terça-feira, 21 de abril de 2026

Assuntos de Liturgia


Que a CNBB é um órgão que há muito ocupa-se de basicamente falar ao vento dando voltas como farrapos, não é nenhuma novidade para nenhum fiel atento. Não foi uma surpresa quando, durante a 62° Assembleia dos Bispos do Brasil, publicaram uma reflexão acerca dos "Assuntos de Liturgia." Antes melhor seria se continuassem em sua empáfia ignorância do assunto, num caso claro em que, optando pelo silêncio parecendo desconhecer o assunto, preferiram falar e dar a certeza que o desconhecem. 

Como não poderia ser diferente, o apelo à obediência é sempre tomado como pilar onde sustentam, porca miséria, as suas desobediências. Disfarçada de uma suposta preocupação com a evolução do permanente caminhar da reforma litúrgica proposta pelo Concílio Vaticano II, em detrimento de ambos extremos, seja o conservadorismo seco e estéril tanto como a criatividade pessoal que tem, em muitas comunidades, preferência sobre a comunidade celebrante e a fecundidade que a celebração tem sobre esta. Bem, como é fácil perceber, a nota na verdade apenas ataca, com aquele ar de superioridade débil, as comunidades conservadoras, enquanto incentiva, as invencionices da nossa "liturgia brasileira."

"Sob o influxo do Movimento Litúrgico, reconheceram que a forma
ritual, então prevista nos livros litúrgicos, já não favorecia suficientemente o
envolvimento direto, consciente e efetivo dos fiéis. Do mesmo modo, a
ministerialidade então vigente não expressava de maneira adequada a riqueza
da pertença eclesial em sua complexa dinâmica de comunhão, como
manifestação viva da diversidade de membros que compõem o Corpo de Cristo."

Não há esforço algum em afirmar que a liturgia que, por tantos séculos, formou e alimentou a vida de tantos santos, conhecidos ou não, simplesmente, de um dia para o outro, tornara-se obsoleta e, até mesmo, prejudicial à vida da Igreja. Aqueles que, em união como pastores de um só rebanho, deveriam defender, ao custo de suas próprias vidas, como tantos outros fizeram desde o princípio da Igreja, agora a atacam como se todos os séculos estivessem errados e então, depois de dois mil anos caminhando na escuridão de uma ritualística fechada, o Espírito do Concílio, desceu sobre nós despertando então a dinâmica manifestação do Corpo de Cristo.

Apelando ao pontificado do Papa Francisco, e seus esforços para uma celebração efetivamente participativa, não no sentido que aqui entende-se, de que todos devem fazer algo, o que multiplica nas nossas paróquia cada vez mais o crescimento de sub-casta sacerdotal, os assim chamados ministros. Da comunhão (que, não raramente, atuam como acólitos, destruindo uma das mais ricas fontes de vocações da Igreja), da acolhida (que nada mais fazem do que dizer "bom dia", sem nenhum acolhida verdadeira na comunidade) e outros que, sob a desculpa de ajudar o ministério sacerdotal, mais atrapalham do que ajudam.

Voltando ao Papa Francisco, que várias vezes apelou para uma formação que efetivamente colocasse a comunidade ciente da celebração que participam, arrogam para si, não sem razão, a primazia pelo ensino, discernimento e acompanhamento das nossas equipes de liturgia, seguindo, é claro, o Guia Litúrgico-Pastoral da CNBB. Bem, mas os senhores bispos não o fazem, e creio que realmente é melhor que não o façam, se a liturgia aqui definida for justamente a que, sob pretexto de inclusão, apela ao pauperismo simplista (sim, o gerúndio se faz necessário) e torna por transformar nossas assembleias em teatros, mimetismo de religiões afro ou protestantismos, numa massa amorfa que já não se parece mais com nada, mas que acolhe a todos, e confunde a todos igualmente. 

Não esquecem de atacar também, embora sem citar nomes como fizeram numa nota de cunho político poucos anos atrás, por ocasião das eleições presidenciais, o crescente movimento formativo, encabeçado por leigos que, cansados dessa realidade, buscaram nas fontes puras da Tradição, para usar a expressão de São Pio V, o que de fato significa celebrar de modo fecundo. 

"Contudo, essas mesmas comunidades veem-se também confrontadas com
critérios identitários estranhos a esse projeto eclesial, difundidos por pessoas e
grupos que atuam como formadores de opinião e que acabam por interferir na
forma celebrativa de nossas assembleias. O chamado “personalismo identitário”,
que incide diretamente sobre as celebrações litúrgicas, tende, por vezes, a
obscurecer a gratuidade da graça e a primazia da ação divina."

Em tradução ao português isso significa que o movimento conservador fecha e torna a liturgia complexa demais para o povo, não que os desmantelos que se multiplicam mais e mais não o façam, claro. Apenas o tradicional é prejudicial. A reflexão até cita, de passagem, os exageros feitos em nome da inculturação e da inclusão. Mas o faz de modo a não parecer tendenciosa ao leitor mais desatento. Não que um documento de doze páginas em linguagem formal que fala sem dizer claramente o que se pretende dizer, tenha algum alcance. Particularmente conheço bem poucos leigos, que não sejam próximos ou estudiosos eles mesmos dos assuntos eclesiais, que sequer tomem conhecimento desses documentos. A própria Assembleia é uma incógnita. Que os bispos estão reunidos, todos sabem. O motivo? Ninguém faz ideia. Mas aqui temos um bom exemplo: estão reunidos para, arrogando-se mais Igreja do que dois mil anos de Igreja, atacar aqueles que tentam ser Igreja.

