Sinfonia n.º 8 em Eb de Gustav Mahler, "Sinfonia dos Mil"
Existem algumas obras que se tornam verdadeiras lendas, colossos que transcendem o tempo e ainda despertam maravilhamento de quem tem contato com elas. Isso porque não são apenas peças musicais, ou livros, ou esculturas, são uma parte profunda do espírito humano que foi ali conservada e passada a posteridade. Essa estupefação que sentimos não é mais do que o reconhecimento do que há de nós ali, isto é, daquelas experiências comuns a todo homem, e que por isso parecem passar despercebidas. Mas elas estão lá, transcendendo o tempo, pois pertencem ao homem desde seu primeiro pensamento.
Por essa razão algumas obras parecem ser tão grandiosas que dispensam qualquer palavra ou explicação. Mesmo o idioma não é empecilho para a apreciação: como dizia Platão, a música é ensinada diretamente ao coração. Por muito tempo eu me vi diante da Sinfonia n.° 8 de Mahler dessa forma, como quem fica diante de uma gigantesca catedral, maravilhado por passar pela porta e então olhar para cima e ficar sem palavras. E, de fato, elas não são necessárias, mas um escritor como eu pode se aproveitar dessas mesmas palavras para me aprofundar de algum modo no que vem sido transmitido pelas gerações por meio da obra.
Em linhas gerais, a Sinfonia n.º 8 em Eb de Gustav Mahler é uma das obras corais de maior escala do repertório orquestral clássico. Como exige uma enorme quantidade de instrumentistas e membros do coro, é frequentemente chamada "Sinfonia dos Mil", embora a obra se interprete muitas vezes com menos de mil intérpretes e o próprio Mahler não tenha aprovado esse apelido. Eu, por outro lado, gosto muito, aliás, nomes como "Trágica" e "Patética" dão um certo charme.
A estrutura da obra não é convencional; em vez de seguir a estrutura normal em vários movimentos, a obra está dividida em duas partes. Como disse, a semelhança é como uma catedral, ela nos eleva, abarcando completamente quem somos e voltando nosso olhar para o alto. A primeira parte é baseada no texto latino de um hino cristão escrito no século IX por Rabano Mauro para as festividades do Pentecostes, Veni Creator Spiritus e a segunda parte é um arranjo das palavras da cena final do Fausto de Goethe. As duas partes estão unidas por uma ideia comum, a da redenção através do poder do amor, unidade transmitida mediante temas musicais comuns. A obra é vocal de uma ponta à outra, sendo a introdução do segundo andamento a única passagem puramente instrumental. Não é uma sinfonia com solistas e coros, mas sim uma sinfonia para solistas, coros e orquestra.
Se compararmos com as sinfonias anteriores, vemos que Mahler buscou oferecer uma grande abertura à luz, depois do pessimismo que pairou as sinfonias 5, 6 e 7.
Sem mais delongas, a obra abre com uma força impressionante. Até o mais desatento ouvinte percebe que algo diferente aconteceu.Tanto coro quanto orquestra entram de modo a transformar todo o ambiente. O silêncio e o brilho no olhar é a única reação possível. Muitos críticos consideram a peça, embora grande em número, musicalmente menos complexa que outras, como a 5° Sinfonia, que demanda grande estudo das orquestras, mas e o otimismo pouco convincente. Mas acredito que eu tenha compreendido Mahler. Um número tão grande de músicos exigira um esforço grandioso demais para conectar cada parte, e isso talvez não fosse necessário: a unidade de elementos dispares, como o hino cristão e a cena do Fausto, já são suficientes.
A combinação dos efetivos dessa primeira parte é, como disse, arrebatadora. A entrada dos solistas acrescenta cores enquanto os dois coros começam como um diálogo entre si, e os metais apresentam o tema que, com algumas variações, se tornará um elemento de união em toda a obra. Uma série de combinações se segue, solistas, coros, trechos instrumentais. Numa fragmentação temática, característica do compositor que, normalmente, apresenta um tema marcante para retomá-lo quase uma hora depois ou, até mesmo, em outra peça. Todas essas explorações demonstram a energia criadora, aquele impulso criativo. Aqui me recordo do famoso poema de William Blake, não pelo tom pessimista, mas pela estupefação diante da variedade da criação:
E regaram de lágrimas os céus,
Sorriu Ele ao ver sua criação?
Quem deu vida ao cordeiro também te criou?"
Uma delicada transição liga o início grandioso, até que todos, instrumentos e vozes se combinam numa recapitulação do primeiro tema, ao clímax, que conta com instrumentos posicionados fora do palco, finalizando de forma transcendente. Essa transição interioriza o impulso criador, antes demonstrado na força do conjunto. Há uma nítida redução do corpo sonoro, o que pode causar estranhamento ao público geral: com um contingente tão numeroso, não seria de se estranhar que a obra fosse repleta de grandes explosões a todo momento, quase ao modo do Réquiem de Verdi, que repete o Dies Irae diversas vezes e em outras insere o coro para fortalecer ainda mais o impacto do juízo final.
Aqui encontramos, passagens de delicada orquestração, diálogos entre os solistas adquirindo uma característica quase camerística. Ao mesmo tempo em que apresenta uma complexa gama de contrapontos na superposição do tema principal e suas variações, ele também apresenta esse lado de textura leve, como o louvor simples de uma flor que desabrocha ao amanhecer e o do sol que brilha intensamente a pino. É impressionante como Mahler consegue trabalhar tão bem uma obra desse porte, dando-a uma personalidade tão pessoal. Quando o tema principal retoma, num crescendo, mais uma vez, a estupefação é inevitável.
