Até este momento, Neon Genesis Evangelion apresentou seus dilemas através de indivíduos: Shinji quer aproximar-se e fugir, Asuka quer ser reconhecida sem depender de ninguém. Rei precisa descobrir se aquilo que recebeu como identidade pode tornar-se verdadeiramente seu, Misato tenta permanecer funcional enquanto diferentes partes de sua existência recusam-se a formar uma unidade pacífica.
Gendo quer recuperar aquilo que perdeu e, para isso, está disposto a reorganizar a humanidade e em The End of Evangelion as coisas mudam de escala, os perguntas deixam de caber dentro dos personagens e o mundo precisa assumir sua forma.
O que era psicológico torna-se cosmológico. O que era desejo torna-se ritual. O que era fronteira entre duas consciências transforma-se na dissolução física de todos os corpos. O que era vontade de regressar ao estado anterior ao sofrimento converte-se num mar primordial. O que era dificuldade de comunicação entre indivíduos torna-se tentativa de abolir a individualidade. A representação dos dilemas morais e existenciais em Neon Genesis Evangelion abandona, então, qualquer modéstia. O problema do eu passa a ter o tamanho do planeta.
Susanne Langer, uma neokantiana, oferece uma chave particularmente fértil para compreender aquilo que acontece nessa sequência: um símbolo artístico não precisa funcionar como uma placa de trânsito, isto é, uma cruz não precisa significar uma única coisa, uma figura feminina não precisa possuir uma tradução definitiva. Uma imagem pode funcionar como uma matriz na qual diversas relações se tornam simultaneamente inteligíveis, mesmo quando essas relações seriam difíceis de expressar discursivamente sem separá-las.
É exatamente assim que pretendo olhar para as cenas do ritual da Instrumentalidade Humana: como uma constelação.
Cristianismo, judaísmo, Cabala, gnosticismo, alquimia, tradições esotéricas, psicanálise e mitologias de retorno ao princípio podem reconhecer ali figuras familiares sem que nenhuma delas possua sozinha a chave do conjunto. A própria forma da cena parece proibir a interpretação exclusiva pois os símbolos se acumulam, se sobrepõem e se misturam. Quase sofrem, eles mesmos, uma espécie de Instrumentalidade.
A cruz aparece inúmeras vezes em Evangelion, frequentemente com tamanha exuberância visual que seria fácil tratá-la apenas como decoração religiosa. Durante a Instrumentalidade, porém, sua função torna-se mais interessante.
O EVA-01 deixa de ser apenas corpo de combate e passa a ocupar uma posição ritual. É contido, elevado e exposto, transformado em centro de uma operação que ultrapassa qualquer finalidade militar.
A imagem inevitavelmente recorda a crucifixão, mas uma identificação direta com Cristo resolveria pouco. A cruz em Evangelion parece operar simultaneamente como instrumento de sacrifício, estrutura de ordenação e eixo entre diferentes níveis da realidade.
René Guénon oferece aqui uma leitura comparativa particularmente sugestiva. Em O simbolismo da cruz, a cruz não é reduzida ao acontecimento histórico cristão. Ela aparece como símbolo universal da articulação entre estados e possibilidades do ser: um eixo vertical encontra outro horizontal, o centro tornando-se ponto de comunicação entre direções distintas.
Não é necessário afirmar influência direta para perceber a fecundidade da aproximação. Durante o Terceiro Impacto, o EVA-01 ocupa exatamente esse tipo de posição impossível. É Shinji mas, ao mesmo tempo é máquina. Organismo e filho. Contém a mãe e deriva de Lilith. Possui agora aquilo que o aproxima dos descendentes de Adão. É indivíduo e, ao mesmo tempo, torna-se ponto através do qual a humanidade inteira será reorganizada.
