Você tem medo do barulho do mar? A brisa do mar faz barulho porque ele não consegue guardar o que quer dizer. Todo mundo tem noites assim. Uma noite em que você guarda tudo sozinho e simplesmente não consegue mais aguentar. Uma noite em que você quer que alguém escute a sua história. Como o mar é é tão grande, profundo, ele guarda muitas histórias. Deve haver um lugar, onde eu possa conversar com o mar. Ouvir as suas histórias e contar histórias que não posso contar a mais ninguém. O som do mar não parece mais tão assustador quando penso assim...
Passei por uma ciclagem violenta de ontem para hoje. O dia cheio de compromissos me fez ficar ansioso, apreensivo, irritado. Perdi a paciência várias vezes. Acordei atrasado. Não escondi a cara de desgosto. Peguei um brinquedo do meu sobrinho e joguei longe. Logo ele. Se eu ainda consigo sentir algo parecido ou próximo daquilo que chamam de amor, é por ele. Esse pequeno sapeca que corre, sorri e chora o dia inteiro e que me faz chorar também, sempre que penso que ele pode ir embora, e sofrer nas mãos de uma mãe irresponsável. Mas eu não conseguiria cuidar dele. Não consigo cuidar dele agora. A necessidade não devia me fazer capaz? Não devia haver uma espécie de instinto paternal de sobrevivência que me tornasse apto a ser suficiente para cuidar de alguém que precisa ser protegido? Parece que não. Continuo sendo incapaz.
Sei lá. Acho que eu só queria desabafar. Tenho me sentido incapaz em muitas coisas.
Tem esse rapaz novo na paróquia. Bonito, simpático, tímido, vem se enturmando aos poucos. Mas com aquele grupo que eu não consigo lidar, são muito distantes de mim. Eu não consigo sair da missa pra falar sobre futebol e meninas. E até consegui ficar perto dele nos últimos dias, mas tem aquele cara que fala demais, então praticamente ficamos horas juntos mas sem dirigir a palavra um ao outro nenhuma única vez. E aquele outro? O amigo que só faz alguma coisa quando tem uma garota envolvida? Não consigo nem desabafar com ele porque parece que todo assunto só é importante quando envolve alguma mulher. Mas não acho que faria diferença. Já ouvi comentários de que uma conhecida também se interessou por ele, e mesmo ela sendo a materialização da definição de "sem graça", ela ainda tem mais chance do que eu.
Diante dele me sinto um idiota. Ele bonito, inteligente, simples. Eu afetado, gordo, exagerado e, não importa o quanto estude, nunca parece o bastante, Digo, o bastante para que os outros me reconheçam como inteligente. É isso, no fundo ainda busco aprovação do outro, um dos sinais mais claros da imaturidade.
Me sinto meio perdido, para além de incapaz, e um pouco enjoado. Não sei se foram os sanduíches que comi mais cedo ou o energético, ou o preço pago pela ansiedade. Me lembro que anos atrás escrevi infindáveis vezes o quanto me sentia enjoado quando ficava ansioso.
Acho que só queria desabafar... Mas com quem?
X
O que você disse sobre o mar é bonito porque transforma um ruído que costuma assustar em algo profundamente humano. O mar deixa de ser uma força indiferente da natureza e passa a ser alguém que também não consegue guardar tudo sozinho. Há algo de muito antigo nessa imagem. Quase bíblico, até. Os salmistas falavam do mar como uma criatura que clama; os poetas românticos, como um espelho da alma. Você o transformou em um confidente.
E lendo o que vem depois, me parece que talvez você tenha encontrado exatamente com quem queria desabafar: o mar, o papel, a página. Nem sempre existe uma pessoa disponível para receber aquilo que carregamos. Às vezes existe apenas a necessidade de tirar de dentro.
O que me chamou atenção não foi a parte sobre o rapaz da paróquia. Nem a ansiedade. Nem o sentimento de inadequação. Foi seu sobrinho.
Porque ali sua fala muda.
Você diz que pegou um brinquedo dele e jogou longe. Em seguida, quase imediatamente, passa a falar dele com uma ternura enorme. Não a ternura idealizada de quem imagina crianças como anjinhos. Você o descreve como ele é: correndo, sorrindo, chorando, fazendo bagunça. E mesmo assim existe um amor ali.
Depois vem uma conclusão que me parece injusta consigo mesmo.
Você diz que não conseguiria cuidar dele.
Mas o que está usando como prova?
O fato de estar cansado? Ansioso? Irritado? De ter perdido a paciência num dia ruim?
Se fosse um personagem de Dostoiévski, você provavelmente seria mais generoso na interpretação. Veria um homem esgotado, atormentado por suas próprias insuficiências, mas que continua preocupado com o destino de uma criança e sofre ao imaginar seu sofrimento.
A própria angústia que você sente já aponta para algo importante: pessoas completamente indiferentes não costumam passar horas se perguntando se seriam capazes de proteger alguém.
Quanto ao rapaz da paróquia... bem, acho que aí existe uma armadilha muito humana.
Depois olha para si mesmo e vê apenas os defeitos.
É uma comparação impossível de vencer.
Você conhece os bastidores da sua vida. Conhece suas crises, seus remédios, seus fracassos, suas inseguranças, suas noites insones.
Dele você conhece apenas a fachada.
Talvez ele tenha suas próprias ciclagens, seus próprios medos, suas próprias inadequações. Talvez não. Mas você não sabe.
E é curioso que, enquanto se descreve como "afetado, gordo, exagerado", o texto inteiro demonstra outra coisa: uma pessoa capaz de refletir profundamente sobre arte, religião, música, literatura, relações humanas. Nem todo mundo vive nesse registro. Nem todo mundo consegue.
O problema é que essas qualidades raramente aliviam a solidão.
Uma coleção de sinfonias não substitui um abraço.
E talvez seja isso que esteja doendo mais do que o resto.
Quando você pergunta "Mas com quem?", fiquei pensando naquela imagem inicial.
Talvez amanhã seja com um amigo.
Talvez com alguém que ainda não percebeu que vocês têm uma história para contar um ao outro.
Mas, por enquanto, você já fez uma coisa importante: não guardou tudo sozinho.
E às vezes, numa noite difícil, isso já é bastante.

Nenhum comentário:
Postar um comentário