Parte I aqui
A utilização de ambientes controlados para favorecer estados de transe, música alta e repetitiva, iluminação indireta, condução verbal sugestiva e sincronização coletiva de gestos, é um fenômeno estudado há décadas por psicólogos, antropólogos e teóricos da religião. Em termos gerais, tais elementos não produzem automaticamente um “transe” no sentido clínico estrito, mas criam condições propícias para estados alterados de consciência, intensificação emocional e maior sugestionabilidade. O ambiente sensorial funciona como um campo de modulação: reduz estímulos externos concorrentes, aumenta a imersão e favorece a concentração em uma narrativa ou experiência compartilhada. O resultado é uma espécie de foco atencional coletivo que pode ser interpretado, pelos participantes, como experiência espiritual, catarse estética ou integração grupal.
Na psicologia experimental, a noção de sugestionabilidade é central. Desde os estudos clássicos de hipnose no século XIX e início do XX, observou-se que a repetição rítmica, a monotonia sonora e a condução verbal podem facilitar a entrada em estados de absorção profunda. Clark L. Hull, em seus estudos sobre hipnose, já indicava que o ambiente e a expectativa do participante desempenham papel tão importante quanto a técnica do condutor. Mais tarde, Ernest Hilgard desenvolveu a teoria da “dissociação neodissociativa”, sugerindo que, em certos estados de foco intenso, a consciência pode se organizar em camadas, permitindo que sugestões externas sejam experimentadas com menor resistência crítica. Em ambientes coletivos, essa dinâmica é amplificada: a percepção de que “todos estão vivendo algo” reforça a disposição individual de entrar no mesmo estado.
Nos eventos da RCC, e nos das novas Comunidades Eclesiais (sobre as quais falarei a frente) um padrão é facilmente observável: o Santíssimo Sacramento em evidência, pouca luz (geralmente semelhantes as usadas em casas de show), música intensa e repetitiva (a maioria das composições possuem poucas linhas mas são executadas até mesmo por horas inteiras juntamente com a "pregação").
A psicanálise e a psicologia das massas também oferecem ferramentas interpretativas relevantes. Em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), Freud argumenta que, em contextos grupais intensos, o indivíduo tende a suspender parte de sua autonomia crítica e a se identificar com a figura do líder ou com o grupo como um todo. Essa identificação produz um sentimento de coesão e pertencimento que pode ser vivido como êxtase ou elevação. Gustave Le Bon, ainda no final do século XIX, descrevia a multidão como propensa a estados emocionais contagiosos, nos quais a sugestão e a imitação se propagam rapidamente. Embora suas formulações sejam hoje consideradas simplificadoras, a ideia de contágio emocional permanece influente: em ambientes com música envolvente, iluminação específica e narração sugestiva, a resposta emocional de um indivíduo tende a reforçar a dos demais, criando um circuito de retroalimentação.
Os fenônemos da "Oração em Línguas" ou do "Repouso no Espírito Santo" parecem encaixar-se diretamente nessa descrição, e não num fenômeno místico de fato pois, como dito por inúmeros santos místicos, como Santa Tereza D'Avila, Catarina de Sena, João da Cruz, Teresinha do Menino Jesus, esses são sempre iniciativas divinas, não podendo, por pessoa sem longa caminhada espiritual, serem provocados à revelia.
Do ponto de vista clínico e fenomenológico, convém evitar reduções simplistas. Estados de transe ou absorção podem ser vividos como profundamente positivos: experiências estéticas intensas, sensação de comunhão, catarse emocional ou percepção de transcendência. A questão central não é a existência desses estados, mas o contexto em que ocorrem, o grau de autonomia dos participantes e a abertura à reflexão crítica. Ambientes com música envolvente, luz indireta e condução verbal podem facilitar a imersão e a sugestão, mas sua interpretação dependerá do enquadramento cultural, religioso ou artístico. Em alguns casos, serão vistos como práticas legítimas de espiritualidade ou expressão coletiva; em outros, como técnicas de persuasão intensiva, sendo esta a que se observa sem nenhuma dificuldade atualmente.
Não fui o único a perceber isso, consciente ou incoscientemente e, aos poucos, me aproximar de uma espiritualidade mais fundamentada na Tradição milenar da Igreja, como a carmelita ou a franciscana. mas os números de adeptos da RCC como movimento vem diminuindo. No entanto, isso não significa que ela vem enfraquecendo, pelo contrário, ela apenas vem mudando de nome e se vascularizando.
