Parte I aqui
Talvez uma boa forma de entender esse concerto seja ouvir como quem assiste a um teatro, o teatro interior de Mozart interpretado por Uchida. Não vamos ouvir necessariamente uma tempestade, de novo, no sentido romântico do termo. O piano soa mais como a consciência do herói que desperta na tempestade. E é esse despertar que assistimos.
É o momento que os místicos chamariam de vigília: quando a alma percebe que não está sozinha dentro de si. A tempestade não é exterior; é o mundo interior que começa a falar em voz própria.
Como era prática comum na época de Mozart, o primeiro movimento começa com uma introdução orquestral. Sombria, inquietante, evocando um confronto. Mas logo ganham mais força à medida que a música inicia uma passagem de transição. A orquestra faz uma pausa como se estivesse respirando, e os instrumentos de sopro tentam introduzir uma ideia contrastante; a música tempestuosa, no entanto, recomeça antes que possa se desenvolver completamente.
Como em certas tragédias gregas, o coro anuncia um destino antes que o protagonista possa compreendê-lo. A profecia de um oráculo. A consciência tenta falar, os sopros insinuam outro caminho, mas a necessidade retorna, insistente, como uma lei antiga.
O piano entra com um novo tema próprio, uma melodia calma e patética. Quando a orquestra retorna ao tema sombrio de rufar de tambores que abriu o movimento, o solista junta-se a ela com passagens rápidas e agitadas. Após uma passagem orquestral, o solista retorna com uma versão mais brilhante da música que tocou inicialmente. Esse tema solo alterna com o rufar de tambores ameaçadores da orquestra, como se o piano estivesse em diálogo com algum antagonista. Ambos soam como confronto e às vezes, como integração. Por fim, o piano não soa sentimentalista, mas cristalino, mesmo nas passagens de difícil execução.
É a velha dialética entre a alma e o mundo: em Santo Agostinho, a inquietação que só encontra repouso ao reconhecer sua origem; em Goethe, a consciência que aprende a caminhar entre forças opostas, mas sem aquela brutalidade do autor, como no Fausto ou no Jovem Werther. O piano aqui não vence a sombra, aprende a falar com ela.
A regência de Uchida é vivaz, poucas vezes vi maestros demonstrarem tamanho envolvimento e movimentos tão rápidos e precisos quanto ela. Não há “solista contra orquestra”, e sim um organismo que respira junto. Ela usa o corpo para “respirar” antes das entradas: isso molda o tempo de todo o conjunto. Cada um de seus gestos é como o proferir de uma frase, não é como uma dramatização, mas uma transpiração daquilo que ela canta.
Como se o tempo musical fosse também tempo respirado. A sombra, então, não é inimiga: é o intervalo necessário entre duas respirações. Sem ela, não haveria frase, nem forma, nem consciência.
Mozart intitula o lento segundo movimento de "Romance", um termo que geralmente indica uma peça em estilo vocal simples, com um tema principal e uma ou duas seções centrais contrastantes. Este Romance não é exceção; ele começa com uma bela melodia que proporciona um respiro após a tempestade e o estresse do primeiro movimento. Após uma primorosa seção que mantém o clima tranquilo, as sombras retornam na agitada seção final do movimento. Esses momentos de respiro aparecem em toda a peça. São pequenas suspensões antes de entradas, de respostas, como quem toma fôlego. É nessas pausas em que a orquestra aparece mais que Uchida usa para se comunicar, não apenas com olhares, mas com aqueles movimentos, como quem comunica diretamente aos instrumentos.
Esse movimento é como aquelas tardes em que a vida parece reconciliada consigo mesma — mas apenas por instantes. A sombra retorna não como catástrofe, mas como lembrança de que toda paz, neste mundo, é provisória. Ainda assim, a melodia insiste: como se cantar fosse a única forma de atravessar a noite afastando o medo. Como a Alice de Lewis Carrol numa floresta repleta de criaturas estranhas que nunca se revelam totalmente.
O solista inicia o final com um tema pontuado por acordes dissonantes e arrepiantes: fogo! Esse tema alterna com ideias contrastantes, incluindo uma melodia alegre em tom maior para os instrumentos de sopro. Após vários desenvolvimentos, a orquestra para e o solista executa uma cadência final. A coda subsequente retorna ao tom brilhante de Ré maior. No teatro, o público do século XVIII geralmente exigia finais felizes, mesmo em tragédias, na ópera de Mozart, por exemplo, depois que Dom Giovanni desce ao inferno, os outros personagens retornam para nos assegurar que “Este é o destino de todos os malfeitores”.
Mas todo final luminoso carrega a memória do abismo que o precedeu. Como nas comédias de Shakespeare, a ordem é restaurada, e, no entanto, algo foi visto, algo foi sabido, e não pode ser esquecido. As cicatrizes sempre permanecem.
O tema alegre dos instrumentos de sopro que retorna para encerrar o concerto parece oferecer aos ouvintes uma resolução otimista semelhante. Ele chega não como explosão triunfal, mas como claridade súbita. Em Uchida, muitas vezes soa quase irônico, ou pelo menos ambivalente. O sorriso dela é, com o perdão da palavra, quase diabólico, como se fosse Mozart sorrindo com a desgraça do próprio destino
É a luz do amanhecer depois de uma noite de vigília: não apaga a escuridão que houve, mas a torna suportável. A claridade não nega a sombra; apenas a reposiciona dentro da memória. Talvez porque toda verdadeira forma clássica saiba disso: a luz que dura é aquela que aprendeu a conviver com a noite. E a música, ao terminar, não dissipa a sombra, apenas nos ensina a escutá-la.
como uma sombra.

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