Os últimos dias na cama estão fragmentados na minha cabeça. Uma névoa densa ao meu redor, onde eu me refugio. Porque fora dali, para além da névoa, há a civilização, com todo seu barulho. É como uma longa peça dodecafónica que ninguém, em sã consciência, se disporia a ouvir. Não. Não é como se eu estivesse no meio da civilização. Depois do meu quarto tem apenas mais algumas paredes, poucos metros entre uma fina camada de madeira e mais barulho. E nem quero saber o que tem lá fora.
Percebi, ao sentar na frente da TV para assistir, como num clique, que eu me fascino tanto com as histórias que vejo porque, na verdade, elas mostram pessoas e suas vidas, e vidas essas que não estão confinadas dentro de um quarto de 4m².
Essas pessoas estão vivas.
conhecem novas pessoas,
se apaixonam,
acabam ficando juntas
e tantas outras coisas.
Ri,
sorri.
E depois voltei pra dentro da minha névoa.
Dois.
Três talvez.
O tempo havia perdido a métrica.
E eu ainda estava lá.
E a névoa parecia cada vez mais pesada.
Mesmo assim, cada vez que saí, o barulho me acertou como uma gigantesca massa sonora.
TROMBETAS.
METAIS.
PERCUSSÃO.
Tudo ao mesmo tempo, sem piedade, como se todas as trombetas do Apocalipse tivessem descido sobre a cidade e um maestro raivoso, enlouquecido em seu próprio dia de ira, regesse aquela Sinfonia Trágica.
A família estava reunida, mas eu não quis ver ninguém. Fiquei deitado, imóvel, escondido embaixo das cobertas como se elas fossem as paredes de uma fortaleza.
E então, uma vez na cama, envolto por pesadas cobertas no dia mais frio do inverno, lá vem a névoa de novo, lentamente fechando meus olhos.
E o som vai sumindo,
como um clarinete cada vez mais distante.
Lentamente...
Cada vez mais longe...

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