos. Seus corpos fortes e belos, os seus desejos satisfeitos, entregues como feras que se deleitam no sangue de suas presas, encontrando no sabor doce do que foi lançado no rosto daquele amante, os olhos ensandecidos, o sorriso de canto... 

Mas os meus desejos não mais existem. Ou talvez possa dizer que desejo ter um desejo? Essa palavra perdeu significado no meu vocabulário e no meu coração. Meu corpo não responde e nem reage. E então vejo aquele sorriso, entre beijos, respiração pesada e lábios desejosos daquele néctar que, lentamente, escorria do rosto luxurioso do amado. E até esse movimento do líquido parecia deliciosamente depravado.

Eles devem gostar de tomar banho depois, com o rosto ainda sorridente e sacana. Um começa a lavar o outro primeiro, espalha espuma pelas costas tatuadas, perfumando o banheiro, desce a mão e ensaboa também o saco, como massageando, de um jeito provocativo. E então lava o pau, percebendo que ele continua duro, e beija aqueles lábios vermelhos, antes de se virar e o outro fazer o mesmo.

O outro começa já pegando no pau, ficando atrás do parceiro, encostando o corpo em suas nádegas, redondinhas e convidativas, ensaboando suavemente e demorando mais do que o necessário. Depois pega a parte de trás das pernas, a bunda, as costas largas, e então o vira e o beija, e mais uma vez o pau, para dar sorte. Outro beijo, e um deles sai primeiro, se seca com uma toalha mas a deixa no box e sai pelado. Essa liberdade dos dois era incrível, nunca usavam roupas quando estavam juntos. E então o outro sai, depois de uma ducha um pouco mais quente.

Geralmente ainda é a calmaria do início da manhã, quando todos nos quarteirões ao redor saíram para trabalhar e os únicos barulhos são de alguma senhora estendendo roupas no varal. Eles pensam no que mais poderiam fazer enquanto preparam ovos, chá e torradas. Bem, ficar juntos já resolve a maior parte do problema, na verdade, resolve tudo,

domingo, 24 de maio de 2026

Contemplação silenciosa da solidão


“Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios.”
(Fernando Pessoa)

Me sentia total e absolutamente sozinho, ainda que estivesse cheio de gente por ali. Andava de um lado a outro, sem saber o que fazer, sem saber para quem sorrir ou, sequer, quem cumprimentar. Alguns rostos conhecidos, aqui e acolá, mas ninguém de quem eu realmente quisesse me aproximar. Eu sei que eu não pertenço a esse lugar. Sei que eles são amigos, de verdade, mas que eu sou só um estranho, que aparece de vez em quando. Me identifico com o dito por Fernando Pessoa: “Nunca tive quem me amasse. As pessoas tiveram sempre pena de mim.” No meu caso nem mesmo isso, nada de pena. Um esquisito, alguém que apareceu,  mas que não pertence, nem àquele lugar nem a lugar nenhum. 

Fui chamado ali para ajudar com uma coisa, acabei indo mais cedo, talvez na débil esperança de sei lá o quê. Mas, no fim, não precisaram de mim. Sou apenas o amigo da necessidade, que recebe beijos e abraços, mas que não se lembram depois que acabam as obrigações. Ai não sentem nem mesmo pena. Não sabia se ficava ou ia embora, e acabei ficando. Parte de mim pensava que poderia ser uma chance de me aproximar daquele cara, o que tem o nome igual ao meu, mas a minha tentativa foi ridícula. 

Tinha uma visão panorâmica, onde costumo ficar para tirar fotos desses eventos, mas eu não era o fotógrafo daquele dia. Fiquei ali observando os jovens sentados em grandes mesas circulares, conversando, rindo e sorrindo, tirando fotos e mexendo no celular. As vozes abafadas pelo prédio com um pé direito alto não me deixavam entender nada, mas ainda assim a massa sonora indicava, entre outras coisas, um afeto crescente de pessoas que, se conhecendo melhor ali, faziam novos laços. Muitos se abraçavam, sorriam em cumprimentos alegres e íntimos, nomes ditos com carinho, aquele tom próprio dos jovens, jocoso ou irônico, mas que guarda o desejo da permanência daquela amizade. Muitos passaram por mim como se eu não estivesse ali, e talvez não estivesse mesmo. Às vezes duvido de minha própria presença. Talvez eu sequer ocupe verdadeiramente um lugar no mundo.

