quarta-feira, 17 de junho de 2026

Refúgio entre folhas de chá

Um lugar distante. Uma bela cadeia de montanhas em alguma região da China. Não importa onde.  Na verdade, é ainda melhor. Nem mesmo eu sei onde estou, talvez não me encontrem também. 

Fiquei enjoado algumas vezes no caminho, especialmente nas estradas de curvas perigosamente sinuosas. Me peguei pensando do motivo de não conseguirem fazer estradas retas, e imagino que, se a única opção foram as curvas mortais, bem, deve ser um bom motivo. Mas, aos poucos, a paisagem foi calando até meu pensamento, Conforme fui abrindo as janelas e não mais sentindo o nariz arder pela poeira, mas sentindo um cheiro novo, que ainda não reconhecia, fui me deixando levar. Não parecia ter chovido mas ainda assim as montanhas estavam cobertas de uma vegetação densa e de incontáveis tons de verde de um sem número de plantas que eu jamais saberia o nome, mas uma coisa ela ostentava em uníssono: o seu brilho. É como se eu, de repente, entrasse numa caverna onde cada centímetro das paredes e do chão estão incrustados de jades brilhantes. Fiquei sem conseguir dizer nada no primeiro dia e noite aqui, e meu anfitrião pode ter pensado que eu sou um tanto arrogante, ou obtuso, ou ainda os dois. 

Precisava absorver.

A casa tinha 3 andares, e combinava madeira e alvenaria, em tijolos cor de terracota aparentes. Até os móveis eram de madeira, alguns rústicos, como um tronco cortado ao meio e usado como aparador, e outros mais elaborados. E tudo ainda tinha aquele cheiro, que eu ainda não entendia direito, e que agora se misturava com o da comida sendo preparada lá embaixo.

Claro, não preciso dizer que vim fugir, me esconder. Tentar cortar relações com qualquer coisa além daquelas montanhas.  Mas não deu certo. Porque as cicatrizes, o que dói, o que ainda está aberto, tudo isso veio comigo.

Há uma comunidade produtora de chá aqui, e finalmente pude ver como é, da colheita até a torra. Que experiência deliciosa, o aroma das folhas aquecidas preenchendo o ar de perfume. Provei um Puerh maduro único, certamente vendido a preço de ouro. Vale cada centavo. O fogo era aceso por trás de grandes estruturas de barro com um grande tacho encaixado. Não era uma grande fogueira, cada uma delas tinha alguns galhos mais ou menos finos de lenha, de modo que as pessoas ainda conseguiam mexer nos tachos usando luvas mas sem se incomodar demasiado com o calor. 

Não é como se aquele lugar estivesse parado ou separado do tempo. Não, mas tudo seguia um ritmo, não exatamente lento, mas que fazia sentido! As folhas precisam de tempo, a colheita em cada fase produz um chá de sabor diferente. Nos primeiros dias, quando me mostraram, com vários copinhos na minha frente, eu não entendi direito. Claro, percebi que alguns eram mais ácidos e outros de sabor tão suave que eu nem sentia. Algumas folhas esperavam mais tempo, outras eram colhidas e torradas imediatamente, o ritmo da torra precisa ser constante, nem rápido demais e nem lento demais, ou cansaria sem necessidade ou acabaria queimando e passando do ponto ideal. Eles sabiam reconhecer isso pelo aroma e pela textura das folhas passando entre os dedos.

Percebi o quanto essas pessoas vivem ao redor desse cultivo. Mas lembrei do cheiro mofado de um quarto sujo. Ao mexerem nas folhas durante a torra, elas liberam o aroma do chá, ao revirar o que há em mim exala-se apenas o odor putrefato de um corpo deixado para se desfazer.

Ando caminhando por aí, observando longos aglomerados de bambu. Durante a noite as pessoas catavam larvas que vivem no interior dos bambus e as fritam. Me pareceu estranho mas o sabor era ótimo. Cogumelos crescendo ao redor das árvores, os quais ficam uma delícia fritos ou cozidos em sopa. O lugar parece saído de um conto de fadas, ou eu é que nunca saí o bastante pra conhecer outros mundos assim. Parei numa ponte de madeira outro dia, observando um penhasco verde lá embaixo. O trabalho da ponte deveria ser considerado obra de artista. Ligava a área do cultivo a uma parte mais selvagem do lugar, onde caçam ou coletavam coisas (como as larvas nos bambus). Claro que fiquei um bom tempo ali, com um pouco de medo da altura, mas impressionado com aquele oceano verde na minha frente em diversos formatos e em composição com o céu de um azul límpido, claro, e a brisa que, mais uma vez, me fazia carinho. 

Em nada, absolutamente nada, isso lembrava a cidade caótica, onde as pessoas vêm e vão o tempo todo, trombando umas nas outras, mas sem nunca perceber quem são as que estão ao seu lado. Claro que eu poderia me perder aqui, mas quem disse que por saber andar na cidade eu estou menos perdido? Quantas vezes eu andei por aí, ouvindo aquela correria, o barulho dos carros, crianças passando, adolescentes fazendo bagunça, e eu sem conseguir falar com ninguém? Ou quando saia com amigos, mesa cheia, risadas, comentários, e eu ainda me sentindo sozinho, mesmo quando falava? Ainda me sentia perdido. Olhava ao redor e sabia que aquelas pessoas, no outro dia, ou na próxima semana, sairiam sem mim, se cansariam, ou trocariam mensagens, enquanto eu ficava só em pequenas respostas educadas, protocolares. Isso não é estar, ainda mais, perdido?

Durante a época da colheita do chá, a pequenina aldeia não dorme. Todos se revezam entre colher, separar, torrar e enrolar o chá. Um rapaz bonito e moreno mexia com naturalidade, enquanto algumas poucas gotas de suor surgiam nos seus braços. Me ofereci para ajudar e ele me ensinou a mexer, usando uma luva grossa e sentindo o perfume subir, enquanto eu mesmo revirava as folhas. O sol quente junto com a umidade de toda essa mata ao redor gruda na pele, destrói qualquer sinal de perfume e substitui pelo próprio cheiro. Mas a brisa que constantemente dança com o perfume do chá e o frescor da mata é recompensa generosa. 

É algo a sonhar. Porque na realidade, de volta ao meu quarto, o sol queima de forma ingrata. Acordo com um calor parado, como se eu tivesse esquecido de respirar. O lençol úmido do meu suor, e eu penso se terei coragem de lavar ainda hoje, Mesmo com a cortina fechada, a luz do sol ainda teima em passar pelas laterais. Não tenho dinheiro para comprar cortinas maiores. Nem para pintar as paredes que, com a umidade e o calor exalam um cheiro forte de mofo, de algo esquecido há muito tempo ali, e eu não sei se o quarto foi esquecido ou eu mesmo. O cheiro incomoda meu nariz, acho que vou começar a espirrar de novo.

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