I. Prelúdio: Allegro del cammino
Era uma viagem longa.
Já estávamos na estrada havia muitos meses.
A mãe ligava quase todos os dias.
Dizia sentir saudades.
A avó telefonava também.
Quase nunca para conversar.
Gostava apenas de mostrar o pôr do sol.
Como se dissesse:
"Veja. Hoje ele também aconteceu daqui."
Em cada pequena aldeia,
escondida entre longas faixas de mata fechada,
descobríamos uma maneira diferente de cultivar a terra.
Pareciam lugares onde o tempo,
em vez de passar,
aprendia apenas a respirar devagar.
Tudo permanecia.
E, no entanto,
tudo crescia
como crescem as folhas do chá.
Havia aldeias em que nem mesmo os cães latiam para os estrangeiros.
Era como se esperassem alguém que ainda não chegara.
Ou alguém que jamais partiria.
A próxima parada seria a Grande Montanha Nevada.
II. Scherzo da montanha
Falava dela
como quem apresenta um velho amigo.
Ou melhor,
como quem conduz alguém,
pela primeira vez,
até uma obra-prima.
Contou que o chá daquela montanha
era mais limpo, mais encorpado
que o que bebíamos naquela hora.
O da semana anterior,
disse sorrindo,
era elegante.
Este...
marchava como um velho general.
Depois riu.
Gostava de comparar pessoas
com diferentes chás.
Seu irmão,
dizia,
possuía um aroma floral, sedutor
O aroma permanecia nas mãos,
mesmo depois da xícara vazia e,
mesmo assim, alguns aromas só se revelam
quando a água esfria.
Era estranho.
E bonito.
Nunca falava de si.
Há pessoas que se escondem atrás das palavras.
Outras, das lembranças.
Ele se escondia atrás daquilo que admirava.
Talvez seja essa a forma mais delicada de confissão.
Falava da montanha.
Das flores.
Do vento.
Do chá.
Só muito tempo depois compreendi
que era sempre dele
que falava.
Às vezes me pergunto
se os homens inventaram o chá
para beber o tempo ou se foi o tempo
que inventou o chá para aprender
a permanecer.
Enquanto subíamos,
voltou a mencionar uma flor.
Chamava-a de flor mágica.
Não porque tivesse qualquer poder.
Mas porque nunca conseguia lembrar seu verdadeiro nome.
Disse que a encontrara,
anos antes,
escondida nas partes mais profundas da montanha.
Enquanto falava,
uma pétala desprendeu-se de algum lugar.
Nenhum de nós olhou para cima.
Sorria enquanto contava.
Queria que também a víssemos.
Havia qualquer coisa naquela lembrança
que parecia lavar,
sem esforço algum,
a poeira acumulada no coração.
A certa altura
deixei de saber se seguíamos a trilha
ou se era a trilha que nos conduzia.
As árvores pareciam antigas demais
para serem apenas árvores.
Havia nelas uma paciência mineral.
III. Intermezzo da flor azul
Depois falou da morte.
Não como quem teme.
Nem como quem deseja.
Falou dela
como se descrevesse uma estação do ano.
Disse que havia uma espécie de limpeza
no retorno de todas as coisas à terra.
A terra jamais desperdiça um corpo.
O húmus conhece uma canção
que os homens ainda chamam de silêncio.
Que talvez a vida
só pudesse ser compreendida
quando deixava de pertencer inteiramente
a nós.
Continuou caminhando.
Como se ainda respondesse
a uma conversa iniciada dias antes.
Ninguém entendeu.
Talvez porque falasse conosco.
Talvez porque falasse apenas consigo.
Conhecia cada trilha.
Cada curva.
Cada pedra.
Sabia exatamente onde pisaria,
embora tudo nos parecesse igual.
Mas não era.
Ninguém se perde
dentro da própria casa.
Às vezes corria como uma criança.
Apontava um desnível da montanha.
Dizia que, por um lado,
estavam as plantações.
Do outro,
o mundo inteiro.
Existem lugares que primeiro nos recebem.
Depois nos reconhecem.