Hoje, no Brasil, pode-se dizer que Renovação Carismática Católica, institucionalmente identificada como tal, ocupa um lugar ambíguo e decisivo. Por um lado, revitalizou paróquias, atraiu jovens, produziu uma cultura musical e devocional vibrante e ofereceu sentido a milhões de fiéis. Por outro, levanta questões sobre o equilíbrio entre emoção e formação, experiência e tradição, identidade católica e influência pentecostal. A RCC permanece como uma força que reconfigura o catolicismo brasileiro por dentro: ao mesmo tempo integrada e inquieta, institucional e efusiva, capaz de reacender a chama da fé e, igualmente, de expor as fraturas e disputas que atravessam a Igreja no Brasil. É nesse campo de tensões, entre carisma e estrutura, fervor e discernimento, que se desenrola sua história recente, ainda em aberto e longe de qualquer síntese pacífica.
Como dito, a RCC se mantém como força organizadora e formadora do pensamento católico, ainda que sob nomes que atraem uma geração mais nova. O que nos leva, novamente, ao Prof. Olavo. Embora ele esteja falando especificamente da educação, pode ser aplicado totalmente ao nosso âmbito católico.
Quando Olavo fala do Imbecil Coletivo, ele o define como “um grupo de pessoas de inteligência normal ou mesmo superior que se reúnem com a finalidade de imbecilizar-se umas às outras” isto é: "indivíduos inteligentes, razoavelmente cultos, apenas corrompidos pela autointoxicação ideológica e por um corporativismo de partido que, alçando-os a posições muito superiores aos seus méritos, deformavam completamente sua visão do universo e de si mesmos."
Essa definição já não se aplica, nem aos intelectuais que se refere Olavo, nem aos carismáticos de nossa geraçao, especialmente pós 2010, mais ou menos. Até então, a RCC promvia encontro com tamanha frequência que, alguma formação era recebida, ainda que não nomeadamente mas, por vezes, por mimetização. Através da imitação, os membros aprendia a pregar, citar a Bíblia, conduzir grupos de oração, macaqueando os seus líderes.
Assim como a partir dos anos 1980, a elite esquerdista tomou posse da educação pública, aí introduzindo o sistema de alfabetização “socioconstrutivista”, concebido por pedagogos esquerdistas como Emilia Ferrero, Vigotsky e Paulo Freire para implantar na mente infantil as estruturas cognitivas aptas a preparar o desenvolvimento mais ou menos espontâneo de uma cosmovisão socialista, praticamente sem necessidade de “doutrinação” explícita. No campo religioso, hoje, multiplicam-se apenas a ação ritual, com brevíssimas palavras de um condutor. Não há a formação, senão no campo mais interno, enquanto o público externo recebe apenas o que internamente foi decidido em doses generosas de sugestão e fenômenos que facilmente poderiam ser classificados como histeria coletiva.
Quando comparamos as gerações, podemos observar o fundo comum e a diferênça estética adaptada ao público. Por isso nao quis usar a expressão "fiel", pois o fiel exerce sua fidelidade justamente ao ensinamento dos Apóstolos, transmitido pela Igreja por meio do Magistério autêntico e da Tradição, e não segue apenas essa ou aquela mudança visual ou musical desse ou daquele movimento.
Se lembrarmos que as Novas Comunidades surgem, em grande parte, como desdobramento da Renovação Carismática Católica a partir dos anos 1970–80. A Canção Nova (fundada por Pe. Jonas Abib, em 1978) e a Shalom (fundada por Moysés Azevedo, em 1982) são exemplos paradigmáticos: comunidades com estatuto reconhecido pela Santa Sé, forte vida comunitária, missão evangelizadora e ênfase na experiência pessoal com o Espírito Santo, ainda que questionáveis.
Nessas comunidades de primeira geração, há um esforço de institucionalização relativamente sólido: formação doutrinária sistemática, inserção paroquial (ainda que com tensões), reconhecimento canônico e um discurso de fidelidade ao magistério. Mesmo assim, críticos apontam desde cedo um deslocamento do centro da vida católica, da liturgia sacramental e da vida paroquial ordinária, para experiências intensivas de oração, música, pregação e convivência comunitária. Em termos sociológicos, isso já representava uma mudança de eixo: a religião vivida como experiência afetiva e performática, não apenas como pertença sacramental e doutrinária. A devoção se tornou algo legado ao movimento e não à Igreja que ele fazia parte. o Grupo de Oração enchia igrejas tanto ou mais que as Missas.