A cruz deixa então de ser apenas instrumento de morte e torna-se algo como uma coordenada. No eixo horizontal encontramos a multiplicidade humana, indivíduos separados distribuídos pelo mundo. No eixo vertical aparece a tentação de transcendê-los, reuni-los, elevá-los ou dissolvê-los numa realidade superior. No centro está Shinji: um adolescente extraordinariamente pouco interessado em tornar-se eixo metafísico da humanidade, o que naturalmente não impediu os adultos ao redor de lhe atribuírem a função.
Os EVAs produzidos em massa participam da formação ritual que evoca a Árvore da Vida, uma referência visual impossível de ignorar. A imagem provém da tradição cabalística das sefirot, as emanações ou modalidades através das quais se articula a relação entre o divino e a manifestação.
A árvore reúne níveis, organizando aquilo que parecia disperso, transformando multiplicidade em estrutura. Isso possui uma correspondência inquietante com aquilo que a Instrumentalidade pretende realizar com a própria humanidade. Os indivíduos são múltiplos. Contraditórios. Separados. A árvore promete ordem.
Há aqui também uma possível aproximação com a figura cabalística de Adam Kadmon, o homem primordial ou configuração antropocósmica da manifestação divina. Não digo que a gigantesca forma humana posterior seja simplesmente “Adam Kadmon”. Seria brutalidade interpretativa vestida de erudição. Mas a imagem de um Humano primordial que contém ou representa uma totalidade superior aos homens particulares oferece uma ressonância evidente.
A humanidade fragmentada deseja tornar-se novamente Homem. Não muitos. Um.
A palavra “humanidade” deixa de designar uma coleção de pessoas e passa a ameaçar tornar-se uma única entidade. E aí retorna nosso problema inicial: o que significa completar o humano?
Somar os indivíduos? Ou eliminá-los em nome de uma totalidade que já não permite diferença?
Gendo acredita que poderá controlar o processo, sua intenção é fundir-se com Rei, utilizar Adão e reencontrar Yui. Depois de tudo aquilo que discutimos sobre ele, a escala do plano não consegue esconder sua origem quase constrangedoramente íntima. Gendo quer a esposa de volta e, para isso, decidiu reorganizar a espécie. Homens pequenos, monstros gigantes. Outra vez.
Mas Rei recusa-se a permanecer instrumento, absorve aquilo que Gendo pretendia utilizar e retorna a Lilith. Esse gesto é fundamental porque o ritual escapa das mãos daquele que imaginava dirigi-lo. A personagem cuja identidade havia sido concebida por outros realiza uma de suas escolhas mais importantes recusando o homem que acreditava possuir autoridade sobre ela. E então cresce.
A figura de Rei/Lilith torna-se gigantesca. O corpo feminino deixa de pertencer à escala humana. A mãe torna-se paisagem. O rosto ocupa o céu e parece reunir nascimento, sexualidade, morte e divindade numa única imagem. É difícil imaginar representação mais adequada para uma regressão absoluta.
Shinji não retorna simplesmente aos braços maternos, a própria realidade torna-se mãe. O mundo inteiro converte-se em útero. O feminino aqui já não é apenas uma personagem feminina. Torna-se matriz. É possível aproximar essa figura de inúmeras tradições.
Da Shekinah judaica, enquanto imagem da presença divina, podemos obter a ideia de uma presença que envolve e habita a criação, embora identificar Rei diretamente com a Shekinah seria grosseiro. Da Grande Mãe das leituras comparativas de mitologia e psicologia profunda surge a ambivalência entre ventre e sepultura: aquilo que gera também recebe novamente. Da alquimia, encontramos a prima materia, condição indiferenciada a partir da qual as formas emergem e à qual podem ser devolvidas antes de nova transformação. Em cosmologias esotéricas, de Blavatsky a diversas tradições que ela reuniu em sua obra, reaparecem imagens do ovo cósmico, das águas primordiais, da manifestação que emerge de uma unidade indiferenciada e posteriormente retorna a ela.