O texto do Veni Creator combina com a musicalização a medida que explora essa força do Espírito Criador. Essa energia converge, como que costurando cada ala da orquestra e do coro. O Espírito vai formando, soprando vida: após a explosão da criação, ele pessoalmente vai delineando a beleza de cada uma das partes. Conclui-se a invocação, ou o louvor, ao Espírito Criador, com seu despertar numa retomada brilhante daquele início magistral. É belo notar que, assim como vai acontecer no fim da obra, não se trata apenas da finalização do texto, mas de uma transmissão complexa do seu sentido mais profundo.
O Espírito Santo, terceira pessoa da Santíssima Trindade, tem papel central na teologia católica, por isso creio que vale a pena aprofundar um pouco mais nesse tema aqui explorado de forma tão magistral pela música.
Santo Ambrósio é uma das grandes fontes patrísticas sobre o tema. Ele insiste na consubstancialidade do Espírito com o Pai e o Filho, que viria mais tarde ser parte da disputa e cisma entre o cristianismo do oriente e do ocidente. Ele descreve o Espírito como aquele que vivifica, santifica e torna possível o conhecimento de Deus. Sua reflexão estabelece a base para entender o Espírito não apenas como força, mas como pessoa divina que atua na Igreja e na alma. No contexto do Veni Creator, Ambrósio ajuda a ler a invocação não como metáfora poética, mas como súplica real à presença que transforma e ilumina o intelecto humano. Musicalmente falando, a complexidade da combinação dos diversos elementos, como dito, solistas, coro, instrumentos, mostram essa iluminação, no sentido da participação humana na criação das coisas belas que apontam para Deus.
Essa concepção vai bem de encontro com Santo Agostinho, que aponta que em uma leitura estética e existencial, o Espírito é o que move o interior da alma em direção ao bem e ao belo. A invocação do hino torna-se então um pedido por esse amor que ilumina e ordena o desejo. A partir daí, São Basílio afirma o papel do Espírito Santo na divinização do ser humano. O Espírito não apenas cria, mas eleva e conforma à vida divina. Ele é apresentado como luz que permite ver a Luz.
Mais recentemente, o Papa Leão XIII, na Encíclica Divinum Illud Munus (1897), primeira grande encíclica dedicada inteiramente ao Espírito Santo, o descreve o como princípio de vida e santificação da Igreja, aquele que distribui dons e carismas e sustenta a unidade. O documento insiste na necessidade de invocar o Espírito constantemente, tanto na vida pessoal quanto eclesial. Essa perspectiva ilumina o Veni Creator como oração comunitária que pede renovação e fecundidade. Essa prece por renovação também pode ser lida como redenção, perdão, ponto central da segunda parte, que veremos mais a frente, traçando assim a união entre os polos vocais da obra, unidos pela ação do Espírito, apresentado como alma da Igreja, o que dialoga com a ideia de impulso vital, sublime, presente na música de Mahler.
Essa mesma leitura se encontra na Constituição Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, onde o Paráclito é aquele que distribui os dons, dentre eles o Temor de Deus, que resulta no pedido de constante renovação e fidelidade. O Espírito é princípio de comunhão e também de missão. Na segunda parte, as penitentes rogam pela participação de Fausto na unidade do Paraíso, e têm como missão a redenção do mesmo. A criação aqui não é apenas cósmica, mas eclesial e histórica.
Do mesmo modo, São João Paulo II, na Encíclica Dominum et Vivificantem (1986) apresenta o Espírito como aquele que convence o mundo do pecado e o conduz à verdade plena, mas também como fonte de vida e de renovação interior, em consonância com afirmação do Vaticano II. Ele enfatiza a ação do Espírito na história e na consciência humana. A encíclica dialoga com a ideia de que o Espírito atua como sopro criador contínuo. O Veni Creator torna-se, nesse contexto, um pedido de recriação do coração humano e de abertura ao sentido último da existência.
Já Hans Urs von Balthasar, em sua Teodramática, vê o Espírito como aquele que introduz o ser humano no drama divino. O Espírito é a liberdade de Deus que se comunica e faz participar da vida trinitária. Ele também relaciona o Espírito à beleza e à forma, como aquele que permite perceber a glória. Essa relação fica mais do que clara quando levamos em consideração a beleza transcendente da Sinfonia.
Essas referências formam um campo sólido para sustentar uma leitura densa do Veni Creator como invocação ao princípio criador, iluminador e elevador que atravessa a teologia, a liturgia e a experiência estética. A composição de Mahler aponta para a atração do alto. Esse olhar atento me faz ter ainda maior admiração, mas não o temor de antes. Me lembro bem de considerar a peça difícil demais, complexa demais, quase uma massa disforme de sons que não me soavam claros. Isso porque a leitura técnica não é capaz de substituir a audição atenta que, por sua vez, pode ser enriquecida pela parte técnica.
Com a finalização do hino, sem intervalo, passa-se a segunda parte da peça. Ela não funciona como movimento sinfônico tradicional. Ela é uma paisagem sonora contínua, organizada por entradas sucessivas de planos espirituais.

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