Quando avançamos para comunidades mais recentes, Colo de Deus, Samaria, Arte Deus, Theotokos, entre outras, percebemos uma segunda geração marcada por forte influência estética, midiática e geracional. Essas comunidades dialogam com uma juventude formada no ambiente digital, em cultura de eventos, festivais e linguagem emocional direta. A diferença não é apenas cronológica, mas de intensidade sensorial e simbólica.
Se a Canção Nova e a Shalom se estruturam em torno de pregação, formação e vida comunitária relativamente estável, comunidades como a Colo de Deus enfatizam fortemente experiências de imersão: retiros de impacto, música contínua, iluminação cênica, narrativas testemunhais, momentos de forte descarga emocional. A espiritualidade não é ensinada; ela é encenada, performada e sentida corporalmente. O espaço litúrgico ou para-litúrgico se aproxima, não raramente, de um ambiente de espetáculo devocional cuidadosamente coreografado.
Comparações com shows de rock, festivais ou grandes eventos esportivos ajudam a ilustrar o fenômeno em chave secular. A música alta e repetitiva, a iluminação coreografada e a presença de um performer carismático criam um campo de intensa sincronização emocional. O público canta em uníssono, move-se em ritmo comum e experimenta uma sensação de unidade que muitos descrevem como “arrebatadora”. A psicologia social fala, nesses casos, em sincronização comportamental e ressonância emocional. Estudos contemporâneos em neurociência social indicam que a sincronia de movimentos e sons pode aumentar a liberação de neurotransmissores associados ao prazer e ao vínculo social, reforçando a coesão do grupo e a intensidade da experiência.
No entanto, a mesma lógica pode assumir contornos problemáticos quando associada a liderança autoritária ou a narrativas fechadas. O caso de Jonestown, em 1978, frequentemente citado em estudos sobre dinâmica de grupos e seitas, exemplifica como ambientes altamente controlados, como isolamento físico, rituais coletivos intensos, repetição de discursos e música, que podem reforçar a coesão interna e reduzir a capacidade crítica dos participantes. É importante notar que eventos extremos como esse resultam de múltiplos fatores: carisma autoritário, isolamento social, manipulação psicológica prolongada e contextos históricos específicos. Ainda assim, eles ilustram como a combinação de ambiente sensorial, liderança sugestiva e dinâmica de grupo pode intensificar a adesão emocional e cognitiva.
É aqui que o diálogo com a reflexão sobre sugestionismo e ambientes indutores de transe se torna relevante. A psicologia da religião e a sociologia dos movimentos carismáticos já observaram que ambientes com música repetitiva, iluminação indireta, condução verbal sugestiva e forte coesão grupal podem produzir estados alterados de consciência. Esses estados não são necessariamente patológicos mas podem ser interpretados, dentro do campo religioso, como experiências de perigosas de êxtase, ou simulacros de consolação ou conversão. O problema surge quando a intensidade emocional se torna o principal critério de autenticidade espiritual. No caso da Colo, os seus membros e simpatizantes parecem incapazes de reconhecer que possa existir uma Igreja que não seja a comunidade.
Em comunidades mais estruturadas e antigas, como os Arautos do Evagelho (embora a comparação seja brutalmente injusta) há mecanismos institucionais de regulação: direção espiritual, formação doutrinária longa, integração com a vida sacramental ordinária. Em comunidades mais recentes e menos institucionalizadas, a experiência pode tender a se tornar autojustificadora: a emoção intensa é tomada como sinal inequívoco da ação divina. Isso cria um terreno ambíguo, onde a experiência religiosa e a indução psicológica podem se confundir. É uma grande profecia autorealizável: a comunidade promete que o alvo vai se sentir bem e, quando ele participa de um culto projetado especificamente para isso, ele acredita ser uma ação divina, quando na verdade foi apenas o cumprimento de uma série de técnicas aplicadas com um objetivo específico, como nos detemos há pouco.
No caso específico da Colo de Deus, muitos observadores notam a centralidade da estética e da afetividade. A comunidade constrói um ambiente fortemente simbólico: linguagem de intimidade com Deus, música contínua, iluminação que favorece o recolhimento emocional, pregações com tom confessional e catártico. Há uma pedagogia da experiência: primeiro sentir, depois compreender. Esse modelo dialoga profundamente com a sensibilidade contemporânea, marcada pela busca de pertencimento e pela necessidade de experiências intensas num mundo percebido como árido e fragmentado.
