sexta-feira, 5 de junho de 2026

Antes de qualquer coisa IV

 IV. Elegia

Foi tão pouco
que quase não aconteceu.

Um movimento leve
sob a superfície imóvel dos dias,
como o vento que enruga a água
e desaparece antes que alguém o veja.

Não houve sorriso.
Não houve palavras suficientes
para construir qualquer futuro.

Apenas um instante.

Mas alguma coisa,
escondida sob camadas de torpor,
ergueu a cabeça por um momento
como um animal ferido
saindo da toca para olhar a luz.

Talvez fosse esperança.

Não.

Esperança é um nome grande demais.

Foi só um pequeno consolo,
e mesmo assim
eu já apertava suas mãos contra a garganta,
com medo de vê-lo crescer.

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