quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Uma tarde qualquer

Sabe quando sente que algo se perdeu, e que já não pode mais ser recuperado? Algo como aquele tempo passado, quando o corpo ainda não tinha as marcas de agora. Mas não refiro só a isso, não é um saudosismo, nem arrependimento por algo que poderia ter feito, ou que poderia ter sido. É um pouco diferente, é um buraco deixado por algo que há tanto tempo me acompanhou que eu nem sequer sei mais o seu nome: ocupava tanto espaço dentro de mim que eu pensava que se tratava de mim mesmo, e nunca cheguei a pensar que poderia perder.

Mas se perdeu. Não sei dizer bem ao certo quanto, talvez um pouco por vez, como água vazando de um barril por um buraco num cantinho que ninguém, até que esteja vazio. 

Essa perda se torna mais sensível em dias como hoje. Ontem eu precisava ficar quieto e sozinho, por isso dormi o dia inteiro, e cancelei o que tinha pra hoje. Mas hoje acordei diferente, talvez o descanso tenha sido suficiente, e então quando me deitei, sem sono, e olhei para a janela com o sol brilhando nesse dia fresco de início da primavera, peguei um livro e, logo nas primeiras páginas, eu senti de novo. Porque as palavras caíram tão fundo, como num desfiladeiro, e se perderam como um grito distante, e não as ouvi chegar ao chão. Talvez continuem caído pra sempre, porque o vazio parece não ter fim. 

E então, mesmo sozinho, penso que poderia... Fazer algo que os homens fazem sozinhos. Mas não tinha vontade, quando elaborei essa ideia, é como se ela também caísse, sem encontrar o chão. 

Nos últimos dias eu tenho me perguntado em que página os outros estão. Não na mesma que eu, isso é certo. 

No que eles estão pensando?

Ontem me vi completamente sozinho, sem ninguém para falar. Olhei nos meus contatos e vi que não podia conversar sobre isso com nenhum deles. Hoje é dia de festa na paróquia, não quis ir, não quero ver as pessoas de lá. Algo meio José Régio "se ao que busco saber nenhum de vós me responde..." Mas é uma constatação dura, a da solidão. E Clarice tinha razão quando disse, naquela entrevista, que o adulto é triste e solitário.

É uma tarde qualquer. Nenhuma mensagem. Absolutamente sozinho.