Eu estava presente, estava mesmo. Não foi como antes, como tantas vezes, em que as vozes soavam distantes, como se eu não participasse. Eu participei, e fiquei bem com isso.
Sentei de frente a ele, e ele sorriu durante a conversa, durante as brincadeiras. Foi ótimo. Foi mesmo.
Mas sim, eu senti que ele não olhava pra mim do mesmo jeito. Os olhos brilhavam por causa da conversa, não por mim.
Mas alguma coisa mudou, porque isso não doeu como sempre. Não, eu só fiquei ali, sentado, sorrindo, mas sem me machucar. Acho que comecei a aceitar que, mesmo quando pessoas caminham juntas, podem olhar para lugares diferentes.
Observei ele subir e desaparecer na floresta, ouvia seu riso junto o farfalhar dos seus pés. Sorri ao vê-lo contente, mesmo sem saber para onde ele iria. O céu, de um azul vivo, estava brilhante por entre as copas das longas árvores, não ventava, era tudo silêncio, o único som era o da minha respiração e o daquele garoto correndo, e até esse foi sumindo.
Tentei segui-lo de algum modo, e ele sorriu e acenou de uma clareira, mas não consegui ver muito, a luz do céu azul ali brilhava com tanta intensidade que o envolvia num halo branco cristalino e ofuscante, certamente algo de divino, e me lembrei que ele disse algo sobre encontrar uma flor mágica naquelas montanhas. E então ele se virou mais uma vez e sumiu por entre as luzes, árvores e folhas no chão.
Não tornei a vê-lo e tampouco me lembro como voltei ao acampamento em que estávamos. Por dois dias procuramos por ele, ou melhor, os aldeões procuraram. Tudo que encontraram foi o seu tênis, branco, perto das tais flores. O homem que o achou não conseguiu descrever o que viu, apenas disse que aquele jovem havia retornando para a montanha.
