"Estai sempre prontos a dar a razão da vossa esperança" (1Pd 3,1)
De tempos em tempos, alguns movimentos, por necessidades diversas, mudam seu nome e aparência, mantendo, no entanto, um estratégico objetivo, não raramente desconhecido da massa que compõe suas linhas mais superficiais, isto é, seus membros mais incultos e que funcionam como a multidão que marcha em direção ao inimigo, enquanto seus verdadeiros mandantes se escondem por trás de uma fachada de neutralidade, de superioridade intelectual (ou, no caso, espiritual) ou até mesmo se mantém desconhecidos.
Foi o Prof. Olavo de Carvalho quem me ensinou a observar essa constante. Ele frequentemente abordava organizações e movimentos que mudam de nome, sigla ou roupagem ideológica, argumentando que isso faz parte de uma estratégia de continuidade de poder e manipulação cultural, mantendo os objetivos estratégicos inalterados. Ele via esse fenômeno principalmente no contexto da esquerda e do comunismo, que, segundo ele, se adaptam para sobreviver e ocultar suas reais intenções de dominação política e cultural. Ao se referir ao comunismo, ele afirmava que o mesmo não deve ser definido por uma ideologia específica (que pode mudar), mas sim por sua identidade organizacional contínua. Assim, mesmo que o grupo mude o nome de "comunista" para "socialista", "progressista" ou outra denominação, o objetivo final: a busca pelo poder mundial e controle social, permanece o mesmo.
Ele ironizava a ideia de que o comunismo acabou com a queda da União Soviética, argumentando que apenas mudou de estratégia, focando mais na revolução cultural (ocupação de símbolos, narrativas e linguagem) do que apenas na força direta. No contexto brasileiro, Olavo apontava que partidos como PT e PSDB, apesar de parecerem opostos, compartilhavam da mesma base ideológica e objetivos de poder, funcionando como "duas faces da mesma moeda".
Olavo afirmava ainda, com precisão cirúrgica, a estratégia de imposição de novas normas de linguagem e a troca de nomes como instrumentos de controle social para remodelar a conduta e o pensamento das multidões sem que estas percebam a continuidade do objetivo. Por, exemplo, no caso da "Nova Esquerda": ele descrevia que essa, ao mudar a roupagem, muitas vezes alia-se a setores do grande capitalismo para manter sua influência, alterando o discurso contra o mercado para alianças com ele, sem abandonar o objetivo de controle, o que ele chamava de uma forma de "criminalidade" que se disfarça.
Bem, mas essa introdução não é para aplicar numa realidade política, mas usar o método do Professor num outro fenômeno: o do neopentencostalismo na Igreja Católica no Brasil, nomeadamente por meio da Renovação Carismática Católica (RCC) e, atualmente, das novas Comunidades Eclesiais e movimentos simpatizantes.
Me recordo bem de ter sido esse movimento um dos primeiros com que tive contato na Igreja, ainda criança. Um contraponto interessante já que, ao mesmo tempo, me aproximei da Legião de Maria e seu carisma contemplativo do Santo Rosário. Mas já me surpreendia como qualquer evento produzido pela RCC virava um grande evento. Igrejas sempre cheias, estádios lotados e até "pequenas reuniões" em casa que mais pareciam com os mesmos grandes eventos que aconteciam nas igrejas.
Com o tempo fui me percebendo um pouco mais contemplativo, e com isso me afastando do movimento, ao mesmo tempo que, estudava mais, especialmente o Catecismo (isso por volta dos doze anos) e então fui notando uma certa discrepância entre o ensinamento oficial e aquele que ouvia nos Grupos de Oração. A primeira coisa que me disseram era que se tratava de uma mudança de linguagem, uma simplificação, para que assim a doutrina pudesse se converter em oração no coração das pessoas mais simples.
Não me convenceu a permanecer no grupo, e desde então venho observado, como na realidade não se trata de uma tradução, mas sim de uma adulteração. Aliada não só da linguagem, mas de uma série de outros elementos especificamente utilizados para controlar o público. Logo mais vou explicar o motivo de usar a palavra "público" e não "fiel."
