"Existe um vazio bem no âmago de nossas almas. Uma imperfeição fundamental que tem assombrado todos os seres desde o primeiro pensamento. Em um nível primitivo, o homem sempre esteve ciente da escuridão que mora no núcleo de sua mente. Temos procurado escapar desse vazio e do temor que ele provoca, e o homem procura preencher esse vazio." (Neon Genesis Evangelion)
Há obras que narram acontecimentos e há obras que, quase sem pedir licença, transformam acontecimentos em perguntas. Neon Genesis Evangelion pertence a essa segunda espécie. Sob a aparência de batalhas colossais, catástrofes e máquinas concebidas para enfrentar monstros, há algo muito menor, muito mais frágil e, por isso mesmo, muito mais perigoso: seres humanos tentando compreender por que sofrem, por que desejam, por que ferem aqueles de quem precisam e por que, mesmo cercados de outros, continuam incapazes de abolir a distância que existe entre uma consciência e outra. Seus gigantes apenas ampliam aquilo que já estava escondido no interior de seus personagens. O fim do mundo começa sempre em escala íntima.
É nesse espaço que se constrói a representação dos dilemas morais e existenciais. A série transforma o medo da solidão em fronteira, o desejo de reconhecimento em conflito, a culpa em catástrofe, a dificuldade de comunicação em arquitetura do próprio mundo e a vontade de escapar do sofrimento numa tentação de dissolver aquilo que torna o sofrimento possível: o indivíduo. O vazio que abre esta reflexão não será, portanto, apenas uma ausência a ser preenchida, mas uma espécie de tema recorrente, quase musical, que reaparecerá sob formas diferentes ao longo da obra. Às vezes como desejo, às vezes como desespero, às vezes como amor, às vezes como medo, às vezes como a promessa terrível de que toda dor poderia finalmente cessar se também cessasse aquele que a sente.
As fronteiras que tornam possível dizer “eu” são as mesmas que impedem esse eu de alcançar plenamente o outro; abolir essas fronteiras eliminaria parte do sofrimento, mas eliminaria também a própria possibilidade do encontro.
Talvez uma das experiências mais elementares da consciência seja precisamente esta: a descoberta de que alguma coisa nos falta. Não necessariamente algo que possamos nomear, possuir ou mesmo reconhecer com clareza, mas uma ausência que se manifesta pela inquietação com que nos dirigimos ao mundo. Desejamos, escolhemos, acumulamos projetos, procuramos reconhecimento e estabelecemos vínculos como se, em algum ponto além de nós mesmos, estivesse aquilo que poderia finalmente restituir uma unidade perdida. A consciência não encontra em si repouso suficiente; projeta-se continuamente para fora, em direção ao que ainda não possui, ao que ainda não é, ao que imagina poder completá-la.
É justamente essa desproporção entre aquilo que julgamos importante e aquilo que efetivamente domina nossa vida interior que torna o problema mais incômodo. Podemos reconhecer racionalmente o valor do trabalho, do estudo, da realização intelectual ou de qualquer projeto cuidadosamente escolhido e, ainda assim, descobrir que nossa atenção permanece aprisionada a uma ausência aparentemente menor: uma palavra que não veio, uma resposta recusada, um afeto não correspondido, a impossibilidade de alcançar alguém cuja existência adquiriu para nós uma importância desmedida. Há nisso algo bastante humilhante para a imagem que fazemos de nossa própria autonomia. O pensamento estabelece hierarquias mas o desejo frequentemente as ignora.
O vazio de que fala Neon Genesis Evangelion não se reduz, a uma simples carência psicológica que pudesse ser satisfeita pela aquisição do objeto adequado. Sua força está justamente no contrário. Aquilo que procuramos no exterior parece mudar de forma sem que desapareça a estrutura da procura. Um desejo sucede a outro; uma conquista encerra determinada falta apenas para que outra se torne perceptível; e, entre todas essas tentativas, a presença do outro ocupa uma posição singular. Não desejamos apenas coisas. Desejamos ser vistos, compreendidos, acolhidos; desejamos que uma consciência diferente da nossa confirme, de algum modo, que nossa própria existência não permanece encerrada em si mesma.
