Be my green tea in the morning,
Be my sugar honey.
You're just so great, I wonder, girl,
I wonder why you love me.
It's so lovely, can't complain.
One day I'll give you my name,
If you're down...
(Dane Amar)
Lembro que, quando mais novo, sempre detestei a palavra "chá", porque só conseguia pensar no chá de gengibre que tomava sempre que ficava resfriado. E, no clima seco de Brasília, em que a mucosa sempre ficava ressecada, isso acontecia muito, e eu detestava porque sempre descia queimando.
Depois de mais velho, recentemente mesmo, comecei a gostar de alguns chás em específico, como erva-doce e camomila porque, nas constantes crises alérgicas, eles acabam se tornando um momento quentinho, e me acalmam, já que sempre fico muito irritado nesses dias. Quando tomo junto com algum remédio pra dor, inclusive me ajudam a suportar o suficiente para continuar trabalhando, por exemplo, já que minhas crises são bem fortes e, mesmo depois de muitos anos de tratamento, não raras vezes eu preciso ir ao hospital.
Não pensava que chegaria uma época em que faria tanta questão de chás assim. Hoje tomo quase todos os dias, e nem sei bem como as coisas ficaram assim, mas eles se tornaram a minha paixão. Nunca imaginei que um hábito pudesse mudar tão silenciosamente uma rotina. Não houve um dia específico em que eu decidi gostar de chá. Foi acontecendo enquanto outras coisas deixavam de fazer sentido. Quando percebi, aqueles poucos minutos esperando a água ferver já tinham se tornado parte do cuidado que eu precisava ter comigo. Ver a água mudar de cor, os aromas tomando conta de um pequeno espaço perto de mim, o calor da caneca em minhas mãos... Comecei com os chás em saquinho, claro, antes de conhecer alguns mais elaborados e, com isso, ir criando esses momentos especiais. Hoje eles fazem parte da minha vida, em todos os horários, e possuem um significado importante pra mim.
Como, na mesma época, comecei a tomar mais café no trabalho, especialmente no inverno, pra garantir um pouquinho mais de energia, logo uma amiga me falou do Chá-preto e Chá-verde e, pra começo de conversa, aprendi a diferença de escrever com ou sem hífen. Ambas as formas referem-se à mesma infusão feita com as folhas da Camellia sinensis. A variação ocorre unicamente por razões ortográficas e gramaticais na língua portuguesa. Escrito separadamente, trata-se de um substantivo (chá) acompanhado de um adjetivo (preto) que indica a sua cor ou tipo. É a forma ortográfica mais comum e natural no dia a dia. Chá-preto (com hífen), transforma as duas palavras em um substantivo composto, que designa especificamente o nome de uma variedade de planta e de bebida. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) registra esta versão para oficializar a designação técnica da erva.
Talvez eu tenha gostado justamente disso. Descobrir que até uma bebida tão comum escondia pequenas histórias, regras, tradições e geografias inteiras. Cada xícara parecia abrir uma porta para algum lugar distante. Uma série recente, A Winter Sun Wakes the Wind in Spring Hills' Dream, me mostrou a beleza da preparação dessa tradição, do plantio até sua preparação.
Voltando ao chá, passei então a variar... Um dia, ou num determinado momento, tomava uma das variações de café da máquina do trabalho, outro dia tomava chá... Aprendi a ir preparando mais forte ou mais suave e, principalmente, a ir apreciando o sabor, o aroma... Também tive outras lições, como quando preparei um chá verde forte demais e acabei com uma baita crise de ansiedade. Se tratava da erva pura, vinda diretamente da China, presente de uma amiga, e eu não sabia que seria tão forte, já que estava habituado às versões dos mercados daqui. E foi aí que eu comecei a buscar mais conhecimento, e produtos, de locais especializados. Foi curioso perceber que até o excesso podia ensinar alguma coisa. Passei a entender que chá não era apenas uma bebida quente. Existia uma delicadeza na preparação, um ritmo próprio que eu ainda precisava aprender. Alguns acabaram ficando ligados a determinadas noites, músicas e estações do ano, como se cada aroma soubesse exatamente quando deveria aparecer.
Um blend que me conquistou desde o primeiro momento foi o Xmas Eve. Chá misto de chá preto, cenoura, uva e rosa mosqueta. Ainda hoje um dos meus favoritos. Ele é puro aconchego porque combina a doçura da baunilha com o toque delicado das nozes, criando uma bebida envolvente e cheia de personalidade. A cenoura e a rosa mosqueta complementam a mistura, deixando-a com uma textura aveludada e um aroma irresistivelmente docinho. É aquele chá perfeito para momentos especiais. Cada gole traz uma sensação acolhedora, como um encontro com amigos em uma tarde fria ou um instante de paz no meio do dia. A cenoura e a rosa mosqueta dão corpo, enquanto a baunilha e as nozes garantem um sabor doce e delicado. Gosto dele sempre à noite, vendo alguma série, e fico com a caneca fumegante nas mãos mãos sentindo o aroma, como se me abraçasse, tornando aquele momento, o MEU momento. Percebi então que não era exatamente o sabor que eu guardava na memória. Era a atmosfera inteira. A caneca quente, a luz mais baixa, a série começando, o inverno lá fora. O chá acabava se tornando uma espécie de moldura para pequenas felicidades.
