segunda-feira, 1 de junho de 2026

Antes de qualquer coisa I

I. Soneto

Não sei se posso dar-lhe o nome, enfim,
de alegria, ou de qualquer conforto;
talvez um sonho, quase já absorto,
que insiste ainda em respirar em mim.

Não foi esperança. Não chegou assim,
qual ave abrindo os céus de um rumo morto;
foi só um breve alívio, um porto
que o mar logo apagou dentro de mim.

Nem houve riso. Nem palavra inteira.
Mal se tocou o instante e já passava,
qual luz tardia à beira da fogueira.

E eu mesmo, antes que forma alguma dava,
torcia o frágil caule da quimera,
matando o que talvez sequer brotava.