Segundo a nota, nossas equipes deveriam ser formadas para, cada vez mais, afastarem-se de toda e qualquer influência pré-conciliar. Como se já não bastasse as profundas modificações já sofridas nos livros litúrgicos. Defende, de modo sutil, que a liturgia pode ser adaptada (leia-se mutilada) ao público que a assiste, mas jamais pode adquirir o caráter solene e sacro que outrora nossos pais celebraram.

"Cabe às Equipes de Liturgia articular os esforços dos diversos ministérios
litúrgicos da comunidade, incluído o ministério da presidência, para que a Liturgia
seja vivida como momento fundante da fé e da identidade eclesial. Elas
cooperam, ainda, para que a celebração não se torne propriedade de ninguém,
mas permaneça claramente como ação de Cristo e da Igreja. Seu serviço se
distingue pela promoção de um estilo celebrativo fiel aos livros litúrgicos, atento à
índole, ao grau de formação, à cultura e à religiosidade do povo, evitando que as
celebrações se submetam a arbitrariedades pessoais ou a modelos estranhos à
reforma litúrgica e à eclesiologia conciliar, frequentemente difundidos de modo
acrítico nas mídias sociais."

O movimento conservador, ao menor litúrgico, se difundiu na internet especialmente após a luz que nos foi dada pelo Santo Padre, Papa Bento XVI, em sua "Reforma da Reforma." Aos poucos os livros tradicionais, os estudos aprofundados de vários elementos, como os movimentos arquitetônicos, o canto gregoriano, a polifonia sacra, e vários outros, são hoje parte do cotidiano de muitos de nós que buscam celebrar cada vez melhor, isto é, usando dos elementos que a Igreja, como Mãe e Mestra, nos ensinou e nos deu como instrumentos de santificação. 

"As Equipes de Liturgia podem tornar-se valiosas aliadas da
pastoral diocesana - cujo primeiro responsável é o bispo - contribuindo eficazmente
para prevenir interferências indevidas de práticas litúrgico-pastorais
desconectadas da realidade local e do projeto eclesial assumido pela Igreja."

Não precisa ser nenhum estudioso para entender o que se diz: não queremos que nenhum de vocês, com inclinações conservadoras, em qualquer grau, interfira na vida das nossas igrejas. Se há alguns parágrafos eles apelavam ao pontificado de Francisco, conhecido pelo acolhimento à diversidade (embora o conservadorismo também fosse excluído ali), nossos bispos defendem justamente que os conservadores não podem, de modo algum, interferir pois, como uma doença a ser combatida, somos profundamente prejudiciais para o projeto eclesial.

Ao passar então para uma defesa de um análise dos quatro principais documentos conciliares que culminam na reforma litúrgica. Criticam a ignorância desses mesmos documentos nos, já citados, grupos conservadores, ignorando eles mesmos que são os seus adeptos mais próximos que carecem de formação teológica sólida, em detrimento de uma formação sociológica que inverte a relação entre comunidade e Igreja, como é facilmente notar ao afirmarem que, somente após o Concílio Vaticano II "a Liturgia voltou a ser reconhecida como realidade constitutiva da Igreja e do próprio fundamento da sua fé, expressão viva do mistério celebrado, e não como simples ornamento ou elemento secundário da vida eclesial." Ignorando, portanto, total e completamente, a forma como era tratada a Liturgia.

Ornamento é, por definição, algo complementar ao essencial. Os brincos e colares são ornamentos da veste que cobre o corpo. Os cristais e quadros são ornamentos da casa que protege. Portanto, como pode um mero ornamento ter tomado tamanha proporção na vida da Igreja de tal modo que nada era tão difundido, incentivado, participado e tido como centro quanto a Santa Missa?

"A introdução de elementos pré-conciliares ou de criatividades individuais
desarticula a coerência da Liturgia e compromete o fluxo vivo da Tradição que os
livros litúrgicos, sob a legítima autoridade do Concílio, se propuseram a restaurar,
reconhecendo a celebração como a primeira e fundamental escola da fé. Tal
prática pode implicar na negação daquela Igreja-comunhão que a forma
simbólico-ritual é chamada a mediar e tornar visível por meio das palavras, dos
gestos, das preces, dos espaços, dos cantos e dos ministérios."

Talvez num deslize aqui o objetivo da nota se faz claro sem rodeios. Qualquer elemento tradicional não dialoga com a Igreja. Não há meio termo. Admite-se que a reforma total não só é absoluta como ainda está em caminhos de extinguir os resquícios que, inconscientemente, possam ter sido transmitidos. A Liturgia pré-conciliar é a lepra que deve ficar de fora da cidade que os bispos querem criar.

