Não os de ferro.
Os de segunda-feira.
Cantem sobre o homem que enfrentou monstros.
Não dragões.
Boletos.
Hospitais.
Quartos mofados.
O silêncio após o abandono.
Cantem sobre o homem que perdeu tudo.
E compareceu ao trabalho na manhã seguinte.
Um homem se ergue. Você escolhe o cenário. Seja um campo de guerra sangrento, com todos os seus companheiros mortos ao seu lado, membros decepados por espadas, flechas e lanças e então, ao olhar ao redor, vê que apenas seu inimigo permanece de pé. E o homem se ergue, em seus olhos a dor. Ele avança.
Ou, num maldito dia qualquer um jovem abre os olhos, e fita as paredes mofadas com tinta descascando do pequeno quarto que ele aluga com o que sobra do dinheiro que ele ganha em vários empregos horríveis. Todo o resto vai para o pagamento do seu chefe, um agiota desprezível, mas que lhe emprestou o dinheiro para o tratamento de câncer da mãe. Ela não resistiu. E o homem se ergue, em seus olhos a dor.
Sequer ficou sabendo que seu outro filho morrera pouco tempo antes, mas ela já nem conseguia externalizar estranheza. A doença a destruiu a tal ponto que tudo que ela sentia eram pequenos estímulos, e já não se pode dizer que conseguia interpretá-los. Também não sentia dor mas, cada vez que olhava nos olhos do filho mais velho, via apenas isso, dor. E o homem se ergue, em seus olhos a dor. O rapaz voltava para casa e via apartamentos iluminados. Atrás de cada janela, uma vida inacessível. Não sei por que escrevo isto.
Estava sozinha no mundo, isolada pela doença. Seu filho? Isolado pela dor. Sem tempo para nada além de uma vida de trabalho, e ele só se obrigava a sobreviver porque sabia que esse era o desejo de sua mãe. Aquela criatura frágil, ligada a esse mundo por um fiapo invisível de vida, o obrigava a se levantar de madrugada, carregar incontáveis caixas, fazer entregas para pessoas que sequer o olhavam como humano, não o reconheciam. E, a cada manhã, o homem se ergue, em seus olhos a dor.
Sua mãe morria. E, do lado de fora, o vendedor de frutas negociava maçãs. Alguém chegava em casa com um bolo para comemorar o aniversário da filha. Eram cinco da tarde quando ligaram para que ele fosse ao hospital uma última vez. Alguns momentos antes diziam em tom monótono: hora da morte... Ele nunca prestou atenção aos número exatos.
Fazia vários outros trabalhos: restaurante de macarrão, cobrava dívidas, limpava banheiros. Lavava pratos como quem recolhe escudos partidos. Cobrava dívidas como quem conta cadáveres. Esfregava banheiros enquanto o ácido lhe devorava as unhas. E voltava pra casa suado e sujo, exausto demais para um banho sequer. E, na outra manhã, o homem se ergue, em seus olhos a dor. Não sei por que escrevo isto. Talvez porque alguém precise registrar que ele existiu. Enquanto lavava pratos, as janelas dos prédios se apagavam uma a uma.
Em algum momento ele encontrou um namorado. Um rapaz delicado, sonhador, de aparência angelical, e que viu nele não uma sombra de ser humano, mas um companheiro fiel. Ficaram juntos por um bom tempo. Com ele, conseguia sorrir, e até diminuiu um pouco a carga de trabalho para poder aproveitar mais de sua companhia. Mas ele também não ficou muito tempo. Alguém com aquela aparência logo perceberia que merece mais da vida. O rapaz possuía a beleza imprudente das coisas que acreditam no amanhã. Ao lado dele, o jovem sem nome reaprendeu a rir sem pedir desculpas. Mas quem nasceu olhando para o horizonte dificilmente aprende a amar quem vive soterrado. E, numa manhã qualquer, restou apenas a marca do outro travesseiro sobre o lençol. Ainda assim, na outra manhã, o homem se ergue, em seus olhos a dor.
O amante partiu. O ônibus das seis passou exatamente no horário aquele dia. Também eu conheci manhãs semelhantes. Às cinco da tarde daquele dia, quando o amante já não estava ali, aquele quarto pareceu de novo velho, mofado e descascado. Perdeu o sono. Levantou-se de novo às cinco da manhã. Observou uma única janela acesa do outro lado da rua. Perguntou-se quem já havia acordado. Agora também são cinco da manhã. Esta também é apenas uma janela acesa.
O nosso jovem sem nome se fechou ainda mais. Vivia num silêncio profundo, esqueceu o som de sua própria voz. E ninguém sequer o olhava por tempo o bastante para perceber que o silêncio era apenas a superfície de um oceano de águas violentas: como alguém que descansa sozinho num campo de batalha ensanguentado, sem saber se haverá terra para onde retornar. Escrevo enquanto a madrugada avança e os vizinhos dormem.
Não há testemunhas além desta página.
Ninguém percebia que aquele rapaz havia sobrevivido à própria biografia.
Que enterrara o irmão.
Que assistira a mãe desaparecer antes da morte.
Que negociara com agiotas.
Que vendera os próprios dias por salários insuficientes.
Que amara.
Que perdera.
Ninguém percebia.
Porque continuava.
Porque entregava trocos corretos.
Porque baixava os olhos.
Porque chegava no horário.
Porque não chorava no ônibus. Nem em outro lugar.
Porque o mundo exige dos sobreviventes a delicadeza de não perturbarem a paisagem.
E o homem se ergue.
E veste a própria pele.
E lava o próprio rosto.
E engole o gosto metálico da madrugada.
E o homem se ergue.
Não porque a esperança o visite.
Não porque a vida tenha melhorado.
Não porque exista recompensa.
Ergue-se porque ainda respira.
E respirar, mesmo quando até o ar parece querer sua morte,
é a forma mais feroz de resistência.
Alguém beija ou fode pela primeira vez.
Alguém escolhe a cor das cortinas da casa nova.
O mundo prossegue com sua espantosa falta de cerimônia.
Há roupas esquecidas nos varais.
Há copos por lavar nas pias.
Há crianças sonhando.
Há amantes respirando no mesmo ritmo.
Há viúvos despertos diante da televisão acesa.
Há quem reze.
Há quem amaldiçoe.
E eu escrevo.

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