É nesse ponto que a falta começa a revelar uma dimensão mais profunda. Aproximar-se de outro indivíduo significa necessariamente aproximar-se de algo que não podemos possuir integralmente. Podemos ouvir suas palavras, interpretar seus gestos, reconhecer suas manifestações de afeto ou de recusa, mas não penetramos em sua consciência do mesmo modo como experimentamos a nossa. Entre um eu e outro permanece uma distância que nenhuma intimidade elimina completamente. O desejo de união nasce, assim, no interior da própria separação: procuramos alcançar o outro justamente porque ele não coincide conosco.
Mas essa distância não constitui apenas uma privação. É também aquilo que torna possível a existência do outro enquanto outro. Se toda fronteira desaparecesse, talvez desaparecessem com ela a rejeição, a incompreensão e a solidão; desapareceria, porém, também a possibilidade mesma do encontro. Desde seus primeiros movimentos, Evangelion instala seus personagens dentro desse paradoxo: o indivíduo sofre porque está separado e, ao mesmo tempo, somente pode amar, desejar e reconhecer porque existe essa separação. Aquilo que protege o eu de sua dissolução é também aquilo que o condena a permanecer, em alguma medida, inacessível aos demais.
Por isso o impulso de preencher o vazio contém desde o início uma ambiguidade. Procuramos o outro para escapar da solidão, mas exigimos muitas vezes dessa aproximação aquilo que ela não pode oferecer: a abolição completa da distância entre duas consciências. Quando essa promessa impossível fracassa, não experimentamos somente a perda de uma relação ou a frustração de determinado desejo. Deparamo-nos novamente com aquilo de que tentávamos escapar desde o princípio: a percepção de que continuamos sendo um eu separado, entregue à necessidade de interpretar o mundo e aqueles que nele encontramos sem jamais possuir a garantia de tê-los compreendido por inteiro.
É curioso perceber que algumas coisas, mesmo quando trabalhadas até a exaustão, recusam-se a se esgotar. Sempre resta um ponto ainda não observado, uma pergunta mal formulada, uma fresta pela qual o problema inteiro pode reaparecer sob outra forma. Talvez não seja exagerado dizer que existe alguma coisa essencialmente inquieta na consciência humana: não nos basta que algo seja; queremos saber o que é, por que é, de onde veio e, quando o descobrimos, imediatamente perguntamos o que existe depois.
Não pretendo fazer aqui uma antropologia improvisada segundo a qual a curiosidade seria uma espécie de medalha evolutiva concedida exclusivamente à nossa espécie. Além de os animais certamente demonstrarem comportamentos exploratórios, tenho conhecimento insuficiente do assunto e intimidade ainda menor com o reino animal para arbitrar a disputa. O que me interessa é algo mais modesto e, ao mesmo tempo, mais incômodo: a consciência humana parece incapaz de permanecer inteiramente satisfeita com aquilo que lhe é dado.
Desde a mais tenra infância estamos descobrindo e nos questionando sobre o mundo à nossa volta. Um bebê leva os objetos à boca e aprende diferenças que ainda não sabe nomear; um cientista contempla equações e pergunta pela estrutura do universo; um filósofo, tendo recebido respostas suficientes para viver tranquilamente, comete a imprudência profissional de perguntar se alguma delas realmente responde à questão: Kant é um ótimo exemplo de homem que inventou muitos problemas que nunca existiram senão em sua cabeça e passou boa parte da vida tentando resolvê-los. Mudam os objetos, muda o método, muda o vocabulário. Permanece a inquietação.
A modernidade não inventou esse impulso, mas talvez tenha feito dele um programa. Conhecer, explorar, produzir, conquistar, corrigir, acelerar. Há sempre alguma coisa adiante que ainda não dominamos e que, convenientemente, promete tornar nossa vida melhor quando finalmente a alcançarmos.
Essa inquietação pode ser uma dádiva. Também pode ser uma maldição.
A antiga imagem cristã da Queda permite aproximarmo-nos desse paradoxo, embora seja preciso não violentá-la para que diga aquilo que queremos. Seria teologicamente pobre reduzir o Pecado Original à mera “curiosidade”. No relato do Gênesis, conhecimento, desejo, desobediência, liberdade e limite aparecem de maneira muito mais complexa. Ainda assim, permanece sugestiva a associação entre a consciência que deseja ultrapassar a condição recebida e a perda de uma unidade primeira.