Numa nota em tom de superioridade afetada, o conservadorismo é, mais uma vez, ditado como o inimigo a ser derrotado. Como os fiéis não chegam a ler essas coisas, por falta de conhecimento ou estômago, após a Assembleia, nas formações litúrgicas seremos bombardeados com as orientações de nossos bispos, em defesa, mais uma vez, da autoridade episcopal que, existindo, se faz acima de qualquer crítica. E então, qualquer defesa da Fé em sua prístina transmissão tradicional, será posta como farisaísmo, contramão, retrocesso e qualquer outro adjetivo aos quais nossos formadores foram acostumados Que Deus tenha piedade da orfandade da Igreja no Brasil.

~

Disponível em: https://www.asli.com.br/restrito/img/downloadss/6a5f352e94d507d267f0bc4b0788eab0.pdf

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Apenas pessoas


“eles não são totalmente bons nem totalmente maus,
são apenas pessoas — e pessoas são um desastre.”  (Charles Bukowski)

Não é nada sério, apenas aquele cansaço depois de ouvir as vozes de muitas pessoas. E então eu me tranco no quarto, não só fingindo que não existem, mas me refugiando num lugar tão escuro e profundo que, em verdade, eles já não conseguem me encontrar.

Cansaço, de pedidos e mais pedidos. De crenças idiotas. De onde tiraram que a Colo de Deus pode salvar a Igreja se eles só podem perder e confundir? A crença permanente de que algo vai mudar. Não vai. Isso é só um expediente falsário usado para tranquilizar a mente que se apavora diante da realidade, crua como ela se aparece.

Choro de criança, mas os adultos são ainda piores.

"Sai daí!"

"Não mexa aí!"

"Volta aqui!"

"Desce daí"

E o som insuportável das musiquinhas que usam para acalmar a criança quando não querem elas por perto.

A guerra declarada contra a beleza. Bauhaus. Também me cansa. Não percebem que mergulham cada vez mais na depressão.

Ou talvez seja apenas eu que acredito que o Belo é sim uma das coisas mais importantes de uma vida.

De todo modo, sejam essas, ou aquelas que só me tratam como enciclopédia, eu estou com preguiça. Me perguntaram se estou bem, mas não era preocupação real, apenas uma convenção boba porque eu não respondi o dia todo. Minha capacidade de responder perguntas é a única coisa que importa aos outros. 

O bolo que tentei fazer não deu certo, deixei cair um ovo no chão, derramei o açúcar, e ainda fico sem gosto. O hamburguer que pedi também não tinha gosto. Ou talvez seja só eu. 

Não quero ver e nem falar com ninguém. Quero a escuridão e o silêncio do meu quarto. 

Apenas. 

“eu estava começando a entender que as pessoas não são algo a ser consertado.
são algo a ser suportado.” (Charles Bukowski) 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Cantemos ao Senhor?

“Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.” (Mt 15,8)

Já no Domingo de Páscoa deste ano da graça de 2026 a internet estava repleta de vídeos dos salmos entoados na Vigília Pascal. A celebração, que acontece na noite anterior, é a mãe de todas as vigílias, proclamando as alegrias da ressureição, bem como a história da salvação do povo de Deus. Revisitando episódios dessa história, a Vigília é repleta de significados e seus textos estão profundamente ligados uns aos outros, tornando o todo uma forma inteligível que permite a contemplação dos mistérios pascais. Por isso ela deve ser preparada com tamanho zelo que permita aos fiéis experimentarem os frutos espirituais desse tesouro da nossa Igreja. Assim ensina o Concílio Vaticano II: “A liturgia é o cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde promana toda a sua força.” (Sacrosanctum Concilium, n. 10)

A Liturgia dessa noite é cheia de detalhes e, como dito, de um simbolismo profundo. O lucernário, que proclama, como os profetas que são lidos alguns instantes depois, anuncia a luz de Cristo e que, com sua chegada, efetivamente se torna a luz do mundo ao iluminar as trevas da noite. A noite escura se torna noite feliz que contempla Cristo ressurgir. Os fiéis se preparam para o sagrado Tríduo Pascal durante as cinco semanas da Quaresma, por meio de exercícios espirituais, do jejum, da oração e das práticas de caridade. Assim vivem a alegria da ressureição com o coração purificado e elevado, de modo a ter mais e mais consciência desse que é o centro e ápice da nossa fé.

É por isso que a Igreja orienta sempre o preparo, o zelo e a formação constante daqueles que estão envolvidos nas celebrações. É apenas por meio de um aprofundamento permanente do mistério eucarístico que podemos, em nossas comunidades, transmitir mais efetivamente a nossa fé. Com efeito, na noite santa em que Jesus rompeu as trevas do pecado e da morte, são batizados os novos cristãos, e a vida cristã continua, alimentada pelos sacramentos e pela Palavra, na caminhada da Igreja rumo ao céu, como aponta o Papa Francisco, na Desiderio Desideravi:  “A formação litúrgica não é simplesmente a aquisição de conhecimentos, mas sobretudo a capacidade de viver plenamente o mistério celebrado. Trata-se de formar o povo de Deus para entrar no mistério e deixar-se plasmar por ele.” (n. 41)

Bem, voltando aos vídeos que pulularam a internet imediatamente após a Vigília, vemos um cada vez mais crescente fenômeno da digitalização das nossas paróquias. Se, antes, havia uma certa impressão coletiva de que missa era coisa de senhorinha desocupada, sendo o correspondente análogo ao senhor desocupado que joga dominó no banco da praça, percebemos que nossas comunidades, longe disso, possuem não só grande efetivo jovem como profissional atuando nas linhas pastorais. Não são poucas as pastorais da comunicação que transmitem e registram suas celebrações com equipamentos e qualidade ímpar, além de músicos de verdadeira habilidade. No entanto, o uso indevido dessa habilidade pode ser justamente a causa de certas inconveniências. 

