sexta-feira, 18 de setembro de 2026

A Instrumentalidade Humana VI - A Questão da Identidade: três formas de sustentar um Eu

Até aqui, foi possível tratar Neon Genesis Evangelion quase sem explicar Neon Genesis Evangelion. O vazio, a solidão, o desejo, o desespero e a impossibilidade de alcançar completamente outra consciência puderam aparecer antes que fosse necessário interromper a reflexão para esclarecer quem é Lilith, por que adolescentes pilotam gigantes biomecânicos ou por que uma organização alemã chamada “alma” pretende reorganizar a espécie humana. Mas, a partir deste ponto, os personagens ocuparão o centro da investigação, e alguma cartografia se torna inevitável. Não para justificar a importância da obra, mas para estabelecer o mínimo denominador comum de um mundo cuja metafísica acabará determinando as escolhas de cada um deles.

O enredo de Evangelion mobiliza livremente elementos da tradição judaico-cristã, da Cabala, do gnosticismo e de outras matrizes religiosas, reorganizando-os numa mitologia própria. Não se trata de uma transposição teológica rigorosa; Adão, Lilith, a Lança de Longinus, os Anjos, os frutos da Vida e da Sabedoria pertencem em Evangelion a um sistema ficcional que toma emprestados nomes antigos para construir outra cosmologia. E talvez seja justamente essa liberdade que permita à obra transformar símbolos religiosos em representações dos dilemas morais e existenciais que nos interessam.

Tudo começa há bilhões de anos, quando um objeto esférico gigantesco, denominado “Lua Negra”, colide com a Terra; eis o chamado Primeiro Impacto. A colisão lança uma grande quantidade de matéria em órbita e está ligada à formação da Lua. Mas a “Lua Negra” não era apenas um corpo celeste. Em seu interior encontrava-se Lilith, uma das chamadas Sementes da Vida.

O problema é que outra Semente já havia chegado à Terra: Adão, transportado pela “Lua Branca”.  Sob hipótese alguma as duas deveriam coexistir no mesmo planeta.

Cada Semente traz consigo uma Lança de Longinus, instrumento destinado, entre outras funções, a impedir justamente essa coexistência irregular. A lança de Lilith, entretanto, perde-se com a colisão. A de Adão entra em ação e o reduz a um estado de suspensão, deixando Lilith livre para disseminar a matéria primordial da qual se desenvolveria a vida terrestre.

Dessa forma, a humanidade descende de Lilith.

Os Anjos descendem de Adão.

Duas linhagens disputam, portanto, uma Terra que jamais deveria ter pertencido simultaneamente às duas. Essa origem já contém, em escala cosmológica, um dos motivos que encontraremos continuamente em escala humana: duas existências que não deveriam ocupar o mesmo espaço, mas que, uma vez colocadas frente a frente, precisam descobrir se podem coexistir sem destruir uma à outra.

Em 2000, uma expedição científica na Antártida encontra Adão e a Lança de Longinus. Experimentos realizados com aquela entidade culminam numa catástrofe. A tentativa de controlar Adão fracassa e desencadeia o chamado Segundo Impacto. Para impedir uma destruição ainda maior, Adão é reduzido a uma forma embrionária. O desastre, contudo, já havia começado.

A Antártida é devastada e o equilíbrio climático do planeta é profundamente alterado. O nível dos mares se eleva. Fome, deslocamentos populacionais e conflitos políticos espalham-se pelo mundo. Direta ou indiretamente, aproximadamente metade da população humana desaparece.

A versão oficial apresentada à humanidade atribui a catástrofe ao impacto de um meteorito. Como frequentemente acontece em Evangelion, aquilo que o mundo acredita ter acontecido e aquilo que efetivamente aconteceu são coisas diferentes. Mesmo a história possui seu Campo A.T.: uma superfície pública protegendo alguma coisa escondida abaixo dela. Entre os poucos sobreviventes do epicentro estava uma adolescente chamada Misato Katsuragi.

Seu pai, integrante da expedição, salva sua vida antes de morrer no desastre. Anos depois, Misato torna-se diretora de operações da NERV. Sua presença será particularmente importante para nossa investigação porque nela sobrevivência, culpa, sexualidade, afeto e autoridade coexistem de maneira desconfortável. A mulher que comanda operações militares contra criaturas capazes de destruir cidades é também alguém que jamais conseguiu organizar inteiramente os escombros deixados pelo próprio passado. Como quase todos em Evangelion, aprendeu a funcionar muito antes de aprender a estar inteira.