A experiência do chá verde me conquistou ainda mais quando experimentei uma combinação chamada Strawberry Champagne. Um misto de chá verde, chá branco, jasmim, morango e rosa mosqueta com pimenta-rosa. O doce do morango, combinado à rosa mosqueta e à pimenta-rosa, completam a textura aveludada deste chá perfeito para ser degustado nas melhores companhias. Esse é meu coringa quando preciso de uma boa dose de disposição, ao começar uma noite de maratona, por exemplo. O aroma dele é simplesmente hipnotizante, e tem o poder de me trazer de volta ao momento. É como um convite para experimentar o agora! Engraçado como alguns aromas parecem reorganizar o tempo. Existem dias em que bastam alguns segundos respirando o vapor para lembrar que nem toda noite precisa ser vencida correndo.
Depois disso vieram os chás que pareciam carregar séculos dentro das próprias folhas. Não eram apenas bebidas; Eu conheci o Puerh, uma das variações mais exclusivas desse mundo. O tão pouco conhecido chá puerh traz consigo uma grande história. Há aproximadamente 2.000 anos, de geração em geração, os agricultores da província chinesa de Yunnan (sudoeste da China) guardam zelosamente o segredo de seu cultivo, e ele só pode ser chamado de puerh se vier especificamente desta região, onde é cuidadosamente produzido. O simples ato de bebê-lo traz uma verdadeira harmonia, ao reunir as pessoas para um chá da tarde, além de transmitir paz interior. Duas combinações dele que me agradaram foram o Bourbon Vanilla e o Belgian Caramel.
O Bourbon Vanilla é um chá precioso e sem dúvida nenhuma uma obra de arte. Seu aroma de baunilha com sabor levemente adocicado, torna-o a melhor experiência com a tradição do chá puerh. É a definição perfeita de nobreza e tradição. Já o Belgian Caramel traz um aroma ligeiramente caramelizado combinado com a ameixa, trazendo aquela sensação de estar comendo biscoitos em pleno inverno. Esses eu gosto de tomar enquanto escuto música, de preferência num ambiente com pouca luz. Essa combinação, essa atmosfera consegue me fazer esquecer por alguns momentos, seja o barulho lá de fora ou o daqui de dentro, e apenas sentir. Talvez seja justamente isso que procuro quando escrevo também. Não explicar tudo, mas construir uma atmosfera onde alguém possa permanecer por alguns minutos. Sentir os sons, o calor tomando conta, parece um mundo diferente.
Um chá que eu desconhecia era o Rooibos e, quando experimentei, com a indicação de que era bom tomar antes de dormir, como parte de algum ritual, eu me apaixonei de imediato. O Aspalathus Linearis ou Rooibos, como é conhecido, é uma espécie de arbusto nativo de uma região na África do Sul, e por conta de sua oxidação, o resultado é mais adocicado. A versão que eu tomo contém com rooibos, groselha, abacaxi, mamão, morango e framboesa com aroma de limão e folhas de rosas. A combinação de frutas e flores nesse blend proporciona uma experiência levemente adocicada e aconchegante. Com um aroma e sabor levemente cítrico adocicado que harmoniza com a alegre composição de frutas e flores, prometendo uma experiência marcante e aconchegante para um fim de tarde. Foi quando percebi que eu já não organizava apenas a estante pelos sabores. Começava a organizar os dias. Alguns pediam energia, outros silêncio, outros apenas uma companhia discreta enquanto o mundo seguia fazendo barulho.
Com isso eu fiquei mais próximo das infusões, misturando chás, frutas, flores... Como o Berlin, um blend que combina frutas, como maçã, abacaxi, e hibisco, criando uma infusão vibrante, aromática e naturalmente adocicada, ideal para qualquer momento do dia. As bebidas mais suaves me conquistaram também. De sabor suave e marcante e um aroma que prende a atenção, o Toronto Nights se tornou o meu queridinho do chá branco. O sabor invernal combina perfeitamente com a suavidade da rosa mosqueta e o aroma cítrico da laranja e do capim-limão, se tornando a escolha ideal para aquecer os dias mais frios.
O segundo blend de chá branco foi um mais complexo:chá branco, papaia, maçã, amora e jasmim com aroma de melão, framboesa, baunilha, ameixa e flores de calêndula. A experiência sensorial é única.
Hoje percebo que quase todos os meus blends favoritos têm alguma lembrança presa a eles. Nenhum ganhou espaço apenas pelo sabor. Todos acabaram encontrando um lugar numa estação do ano, numa música, numa conversa ou num daqueles dias em que simplesmente era preciso existir um pouco mais devagar.

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