Começando pelo começo, a (RCC) no Brasil mistura história eclesial, cultura religiosa popular e transformações sociais bem amplas. Ela surge internacionalmente no contexto pós-Vaticano II. O marco simbólico costuma ser o chamado Duquesne Weekend (fevereiro de 1967), nos Estados Unidos, quando estudantes e professores católicos da Duquesne University (Pittsburgh) relataram experiências espirituais semelhantes ao “batismo no Espírito Santo” descrito em ambientes pentecostais. A partir daí, grupos de oração se multiplicaram em universidades e paróquias norte-americanas. Lembrando da fora protestante americana, e do crescimento pentecostal por lá, o que não passou nada despercebido da RCC.
O movimento se expandiu rapidamente para outros países entre o fim dos anos 1960 e início dos 1970. Desde cedo, procurou legitimação dentro da Igreja, no sentindo institucional. Na solenidade de Pentecostes de 1975, São Paulo VI, em um discurso no Congresso Internacional da RCC recebeu líderes do movimento em Roma e pronunciou a famosa frase: “A Igreja e o mundo precisam de vós!”
Esse gesto marcou a passagem da RCC de um fenômeno marginal para um movimento reconhecido, ainda que sempre acompanhado com cautela pastoral, tanto que Santa Sé não criou um documento magisterial exclusivo para a RCC nos primeiros anos, mas a reflexão sobre os carismas se ancora em textos conciliares e pós-conciliares, sobretudo:
Lumen Gentium (1964), especialmente o n°12, sobre os carismas concedidos pelo Espírito Santo a todos os fiéis. Apostolicam Actuositatem (1965), sobre o apostolado dos leigos e a Evangelii Nuntiandi (Paulo VI, 1975) que enfatiza o papel dos leigos e a renovação espiritual na evangelização.
Nos anos 1990 e 2000, a Santa Sé passou a se referir explicitamente ao movimento. O Pontifício Conselho para os Leigos (hoje Dicastério para os Leigos) reconheceu a RCC como uma das “novas realidades eclesiais”. Em 2019, o Vaticano criou o CHARIS (Catholic Charismatic Renewal International Service), organismo oficial para articular a Renovação no mundo, por decisão do Papa Francisco que, aliás, tem vários discursos relevantes ao movimento (por exemplo, no encontro com a RCC italiana em 2014), nos quais insiste na integração eclesial e na dimensão missionária.
A chegada da Renovação Carismática Católica ao Brasil, no final dos anos 1960 e início dos 1970, não se deu como um projeto pastoral cuidadosamente planejado, mas como uma espécie de enxerto espiritual trazido por missionários estrangeiros e rapidamente apropriado por leigos urbanos em busca de experiência religiosa mais imediata. A atuação dos padres jesuítas Haroldo Rahm e Eduardo Dougherty em Campinas e São Paulo costuma ser apontada como ponto de partida simbólico, mas o que se seguiu foi um crescimento orgânico, muitas vezes à margem das estruturas diocesanas.
Em pouco tempo, grupos de oração se espalharam por paróquias e casas particulares, propondo uma espiritualidade centrada na experiência sensível do Espírito Santo, na música, no louvor e na vivência comunitária. O Brasil, atravessado por urbanização acelerada, deslocamentos sociais e pela ascensão vertiginosa do pentecostalismo evangélico, mostrou-se terreno fértil para um movimento que prometia revitalização espiritual sem exigir a ruptura com o catolicismo herdado.
