terça-feira, 3 de março de 2026

Notas sobre cuidado e vulnerabilidade

Cuidado. Esse sempre foi um tema querido, bem como temido, por mim. Não é nenhuma novidade que eu sou um cara preocupado com quem amo, e gosto que as pessoas se sintam bem perto de mim. Mas também não é novidade que tenho grande facilidade para afastar as pessoas, justamente porque elas não se sentem assim. Tão logo isso acontece, eu me decepciono, com o outro e comigo, e acabo por me tornar realmente desagradável. Mas demorei muito para entender isso.

Do ponto de vista psicológico, o cuidado ocupa um lugar ambíguo na constituição do sujeito: ele é simultaneamente vínculo e ameaça. Essa teoria do apego demonstra que quanto maior a necessidade de proximidade emocional, maior a sensibilidade à percepção de afastamento. O que se interpreta como indiferença externa, muitas vezes, é amplificado por sistemas internos de alerta que reagem à mínima oscilação no comportamento do outro.

No momento, escuto pela décima vez essa semana, Inmo Yang tocar o Concerto para Violino do Sibelius. Assim como o virtuoso faz o arco se tornar um borrão no instrumento, as coisas mudam rápido dentro de mim, como um movimento no fundo do oceano, que só depois de muito tempo agita a superfície. Só após perder as pessoas que mais amava, repetidas vezes, é que fui entender que o problema estava em mim.

As flutuações de humor no Transtorno Afetivo Bipolar não se limitam a alternâncias visíveis entre euforia e tristeza; tratam-se de variações na intensidade da energia psíquica, na velocidade do pensamento, na percepção de si e do outro. Estudos clínicos descrevem que essas oscilações podem comprometer a estabilidade relacional, pois modificam a previsibilidade do comportamento, elemento central para a manutenção de vínculos seguros.

Descobrir o Transtorno Afetivo Bipolar foi algo libertador. Eu sabia finalmente de quem estava apanhando, muito embora ainda não tenha aprendido a bater de volta. O diagnóstico, em muitos casos, funciona como reorganizador narrativo da própria história. Ele não elimina o sofrimento, mas oferece linguagem para descrevê-lo. Ainda hoje venho descobrindo novos comportamentos que, percebo, são reflexos dessas variações de humor. Como observa Kay Redfield Jamison, ao escrever sobre a própria bipolaridade, nomear a condição não reduz a dor, mas impede que ela seja confundida com falha moral. Era exatamente como me sentia, e ia adiante: achava se tratar de uma falha intrinsecamente existencial.

Foi só quando comecei a estudar sobre que entendi o que acontecia: o Transtorno Bipolar cansa as pessoas. E isso dói pra caramba! Não é só oscilação, não é como TPM. É perceber olhares diferentes, paciência diminuindo e distâncias surgindo e crescendo.

Pesquisas apontam que familiares e amigos de pessoas com transtornos de humor frequentemente relatam exaustão emocional. A imprevisibilidade gera desgaste. O problema não reside em falta de afeto, mas na dificuldade de sustentar constância diante de variações intensas. A literatura clínica é clara: o transtorno não é apenas individual, ele é relacional, aliás, é por isso que transtorna.

No Transtorno Bipolar há alterações na regulação emocional e na intensidade das respostas afetivas, o que pode gerar, dentre outras coisas: reatividade elevada, variações abruptas de energias e maior sensibilidade à rejeição. Não é exagero, mas um cérebro desregulado.

Neurobiologicamente, há disfunções na modulação de circuitos ligados à dopamina, serotonina e norepinefrina, impactando tanto o humor quanto a motivação. Essa desregulação pode fazer com que pequenas frustrações sejam experimentadas como grandes ameaças, ampliando a percepção de abandono. 

Tem dias que eu sou intenso demais. Hoje mandava mensagens sobre quatro assuntos ao mesmo tempo para um amigo. Em outros dias, eu demoro oito horas para dizer uma única palavra, e isso confunde as pessoas. Eu não tenho medo só dos episódios, principalmente quando vou sentindo que eles vão piorar. Eu tenho um medo constante de ser abandonado por causa deles.

Na literatura sobre transtornos do humor, essa alternância entre hipersociabilidade e retraimento é frequentemente descrita como fator de tensão interpessoal. O outro nunca sabe qual versão encontrará. E previsibilidade é um dos pilares da confiança.

Houve um tempo em que eu conseguia me obrigar a sustentar as relações. Eu queria meus amigos por perto, mas os afastava mesmo assim. Porque após algumas horas, eu estava exausto, eu só queria desaparecer, mas ainda precisava sorrir, cantar e, no dia seguinte, tinha que trabalhar. E então as minhas reações exageradas, especialmente as que escrevia, acabaram por afastar todos eles.

O esforço de mascaramento, conceito estudado em psicologia social, consiste em suprimir estados internos para corresponder às expectativas externas. Esse processo, quando prolongado, conduz ao esgotamento psíquico. Sustentar uma performance constante exige energia que nem sempre está disponível.

Era um esforço silencioso: me controlar, me calar, me diminuir. Para não perder ninguém. Mas ainda assim os vínculos iam se desgastando. E eu só queria estabilidade, o suficiente para que eu pudesse cuidar, e ser cuidado, ou ao menos compreendido. Em alguns momentos aceitava ser apenas tolerado.

Aristóteles definia a amizade como uma reciprocidade de benevolência reconhecida. C. S. Lewis, séculos depois, diria que a amizade nasce quando alguém diz: “O quê? Você também?”. Ambas as formulações apontam para um elemento comum: reconhecimento. Cuidar e ser cuidado exige que o outro permaneça, mesmo quando o humor oscila.

Alguns dias atrás, eu não saí com alguns amigos da igreja, como tínhamos combinado quase um mês antes, para comemorar o aniversário de um amigo e o meu. Não gosto de combinar as coisas com antecedência assim, porque nunca sei como vou estar quando chegar o dia, e o pior cenário aconteceu. E de novo ver aquelas fotos deles, sorrindo, sem nenhuma mensagem (além do meu amigo, justiça seja feita), como se minha ausência sequer tivesse sido notada, doeu pra caramba. Como doeu anos atrás, quando vi os mesmos amigos que enchiam minha casa saírem sem mim, até que hoje nenhum deles fala comigo. Sem brigas, sem conversa sobre nada, apenas o afastamento silencioso.

O sentimento de exclusão ativa áreas cerebrais semelhantes às da dor física. A experiência de ser deixado de fora não é mero capricho emocional; ela é registrada como ameaça à sobrevivência social, elemento fundamental para a espécie humana.

Decidi rever See Your Love, série taiwanesa de 2024, sobre o jovem cuidador, exímio no que faz, mas que, no entanto, não consegue emprego por conta de sua deficiência auditiva. Acaba se tornando cuidador de um cara rico que vive fugindo do trabalho e da família, e ambos mudam a vida um do outro ao aceitarem uma coisa: deficiente ou não, todos temos limitações e não podemos viver sozinhos. 