Não é necessário acreditar no sistema teosófico, nem imaginar Hideaki Anno estudando A Doutrina Secreta com marca-texto, para perceber que o imaginário da Instrumentalidade Humano pertence a uma família antiquíssima de imagens: antes das formas, a matriz, no sentido que dá Susanne Langer e, depois da multiplicidade, o retorno.
Há um instante particularmente significativo em que o rosto gigantesco que Shinji contempla deixa de ser apenas Rei e assume a aparência de Kaworu. Não é detalhe, chama atenção de modo bastante desconfortável. Shinji encontra diante de si duas das formas mais poderosas através das quais imaginou a possibilidade de acolhimento. Rei carrega a sombra da mãe enquanto Kaworu carrega a memória daquele que lhe ofereceu reconhecimento sem exigir primeiro que ele o merecesse. A totalidade adquire então um rosto capaz de convencer Shinji a não resistir.
Isso nos devolve diretamente ao capítulo anterior.
Kaworu havia oferecido, em escala pessoal, a experiência de uma proximidade aparentemente sem ferimento. A Instrumentalidade agora oferece a mesma promessa em escala cósmica.
Não mais perder Kaworu. Não mais ser rejeitado por Asuka. Não mais precisar da aprovação do pai. Não mais temer Misato. Não mais perguntar o que Rei sente. Todos estarão dentro. Todos serão acessíveis. Todos serão um. A tentação precisa assumir o rosto do amor porque ninguém aceitaria dissolver-se apenas por razões administrativas.
Então os Campos A.T. começam a desaparecer, os corpos perdem a forma. A humanidade se dissolve. É talvez a representação mais literal possível da negação do principium individuationis que Schopenhauer poderia ter desejado sem jamais suspeitar que um dia alguém a animaria com gigantes biomecânicos.
Mas a aproximação precisa ser feita com cuidado. Schopenhauer não propõe simplesmente liquidificar as pessoas para que deixem de sofrer. A negação da vontade não equivale à destruição tecnológica das individualidades. Ainda assim, a imagem permite compreender alguma coisa fundamental. Espaço, corpo e separação fornecem as condições pelas quais cada indivíduo aparece como este indivíduo e não outro. A Instrumentalidade remove essas fronteiras.
Aquilo que antes era metafísica torna-se realidade bastante palpável e os corpos literalmente deixam de sustentar a diferença. A carne cede e líquido permanece. É o retorno à matéria anterior ao indivíduo.
O LCL é uma das imagens mais ricas de toda a sequência justamente porque recusa uma única classificação. É o líquido primordial e o meio de sustentação da vida. Preenche o Entry Plug e permite ao piloto respirar dentro do EVA. Está associado a Lilith e, durante a Instrumentalidade, torna-se aquilo a que os corpos humanos retornam. É difícil não enxergar nele simultaneamente mar, sangue e líquido amniótico.
O mar é uma das figuras mais antigas da humanidade. Antes da terra firme, as águas. Antes da delimitação, profundidade sem fronteira. No Gênesis e na Enuma Elish as águas precedem a organização do mundo. Em inúmeras cosmogonias, a forma emerge de um oceano primordial.
No útero, o indivíduo começa também imerso. A vida humana inicia-se dentro de líquido antes de adquirir qualquer independência do corpo materno. A Instrumentalidade parece inverter esse processo. Nascer foi separar-se. Instrumentalizar-se é retornar.
Não é difícil compreender por que a regressão possui tamanho poder simbólico. O sofrimento começou depois que houve um “eu” capaz de distinguir-se do mundo. O útero oferece a fantasia de um tempo anterior à distância. Antes da rejeição. Antes da linguagem. Antes da vergonha. Antes de precisar pedir que alguém permanecesse. Por isso o mar de LCL seja simultaneamente aterrador e tranquilo.
A alquimia oferece outro vocabulário particularmente útil: Solve et coagula. Dissolver e reunir. Desfazer uma forma para que outra possa surgir. Já havíamos encontrado esse motivo anteriormente quando falava em destruição e recomposição. Aqui ele ganha literalidade. A primeira metade está diante de nós.