Não foram raros os registros de salmos cantados com virtuosismo. Mas, nesses momentos, o ambão se tornava antes um palco onde poderiam os cantores extravasarem suas vozes, do que verdadeiramente Mesa da Palavra. Romano Amerio, em seu colossal Iota Unum, expõe a já algo deturpada Liturgia da Palavra que adquiroi, pós-Concílio Vaticano II, igualdade com a Eucaristia, mas aqui a coisa é elevada ainda mais: se na Liturgia Eucarística o sacerdote é aquele que apresenta o sacrifício eucarístico para o bem do povo de Deus, a Liturgia da Palavra se torna momento do protagonismo leigo, de que se tanto tem falado recentemente.

A situação foi vexatória. Com ares daquele estilo de hinódia pentecostal, melismas infindáveis, dancinhas para marcar o ritmo e ritmos exagerados como marchinhas quase carnavalescas, paráfrases e melodias seculares além de, claro notas altíssimas, os shows foram variados Brasil afora. Certamente poderiamos dizer que são ouvintes dos grandes corais ou intérpretes protestantes norte-americanos que, de origem anglicana ou luterana, produziram hinos como Amazing Grace e How Great Thou Art, mas não, infelizmente a influência é apenas dos nomes da música gospel nacional que, numa manobra pérfida das novas comunidades pentecostais, transformaram nossas assembleias em plateias inertes do sequestro da Palavra de Deus. Se no Êxodo o povo aclamou a Deus convocando "cantemos ao Senhor que fez brilhar a sua glória!" (Ex 15, 1), nas nossas paróquias ouvimos apenas a glória dos que queriam aparecer.

Em outro momento já cheguei a tratar da questão do canto litúrgico, bem como da influência maléfica das ditas comunidades nas nossas paróquias, mas é sempre bom relembrar, ainda que em linhas gerais, o papel do canto litúrgico, bem como o lugar especialíssimo dos salmos nas nossas celebrações. O ponto principal é que “a música sacra será tanto mais santa quanto mais intimamente estiver unida à ação litúrgica, quer exprimindo mais suavemente a oração, quer favorecendo a unanimidade, quer enriquecendo de maior solenidade os ritos sagrados.” (Sacrosanctum Concilium, n. 112)

Os salmos, sendo bíblicos, tornaram a base sobre a qual se ergueu todo o canto litúrgico da Igreja Católica, não apenas nesse âmbito mas também a música profana (no sentido secular do termo, não pejorativo) bebeu dessa fonte desde muito cedo. “Os salmos são o canto da Igreja; neles a própria Igreja fala com Cristo e de Cristo” ensinava Santo Agostinho.

São os salmos que ditam parte do ritmo celebrativo: os penitenciais lamentos ouvidos na Quaresma, como o Miserere (Sl 50) e o De Profundis (Sl 130), não apenas condensam o espírito desse tempo, é a partir deles que os demais textos vão se desenrolando, tornando assim a Liturgia uma vivência profunda da Igreja que, no mundo todo, percorre o mesmo caminho. É deles que brota a inspiração para todo canto verdadeiramente litúrgico. Com efeito, tanto o Gradual Romano quando o Gradual Simples trazem, em sua totalidade, antífonas intercaladas com salmos e, em algumas ocasiões, versículos de outras partes da Sagrada Escritura, intercalados ou emoldurados pelos salmos. 

“O salmo responsorial, que se segue à primeira leitura, é parte integrante da liturgia da Palavra e tem grande importância litúrgica e pastoral, pois favorece a meditação da Palavra de Deus.” (IGMR, n. 61). No momento específico da Liturgia da Palavra, o Salmo Responsorial, restaurado em sua forma à pedido do Concílio Vaticano II, é intercalado por duas leituras, servindo como ponte para que, aprofundando o espírito de entendimento, possamos chegar ao Evangelho, no ápice da Revelação, com a devida meditação da Palavra. 

Bem, a resposta na internet aos desmantelos da Vigília Pascal foi imediata. É uma graça que tantos tenham despertado para a necessidade de uma celebração digna, zelosa e, no mínimo, obediente. Mas é claro que eles não são os únicos. As opiniões foram diversas, com o grupo protestante, que ainda não percebeu que o é, e que legitima essa expressão litúrgica como reflexo de um tempo de avivamento (o uso da expressão teológica e historicamente protestante não é coincidência). De outro lado ainda vinham os apóstolos das boas intenções defender que no serviço eclesial, seja ele qual e como for, já basta a intencionalidade para servir. É bem verdade que toda obra divina se opera no homem a partir de sua disponibilidade, não por condicionamento do homem mas por respeito à sua liberdade, mas, ainda assim, é a partir da abertura à graça, e não na disponibilidade como fim ao invés de meio. Para esses, qualquer um que esteja servindo, do jeito que for, já está certo. De nada valem ou importam formações, no nível técnico daquilo que se faz como no sentido espiritual.