Também por isso a tradição cristã pôde produzir em sua liturgia a expressão paradoxal felix culpa: não porque o mal se transforme retrospectivamente em bem, muito menos porque a desobediência seja celebrada como uma espécie de empreendedorismo espiritual, mas porque a própria história da queda passa a ser contemplada à luz da possibilidade de redenção. A ruptura não constitui o bem; entretanto, é no mundo já rompido que se tornam possíveis certas formas de retorno, criação e reconciliação.
A humanidade caída, separada daquela unidade primeira, não permaneceu imóvel. Fez medicina para aliviar a dor, técnica para prolongar suas forças, arquitetura para proteger o corpo, música e pintura para exteriorizar aquilo que o corpo sozinho não consegue dizer. Criamos instrumentos para alcançar lugares aos quais nossos braços não chegam e linguagens para tentar alcançar consciências nas quais jamais poderemos entrar diretamente. Talvez nossas maiores criações sejam, entre outras coisas, monumentos erigidos diante de nossa própria insuficiência.
É justamente aqui que a curiosidade volta a encontrar aquele vazio do qual partimos.
Se existe em nós essa “imperfeição fundamental”, essa ausência que a consciência sente sem necessariamente saber definir, é natural que passemos a procurar alguma coisa capaz de preenchê-la. Podemos chamá-la de felicidade, realização, conhecimento, reconhecimento, transcendência, amor. Em determinado momento da vida, podemos até dar-lhe um rosto.
E então aparece a alma gêmea.
Confesso que a expressão sempre me provocou certa resistência. Parte da culpa pertence certamente ao exército de frases açucaradas que transformou um antigo problema filosófico em decoração de casamento e postagem acompanhada de pôr do sol. Se alguém procura garantias de que existe uma pessoa perfeita aguardando pacientemente em algum lugar do mundo para encaixar-se sem atrito em sua personalidade, a indústria cultural produziu material suficiente para várias vidas. Nicholas Sparks provavelmente consegue atender a emergência.
O problema que me interessa é outro.
Quando penso aqui em “alma gêmea”, não estou pensando apenas no parceiro amoroso ideal. Estou pensando em algo mais profundo: na esperança de que exista alguma coisa capaz de conferir unidade e sentido à nossa existência. O amor romântico é apenas uma das formas mais poderosas sob as quais essa esperança se apresenta.
A imagem clássica encontra uma de suas formulações mais belas no discurso de Aristófanes em O Banquete, de Platão. Convém fazer a distinção porque Platão teve a péssima sorte de escrever personagens tão memoráveis que, dois milênios depois, ainda lhe atribuímos indiscriminadamente tudo aquilo que eles dizem. Aristófanes narra que os seres humanos possuíam originalmente corpos duplos e extraordinária força. Tornaram-se arrogantes a ponto de desafiar os deuses e, como punição, Zeus decidiu dividi-los. Desde então, cada parte procura aquela da qual foi separada, desejando restaurar uma unidade anterior à cisão.
O fascínio do mito não depende de acreditarmos literalmente na existência pretérita de criaturas redondas correndo com oito membros pela Terra. Sua força está na estrutura que oferece para compreender o desejo: desejamos porque fomos separados.
A falta seria, assim, memória de uma completude.
Sofremos porque aquilo que somos não coincide mais com aquilo que um dia fomos. Procuramos porque existe outra coisa capaz, pelo menos em princípio, de restaurar nossa unidade. O amor seria então o movimento pelo qual o fragmento reconhece ou procura sua totalidade perdida.
Essa interpretação oferece imediatamente uma resposta possível ao vazio de que fala Neon Genesis Evangelion. Talvez exista em nós uma imperfeição fundamental porque somos seres separados. Talvez a consciência individual seja, ela mesma, o vestígio de uma ruptura.
E aqui aparece uma proximidade perturbadora entre o mito de Aristófanes e o Projeto de Instrumentalidade Humana. A solução de Aristófanes é particular: duas partes procuram recompor certa unidade perdida. A solução da Instrumentalidade é universal: já que as fronteiras entre os indivíduos produzem solidão, incompreensão e sofrimento, eliminam-se as próprias fronteiras. Uma alma gêmea resolveria a separação de dois. A Instrumentalidade pretende resolver a separação de todos.