Solve.
Os corpos dissolvem-se. As fronteiras cedem e as individualidades perdem sua consistência. A humanidade retorna à matéria indiferenciada. O problema será saber se haverá realmente um coagula. Uma nova forma. E, principalmente, quem escolherá essa forma?
A SEELE imagina recompor a humanidade segundo um princípio. Gendo imaginava recompô-la segundo outro. Shinji torna-se inesperadamente aquele a quem a decisão retorna. Assim, mesmo a tentativa de eliminar o indivíduo acaba dependente da escolha de um indivíduo. A Instrumentalidade não consegue escapar daquilo que deseja abolir. E é nesse ponto que a tradição gnóstica oferece um paralelo quase inevitável.
Em muitas correntes gnósticas antigas, o mundo material aparece como condição inferior, marcada por separação, ignorância e aprisionamento. A salvação envolve conhecimento e retorno a uma plenitude anterior ou superior à fragmentação do cosmos material.
O termo pleroma, plenitude, torna-se particularmente sugestivo. A Instrumentalidade promete exatamente uma plenitude. Nada falta porque já não existe distância entre aquilo que deseja e aquilo que poderia completá-lo. Nenhum eu permanece separado de outro. Sob esse aspecto, ela parece quase uma salvação gnóstica levada à literalidade. Mas Evangelion introduz uma suspeita profundamente antignóstica.
E se a fragmentação não for apenas prisão? E se aquilo que chamamos de queda na multiplicidade for também condição do encontro? E se retornar à plenitude significar destruir precisamente aquele que deveria ser salvo? A série parece aproximar-se do gnosticismo para, no momento decisivo, hesitar diante dele.
A matéria dói. A separação dói. A individualidade dói. Mas talvez salvar o indivíduo exigindo que ele deixe de ser indivíduo seja uma vitória obtida mediante fraude semântica.
Aqui a diferença em relação ao cristianismo torna-se especialmente fecunda, pois a tradição cristã também fala de unidade, fala de comunhão, fala de um corpo no qual muitos participam, fala de união com Deus. Mas, em suas formulações mais características, essa união não exige que as pessoas deixem de ser pessoas. A comunhão pressupõe relação, e relação pressupõe diferença. O “eu” e o “tu” não desaparecem simplesmente numa substância comum.
A Instrumentalidade oferece fusão. A imagem cristã mais forte oferece comunhão. Uma elimina a distância dissolvendo os termos, enquanto a outra pretende atravessar a distância sem abolir aqueles que se relacionam. É por isso que seria equivocado considerar a Instrumentalidade Humana simplesmente uma representação da salvação cristã. Ela pode utilizar cruzes, lanças, Adão, Lilith e imagens apocalípticas. Mas sua metafísica ameaça caminhar justamente na direção oposta à preservação da pessoa.
Frithjof Schuon, ao falar da unidade transcendente subjacente às diferentes formas religiosas, permite-nos perceber por que símbolos semelhantes podem reaparecer em tradições muito distintas sem dizer exatamente a mesma coisa. A unidade pode significar origem, princípio, comunhão, absorção, aniquilação. A palavra é a mesma, mas destino dos indivíduos muda inteiramente.
Enquanto a humanidade é dissolvida, formas luminosas parecem reunir-se em torno da Lua e da estrutura cósmica do ritual. A imagem é extraordinária porque devolve à multiplicidade aquilo que a Instrumentalidade pretende transformar em unidade. Ainda conseguimos ver muitos.
Aquilo que estava dentro de corpos agora aparece liberto deles, mas ainda momentaneamente distinguível. E a Lua acrescenta outra camada. Desde a Antiguidade, ela pertence ao campo simbólico da mutação, do ciclo, da geração e da morte. Cresce, desaparece, retorna, dita ritmos. Reflete uma luz que não produz. É também um dos grandes símbolos do feminino em inúmeras tradições. Ao reunir almas junto dela, Evangelion coloca a dissolução humana sob o signo do ciclo e do retorno.