Nos anos seguintes ao Segundo Impacto, a organização secreta SEELE (Seele, “alma”, em alemão) conduz um projeto muito mais ambicioso do que a reconstrução material da humanidade. Descobre-se que a Lua Negra de Lilith permanece sob o Japão, numa enorme cavidade subterrânea chamada Geofront. Acima dela será construída Tóquio-3; em seu interior, o quartel-general da NERV. Sob o comando de Gendo Ikari, a NERV desenvolve os EVAs.

À primeira vista são robôs gigantescos.

Não são.

As placas metálicas que lhes dão aparência mecânica funcionam muito mais como contenção do que como simples armadura. Sob elas existem organismos vivos. Os Evangelions são gigantes biomecânicos criados a partir das Sementes da Vida e constituem praticamente a única arma capaz de confrontar os Anjos em igualdade de condições.

A maioria deriva de Adão. A Unidade 01 constitui a exceção decisiva: deriva de Lilith. Mas a natureza do EVA não se encerra no corpo. Cada unidade precisa também de uma alma.

No interior da Unidade 01 encontra-se Yui Ikari, cientista, esposa de Gendo e mãe de Shinji. Durante uma experiência de contato, Yui é absorvida pelo Evangelion. Aquilo que inicialmente parece apenas acidente torna-se progressivamente mais ambíguo, porque a própria Yui possuía planos que ultrapassavam aquilo que aqueles ao seu redor conseguiam compreender.

Para Gendo, porém, permanece uma ausência. E é a partir dessa ausência que começa a surgir seu verdadeiro projeto.

Ele abandona Shinji ainda criança e passa os anos seguintes trabalhando dentro da NERV enquanto prepara secretamente uma instrumentalização diferente daquela pretendida pela SEELE. Pai e filho passam a existir praticamente como estranhos unidos por uma mulher que está ausente dos dois e, paradoxalmente, continua literalmente presente dentro do objeto que acabará obrigando-os a reencontrar-se.

Em 2015, quinze anos após o Segundo Impacto, a humanidade aparentemente conseguiu reconstruir grande parte daquilo que perdeu. A economia voltou a funcionar, cidades foram erguidas e existe novamente uma aparência de normalidade.

Mas é uma normalidade construída à sombra da próxima catástrofe, pois os Anjos começam a retornar.

Quando o Terceiro Anjo ataca Tóquio-3, os meios militares convencionais mostram-se inúteis. Nem mesmo as bombas N² conseguem destruí-lo. Nesse mesmo dia, Shinji Ikari, então com quatorze anos, chega à cidade após receber uma convocação de seu pai. Quem o encontra é Misato Katsuragi.

Pouco depois, Shinji é levado ao quartel-general da NERV e colocado diante de Gendo, que não o chamou para reconciliar-se, explicar os anos de abandono ou descobrir como anda a escola. Chamou-o para pilotar.

Shinji não é escolhido por nepotismo sentimental. Existe uma razão muito mais cruel para sua convocação: sua compatibilidade extraordinária com a Unidade 01 está relacionada à presença de Yui em seu interior.

A máquina que deverá protegê-lo contém a mãe que perdeu. O homem que o obriga a entrar nela é o pai que o abandonou. E o garoto passa a descobrir seu próprio valor a partir da capacidade de executar uma função para ambos. É difícil imaginar uma configuração familiar mais saudável.

Ao redor de Shinji estarão três mulheres fundamentais para o desenvolvimento de sua consciência e para a maneira como Evangelion representará seus conflitos com a alteridade.

Misato Katsuragi, além de superior de Shinji na NERV, torna-se sua responsável legal e passa a viver com ele. A convivência cria uma relação difícil de classificar sem empobrecê-la: Misato ocupa sucessivamente lugares de comandante, responsável, amiga, irmã mais velha, figura materna e mulher adulta cuja própria fragilidade frequentemente invade essas funções. Ela deseja cuidar e precisa ser cuidada. Procura intimidade e teme aquilo que a intimidade revela. Sua vida profissional demonstra enorme competência; sua existência afetiva permanece cheia de ruínas cuidadosamente empilhadas.

Rei Ayanami, piloto da Unidade 00, é talvez a personagem que mais radicalmente coloca em dúvida aquilo que chamamos de identidade individual. Seu corpo deriva de Yui Ikari, enquanto sua existência está profundamente ligada a Lilith. Há mais de uma Rei, mais de um corpo capaz de receber aquilo que produz a continuidade dessa identidade, e por isso a própria pergunta “quem é Rei?” torna-se progressivamente difícil de responder. Ela parece inicialmente quase vazia de vontade própria, determinada pelas ordens de Gendo e por uma existência que lhe foi preparada por outros. É justamente por isso que pequenas manifestações de escolha adquirem nela tamanho peso: para alguém cuja identidade parece ter sido construída externamente, desejar alguma coisa por conta própria já constitui uma espécie de revolta metafísica.