Há alguma coisa quase obscenamente eficiente nessa solução. Se o outro me causa sofrimento porque permanece inacessível, basta abolir a diferença entre mim e ele. Não haverá rejeição se já não houver alguém suficientemente separado para rejeitar. Não haverá incompreensão quando nenhuma interioridade permanecer verdadeiramente exterior às demais. A humanidade finalmente terá resolvido o problema das relações humanas eliminando as relações humanas. É o tipo de solução que somente uma organização burocrática ou uma metafísica desesperada poderia considerar impecável.
Mas o problema começa justamente aí. Se a separação é apenas uma doença, eliminá-la significa cura. Mas e se a separação for também condição para que exista um “eu”?
Schopenhauer nos oferece uma primeira maneira de aprofundar a questão. Para ele, aquilo que conhecemos como indivíduos pertence ao mundo enquanto representação, submetido ao principium individuationis: eu apareço como este ser, separado daquele outro, ocupando determinado espaço e determinado momento. Entretanto, por baixo dessa multiplicidade encontra-se a vontade, incessante e jamais definitivamente satisfeita. Desejar significa sentir falta; satisfazer o desejo oferece apenas alívio temporário, porque a vontade logo encontra novo objeto.
Isso nos obriga a reconsiderar a alma gêmea. Talvez o problema não seja simplesmente termos encontrado ainda a pessoa errada. Talvez nenhuma pessoa possa realizar aquilo que esperamos quando transformamos o outro em resposta absoluta para nossa própria falta. O objeto muda mas estrutura permanece.
Hoje desejamos uma pessoa. Amanhã desejamos reconhecimento. Depois segurança, conhecimento, dinheiro, influência, uma carreira, uma casa, uma explicação última do universo ou simplesmente que determinada criatura responda uma mensagem dentro de um prazo minimamente civilizado. Cada objeto promete por alguns instantes encerrar a busca. Quase nenhum consegue. A vontade tem uma extraordinária capacidade de sobreviver às próprias conquistas.
Por isso a “alma gêmea”, compreendida como sentido da vida, torna-se muito mais interessante do que a figura romântica da pessoa perfeita. Ela passa a representar o objeto imaginado como capaz de interromper definitivamente nossa inquietação.
Esse mecanismo aparece repetidamente em Evangelion: Shinji pode imaginar que pilotar o Eva resolverá alguma coisa. Pode imaginar que a aprovação do pai resolverá alguma coisa. Pode imaginar que ser necessário aos outros resolverá alguma coisa. Pode imaginar que o afeto de outra pessoa resolverá alguma coisa. O conteúdo se modifica, mas retorna sempre a mesma esperança: se eu alcançar aquilo, talvez finalmente deixe de sentir isto. E, no entanto, o vazio reaparece.
Kierkegaard oferece uma resposta diferente e talvez ainda mais incômoda. Em O Desespero Humano: Doença até a Morte, o desespero não deriva simplesmente da ausência de determinado objeto exterior. O problema encontra-se na relação que o eu estabelece consigo mesmo. O homem pode desesperar-se por não querer ser aquilo que é; pode também desesperar-se querendo desesperadamente tornar-se uma versão de si criada por sua própria vontade. Em ambos os casos, não basta acrescentar um objeto exterior à equação e esperar que tudo se resolva.
Isso não significa que a solução seja retirar-se heroicamente do mundo e descobrir que “tudo estava dentro de nós”. Essa frase serve admiravelmente para estampas e muito mal para Kierkegaard. O eu não é uma substância isolada e autossuficiente. É relação.
Relaciona-se consigo, relaciona-se com os outros e, na arquitetura religiosa kierkegaardiana, somente pode tornar-se plenamente si mesmo quando essa relação se estabelece corretamente diante daquilo que a funda. É precisamente aqui que a procura da alma gêmea revela sua ambiguidade, pois eu posso procurar alguém com quem dividir a existência sem deixar de ser quem sou, mas também posso procurar alguém que me dispense do trabalho penoso de ser precisamente quem sou.
No primeiro caso, desejo um encontro. No segundo, desejo dissolução. A diferença é enorme, embora o vocabulário romântico frequentemente consiga esconder ambas debaixo da mesma palavra: amor.