Acho belo sempre que a presença do outro provoca essa mudança. Jiang Shao Peng (o belíssimo Jin Yun) não é só um cuidador, ele é o melhor, o mais dedicado, o mais determinado, e ainda assim não é contratado por ninguém. Inclusive debocham pois, como alguém como ele se comunicaria com os pacientes? Bem, ao conhecer o herdeiro "mimado" Yang Zi Xiang, ele aceita a dureza de uma verdade contra a qual ele lutou a vida toda: ele tem suas limitações por causa da sua deficiência, mas precisar do outro não o torna inferior, porque Zi Xiang também precisa, assim como seus pais precisam. Zi Xiang, por sua vez, percebe que apenas fingir ser um mimado não resolve os problemas, e então mostra que é mais do que capaz e preparado para assumir o legado de sua família, e é justamente por isso que ele também deve ter o direito de viver como quiser. 

Ambos caminham juntos até entenderem isso, por meio de gestos de cuidado. O primeiro, literalmente, mostrando ser o primeiro que realmente olhou pro jovem mimado como alguém que precisa de cuidado, fazendo-o se sentir diferente de quando sua família simplesmente decidiu seu futuro. E então esse jovem decide aprender linguagem de sinais para se comunicar com alguém que, supostamente, só ficaria com ele por algumas semanas, o que toca o outro, já que todos sempre consideram a dificuldade na comunidade o ponto chave para afastá-lo. E então é dessa forma que eles se aproximam.

Na cultura contemporânea, a figura do cuidador ganhou relevo não apenas como função prática, mas como metáfora ética da interdependência humana. Em sociedades marcadas pela valorização da autonomia radical e da performance individual, o cuidador encarna uma contranarrativa: ele lembra que a vulnerabilidade não é exceção, mas condição estrutural da existência. Autores como Joan Tronto e Nel Noddings, ao desenvolverem a chamada “ética do cuidado”, sustentam que toda organização social se funda, ainda que invisivelmente, em redes de dependência mútua. Cuidar não é gesto acessório, mas infraestrutura da vida. Na literatura e no cinema recentes, o cuidador aparece frequentemente como aquele que, ao assistir o outro, revela também a própria limitação. A interdependência deixa de ser sinal de fraqueza e passa a ser reconhecimento da finitude compartilhada. Nesse sentido, a narrativa do jovem cuidador que precisa aceitar a própria limitação antes de sustentar a do outro ecoa uma tese antropológica fundamental: ninguém é plenamente autossuficiente, e a recusa dessa verdade tende a produzir isolamento e sofrimento.

Não por acaso, a própria narrativa faz referência à política taiwanesa de cuidados de longo prazo, conhecida como Long-Term Care Plan 2.0,  implementada em 2017, como ampliação do plano anterior (2015), em resposta ao rápido envelhecimento populacional e à queda da taxa de natalidade. Taiwan tornou-se oficialmente uma “aged society” em 2018 (mais de 14% da população com 65+), e a projeção demográfica indicava rápida transição para “super-aged society” (20% ou mais). 

Ao reconhecer que a estrutura familiar tradicional já não é suficiente para sustentar o cuidado dos idosos e pessoas dependentes, o Estado assume institucionalmente aquilo que a ética do cuidado já sustentava teoricamente: a autonomia absoluta é uma ficção. O LTC 2.0 ampliou serviços domiciliares, centros comunitários e apoio financeiro, transformando o cuidado em política pública estruturante. Trata-se de uma mudança paradigmática: o cuidado deixa de ser gesto privado e passa a ser responsabilidade coletiva. Nesse sentido, a série dialoga com um fenômeno social real: o cuidado como infraestrutura demográfica de sociedades envelhecidas. A vulnerabilidade, antes percebida como exceção individual, revela-se condição populacional: todos estamos vulneráveis, precisamos de cuidado.

Cuidar. Ser cuidado. Como isso funcionaria comigo quando eu sempre acabo por afastar o outro, por me tornar um peso, fardo desagradável? E vejo isso notavelmente. Atualmente, num episódio depressivo, fiquei semanas sem conseguir sair de casa. O mesmo amigo de que falei antes me perguntou várias vezes como eu estava, me perguntou se estava bem hoje para ir à Missa, se preocupou, mas quando cheguei lá, alguém sequer foi falar comigo quando me viu? Ninguém. Mais uma vez, distâncias surgindo e crescendo. Mas, nas mensagens, continuo recebendo dezenas (sem exagero) de pedidos de favores.

O paradoxo do cuidado é que ele exige presença de ambas as partes. A filosofia do cuidado, desenvolvida por autores como Nel Noddings, sustenta que a ética nasce do encontro concreto, do “estar-com”. Sem esse gesto, resta apenas a intenção abstrata.

E ainda ousei olhar para aquele cara na assembleia, o que também se chama Gabriel. Bonito, sério, de óculos. Como se um cara magro como ele fosse olhar para um gordo desequilibrado como eu. Nem sabe que eu existo, a menos que tenha notado a bola gigante de camiseta rosa ao lado do presbitério. Essa é uma distância que nem precisou surgir.

O desejo também participa desse campo relacional. Amar implica expor-se ao risco da não reciprocidade. Como nos Cânticos, o amado é sempre figura de projeção e esperança, mas a projeção revela mais sobre quem ama do que sobre quem é amado.

Se políticas públicas tentam organizar redes de amparo para populações inteiras, é porque a solidão não é apenas falha individual, mas questão estrutural. A sociedade envelhece, os vínculos se rarefazem, as famílias se tornam menores e o cuidado precisa ser redesenhado como linguagem comum. No plano coletivo, criam-se sistemas; no plano íntimo, resta aprender a sustentar o próprio silêncio entre as notas. 

Não me sinto um violino num concerto de Brahms ou Sibelius, tampouco numa sinfonia de Mahler ou Beethoven. Me sinto tocando uma partita desacompanhada do Bach.


"Jovem, eu exigia das pessoas mais do que elas podiam me dar: uma amizade contínua, uma emoção permanente. Agora eu sei pedir a elas menos do que podem me dar: uma companhia sem frases." (Albert Camus)


REFERÊNCIAS

JAMISON, Kay Redfield. Uma mente inquieta: memórias de loucura e instabilidade de humor. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

GOODWIN, Frederick K.; JAMISON, Kay Redfield. Manic-Depressive Illness: Bipolar Disorders and Recurrent Depression. 2. ed. Oxford: Oxford University Press, 2007.

BOWLBY, John. Apego: a natureza do vínculo. São Paulo: Martins Fontes, 1984.

NODDINGS, Nel. Caring: A Relational Approach to Ethics and Moral Education. Berkeley: University of California Press, 1984.

TRONTO, Joan. Moral Boundaries: A Political Argument for an Ethic of Care. New York: Routledge, 1993.

LEWIS, C. S. Os quatro amores. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Trad. Antonio de Castro Caeiro. São Paulo: Atlas, 2009.

domingo, 1 de março de 2026

Ao que desonra a Beleza

Ao meu próprio reflexo

Embora, esteticamente, seja algo ao qual me recuse
ainda que, por breves momentos, em cada manhã
enquanto escovo os dentes, eu precise encarar
a brutal verdade que ali se reflete.

Por acaso é ali que alguém se reconhece?
Não sei quem vejo, na foto passada, 
ou no espelho presente. 
Algum dia achei que seria assim?

