"Este momento ansioso e pensativo sentado sozinho,
Me parece que há outros homens em outras terras ansiosos e pensativos,
Me parece que posso examinar e vê-los na Alemanha, Itália, França, Espanha,
Ou longe, bem longe, na China, ou na Rússia ou Japão, falando outros dialetos,
E me parece que se pudesse conhecê-los eu ficaria apegado a eles como faço com homens em minhas próprias terras."
(Walt Whitman)
O que eu diria a ele? Ainda que tivesse coragem, ainda que puxasse assunto, o que diria a ele? Já se passou quase uma semana, e nada mais foi dito. Mas sei que ele continua lá, em algum lugar, porque meus amigos dão conta dele.
Eu passei toda aquela noite fazendo-o se aproximar.
Mas os outros já tinham feito o mesmo.
E ele prefere falar de futebol, ou sei lá que assunto os héteros conversam. Ele se aproximou justamente daqueles que eu não queria que se aproximasse. Porque eles são fechados demais em si mesmos. Porque são cegos pelas meninas toscas, com o intelecto de uma colher de chá, e por essa comunidades mentirosas.
E eu achei que ele pudesse ser diferente.
Achei mesmo.
Enquanto estávamos sentados ouvindo música e tentando adivinhar o nome dos filmes em que elas tocavam. Achei que ele estava se divertindo.
Mas, desde então, silêncio.
Como se aquele dia sequer tivesse existido. Ele pode estar esperando que eu chame? Por timidez? Mas e todo o esforço daquela noite? Ou ele simplesmente não se interessou e eu fui apenas um incômodo a noite toda, mesmo ele tendo ficado até o fim. Mas eu não quero chamar e repetir, pela enésima vez, e me tornar uma perturbação.
Sabe o que mais me chama atenção nisso tudo? Não é que eu esteja pensando nele depois de uma semana. Isso é perfeitamente humano. O que me chama atenção é que, na ausência de qualquer informação, eu já escrevi quinze versões da história, e em quase todas eu ocupo o pior papel possível.
O inconveniente.
O exagerado.
O sujeito que não percebeu os sinais.
A perturbação que insiste.
Aquele que interpretou mal uma noite comum.
Mas existe uma décima sexta versão, e ela parece ser a única que eu não consigo levar realmente a sério.
A de que talvez ele tenha gostado de estar ali.
Talvez tenha achado você interessante.
Talvez seja tímido.
Talvez esteja acostumado a circular justamente naquele grupo que considero superficial porque é o grupo que ele tem. As pessoas raramente escolhem seus círculos sociais com o refinamento de um curador de biblioteca. Muitas vezes elas apenas permanecem onde aprenderam a existir.
Escrevo sobre os ciúmes de outros também terem se aproximado dele. Mas isso não invalida o que houve entre vocês. Aproximações não são propriedade privada. Você não perde o valor de uma conversa porque outra pessoa também conseguiu fazê-lo rir. O afeto humano não é uma vaga de emprego com um único candidato aprovado. Felizmente. Já basta o mercado de trabalho para transformar tudo em competição cruel.
Outra coisa.
Reli a parte em que digo que ele prefere falar de futebol e "sei lá que assunto os héteros conversam". E eu sorri um pouco ao ler isso, porque é uma frase tão impregnada de frustração que quase dá para ouvir o suspiro no final.
Mas eu devia ter cuidado...
Eu não conheço esse rapaz.
Conheço fragmentos dele.
Uma noite ouvindo músicas e adivinhando filmes.
O fato de ele conversar sobre futebol.
O fato de circular com pessoas que você não suporta.
E, a partir disso, estou tentando decidir se ele é profundo ou banal, diferente ou igual aos outros, possibilidade ou ameaça. Ou, pior ainda, o mais sombrio dos pesadelos: indeiferente.
Talvez ele seja um pouco de tudo isso.
Talvez seja só um rapaz simpático tentando encontrar seu lugar na paróquia.
Existe também a insegurança mais dolorosa, que eu acho que está escondida por baixo de todas as outras.
Não é exatamente: "E se ele não gostar de mim?"
É:
"E se eu me expuser e descobrir, mais uma vez, que interpretei errado? E se eu for demais? E se eu for ridículo?"
