sexta-feira, 18 de setembro de 2026

A Instrumentalidade Humana X - A fera que gritou Eu no coração do mundo

Parece-me, uma vez mais, que as pessoas comuns já não esperam muito de si mesmas nem dos outros além de que trabalhem vorazmente e consigam intercalar longas jornadas com alguns momentos de alegria, sempre limitados pelo tempo, pelo cansaço e pelo pouco dinheiro que resta depois que a existência recebeu sua cobrança mensal. 

Então toca o alarme e uma nova semana começa. O trabalho, os compromissos, as mensagens, as cobranças.

Os encontros entre o eu e o outro, com todas as dores provenientes das relações que não compreendem inteiramente, dos afetos que não conseguem dizer aquilo que desejariam, da impossibilidade de tocar realmente a experiência interior daquele que está diante de nós. Em algum ponto desse processo, parece mais fácil reduzir o mundo. As pessoas refugiam-se então em pequenos recortes da realidade.

Perdem-se em e-mails que ninguém lê, listas de tarefas que, se deixassem de ser cumpridas, talvez não fizessem falta alguma, metas cuja realização produz um prazer suficientemente curto para evitar que se pergunte para que serviam.

Há um alívio no dever cumprido. Não importa tanto se o dever possuía importância. Importa que, por alguns instantes, ele consiga silenciar outras perguntas.

Do que você tem medo? Por que você o matou? Por que precisa que alguém o reconheça? O que restará de você quando já não desempenhar a função pela qual aprendeu a medir seu valor? O que deseja realmente daquele que ama? O que fará quando aquilo que deseja entrar em conflito com aquilo que o outro deseja?

São perguntas inconvenientes.

Planilhas, pelo menos, possuem células. A angústia não teve essa delicadeza.

É possível, então, construir uma existência aparentemente sem conflitos não porque os conflitos foram resolvidos, mas porque uma parte cada vez maior da realidade foi excluída da atenção. Trabalhar. Comprar. Descansar. Recomeçar. O mundo torna-se administrável precisamente porque foi reduzido.

Acho que não preciso me demorar muito mais para dizer que essa é uma forma diminuída de existência.

Mas talvez seja necessário acrescentar outra coisa: diminuir a existência não significa necessariamente torná-la menos dolorosa. Às vezes significa apenas empobrecer o vocabulário com o qual a dor poderia ser compreendida. É aqui que a obra de arte adquire uma função muito mais importante do que aquela reservada ao entretenimento.

Olavo de Carvalho insistiu, em diferentes momentos de sua reflexão sobre o imaginário e sobre os modos do discurso, na importância de formar a imaginação antes de exigir dela julgamentos adequados sobre a realidade.

A literatura, entendida aqui no sentido mais amplo que interessa a esta reflexão, incluindo narrativa, drama, poesia, cinema e outras formas artísticas, expande o campo das possibilidades humanas que uma consciência consegue conceber.

Uma única vida é pequena. Por mais longa que seja, não podemos ocupar todas as posições. Não podemos ser simultaneamente pai e filho, abandonador e abandonado, covarde e herói, assassino e vítima, adolescente e velho, rei e mendigo, santo e criminoso. Não podemos viver todas as escolhas para descobrir o que elas significariam. A imaginação oferece uma aproximação. Não substitui a experiência, mas amplia-a. Nos torna participantes da possibilidade!

Quando acompanhamos uma história, permitimos provisoriamente que outra estrutura de possibilidades entre em nossa consciência. Experimentamos motivos que talvez nunca tenham sido nossos e consideramos decisões que talvez jamais precisemos tomar. Reconhecemos paixões das quais nos julgávamos incapazes. Descobrimos que uma atitude que parecia absurda vista de fora pode possuir uma lógica devastadoramente clara quando observada de dentro. Isso não significa absolver tudo.

Compreender nunca significou absolver.

Significa apenas recusar a pobreza moral daquele que julga antes de conseguir imaginar. Esse é um dos sentidos mais profundos da educação do imaginário. Quanto mais situações humanas conseguimos contemplar seriamente, maior se torna nosso vocabulário existencial. Não apenas o número de palavras que conhecemos, mas o número de possibilidades humanas que somos capazes de reconhecer.

Uma pessoa pode chegar a uma obra acreditando que só existem coragem ou covardia. Encontra Shinji e descobre a responsabilidade. Pode acreditar que independência significa não precisar de ninguém. Encontra Asuka e percebe como essa independência pode depender desesperadamente do olhar alheio. Pode acreditar que identidade é algo simplesmente possuído. Encontra Rei e precisa perguntar de onde vem aquilo que chama de “eu”. Pode imaginar que amar significa compreender completamente. Encontra Misato, Kaji, Shinji, Asuka e Kaworu e descobre que justamente amamos aqueles cuja interioridade nunca possuímos inteiramente.

A obra não fornece necessariamente uma resposta, ela aumenta a quantidade e a qualidade das perguntas que podemos suportar. Talvez uma existência enriquecida por histórias seja precisamente uma existência na qual somos capazes de permanecer um pouco mais diante de uma realidade desagradável antes de classificá-la, condená-la ou simplesmente fingir que ela não existe. Nesse sentido, Neon Genesis Evangelion não oferece apenas personagens com os quais alguém possa identificar-se, oferece formas para pensar experiências.

O Campo A.T. oferece uma forma para pensar a fronteira. A Instrumentalidade oferece uma forma para pensar o desejo de escapar da separação. Asuka dá forma à identidade que precisa desesperadamente de reconhecimento. Rei, à identidade que começa recebida e procura tornar-se escolha. Misato, à fragmentação de quem consegue funcionar sem jamais conseguir integrar inteiramente aquilo que vive. Kaworu, à esperança de uma relação que parece suspender temporariamente o ferimento. Shinji, à consciência que precisa descobrir se deseja continuar existindo quando existir significa continuar exposto aos outros.

Talvez seja essa uma das maiores e mais belas capacidades da arte: dar forma ao que antes era apenas sofrimento indistinto. Não curá-lo. Não justificá-lo. Não transformá-lo necessariamente em ensinamento. Dar-lhe forma. E, dando-lhe forma, permitir que seja contemplado.

O encerramento da série televisiva realiza essa operação de maneira quase literal. O mundo exterior desaparece progressivamente. Cenários tornam-se abstratos, corpos perdem consistência. Personagens surgem como vozes, acusações, lembranças e possibilidades. A própria animação parece abandonar a obrigação de representar um espaço físico coerente. É como se a forma da série sofresse aquilo que seus personagens estão sofrendo. As fronteiras que organizavam o mundo deixam de funcionar.

Shinji torna-se objeto de investigação.

Quem é você? Quem é você para os outros? Quem é você quando ninguém mais define aquilo que deve ser?

Até então ele havia tentado responder a essas perguntas através de imagens externas.

Sou piloto. Sou filho de Gendo. Sou alguém de quem Asuka não gosta. Sou alguém de quem Misato precisa. Sou alguém que Kaworu amou. Sou alguém inútil. Sou alguém necessário.

Cada definição possui algum grau de verdade, mas nenhuma consegue contê-lo. A sequência da realidade alternativa torna essa instabilidade especialmente clara.

Subitamente, outro mundo é possível.

Outras relações. Outro Shinji, outra Asuka, outra Misato, outra configuração familiar. Não precisamos concluir que aquela realidade seja a “verdadeira” solução. Sua função é mais radical. Ela demonstra que aquilo que Shinji tomava como necessidade talvez contivesse contingência. Se as circunstâncias fossem outras, ele poderia reconhecer-se de outra maneira.

Se aquilo que chama de “eu” depende parcialmente das relações dentro das quais esse eu se reconhece, então uma mudança de perspectiva modifica também o campo da identidade possível. Isso não significa que basta “pensar positivo”. Seria uma conclusão espantosamente banal para uma obra que dedicou vinte e seis episódios a complicar exatamente esse problema.

A percepção possui poder, mas não possui soberania absoluta. Shinji não consegue apagar o abandono paterno decidindo interpretá-lo alegremente. Não consegue desfazer a morte. Não consegue eliminar a existência dos outros.

O que pode começar a mudar é a relação que mantém com aquilo que aconteceu e com as descrições que construiu a partir disso. Quando reconhece que talvez possa amar a si mesmo, a palavra importante é justamente talvez.Não há iluminação definitiva. Há abertura.

Depois de passar grande parte da narrativa tratando o próprio desprezo como fato objetivo, aparece uma possibilidade alternativa: talvez aquilo que sinto a meu respeito não seja idêntico àquilo que sou. É uma diferença pequena, é verdade, mas pode conter um mundo inteiro.

O encerramento famoso, com os personagens reunidos ao redor de Shinji, pode parecer triunfal se isolado do restante da série. Mas não é necessário lê-lo como canonização psicológica. Pode ser simplesmente o momento em que uma possibilidade antes inconcebível torna-se imaginável.

Shinji pode existir.

Pode desejar existir.

Pode admitir a hipótese de que sua existência não dependa exclusivamente daquilo que consegue oferecer aos demais.

Isso não responde ainda como viverá. A série termina antes. E talvez seja necessário que termine. Porque imaginar que se possui direito à existência é uma coisa. Voltar ao mundo onde outras pessoas também possuem esse direito é outra muito diferente.

É precisamente aí que The End of Evangelion parece retomar a questão por outro caminho. O segundo fim: quando a consciência precisa recuperar um corpo

Se o final televisivo desmonta interiormente as imagens pelas quais Shinji compreendia a si mesmo, o filme pergunta o que acontece quando essa transformação precisa enfrentar novamente matéria, corpo e alteridade.

Na Instrumentalidade Humana, a consciência obtém aquilo que desejava: não existem mais paredes, não existem mais interiores absolutamente separados, não existe solidão no sentido comum porque não existe o indivíduo que possa permanecer sozinho. Shinji conhece aquilo que está além da fronteira. E recusa permanecer ali.

Não porque tenha concluído que o mundo é bom. Essa diferença precisa permanecer. O mundo não recebeu absolvição. As pessoas continuam capazes de ferir. Shinji continua capaz de ferir. Asuka continua capaz de rejeitá-lo. O futuro não vem acompanhado de garantia. A Instrumentalidade é recusada porque sua solução elimina também aquilo que pretendia salvar. Se o sofrimento resulta da distância entre consciências, eliminar as consciências separadas certamente elimina essa forma de sofrimento.