E então viro o rosto,
pra que aquele monstro 
não encare demais, e não estenda as garras
me rasgando a garganta.

Os cabelos cheios de óleo
macilentos na fraca tentativa
de algum movimento
ao vento

O rosto ichado, pela depressão
descuidado e maltratado.
Os lábios um dia avermelhados,
se arroxeiam e quebram ressacados.

As tatuagens se rasgaram,
no torso que se desfez em gordura.
A barriga parece que a qualquer instanre,
será aberta por algum criatura.

Que, com ânsia. devorará o meu cadáver
para assim caminhar sem rumo,
mas com um objetivo certo:
destruir qualquer beleza do mundo.

Os homens se torcem de horror,
num mundo cultuado pela beleza exterior,
eu também desaponto no interior
deprimido demais para o amor.

Aos príncipes eu dedico
as versadas rimas medievais,
belas, ricas e idílicas
correspondentes aos heróis que cantais.

Ao meu reflexo dedico apenas o horror,
e as mentiras que para escondê-lo.
meu peito se compraz
em terror em encará-lo eu mesmo.

Sem sonhos realizados, 
e nem por realizar.
Em terra estranha hoje moro,
sem paz, sem lar, sem onde morar.

Mas ainda há alguma música,
não é um verso completamente branco, 
mas certos acordes, 
numa dodecafonia de monstro.

Heike Monogatari - Poema de abertura

Poema que dá início ao romance épico japonês Heike Monogatari ("Conto de Heike")

Em Guiôn,o som dos sinos ressoa
 que nada permanece para sempre.
Na cor das folhas das árvores gêmeas,
a verdade: o que nasce, perece.
A arrogância não dura muito tempo,
é  sonho breve na noite vernal;
até os bravos um dia enfim tombam,
se tornam nada mais que poeira ao vento.

Tradução: Rafael Brunhara


Notas:

No original, Gion Shouja, é o templo situado em Gion, na Índia.

No original, as árvores gêmeas com folhas de Shala (sharashouju). Árvores com dois troncos crescendo em quatro direções. Diz a lenda que Buda morreu sob essas árvores, após ter alcançado o Nirvana. 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Ao que honra a Beleza

Inspirado em Inn Jakkrasin Atsavatanachai,
ator e modelo tailandês. De excepcional beleza.

A primeira visão que tive
não foi da carne somente:
era estátua que respira,
era chama permanente.
Rosto não feito de névoa,
mas de herói antigo e ardente.

Que é o meu amado mais que os outros?
é aquele cujo corpo honra a própria Beleza.

Branco e rosado na aurora,
como mármore que sente,
corre sangue sob a pedra
com fulgor adolescente.
Na fronte pousa a vitória
como ouro resplandecente.

Que é o meu amado mais que os outros?
é aquele cujo corpo honra a própria Beleza.

Seus cabelos, copa erguida
contra o vento e contra o tempo;
suas faces, bálsamo e mirra
num jardim em movimento.
Nos lábios traz uma rosa
em sinal de juramento.

Que é o meu amado mais que os outros?
é aquele cujo corpo honra a própria Beleza.

Os ombros são duas colunas
onde a guerra fez morada;
mas jamais manchou a pele
que parece ser talhada
na oficina dos deuses
com a luz da madrugada.

Que é o meu amado mais que os outros?
é aquele cujo corpo honra a própria Beleza.

O arco firme dos seus flancos
guarda a força e a clemência;
nos braços mora o triunfo
sem perder a inocência.
É aço puro e primavera
na mesma transparência.

Que é o meu amado mais que os outros?
é aquele cujo corpo honra a própria Beleza.

O peito sorri, e cega.
O riso é lâmina e flor.
O olhar desce em chama lenta
no arco vivo do ardor.
No giro oclto dos flancos
há um fruto por romper.

Que é o meu amado mais que os outros?
é aquele cujo corpo honra a própria Beleza.

Nunca houve lâmina ou lança
que o fizesse menos claro;
se combate, é como Aquiles,
se ama, é templo raro.
Príncipe entre os semelhantes,
nobre mesmo em desamparo.

Que é o meu amado mais que os outros?
é aquele cujo corpo honra a própria Beleza.

Mas seu feito mais temido
não foi campo ensanguentado,
nem muralha derrubada,
nem estandarte fincado:
foi abrir-me o peito obscuro
e ensinar-me a ser amado.

Que é o meu amado mais que os outros?
é aquele cujo corpo honra a própria Beleza.

E se um dia a corte cesse
e as trombetas se calarem,
ainda assim seu nome ecoa
onde meus pulsos falarem;
pois meu herói reina inteiro
onde meus olhos pousarem.

Que é o meu amado mais que os outros?
é aquele cujo corpo honra a própria Beleza.

Nesse ponto

Sobre a vida humilhante
de meus pais
I

Me pergunto como as coisas chegaram a esse ponto.

Meu pai desde cedo, no interior do Goiás,
precisou lutar pra comer,
e ajudar a sustentar os muitos irmãos.

Comia farinha com rapadura 
em todas as refeições,
durante muitos dias, 
ate que algum vizinho desse a eles um punhado de arroz,
um pedaço de carne seca ou feijão,
em troca de umas cuias de farinha 
ou uns pedaços de rapadura.

Acostumou-se com a vida dura.
Na cidade grande continuou a luta.
Aprender a ler o básico para trabalhar num escritório,
onde se aposentou pouco mais de trinta anos depois.

Não consegue ficar parado. 
Todo dinheiro que aparece ele se lembra 
daquela época em que comia farinha com rapadura.
Afundado em dívidas, 
passou a catar latinhas pra vender.

Quanta humilhação!

Começava às seis da manhã.
Depois às cinco,
às quatro.
Tinha insônia, ele dizia.
E pode ser verdade, 

alguns depressivos perdem o sono 
a essa hora da manhã.
por causa de algo no cérebro
que não conseguem poduzir.

Mas todos sempre souberam,
que era medo da fome.
Mas não só da fome dele,
também da nossa.

E nunca deixou faltar o prato de cada dia. 
Nem um só dia.
Nem um único maldito dia.

E então, para matar a fome,
ele vem se humilhando 
e se matando.

Depois dos quatro, ou cinco, filhos,
hoje ele luta pelo neto.
A paciência diminuiu, 
assim como a força. 
Mas ele ainda brinca com o bebê
todos os dias,
e o coloca pra dormir, três vezes,
todos os dias,
e levanta às seis,
ou às cinco,
ou às quatro,
se humilhando,
quando as coisas parecem apertar.

Cada vez mais afundado em dívidas, 
ele se desespera quando o leite acaba,
ou quando a carne acaba,
e fica nervoso, 
e chora escondido, 
e levanta às seis,
ou às cinco,
ou às quatro,
para catar lixo,
se humilhando,
quando as coisas começam a apertar.

Mas todos sempre soubemos
que é medo da fome.
Mas não só da fome dele,
também da nossa.

E nunca deixou faltar o prato de cada dia. 
Nem um só dia.
Nem um único maldito dia.

E então, para matar a fome,
ele vem se matando.

II

Me pergunto como as coisas chegaram a esse ponto.

