A cena dura um pouco mais de dez minutos, após uma conversa desagradável o Chef pensa em usar a cozinha do restaurante, já vazio, para preparar algo, mas logo perde a paciência. Os cortes se tornam mais e mais violentos até que ele começa a lançar tudo ao chão, não só os ingredientes como os pratos e tudo mais que há por perto. Por fim, se senta, completamente exausto, completamente frustrado, com a cabeça entre as mãos trêmulas.
Surge então aquela jovem figura que o encantara nos últimos dias. O jovem de paladar único e refinado, uma diamante que ele encontrara, estava ali de pé, diante dele. O Chef se levantou, rapidamente, com os olhos marejados, e o outro pareceu não se importar. Com o olhar terno e em silêncio ele se abaixa e começar a recolher os cacos dos pratos que foram quebrados. Não há nele sinal de condenação, pelo contrário, há uma ternura acolhedora que faz o outro se sentir abraçado.
É só depois disso, que há um diálogo. O jovem diz que parece haver ratos por ali, e o Chef concorda, tornando o ambiente mais calmo. E então, o resto do episódio segue.
Essa cena do terceiro episódio de Bite Me, um BL de 2021 que passou bem despercebido pelo público justamente por conta da presença de cenas como a que descrevi. Já naquela época as pessoas não conseguiam conseguir um ritmo diferente do frenético. Em séries americanas a coisa é quase imperceptível, os personagens se conhecem num instante e, noutro, já estão transando. Todo e qualquer rastro de conexão foi perdido. Isso se contrasta muito quando vemos a literatura no geral e acompanhamos histórias em que as pessoas levam meses, até anos, para se aproximarem.
Do mesmo modo, uma séria ambientada num restaurante em que a conexão humana se dá na velocidade do preparo de um prato, se tornou entediante ao grande público.
As músicas têm menos de três minutos, as séries agora são divididas em mil partes para caberem em vídeos de dois minutos. Ouvir algo como uma Paixão segundo S. Mateus do Bach ou uma ópera de Wagner com mais de três horas? Isso nunca existiu, é lenda!
As pessoas não têm mais tempo, embora vendam seu tempo o tempo todo. O trabalho precisa ser em um prazo mínimo. A rotina precisa ser milimetricamente cronometrada, ou então falta tempo. Falta tempo para sentar e, em silêncio, observar o belo Mark Siwat se abaixar e catar os pedaços de louça quebrada no chão, enquanto o Chef o observa com os olhos marejados e, naquele momento, eles se conectem pouco e pouco, sem nem mesmo entender o motivo. Mas estão ali, o jovem está ali. E poderia estar em outro lugar.
Mas está ali.
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.
(Mário Quintana)

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