Asuka Langley Soryu, piloto da Unidade 02, aparece quase como o oposto de Rei. Onde Rei parece retraimento, Asuka é afirmação. Onde uma silencia, a outra invade o espaço. Inteligente, precoce, competitiva e ferozmente orgulhosa, Asuka construiu grande parte de sua identidade em torno da necessidade de provar valor. A autoconfiança que exibe, entretanto, depende perigosamente da confirmação exterior. Sua infância foi marcada pela deterioração psíquica e pela morte da mãe, e pilotar o Eva torna-se muito mais do que uma capacidade: torna-se fundamento de sua própria dignidade. Enquanto consegue ser excepcional, consegue existir. Quando deixa de conseguir, começa a descobrir quão pouco havia construído de si fora dessa excepcionalidade.

Shinji, Rei e Asuka são crianças chamadas para operar criaturas gigantescas porque os adultos que criaram aquele mundo já não conseguem controlá-lo sozinhos. Os adolescentes recebem a responsabilidade de salvar uma humanidade cuja catástrofe foi preparada por gerações anteriores, enquanto carregam feridas produzidas por esses mesmos adultos. Os monstros chegam do exterior, mas as condições que tornam a tragédia possível foram construídas dentro da própria humanidade.

Os confrontos se sucedem. Os Anjos são derrotados. E, enquanto isso, alguma coisa cresce dentro da Unidade 01. Durante o confronto com um dos Anjos, o EVA-01 desperta, demonstra uma autonomia que ultrapassa aquilo que a NERV deveria ser capaz de controlar e absorve um motor S², adquirindo uma fonte de energia potencialmente ilimitada.

A partir desse momento, a SEELE começa a compreender que Gendo não está simplesmente executando o Projeto de Instrumentalidade nos termos definidos por ela. A Unidade 01 tornou-se algo que não deveria existir. Um corpo derivado de Lilith contendo a alma de Yui, agora possuidor de uma fonte de energia associada aos descendentes de Adão. Aquilo que a mitologia da série havia mantido separado começa novamente a reunir-se.

E a preocupação da SEELE é bastante clara: não necessita de um deus materializado, muito menos de um deus submetido à vontade de Gendo Ikari. É aqui que o Projeto de Instrumentalidade Humana começa a revelar sua verdadeira dimensão. Durante quase toda a série, os personagens sofrem porque existem separados uns dos outros.

Não conseguem comunicar-se perfeitamente. Interpretam mal. Ferem. São abandonados. Desejam ser reconhecidos. Temem aquilo que o reconhecimento poderá revelar. Criam Campos A.T. psicológicos muito antes que a série explicite plenamente o significado metafísico desses campos.

A Instrumentalidade propõe resolver esse problema não aperfeiçoando a comunicação, mas eliminando aquilo que a torna necessária. Se as consciências humanas permanecem separadas porque seus Campos A.T. preservam as fronteiras do indivíduo, basta destruir esses campos.

Os corpos perdem sua forma. As fronteiras desaparecem. As consciências retornam a um estado comum. Já não haverá incompreensão porque não haverá interioridades inteiramente exteriores umas às outras. Já não haverá abandono porque ninguém poderá verdadeiramente partir. Já não haverá solidão porque já não haverá um indivíduo separado capaz de estar sozinho. E então aparece a pergunta que acompanhava a obra desde muito antes de sabermos que ela estava sendo formulada: qual é o preço?

No momento decisivo de The End of Evangelion, Shinji Ikari encontra-se no centro desse processo. O garoto que passou a vida desejando aprovação, fugindo da rejeição e tentando descobrir se sua existência tinha algum valor recebe finalmente aquilo que parecia desejar: um mundo sem a distância dolorosa entre ele e os outros.

Mas um mundo sem distância é também um mundo sem fronteira. E um mundo sem fronteira talvez seja um mundo sem indivíduo. Shinji é confrontado, portanto, não com uma escolha simples entre um mundo ruim e outro bom, mas com duas formas diferentes de sofrimento. Pode aceitar a Instrumentalidade, abolindo a separação e entregando sua individualidade a uma unidade em que ninguém mais estaria verdadeiramente sozinho. Ou pode rejeitá-la e retornar a um mundo em ruínas no qual os outros continuarão capazes de rejeitá-lo, abandoná-lo, julgá-lo, feri-lo e compreendê-lo apenas parcialmente.

