terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Espetáculo e pertencimento: a construção do sensível nas comunidades carismáticas III

Leia a parte II aqui

Do ponto de vista crítico, o desafio é discernir entre experiência espiritual autêntica e engenharia emocional. Não se trata de negar a possibilidade de ação do sagrado em ambientes intensos, mas de reconhecer que a emoção coletiva pode ser amplificada por técnicas conhecidas de condução de grupo e vem sido amplamente usada para atrair jovens sem nenhuma defesa, pois não possuem conhecimento e nem maturidade eclesial para tal. O que nos traz de volta ao ensinamento do Prof. Olavo, ao afirmar que a atual geração é, intelectualmente, atacada numa idade mais tenra, que a impede de ao menos saber que pode ser enganada.

O produto dessa monstruosidade são jovens que se tornam líderes, coordenadores e até pregadores sem conhecimentos mínimos de doutrina e com uma reduzida capacidade de articular a experiência e a catequese. Nos shows, grupos jovens e outros, aprendem a macaquear o jargão de uma ou várias formas de falar que, na falta de um domínio razoável da língua geral e literária, compreendem de maneira coisificada, quase fetichista, permanecendo quase sempre insensíveis às nuances de sentido e incapazes de apreender, na prática, a diferença entre um conceito e uma figura de linguagem. Em geral não têm sequer o senso da “forma”, seja no que leem, e muito menos no que falam. Doutrina? Nunca nem vi.

Aplicado em escala nacional como tem sido, as novas comunidades resultaram numa espetacular democratização da inépcia doutrinária, que hoje se distribui mais ou menos equitativamente entre muitos jovens católicos. Nunca se reuniu tantos jovens, e nunca se conheceu tão pouco o que é a Igreja. 

Ao adotar linguagens performáticas e imersivas, reabre essa tensão entre carisma e instituição, experiência e discernimento. Ainda mais além, o dano não fica limitado apenas aos jovens, mas já se enxerga em toda hierarquia eclesial brasileira. Não há um só evento, Missa ou encontro, com exceção dos praticamente insípidos movimentos tradicionais fechados em si mesmos, que não se escute uma de suas músicas ou que algum momento de exagero sentimental seja explorado e destacado como centro e ápice da vida cristã, malgrado até mesmo a celebração da Eucaristia. 

Nas adorações, a presença do Santíssimo Sacramento é puramente ornamental, retire-o e qualquer um desses momentos poderia facilmente se passar numa igreja protestante, sem qualquer embasamento ou aprofundamento teológico, mas com essa retórica sugestiva e pérfida. Nos Cercos de Jericó, Encontros de Adolescentes com Cristo (EAC), Jovens com Cristo (EJC), Casais com Cristo (ECC), os cursos promovidos pela Escola de Evangelização Santo André (EESA), qualquer grupo de jovens ou outras invencionices, porque além de brega e heréticas essas iniciativas também são dotadas de uma ferina criatividade, todos tem em comum esses elementos sugestionáveis para disfarçar a ausência de espiritualidade numa forma onde se apresenta, porca miséria, como a única espiritualidade possível.

A sociologia e a antropologia da religião interpretam esses estados não apenas como “indução”, mas como construção ritual. Victor Turner e Émile Durkheim, por exemplo, analisaram como rituais coletivos podem gerar aquilo que Durkheim chamou de “efervescência coletiva”: um estado de excitação emocional e sensação de transcendência que emerge da participação sincronizada em gestos, cantos e movimentos. Nesses contextos, o ambiente sensorial, música, luz, ritmo, não é mero acessório, mas parte constitutiva do rito. Ele organiza o tempo, marca transições e cria uma atmosfera na qual os participantes se percebem inseridos em algo maior que si mesmos. O transe, nesse sentido, não é apenas psicológico, mas socialmente mediado.