Talvez esses comentários sejam os mais toscos. São sempre coisas do tipo "será que esses que estão criticando também estão servindo?", num tom zombeteiro de que estar ali já basta por si só, e ignorando o fato de que todo ministério na Igreja, sempre foi, executado depois da devida preparação. Até mesmo os cristãos dos primeiros séculos, já que esse discurso também é sempre um ataque ao movimento conservador como sendo proponente de um excessivo apego a estética medieval, sem levar em consideração o apego atual à estética, diga-se brega, protestante, somente viviam efetivamente como cristãos depois de uma preparação por algum cristão que já vivia sua fé. O Sacramento da Confirmação e a Profissão de Fé que são comuns hoje são, em verdade, memória das profissões públicas de conversão cristã. Ninguém é cristão sem preparo, e é verdade que Cristo mesmo pode fazê-lo, mas aqui observamos apenas uma desculpa para a indolência dos músicos. Por experiência própria, como músico inclusive, sei que estes estão sempre entre os mais arrogantes das nossas igrejas justamente pela ideia do "só eu sei fazer então faço como eu achar melhor." E nossas assembleias que lutem.

Vejam bem, preparo não significa somente a busca pela excelência técnica, também isto, mas é a busca pelo melhor servir, e na Igreja quem define isso é o Magistério. Não é uma exclusão do simples ou do habilidoso, mas um apontamento para a falta de norte. A Igreja ensina que o canto gregoriano é seu canto por excelência e tão mais litúrgica será uma composição quanto ela se aproximar desse gênero tão sublime. O simples pode cumprir seu dever e buscar melhorar. Aquele que sabe cantar bem pode, e deve, por obrigação moral inclusive, buscar adaptar o canto ao mais apropriado ao momento. Ninguém entra num bar ou no churrasco do fim de semana e pede para tocar Beethoven ou Mozart. Mas na igreja somos obrigados a ouvir sertanejo e gospel como cativos.

Infelizmente parece que o movimento de crescente conscientização não veio de cima. Com efeito não encontramos orientações de bispos e nem de padres, com raras exceções, que busquem acompanhar e orientar de perto as suas equipes nas celebrações. Em nada a liturgia parece ocupar o espaço prioritário que a Igreja ensina. Estamos órfãos. Até mesmo entre as linhas leigas, mas de grande alcance, notamos um medo em lidar com a arrogante empáfia dos músicos. 

Um exemplo disso foi o do maestro Delphim Rezende Porto, atuante em todo o Brasil e condecorado por sua atuação na pastoral litúrgica publicou, em seu perfil no Instagram, apenas um breve vídeo dizendo que a música deve ser apenas lida pela sua concordância com o espírito da comunidade, o que ele descreve como cumpridora ou não do seu objetivo, e ainda chega a debochar dos que dão os primeiros passos no canto gregoriano. Em última análise, ele diz que, se uma assembleia está acostumada com o estilo protestante, não tem problema cantar esse estilo, já que o gregoriano, por exemplo, destoaria de tal modo que ali já não serviria para levar o povo a melhor rezar, por não fazer parte da sensibilidade daquele povo. Não duvido do conhecimento do maestro mas nem por isso deixo de notar que sua análise está errada ou, no mínimo, incompleta. A sensibilidade, tal qual a Igreja nos instrui, é ensinada, a catequese serve para isso, a mistagogia serve para isso.  

Aqui se encontra também fenômeno recente da onda crescente das mídias digitais: a subserviência pastoral. O maestro Delphim atua numa das maiores arquidioceses do país, e seu conteúdo é conhecido para muito além da mesma, mas justamente por isso ele não pode dizer o que pensa sem ser podado pelas autoridades, leia-se os bispos, ou acusado de desobediente, resultando em pena pastoral e descrédito. Mesmo sabendo que, no Brasil, as pessoas só invocam a obediência ao bispo local quando convém. Fenômeno parecido aconteceu com O Catequista. Anos atrás o casal de catequistas Alexandre e Viviane Varella, que assinam o blog, e que hoje são credenciados na Sala de Imprensa da Santa Sé, não tinham papas na língua ao denunciar desmantelos na Igreja do Brasil. Me recordo das muitas postagens sobre as picaretagens protestantes, as denúncias contra a Teologia da Libertação, com o que eles chamaram de "Catequese de Boteco", isto é, catequese real com uma linguagem acessível, não no sentido dúbio ao que estamos acostumados, mas no sentido comum de falar sem rodeios e sem mascarar a verdade. Infelizmente, depois do crescimento do seu apostolado, já notamos uma posição mais meio-termo, já que sua oficialização não permite que criem polêmicas com nomes blindados de nosso clero tupiniquim.

Não serve de consolo mas a Vigília Pascal não foi a única vítima na Semana Santa, com Cristo os outros dias também foram ridicularizados. Padres em jumentinhos no Domingo de Ramos, inclusive rendendo situações patéticas de queda (com as quais eu, infelizmente não consigo senão lamentar pela ideia, mas não pela queda), imitações ridículas de galos na narrativa da Paixão (sério, como alguém acha que isso pode ser uma boa ideia?), isso quando a mesma não foi completamente teatralizada, ao invés de solenemente entoada em várias vozes conforme a tradição. Na, assim chamada, Noite do Perfume (evento protestante que recentemente entrou no nosso calendário paroquial), vimos fiéis borrifando seus perfumes favoritos sobre o altar, sacrilégio escancarado, registrado e compartilhado com ares de pura espiritualidade, porém não punido e nem sequer corrigido. O santo altar é consagrado com o óleo santo pelo bispo, nele é queimado incenso recordando o antigo sacrifício judaico. E, mesmo o óleo do crisma sendo perfumado, em nenhum lugar dos livros litúrgicos se encontra a orientação de que o altar deva ser aspergido de Chanel N° 5 ou Lilly de O Boticário. 