Fiquei olhando aquele pessoal como quem observa um aquário: tudo iluminado, vivo, cheio de movimento, enquanto eu permanecia do lado de fora do vidro. E o pior é que nem posso culpá-los. As pessoas se aproximam de quem é leve, engraçado, espontâneo. Eu não. Eu chego carregando um silêncio pesado demais, desses que estragam a temperatura do ambiente sem precisar dizer uma palavra. Talvez eu tenha transformado introspecção numa espécie de vaidade triste, como se sofrer calado me tornasse mais profundo do que os outros, quando na verdade só me torna mais distante. Enquanto eles aprendiam naturalmente a pertencer uns aos outros, eu analisava cada gesto, cada risada, cada aproximação, como um antropólogo cansado estudando uma tribo da qual secretamente gostaria de fazer parte.

Devia ter ido embora. O lugar estava cheio e eu não queria ficar ali no meio, não faria sentido algum, então fiquei do lado de fora, onde estava frio. Foi Cioran que disse: “Não é a solidão que pesa sobre mim, mas a incapacidade de suportar qualquer companhia.” 

Hoje, que preciso cantar, percebo que ficar no vento frio foi uma péssima ideia. 

O que eu esperava? Cativar o rapaz com minha personalidade incrível e, na primeira conversa, fazer um amigo e logo conseguir evoluir? Eu mesmo reconheço o quanto sou patético! 

Me lembro da última vez que deixei me levar por sentimentos. Idiota! E ele pisou como se não fosse nada, e continuou andando sem olhar pra trás. Até hoje, sabendo o impacto que isso teve em mim, ele não deu nenhuma importância. 

Hoje eu tenho horror ao amor. Prefiro o sexo desconhecido, silencioso, sem que precise saber sequer o nome do parceiro, ao invés desse sentimento horrendo em que, entregando o coração inteiro, recebe apenas a poeira dos pés desse amado. Sinto raiva, espuma nos lábios, e uma revolta com isso, mas de que adiantaria reclamar?

Acho que minha irmã achou uma nova namorada. Em quatro anos aqui ela terminou um namoro, casou, e toda semana aparece com novos amigos. Claro, todos de caráter questionável e duvidoso. Tenho o hábito de não confiar em pessoas que defendem facções criminosas. Mas ela fez amigos. 

Tudo que faço é observar as amizades, os amigos que saem juntos, e raramente estou com eles. 

Depois de tantos anos de estudo, ainda sinto falta de amizade, ainda sofro com a solidão e me sinto péssimo por um traço tão imaturo, pois, se depois de tanto aprendizado, ainda estou preso a algo como a companhia medíocre, significa que não aprendi de fato nada tão substancial assim e que continuo sendo apenas um moleque que se recusou a crescer. Um bichinho assustado com o mundo.

“Sou um homem doente… Sou um homem mau. Um homem desagradável.”
(Dostoiévski)

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Mesmo assim

Mais uma vez vejo os amigos indo embora. 
A história se repete. 
De novo e de novo.

Me lembro dos primeiros amigos que fiz, 
no colégio, 
mas o tempo se encarregou de nos afastar. 

Depois, aquele que foi o grupo mais caloroso em que estive, 
e que me deixou, sem nem olharem para trás, 
porque odiaram as palavras que escrevia quando sentia dor. 

Eles não me entenderam.

Destes, alguns ficaram um pouco mais, 
e nos aproximamos ainda mais. 

E aí veio aquela traição... 

Eu ainda fui tido como errado mas, 
no fim, 
eles escolheram ficar sem mim. 

E agora, de novo. 

Vejo os sorrisos dos encontros, 
sexta à noite. 

Eu aqui sozinho. 

Mas certamente vão lembrar de mim 
quando precisarem de algo. 
É sempre assim,
sou o amigo da necessidade.

Não culpo ninguém, 
exceto a mim mesmo, 
por esses afastamentos. 

Eu também me afastaria aos poucos, 
também me ofenderia com palavras duras escritas sobre mim, 
também escolheria trair um amigo incômodo 
por algo mais agradável. 
Não os culpo por preferirem qualquer outra coisa. 