Minha mãe também teve infância difícil,
desde cedo ajudou a família numerosa,
que nunca incluiu apenas primos e tios, 
mas todos que moravam ali perto
também se ajudavam nas dificuldades.

No interior de Minas Gerais o chão seco custa dar vida
e essa vida custa a vida de quem cultiva.
Povo de cerviz dura e divertimentos longos, 
nas noites claras, pra compensar do dia a fadiga.

Desde nova também trabalhou em casa de família. 
Conheceu boas pessoas, generosas
e teve patroas que a humilharam 
e destruiram seu orgulho

Hoje, com a pele marcada pelo tempo,
sem saber se ainda se reconhece,
na foto passada ou no espelho de agora,
tenta manter a família de pé

O marido distante que já não reconhece,
o filho deprimido que já não reage, 
e a filha que a cada dia se mostra menos humana,
e um lindo bebê, que necessidade de uma mãe humana.

Mas aquela mulher, aquela que veio de fora,
que deve ter rompido com as garras 
o ventre da mãe doadora,

Que martelo a forjou?
De que cadeia escapou?
Que demônio com fúria a plasmou?

Como pôde, daquele ventre podre,
nascer criatura tão doce?

O demiurgo que a formou,
foi o mesmo que o criou?

E então a minha mãe luta,
e para continuar, 
vem se matando.

Já não esconde a depressão,
que nem aceita que tem.
Tenta ajudar a todos a todo momento,
mas ninguém a ajuda.

O filho deprimido e inútil.
A filha, só inútil,

E a criança a chorar de dor, 
por nascer em meio a nós. 

Me pergunto como as coisas chegaram a esse ponto.

Minha esperança

Acordei com ódio do mundo,
um daqueles dias em que parece que o diabo 
é quem governa,
e tudo irrita.

Meus remédios para dormir estão acabando
e essa é uma das piores coisas 
que poderiam acontecer nessa
vida maldita.

Não quero sair do quarto, 
viro de um lado pro outro,
sem olhar as mensagens, 
ignorando a fome.

Só não quero ver ninguém.
Porque a cara deles me irrita.

Queria dormir e acordar daqui a três dias,
ou nem acordar, seria ainda melhor

Aos poucos, as coisas vão se desfazendo.
Sem dinheiro pros remédios, ou pro café,
a TV estragando e ameaçando as séries

o único maldito divertimento
nessa vida desgraçada

ameaçado por riscos de uma tela que,
como a vida, anuncia que em pouco tempo
deixará de funcionar,

como as pessoas.

A maioria delas não serve pra nada.

Eu não sirvo pra nada.
Imenso de gordo, depressivo, reclamão. 
Enquanto isso, os jovens estúpidos vivem sorrindo
e chorando, com seus sentimentos à flor da pele,
escondendo a ridicularidade de suas existências patéticas.

Eu não sirvo pra nada.
Mas eles servem menos ainda.

E essa vida maldita continua. 

Querem que eu ria,
que eu continue,
enfrente.

Ridículos.

O há que que vale a pena enfrentar? 
Continuar a viver? 
Como aqueles moribundos nos hospitais
se agarrando ao último fiapo de vida?

Não vejo nisso beleza ou heroísmo.

Abraçaria a morte como uma velha amiga.
Mas essa desgraçada parece rir da minha cara.

Gosto daqueles filmes de monstros gigantes,
como o Godzilla que salva o mundo destruindo duas cidades.
Não é que eu queira aquela destruição desesperadora
das enchentes, furacões e terremotos.

Eu sei que seria crueldade demais 
pra uma humanidade que não suporta a dor.

Mas me alegro com a ideia da destruição total,
como se aqueles idiotas líderes mundiais 
pudessem destruir o mundo com dois botões. 

Isso seria o que eu chamo de esperança.

Não quero saber de exames, 
de crianças chorando,
de irmãs inúteis.

Gosto de olhar para as fotos dos meus ídolos.
Mas ninguém liga pra eles.
Enquanto eu fico feliz, 
maybe they just don't give a damn.

Mas continuo algo feliz, 
porque a beleza atenua, 
ainda que só um pouco,
o ódio que acordou comigo,
amaldiçoando o mundo.

Começou outro movimento 
de uma das sinfonias selvagens do Mahler.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

A hora inútil da vigília

I

As coisas não saíram como o plano,
não por destino ou força superior;
foi só meu cérebro em torpor,
traindo o gosto antigo, quase humano.

Faltou-lhe a química do entusiasmo,
substância mínima do querer ser;
negou-se o corpo ao próprio prazer
e a mente ao reconhecimento espasmo.

Sabotei-me em silêncio consentido,
um eu contra outro eu dividido;
relatório existencial sob luz fraca.

E assim fiquei, inerte sobre o chão,
ouvindo o pulso frouxo da intenção
que nasce e morre antes que se destaque.

II

Lembranças retornaram em surdina:
violão, álcool e riso juvenil;
vozes que amei — e o gesto hostil
de quem feriu com mão quase divina.

Sentavam-se em redor da velha mesa,
fantasmas de um afeto já distante;
hoje são pó disperso e errante
em lados opostos da mesma tristeza.

Se conto os grandes nomes da amizade,
quantos resistem à atualidade?
Quantos ainda vejo todo dia?

E a noite envolve o quarto em lento fio,
como se o tempo fosse um desafio
que à própria ausência me conduzia.

III

Então me deito, exausto de insistir
naquilo que já foi contentamento;
meu próprio ser se esvai no pensamento
que não consegue mais se decidir.

Sobe no ar o óleo perfumado,
fumaça tênue em espiral sombria;
a chuva tange a telha rubra e fria,
de barro e musgo antigo saturado.

O som ressoa opaco sobre o teto,
como um tambor monótono e secreto
marcando a hora inútil da vigília.

No quarto ao lado um choro principia;
a vida insiste — e em mim não principia.

nenhum sentido.

IV

Se algum dia já tive um sonho,
assim como quem acorda
apressado, atrasado pro trabalho,
eu não consigo me lembrar.

Penso nisso no quarto escuro 
depois que a casa inteira já dormiu

Uma das poucas obrigações de um homem 
é ter vontade
para realizar alguma coisa,
e um pau decente,
eu falhei em ambos.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Requiem em Sete Dias

No meu aniversário de trinta e um anos

I

Nasceu numa segunda,
sem ânsia de romper as sombras do começo,
quedou-se à beira escura do primeiro excesso;
negou-se ao grito inaugural da vida imunda.

Recusou-se a rasgar o ventre que o gerara,
e alheio ao sangue cálido do alvorecer,
deixou que mãos de aço o viessem colher
num gesto atroz que a própria carne dilacera.

Vieram com o bisturi, lâmina severa,
impor-lhe a claridade abrupta e fria;
trouxeram-no à luz que jamais pedira.

Talvez chovesse já sobre a terra inteira,
talvez o mundo o recebesse em fria teia,
forte como hoje.

II

Foi batizado numa terça,
imerso em águas de sentido estranho,
marcado por um nome que lhe era tamanho,
lançado a um mundo cuja pressa o dispersa.

Não compreendia a febre das avenidas,
nem o motivo oculto de tanta corrida;
via nos outros uma ânsia incontida,
um querer que feria suas medidas.