Olavo de Carvalho trata do simbolismo com muita sobriedade. Ele vai diferenciar o simbolismo como fenômeno cultural: aquele que, em certa época ou determinada cultura tinha por simbólico esse ou aquele animal, ou planta, ou pedra, do simbolismo como tradução das propriedades espirituais inerentes à própria natureza.
Ele trata, por exemplo, no seu estudo sobre a Tripla Intuição, da luz como símbolo da inteligência. Não podendo ser somente um produto cultural, porque existe uma relação intrínseca entre as duas coisas. E para comprovar isso recorre a um raciocínio simples: quando não havia luz elétrica ou nenhuma forma de luz artificial, a diferença entre o dia a noite era a diferença entre enxergar e não enxergar. Isso quer dizer que a presença da luz é coexistente com a capacidade de enxergar. não são experiências diferentes, se não tem luz, realmente não é possível enxergar. Então, a possibilidade de uma intuição sensível depende de um elemento externo natural, de modo que ter consciência do que está se passando ou não depende inteiramente da luz. Daí pode ter surgido, claro, outros símbolos, como o de uma luz interior, uma luz do pensamento, etc., mas, de todo modo, ainda estamos falando da luz propriamente dita.
Portanto, a luz, neste caso, ela não é uma alegoria da inteligência, da consciência, ela é, de certo modo, a própria condição de possibilidade da consciência. Então, no caso, o simbolismo da luz vem evidentemente junto com o simbolismo do sol, fonte primária da luz. Então, você tem o símbolo da fonte de luz como a condição que possibilita a consciência de alguma coisa. E assim por diante, do mesmo modo que o simbolismo lunar não pode ter aparecido todo de uma vez como o simbolismo solar, porque a lua se apresenta com aparências diferentes. Poe observação ora vemos um disco cheio, ora uma meia lua, ora apenas uma pequena faixa e ora não vemos nada. Então, a percepção por trás de todas essas aparências que, noite após noite, vão se aparecendo de maneira diferente, torna possível identificar uma unidade por trás disso: tudo isso é lua. Isso requer algum trabalho, requer algum transcurso de tempo. Portanto, a associação tradicional da lua com o tempo, com a experiência do tempo, também é um simbolismo natural, isto é, não foi uma interpretação que uma cultura fez arbitrariamente. A própria presença do fenômeno natural impunha, de algum modo, o seu significado, porque essa era a relação real que havia entre aquele objeto e os seres humanos.
A Lua Negra emerge, a estrutura que carregou Lilith torna-se novamente visível. O nome é quase suficiente para convocar uma biblioteca inteira de simbolismo: ovo, ventre, caverna, matriz, noite, potência ainda não diferenciada.
O ovo cósmico aparece em tradições muito distintas justamente porque oferece uma imagem quase perfeita para pensar uma totalidade que contém formas antes que elas se separem. Madame Blavatsky recolhe e compara obsessivamente imagens desse tipo em sua síntese esotérica. Guénon também reconhece no ovo uma figura do estado embrionário da manifestação. Não precisamos importar os sistemas inteiros, basta perceber a recorrência da intuição: antes da multiplicidade existe uma totalidade fechada que contém virtualmente aquilo que ainda não nasceu.
A Lua Negra é túmulo porque recebe a humanidade dissolvida. É também ovo porque sugere a possibilidade de outra emergência. Mais uma vez, Evangelion recusa separar começo e fim. O apocalipse contém uma cosmogonia.
Talvez a imagem mais perturbadora seja a própria Rei/Lilith colossal.O corpo humano elevado à escala planetária deveria representar triunfo, marece pesadelo. A humanidade consegue finalmente produzir sua forma total e descobre que ela é monstruosa. Há aqui uma possível ressonância com Adam Kadmon, com o Homem Universal de diferentes tradições esotéricas e com a ideia do microcosmo humano como espelho do macrocosmo.