Assim como destruir todos os instrumentos de uma orquestra resolve definitivamente o problema das notas desafinadas.

A eficiência da solução não a torna desejável. O Campo A.T. precisa retornar.

E aquilo que durante todo o ensaio apareceu como símbolo do isolamento muda novamente de significado. A fronteira que impede acesso absoluto ao outro é a mesma que permite que o outro exista diante de mim.

Sem fronteira, não há rejeição, mas também não há acolhimento. Sem distância, não existe abandono. Mas também não existe aproximação. Sem individualidade, não existe solidão. Mas também não existe amor, porque amor exige pelo menos dois e a Instrumentalidade oferecia resposta demais e esse era seu defeito fundamental. Resolve o problema eliminando o espaço onde o problema poderia existir.

As duas conclusões não precisam ser uma. É tentador transformar o final televisivo e o filme numa equação perfeita. Eu mesmo sou constantemente atraído por essa possibilidade.

O primeiro mostraria simplesmente o que aconteceu “por dentro”. O segundo, aquilo que aconteceu “por fora”. A correspondência é útil até certo ponto. Depois percebi que, para além disso, ela começa a empobrecer. Talvez seja melhor tratá-los como duas formas diferentes de colocar o mesmo problema diante do espectador.

No anime, Shinji experimenta a possibilidade: posso relacionar-me comigo de outra maneira? No filme, a pergunta se torna mais dura: se eu voltar a ser eu, aceito também que o outro volte a ser outro?

A primeira pergunta abre a possibilidade da existência. A segunda cobra seu preço.

É relativamente fácil desejar continuar existindo numa consciência reconciliada abstratamente. Muito mais difícil é continuar desejando existir quando o mundo reaparece com pessoas que não obedecem ao nosso desejo. É aí que Asuka se torna indispensável.

O filme poderia ter terminado no momento da rejeição da Instrumentalidade, seria filosoficamente elegante, convenhamos. Seria também uma pequena trapaça. Shinji escolheria a individualidade e a tela escureceria antes que precisasse enfrentar aquilo que a individualidade significa concretamente. Mas Evangelion não lhe concede essa saída.

Há uma praia, um mar vermelho, restos de uma catástrofe impossível. E há Asuka.

Não Misato.

Não Rei.

Não Kaworu.

Asuka.

Justamente a pessoa que talvez represente de maneira mais radical aquilo que Shinji não consegue controlar. Ela não oferece a aceitação quase incondicional de Kaworu. Não carrega a estranha familiaridade materna de Rei e não ocupa a posição protetora de Misato.

Asuka resiste, contradiz, deseja, despreza, precisa, agride, sofre. É outra. Por isso o fim precisa ser com ela. Se a Instrumentalidade era a fantasia de interiorizar completamente o outro, Asuka é aquilo que não pode ser interiorizado sem deixar de ser Asuka. Ela permanece exterior. Mesmo quando está ao alcance das mãos.

E então Shinji a estrangula.

Depois de tudo o que aconteceu, o primeiro grande gesto do retorno à individualidade é violência. Seria difícil imaginar antídoto mais eficiente contra uma conclusão edificante. Shinji voltou. Suas feridas também. A escolha pela existência não o transformou instantaneamente num sujeito reconciliado. O homem que retorna da Instrumentalidade continua capaz de repetir aquilo que a tornou sedutora. Quer eliminar a resistência, quer testar a realidade, quer talvez confirmar se o outro realmente voltou, quer talvez destruir aquilo que novamente pode rejeitá-lo.

Há várias possibilidades. A cena não precisa ser reduzida a uma. 

E então Asuka toca o rosto dele. 

O gesto é mínimo. Depois de toda a cosmologia, quase ridiculamente pequeno.

Ela poderia lutar, poderia afastá-lo, poderia tentar matá-lo. Em vez disso, toca. Não sabemos exatamente o que significa.

Compaixão? Reconhecimento? Cansaço? Afeto?

Talvez várias dessas coisas.

A potência está justamente em não saber.

Shinji para. E chora.

O outro não foi dissolvido. Não foi compreendido inteiramente. Não foi transformado numa extensão de sua vontade. Continuou sendo outro. E ainda assim houve contato. Talvez seja essa a imagem final de todo o problema. Não fusão. Toque.

Uma obra que termina recusando terminar

A ambiguidade de Asuka é também a ambiguidade de Evangelion: ela pode inspirar Shinji e humilhá-lo, desejá-lo e rejeitá-lo. Tocar seu rosto e pronunciar uma frase que destrói qualquer esperança de sentimentalismo fácil. Ela não se transforma na recompensa recebida por Shinji depois de escolher corretamente.

Porque pessoas não deveriam funcionar como recompensas narrativas. Ela continua possuindo interioridade própria. Isso parece simples, mas toda a Instrumentalidade precisou acontecer para que a obra chegasse novamente a essa simplicidade.

Eu.

Outro.

Uma distância.

Uma mão que pode atravessá-la sem conseguir eliminá-la.

Nesse sentido, o encerramento não resolve a representação dos dilemas morais e existenciais em Neon Genesis Evangelion. Completa sua forma ao recusá-la como solução.

A série começou com consciências procurando preencher um vazio. Passou pela tentativa de compreender a si mesmas através dos outros, encontrou a dor da individuação. Imaginou a possibilidade de regressar a uma unidade anterior à separação. Construiu uma tecnologia metafísica capaz de realizar essa regressão.E, depois de alcançar aquilo que parecia ser a resposta, retornou.

Não porque tenha descoberto que o vazio era ilusão, o vazio continua. Não porque a solidão tenha sido superada. Ela continua possível. Não porque Shinji tenha finalmente compreendido Asuka.

Provavelmente não compreendeu.

Não porque Asuka tenha compreendido Shinji. Também não sabemos.

O que mudou é a exigência.

Talvez não seja necessário compreender completamente para permanecer. Talvez não seja necessário eliminar o vazio para viver. Talvez não seja necessário possuir o outro para amá-lo. Talvez uma identidade não precise tornar-se perfeita para justificar sua existência.

É pouco.

Depois de uma narrativa que colocou o planeta inteiro em risco para responder a essas perguntas, chega a ser ofensivamente pouco, mas talvez qualquer resposta maior começasse novamente a parecer Instrumentalidade.  Em The End of Evangelion, o apocalipse não começa quando o mundo desaba, começa quando uma consciência já não consegue imaginar um futuro para si.

Por isso seu verdadeiro contrário talvez também não seja reconstruir cidades, derrotar monstros ou alcançar felicidade. Talvez seja algo anterior. Imaginar novamente que existe um depois.

Sem saber exatamente como será.Sem garantia de que haverá compreensão. Sem promessa de que o amor não ferirá. Sem certeza de que o outro ficará. Sem sequer a certeza de que aquilo que hoje chamamos de “eu” permanecerá idêntico. Mesmo assim, um depois.

A arte não nos entrega esse futuro, talvez sua contribuição mais discreta seja outra. Ela aumenta o número de futuros que somos capazes de imaginar. Empresta-nos vidas que não vivemos. Mostra escolhas que não fizemos. Conduz-nos até experiências que talvez tivéssemos preferido julgar de longe.

E depois nos devolve à nossa própria existência com um vocabulário um pouco maior para enfrentá-la. Não necessariamente melhores. Não necessariamente curados. Apenas menos pobres em possibilidades.

Talvez seja isso que aconteceu comigo diante de Evangelion. Não encontrei uma resposta definitiva para o vazio com que comecei. Encontrei maneiras diferentes de olhá-lo. 

Algumas belas. Algumas terríveis. Algumas contraditórias.

E talvez seja precisamente por isso que ainda valha a pena retornar a elas depois de tantos anos. Uma obra não precisa responder definitivamente à pergunta para modificá-la. Às vezes basta devolver-nos a pergunta com mais dimensões do que possuía quando chegamos.

No começo havia um vazio.

No fim também.

Mas agora há alguém diante dele.

E, um pouco mais adiante, outro alguém. Entre os dois permanece uma distância.

É nela que ainda cabem o medo, a linguagem, a rejeição, o sofrimento, o desejo, a responsabilidade e aquilo que, apesar de tudo, continuamos chamando de amor. 

"Eu odeio a mim mesmo mas... mas... talvez, talvez eu possa amar a mim mesmo, e talvez a minha vida possa ter um valor muito maior. É isso, eu sou nada mais, nada menos que eu mesmo. Eu sou eu, e eu quero ser eu mesmo. Eu quero continuar existindo nesse mundo. Eu mereço viver neste lugar." (Neon Genesis Evangelion)

REFERÊNCIAS

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CIORAN, Emil. Nos cumes do desespero. Tradução de  Fernando Klabin. São Paulo - SP: Editora Hedra, 2012.

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. Tradução de Maria Rita Salzano Moraes. São Paulo - SP: Editora Autêntica, 2020.

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GIBRAN, Khalil. O profeta. Tradução de Rafael Bisoffi. São Paulo - SP: Editora Exelcior, 2023.

GUÉNON, René. O simbolismo da cruz. São Paulo - SP: Editorial Estrela da Manhã, 2022.

IGREJA CATÓLICA. Missal Romano. 3° Edição Típica. Brasília - DF: Edições CNBB, 2023. Vigília Pascal: Proclamação da Páscoa (Exsultet).

JUNG, Carl Gustav. Mysterium coniunctionis. Tradução de Frei Valdemar do Amaral. São Paulo - SP: Editora Vozes, 2012.

KIERKEGAARD, Søren. O conceito de angústia. Tradução de  Álvaro Luiz Montenegro Valls. São Paulo - SP: Editora Vozes, 2013.

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LACAN, Jacques. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

LANGER, Susanne K. Feeling and form: a theory of art. New York: Charles Scribner’s Sons, 1953. 

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LÉVINAS, Emmanuel. Totalidade e infinito. São Paul - SP: Edições 70, 2008.

NEON GENESIS EVANGELION. Direção: Hideaki Anno. Japão: Gainax; Tatsunoko Production, 1995–1996. Série de televisão, 26 episódios. Netflix Brasil.

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SADAMOTO, Yoshiyuki. Neon Genesis Evangelion. v. 8, V. 19 e v. 24. Tradução de Drik Sada. São Paulo- SP: Editora JBC, 2011.

SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. 1. tomo. Tradução de Jair Barboza. São Paulo: Editora UNESP, 2005.

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SCHUON, Frithjof. A unidade transcendente das religiões. Tradução de Pedro de Freitas Leal. Lisboa, Portugal: Edições Dom Quixote, 1991.

THE END OF EVANGELION. Direção: Hideaki Anno; Kazuya Tsurumaki. Japão: Gainax; Production I.G, 1997. Filme. Netflix Brasil.

A Instrumentalidade Humana XIX - As mentes que desapareceram, afobando-se para preencher o vazio da mente


"O início da Instrumentalidade. O que as pessoas perderam.  As mentes que desapareceram, afobando-se para preencher o vazio da mente. A complementação.  A Instrumentalidade que fará todas as coisas se tornarem inexistência, já começou!
- Incorreto!  Não é o retorno a inexistência. É simplesmente o retorno ao estado inicial. É nada menos que o retorno ao útero primitivo que perdemos muito tempo atrás. Todas as almas e mentes se tornarão uma, atingindo o eterno equilíbrio. O objetivo final não é nada mais que isso!"
  (Neon Genesis Evangelion)

Até este momento, Neon Genesis Evangelion apresentou seus dilemas através de indivíduos: Shinji quer aproximar-se e fugir, Asuka quer ser reconhecida sem depender de ninguém. Rei precisa descobrir se aquilo que recebeu como identidade pode tornar-se verdadeiramente seu, Misato tenta permanecer funcional enquanto diferentes partes de sua existência recusam-se a formar uma unidade pacífica. 

Gendo quer recuperar aquilo que perdeu e, para isso, está disposto a reorganizar a humanidade e em The End of Evangelion as coisas mudam de escala, os perguntas deixam de caber dentro dos personagens e o mundo precisa assumir sua forma.

O que era psicológico torna-se cosmológico. O que era desejo torna-se ritual. O que era fronteira entre duas consciências transforma-se na dissolução física de todos os corpos. O que era vontade de regressar ao estado anterior ao sofrimento converte-se num mar primordial. O que era dificuldade de comunicação entre indivíduos torna-se tentativa de abolir a individualidade. A representação dos dilemas morais e existenciais em Neon Genesis Evangelion abandona, então, qualquer modéstia. O problema do eu passa a ter o tamanho do planeta.

Susanne Langer, uma neokantiana, oferece uma chave particularmente fértil para compreender aquilo que acontece nessa sequência: um símbolo artístico não precisa funcionar como uma placa de trânsito, isto é, uma cruz não precisa significar uma única coisa, uma figura feminina não precisa possuir uma tradução definitiva. Uma imagem pode funcionar como uma matriz na qual diversas relações se tornam simultaneamente inteligíveis, mesmo quando essas relações seriam difíceis de expressar discursivamente sem separá-las.

É exatamente assim que pretendo olhar para as cenas do ritual da Instrumentalidade Humana: como uma constelação.

Cristianismo, judaísmo, Cabala, gnosticismo, alquimia, tradições esotéricas, psicanálise e mitologias de retorno ao princípio podem reconhecer ali figuras familiares sem que nenhuma delas possua sozinha a chave do conjunto. A própria forma da cena parece proibir a interpretação exclusiva pois os símbolos se acumulam, se sobrepõem e se misturam. Quase sofrem, eles mesmos, uma espécie de Instrumentalidade.

A cruz aparece inúmeras vezes em Evangelion, frequentemente com tamanha exuberância visual que seria fácil tratá-la apenas como decoração religiosa. Durante a Instrumentalidade, porém, sua função torna-se mais interessante.

O EVA-01 deixa de ser apenas corpo de combate e passa a ocupar uma posição ritual. É contido, elevado e exposto, transformado em centro de uma operação que ultrapassa qualquer finalidade militar.

A imagem inevitavelmente recorda a crucifixão, mas uma identificação direta com Cristo resolveria pouco. A cruz em Evangelion parece operar simultaneamente como instrumento de sacrifício, estrutura de ordenação e eixo entre diferentes níveis da realidade.

René Guénon oferece aqui uma leitura comparativa particularmente sugestiva. Em O simbolismo da cruz, a cruz não é reduzida ao acontecimento histórico cristão. Ela aparece como símbolo universal da articulação entre estados e possibilidades do ser: um eixo vertical encontra outro horizontal, o centro tornando-se ponto de comunicação entre direções distintas.

Não é necessário afirmar influência direta para perceber a fecundidade da aproximação. Durante o Terceiro Impacto, o EVA-01 ocupa exatamente esse tipo de posição impossível. É Shinji mas, ao mesmo tempo é máquina. Organismo e filho. Contém a mãe e deriva de Lilith. Possui agora aquilo que o aproxima dos descendentes de Adão. É indivíduo e, ao mesmo tempo, torna-se ponto através do qual a humanidade inteira será reorganizada.

A cruz deixa então de ser apenas instrumento de morte e torna-se algo como uma coordenada. No eixo horizontal encontramos a multiplicidade humana, indivíduos separados distribuídos pelo mundo. No eixo vertical aparece a tentação de transcendê-los, reuni-los, elevá-los ou dissolvê-los numa realidade superior. No centro está Shinji: um adolescente extraordinariamente pouco interessado em tornar-se eixo metafísico da humanidade, o que naturalmente não impediu os adultos ao redor de lhe atribuírem a função.

Os EVAs produzidos em massa participam da formação ritual que evoca a Árvore da Vida, uma referência visual impossível de ignorar. A imagem provém da tradição cabalística das sefirot, as emanações ou modalidades através das quais se articula a relação entre o divino e a manifestação.

A árvore reúne níveis, organizando aquilo que parecia disperso, transformando multiplicidade em estrutura. Isso possui uma correspondência inquietante com aquilo que a Instrumentalidade pretende realizar com a própria humanidade. Os indivíduos são múltiplos. Contraditórios. Separados. A árvore promete ordem.

Há aqui também uma possível aproximação com a figura cabalística de Adam Kadmon, o homem primordial ou configuração antropocósmica da manifestação divina. Não digo que a gigantesca forma humana posterior seja simplesmente “Adam Kadmon”. Seria brutalidade interpretativa vestida de erudição. Mas a imagem de um Humano primordial que contém ou representa uma totalidade superior aos homens particulares oferece uma ressonância evidente.

A humanidade fragmentada deseja tornar-se novamente Homem. Não muitos. Um.

A palavra “humanidade” deixa de designar uma coleção de pessoas e passa a ameaçar tornar-se uma única entidade. E aí retorna nosso problema inicial: o que significa completar o humano?

Somar os indivíduos? Ou eliminá-los em nome de uma totalidade que já não permite diferença? 

Gendo acredita que poderá controlar o processo, sua intenção é fundir-se com Rei, utilizar Adão e reencontrar Yui. Depois de tudo aquilo que discutimos sobre ele, a escala do plano não consegue esconder sua origem quase constrangedoramente íntima. Gendo quer a esposa de volta e, para isso, decidiu reorganizar a espécie. Homens pequenos, monstros gigantes. Outra vez.

Mas Rei recusa-se a permanecer instrumento, absorve aquilo que Gendo pretendia utilizar e retorna a Lilith. Esse gesto é fundamental porque o ritual escapa das mãos daquele que imaginava dirigi-lo. A personagem cuja identidade havia sido concebida por outros realiza uma de suas escolhas mais importantes recusando o homem que acreditava possuir autoridade sobre ela. E então cresce.

A figura de Rei/Lilith torna-se gigantesca. O corpo feminino deixa de pertencer à escala humana. A mãe torna-se paisagem. O rosto ocupa o céu e parece reunir nascimento, sexualidade, morte e divindade numa única imagem. É difícil imaginar representação mais adequada para uma regressão absoluta.

Shinji não retorna simplesmente aos braços maternos, a própria realidade torna-se mãe. O mundo inteiro converte-se em útero. O feminino aqui já não é apenas uma personagem feminina. Torna-se matriz. É possível aproximar essa figura de inúmeras tradições.

Da Shekinah judaica, enquanto imagem da presença divina, podemos obter a ideia de uma presença que envolve e habita a criação, embora identificar Rei diretamente com a Shekinah seria grosseiro. Da Grande Mãe das leituras comparativas de mitologia e psicologia profunda surge a ambivalência entre ventre e sepultura: aquilo que gera também recebe novamente. Da alquimia, encontramos a prima materia, condição indiferenciada a partir da qual as formas emergem e à qual podem ser devolvidas antes de nova transformação. Em cosmologias esotéricas, de Blavatsky a diversas tradições que ela reuniu em sua obra, reaparecem imagens do ovo cósmico, das águas primordiais, da manifestação que emerge de uma unidade indiferenciada e posteriormente retorna a ela.

Não é necessário acreditar no sistema teosófico, nem imaginar Hideaki Anno estudando A Doutrina Secreta com marca-texto, para perceber que o imaginário da Instrumentalidade Humano pertence a uma família antiquíssima de imagens: antes das formas, a matriz, no sentido que dá Susanne Langer e, depois da multiplicidade, o retorno.

Há um instante particularmente significativo em que o rosto gigantesco que Shinji contempla deixa de ser apenas Rei e assume a aparência de Kaworu. Não é detalhe, chama atenção de modo bastante desconfortável. Shinji encontra diante de si duas das formas mais poderosas através das quais imaginou a possibilidade de acolhimento. Rei carrega a sombra da mãe enquanto Kaworu carrega a memória daquele que lhe ofereceu reconhecimento sem exigir primeiro que ele o merecesse. A totalidade adquire então um rosto capaz de convencer Shinji a não resistir.

Isso nos devolve diretamente ao capítulo anterior.

Kaworu havia oferecido, em escala pessoal, a experiência de uma proximidade aparentemente sem ferimento. A Instrumentalidade agora oferece a mesma promessa em escala cósmica.

Não mais perder Kaworu. Não mais ser rejeitado por Asuka. Não mais precisar da aprovação do pai. Não mais temer Misato. Não mais perguntar o que Rei sente. Todos estarão dentro. Todos serão acessíveis. Todos serão um. A tentação precisa assumir o rosto do amor porque ninguém aceitaria dissolver-se apenas por razões administrativas.