Buscava entender o que ninguém dizia,
e quanto mais buscava, menos via;
crescia-lhe a distância e a estranheza.

E sobre a fronte ungida e silenciosa
pairava uma pergunta dolorosa,
forte como hoje.

III

Se casou numa quarta,
não com amado outrora prometido;
fora por Antonio esquecido,
e por Valentim deixado à parte.

Unira-se à fiel desesperança,
única esposa que lhe fora constante;
no peito a carregava, vigilante,
como quem vela a própria lembrança.

Não houve cântico, júbilo ou aliança,
apenas um pacto íntimo e sombrio;
um leito frio, sem promessa ou brio.

E desse enlace estéril e tardio
brotava a chuva sobre o vazio,
forte como hoje.

IV

Adoeceu numa quinta,
ao ver que nunca fora parte inteira;
toda aproximação era fronteira
que cedo ou tarde em decepção se finda.

Cada gesto trazia sua ruína,
cada afeto ocultava uma ferida;
recaía sobre a alma combalida
a antiga dor que sempre o domina.

Num jovem já cansado coração
crescia a febre da desilusão;
chovia dentro mais que fora.

E a noite, espessa como véu tardio,
lavava-lhe o peito em calafrio,
forte como hoje.

V

Piorou na sexta,
chegando aos trinta e um já enfastiado;
sentia-se de há muito exilado
de um mundo que jamais lhe fora festa.

Levava cada dia como peso antigo,
com a mesma recusa do primeiro instante;
esperara, outrora, hesitante,
que o rasgassem ao ventre sem abrigo.

Não quisera sequer metade disso:
nem do viver o áspero compromisso,
nem da esperança a chama breve.

Firmou-se, então, numa convicção severa,
como sentença fria que o espera,
forte como hoje.

VI

Morreu no sábado,
cansado de tudo e de todos;
sem arrependimentos ou modos,
jazendo só, num quarto abafado.

Não houve parentes à beira do leito,
nem amigos a velar-lhe o sono;
apenas o suor, febril abandono,
manchando a cama em silêncio estreito.

Depois de noites longas de delírio,
entre febre, chuva e lento martírio,
cessou-lhe o fôlego exausto.

E o mundo, alheio ao seu cansaço,
seguiu sem notar-lhe o passo,
forte como hoje.

VII

E foi enterrado no domingo,
finalmente entregue ao grande silêncio;
cobriram-no com terra e esquecimento denso,
como quem sela um gesto antigo.

Pás de chão caíam-lhe sobre o peito
como respostas mudas e tardias
às perguntas que fizera em seus dias
vividos sem vontade ou jeito.

Mas já não ouvia o som do mundo,
nem via o céu turvo e profundo;
partira sem testemunha ou alarde.

Ninguém notou-lhe a última viagem,
nem a chuva sobre a paisagem,
forte como hoje.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Espetáculo e pertencimento: a construção do sensível nas comunidades carismáticas III

Leia a parte II aqui

Do ponto de vista crítico, o desafio é discernir entre experiência espiritual autêntica e engenharia emocional. Não se trata de negar a possibilidade de ação do sagrado em ambientes intensos, mas de reconhecer que a emoção coletiva pode ser amplificada por técnicas conhecidas de condução de grupo e vem sido amplamente usada para atrair jovens sem nenhuma defesa, pois não possuem conhecimento e nem maturidade eclesial para tal. O que nos traz de volta ao ensinamento do Prof. Olavo, ao afirmar que a atual geração é, intelectualmente, atacada numa idade mais tenra, que a impede de ao menos saber que pode ser enganada.

O produto dessa monstruosidade são jovens que se tornam líderes, coordenadores e até pregadores sem conhecimentos mínimos de doutrina e com uma reduzida capacidade de articular a experiência e a catequese. Nos shows, grupos jovens e outros, aprendem a macaquear o jargão de uma ou várias formas de falar que, na falta de um domínio razoável da língua geral e literária, compreendem de maneira coisificada, quase fetichista, permanecendo quase sempre insensíveis às nuances de sentido e incapazes de apreender, na prática, a diferença entre um conceito e uma figura de linguagem. Em geral não têm sequer o senso da “forma”, seja no que leem, e muito menos no que falam. Doutrina? Nunca nem vi.

Aplicado em escala nacional como tem sido, as novas comunidades resultaram numa espetacular democratização da inépcia doutrinária, que hoje se distribui mais ou menos equitativamente entre muitos jovens católicos. Nunca se reuniu tantos jovens, e nunca se conheceu tão pouco o que é a Igreja. 

Ao adotar linguagens performáticas e imersivas, reabre essa tensão entre carisma e instituição, experiência e discernimento. Ainda mais além, o dano não fica limitado apenas aos jovens, mas já se enxerga em toda hierarquia eclesial brasileira. Não há um só evento, Missa ou encontro, com exceção dos praticamente insípidos movimentos tradicionais fechados em si mesmos, que não se escute uma de suas músicas ou que algum momento de exagero sentimental seja explorado e destacado como centro e ápice da vida cristã, malgrado até mesmo a celebração da Eucaristia. 

Nas adorações, a presença do Santíssimo Sacramento é puramente ornamental, retire-o e qualquer um desses momentos poderia facilmente se passar numa igreja protestante, sem qualquer embasamento ou aprofundamento teológico, mas com essa retórica sugestiva e pérfida. Nos Cercos de Jericó, Encontros de Adolescentes com Cristo (EAC), Jovens com Cristo (EJC), Casais com Cristo (ECC), os cursos promovidos pela Escola de Evangelização Santo André (EESA), qualquer grupo de jovens ou outras invencionices, porque além de brega e heréticas essas iniciativas também são dotadas de uma ferina criatividade, todos tem em comum esses elementos sugestionáveis para disfarçar a ausência de espiritualidade numa forma onde se apresenta, porca miséria, como a única espiritualidade possível.

A sociologia e a antropologia da religião interpretam esses estados não apenas como “indução”, mas como construção ritual. Victor Turner e Émile Durkheim, por exemplo, analisaram como rituais coletivos podem gerar aquilo que Durkheim chamou de “efervescência coletiva”: um estado de excitação emocional e sensação de transcendência que emerge da participação sincronizada em gestos, cantos e movimentos. Nesses contextos, o ambiente sensorial, música, luz, ritmo, não é mero acessório, mas parte constitutiva do rito. Ele organiza o tempo, marca transições e cria uma atmosfera na qual os participantes se percebem inseridos em algo maior que si mesmos. O transe, nesse sentido, não é apenas psicológico, mas socialmente mediado.

Um exemplo simples, porém claro e lamentável, é a música "Acaso não sabeis" da já referida Colo de Deus que, não só é cantada em todo e qualquer momento mariano como substituiu de uma só vez os belíssimos hinos dedicados à Imaculada Conceição, que já não são cantados nem mesmo nas paróquias que possuem tão honroso título. No entanto, como é de fácil execução (já que a mesma frase é repetida até a exaustão), o fato de uma participação maior da assembleia traz a ideia, falsa por sinal, daquela participação ativa dos fiéis que pediu o Concílio Vaticano II. No entanto, com o completo esvaziamento do significado do dogma da Imaculada Conceição, os fiéis não estão participando efetivamente simplesmente pelo fato de que não se trata mais de um ato piedoso e cristão, mas apenas de uma efusão coletiva, conforme o parágrafo anterior.