Foi então que me perguntei,
não quando ele conheceu aquele lugar,
mas quando aquele lugar
passou a conhecê-lo.
Quando a floresta começou,
silenciosamente,
a morar dentro dele.
Sob cada folha havia um universo trabalhando.
Fungos.
Insetos.
A lenta liturgia da decomposição.
A montanha parecia compreender,
muito antes de nós,
que toda despedida
é também um alimento.
Numa noite,
recebeu uma notícia.
Correu sozinho para o meio das árvores.
Ajoelhou-se.
Nenhuma árvore tentou consolá-lo.
Essa talvez seja a forma mais antiga da misericórdia.
A relva bebeu suas lágrimas.
Chorava porque, ao saber,
que a morte havia levado alguém.
E, levando-o,
arrancara dele
alguma coisa
que jamais voltaria.
No dia seguinte,
o sol dissolveu lentamente
o orvalho das folhas.
Seu rosto já não carregava revolta.
Nem resignação.
Havia apenas
uma paz difícil de explicar.
Como quem atravessara uma longa noite.
Houve uma noite,
e uma manhã.
IV. Adagio da névoa
E ele viu
que ainda era possível
chamar aquilo de mundo.
Mais tarde,
correu por uma trilha
que só ele parecia enxergar.
Uma folha desprendeu-se.
Não sei por que
me lembrei dele.
As árvores eram altas.
Suas copas deixavam cair,
entre um ramo e outro,
fragmentos
do azul mais intenso
que já vi.
Azul como aquelas flores.
As mesmas flores
que ele queria reencontrar.
O terreno descia.
Depois subia abruptamente.
Qualquer homem
negociaria os próprios pulmões
para alcançar
o cume daquela montanha.
Uma névoa espessa começou a cobrir boa parte do lugar.
Não escondia a montanha.
Apenas retirava dela aquilo que ainda julgávamos possuir.
Olhei para cima.
Lá estava ele.
Sorriu.
Acenou.
A luz atravessava a névoa
e fazia dele
quase uma figura de vitral.
Branco.
Azul.
Verde.
As cores deixavam de possuir fronteiras.
Misturavam-se lentamente
como tinta dissolvida na água.
Então
O farfalhar de seus pés cessou.
Foi o primeiro silêncio que fez ruído.
Depois,
o canto dos pássaros.
A névoa tornou-se ainda mais espessa.
Foi então
que ouvi os gritos
daqueles que tinham
medo de perdê-lo
V. Coda: A respiração da floresta
Dias e noites
procuraram por ele.
Perto das raízes
de uma árvore antiga,
cresciam
as flores azuis.
Pareciam iluminar,
por si mesmas,
aquele pedaço escuro da floresta.
Não cresciam ali.
Esperavam.
O vento passava entre os galhos.
Alguma folha seca estalava.
À distância,
quase parecia um chamado.
Os homens continuavam procurando,
continuavam procurando,
mesmo quando já sabiam que procuravam outra coisa.
Dia.
Noite.
Dia.
Noite.
Encontraram apenas
algo.
Não sei dizer o quê.
Ninguém jamais conseguiu.
Houve quem dissesse
que certas coisas
não pertencem às palavras.
O homem que voltou da montanha
falava pouco.
Quando alguém perguntava,
baixava os olhos.
E respondia apenas:
"Ele retornou para a montanha."
Nunca explicou.
Ninguém insistiu.
A névoa subia lentamente entre os pinheiros.
As folhas estremeciam.
A montanha parecia preparar,
em silêncio,
um chá antigo,
feito de vento,
de pedra,
de memória.
Talvez fosse esse
o sabor
de quem retorna
para casa.
Desde então,
sempre que a névoa desce cedo,
há quem pare por um instante
para escutar.
Não porque espere vê-lo voltar.
Mas porque algumas florestas
aprendem o nome daqueles
que um dia
aceitaram o seu chamado.
Durante muito tempo pensei que a montanha o tivesse levado.
Hoje imagino outra possibilidade.
Talvez certas montanhas não chamem ninguém.
Apenas respondam,
quando
alguém,
desde
muito antes,
já lhes pertence.

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