Em outro vídeo vimos a desnudação do altar. Costume que, primeiro se perdeu, depois ficou limitado aos bastidores e agora, pouco a pouco retorna, mas já encontra inimigos declarados. O altar, sem toalhas, tem sobre ele vinho derramado e depois lavado com água. O simbolismo é claro, a atitude pode até ser catequética, como a própria paroquia que divulgou o vídeo disse que foi o motivo para a ação. Mas não segue uma rúbrica simples que diz apenas que o altar deve ser desnudado em tempo oportuno após a Missa in Coena Domini. Na paróquia em que atuo mesmo, ha alguns anos, a Cruz que, na Sexta-feira adoramos enquanto a chamávamos de "Fiel madeiro da Santa Cruz. ó árvore sem igual!", foi queimada na fogueira que acenderia o Círio Pascal. Outro sacrilégio solenemente ignorado por todos quantos deviam zelar pela liturgia em nome, novamente, de uma sensibilidade pastoral sentimentalista, toscamente inspirada nas afetações teatrais dos protestantes e que foram importadas para nossa Santa Igreja pelas Novas Comunidades e dos padres carismáticos que se aproveitaram do rombo intelectual e espiritual deixado pela Teologia da Libertação.

Diante desse quadro, não se trata de um saudosismo estéril ou de um apego meramente estético, mas de uma questão de fidelidade. A liturgia não é propriedade de grupos, sensibilidades ou modismos passageiros: é tesouro vivo da Igreja, recebido, guardado e transmitido com reverência ao longo dos séculos. Os abusos que hoje se multiplicam não devem conduzir ao desânimo, mas a um renovado compromisso com a formação, com o zelo e com a verdade do culto divino. Há, felizmente, sinais de despertar entre os fiéis, um sensus fidei que resiste, questiona e busca o que é autêntico. É a partir dessa sede de verdade e beleza que pode surgir uma verdadeira restauração litúrgica: não como ruptura, mas como retorno consciente àquilo que a Igreja sempre foi e sempre ensinou.

Seguimos, na Páscoa do Senhor, penitentes numa Quaresma sem data para acabar e com poucos domingos da alegria. Bem, talvez seja a penitência própria de nosso tempo suportar, porém não aceitar e nem tampouco incentivar, esses desmantelos. Possamos, com a graça de Deus, entoar um dia algo que lhe seja mais digno de um verdadeiro hino de louvor.

“Adorai o Senhor na beleza da santidade.” Sl 96(95)

REFERÊNCIAS

CONCÍLIO VATICANO II. Sacrosanctum Concilium. Constituição sobre a Sagrada Liturgia. Vaticano, 1963.

FRANCISCO, Papa. Desiderio Desideravi. Carta Apostólica sobre a formação litúrgica do povo de Deus. Vaticano, 2022.

JOÃO PAULO II, Papa. Instrução Geral do Missal Romano. Vaticano, 2002.

SANTO AGOSTINHO. Enarrationes in Psalmos. Patrologia Latina.

sábado, 11 de abril de 2026

A visão que resta

Eis que acreditava, ainda que superficialmente, que havia de ter feito alguma evolução, mas não. Aqueles número indicavam que eu ainds estava, que eu estou, piorando. E com aqueles números vieram à tona algumas verdades muito doloridas: 

não há mais volta, 
não há mais tempo, 
não há mais salvção. 

Ao menos não para mim. 

Aqueles sonhos, que já se mostravam distantes antes, agora se tornaram completamente inimagináveis. Ocupando não mais o lugar de objetivos complexos, mas o de entidades quase divinas, gozando da onipotência de sua distância da realidade, da minha realidade. Meus bonecos feitos com as areias secas do deserto se desfizeram entre meus dedos como fumaça.

Agora penso que o único caminho seja o de mudar completamente a perspectiva. As coisas não vão mais mudar. Todos aqueles sonhos, se foram. O que era pra ser temporário, efeito colateral de um tratamento, se prolongou e vem aumentando. 

Um, 
dois, 
três, 
quatro anos. 

Dez, 
vinte, 
trinta, 
quarenta, 
cinquenta quilos a mais. 

E eu já não reconheço esse monstro que me olha no espelho. Esse monstro imenso, de aparência animalesca, grotesca, vil. 

Eu já não reconheço meu próprio reflexo. 
Já não sei quem sou, 
nem exatamente o que sou, 
mas sei que deverei ser outra pessoa, 
outra coisa. 

Uma coisa que sabe que não terá jamais a beleza de um corpo desejável. Uma pessoa que ficará ainda mais à margem de todos, que incomoda simplesmente pelo fato de estar ali. 

Mas eu não quero estar ali. 
Ou aqui. 
Ou em qualquer lugar. 