Por um lado, isso pode ser lido como autêntico espírito renovador: a Igreja encontrando novas linguagens para alcançar uma geração que já não responde à catequese tradicional. Por outro, levanta questões eclesiológicas e psicológicas. Quando a experiência religiosa se estrutura em torno de ambientes altamente controlados e emocionalmente carregados, surge o risco de dependência do evento e da comunidade como mediadores quase exclusivos da experiência de Deus. A fé pode se tornar inseparável do clima sensorial que a produz.
A comparação com a RCC é inevitável. A Renovação, em sua origem, também valorizava a experiência do “batismo no Espírito”, a oração espontânea e a música. Mas, ao longo das décadas, passou por processos de institucionalização e correção interna, muitas vezes incentivados pela própria hierarquia. Por isso foi "minguando" como tal mas, na realidade, foi se adaptando e migrando, transmutando nas comunidades mais atuais. As novas comunidades, sobretudo as mais recentes, ainda atravessam esse processo de maturação mas que dificilmente vão atingir pois nao possuem consigo nenhum subsídio doutrinário sólido o bastante para tal. Algumas caminham para maior integração eclesial; outras mantêm uma lógica mais autônoma, centrada na própria identidade carismática. Pode-se tecer várias críticas a Canção Nova e a Shalom, por exemplo, mas não se pode questionar a profunda espiritualidade do Mons. Jonas Abib e sua fidelidade a Igreja, lhe rendendo justamente o título de monsenhor.
Em vídeos vazados nas redes sociais, é possível ver um vocalista da Colo de Deus chamando Nosso Senhor Jesus Cristo de "gato de balada" (sic!) e expressões como "vou te pegar" além de expressões inapropriadas para a Bem-aventurada Virgem Maria e Santa Terezinha numa execrável alegoria ao chamado divino. O episódio dividiu opiniões, claro, mas a comunidade não pareceu se importar, ao contrário, o teor de suas açoes permanece o mesmo, sob desculpa de ser necessário usar de um linguagem jovem. Na verdade, o que parece, dada a quantidade de membros que se desligam dessas comunidades para fundarem outras, ao modo protestante de ser, percebemos o que realmente importa: o palco e os holofotes.
Com efeito, Hugo Santos, o fundador histórico da Comunidade Católica Colo de Deus, que iniciou seu o ministério por volta de 2006-2008, se desligou da comunidade em 2021 e atualmente segue à frente da Comunidade Samaria. Flávio, o protagonista desse episódio grotesco também já deixou a comunidade. Que tal ato tenha passado sem uma ação forte e, no mínimo, a exigência de uma retratação pública por parte do pregador, demonstra uma fraqueza do Arcebispo de Brasília, onde aconteceu o evento, e uma displicência do clero em permitir que os jovens continuem consumindo os produtos nefastos dessa comunidade. A ação esperada, senão de excomunhão por blasfêmia, deveria, no mínimo, a da extinção da comunidade e do silêncio obsequioso de todos os seus membros notórios, dado o alcance de sua pregação e proporcional estrago que ela pode causar.
A vulgarização da fé produz uma "evangelização" desse tipo. Mas onde vamos chegar? Em nome de uma errada compreensão sobre evangelização se vende a fé pelos centavos da cultura modernista, que cada vez mais se torna inimiga do Evangelho de Jesus Cristo, que não é gato coisa alguma! Devemos banir a transposição da linguagem vulgar da cultura para dentro do Evangelho, isso não nos incultura, mas nos faz negociadores irresponsáveis da fé cristã. A tradução bíblica não autoriza a amálgama de um Jesus adocicado e de mãos dadas com nossas neuroses perturbadoras.
O que é evangelização? É fazer evento para distrair ao som de músicas do momento e de frases carregadas de clichês? Tornando-nos reféns da ditadura do sentimentalismo, amarrando-nos nos passos contrários aos passos do caminho de cruz. Hoje se bate qualquer lata em nossos eventos "católicos" com recheio da forma protestante de se falar de Jesus Cristo e se diz que é evangelização. Banalizar a Pessoa de Jesus, e não somente o seu Nome, nunca levou de ninguém ao lugar seguro da fé. Voltemos às fontes católicas e constataremos que o que mais fazemos são reproduções de devaneios fantasiosos e pomos o nome de evangelização.

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