Então os Campos A.T. começam a desaparecer, os corpos perdem a forma. A humanidade se dissolve. É talvez a representação mais literal possível da negação do principium individuationis que Schopenhauer poderia ter desejado sem jamais suspeitar que um dia alguém a animaria com gigantes biomecânicos.

Mas a aproximação precisa ser feita com cuidado. Schopenhauer não propõe simplesmente liquidificar as pessoas para que deixem de sofrer. A negação da vontade não equivale à destruição tecnológica das individualidades. Ainda assim, a imagem permite compreender alguma coisa fundamental. Espaço, corpo e separação fornecem as condições pelas quais cada indivíduo aparece como este indivíduo e não outro. A Instrumentalidade remove essas fronteiras.

Aquilo que antes era metafísica torna-se realidade bastante palpável e os corpos literalmente deixam de sustentar a diferença. A carne cede e líquido permanece. É o retorno à matéria anterior ao indivíduo.

O LCL é uma das imagens mais ricas de toda a sequência justamente porque recusa uma única classificação. É o líquido primordial e o meio de sustentação da vida. Preenche o Entry Plug e permite ao piloto respirar dentro do EVA. Está associado a Lilith e, durante a Instrumentalidade, torna-se aquilo a que os corpos humanos retornam. É difícil não enxergar nele simultaneamente mar, sangue e líquido amniótico.

O mar é uma das figuras mais antigas da humanidade. Antes da terra firme, as águas. Antes da delimitação, profundidade sem fronteira. No Gênesis e na Enuma Elish as águas precedem a organização do mundo. Em inúmeras cosmogonias, a forma emerge de um oceano primordial.

No útero, o indivíduo começa também imerso. A vida humana inicia-se dentro de líquido antes de adquirir qualquer independência do corpo materno. A Instrumentalidade parece inverter esse processo. Nascer foi separar-se. Instrumentalizar-se é retornar.

Não é difícil compreender por que a regressão possui tamanho poder simbólico. O sofrimento começou depois que houve um “eu” capaz de distinguir-se do mundo. O útero oferece a fantasia de um tempo anterior à distância. Antes da rejeição. Antes da linguagem. Antes da vergonha. Antes de precisar pedir que alguém permanecesse. Por isso o mar de LCL seja simultaneamente aterrador e tranquilo.

A alquimia oferece outro vocabulário particularmente útil: Solve et coagula. Dissolver e reunir. Desfazer uma forma para que outra possa surgir. Já havíamos encontrado esse motivo anteriormente quando falava em destruição e recomposição. Aqui ele ganha literalidade. A primeira metade está diante de nós.

Solve.

Os corpos dissolvem-se. As fronteiras cedem e as individualidades perdem sua consistência. A humanidade retorna à matéria indiferenciada. O problema será saber se haverá realmente um coagula. Uma nova forma. E, principalmente, quem escolherá essa forma?

A SEELE imagina recompor a humanidade segundo um princípio. Gendo imaginava recompô-la segundo outro. Shinji torna-se inesperadamente aquele a quem a decisão retorna. Assim, mesmo a tentativa de eliminar o indivíduo acaba dependente da escolha de um indivíduo. A Instrumentalidade não consegue escapar daquilo que deseja abolir. E é nesse ponto que a tradição gnóstica oferece um paralelo quase inevitável.

Em muitas correntes gnósticas antigas, o mundo material aparece como condição inferior, marcada por separação, ignorância e aprisionamento. A salvação envolve conhecimento e retorno a uma plenitude anterior ou superior à fragmentação do cosmos material.

O termo pleroma, plenitude, torna-se particularmente sugestivo. A Instrumentalidade promete exatamente uma plenitude. Nada falta porque já não existe distância entre aquilo que deseja e aquilo que poderia completá-lo. Nenhum eu permanece separado de outro. Sob esse aspecto, ela parece quase uma salvação gnóstica levada à literalidade. Mas Evangelion introduz uma suspeita profundamente antignóstica.

E se a fragmentação não for apenas prisão? E se aquilo que chamamos de queda na multiplicidade for também condição do encontro? E se retornar à plenitude significar destruir precisamente aquele que deveria ser salvo? A série parece aproximar-se do gnosticismo para, no momento decisivo, hesitar diante dele.

A matéria dói. A separação dói. A individualidade dói. Mas talvez salvar o indivíduo exigindo que ele deixe de ser indivíduo seja uma vitória obtida mediante fraude semântica.

Aqui a diferença em relação ao cristianismo torna-se especialmente fecunda, pois a tradição cristã também fala de unidade, fala de comunhão, fala de um corpo no qual muitos participam, fala de união com Deus. Mas, em suas formulações mais características, essa união não exige que as pessoas deixem de ser pessoas. A comunhão pressupõe relação, e relação pressupõe diferença. O “eu” e o “tu” não desaparecem simplesmente numa substância comum.

A Instrumentalidade oferece fusão. A imagem cristã mais forte oferece comunhão. Uma elimina a distância dissolvendo os termos, enquanto a  outra pretende atravessar a distância sem abolir aqueles que se relacionam. É por isso que seria equivocado considerar a Instrumentalidade Humana simplesmente uma representação da salvação cristã. Ela pode utilizar cruzes, lanças, Adão, Lilith e imagens apocalípticas. Mas sua metafísica ameaça caminhar justamente na direção oposta à preservação da pessoa.

Frithjof Schuon, ao falar da unidade transcendente subjacente às diferentes formas religiosas, permite-nos perceber por que símbolos semelhantes podem reaparecer em tradições muito distintas sem dizer exatamente a mesma coisa. A unidade pode significar origem, princípio, comunhão, absorção, aniquilação. A palavra é a mesma, mas destino dos indivíduos muda inteiramente.

Enquanto a humanidade é dissolvida, formas luminosas parecem reunir-se em torno da Lua e da estrutura cósmica do ritual. A imagem é extraordinária porque devolve à multiplicidade aquilo que a Instrumentalidade pretende transformar em unidade. Ainda conseguimos ver muitos.

Aquilo que estava dentro de corpos agora aparece liberto deles, mas ainda momentaneamente distinguível. E a Lua acrescenta outra camada. Desde a Antiguidade, ela pertence ao campo simbólico da mutação, do ciclo, da geração e da morte. Cresce, desaparece, retorna, dita ritmos. Reflete uma luz que não produz. É também um dos grandes símbolos do feminino em inúmeras tradições. Ao reunir almas junto dela, Evangelion coloca a dissolução humana sob o signo do ciclo e do retorno.

Olavo de Carvalho trata do simbolismo com muita sobriedade. Ele vai diferenciar o simbolismo como fenômeno cultural: aquele que, em certa época ou determinada cultura tinha por simbólico esse ou aquele animal, ou planta, ou pedra, do simbolismo como tradução das propriedades espirituais inerentes à própria natureza. 

Ele trata, por exemplo, no seu estudo sobre a Tripla Intuição, da luz como símbolo da inteligência. Não podendo ser somente um produto cultural, porque existe uma relação intrínseca entre as duas coisas. E para comprovar isso recorre a um raciocínio simples: quando não havia luz elétrica ou nenhuma forma de luz artificial, a diferença entre o dia a noite era a diferença entre enxergar e não enxergar. Isso quer dizer que a presença da luz é coexistente com a capacidade de enxergar. não são experiências diferentes, se não tem luz, realmente não é possível enxergar. Então, a possibilidade de uma intuição sensível depende de um elemento externo natural, de modo que ter consciência do que está se passando ou não depende inteiramente da luz. Daí pode ter surgido, claro, outros símbolos, como o  de uma luz interior, uma luz do pensamento, etc., mas, de todo modo, ainda estamos falando da luz propriamente dita. 

Portanto, a luz, neste caso, ela não é uma alegoria da inteligência, da consciência, ela é, de certo modo, a própria condição de possibilidade da consciência. Então, no caso, o simbolismo da luz vem evidentemente junto com o simbolismo do sol, fonte primária da luz. Então, você tem o símbolo da fonte de luz como a condição que possibilita a consciência de alguma coisa. E assim por diante, do mesmo modo que o simbolismo lunar não pode ter aparecido todo de uma vez como o simbolismo solar, porque a lua se apresenta com aparências diferentes. Poe observação ora vemos um disco cheio, ora uma meia lua, ora apenas uma pequena faixa e ora não vemos nada. Então, a percepção por trás de todas essas aparências que, noite após noite, vão se aparecendo de maneira diferente, torna possível identificar uma unidade por trás disso: tudo isso é lua. Isso requer algum trabalho, requer algum transcurso de tempo. Portanto, a associação tradicional da lua com o tempo, com a experiência do tempo, também é um simbolismo natural, isto é, não foi uma interpretação que uma cultura fez arbitrariamente. A própria presença do fenômeno natural impunha, de algum modo, o seu significado, porque essa era a relação real que havia entre aquele objeto e os seres humanos. 

A Lua Negra emerge, a estrutura que carregou Lilith torna-se novamente visível. O nome é quase suficiente para convocar uma biblioteca inteira de simbolismo: ovo, ventre, caverna, matriz, noite, potência ainda não diferenciada.

O ovo cósmico aparece em tradições muito distintas justamente porque oferece uma imagem quase perfeita para pensar uma totalidade que contém formas antes que elas se separem. Madame Blavatsky recolhe e compara obsessivamente imagens desse tipo em sua síntese esotérica. Guénon também reconhece no ovo uma figura do estado embrionário da manifestação. Não precisamos importar os sistemas inteiros, basta perceber a recorrência da intuição: antes da multiplicidade existe uma totalidade fechada que contém virtualmente aquilo que ainda não nasceu.

A Lua Negra é túmulo porque recebe a humanidade dissolvida. É também ovo porque sugere a possibilidade de outra emergência. Mais uma vez, Evangelion recusa separar começo e fim. O apocalipse contém uma cosmogonia.

Talvez a imagem mais perturbadora seja a própria Rei/Lilith colossal.O corpo humano elevado à escala planetária deveria representar triunfo, marece pesadelo. A humanidade consegue finalmente produzir sua forma total e descobre que ela é monstruosa. Há aqui uma possível ressonância com Adam Kadmon, com o Homem Universal de diferentes tradições esotéricas e com a ideia do microcosmo humano como espelho do macrocosmo.