Eu também queria ser outra coisa. 
Também queria dizer que não me importo com eles. 
Mas seria mentira. 

É sexta à noite, 
muitos estão bêbados, 
ou sorrindo enquanto comem, 
ou com suas famílias. 

Eu tenho os personagens que não me deixam. 

Mas, 
mesmo assim, 
ainda dói. 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Aquecendo o inverno

Uma das coisas que considero mais interessantes na literatura universal é que cada obra condensa, ao seu modo, aquelas experiências que poderiam ser chamadas extremas: nela encontramos a mais prístina bondade ou mais abissal crueldade, a leviandade, a sensibilidade... Todo o que compõe o homem, aquilo que forma seu imaginário, e que em cada um de nós se encontra em diversas proporções, ali podemos também encontrar, conhecer e reconhecer as mais diferentes experiências humanas, de forma que, numa vida, podemos viver dezenas, ou até centenas, de outras vidas, de modo que cada um daqueles personagens, do mais vil, maquiavélico, inocente ou caridoso, passa a habitar também em nós, isto é, assim como nossa experiência real vai compondo quem somos, as experiências que temos por meio da arte também encontram lugar e passam a fazer parte de nosso ser. 

Há, por vezes, um grande choque de realidade. E aqui já me refiro a uma obra específica. Um jovem, que sempre viveu rejeitando a virulência fundamental de sua família, de repente encontra noutra casa, na simplicidade de uma pequena família que se refez, um calor que ele jamais conhecera. As noites não eram mais de tensão sobre o futuro violento moldado pelos laços de sangue, mas eram sorrisos e partilha das coisas boas de cada dia, de modo que aquele momento, que sempre pareceu uma tortura, se tornou tão agradável que o sabor daquela comida o emocionou, e ele se esforçou para não chorar. Essa cena de Lately, It's Winter Season me partiu o coração.

Suer trazia consigo uma fachada alta: seu alto desempenho no futebol, que ele gostava de fazer, era sua própria recompensa pelo alto desempenho nas disciplinas avançadas, exigido por sua família. O garoto bonito escondia na perfeição pública um repúdio por quem queriam que ele fosse, um mundo que ele sempre negou. Encontrou em Nao, o garoto falante do time de futebol, ciumento com o irmão e péssimo em tudo menos nos jogos, uma autenticidade até então desconhecida. Porque para ele tudo sempre fora mentira: a imagem de família bem sucedida que era usada para esconder os negócios violentos e ilegais da máfia tailandesa, bem como sua própria imagem que escondia essa verdade grotesca e servia, até para ele mesmo, como forma de convencimento de que ele podia ser diferente. A máscara que ele ostentava era, e sempre foi, a manifestação não de uma mentira, mas de algo que ele queria ter.

Mas então veio sua iniciação naquele mundo do qual ele sempre fugiu. O disparar da arma o manchou de sangue, um sangue que não era dele. Não era como o sangue da sua boca que aparecia quando brigava com os moleques da vizinhança de Nao. Não, esse era um sangue brutalmente quente. E em quem ele pensou quando finalmente saiu de lá? Naquele menino alegria, que falava palavrão e tinha pose de briguento, mas que adorava comer doces num café com as paredes pintadas de um rosa neon enjoativo.

Ele se lançou nos braços de Nao sem nenhuma máscara. Sem pose de bom menino e nem de aluno exemplar. Ainda sujo daquele sangue em seu pescoço e parte de seu rosto, ele deixou rolar pesadas lágrimas de desespero, arrependimento por um pecado que ele não queria cometer. Ele nunca chorara antes. E então, pediu perdão. Perdão ao Nao, que nem mesmo sabia o que podia ter acontecido, inocente que estava dormindo depois de jogar por várias horas. Mas ali, Nao era a bondade que ele ousara manchar, mesmo que obrigado. Nao era tudo aquilo que ele queria ser e que agora, maculado uma vez por todas, jamais seria. E então, ao implorar perdão, se alguém tão bom e puro lhe perdoasse, talvez ainda existisse alguma chance de redenção para ele. Talvez aquele abraço, quente, numa noite marcada pela frieza de uma execução, fosse o único refúgio possível para ele que percebera que não poderia mais viver ignorando aquela verdade, mas que precisaria ostentar de uma vez por todas uma máscara para esconder seu pecado. 