Guénon e Schuon, por caminhos distintos, retornam frequentemente à ideia do ser humano como ponto de articulação entre níveis de realidade. Mas Evangelion oferece uma ironia brutal: quando o humano finalmente adquire proporção cósmica, deixa de parecer humano. A ampliação destrói a familiaridade. O rosto de Rei torna-se tão grande que já não pode ser encontrado como rosto. Aquilo que deveria representar a totalidade da pessoa converte-se em paisagem. Talvez toda totalização da humanidade possua esse risco. Fala-se em “Humanidade” e, em algum ponto, desaparece o indivíduo concreto que tinha nome, memória, medo e alguém de quem sentia falta. A totalidade pode ser intelectualmente sublime. Também pode ser um modo particularmente eficiente de esquecer a pessoa.
A Instrumentalidade chega àquilo que prometia: a distância diminui e as consciências misturam-se. O sofrimento provocado pela impossibilidade de compreender integralmente o outro encontra finalmente uma solução. Não existe mais um exterior absoluto e Shinji descobre que não quer permanecer ali. Essa decisão é extraordinária precisamente porque ele não descobre que o mundo exterior era secretamente agradável.
Não era.
Asuka pode rejeitá-lo. As pessoas podem abandoná-lo. Ele pode ser mal compreendido. Pode sentir vergonha. Pode sentir culpa. Pode novamente desejar desaparecer.
Nada disso foi revogado, o que muda é outra coisa. Shinji reconhece que, se não existem fronteiras, também não existe encontro. Sem distância, aproximação perde o sentido. Sem um outro separado, reconhecimento torna-se impossível. Sem a possibilidade de rejeição, aceitação deixa de ser escolha. É justamente porque o outro pode dizer “não” que seu “sim” possui valor. A dor não desaparece da existência, mas ela deixa de funcionar apenas como argumento suficiente para abolir a existência.
E então começa a segunda operação, não uma reconstrução completa, não uma nova humanidade harmoniosa. Apenas a possibilidade de retornar.
Coagula.
A forma pode reaparecer, a individualidade pode ser desejada novamente. O corpo pode reconstruir sua fronteira, o Campo A.T. pode retornar.
Aquilo que durante todo o ensaio parecia obstáculo torna-se, inesperadamente, condição. O muro não é apenas aquilo que impede o amor, é aquilo que permite haver dois seres capazes de amar. A fronteira não é apenas solidão, é também identidade. A individuação não é apenas condenação, mas também possibilidade de encontro.
E então a figura colossal de Rei/Lilith começa a desfazer-se. Aquilo que parecia divino quebra. O pescoço é cortado e cabeça cai, o corpo gigantesco perde integridade. A imagem possui uma força quase iconoclasta.
A totalidade foi recusada e o ídolo da unidade perfeita não pode permanecer inteiro. O corpo que prometia conter todos precisa fragmentar-se para que os indivíduos possam recuperar seus próprios corpos. O movimento é profundamente contrário àquele que iniciou o ritual pois, primeiro, muitos tornaram-se um, agora, o um precisa morrer para que muitos possam novamente existir.
Talvez seja esse o verdadeiro coagula: não recompor uma humanidade una. Recompor a possibilidade da multiplicidade.
Depois de toda essa grandiosidade metafísica, resta um mar de LCL. A humanidade não reaparece imediatamente, não há multidões celebrando, não há música triunfal, não há civilização reconstruída. Há um mundo quase vazio. O líquido primordial permanece como lembrança de que tudo ainda poderia voltar a dissolver-se.