Guénon e Schuon, por caminhos distintos, retornam frequentemente à ideia do ser humano como ponto de articulação entre níveis de realidade. Mas Evangelion oferece uma ironia brutal: quando o humano finalmente adquire proporção cósmica, deixa de parecer humano. A ampliação destrói a familiaridade. O rosto de Rei torna-se tão grande que já não pode ser encontrado como rosto. Aquilo que deveria representar a totalidade da pessoa converte-se em paisagem. Talvez toda totalização da humanidade possua esse risco. Fala-se em “Humanidade” e, em algum ponto, desaparece o indivíduo concreto que tinha nome, memória, medo e alguém de quem sentia falta. A totalidade pode ser intelectualmente sublime. Também pode ser um modo particularmente eficiente de esquecer a pessoa.

A Instrumentalidade chega àquilo que prometia: a distância diminui e as consciências misturam-se. O sofrimento provocado pela impossibilidade de compreender integralmente o outro encontra finalmente uma solução. Não existe mais um exterior absoluto e Shinji descobre que não quer permanecer ali. Essa decisão é extraordinária precisamente porque ele não descobre que o mundo exterior era secretamente agradável.

Não era.

Asuka pode rejeitá-lo. As pessoas podem abandoná-lo. Ele pode ser mal compreendido. Pode sentir vergonha. Pode sentir culpa. Pode novamente desejar desaparecer.

Nada disso foi revogado, o que muda é outra coisa. Shinji reconhece que, se não existem fronteiras, também não existe encontro. Sem distância, aproximação perde o sentido. Sem um outro separado, reconhecimento torna-se impossível. Sem a possibilidade de rejeição, aceitação deixa de ser escolha. É justamente porque o outro pode dizer “não” que seu “sim” possui valor. A dor não desaparece da existência, mas ela deixa de funcionar apenas como argumento suficiente para abolir a existência.

E então começa a segunda operação, não uma reconstrução completa, não uma nova humanidade harmoniosa. Apenas a possibilidade de retornar.

Coagula.

A forma pode reaparecer, a individualidade pode ser desejada novamente. O corpo pode reconstruir sua fronteira, o Campo A.T. pode retornar.

Aquilo que durante todo o ensaio parecia obstáculo torna-se, inesperadamente, condição. O muro não é apenas aquilo que impede o amor, é aquilo que permite haver dois seres capazes de amar. A fronteira não é apenas solidão, é também identidade. A individuação não é apenas condenação, mas também possibilidade de encontro.

E então a figura colossal de Rei/Lilith começa a desfazer-se. Aquilo que parecia divino quebra. O pescoço é cortado e cabeça cai, o corpo gigantesco perde integridade. A imagem possui uma força quase iconoclasta.

A totalidade foi recusada e o ídolo da unidade perfeita não pode permanecer inteiro. O corpo que prometia conter todos precisa fragmentar-se para que os indivíduos possam recuperar seus próprios corpos. O movimento é profundamente contrário àquele que iniciou o ritual pois, primeiro, muitos tornaram-se um, agora, o um precisa morrer para que muitos possam novamente existir.

Talvez seja esse o verdadeiro coagula: não recompor uma humanidade una. Recompor a possibilidade da multiplicidade.

Depois de toda essa grandiosidade metafísica, resta um mar de LCL. A humanidade não reaparece imediatamente, não há multidões celebrando, não há música triunfal, não há civilização reconstruída. Há um mundo quase vazio. O líquido primordial permanece como lembrança de que tudo ainda poderia voltar a dissolver-se.

Gibran, em sua linguagem poética, frequentemente aproxima morte, retorno e continuidade sem reduzir uma coisa à outra. Essa sensibilidade pode servir aqui como contraponto: retornar à origem não significa necessariamente desaparecer, e morrer para determinada forma pode abrir a possibilidade de outra. Mas Evangelion recusa inclusive essa consolação fácil. Não sabemos quantos retornarão. Não sabemos quando. Não sabemos o que farão. A possibilidade existe.

E então chegamos à praia. 

Shinji. Asuka.

Depois de cruzes, árvores, luas, deuses, almas, mães cósmicas, lanças, ovos e oceanos metafísicos, a série termina novamente com duas pessoas.

Separadas.

Isso é quase ofensivamente simples. A Instrumentalidade tentou resolver o problema humano abolindo o intervalo entre as consciências. A conclusão devolve o intervalo.

Shinji olha Asuka.

Asuka olha Shinji.

Ela não é aquilo que ele deseja que seja.

Ele não é aquilo que ela deseja que seja.

A alteridade voltou, e a primeira interação entre eles não oferece nenhuma reconciliação reconfortante.

Shinji coloca as mãos em torno do pescoço de Asuka.

Aquilo que poderia ser abraço torna-se estrangulamento.

As mãos, instrumentos máximos de contato, tornam-se instrumentos de violência. É difícil imaginar síntese mais brutal do dilema do ouriço. Finalmente posso tocar o outro, e posso usar esse toque para destruí-lo.

Mas Asuka responde com outro toque, sua mão alcança o rosto de Shinji. Não desaparece nele. Não se funde. Não se transforma naquilo que ele quer. Apenas toca.

Talvez Emmanuel Levinas ofereça aqui um último aceno filosófico particularmente adequado. Para Levinas, o rosto do outro resiste à minha tentativa de reduzi-lo completamente àquilo que posso conhecer, possuir ou dominar. A alteridade não é defeito do conhecimento; é exigência ética.

O outro voltou, e é novamente inacessível . O outro novamente pode ferir. Mas o outro também pode tocar meu rosto. Toda a Instrumentalidade parece ter sido necessária para que a série pudesse retornar ao acontecimento mais elementar: um indivíduo diante de outro.

O ritual termina onde começou o problema: talvez seja essa a razão pela qual o Terceiro Impacto possui aparência simultaneamente religiosa, sexual, cósmica e psicológica. Ele tenta responder a uma pergunta que nenhuma dessas linguagens consegue conter sozinha.

O que fazemos com o fato de sermos separados? O gnosticismo oferece a imagem da plenitude perdida. A Cabala fornece figuras de totalidade e organização do múltiplo. O cristianismo distingue comunhão de simples absorção e transforma morte em possibilidade de ressurreição. A alquimia oferece dissolução e recomposição, mas também exige compreensão.  Guénon encontra na cruz a articulação entre eixos e estados do ser. Schuon recorda que símbolos semelhantes podem atravessar tradições sem se tornarem idênticos. Blavatsky acumula ovos, ciclos, manifestações e retornos numa cosmologia sincrética em que o universo continuamente emerge e regressa. Langer explica por que nenhuma dessas imagens precisa ser reduzida a uma proposição discursiva para produzir conhecimento. Gibran lembra poeticamente que morte, separação e retorno podem ser pensados como movimentos, não apenas como pontos finais. Schopenhauer vê sofrimento na individuação. Kierkegaard exige que o eu não resolva seu desespero fugindo da tarefa de tornar-se aquilo que é. Freud e Lacan retiram-nos o conforto de imaginar um eu completamente transparente.

E Evangelion reúne todos esses problemas na praia.Não há ali uma solução filosófica definitiva. Há corpos, distância, toque, violência, possibilidade. Isso talvez seja mais importante.

Porque a Instrumentalidade Humana oferecia resposta demais. Era uma solução final para um problema que talvez somente permaneça humano enquanto continuar sem solução final. O ritual começa com a tentativa de superar a condição individual. Termina devolvendo-nos a ela.

E talvez toda a extravagância simbólica do Terceiro Impacto exista para nos conduzir de volta àquilo que parecia pequeno demais para exigir tamanha metafísica:

eu estou aqui.

Você está aí.

Há uma distância entre nós.

E tudo aquilo que chamamos de amor, medo, ética, desejo, linguagem, solidão e esperança começa dentro desse intervalo.

Continua

A Instrumentalidade Humana VIII - O outro que parece não ferir


"Por que você o matou?  
Por que você o matou? 
Por que você o matou? 
Por que você o matou?
- Eu não tinha outra escolha.
Por que você o matou?
- Porque ele era um anjo! Kaworu era um anjo!
Embora ele também fosse humano?
- Ainda assim era um anjo! Ele ainda assim era um dos inimigos!
Embora também ele fosse humano...
- Ele não era, ele não era, ele não era!
 - Embora ele fosse tão humano quanto eu?
- Não, ele era um anjo.
 - Foi por isso que você o matou?
- É, senão todos iam morrer, nós seriamos destruídos.
 - Então foi por isso que você o matou!
- Eu não queria matá-lo, eu não tive escolha. 
E então o matou.
- Me ajuda.
E então o matou.
- Por favor me ajuda.
E então o matou.
- Pelo amor de Deus me ajuda.
E então o matou.
- Alguém, por favor, me ajuda.
E então o matou.
- Se alguém estiver ouvindo por favor me ajuda, eu imploro!"
(Neon Genesis Evangelion)

Quando nos aproximamos da fase final da narrativa, Shinji já perdeu quase todas as estruturas precárias que lhe permitiam continuar funcionando: sua relação com Gendo não foi reparada, pelo contrário.  Rei tornou-se cada vez mais enigmática e Asuka entrou em colapso. Misato está absorvida pelos acontecimentos da NERV e por suas próprias perdas. A instituição à qual ele oferecia sua utilidade revelou-se moralmente opaca. Pilotar já não oferece reconhecimento simples e cada retorno ao EVA parece exigir mais dele e entregar menos em troca. O romance de formação encontra então seu ponto de inversão. Em vez de possuir progressivamente mais certezas, Shinji possui cada vez menos. Em vez te integrar-se ao mundo, percebe que o mundo ao qual tentava integrar-se nunca foi aquilo que imaginava. Em vez de descobrir uma identidade estável, vê desaparecer uma a uma as imagens externas pelas quais costumava defini-la.

Piloto. Filho. Amigo. Salvador. Covarde. Herói. Nenhuma permanece suficiente.

É nesse estado que Kaworu Nagisa aparece.

E talvez por isso sua chegada produza efeito tão desproporcional à quantidade de tempo que ocupa na narrativa. Shinji não o encontra como alguém que possui uma identidade segura e decide estabelecer mais uma relação, mas, antes disso, encontra-o depois que quase todas as relações pelas quais tentava compreender-se foram quebradas. E é nesse momento que surge alguém que parece reconhecê-lo antes de exigir qualquer coisa dele.