Talvez a pergunta mais profunda não seja se essas comunidades são legítimas, muitas o são canonicamente, mas que tipo de subjetividade religiosa estão formando. Uma fé capaz de subsistir no silêncio, na aridez e na rotina sacramental ordinária? Ou uma fé dependente de picos emocionais e ambientes cuidadosamente construídos para criar um público fiel e ignorante? A nós, resta clamar:

Piedade, ó Senhor, tende piedade! (Sl 50)


REFERÊNCIAS

DOCUMENTOS DO MAGISTÉRIO E ORGANISMOS DA SANTA SÉ

BENTO XVI. Exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis. São Paulo: Paulinas, 2007.

CONSELHO PONTIFÍCIO PARA OS LEIGOS. Renovação Carismática Católica: estatutos do ICCRS. Vaticano, 1993.

CONSELHO PONTIFÍCIO PARA OS LEIGOS. Iuvenescit Ecclesia: carta aos bispos sobre a relação entre dons hierárquicos e carismáticos. Vaticano, 2016.

JOÃO PAULO II. Christifideles Laici: exortação apostólica sobre a vocação e missão dos leigos na Igreja. São Paulo: Paulinas, 1989.

JOÃO PAULO II. Discurso aos participantes do encontro internacional da Renovação Carismática Católica. Vaticano, 30 maio 1998.

PAULO VI. Discurso aos participantes da Conferência Internacional da Renovação Carismática. Vaticano, 19 maio 1975.

DOCUMENTOS DA CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB)

Orientações pastorais sobre a Renovação Carismática Católica. Brasília: CNBB, 1994. 

Documento 53: Igreja e novos movimentos. Brasília: CNBB, 1994. 

Documento 62: Missão e ministérios dos leigos e leigas. Brasília: CNBB, 1999.

OBRAS SOBRE RCC, MOVIMENTOS E CATOLICISMO CONTEMPORÂNEO

BOFF, Leonardo. Igreja: carisma e poder. Petrópolis: Vozes, 1981.

CARRANZA, Brenda. Catolicismo midiático: a Renovação Carismática Católica e a comunicação no Brasil. Aparecida: Santuário, 2011.

MARIZ, Cecília Loreto. Catolicismo no Brasil contemporâneo: reavivamento e diversidade. Rio de Janeiro: FGV, 2006.

PRANDI, Reginaldo. Religião e sociedade no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

SANCHIS, Pierre. Catolicismo: unidade religiosa e pluralismo cultural. São Paulo: Loyola, 1992.

RANAGHAN, Kevin; RANAGHAN, Dorothy. A renovação carismática católica. São Paulo: Loyola, 1972.

SUENENS, Léon Joseph. Uma nova efusão do Espírito. São Paulo: Loyola, 1975.

WAGNER, Peter. A igreja e os movimentos carismáticos. São Paulo: Vida Nova, 1993.

SOCIOLOGIA, PSICOLOGIA E ANTROPOLOGIA DA RELIGIÃO / EXPERIÊNCIA COLETIVA

DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu. In: FREUD, Sigmund. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 2011.

HILGARD, Ernest R. Divided consciousness: multiple controls in human thought and action. New York: Wiley, 1977.

HULL, Clark L. Hypnosis and suggestibility. New York: Appleton-Century-Crofts, 1933.

LE BON, Gustave. Psicologia das multidões. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2008.

TURNER, Victor. O processo ritual: estrutura e antiestrutura. Petrópolis: Vozes, 1974.

WESSINGER, Catherine (org.). The Oxford handbook of millennialism. Oxford: Oxford University Press, 2011.

XENITIDIS, K.; CAMPBELL, J. (org.). Music and altered states of consciousness. London: Routledge, 2018.

OUTRAS OBRAS

CARVALHO, Olavo de. O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Rio de Janeiro: Record, 2013.

Espetáculo e pertencimento: a construção do sensível nas comunidades carismáticas II

Parte I aqui

A utilização de ambientes controlados para favorecer estados de transe, música alta e repetitiva, iluminação indireta, condução verbal sugestiva e sincronização coletiva de gestos, é um fenômeno estudado há décadas por psicólogos, antropólogos e teóricos da religião. Em termos gerais, tais elementos não produzem automaticamente um “transe” no sentido clínico estrito, mas criam condições propícias para estados alterados de consciência, intensificação emocional e maior sugestionabilidade. O ambiente sensorial funciona como um campo de modulação: reduz estímulos externos concorrentes, aumenta a imersão e favorece a concentração em uma narrativa ou experiência compartilhada. O resultado é uma espécie de foco atencional coletivo que pode ser interpretado, pelos participantes, como experiência espiritual, catarse estética ou integração grupal.

Na psicologia experimental, a noção de sugestionabilidade é central. Desde os estudos clássicos de hipnose no século XIX e início do XX, observou-se que a repetição rítmica, a monotonia sonora e a condução verbal podem facilitar a entrada em estados de absorção profunda. Clark L. Hull, em seus estudos sobre hipnose, já indicava que o ambiente e a expectativa do participante desempenham papel tão importante quanto a técnica do condutor. Mais tarde, Ernest Hilgard desenvolveu a teoria da “dissociação neodissociativa”, sugerindo que, em certos estados de foco intenso, a consciência pode se organizar em camadas, permitindo que sugestões externas sejam experimentadas com menor resistência crítica. Em ambientes coletivos, essa dinâmica é amplificada: a percepção de que “todos estão vivendo algo” reforça a disposição individual de entrar no mesmo estado.

Nos eventos da RCC, e nos das novas Comunidades Eclesiais (sobre as quais falarei a frente) um padrão é facilmente observável: o Santíssimo Sacramento em evidência, pouca luz (geralmente semelhantes as usadas em casas de show), música intensa e repetitiva (a maioria das composições possuem poucas linhas mas são executadas até mesmo por horas inteiras juntamente com a "pregação").

A psicanálise e a psicologia das massas também oferecem ferramentas interpretativas relevantes. Em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), Freud argumenta que, em contextos grupais intensos, o indivíduo tende a suspender parte de sua autonomia crítica e a se identificar com a figura do líder ou com o grupo como um todo. Essa identificação produz um sentimento de coesão e pertencimento que pode ser vivido como êxtase ou elevação. Gustave Le Bon, ainda no final do século XIX, descrevia a multidão como propensa a estados emocionais contagiosos, nos quais a sugestão e a imitação se propagam rapidamente. Embora suas formulações sejam hoje consideradas simplificadoras, a ideia de contágio emocional permanece influente: em ambientes com música envolvente, iluminação específica e narração sugestiva, a resposta emocional de um indivíduo tende a reforçar a dos demais, criando um circuito de retroalimentação. 

Os fenônemos da "Oração em Línguas" ou do "Repouso no Espírito Santo" parecem encaixar-se diretamente nessa descrição, e não num fenômeno místico de fato pois, como dito por inúmeros santos místicos, como Santa Tereza D'Avila, Catarina de Sena, João da Cruz, Teresinha do Menino Jesus, esses são sempre iniciativas divinas, não podendo, por pessoa sem longa caminhada espiritual, serem provocados à revelia. 