O que resta é a visão de um deserto vazio, sem vida, uma verdade brutal. Isso porque eu sei das limitaões do meu estado. Eu deveria me exercitar, comer melhor, e ao menos me aproximar de algo melhor do que essa besta que agora me encara. Mas como fazer isso se até levantar da cama me custa o esforço de um dia inteiro? Quando descer a escada me faz querer voltar a dormir por três dias? Quando ir à missa e encontrar aqueles idiotas modernistas me faz querer voltar nem ter acordado.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Sozinho com todo mundo

a carne cobre os ossos
e colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homem bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.

de fato, não há qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.

ninguém nunca encontra
o par ideal.

as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam

nada mais
se completa.

(Charles Bukowski)

A parte


Dizem que foi Bukowski que disse isso, mas não tenho certeza:

“E quando ninguém te acorda de manhã, e quando ninguém te espera na noite, e quando você pode fazer o que quiser. Como se chama isso? Liberdade ou solidão?”

Algumas horas atrás eu escrevi um monte coisa sem nexo algum, porque não sabia o que escrever. Mas me perguntava se ainda poderia haver amor em mim para, quem sabe, voltar a falar disso. Também escrevi, ou deixei nas entrelinhas, que desejava algo. 

Talvez não seja uma resposta, mas um aceno: o que desejo não é amor, porque não creio mais nele. Não sei se sou capaz de amar. Mas desejo a companhia, o calor de um abraço. E cada vez que me olho no espelho, me vejo mais distante disso. 

Parece-me cada vez mais que a solidão é a minha condenação, 

e não terei uma segunda chance sobre a terra. 

Era só isso, alguem para abraçar. Nas imagens em minha mente ele nem sequer tem rosto, mas tem costas largas em que posso me encostar, e calor. 

Não tenho pensado em sexo, mas apenas nesse abraço.

Mas essa pessoa não existe. Quem abraçaria um Quasimodo como eu?

Por isso vou assistir um pouco mais hoje, algo em que os personagens se abraçam, se apoiam... 

Não é tesão, mas talvez se expresse assim, ou entendam assim porque só conseguem conceber esse tipo de vazio como tesão ou carência, 

fisiológico ou afetivo. 

Mas não é isso. 

Não é tão simples assim.

É um vazio, um buraco no peito, 
como de um Arrancar que luta num deserto selvagem para sobreviver, 
enquanto devora uns aos outros.

É terrível.

E então, numa noite como essa, quase fresca, em que o vento sopra e alguns relâmpagos clareiam por brevíssimo instante, uma sensação, uma certeza, uma condenação, se marca no meu peito, cortando carne e músculos até o tutano como aço frio:

a completa totalidade do vazio,

olhando para a noite e sabendo que, 

nesse imenso mundo, maior do que qualquer mente pode abarcar ou conceber, 

não por ser homem ou mulher,

mas por ser eu, 

única e tão somente eu,
amargamente eu,
infeliz eu,

sem beleza ou atrativos para que me olhem,
desprezado como o último dos mortais.
Atormentado pela angústia profunda.

Não há sequer alguém que dividiria a cama comigo,

fria alcova,

fria cova, 

rasa,

a parte que me cabe deste latifúndio,
a parte que falta em mim.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

O pior amigo

Há algo que eu queria dizer, mas parece que se foi. Se desvaneceu. Não consigo me lembrar o que era, para reconstruir imaginativamente e assim registrar. Não, tudo se foi.

Será que queria falar de algo que desejaria sentir, já que não sinto mais? Acho que não, falei disso da última vez. Pode ser que fosse sobre alguma sensação sobre as imagens de sombra e luz que vejo, as diversas formas de amor, que acompanho pelo simples motivo de que já não sinto nada.

Então sobre o que eu queria escrever? O que naquele instante havia na minha alma que eu queria eternizar em palavras e que se foram, e eu tentei agarrar como fumaça. 

Bem, já que não me lembro, vou falar sobre qualquer coisa. Quero dormir tarde hoje, definitivamente não consigo assistir, ou existir, durante o dia. Prefiro a calma da noite. Mas sei que isso prejudica uma rotina, indispensável no tratamento do Transtorno Bipolar. Mas eu não tenho rotina nenhuma. Acordo, existo, depois assisto, e esses são os único momentos que fazem algum sentido, e depois durmo, e o ciclo começa outra vez. Essa é minha prisão do eterno retorno.

Pelo menos tem chocolate na geladeira.

Meu estoque de chá tem diminuído, assim como alguns produtos de skincare. Não me sinto bem pra um compromisso como um trabalho diário, mas preciso disso se quiser voltar a comprar alguma coisa. E sinto falta disso. De pedir pizza quando quiser, ou comprar os remédios tarja preta que o maldito governo regula e que me custam uma fortuna pra comprar sem receita. Não posso beber, ou isso me enlouquece. 

Enfim. 

Eu sou bipolar. Sou desde os dezenove anos. Há períodos em que eu fico incrivelmente deprimido, em que eu mal consigo me mexer. Aí fica difícil conviver comigo. Eu mal consigo atender o telefone. Eu não sou confiável como amigo. Na verdade, sou o pior amigo que você poderia ter. Não atendo nenhum requisito para isso.

