quarta-feira, 3 de junho de 2026

Quarto bagunçado

Me sentei aqui para escrever mas nem sei algo vai sair disso. No exato instante em que abri a tela em branco, a criança começou a chorar, as portas bateram e uma pessoas inquieta se mexendo no cômodo ao lado já me diziam que era uma má ideia. 

Tomei um monte de remédios pra dormir, e foi assim todos os dias dessa semana. Espero que eles façam efeito logo. Tenho vivido pequenos dilemas nessa existência patética. Alguns dias quero dormir mais tarde, ou virar a noite até já que, durante o dia, não tenho paz fora do quarto. Mas mesmo em alguns desses dias eu não tenho disposição, e vou dormir cedo. Foi assim ontem. Então pensei que hoje poderia fazer isso, mas amanhã é Corpus Christi e preciso acordar um pouco mais cedo, e Deus sabe que eu não posso ficar jogando sono fora assim. Além disso será um dia cheio. Missas de manhã e tarde, e ensaio de um grupo de canto que estamos formando, à noite. Melhor deixar as noites de energético para os fins de semana, quando os lançamentos de BL exigem mais horas. Pelo menos temos ótimos lançamentos em andamento.

Aquela disposição de uns dias atrás, de retomar a leitura... Tudo em vão. Olhei pela janela, a vizinha tem uma pequena boutique, e um conjuntinho de calça e sobretudo de sarja verde e listras brancas me chamou atenção. Mas não posso comprar mais nada. Ainda não paguei a taxa do MEI do mês passado e nem as contas básicas, como o iFood. E por isso sentei aqui, esperando um pouco do torpor dos remédios fazer efeito, embora há muito tempo eu já não sinta nada com eles. Durmo duas ou três horas, no máximo, e não mais oito ou dez. E não posso aumentar a dose, é difícil e caro comprar esses remédios aqui. Maldita burocracia!

As mensagens no whatsapp se tornam cada vez mais raras. É, está acontecendo de novo. Ou talvez seja o curso natural das coisas. Deve ser isso, ou não se repetiria tantas e tantas vezes. A faculdade e os primeiros empregos mudam a perspectiva das pessoas quanto às suas prioridades. E eu, mais velho que eles, estou aqui sentando, quarto à meia-luz, olhando uma pilha de roupas que eu deveria guardar, um ventilador empoeirado e caixas de remédio vazias. 

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