Alguém que parece aproximar-se sem que Shinji precise conquistar previamente o direito de ser aproximado. Depois de uma vida tentando aprender qual papel deveria representar para que alguém permanecesse, Shinji encontra uma pessoa diante da qual, por alguns instantes, parece não precisar representar. E justamente por isso Kaworu constituirá não apenas mais um personagem em sua formação. Constituirá a mais perigosa possibilidade de resposta ao vazio que apareceu no início deste ensaio.

No universo de Neon Genesis Evangelion temos um Shinji que sente a dor do confronto com o outro e que prefere fugir a esse confronto para, assim, evitar a dor que ele causa. Em um período já bastante crítico, eis que aparece Kaworu, um garoto misterioso que estranhamente se aproxima do protagonista e consegue se tornar próximo dele como nenhum outro personagem, até mais do que as outras protagonistas, que levaram vários e longos capítulos para criarem intimidade e, ainda assim, causavam dor ao pequeno garoto assustado.

Há algo de quase anormal nessa facilidade pois Misato precisou aprender a conviver com Shinji, Rei precisou aproximar-se aos poucos, Asuka jamais deixou de transformar proximidade em conflito. Kaworu simplesmente chega e parece enxergar Shinji antes que Shinji lhe prove qualquer coisa.

Nesse ponto Kaworu se torna uma doce companhia para Shinji, que se vê no meio de uma luta que parece impossível de ser vencida, onde todos estão sem esperança e apenas continuam em frente, mais e mais, e ele já nem tem de onde tirar energia, apenas seguindo.

E então eles dão uma pausa, apenas tomam um banho. Conversam antes de dormir. Um momento de respiro depois de tantas lutas, e antes da última e mais difícil. Essa pausa é essencial.

Kaworu não surge inicialmente como solução filosófica nem existencial, mas como descanso.

Depois de uma narrativa em que quase toda relação exige negociação, defesa, desempenho ou sofrimento, a simples possibilidade de permanecer ao lado de alguém sem precisar imediatamente justificar sua presença adquire uma força enorme.

Se Schopenhauer descreveu os homens como ouriços obrigados a encontrar uma distância suportável entre o frio e o ferimento, Kaworu parece, por alguns instantes, suspender a parábola. Há proximidade.

E não há espinho.

Kaworu se mostra como a possibilidade da negação do conflito, de uma vida onde os opostos de feminino e masculino não colidem, onde esse mundo masculino seria a possibilidade de um mundo em que as pessoas não machucam umas às outras, mesmo separadas e divididas. Shinji sente com força essa possibilidade, percebe pela primeira vez que poderia ser feliz ou, ao menos, levar uma vida mais tranquila.

A essa ausência de conflito Kaworu chama de Amor, algo que Shinji não chegou a conhecer, abandonado pelo pai desde pequeno. O conflito é personificado pela Asuka, sempre agressiva, e pela distância com a Ayanami; são duas faces do muro que existe entre as pessoas. Essa foi uma das maneiras pelas quais interpretei a cena, mas talvez exista mais de uma coisa acontecendo ao mesmo tempo.

Kaworu pode representar não tanto a negação do feminino, mas a suspensão temporária do jogo de expectativas no qual Shinji vinha tentando compreender a intimidade. Se, com Asuka existe desejo, vergonha, agressão, disputa e medo, e com Rei existe proximidade, mas também estranhamento e uma ligação impossível de separar da figura materna, com Kaworu, durante algum tempo, Shinji não precisa saber qual papel desempenhar.

Não precisa ser filho. Não precisa ser piloto. Não precisa ser protetor. Não precisa ser desejável segundo uma imagem previamente conhecida. Pode simplesmente estar ali, ouvindo alguém cantarolar enquanto observa o céu e o brilho na água. Talvez essa suspensão seja mais importante do que o sexo daquele que a proporciona.

Essa tentação se manifesta com uma conotação sexual para ele e então se torna essa possibilidade de tranquilidade. No entanto, é uma possibilidade carregada de negatividade, tanto pela negação do conflito quanto, na interpretação que eu fazia então, pela negação da própria realidade humana. Esse mundo homossexual que se apresenta a Shinji é uma promessa de amor mas, ao mesmo tempo, não lhe parece certo.

Hoje eu colocaria essa afirmação ao lado de outras possibilidades, não acima delas. A conotação erótica da relação existe e não precisa ser dissolvida em amizade para tornar-se filosoficamente respeitável. Mas ela tampouco precisa ser interpretada necessariamente como recusa de uma ordem sexual considerada mais “real”. Outra leitura possível é justamente a inversa: Kaworu introduz uma forma de desejo que escapa às categorias através das quais Shinji vinha organizando sua experiência de intimidade. O desconforto pode então nascer não porque aquela relação seja “menos real”, mas porque ela obriga Shinji a reconhecer uma possibilidade para a qual ainda não possui linguagem.

Freud, aliás, seria bastante útil aqui para impedir que transformemos imediatamente o objeto do desejo numa sentença sobre a totalidade da identidade do sujeito. Desejar alguém não fornece, por si só, uma metafísica inteira da pessoa que deseja.

Muito embora Shinji esteja num estado de acídia e até mesmo depressão, ele consegue vislumbrar um mundo com uma centelha de felicidade, personificada no sorriso doce do amigo que o provoca em alguns momentos, criando uma atmosfera descontraída e acolhedora.

Uso aqui “acídia” em sentido existencial e espiritual, não como simples sinônimo clínico de depressão. A palavra possui uma tradição própria: cansaço diante da existência, incapacidade de desejar aquilo que antes organizava a vida, recusa quase fatigada do mundo. É exatamente nesse estado que Kaworu aparece.

Eles se deitam ao lado um do outro, como Shinji chegou a dormir com Asuka, mas com uma calma em seu coração que ele não experimentou ao dormir com a amiga, até mesmo sendo assombrado pela tentação sexual de dormir ao lado de uma garota bonita de sua idade.

Com o amigo, por outro lado, a tentação sexual é acompanhada pela tranquilidade e essa diferença é talvez mais importante do que a identidade sexual das relações. Com Asuka, desejo e conflito aparecem misturados. Com Kaworu, desejo e acolhimento parecem coincidir.  O garoto que olhava para o mundo com pessimismo finalmente vê um pouco de alegria. Mas parece que algo está errado, e talvez o que esteja “errado” seja justamente a perfeição dessa experiência.

Kaworu oferece algo próximo demais da resposta que Shinji desejava, mas não exige conquista. Não exige desempenho. Não exige que ele prove primeiro que merece ser amado. Isso pode ser lido como graça. Pode ser lido como fantasia. Pode ser lido como uma forma de amor que finalmente interrompe a economia de reconhecimento pela qual Shinji vivia. E pode ser lido também como uma relação estruturalmente impossível, porque Kaworu não é simplesmente outro adolescente.

É o último Anjo.

Ele se vê diante da posição de negar a sua realidade, mas a realidade que se apresenta em alternativa é justamente fraca em manter aquele fundo de verossimilhança. Em resumo: um mundo sem conflito e sem a necessária dualidade entre o feminino e o masculino é irreal, é incompleto. Essa era minha conclusão. Hoje talvez seja possível ampliá-la.

Talvez o problema não seja a ausência da oposição masculino-feminino, mas a ausência de resistência do outro. Uma relação real envolve alteridade. O outro deseja coisas que eu não desejo. Interpreta-me de maneira diferente daquela pela qual interpreto a mim mesmo. Pode recusar. Pode partir. Pode decepcionar. Kaworu parece inicialmente suspender quase todas essas possibilidades.

E é justamente por isso que sua presença se aproxima perigosamente da fantasia de um outro perfeitamente adequado às necessidades de Shinji. Isso porque não é simplesmente a ausência de conflitos que significa uma vida feliz mas, uma vida completa é formada também por conflitos que fazem parte da natureza mesma das coisas.

É por isso que apenas fugir e se refugiar num mundo imaginário sempre acaba em desilusão; justamente por isso, ao vislumbrar esse mundo, nele não há nenhuma felicidade completa. Aqui o dilema do ouriço retorna por outro caminho. Eliminar todo conflito poderia significar também eliminar aquilo que faz do outro alguém realmente diferente de mim. Se o outro jamais resiste, jamais recusa, jamais contradiz e jamais me obriga a rever a imagem que possuo de mim mesmo, talvez eu já não esteja verdadeiramente encontrando outra consciência. Talvez esteja apenas contemplando a forma ideal que meu desejo gostaria que o outro assumisse.

Kaworu, porém, complica essa leitura porque não permanece simples projeção. Ele escolhe. Ele possui finalidade própria. E, finalmente, coloca Shinji diante de uma decisão que nenhum mundo imaginário poderia evitar.

A morte de Kaworu significa para Shinji o fim da linha, e ele entra em estado de profunda depressão, só conseguindo reagir muito depois de iniciado o Projeto de Instrumentalidade Humana.

A pergunta “por que você o matou?” se repete indefinidamente na mente do jovem, que tenta a todo custo se livrar da culpa de ter nas mãos o sangue da pessoa que, pela primeira vez, lhe deu a visão da alegria.

A relação sofre uma inversão brutal. O outro que parecia não ferir Shinji entrega a Shinji o poder de feri-lo. Mais do que isso: pede que ele o faça. Todo o problema da liberdade que acompanhamos na jornada de Shinji retorna agora sem qualquer possibilidade de transferência. Não há Dummy System. Não há Gendo decidindo em seu lugar. Não há ordem capaz de apagar a responsabilidade. Há apenas a mão do EVA-01 fechada ao redor do corpo de Kaworu.

E tempo.

Muito tempo.

Kierkegaard vai dizer que angústia da liberdade atinge sua forma mais pura quando o sujeito percebe que possui possibilidade real de agir e que nenhuma necessidade exterior conseguirá transformar sua escolha em inocência.

Shinji não deseja matar Kaworu, mas não pode simplesmente deixá-lo prosseguir. Kaworu, por sua vez, aceita morrer. Essa aceitação abre outra possibilidade de interpretação. Kaworu pode ser lido como figura sacrificial: o Anjo entrega a própria vida para preservar a humanidade, ou talvez para preservar a possibilidade de Shinji continuar escolhendo.