Tão jovem, bonito, e forçado a cometer uma atrocidade, e pior, acreditando ser culpado, e pedindo perdão como se ele tivesse puxado o gatilho por vontade própria, e não pela maldade dos outros. Era inverno, mas o abraço daquele garoto, na porta de um simples restaurante de comida caseira, era um raio de sol que aquecia tudo aquilo. 

Há um paralelo que achei particularmente interessante. Há uma espécie particular de dor em ser acolhido justamente quando nos sentimos menos dignos de acolhimento. Porque a bondade do outro deixa de ser conforto e passa a ser espelho. O que há de especialmente belo nessa cena é que ela reencontra uma das experiências espirituais mais antigas da literatura: o momento em que alguém, ao tocar a bondade verdadeira, finalmente percebe a própria ferida. Não a culpa no sentido jurídico, não a culpa racionalizada, mas a consciência dolorosa de ter sido arrancado de si mesmo. É exatamente aí que Dostoiévski aparece, não como influência estética direta, mas como presença humana fundamental.

Quando Raskólnikov se ajoelha diante de Sônia, o que ocorre não é apenas um pedido de perdão. Ele vê nela algo que já julgava impossível: uma pureza que continua existindo apesar da sordidez do mundo. Sônia, prostituída pela miséria, conserva intacta uma espécie de luz interior. E isso o destrói, porque a simples existência daquela bondade torna insuportável a permanência da máscara intelectual e moral que ele construiu para justificar seu crime. O perdão que ele busca nela não é absolvição social; é a esperança desesperada de que ainda exista um caminho de retorno ao humano.

É exatamente essa estrutura espiritual que reaparece em Suer e Nao. Nao não compreende o que aconteceu, mas isso torna a cena ainda mais poderosa: sua inocência não julga, apenas acolhe. Ele diz que vai ouvir Suer quando o outro estiver pronto pra isso, naquele momento ele oferecia seus braços. E justamente por isso o abraço se torna quase insuportável. Porque Suer já não está chorando apenas pelo ato cometido ou pela violência testemunhada; ele chora pela perda de uma possibilidade de si mesmo. O sangue em seu rosto não é apenas sangue físico: é a marca visível da entrada brutal num mundo ao qual ele jamais quis pertencer. Ao correr para Nao, ele busca aquilo que Dostoiévski compreendia tão bem: alguém diante de quem ainda seja possível existir sem cinismo.

Talvez seja por isso que certas obras contemporâneas nos atingem, me atingem, tanto quando são honestas. Não porque repitam a alta cultura, mas porque reencontram, sob novas formas, os mesmos dramas eternos da alma humana. A literatura russa do século XIX e uma série asiática recente podem parecer mundos completamente distintos, mas ambos tocam o mesmo centro: a necessidade humana de redenção, o medo de se tornar irreconhecível para si mesmo e a esperança de que o amor de alguém possa ainda salvar aquilo que restou.

Assim arte revela sua dignidade perene: quando nos faz perceber que, apesar da mudança das épocas, das linguagens e dos cenários, o coração humano continua sangrando pelas mesmas coisas. E de corações que sangram eu não só compreendo como também sangro o meu próprio.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Me olhando no espelho


A gente até tenta, mesmo depois de tudo.
Mesmo depois de tanto fracasso, dia após dia,
acordando e me vendo no espelho, 
cada vez mais gordo
e mais inútil.

E aí, numa noite fria,
no meio do outono,
tento ver um filme, 
comer um hamburguer,
e um pedaço de bolo.

Faço isso na esperança de conseguir
extrair alguma gota miserável
de alegria nesse corpo
mas é em vão.

Embora o filme continue ótimo, 
e a comida também,
e a noite linda e silenciosa, 
eu continuo vazio,
gordo e inútil.

Penso em voltar ao mundo,
voltar a trabalhar, 
pois todos precisam trabalhar,
e só consigo pensar no inferno que foram aqueles meses,
com chefes imbecis e incompetentes, 
e demandas e mais demandas, 
cada vez mais ridículas,

e o peito apertado,
porque cada maldita manhã,
que eu chegava e sentava minha bunda
naquela cadeira giratória, numa mesa minúscula,
e ligava o computador, 
bombardeado de mensagens idiotas,
e a vontade de simplesmente sumir daquele lugar.

