Sei que tentei enfeitar demais. Como se as palavras pudessem pintar com belas cores, as dores daqueles cem amores, que eu via partir sem mim. Na verdade me sentia sozinho, sim, sem enfeites, sozinho. E via as fotos das pessoas sorrindo juntas, e então lembrava do meu corpo pesado demais pra se mover, uma semana inteira deitado, carne ferida, deprimido demais para me mexer. E sabia que a culpa não era exatamente a palavra certa aqui.
Isso porque há aquele primeiro ímpeto: o de jogar a culpa no outro. O outro me deixou, me abandonou, me esqueceu. Mas, na verdade, não foi bem assim. Eu escolhi não ir, mesmo se não estivesse em meio a um episódio depressivo não iria. Então não teve culpado aqui, apenas uma confluência de eventos. Fui à missa e depois voltei pra casa, com uma chuva gelada em mim enquanto observava as casas com luzes apagadas, as pessoas aqui dormem cedo, trabalham cedo. Sem enfeites: eu estava sozinho.
As luzes apagam uma após a outra.
Os despertadores tocarão antes do amanhecer.
Há uma disciplina silenciosa nas casas vizinhas.
Enquanto isso, continuo acordado.
Meu corpo desconhece os horários do mundo.
Eu media a madrugada em comprimidos e insônia.
Também voltei à psiquiatra, mas ajustes de medicação sempre demoram. Tenho tentado não sentir culpa com isso também. Li em alguma rede social que, se algum atleta machuca o joelho, ninguém questiona o longo período de recuperação que ele tem até voltar, isso se voltar a ser como antes. Mas, em se tratando da saúde mental, é esperado que alguns dias sejam suficiente. Mas olhe só, fiquei quatro meses afastado, depois me demiti, e isso já faz um ano.
Quatro meses é tempo suficiente para as estações mudarem de roupa.
Quatro meses não foram suficientes para que eu aprendesse a habitar meu próprio corpo novamente.
As pessoas dizem "um ano" com a mesma facilidade com que dizem "bom dia".
Um ano.
Doze meses.
Cinquenta e duas semanas.
Trezentas e sessenta e cinco manhãs tentando descobrir qual versão de mim acordaria naquele dia.
Mas eu não voltei ao normal. Me chamaram para ajudar na abertura de uma exposição, e isso provavelmente me renderia um emprego: não consegui sair da cama por dias. Sem enfeites: eu não saí da cama.
Não sei se voltarei a ser como antes. Até porque foi o antes que me deixou como estou agora. Foi o fluxo exagerado de trabalho que não era meu, tudo que aceitei sem precisar, cobrindo a função de várias pessoas ao invés de só dizer que não podia fazer isso. Se antes eu não conseguia negar por medo, agora nego por falta de saúde. Sem enfeites: tive medo.
Foi o antes que me trouxe até aqui.
Mas foi o normal que me adoeceu.
Talvez seja deserção.
Não quero voltar a ser amado apenas pela minha utilidade.
Não quero voltar a chamar de força aquilo que era abandono de mim mesmo.
Então talvez não tenha um antes para voltar, mas algo a ser construído a partir daquilo que ficou. Como canta Oswaldo Montenegro "onde você ainda se reconhece, na foto passada ou no espelho de agora?" Durante muito tempo procurei a resposta. Hoje suspeito que ela habite justamente o intervalo entre os dois. Nem a fotografia de quem eu fui. Nem o espelho de quem me tornei. Mas a mão trêmula que tenta aproximá-los sem saber qual deles deve sobreviver.
Então as coisas estão assim. Não me aproximo muito do outro, porque acabo me isolando, quando tento, preciso enfrentar um monte de coisa dentro de mim antes de falar a primeira palavra... E vejo-o sorrindo, sorrindo, e queria sorrir com ele... Sair da cama e sorrir um pouco.
Abrir a janela.
Fazer café.
Responder uma mensagem sem ensaiá-la por horas.
Caminhar até a Missa sem sentir que atravesso um deserto.
Sorrir um pouco.
Só isso.
Há épocas da vida em que sobreviver deixa de ser uma abstração heroica e passa a significar tarefas humildes.
Trocar os lençóis.
Permanecer.
Talvez porque a beleza seja uma forma de pedir desculpas pela própria tristeza.
Mas a verdade é mais simples.
Tenho medo.
Estou cansado.
Talvez nunca volte.
Não para provar a força que não tenho.
Não para transformar dor em lição.
E, por enquanto, isso precisa bastar.
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