A psicanálise torna essa situação ainda menos confortável. O sujeito não é perfeitamente transparente sequer para si mesmo. Aquilo que desejo não coincide necessariamente com aquilo que digo desejar; as imagens pelas quais reconheço a mim mesmo já foram construídas mediante relações, identificações, perdas e desejos cuja origem não domino inteiramente. Em Freud, a consciência deixa de ocupar o confortável trono de soberana da vida psíquica. Em Lacan, essa descentralização torna-se ainda mais radical: o sujeito constitui-se numa ordem simbólica que o precede e procura objetos que nunca encerram definitivamente a estrutura de seu desejo.
Portanto, procurar “dentro” tampouco significa encontrar uma pequena caixa contendo nosso eu verdadeiro, cuidadosamente preservado das interferências do mundo. A interioridade também possui ruínas.
Há vozes que não reconhecemos como nossas, imagens tomadas dos outros, desejos que mal conseguimos formular e contradições que resistem às melhores intenções de coerência. É justamente por isso que a insistência na experiência individual pode tornar-se filosoficamente importante, e mais interessante que os devaneios que tive sobre esse assunto dez anos atrás.
Olavo de Carvalho, por caminhos bastante diferentes dos autores anteriores, insistiu reiteradamente na necessidade de reconduzir o conhecimento à consciência concreta que efetivamente vive, percebe, recorda e responde por seus próprios atos intelectuais. Uma ideia pode circular coletivamente, ser repetida por milhares de pessoas, adquirir autoridade social e ainda assim não ter sido verdadeiramente incorporada pela consciência daquele que a repete.
Esse ponto adquire hoje uma ironia especial. Nunca se ouviu tanto a ordem: “seja você mesmo”. E nunca essa ordem foi repetida de maneira tão padronizada. Olavo não concordou nem uma vez sequer com o adágio de que o jovem é transgressor de regras.
"Já acreditei em muitas mentiras, mas há uma á uma à qual sempre fui imune: aquela que celebra a juventude como uma época de rebeldia, de independência, de amor à liberdade. Não dei crédito a essa patacoada nem mesmo quando, jovem eu próprio, ela me lisonjeava. Bem ao contrário, desde cedo me impressionaram muito fundo, na conduta de meus companheiros de geração, o espírito de rebanho, o temor do isolamento, a subserviência à voz corrente, a ânsia de sentirem-se iguais e aceitos pela maioria cínica e autoritária, a disposição de tudo ceder, de tudo prostituir em troca de uma vaguinha de neófito no grupo dos sujeitos bacanas." (Olavo de Carvalho)
Todos devem descobrir sua individualidade utilizando aproximadamente o mesmo vocabulário, os mesmos gestos públicos e, não raro, as mesmas plataformas que oferecem modelos prontos de singularidade. A sociedade conseguiu o prodígio de transformar a autenticidade em comportamento de massa.
A questão deixa então de ser simplesmente se devo buscar minha identidade dentro ou fora de mim. Preciso perguntar primeiro: quais das coisas que reconheço como minhas foram efetivamente experimentadas e assumidas por mim, e quais apenas aprendi a repetir como descrição de mim mesmo?
Essa pergunta toca diretamente Evangelion.
Há o Shinji que Shinji imagina ser.
Há o Shinji que Gendo vê.
Há aquele percebido por Misato.
Há o que existe para Asuka.
Há aquele produzido pela expectativa de ser piloto.
Nenhuma dessas imagens pode simplesmente ser descartada, porque o eu constitui-se também em relação. Mas nenhuma delas, isoladamente, pode esgotá-lo. O drama consiste precisamente em precisar do outro para tornar-se si mesmo sem permitir que o outro determine inteiramente aquilo que se é.
Talvez seja por isso que a procura de uma “alma gêmea”, tomada agora em sentido mais amplo, seja tão persistente. Procuramos alguém, alguma ideia, alguma atividade ou alguma finalidade capaz de dizer finalmente: “é para isto que você existe”.
E quando essa resposta não aparece no campo afetivo, mudamos frequentemente o território da busca.
Passamos à técnica.
Inventamos meios de transporte porque desejamos percorrer distâncias com maior rapidez e segurança. Depois descobrimos que a própria velocidade cria novos perigos e inventamos sistemas destinados a controlar aquilo que inventamos. Criamos armas para aumentar nossa capacidade de defesa e logo precisamos criar instituições e leis para nos defender da capacidade de defesa que acabamos de criar. Produzimos tecnologias para vencer o isolamento e terminamos discutindo o isolamento produzido por tecnologias de comunicação.