Essa lembrança,
o peito apertado,
a ânsia que me vem como a ânsia de um cardíaco,
a vontade de chorar,
e de bater na cada de algumas pessoas, 
tudo isso me apavora

paralisa

e então, mais de um ano depois
eu continuo aqui, 
no quarto
tentando me curar,
mas sem acreditar que existe uma cura,

com medo

e me olhando no espelho, 
me vendo cada vez mais gordo
e inútil.

sábado, 16 de maio de 2026

Hostias et preces tibi, Domine

Iniciam-se os festejos em honra ao Divino Espírito Santo. Fiéis de toda parte acorrem em cânticos, ladainhas, procissões com a bandeira vermelha cheia de fitas coloridas hasteada. O suor de décadas de fé acompanham a romaria. Quantos terços foram rezados, os dedos trêmulos pela idade, a mente turva sem obedecer ao recordar os mistérios de cada dezena, mas a certeza de aquele Divino não decepcionaria. A ele se confiam, com a saúde dos pais e dos filhos, com a esperança de que aquele que partiu um dia retorne ao seio da família. 

Que prece faria ao Divino? A graça da santidade, certamente, é a única coisa que deveria ser pedida. A maior proximidade com o mesmo Divino, no entanto... Acho que seria mais egoísta. Porque a graça da santidade já é algo que, para ser ao menos querida, precisa ser querida por alguém. Um sujeito onde a santidade se manifestaria, que se deixasse moldar por ela. E eu? Bem, eu já não sou tanto assim. Talvez pedisse, se fosse alguém, por uma razão, um motivo que fosse. Algo que fizesse meu coração bater, um rumo. Mas coração eu já não tenho, e a única prece que tenho feito nos últimos tempos, todas as noites, é a de não mais acordar. 

Talvez fizesse uma prece como a de Clarice: 

"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o. amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar."

Ou talvez eu só fique quieto, em silêncio, como todas as noites antes de adormecer, e faça desse silêncio, a minha prece, como pobre pecador que, olhando a imensidão e a miséria do próprio ser, não se atreve a dizer nada, sendo sua presença uma prece, que a Ele já conhece. E, ainda assim, esperando não mais acordar.

"Os objetos só têm sentido quando têm sentido, fora disso... Eles precisam ser olhados, manuseados. Como nós. Se ninguém me ama, viro uma coisa ainda mais triste do que essas porque ando, falo, indo e vindo como uma sombra, vazio. Vazio. É o peso de papel sem papel, o cinzeiro sem cinza, o anjo sem anjo, fico aquela adaga ali fora do peito. Para que serve uma adaga fora do peito?" (Lygia Fagundes Telles)

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Esperando a noite chegar

“Era um dia parado, úmido e igual a todos.”
(Julio Ramón Ribeyro)

Vi as mensagens logo cedo. Tinha combinado de sair e caminhar um pouco com minha prima, às 5h da manhã, mas a chuva não parou até agora. As outras foram chegando com o avançar da manhã, em meio a uma onda de barulho e caos: com a chuva ficamos confinados, crianças se irritam, e parecem ocupar cada pequeno canto da casa. Os adultos se irritam, e o resultado é uma célula inconstante prestes a colapsar.

Chegaram mensagens longas, comovente, admito, de um rapaz que pedia ajuda. Irmão de Igreja, entendo, mas não tenho, no momento, nada em dinheiro. As outras, áudios longos, e Deus sabe o quanto odeio ouvir áudios, não sei do que se trata. Talvez escute amanhã, ou depois. Queria mesmo não ouvir nunca.

Alguns amigos também, mas não estou com vontade. Um deles gosta de se gabar para as meninas mas, bem, eu não me beneficio nada com isso. Se vou ouvir que mandou nudes para uma garota, quero pelo menos fazer parte da lista de transmissão. O outro, bem, sinto como se nunca fosse ouvido. Decidiu acompanhar uma nova história, porque viu algo sobre um personagem na internet, não porque falei sobre a série e fiquei um tempão procurando um vídeo interessante sobre o sistema de batalhas e a qualidade da animação aliada à história. Tudo bobagem pra ele. Mas, o que ele diz, nesse momento, é bobagem para mim. 