Um exemplo simples, porém claro e lamentável, é a música "Acaso não sabeis" da já referida Colo de Deus que, não só é cantada em todo e qualquer momento mariano como substituiu de uma só vez os belíssimos hinos dedicados à Imaculada Conceição, que já não são cantados nem mesmo nas paróquias que possuem tão honroso título. No entanto, como é de fácil execução (já que a mesma frase é repetida até a exaustão), o fato de uma participação maior da assembleia traz a ideia, falsa por sinal, daquela participação ativa dos fiéis que pediu o Concílio Vaticano II. No entanto, com o completo esvaziamento do significado do dogma da Imaculada Conceição, os fiéis não estão participando efetivamente simplesmente pelo fato de que não se trata mais de um ato piedoso e cristão, mas apenas de uma efusão coletiva, conforme o parágrafo anterior.

Talvez a pergunta mais profunda não seja se essas comunidades são legítimas, muitas o são canonicamente, mas que tipo de subjetividade religiosa estão formando. Uma fé capaz de subsistir no silêncio, na aridez e na rotina sacramental ordinária? Ou uma fé dependente de picos emocionais e ambientes cuidadosamente construídos para criar um público fiel e ignorante? A nós, resta clamar:

Piedade, ó Senhor, tende piedade! (Sl 50)


REFERÊNCIAS

DOCUMENTOS DO MAGISTÉRIO E ORGANISMOS DA SANTA SÉ

BENTO XVI. Exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis. São Paulo: Paulinas, 2007.

CONSELHO PONTIFÍCIO PARA OS LEIGOS. Renovação Carismática Católica: estatutos do ICCRS. Vaticano, 1993.

CONSELHO PONTIFÍCIO PARA OS LEIGOS. Iuvenescit Ecclesia: carta aos bispos sobre a relação entre dons hierárquicos e carismáticos. Vaticano, 2016.

JOÃO PAULO II. Christifideles Laici: exortação apostólica sobre a vocação e missão dos leigos na Igreja. São Paulo: Paulinas, 1989.

JOÃO PAULO II. Discurso aos participantes do encontro internacional da Renovação Carismática Católica. Vaticano, 30 maio 1998.

PAULO VI. Discurso aos participantes da Conferência Internacional da Renovação Carismática. Vaticano, 19 maio 1975.

DOCUMENTOS DA CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB)

Orientações pastorais sobre a Renovação Carismática Católica. Brasília: CNBB, 1994. 

Documento 53: Igreja e novos movimentos. Brasília: CNBB, 1994. 

Documento 62: Missão e ministérios dos leigos e leigas. Brasília: CNBB, 1999.

OBRAS SOBRE RCC, MOVIMENTOS E CATOLICISMO CONTEMPORÂNEO

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CARRANZA, Brenda. Catolicismo midiático: a Renovação Carismática Católica e a comunicação no Brasil. Aparecida: Santuário, 2011.

MARIZ, Cecília Loreto. Catolicismo no Brasil contemporâneo: reavivamento e diversidade. Rio de Janeiro: FGV, 2006.

PRANDI, Reginaldo. Religião e sociedade no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

SANCHIS, Pierre. Catolicismo: unidade religiosa e pluralismo cultural. São Paulo: Loyola, 1992.

RANAGHAN, Kevin; RANAGHAN, Dorothy. A renovação carismática católica. São Paulo: Loyola, 1972.

SUENENS, Léon Joseph. Uma nova efusão do Espírito. São Paulo: Loyola, 1975.

WAGNER, Peter. A igreja e os movimentos carismáticos. São Paulo: Vida Nova, 1993.

SOCIOLOGIA, PSICOLOGIA E ANTROPOLOGIA DA RELIGIÃO / EXPERIÊNCIA COLETIVA

DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu. In: FREUD, Sigmund. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 2011.

HILGARD, Ernest R. Divided consciousness: multiple controls in human thought and action. New York: Wiley, 1977.

HULL, Clark L. Hypnosis and suggestibility. New York: Appleton-Century-Crofts, 1933.

LE BON, Gustave. Psicologia das multidões. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2008.

TURNER, Victor. O processo ritual: estrutura e antiestrutura. Petrópolis: Vozes, 1974.

WESSINGER, Catherine (org.). The Oxford handbook of millennialism. Oxford: Oxford University Press, 2011.

XENITIDIS, K.; CAMPBELL, J. (org.). Music and altered states of consciousness. London: Routledge, 2018.

OUTRAS OBRAS

CARVALHO, Olavo de. O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Rio de Janeiro: Record, 2013.

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