Do ponto de vista clínico e fenomenológico, convém evitar reduções simplistas. Estados de transe ou absorção podem ser vividos como profundamente positivos: experiências estéticas intensas, sensação de comunhão, catarse emocional ou percepção de transcendência. A questão central não é a existência desses estados, mas o contexto em que ocorrem, o grau de autonomia dos participantes e a abertura à reflexão crítica. Ambientes com música envolvente, luz indireta e condução verbal podem facilitar a imersão e a sugestão, mas sua interpretação dependerá do enquadramento cultural, religioso ou artístico. Em alguns casos, serão vistos como práticas legítimas de espiritualidade ou expressão coletiva; em outros, como técnicas de persuasão intensiva, sendo esta a que se observa sem nenhuma dificuldade atualmente. 

Não fui o único a perceber isso, consciente ou incoscientemente e, aos poucos, me aproximar de uma espiritualidade mais fundamentada na Tradição milenar da Igreja, como a carmelita ou a franciscana. mas os números de adeptos da RCC como movimento vem diminuindo. No entanto, isso não significa que ela vem enfraquecendo, pelo contrário, ela apenas vem mudando de nome e se vascularizando.

Hoje, no Brasil, pode-se dizer que Renovação Carismática Católica, institucionalmente identificada como tal, ocupa um lugar ambíguo e decisivo. Por um lado, revitalizou paróquias, atraiu jovens, produziu uma cultura musical e devocional vibrante e ofereceu sentido a milhões de fiéis. Por outro, levanta questões sobre o equilíbrio entre emoção e formação, experiência e tradição, identidade católica e influência pentecostal. A RCC permanece como uma força que reconfigura o catolicismo brasileiro por dentro: ao mesmo tempo integrada e inquieta, institucional e efusiva, capaz de reacender a chama da fé e, igualmente, de expor as fraturas e disputas que atravessam a Igreja no Brasil. É nesse campo de tensões, entre carisma e estrutura, fervor e discernimento, que se desenrola sua história recente, ainda em aberto e longe de qualquer síntese pacífica.

Como dito, a RCC se mantém como força organizadora e formadora do pensamento católico, ainda que sob nomes que atraem uma geração mais nova. O que nos leva, novamente, ao Prof. Olavo. Embora ele esteja falando especificamente da educação, pode ser aplicado totalmente ao nosso âmbito católico.

Quando Olavo fala do Imbecil Coletivo, ele o define como “um grupo de pessoas de inteligência normal ou mesmo superior que se reúnem com a finalidade de imbecilizar-se umas às outras” isto é: "indivíduos inteligentes, razoavelmente cultos, apenas corrompidos pela autointoxicação ideológica e por um corporativismo de partido que, alçando-os a posições muito superiores aos seus méritos, deformavam completamente sua visão do universo e de si mesmos."

Essa definição já não se aplica, nem aos intelectuais que se refere Olavo, nem aos carismáticos de nossa geraçao, especialmente pós 2010, mais ou menos. Até então, a RCC promvia encontro com tamanha frequência que, alguma formação era recebida, ainda que não nomeadamente mas, por vezes, por mimetização. Através da imitação, os membros aprendia a pregar, citar a Bíblia, conduzir grupos de oração, macaqueando os seus líderes.

Assim como a partir dos anos 1980, a elite esquerdista tomou posse da educação pública, aí introduzindo o sistema de alfabetização “socioconstrutivista”, concebido por pedagogos esquerdistas como Emilia Ferrero, Vigotsky e Paulo Freire para implantar na mente infantil as estruturas cognitivas aptas a preparar o desenvolvimento mais ou menos espontâneo de uma cosmovisão socialista, praticamente sem necessidade de “doutrinação” explícita. No campo religioso, hoje, multiplicam-se apenas a ação ritual, com brevíssimas palavras de um condutor. Não há a formação, senão no campo mais interno, enquanto o público externo recebe apenas o que internamente foi decidido em doses generosas de sugestão e fenômenos que facilmente poderiam ser classificados como histeria coletiva.

Quando comparamos as gerações, podemos observar o fundo comum e a diferênça estética adaptada ao público. Por isso nao quis usar a expressão "fiel", pois o fiel exerce sua fidelidade justamente ao ensinamento dos Apóstolos, transmitido pela Igreja por meio do Magistério autêntico e da Tradição, e não segue apenas essa ou aquela mudança visual ou musical desse ou daquele movimento.

Se lembrarmos que as Novas Comunidades surgem, em grande parte, como desdobramento da Renovação Carismática Católica a partir dos anos 1970–80. A Canção Nova (fundada por Pe. Jonas Abib, em 1978) e a Shalom (fundada por Moysés Azevedo, em 1982) são exemplos paradigmáticos: comunidades com estatuto reconhecido pela Santa Sé, forte vida comunitária, missão evangelizadora e ênfase na experiência pessoal com o Espírito Santo, ainda que questionáveis. 

Nessas comunidades de primeira geração, há um esforço de institucionalização relativamente sólido: formação doutrinária sistemática, inserção paroquial (ainda que com tensões), reconhecimento canônico e um discurso de fidelidade ao magistério. Mesmo assim, críticos apontam desde cedo um deslocamento do centro da vida católica, da liturgia sacramental e da vida paroquial ordinária, para experiências intensivas de oração, música, pregação e convivência comunitária. Em termos sociológicos, isso já representava uma mudança de eixo: a religião vivida como experiência afetiva e performática, não apenas como pertença sacramental e doutrinária. A devoção se tornou algo legado ao movimento e não à Igreja que ele fazia parte. o Grupo de Oração enchia igrejas tanto ou mais que as Missas.

Quando avançamos para comunidades mais recentes, Colo de Deus, Samaria, Arte Deus, Theotokos, entre outras, percebemos uma segunda geração marcada por forte influência estética, midiática e geracional. Essas comunidades dialogam com uma juventude formada no ambiente digital, em cultura de eventos, festivais e linguagem emocional direta. A diferença não é apenas cronológica, mas de intensidade sensorial e simbólica.

Se a Canção Nova e a Shalom se estruturam em torno de pregação, formação e vida comunitária relativamente estável, comunidades como a Colo de Deus enfatizam fortemente experiências de imersão: retiros de impacto, música contínua, iluminação cênica, narrativas testemunhais, momentos de forte descarga emocional. A espiritualidade não é ensinada; ela é encenada, performada e sentida corporalmente. O espaço litúrgico ou para-litúrgico se aproxima, não raramente, de um ambiente de espetáculo devocional cuidadosamente coreografado.

Comparações com shows de rock, festivais ou grandes eventos esportivos ajudam a ilustrar o fenômeno em chave secular. A música alta e repetitiva, a iluminação coreografada e a presença de um performer carismático criam um campo de intensa sincronização emocional. O público canta em uníssono, move-se em ritmo comum e experimenta uma sensação de unidade que muitos descrevem como “arrebatadora”. A psicologia social fala, nesses casos, em sincronização comportamental e ressonância emocional. Estudos contemporâneos em neurociência social indicam que a sincronia de movimentos e sons pode aumentar a liberação de neurotransmissores associados ao prazer e ao vínculo social, reforçando a coesão do grupo e a intensidade da experiência.