Vou me unir apenas ao som da água descendo pela corrente das calhas, e a playlist indie, violão e voz. Apenas. Como se a casa inteira estivesse molhada por dentro.

Hoje não será um dia que começarei nada, exceto as séries que vou ver à noite. 

The Gaze com as disputas e intrigas, homens com dores e dificuldade de amar, assim como em The Gaze, com as disputas e intrigas, homens com dores e dificuldade de amar; Double Helix, com um passado dolorido que marcou cada um deles de um modo diferente: um que nega o amor, que só traz dor, e outro capaz de causar qualquer dor por esse mesmo amor. Em Journey With You a beleza histórica de uma China dividida e em guerra, e dois amantes tentando sobreviver às disputas politicas que sufocam seus sentimentos. A dor da traição pode ser vencida pelo cuidado e pela sinceridade? 

Há dias em que viver se resume a esperar a noite chegar.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Refúgio e sombra

Consegui encontrar algum alívio pro grande abismo da solidão, naquela madrugada que foi ficando mais e mais fria, ao passo em que as histórias, os amores, os sorrisos, os beijos, foram me aquecendo. É, foi uma madrugada solitária, mas não foi ruim. 

A beleza deles me lembrou o torso arcaico de Apolo, uma beleza que não podia ser descrita, lamento muito se alguém chegar a ler essas palavras um dia, mas não, não posso descrever o quanto são belos. Só pude ficar a contemplar, a pele iluminada pelo sol, perfeita, sorrisos lindos e olhos brilhantes como as estrelas do universo, vestes em simplicidade ideal, nada exagerado.

Assim como naquele dia, buscarei refúgio naqueles ermos tristes, é verdade, mas onde encontro companhia para dividir a solidão. Um homem escolheu seu destino: a dor no lugar da dor do seu amado. Eu não tive escolha, não amado, mas ambos ficamos na solidão daqueles quartos frios. 

Por dias. Semanas. Anos. 

Sem saber quando acabaria, sem saber se a cabeça um dia vai voltar a ser como era antes.

Nem sempre funciona. Às vezes as sombras tomam conta de mim e eu fico lá, parado no escuro, esperando. Esperando. Não sei o motivo da espera. Não sei se estou esperando, mas fico lá, no escuro, talvez onde eu já seja um só com toda essa sombra. 

"(...) A melancolia é um prazer sensual deliberadamente provocado. Quantas pessoas se fecham para ficar mais tristes, ou para chorar à beira de um riacho, ou escolher um livro sentimental! Estamos constantemente construindo e desconstruindo a nós mesmos." (Gustave Flaubert) 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Um livro ridiculamente grande

"Move-se a mão que escreve, e tendo escrito, segue adiante; Nem toda a tua Piedade ou o teu Saber a atrairão de volta, para que risque sequer metade de uma linha; Nem todas as tuas Lágrimas lavarão uma só de tuas Palavras." (Omar Khayyam)

Acho que queria contar algo pra alguém. Aconteceram algumas coisas interessantes nos últimos dias, mas não tenho com quem compartilhar. 

A DMD Land 3 parece ter sido incrível. Não gosto muito de shows mas nesse eu iria. Apresentações memoráveis, como o dueto TleFirstone, ou o palco das Divas com Genie Ja... Ohm arrasando ao som de Crazy in Love, Nunew, Kong, Namping com visuais impecáveis e os fofos da 5° geração juntos. Também algumas carinhas novas mostradas como já da 6° geração, entre elas o Ton Saran, velho conhecido.

Continuo deslumbrado também com o visual etéreo, idílico, de Flower Boy. As flores silvestres, a forma como o povo se vê como parte do campo, unidos a ele. Também impressionado com o Peak e Pearl no auge da beleza. Poucas vezes combinaram atores tão lindos juntos. Chorei com Love You Teacher, Santa tá tão bem nesse papel que não duvido que receba prêmios por ele. Ele e Perth estão mostrando uma história linda de superação e companheirismo. Enfim... 

Mas para ninguém posso contar essas coisas, a ninguém interessa, assim como eu não me interesso pelos outros. 