Não digo isso para adotar aquele romantismo preguiçoso segundo o qual tudo era melhor quando morríamos aos quarenta anos de uma infecção perfeitamente curável por uma cartela de comprimidos, água filtrada e uma cama limpa. O progresso técnico aliviou sofrimentos reais e ampliou extraordinariamente as possibilidades humanas. A questão é outra: nenhuma realização exterior consegue, por si só, responder à pergunta acerca do sentido para o qual deveria servir.
A técnica responde admiravelmente ao “como”. Seu silêncio começa quando perguntamos “para quê?”.
Até a filosofia participa dessa ironia. Quanto mais conhece, mais claramente descobre a extensão do que ainda não conhece. Cada resposta séria parece produzir perguntas mais precisas. A inteligência amplia o mundo e, ao ampliá-lo, também amplia aquilo que percebe não dominar.
Talvez, então, nossa incessante expansão exterior seja em parte uma fuga.
Não encontramos facilmente aquilo que buscamos dentro de nós e corremos para procurá-lo no mundo.
Construímos.
Viajamos.
Amamos.
Estudamos.
Acumulamos.
Dominamos.
Criamos.
E todas essas coisas podem ser boas, belas e necessárias. O problema começa quando esperamos que alguma delas assuma a tarefa impossível de justificar por completo nossa própria existência.
Por isso minha antiga conclusão de que deveríamos simplesmente “voltar a buscar dentro” me parece hoje insuficiente. Não creio que a resposta esteja simplesmente dentro. Muito menos simplesmente fora. E as soluções que buscamos tendem a ser simples demais, mas diria que toda pergunta complexa tem duas respostas: "sim" e "não".
Talvez a questão seja aprender a reconhecer que nenhum objeto exterior pode substituir o trabalho interior pelo qual o indivíduo compreende aquilo que deseja, ao mesmo tempo em que nenhuma interioridade humana se constitui inteiramente sem relação com aquilo que lhe é exterior.
Precisamos do outro, mas o outro não pode ser nossa prótese metafísica. Precisamos de sentido, mas não sabemos se ele pode ser possuído como se possui um objeto. Precisamos descobrir quem somos, mas qualquer resposta construída sem relação com o mundo corre o risco de produzir apenas outra fantasia privada.
Volto então à imagem da alma gêmea, agora já bastante distante de seu pobre destino romântico: talvez não exista uma pessoa específica capaz de preencher perfeitamente o vazio. Talvez sequer seja desejável que exista.
Se alguém pudesse encaixar-se em mim de maneira tão absoluta que eliminasse toda diferença, essa pessoa ainda seria verdadeiramente outra? Ou teria se tornado apenas extensão da minha própria necessidade?
O amor começa talvez justamente quando renunciamos à esperança de que o outro venha abolir nossa incompletude e, apesar disso, escolhemos aproximar-nos. Nesse sentido, a Instrumentalidade representa a tentação extrema, o Príncipe Desconhecido que olha para a Princesa condenando um homem à morte e canta "ó divina beleza, ó maravilha!"
Ela promete aquilo que toda busca pela completude secretamente desejou: ausência de separação, ausência de incompreensão, ausência da distância dolorosa entre consciência e consciência, mas cobra em troca justamente aquilo que tornava possível desejar, amar e encontrar.
O vazio desapareceria. Talvez porque também desaparecesse aquele que o sentia. E eis a pergunta que começa a surgir por baixo de todas as outras: se a imperfeição fundamental pertence à própria condição de sermos indivíduos, queremos realmente preenchê-la ou precisamos aprender a viver sem destruí-la?
Talvez nossa condenação não seja vagar eternamente procurando a metade perdida.
Talvez seja coisa muito mais difícil.
Talvez precisemos aprender a permanecer incompletos sem transformar a incompletude em desespero; procurar o outro sem exigir sua absorção; desejar sem imaginar que algum objeto encerrará definitivamente o desejo; constituir uma vida sem esperar que o mundo nos entregue pronta a razão pela qual ela merece ser vivida.
Pouco romântico, admito. Já fui bem mais cor-de-rosa, e bem mais pessimista também.
Mas a essa altura já estamos muito distantes do castelo, do cavalo branco e do pobre príncipe que, sem saber, havia recebido a obrigação ontológica de resolver a existência de outra pessoa.

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