No entanto, a mesma lógica pode assumir contornos problemáticos quando associada a liderança autoritária ou a narrativas fechadas. O caso de Jonestown, em 1978, frequentemente citado em estudos sobre dinâmica de grupos e seitas, exemplifica como ambientes altamente controlados, como isolamento físico, rituais coletivos intensos, repetição de discursos e música, que podem reforçar a coesão interna e reduzir a capacidade crítica dos participantes. É importante notar que eventos extremos como esse resultam de múltiplos fatores: carisma autoritário, isolamento social, manipulação psicológica prolongada e contextos históricos específicos. Ainda assim, eles ilustram como a combinação de ambiente sensorial, liderança sugestiva e dinâmica de grupo pode intensificar a adesão emocional e cognitiva.

É aqui que o diálogo com a reflexão sobre sugestionismo e ambientes indutores de transe se torna relevante. A psicologia da religião e a sociologia dos movimentos carismáticos já observaram que ambientes com música repetitiva, iluminação indireta, condução verbal sugestiva e forte coesão grupal podem produzir estados alterados de consciência. Esses estados não são necessariamente patológicos mas podem ser interpretados, dentro do campo religioso, como experiências  de perigosas de êxtase, ou simulacros de consolação ou conversão. O problema surge quando a intensidade emocional se torna o principal critério de autenticidade espiritual. No caso da Colo, os seus membros e simpatizantes parecem incapazes de reconhecer que possa existir uma Igreja que não seja a comunidade. 

Em comunidades mais estruturadas e antigas, como os Arautos do Evagelho (embora a comparação seja brutalmente injusta) há mecanismos institucionais de regulação: direção espiritual, formação doutrinária longa, integração com a vida sacramental ordinária. Em comunidades mais recentes e menos institucionalizadas, a experiência pode tender a se tornar autojustificadora: a emoção intensa é tomada como sinal inequívoco da ação divina. Isso cria um terreno ambíguo, onde a experiência religiosa e a indução psicológica podem se confundir. É uma grande profecia autorealizável: a comunidade promete que o alvo vai se sentir bem e, quando ele participa de um culto projetado especificamente para isso, ele acredita ser uma ação divina, quando na verdade foi apenas o cumprimento de uma série de técnicas aplicadas com um objetivo específico, como nos detemos há pouco.

No caso específico da Colo de Deus, muitos observadores notam a centralidade da estética e da afetividade. A comunidade constrói um ambiente fortemente simbólico: linguagem de intimidade com Deus, música contínua, iluminação que favorece o recolhimento emocional, pregações com tom confessional e catártico. Há uma pedagogia da experiência: primeiro sentir, depois compreender. Esse modelo dialoga profundamente com a sensibilidade contemporânea, marcada pela busca de pertencimento e pela necessidade de experiências intensas num mundo percebido como árido e fragmentado. 

Por um lado, isso pode ser lido como autêntico espírito renovador: a Igreja encontrando novas linguagens para alcançar uma geração que já não responde à catequese tradicional. Por outro, levanta questões eclesiológicas e psicológicas. Quando a experiência religiosa se estrutura em torno de ambientes altamente controlados e emocionalmente carregados, surge o risco de dependência do evento e da comunidade como mediadores quase exclusivos da experiência de Deus. A fé pode se tornar inseparável do clima sensorial que a produz.

A comparação com a RCC é inevitável. A Renovação, em sua origem, também valorizava a experiência do “batismo no Espírito”, a oração espontânea e a música. Mas, ao longo das décadas, passou por processos de institucionalização e correção interna, muitas vezes incentivados pela própria hierarquia. Por isso foi "minguando" como tal mas, na realidade, foi se adaptando e migrando, transmutando nas comunidades mais atuais. As novas comunidades, sobretudo as mais recentes, ainda atravessam esse processo de maturação mas que dificilmente vão atingir pois nao possuem consigo nenhum subsídio doutrinário sólido o bastante para tal. Algumas caminham para maior integração eclesial; outras mantêm uma lógica mais autônoma, centrada na própria identidade carismática. Pode-se tecer várias críticas a Canção Nova e a Shalom, por exemplo, mas não se pode questionar a profunda espiritualidade do Mons. Jonas Abib e sua fidelidade a Igreja, lhe rendendo justamente o título de monsenhor.

Em vídeos vazados nas redes sociais, é possível ver um vocalista da Colo de Deus chamando Nosso Senhor Jesus Cristo de "gato de balada" (sic!) e expressões como "vou te pegar" além de expressões inapropriadas para a Bem-aventurada Virgem Maria e Santa Terezinha numa execrável alegoria ao chamado divino. O episódio dividiu opiniões, claro, mas a comunidade não pareceu se importar, ao contrário, o teor de suas açoes permanece o mesmo, sob desculpa de ser necessário usar de um linguagem jovem. Na verdade, o que parece, dada a quantidade de membros que se desligam dessas comunidades para fundarem outras, ao modo protestante de ser, percebemos o que realmente importa: o palco e os holofotes. 

Com efeito,  Hugo Santos, o fundador histórico da Comunidade Católica Colo de Deus, que iniciou seu o ministério por volta de 2006-2008, se desligou da comunidade em 2021 e atualmente segue à frente da Comunidade Samaria. Flávio, o protagonista desse episódio grotesco também já deixou a comunidade. Que tal ato tenha passado sem uma ação forte e, no mínimo, a exigência de uma retratação pública por parte do pregador, demonstra uma fraqueza do Arcebispo de Brasília, onde aconteceu o evento, e uma displicência do clero em permitir que os jovens continuem consumindo os produtos nefastos dessa comunidade. A ação esperada, senão de excomunhão por blasfêmia, deveria, no mínimo, a da extinção da comunidade e do silêncio obsequioso de todos os seus membros notórios, dado o alcance de sua pregação e proporcional estrago que ela pode causar.

A vulgarização da fé produz uma "evangelização" desse tipo. Mas onde vamos chegar? Em nome de uma errada compreensão sobre evangelização se vende a fé pelos centavos da cultura modernista, que cada vez mais se torna inimiga do Evangelho de Jesus Cristo, que não é gato coisa alguma! Devemos banir a transposição da linguagem vulgar da cultura para dentro do Evangelho, isso não nos incultura, mas nos faz negociadores irresponsáveis da fé cristã. A tradução bíblica não autoriza a amálgama de um Jesus adocicado e de mãos dadas com nossas neuroses perturbadoras. 

O que é evangelização? É fazer evento para distrair ao som de músicas do momento e de frases carregadas de clichês? Tornando-nos reféns da ditadura do sentimentalismo, amarrando-nos nos passos contrários aos passos do caminho de cruz. Hoje se bate qualquer lata em nossos eventos "católicos" com recheio da forma protestante de se falar de Jesus Cristo e se diz que é evangelização. Banalizar a Pessoa de Jesus, e não somente o seu Nome, nunca levou de ninguém ao lugar seguro da fé. Voltemos às fontes católicas e constataremos que o que mais fazemos são reproduções de devaneios fantasiosos e pomos o nome de evangelização.

Continua