Gibran, em sua linguagem poética, frequentemente aproxima morte, retorno e continuidade sem reduzir uma coisa à outra. Essa sensibilidade pode servir aqui como contraponto: retornar à origem não significa necessariamente desaparecer, e morrer para determinada forma pode abrir a possibilidade de outra. Mas Evangelion recusa inclusive essa consolação fácil. Não sabemos quantos retornarão. Não sabemos quando. Não sabemos o que farão. A possibilidade existe.
E então chegamos à praia.
Shinji. Asuka.
Depois de cruzes, árvores, luas, deuses, almas, mães cósmicas, lanças, ovos e oceanos metafísicos, a série termina novamente com duas pessoas.
Separadas.
Isso é quase ofensivamente simples. A Instrumentalidade tentou resolver o problema humano abolindo o intervalo entre as consciências. A conclusão devolve o intervalo.
Shinji olha Asuka.
Asuka olha Shinji.
Ela não é aquilo que ele deseja que seja.
Ele não é aquilo que ela deseja que seja.
A alteridade voltou, e a primeira interação entre eles não oferece nenhuma reconciliação reconfortante.
Shinji coloca as mãos em torno do pescoço de Asuka.
Aquilo que poderia ser abraço torna-se estrangulamento.
As mãos, instrumentos máximos de contato, tornam-se instrumentos de violência. É difícil imaginar síntese mais brutal do dilema do ouriço. Finalmente posso tocar o outro, e posso usar esse toque para destruí-lo.
Mas Asuka responde com outro toque, sua mão alcança o rosto de Shinji. Não desaparece nele. Não se funde. Não se transforma naquilo que ele quer. Apenas toca.
Talvez Emmanuel Levinas ofereça aqui um último aceno filosófico particularmente adequado. Para Levinas, o rosto do outro resiste à minha tentativa de reduzi-lo completamente àquilo que posso conhecer, possuir ou dominar. A alteridade não é defeito do conhecimento; é exigência ética.
O outro voltou, e é novamente inacessível . O outro novamente pode ferir. Mas o outro também pode tocar meu rosto. Toda a Instrumentalidade parece ter sido necessária para que a série pudesse retornar ao acontecimento mais elementar: um indivíduo diante de outro.
O que fazemos com o fato de sermos separados? O gnosticismo oferece a imagem da plenitude perdida. A Cabala fornece figuras de totalidade e organização do múltiplo. O cristianismo distingue comunhão de simples absorção e transforma morte em possibilidade de ressurreição. A alquimia oferece dissolução e recomposição, mas também exige compreensão. Guénon encontra na cruz a articulação entre eixos e estados do ser. Schuon recorda que símbolos semelhantes podem atravessar tradições sem se tornarem idênticos. Blavatsky acumula ovos, ciclos, manifestações e retornos numa cosmologia sincrética em que o universo continuamente emerge e regressa. Langer explica por que nenhuma dessas imagens precisa ser reduzida a uma proposição discursiva para produzir conhecimento. Gibran lembra poeticamente que morte, separação e retorno podem ser pensados como movimentos, não apenas como pontos finais. Schopenhauer vê sofrimento na individuação. Kierkegaard exige que o eu não resolva seu desespero fugindo da tarefa de tornar-se aquilo que é. Freud e Lacan retiram-nos o conforto de imaginar um eu completamente transparente.
E Evangelion reúne todos esses problemas na praia.Não há ali uma solução filosófica definitiva. Há corpos, distância, toque, violência, possibilidade. Isso talvez seja mais importante.
Porque a Instrumentalidade Humana oferecia resposta demais. Era uma solução final para um problema que talvez somente permaneça humano enquanto continuar sem solução final. O ritual começa com a tentativa de superar a condição individual. Termina devolvendo-nos a ela.
E talvez toda a extravagância simbólica do Terceiro Impacto exista para nos conduzir de volta àquilo que parecia pequeno demais para exigir tamanha metafísica:
eu estou aqui.
Você está aí.
Há uma distância entre nós.
E tudo aquilo que chamamos de amor, medo, ética, desejo, linguagem, solidão e esperança começa dentro desse intervalo.

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