Quantos sentimentos brutalmente conflitantes podem caber num relacionamento? Ou melhor, como podemos chamar um relacionamento tão repleto de dores, conflitos, encontros e desencontros?
Há amores que cabem em palavras simples: afeto, desejo, companhia. Outros exigem vocabulários inteiros e, ainda assim, permanecem indecifráveis. Talvez porque alguns sentimentos nasçam já contaminados pela perda. Talvez porque amar alguém seja, às vezes, aprender a reconhecer o rosto da ternura e da ruína refletidos no mesmo espelho.
Que as relações humanas, principalmente aquelas que carregam uma força afetiva considerável, são demasiado complexas, bem, isso já é ponto pacífico. Mas qual o limite do suportável para amar mesmo quando o amor causa tanta dor que praticamente reduz os amantes a fantasmas, sem vida própria senão a de ficarem perseguindo o objeto de seu amor?
Em que momento a devoção deixa de ser cuidado e passa a ser fome? Em que instante o desejo de permanecer ao lado do outro se converte em obsessão pela sua presença, como se o simples fato de existir longe fosse uma afronta insuportável? Talvez não haja resposta. Talvez existam apenas pessoas feridas tentando tocar umas às outras com as mãos erradas.
Dois rapazes se apaixonaram na adolescência, e foram felizes naqueles anos que ficaram juntos, inclusive juraram nunca tirar as alianças que usavam discretamente como símbolo do seu amor. Mas o destino os separou de uma forma brutal: a família não aceitou, os esmagou. A sociedade os condenou. E ambos, condenados a manter distância, viveram anos apenas esperando pelo milagre do reencontro.
Imagino aquelas alianças escondidas sob os punhos das camisas, frias contra a pele, pequenas luas metálicas testemunhando promessas que ninguém mais podia ouvir. Enquanto o mundo exigia silêncio, elas continuavam circulando os dedos como quem repete uma oração. Os anos passaram sobre eles como poeira sobre fotografias esquecidas, mas certas promessas envelhecem sem perder o brilho.
Mas este também trouxe consigo maus agouros. Ver novamente a pessoa amada, e logo depois ver tudo desmoronar e a culpa recair no sentimento há anos cultivado. De novo dor, culpa, medo, e ainda assim o sentimento que não diminui. E então veio o pior: o amor que começa a machucar por não saber mais como se mostrar. Tanto sofreu que já não sabia amar sem fazer sofrer
Existe algo profundamente trágico em descobrir que a linguagem do afeto foi corrompida pela própria sobrevivência. Como animais acuados, acostumados a esperar o golpe antes do carinho, eles desaprenderam a delicadeza. O amor permaneceu intacto em sua intensidade, mas mutilado em sua expressão. Ainda pulsava. Apenas já não sabia reconhecer as próprias mãos.
Chegamos ao absurdo dos horrores: o amante que sequestra o amado para torturá-lo com a visão de outros amantes. Os olhares frios, o tratamento sub-humano. Mesmo sabendo que isso era tudo uma imitação provocada pela dor de tantas separações.
E é justamente aqui que o coração se rebela contra qualquer romantização fácil. Há gestos que não podem ser absolvidos pela beleza do sentimento que os originou. O sofrimento explica, mas não redime. Compreender não é o mesmo que perdoar. Ainda assim, a tragédia humana talvez resida nessa capacidade terrível de ferir precisamente aquilo que mais desejamos preservar.
Em verdade, quando o amado sofreu risco, o outro não poupou lágrimas que declaravam seu amor desesperado, sem ver saída. O despertar foi a luz que bastava para reacender uma esperança ainda incompreendida.
Há despertares que não devolvem apenas a consciência, mas a possibilidade de um futuro. O simples abrir dos olhos torna-se milagre suficiente para reorganizar universos inteiros. Depois de tantas tempestades, respirar o mesmo ar já parecia uma forma de graça.
Os dias passaram em silêncio, mas eles não se distanciavam. Dormiam juntos, mas sem sequer dar as mãos.
Entre eles havia um território devastado. Não a ausência do amor, mas os escombros deixados por tudo aquilo que o amor, mal conduzido, havia destruído. E reconstruir exige uma coragem menos espetacular do que morrer pelo outro: exige permanecer. Exige acordar no dia seguinte e escolher, outra vez, não fugir.
A presença era necessária, mas eles já não sabiam mais como amar sem machucar um ao outro e todos ao redor. Mas o que realmente importa, é que o amor ainda permanecia, mesmo depois de tantos desencontros.
Talvez essa seja a pergunta que permanece ecoando depois que a história termina: o que fazemos com os amores que sobrevivem a tudo, inclusive às suas piores versões? Não sei se existe beleza nisso ou apenas tristeza. Talvez exista humanidade. Porque alguns sentimentos não terminam quando deveriam; persistem, teimosos e contraditórios, pedindo que aprendamos, tarde demais, a distinguir entrega de destruição. E talvez amar também seja isso: reconhecer que a permanência, sozinha, nunca bastará.

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