Não sei como começar a descrever tal desprezo e horror que, nesse momento, tomam posse de mim. Uma ira tamanha que, porventura os deuses, ou Deus mesmo, ou o universo, me dessem poder, já teria eu reduzido essa existência miserável às cinzas. Não há nada mais a ser dito, não há esperança em que se agarrar,
Observo com essa opacidade, essa descrença fundamental na criatura homem. Como pode pouco mais baixo que os anjos terem sido criados? Seres que podem cair ao mais terrível dos precipícios?
Não vivem por outra coisa senão por seus próprios desejos, baixos, torpes, toscos. E tudo quanto existe, gira ao redor desses desejos. Não digo isso como um observador imparcial, mas consciente de que meus atos também são movidos por esses mesmos ímpetos.
Baixos, torpes, toscos.
Que queria Deus aos nos criar assim? Somos tão vazios que só sua misericórdia pode fazer algum sentido nesse ser. Como grandes jarros, mas vazios, prestes a se quebrar, desejosos de serem preenchidos com a mais suja das lamas. Mas ele o que nos dá? Cálice de excelsa nobreza, de tão grande divindade que jamais se derramaria em nada mais. Não são dignos, não, pelo contrário, mas, por alguma razão, por amor, Deus quis que assim fosse. Deus escolheu essas criaturas para que recebessem o Augustíssimo Sacramento.
Mesmo sendo baixos, torpes, toscos.
E ainda assim, quando os observo, quando observo a mim mesmo, percebo que não é apenas a maldade que nos condena. Há algo pior. A pequenez. A mediocridade. O apego feroz às coisas mais insignificantes. O apego às mulheres. Homens que trocariam a eternidade por um aplauso, a verdade por uma conveniência, a amizade por uma vantagem qualquer com uma mulher qualquer. Homens que erguem monumentos para si mesmos e não conseguem sustentar um único olhar honesto diante do espelho pois só querem ver-se ao lado das mulheres. Sempre as mulheres. Mulheres, mulheres, mulheres.
Baixos, torpes, toscos.
Como dizia Santo Agostinho, nosso coração permanece inquieto enquanto não repousa em Deus. E talvez seja justamente essa inquietação que mais me atormenta. Porque a vejo em toda parte. Vejo homens correndo de um lado para outro, acumulando distrações, prazeres, posses, afetos passageiros, opiniões estridentes, como quem tenta tapar com as próprias mãos uma ferida aberta no peito. Sabem que sangram. Sabem que falta algo. Sabem que caminham para a morte. E ainda assim fingem não perceber.
Eu também.
Pois não seria honesto colocar-me acima deles. Se os condeno, condeno-me junto. Se os considero ridículos, é porque reconheço em mim a mesma caricatura. Quantas vezes desejei coisas pequenas? Quantas vezes troquei o que era elevado por aquilo que apenas parecia confortável? Quantas vezes me prostrei diante dos mesmos ídolos que desprezo? Somos iguais.
Baixos, torpes, toscos.
E a morte observa tudo isso em silêncio.
Ela não debate. Não argumenta. Não se ofende. Apenas espera.
Os grandes impérios se tornam poeira. As cidades desaparecem. Os nomes mais ilustres acabam gravados em pedras que ninguém mais visita. Os amores terminam. As paixões esfriam. Os corpos apodrecem, os mesmos corpos que eles desejam com tanto ardor, pobres iludidos. Tudo quanto julgamos sólido escorre por entre os dedos como água.
São João Crisóstomo nos ensinou que a vida presente é semelhante a uma feira que logo se desmonta. Os mercadores recolhem suas tendas. As vozes cessam. As luzes se apagam. E cada um retorna para casa levando consigo apenas aquilo que realmente conquistou.
E o que conquistamos? Olho ao redor e vejo tão pouco.
Baixos, torpes, toscos.
Mas então surge o escândalo.
O verdadeiro escândalo.
Porque se o homem fosse apenas miserável, tudo seria simples. Se fosse apenas corrupto, apenas grotesco, apenas uma máquina destinada ao fracasso, nada haveria para discutir. Bastaria fechar o livro da história e aceitar a sentença. E como eu gostaria de lançar todos eles, todos que só vivem pelas mulheres, para o nada!
Mas Deus não age assim.
Ele insiste.
Insiste em chamar santos aqueles que ainda rastejam. Insiste em oferecer a glória aos que mal conseguem erguer os olhos do chão. Insiste em derramar sua graça sobre criaturas que continuamente a rejeitam. Como nos ensinou Santo Efrém, Deus corre atrás do homem com a mesma persistência com que um pai procura o filho perdido na noite.
E isso me desconcerta mais do que toda a maldade do mundo.
Compreendo a condenação.
Compreendo a ira.
O que não compreendo é a misericórdia.
Como pode amar aquilo que é tão baixo, tão torpe, tão tosco?
E, no entanto, ama.
Ama até o sangue.
Ama até permanecer escondido sob as espécies humildes do pão, esperando pacientemente por aqueles que tantas vezes o ignoram.
Talvez seja por isso que ainda exista esperança.
Não porque o homem seja bom. Não o é.
Não porque o mundo esteja melhorando. Não está.
Não porque haja qualquer mérito em nós. Não há.
Mas porque Deus continua sendo Deus, mesmo quando permanecemos baixos, torpes, toscos. E porque sua misericórdia parece ser infinitamente mais obstinada do que nossa capacidade de nos perder.

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