quarta-feira, 10 de junho de 2026

Um pouco de contradição

Queria escrever algo sobre a linguagem do amor. Sobre o cara que comprou um tapete felpudo e colocou do lado da cama depois da namorada dormir lá e comentar sobre o piso frio. Queria falar algo sobre como gosto de abraçar e segurar a mão. Mas, foi só para olhar para a página em branco e perceber que não sobrou nada para dizer, porque talvez não tenha sobrado nem amor. 

Estou soluçando, acordei e tomei um monte de remédios pra dormir de novo, e meu corpo não deve aguentar muito tempo. E isso é tudo que sobrou. 

Você me procura para falar das suas dificuldades, o peso constante do cansaço e a sensação de não ser produtivo quanto queria, as distrações recorrentes, como os gastos ou a falta de estudos nos momentos de descanso. 

Bem, de minha parte acho que algumas coisas devem ser tratadas como características, não apenas como obstáculos a serem superados. Tentar vencer algo enquanto esse algo te atrapalha a vencer outra coisa só vai piorar tudo multiplicando os problemas. Mas existem coisas, adversidades, que não podem ser superadas, no sentido de serem extintas, mas que precisamos aprender a conviver com elas. 

Se não consegue levantar cedo para estudar, embora levante para ir para a faculdade ou à Missa, existe ai claramente um fator de interesse que merece ser estudado, mas não agora. Agora que você precisa estudar e precisar entregar o trabalho, essa é sua realidade. Não dá pra lutar todas as batalhas de uma vez. Um exército dividido perde. Escolha as suas batalhas, e agora você sabe que, não sendo o momento de vencer isso, deve lutar com as armas (o tempo) que te resta. 

Existe uma violência moderna em tratar toda limitação como falha moral. Se você procrastina, precisa otimizar. Se descansa, precisa descansar melhor. Se sofre, precisa transformar sofrimento em produtividade. Como se a existência fosse um software defeituoso precisando de atualização constante.

Mas há batalhas que precisam apenas ser contidas.

Você não derrota o mar (passei a gostar dessa comparação desde que vim morar aqui). Aprende quais praias evitar quando a ressaca vem forte. Aprende a subir o penhasco e ver a agitação brutal lá embaixo. 

Algumas dificuldades não são inimigos a serem executados. São vizinhos inconvenientes. Fazem barulho em horários impróprios, ocupam espaço demais e aparecem sem convite. Mas insistir em expulsá-los à força pode consumir a energia necessária para cozinhar, estudar, rezar ou simplesmente sobreviver ao dia seguinte.

Engraçado como você vem me falar disso, de como quer enfrentar, inclusive despertando virtudes heroicas se necessário, enquanto eu tenho a reação oposta, a do covarde. A mais de um ano sem emprego e, quando consigo um pequeno bico, um ataque de pânico me impede de ir adiante. Um dia antes eu aviso que estou doente e não poderei ir. Tudo porque a simples imaginação de um cenário como o de antes me assusta demais. 

Pode ter vergonha, seu padrinho é um grande covarde.

Voltei a me entupir de remédio nos últimos dias, não tenho parado acordado justamente para não pensar em nada. 

Minhas palavras, em certo ponto, começam como conselho, escorregam para a confissão e terminam quase como um bilhete deixado sobre a mesa antes de apagar a luz. Isso sou eu apenas tentando ser honesto.

O homem que compra um tapete porque a namorada comentou sobre o piso frio não fez nenhum grande gesto épico. Não escreveu poemas, não atravessou oceanos, não arrancou estrelas do céu. Ele apenas ouviu uma reclamação banal e reorganizou um pequeno pedaço do mundo para que o outro sofresse menos. Talvez o amor seja justamente isso: uma atenção persistente às pequenas inconveniências do outro.

Passei anos acreditando que o amor deveria se parecer com incêndios. Descobri tarde demais que talvez ele se pareça mais com um tapete felpudo ao lado da cama. Uma pequena insurreição contra o frio. Alguém que ouviu uma queixa dita quase distraidamente e decidiu que ela não se repetiria. Talvez o amor seja essa espécie de memória aplicada. "Você sentiu frio aqui." E então alguém muda o mundo, alguns centímetros de cada vez.

Enquanto isso, lembro da minha própria linguagem de amor. Dos abraços, das mãos dadas, das mensagens de carinho. Porque o abraço também é ridiculamente simples. Humanos têm uma tendência fascinante de transformar sentimentos em monumentos quando, na prática, eles sobrevivem através de gestos minúsculos. E do silêncio a que tudo isso se seguiu quando eu fiz.

Sei bem que eu me contradigo. 

Quem já não ama não escreve sobre tapetes comprados por cuidado. Não pensa em mãos dadas. Não se lembra dos modos pelos quais as pessoas tentam proteger umas às outras. Talvez o que tenha acabado não seja o amor, mas a confiança nele. Há uma diferença importante. O amor pode continuar existindo como uma língua esquecida.

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