Apenas fico sentado aqui, ou deitado e ignorando toda a existência que há fora do meu quarto. Vejo as pessoas passarem pra lá e pra cá. Correndo, ocupadas. Mas para quê? Para que esse esforço? Nada disso faz sentido pra mim. 

Acabei de ler a frase: “Não finja não ter interesse nas coisas românticas dessa vida só porque alguém tem preguiça de te oferecer.” E isso foi um golpe pra mim... Porque eu me tornei alguém descrente no amor, de tal modo que, sempre que me aproximo de alguém, já penso incomodar. Saber que isso é uma característica do Borderline não ajuda. Tento me afastar, ao mesmo tempo que continuo querendo me aproximar, mas com aversão a qualquer um. Isso porque eu sei como termina, e sempre termina igual: comigo escrevendo sozinho, de madrugada. Mesmo jurando que não iria mais fazer isso. Mesmo não tendo mais o que dizer do que aquilo que já disse tantas e tantas vezes. Me sinto de novo como o último capítulo de um livro ridiculamente grande que ninguém se dispõe a ler.

Vejo que se tornou comum na internet o discurso da solitude, de como é importante aproveitar e apreciar a própria companhia, como ir ao cinema ou num café sozinho. Mas vejo também que essas pessoas não parecem ter experimentado o mais baixo da solidão. Aquele ponto em que, olhando a redor, vê-se o homem absolutamente sozinho, sem que ninguém, amigos ou família o entenda. Esse entende a solidão, e pode se acostumar com ela, como quem se acostuma com uma doença sem cura, mas nunca gostar dela, nunca apreciar.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Indo dormir

Preciso traduzir um silêncio que já dura vários e vários dias. A única coisa de que consigo me lembrar é de me afundar na cama, por incontáveis tempos, e de ver os dias passando, pelo vislumbre de uma luz fraca que invade as beiradas das cortinas, e do choro de criança, que vem e vai, como se estivesse preso numa sinfonia infernal entre silêncios e um tutti brutal.

Com muito custo eu levantei e fui ao ensaio, completa e absolutamente desinteressado em cada uma das peças musicais que eu mesmo havia escolhido. É assim ultimamente, tudo tem ficado assim, sem graça, sei lá. 

Pensei no que poderia fazer durante a noite, pois parece o único momento com o mínimo de paz que eu tenho, já que durante o dia é inviável ler, escrever ou assistir. Estou revendo Kiseki ~ Dear to Me, mas não tem me prendido, mesmo com a qualidade de uma produção taiwanesa. Pensei em maratonar Be Loved in House: I Do, mas, por alguma razão, nem mesmo a ideia de rever o corpo perfeito do Aaron Lai ou o belíssimo Hank Wang. Mesmo sendo um dos meus BLs favoritos, a ideia não me agradou. Optei por um daqueles filmes de super-heróis. Não foi ruim mas... É assim, ultimamente tudo tem ficado assim, sem graça.

Estou com um pouco de sono, coloquei um concerto para violino para assistir, e isso me faz lembrar que eu deveria tomar meu remédio, e dormir um pouco, já que, há semanas, meu sono está desregulado e isso com certeza vem afetando meu humor, com ciclagens cada vez mais rápidas e mais violentas. Montei uma nova playlist com música japonesas estilo indie, mas não sei quantas faixas ouvi antes de, mais uma vez, me afundar na cama e deixar a mente no vazio. 

Quero comer bolo, Bem doce. E por isso sei que não paro de engordar. Estou com quase cem quilos, quarenta à mais do que eu costumava ter. E não tenho força pra sair da cama, quem dirá fazer os exercícios necessários pra mudar isso.

É, acho que vou dormir. Baixei de novo os apps de encontros mas... Bem, o espelho me impede de seguir adiante. Não estou interessado em mais nada. É uma noite fresca, mas sem brisa. Tenho um coração, mas sem teogonia. Não tem nenhum cara atrás de mim me fodendo, então é melhor só ir dormir mesmo.

"Ora, o amor!... Essa história de amor, absoluto e incoerente, é muito difícil de achar... eu, pelo menos, nunca o vi... o que vejo, por aí, é um instinto de aproximação." (Rachel de Queiroz)