No momento estou saindo de um episódio misto. Acabei de enlouquer por quase uma semana.

Mas ninguém quer saber disso. Tem dias que eu uso isso pra me desculpar pelas coisas que faço, mas eu percebo, que depois disso as pessoas começam a me evitar. Quando eu cancelo um compromisso, por isso os odeio, quando fico irritado, quando fico falante demais e depois desapareço. 

domingo, 5 de abril de 2026

Escrever sobre o amor

Aconteceu uma coisa ontem depois da celebração. Estávamos cansados, os músicos desmontavam os aparelhos ligados aos instrumentos, outros desejavam votos, Feliz Páscoa, ecoava pela igreja na noite do Fogo Novo.

Um amigo se aproximou e, com efeito, eu só esperava cumprimenta-lo e ir embora. Não só não gosto muito da repetição e dos sorrisos dessas datas, como queria evitar a alegria de algumas pessoas que fingem não ter feito um inferno na minha vida nos últimos dias. Mas não é disso que quero falar.

Ele se aproximou, sorrindo, cumprira bem sua função. Eu o elogiei, realmente fizera bem. Nos abraçamos, quase como uma dupla consolação: estávamos bem cansados. Eu levantei o rosto e beijei seu pescoço, como faço algumas vezes. Ele endireitou o rosto em minha direção e me beijou nos lábios, ali na frente de todas aquelas pessoas. E saiu para terminar seus afazeres.

Logo voltaríamos, para celebrar o dia que o Senhor fez para nós, quando o sol nascente despontar.

Poderia ser o início de uma história interessante, se fosse real. Mas não é. Eu inventei a única parte interessante dela. Então poderia ser uma história, criada, inventada, sonhada, sim. 

Mas poderia um coração, que já não acredita mais no amor, que já não sente mais o amor, que já não enxerga nesse mundo mais o amor, 

escrever algo sobre o amor?

Será que o sonho acordado que tive depois daquela missa signifique que, em algum lugar, lá naquele profundo quase intangível, imperceptível, ainda tenha amor dentro de mim?

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Coração e Mente

 "Inexplicavelmente estamos sós
sós para sempre
e era pra ser
desse jeito,
não era pra ser
jamais de outro jeito -
e quando a luta com a morte
começar
a última coisa que quero ver
são
rostos de pessoas rodeando
sobre mim -
melhor apenas meus velho amigos,
as minhas próprias muralhas,
que apenas eles estejam lá.

eu fui só mas raramente
solitário.
saciei minha sede
na fonte
que há em mim mesmo
e este foi um bom vinho,
o melhor que já provei,
e essa noite
sentado
olhando pra escuridão
agora finalmente compreendo
a escuridão e a
luz e tudo que há
entre elas.

chega uma paz no coração
e na mente
quando aceitamos o que
há:
ao nascer
nessa
vida estranha
nós temos que aceitar
o desperdício de aposta que são nossos
dias
e obter alguma satisfação no
prazer de 
deixar isso tudo
para trás.

não chore por mim.

não sofra por mim.

leia
o que escrevi
depois
esqueça
tudo.

beba da fonte
que há em você
e comece
de novo."

Charles Bukowski 

segunda-feira, 30 de março de 2026

O que dizer


Não sei direito o que dizer,

mas há qualquer coisa aqui
batendo no peito,
querendo sair.

Talvez lágrimas.
Talvez palavras feias
que eu nunca digo.
Raiva dos outros, não.
Disso eu entendo pouco.

Passei tempo demais
aprendendo a me culpar,
a deixar que façam comigo
o que bem quiserem.

E quando alguém como eu
resolve bater o pé,
todo mundo se assusta
e diz que o errado sou eu.

Mas dessa vez não.
Dessa vez eu não me sinto culpado.
E quero que aquela idiota se dane.

Agora, como falar
daquilo que me salvou nos últimos dias?

Love Upon a Time estreou,
e eu chorei vendo JJ
na coletiva de lançamento,
sem conseguir falar direito,
engasgado nas lágrimas.

Net de um lado,
Kim do outro,
com a cabeça apoiada em seu ombro,
como se dissesse, 
com e sem palavras:
“você chegou até aqui”.
"Nós chegamos".

Eles chegaram.

Depois de tantos meses,
de tanta gente cruel,
de tanta palavra dita de graça,
como se fosse culpa dele
o fim de uma parceria
que nem era sua para salvar.

Mas agora nada disso importa.
Ele chegou lá.

E foi bonito ver.
Bonito demais.

No episódio, ele estava caótico,
engraçado, perdido,
parecendo ter saído direto do CAPS
para cair nos braços do Net,
o cavalheiro da pele de mel.

Queria essa sorte.

E ainda teve TeeTee e Por,
Duang With You,
os dois sempre ali,
fofos num nível
que parece até exagero,
mas não é.

Porque às vezes a única palavra
que serve mesmo é essa:
fofos.

E Thomas e Kong...
não há muito o que explicar.
Eles têm uma beleza estranha,
surreal,
como se fossem especiais
simplesmente por existirem.

É bom quando alguma coisa
faz o coração se abrir de novo,
mesmo que só por algumas horas.

Esses meninos me fazem sorrir,
chorar,
e esquecer o resto.

Até mesmo aquela idiota.

É.
Isso é bom.