sábado, 13 de junho de 2026

Depois de Quatrocentos Invernos

Não quero ver nada do dia de hoje. Quero dormir e acordar só quando todos estiverem dormindo, e assistir minhas séries quieto e em silêncio. Não quero nem vou responder mensagens. Só quero bolo e chá quente. Vou me entupir de tudo que achar pela frente e que faça dormir. Não quero. Não quero. Mas, ainda assim, de algum modo o mundo entra por uma pequena fresta da janela, trazendo luz e aquela brisa salgada do mar. 

Difícil descrever a força daquele momento, passado e presente se unindo por um mesmo fio inquebrável, um sentimento capaz de atravessar gerações. 

O brilho de antes encontra a brisa de agora. A dor do medo e da rejeição dá lugar ao que há muito fora escondido, e que precisou atravessar tanto para enfim ver o sol. Aqueles dois estavam ali, finalmente juntos, na delicadeza de um toque de mãos e de um beijo tímido. 

E eu assisto isso num misto profundo de confusão. Porque o amor deles é lindo. E ver isso faz com que as contradições dentro de mim rasguem brutalmente cada fibra do meu coração, derramando o amor e a rejeição que eu mesmo vivi.

Transcorridos muitos séculos desde a concepção daquele amor, finalmente se deram a conhecer aqueles corpos. Altivo, marmóreo, ainda mais belo que o torso arcaico de Apolo, ou talvez aquele belo rosto seja a figura finalmente revelada daquele deus. O outro, delicado como uma fada, enquanto seu amante delicadamente sentia o perfume mais nobre que o das rosas ao se aproximar de sua pele. Cada pequeno gemido ou arfar da respiração é uma declaração perdida nas areias do tempo.

Seu amor esperou. Esperou. Quatrocentos anos. Lágrimas, traições, o vazio de tantos séculos, mas enfim prosperou, num sorriso amigo e um abraço apertado. Talvez seja isso o que mais me fere: eu não invejo apenas o amor deles. Invejo a certeza. A possibilidade de olhar para alguém e não hesitar diante do próprio sentimento. Invejo a coragem tranquila de estender a mão e encontrá-la acolhida pela mão do outro. Não os quatrocentos anos de espera, nem as tragédias atravessadas, mas a convicção silenciosa de que esperar ainda fazia sentido. 

E por isso o meu coração protesta: enquanto eu grito já não crer no amor, é como se a força inconteste do tempo me dissesse que sim, ele existe. 

É como tentar gritar mais alto que as ondas do mar. E por isso eu me calo, e coloco meus braços ao meu redor, me abraçando, porque dói, dói tanto que eu não consigo conter minhas lágrimas, que se derramam por meu rosto e se unem àquelas águas ancestrais. Estou na praia sozinho. Não há braços ao meu redor, não há amor que ultrapassou gerações, nem o perfume da pele apaixonada, apenas o cheiro da maresia. Mas o mar não me escuta. Continua a bradar em nome desse amor. 

A tela escurece e os créditos sobem, indiferentes ao tumulto que deixaram para trás. Alguém desliga as câmeras, desmonta cenários, volta para casa. Mas aquilo que despertaram permanece sentado ao meu lado. Descubro, com uma irritação quase infantil, que a ficção tem o péssimo hábito de continuar vivendo dentro de nós depois que termina. Carregamos seus fantasmas para a cozinha, para a cama desarrumada, para o primeiro gole de chá já morno.

E eu já não sei mais em que acreditar.

Ainda assim, permaneço diante do mar. Talvez porque uma parte de mim deseje estar errada. Talvez porque, apesar de tudo o que perdi e de tudo o que nego em voz alta, exista um silêncio antigo dentro do peito que ainda escuta as ondas como quem espera ouvir o próprio nome.

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