Há inevitavelmente uma ressonância religiosa nessa cena: o outro que poderia destruir oferece a si mesmo. Mas seria precipitado transformar Kaworu simplesmente em figura de Cristo. A semelhança simbólica existe; a identidade teológica, não. O que importa é a estrutura sacrificial: ele não é apenas morto, ele consente. E esse consentimento torna a culpa de Shinji ainda mais complexa, porque não pode ser reduzida à condição simples de assassino e vítima.

A pessoa que ofereceu a Shinji a experiência mais próxima do amor é também aquela cuja morte ele executa com as próprias mãos. Existe uma crueldade particular nessa construção, pois Shinji passou a vida procurando alguém que não o abandonasse. Kaworu encontra uma maneira extrema de não abandoná-lo. Morre por sua decisão e, justamente por isso, torna-se impossível continuar presente.

O dilema existencial é então apresentado por meio dessa tensão entre o real, o sonhado e aquilo que podemos equacionar das duas coisas, uma síntese, por assim dizer, do sonho que não se perde da realidade. A representação desse dilema na angústia depressiva é uma boa imagem e reflete com verossimilhança a experiência comum a todas as pessoas.

Talvez possamos formular essa tensão também de outra maneira: Shinji não precisa escolher simplesmente entre sonho e realidade. Precisa aprender se é possível conservar alguma coisa daquilo que Kaworu representou sem exigir que o mundo inteiro se transforme em Kaworu. Esse é o problema.

O encontro mostrou que outra forma de relação é imaginável, mas uma relação real não pode existir apenas onde não há resistência. O outro precisa continuar sendo outro. Essa descoberta prepara diretamente a Instrumentalidade pois, depois de Kaworu, Shinji conhece finalmente a tentação de uma relação sem dor. Depois perde essa relação.

E então lhe será oferecido algo muito maior: um mundo onde nenhuma relação poderá voltar a terminar dessa maneira porque já não existirão fronteiras suficientemente firmes para separar uma consciência de outra. A Instrumentalidade parece oferecer em escala universal aquilo que Kaworu ofereceu por alguns instantes em escala pessoal.

Ausência de rejeição. Ausência de distância. Ausência de abandono. Ausência de conflito.

Mas também ausência da alteridade necessária para que amor seja realmente encontro e não apenas fusão. Kaworu não é, portanto, simplesmente uma resposta. Talvez seja a última pergunta antes do fim do mundo.

Continua

A Instrumentalidade Humana VII - O difícil aprendizado de existir e a economia do reconhecimento

Se Neon Genesis Evangelion pode ser compreendido como uma espécie de romance de formação, é preciso acrescentar imediatamente que se trata de uma formação profundamente estranha.

Na forma clássica de um Romance de Formação o jovem atravessa experiências que gradualmente lhe permitem constituir uma identidade e encontrar alguma posição possível no mundo. Há conflito, perda e transformação, mas existe normalmente um horizonte de integração: tornar-se adulto significa aprender a relacionar aquilo que se é com aquilo que o mundo exige.

Shinji Ikari recebe uma educação muito menos benevolente, o mundo ao qual deveria integrar-se já está quebrado, os adultos que deveriam orientá-lo carregam seus próprios fracassos. Seu pai é simultaneamente figura paterna, comandante e principal fonte de abandono. Sua mãe está morta para ele e, ao mesmo tempo, permanece dentro da criatura que deverá pilotar. A instituição que lhe oferece uma finalidade utiliza-o como instrumento. E a tarefa através da qual espera conquistar reconhecimento consiste em entrar repetidamente num corpo gigantesco para enfrentar criaturas cuja existência ameaça extinguir a humanidade. Shinji não é introduzido na ordem adulta, é lançado nos escombros dela.

Talvez seja mais apropriado, portanto, falar de um romance de formação negativo, no qual o amadurecimento não significa aprender a ocupar satisfatoriamente um lugar preexistente, mas descobrir progressivamente que nenhum lugar recebido poderá responder sozinho à pergunta acerca de quem se é.

É precisamente por isso que a jornada de Shinji concentra tantos dos dilemas morais e existenciais que Evangelion representa ao longo de sua narrativa: ele precisa do outro, ao mesmo tempo em que tem medo do outro, deseja reconhecimento. Ressente-se daquilo que precisa fazer para consegui-lo. Quer fugir. Teme tornar-se irrelevante se fugir. Quer decidir por si mesmo e tem pavor da responsabilidade implicada na decisão. E, acima de tudo, procura uma razão externa que lhe assegure que sua existência possui algum valor.

Shinji não assume o EVA-01 como um herói épico que aceita espontaneamente um dever diante da coletividade. Ele pilota porque foi colocado numa situação em que recusar parece quase impossível. Seu pai o convoca. Uma cidade está sob ataque. Rei aparece ferida. A alternativa é permitir que alguém aparentemente incapaz de combater seja enviado em seu lugar. Antes mesmo que Shinji possa construir uma vontade própria, o mundo organiza as circunstâncias de modo a produzir sua obediência. Isso será importante para compreendermos sua relação posterior com responsabilidade.

Shinji age inúmeras vezes, mas agir não significa necessariamente ter escolhido. Ele próprio percebe essa diferença. Pilota porque lhe disseram para pilotar e retorna porque esperam que retorne. Busca aprovação porque aprendeu a experimentar o olhar dos outros como medida do próprio valor.

A célebre repetição pela qual tenta convencer-se de que “não deve fugir” contém algo muito mais ambíguo do que simples superação do medo. Pode significar coragem. Pode significar também incapacidade de distinguir perseverança de submissão.

Kierkegaard torna-se particularmente importante na investigação desse ponto. Em O desespero humano, um dos problemas fundamentais do eu consiste precisamente em não conseguir tornar-se aquilo que é. Mas isso possui mais de uma forma. Pode-se desesperar recusando o próprio eu; pode-se também querer fabricar um eu exclusivamente segundo determinações escolhidas por si mesmo.

Shinji parece inicialmente cair antes da primeira dificuldade. Ele quase não reivindica para si o direito de determinar quem deverá ser. Aceita definições externas: filho. Piloto. Covarde. Útil. Inútil. Necessário. Fardo.

As palavras mudam conforme o olhar de quem as pronuncia, e Shinji parece frequentemente recebê-las como se fossem veredictos. Aquilo que discutimos anteriormente sobre a constituição relacional da identidade encontra nele sua forma mais dolorosa. Shinji não pergunta somente: “Quem sou?” Pergunta, continuamente: “Quem sou para vocês?” E talvez mais precisamente: “Quem preciso ser para que vocês não me abandonem?”

O EVA oferece uma primeira resposta. Enquanto pilota, ele é necessário. Enquanto vence, recebe reconhecimento. Enquanto cumpre sua função, existe uma razão objetiva para que os outros o procurem. O problema surge quando essa função começa a tornar-se indistinguível de sua identidade. Se deixar de pilotar, o que sobra?

A pergunta que Asuka experimenta através da perda de sua capacidade de sincronização já existe desde cedo em Shinji por outra via. Se aquilo que faço é a única razão pela qual sou reconhecido, quem serei quando parar de fazê-lo?

É um dilema muito menos fantástico do que seus elementos narrativos sugerem. Carreiras, títulos, desempenho acadêmico, utilidade familiar, produtividade, posição social: seres humanos demonstram extraordinária criatividade para transformar atividades em definições ontológicas. “Faço isto” converte-se facilmente em “sou isto”. E, mais perigosamente: “se eu deixar de fazer isto, talvez deixe de merecer aquilo que recebo dos outros.” O mundo contemporâneo até oferece maneiras menos espetaculares de pilotar EVAs, mas o mecanismo não mudou tanto.

A necessidade de aprovação assume em Shinji uma direção particularmente clara: Gendo. 

O abandono paterno não é apenas uma memória dolorosa. Organiza parte significativa da maneira como Shinji interpreta suas próprias relações. O pai ausente torna-se também o homem diante de quem sua utilidade pode finalmente ser demonstrada. Pilotar oferece uma promessa que nunca precisa ser explicitamente formulada: se eu fizer aquilo que ele precisa, talvez ele reconheça que eu deveria ter permanecido.

Essa esperança é especialmente cruel porque transforma amor em economia. Eu entrego desempenho. Recebo reconhecimento. Eu sou útil, logo, talvez possa ser amado. A relação nunca precisa ser racionalmente formulada dessa maneira para produzir seus efeitos.

Freud já nos ensinara a desconfiar da ideia de que nossos vínculos presentes obedecem apenas àquilo que conscientemente sabemos sobre eles. Relações anteriores persistem, deslocam-se, reaparecem em novas configurações.

Shinji procura o pai, depois procura em outras pessoas aquilo que o pai não ofereceu: a aprovação, a necessidade, a confirmação. Um lugar. Mas nenhum outro consegue simplesmente reparar a primeira falta, porque cada relação possui sua própria alteridade.

Misato não é mãe. Asuka não é resposta para sua solidão. Rei não é substituta simples de Yui, por mais que sua própria existência torne essa relação perturbadoramente complexa. Kaworu, como veremos, parecerá durante algum tempo oferecer uma exceção quase impossível a essa regra. Mas antes dele Shinji aprende repetidamente que o outro não existe apenas para confirmá-lo. E sofre sempre que essa realidade se impõe.

Uma leitura possível de Evangelion como narrativa de formação poderia tratar os Anjos como o “outro” que precisa ser repelido para que o sujeito consolide sua identidade. A interpretação é sugestiva, mas torna-se insuficiente quando confrontada com o restante da obra, porque Evangelion passa progressivamente a borrar a diferença confortável entre humano e Anjo.

Eles possuem Campos A.T. Nós também. Eles desejam sobreviver. Nós também. São classificados como inimigos porque sua existência ameaça a nossa. Mas, vista de fora da perspectiva humana, a situação torna-se perturbadora: descendentes de Adão tentam recuperar um mundo ocupado pelos descendentes de Lilith.

O “outro” deixa de ser simplesmente aquilo que deve ser eliminado para que o eu amadureça e torna-se aquilo cuja existência coloca em questão o direito absoluto do eu de ocupar sozinho o mundo. Isso será fundamental para nosso pequeno e complexado Shinji. Inicialmente, pilotar parece oferecer uma distinção moral simples: há um inimigo. Eu o destruo. Protejo os meus. Mas a série começa a destruir essa simplicidade. O EVA-03 constitui um dos momentos decisivos dessa ruptura.