Nas décadas seguintes, especialmente a partir dos anos 1980, a RCC passou de fenômeno espontâneo a estrutura organizada. Coordenações nacionais e diocesanas foram criadas, encontros multitudinários se tornaram comuns e uma estética própria começou a se consolidar: música contemporânea de clara inspiração protestante (inclusive com uso aberto de composiões dessas seitas) oração efusiva, linguagem afetiva e forte protagonismo leigo. Nos anos 1990 e 2000, o movimento já se apresentava como uma das maiores forças de mobilização dentro do catolicismo brasileiro, com redes de grupos de oração, comunidades de vida e aliança, ministérios de música e presença crescente na mídia. A expansão de rádios, televisões e editoras ligadas a ambientes carismáticos deu à RCC uma capilaridade inédita, permitindo que sua espiritualidade alcançasse tanto centros urbanos quanto regiões periféricas. Não se tratava apenas de um movimento interno à Igreja, mas de uma cultura religiosa em formação, com linguagem própria e forte apelo emocional.
A institucionalização, contudo, exigiu negociação com a hierarquia. A CNBB, ao longo dos anos, buscou reconhecer o valor evangelizador do movimento ao mesmo tempo em que procurava delimitá-lo. O Documento 53 (1994) é emblemático nesse sentido: acolhe a RCC como expressão legítima da vida no Espírito, mas insiste na comunhão com os bispos, na centralidade dos sacramentos e na necessidade de formação doutrinal sólida. Há ali um esforço de domesticação pastoral: reconhecer os frutos espirituais sem permitir que o entusiasmo carismático se converta em autonomia excessiva. As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora e outros textos da CNBB reiteram essa postura. O movimento é aceito, mas sob vigilância. Sua vitalidade é vista como recurso missionário, mas também como possível foco de desequilíbrios litúrgicos, teológicos e comunitários.
No plano espiritual, a RCC construiu uma identidade fortemente marcada pela experiência: o chamado “batismo no Espírito Santo”, a oração em línguas, as práticas de cura e libertação, o louvor prolongado, a música como veículo de emoção e fé. Trata-se de uma religiosidade que privilegia o sentir, o testemunho pessoal, a transformação subjetiva. O protagonismo leigo, incentivado pelo Vaticano II, encontra aqui uma de suas expressões mais visíveis. Ao mesmo tempo, essa espiritualidade tende a enfatizar a interioridade e a conversão individual, por vezes em detrimento de leituras mais estruturais da realidade social. A liturgia oficial convive com momentos de espontaneidade; a disciplina eclesial, com manifestações carismáticas que nem sempre se deixam enquadrar facilmente.
É nesse ponto que emergem as tensões mais agudas. Desde sua expansão, a RCC se viu em diálogo, e em disputa simbólica, com outras correntes do catolicismo brasileiro, especialmente aquelas marcadas pela Teologia da Libertação e pelas pastorais sociais. Enquanto estas enfatizavam análise estrutural, engajamento político e leitura crítica da realidade, a Renovação oferecia consolo espiritual, experiência de Deus e transformação pessoal. Não se trata de oposição absoluta, mas de ênfases distintas que, em determinados contextos, se tornaram concorrentes. Em muitas dioceses, a vitalidade carismática atraiu fiéis e recursos, redesenhando o equilíbrio interno das paróquias. Em outras, gerou desconfiança por sua proximidade estética com o pentecostalismo evangélico e por sua tendência a privilegiar a emoção sobre a reflexão.
A tensão também se manifesta na própria lógica do movimento. A RCC nasce como impulso de liberdade espiritual, carismas (supostamente) distribuídos pelo Espírito a todos os fiéis, mas cresce dentro de uma instituição que valoriza ordem, hierarquia e continuidade. O resultado é um equilíbrio instável: entusiasmo e controle, espontaneidade e norma. Em alguns contextos, a ênfase na experiência pode gerar práticas pouco discernidas, lideranças carismáticas com grande influência e uma espiritualidade que oscila entre renovação genuína e certo anti-intelectualismo. Em outros, a institucionalização excessiva corre o risco de esvaziar o vigor original, transformando o carisma em método e a experiência em roteiro.
Um dos pontos que mais chamam atenção é que, nos eventos em que esses carismas se manisfestariam com maior força pela maior presença de servos e, portanto, de mais pessoas em oração, o ambiente é favorável a manifestação sugestionada por parte de seus organizadores.

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