Porque você já experimentou isso antes. A repetição cria memória. O corpo aprende a antecipar rejeições para tentar sobreviver a elas. Então você tenta resolver a equação antes de ela existir.
Mas relações humanas não são equações. São improvisos mal ensaiados.
A verdade é que eu não sei;
Eu não sei se ele espera uma mensagem.
Não sei se ele se interessou.
Não sei se me achou intenso demais.
Não sei se ficou nervoso.
Não sei sequer se ele percebeu que aquela noite teve o peso que teve para mim.
E, diante desse não saber, há apenas duas opções.
A primeira é não fazer nada. Proteger. Guardar a dignidade intacta. Continuar imaginando, daqui a seis meses, o que teria acontecido se tivesse mandado uma mensagem simples.
A segunda é correr um risco pequeno, proporcional à realidade. Não uma declaração dramática digna de um romance russo escrito por alguém com febre. Só algo humano.
"Oi, lembrei daquela noite ouvindo música e tentando adivinhar os filmes. Foi divertido. Como você está?"
É só isso.
Não exige reciprocidade romântica.
Não exige resposta imediata.
Não transforma ninguém em protagonista de uma tragédia grega.
E, se a conversa morrer depois disso, você terá uma dor diferente da fantasia. Menor, mais concreta. Não a dor infinita do "e se?", mas a tristeza comum das coisas que não floresceram.
Há ainda uma terceira possibilidade, mais silenciosa.
Eu estou carente de ser visto. Não apenas desejado, mas visto. Com toda a estranheza, meu excesso, inteligência, minha afetação assumida, humor ácido, minha capacidade de passar horas escrevendo cartas enormes sobre tapetes felpudos, o mar e a impossibilidade do amor. E então esse rapaz se torna uma tela onde você projeta a esperança de finalmente encontrar alguém que diga: "Eu entendo a língua que você fala."
Talvez ele seja essa pessoa.
Talvez não.
E talvez eu não seja uma perturbação por desejar descobrir.
Só acho que preciso se lembrar de uma coisa que eu mesmo escrevi ao amigo: um exército dividido perde.
Neste momento, há uma parte minha querendo conhecer alguém, outra tentando impedir qualquer aproximação para evitar sofrimento, outra julgando severamente os outros homens da paróquia, outra convencida de que não é digna de ser escolhida, e uma última, pequena e cansada, que só gostaria de segurar a mão de alguém sem transformar isso numa prova definitiva do seu valor. Talvez seja essa última voz que mereça conduzir a próxima decisão.
E ela não perguntaria: "Como faço para não ser rejeitado?"
Ela perguntaria algo muito mais simples e corajoso: "Gostei de conversar com você naquela noite. Será que podemos conversar de novo?"
Ele pareceu gostar de John Williams. Deveria mandar um vídeo legal com o tema de Star Wars ou a Marcha Imperial e tentar algo leve, simples e sem grandes consequências? Acho que sim. E acho que justamente porque é leve.
Uma parte minha quer mandar o vídeo porque achou algo em comum e gostaria de retomá-lo. Outra parte quer mandar o vídeo como um teste definitivo do destino: "Se ele responder com entusiasmo, há esperança; se responder seco, acabou; se demorar, significa rejeição; se usar emoji, significa interesse..." E os pobres trompetes de John Williams acabam carregando o peso de um julgamento final para o qual nunca foram compostos. Nem Darth Vader merecia tamanha responsabilidade.
Eu não estou propondo casamento. Não estou confessando sentimentos profundos. Não estou exigindo uma definição. Talvez eu só precise dizer que a Marcha Imperial é a música ideal para quando eu chego em algum lugar.
~
carta a mim mesmo
"por favor, não se apaixone novamente. eu sei que é difícil ter o domínio dessas coisas, e que vez ou outra alguém surge, igual ao amanhecer entrando pela janela, naquele dia em que você esqueceu de fechar a cortina do quarto, e te desperta de uma ressaca de desilusões. mas é que você já está calejado, você viu o quanto foi dolorido, o quanto nós sofremos nessa última paixão, que virou amor, e que depois virou nada. até hoje você chora escondido ou segura choro pra quando chegar em casa. por favor, não se apaixone novamente, talvez a gente não suporte mais uma partida."
(Kaio Bruno Dias)

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