Isso porque quando o EVA-03 é tomado por um Anjo, Shinji recebe uma ordem aparentemente coerente com tudo aquilo que havia feito até então: destruir o inimigo. O problema é que existe uma pessoa dentro dele, Toji Suzuhara, seu amigo. A partir desse instante, o papel de piloto já não consegue decidir por Shinji. Se obedecer, poderá matar alguém que conhece. Se recusar, poderá permitir que o Anjo destrua outras pessoas. Não existe posição neutra. É justamente aqui que a questão moral começa de verdade.

Shinji recusa-se a atacar. Durante muito tempo, poderíamos chamar isso de covardia, mas a palavra se torna inadequada. Ele não está simplesmente fugindo do perigo. Está recusando o direito de decidir que uma vida concreta pode ser sacrificada para cumprir sua função. Gendo elimina a hesitação ativando o Dummy System e retirando de Shinji o controle da Unidade 01. O EVA destrói brutalmente a Unidade 03. A cena é importante não apenas pelo trauma produzido. Ela dramatiza aquilo que acontece quando uma instituição resolve um dilema moral removendo do indivíduo a responsabilidade de escolher.

Shinji queria não decidir. Gendo decide por ele. E o resultado é monstruoso, a experiência produz uma mudança essencial: até então, Shinji podia dizer que pilotava porque outros lhe haviam dito para fazê-lo. Agora descobre que também existe responsabilidade na recusa de agir. Não escolher não suspende necessariamente as consequências. Às vezes apenas entrega a escolha a alguém menos hesitante. Isso não significa que Shinji devesse simplesmente destruir Toji. A força do dilema está justamente em não oferecer resposta moral confortável. Qualquer decisão teria custo. É essa ausência de saída limpa que começa a destruir sua estratégia habitual. Fugir já não significa permanecer inocente.

É aqui que O conceito de angústia, de Kierkegaard, começa a tornar-se um complemento importante para nossa leitura: a angústia está ligada à possibilidade. Não sofremos apenas diante daquilo que acontece. Sofremos diante daquilo que podemos fazer. A liberdade não aparece necessariamente como libertação jubilosa. Pode aparecer como vertigem. Shinji passa progressivamente a perceber que possui poder. E esse poder é justamente aquilo de que tenta fugir. Pilotar o EVA-01 significa que suas decisões afetam vidas. Depois, significará muito mais do que isso.

O garoto que mal consegue determinar o que deseja para si acaba colocado numa posição em que pode determinar o destino de outros. Essa desproporção constitui uma das grandes crueldades da série. O sujeito que mais deseja transferir suas escolhas recebe cada vez mais poder de escolha. Não porque esse seja seu “verdadeiro eu” escondido sob uma máscara covarde. Pelo contrário. É justamente porque não possui ainda uma identidade capaz de assumir tranquilamente esse poder que a responsabilidade se torna insuportável.

A antiga interpretação segundo a qual Shinji usaria a covardia como máscara para ocultar uma natureza mais poderosa pode, então, ser substituída por algo mais inquietante: Shinji não teme apenas ser fraco. Teme aquilo que poderá fazer se reconhecer que não é completamente impotente.

Essa diferença é enorme pois impotência oferece certa inocência. Se nada posso fazer, nada verdadeiramente depende de mim. Se posso escolher, começo a carregar também aquilo que minha escolha produzir.

Essa questão retorna, radicalizada, em três grandes momentos: o primeiro é o EVA-03, o segundo será Kaworu e terceiro, a Instrumentalidade. Nas três situações, Shinji não precisa simplesmente decidir alguma coisa a respeito de si. Precisa decidir algo que altera a existência alheia.

No EVA-03, deve decidir se atacará alguém para proteger outros. Diante de Kaworu, terá literalmente a vida do outro entre as mãos. Durante a Instrumentalidade, sua decisão alcançará a própria estrutura da existência humana.

A escala aumenta. O problema permanece. O jovem que se habituou a permitir que os outros definissem sua vida torna-se progressivamente alguém cujas decisões podem definir a vida dos outros. É nesse sentido que sua jornada pode ser lida como formação.

Não porque Shinji se transforme gradualmente num herói corajoso, mas porque é obrigado a descobrir que existir como indivíduo significa também existir como agente e agir significa tornar-se capaz de produzir consequências que nenhuma boa intenção consegue anular. Aqui aparece um dos dilemas morais mais importantes de Evangelioncomo assumir responsabilidade sem transformar responsabilidade em direito de dominar?

Gendo possui poder e decide pelos outros. SEELE possui poder e pretende decidir pela humanidade. Shinji teme o poder justamente porque teme reproduzir aquilo que sofreu nas mãos daqueles que decidiram por ele.

Sua hesitação contém fraqueza, mas também contém uma percepção moral real. O outro não é matéria disponível para minha vontade. O problema é que reconhecer isso não elimina situações em que alguma decisão ainda precisa ser tomada.

Durante boa parte da narrativa, Shinji encontra na passividade uma espécie de proteção moral: se obedecer, a decisão pertence a quem deu a ordem. Se fugir, talvez deixe de ser responsável pelo que acontece. Se permanecer indiferente, talvez não possa ser acusado de desejar o resultado.Mas essas estratégias começam a falhar.

A existência não concede inocência simplesmente porque nos recusamos a escolher. Essa descoberta aproxima Shinji de um problema que encontramos também na filosofia de Olavo de Carvalho em sua insistência sobre a consciência individual como lugar concreto do ato e da responsabilidade: há decisões que nenhuma fórmula coletiva, papel institucional ou descrição externa pode realizar no lugar daquele que efetivamente as vive.

Shinji pode ser chamado de piloto. Pode receber ordens. Pode obedecer a uma hierarquia. Nada disso elimina o momento em que ele próprio precisa responder: farei isto?

Esse momento não pode ser terceirizado indefinidamente. Talvez aqui também esteja uma das formas mais profundas do amadurecimento. A criança pode acreditar que o mundo possui adultos que sabem o que deve ser feito. O adulto descobre, com alguma decepção, que muitas vezes existem apenas pessoas igualmente assustadas tomando decisões com informações incompletas. Shinji encontra essa verdade cedo demais.

Há, entretanto, uma tentação persistente: se ser livre significa poder errar, talvez seja mais confortável permanecer fraco. Se escolher significa poder ferir alguém, talvez seja melhor deixar que escolham por mim. Se possuir uma identidade própria significa entrar em conflito com aquilo que os outros esperam, talvez seja mais seguro continuar desempenhando o papel que me deram.

O problema é que essa segurança possui um custo. Aquele que nunca decide por si não evita necessariamente perder-se. Pode simplesmente desaparecer dentro das decisões alheias.

Aqui voltamos a O desespero humano. Não querer ser si mesmo não precisa assumir a forma dramática de desejar morrer. Pode aparecer como disposição constante de tornar-se aquilo que o mundo exige para evitar o risco de assumir a própria existência. Shinji deseja reconhecimento e, justamente por isso, está continuamente tentado a construir-se segundo aquilo que imagina que produzirá esse reconhecimento.

Um bom piloto, um bom filho, uma pessoa útil, alguém necessário. Cada uma dessas identidades promete segurança mas, mesmo assim, nenhuma responde inteiramente à pergunta acerca do eu.

No centro de tudo isso aparece uma descoberta particularmente desagradável: relacionar-se com o outro significa possuir algum poder sobre ele. Quem ama pode abandonar. Quem conhece pode ferir com precisão. Quem é amado pode decepcionar. Quem recebe confiança pode traí-la.

Nós não precisamos de EVAs para experimentar essa responsabilidade. Shinji, porém, vive essa condição em escala literal. Seu corpo está ligado a um instrumento capaz de destruir. Seus afetos estão ligados a pessoas igualmente frágeis. E suas decisões começam progressivamente a adquirir consequências irreversíveis. A pergunta deixa então de ser: “Shinji conseguirá finalmente tornar-se forte?” Essa formulação ainda pertence ao vocabulário infantil da força e da fraqueza. A pergunta mais séria é: Shinji conseguirá aceitar que tornar-se sujeito significa assumir tanto sua capacidade de sofrer quanto sua capacidade de fazer sofrer?

É muito mais fácil imaginar-se apenas vítima.

A vítima possui uma identidade moral relativamente estável. Foi ferida. O outro feriu. Mas amadurecer exige reconhecer uma verdade menos confortável: aquele que foi ferido também pode ferir. A própria dor não concede pureza moral. Talvez seja esse o verdadeiro salto que Shinji hesita em realizar. Não transformar-se em herói. Transformar-se em alguém capaz de reconhecer que sua liberdade tem peso.

Por isso eu não diria que Shinji passa a série procurando sua “identidade real” como se houvesse um núcleo autêntico escondido sob sua covardia. Esse modelo já não parece suficiente depois de tudo aquilo que discutimos. Shinji está construindo uma relação consigo mesmo, e essa relação muda conforme encontra outras consciências.

Gendo oferece abandono e exigência, Misato oferece cuidado imperfeito. Rei oferece uma proximidade silenciosa e estranhamente familiar e Asuka oferece conflito, desejo, agressão e uma alteridade que resiste ferozmente às suas projeções. O EVA-01 oferece simultaneamente poder, proteção, terror e retorno à mãe. Cada encontro acrescenta alguma coisa àquilo que Shinji chama de “eu”.

Lacan seria particularmente útil aqui para impedir a fantasia de um sujeito independente dessas relações. O eu se constitui também pelas imagens e palavras que recebe do outro, mas isso não significa que esteja condenado a ser apenas aquilo que os outros disseram. É justamente nesse intervalo que aparece a liberdade: não escolhemos tudo aquilo que nos constituiu, mas precisamos, em algum momento, responder por aquilo que faremos com isso. Essa parece uma formulação mais madura do problema que percorre toda a jornada de Shinji: não posso escolher o fato de ter sido abandonado, mas preciso escolher o que farei com o abandono. Não posso escolher precisar dos outros, mas preciso descobrir como me relacionarei com essa necessidade. Não posso impedir que minhas escolhas possam ferir, mas não posso usar esse risco eternamente como justificativa para jamais escolher.

A formação de Shinji não consiste, portanto, em substituir fraqueza por força. Consiste em descobrir que nenhuma dessas palavras é suficiente.

Continua