quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Nesse ponto

Sobre a vida humilhante
de meus pais
I

Me pergunto como as coisas chegaram a esse ponto.

Meu pai desde cedo, no interior do Goiás,
precisou lutar pra comer,
e ajudar a sustentar os muitos irmãos.

Comia farinha com rapadura 
em todas as refeições,
durante muitos dias, 
ate que algum vizinho desse a eles um punhado de arroz,
um pedaço de carne seca ou feijão,
em troca de umas cuias de farinha 
ou uns pedaços de rapadura.

Acostumou-se com a vida dura.
Na cidade grande continuou a luta.
Aprender a ler o básico para trabalhar num escritório,
onde se aposentou pouco mais de trinta anos depois.

Não consegue ficar parado. 
Todo dinheiro que aparece ele se lembra 
daquela época em que comia farinha com rapadura.
Afundado em dívidas, 
passou a catar latinhas pra vender.

Quanta humilhação!

Começava às seis da manhã.
Depois às cinco,
às quatro.
Tinha insônia, ele dizia.
E pode ser verdade, 

alguns depressivos perdem o sono 
a essa hora da manhã.
por causa de algo no cérebro
que não conseguem poduzir.

Mas todos sempre souberam,
que era medo da fome.
Mas não só da fome dele,
também da nossa.

E nunca deixou faltar o prato de cada dia. 
Nem um só dia.
Nem um único maldito dia.

E então, para matar a fome,
ele vem se humilhando 
e se matando.

Depois dos quatro, ou cinco, filhos,
hoje ele luta pelo neto.
A paciência diminuiu, 
assim como a força. 
Mas ele ainda brinca com o bebê
todos os dias,
e o coloca pra dormir, três vezes,
todos os dias,
e levanta às seis,
ou às cinco,
ou às quatro,
se humilhando,
quando as coisas parecem apertar.

Cada vez mais afundado em dívidas, 
ele se desespera quando o leite acaba,
ou quando a carne acaba,
e fica nervoso, 
e chora escondido, 
e levanta às seis,
ou às cinco,
ou às quatro,
para catar lixo,
se humilhando,
quando as coisas começam a apertar.

Mas todos sempre soubemos
que é medo da fome.
Mas não só da fome dele,
também da nossa.

E nunca deixou faltar o prato de cada dia. 
Nem um só dia.
Nem um único maldito dia.

E então, para matar a fome,
ele vem se matando.

II

Me pergunto como as coisas chegaram a esse ponto.

Minha mãe também teve infância difícil,
desde cedo ajudou a família numerosa,
que nunca incluiu apenas primos e tios, 
mas todos que moravam ali perto
também se ajudavam nas dificuldades.

No interior de Minas Gerais o chão seco custa dar vida
e essa vida custa a vida de quem cultiva.
Povo de cerviz dura e divertimentos longos, 
nas noites claras, pra compensar do dia a fadiga.

Desde nova também trabalhou em casa de família. 
Conheceu boas pessoas, generosas
e teve patroas que a humilharam 
e destruiram seu orgulho

Hoje, com a pele marcada pelo tempo,
sem saber se ainda se reconhece,
na foto passada ou no espelho de agora,
tenta manter a família de pé

O marido distante que já não reconhece,
o filho deprimido que já não reage, 
e a filha que a cada dia se mostra menos humana,
e um lindo bebê, que necessidade de uma mãe humana.

Mas aquela mulher, aquela que veio de fora,
que deve ter rompido com as garras 
o ventre da mãe doadora,

Que martelo a forjou?
De que cadeia escapou?
Que demônio com fúria a plasmou?

Como pôde, daquele ventre podre,
nascer criatura tão doce?

O demiurgo que a formou,
foi o mesmo que o criou?

E então a minha mãe luta,
e para continuar, 
vem se matando.

Já não esconde a depressão,
que nem aceita que tem.
Tenta ajudar a todos a todo momento,
mas ninguém a ajuda.

O filho deprimido e inútil.
A filha, só inútil,

E a criança a chorar de dor, 
por nascer em meio a nós. 

Me pergunto como as coisas chegaram a esse ponto.

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