Um mundo onde o amor continuará possível precisamente porque a rejeição também continuará possível. Considerando tudo aquilo que Shinji experimentou até esse momento, a pergunta deixa de ser apenas o que ele fará. Torna-se algo muito mais incômodo: quando existir como indivíduo significa aceitar novamente a possibilidade do sofrimento, que razão pode alguém encontrar para continuar desejando ser um indivíduo.

E se Neon Genesis Evangelion representa a existência como um problema de fronteiras, seus personagens não enfrentam essas fronteiras da mesma maneira. Alguns se escondem atrás delas. Outros atacam antes que alguém possa aproximar-se. Outros ainda parecem quase não possuir, de início, uma identidade capaz de reclamar para si aquilo que existe dentro delas.

Misato Katsuragi, Asuka Langley Soryu e Rei Ayanami são três respostas diferentes à mesma dificuldade: como construir e sustentar um eu quando esse eu depende inevitavelmente de relações que também podem feri-lo? Nenhuma das três constitui uma “solução”. Todas são tentativas. E todas falham de alguma maneira.

Misato Katsuragi pertence à geração que viu o mundo literalmente acabar uma primeira vez. Ainda adolescente, sobrevive ao Segundo Impacto porque seu pai a salva antes de morrer. A relação entre ambos estava longe de ser simples. Misato ressentia-se da ausência paterna e do modo como o trabalho consumia aquele homem; depois, é justamente ele quem sacrifica a própria vida para garantir que a filha sobreviva.

O pai que ela havia aprendido a julgar torna-se, no último instante, aquele a quem deve a continuação da própria existência. É difícil imaginar fundamento mais propício para uma relação tranquila com culpa, amor e abandono.

Após o desastre, Misato passa um longo período praticamente sem falar. Mais tarde, contudo, encontra uma forma de funcionar extraordinariamente bem. Torna-se competente, expansiva, barulhenta, sexualmente livre, profissionalmente respeitada. Na NERV, ocupa posição de autoridade e demonstra repetidamente inteligência estratégica, coragem e capacidade de decidir sob pressão.

Seu apartamento oferece outra versão dela: desorganização, bebida, solidão, relações mal resolvidas. Uma necessidade de afeto que sua competência profissional não consegue abolir. Não se trata simplesmente da velha oposição entre “máscara pública” e “eu verdadeiro”, como se houvesse uma Misato autêntica escondida sob uma Misato falsa. As duas existem. O problema é que nenhuma consegue integrar inteiramente a outra. Isso nos devolve a Kierkegaard.

Em O desespero humano, o eu não é uma substância imóvel escondida sob as aparências; é uma relação que precisa relacionar-se consigo mesma. O desespero pode justamente aparecer quando as diferentes determinações dessa existência não conseguem ser assumidas como pertencentes ao mesmo eu.

Misato sabe comandar. Sabe seduzir. Sabe cuidar. Sabe brincar. Sabe também fugir. Mas saber desempenhar todos esses papéis não responde à pergunta acerca de quem os desempenha.

Sua relação com Kaji torna esse conflito ainda mais claro. Misato reconhece nele algo que a remete ao próprio pai e, quando percebe essa semelhança, afasta-se. O amor aproxima justamente aquilo de que tentava fugir. O homem desejado torna-se espelho do homem ressentido e perdido.

Freud seria um interlocutor inevitável nesse ponto. Aquilo que julgamos superado pode retornar através da repetição, deslocado para novas pessoas e novas situações. O passado não precisa reaparecer com o mesmo rosto para continuar organizando o presente. Misato ama Kaji. Mas não ama apenas Kaji. Ama também através de uma história que começou antes dele.

Esse é um dilema real muito mais comum do que gostaríamos de admitir. Nenhuma relação começa numa consciência vazia. Levamos conosco antigas expectativas, medos, modelos de afeto, experiências de abandono e maneiras aprendidas de proteger-nos. Encontramos uma pessoa nova com instrumentos emocionais construídos diante de pessoas antigas. Às vezes chamamos isso de experiência. Às vezes, infelizmente, fazemos o outro pagar parcelas de uma dívida que nunca contraiu.

Misato também tenta cuidar de Shinji e Asuka. Torna-se responsável pelos dois, mas não dispõe de uma posição adulta tão estável quanto o cargo sugere. Em certos momentos é mãe; em outros, irmã; em outros, comandante; em outros ainda, uma mulher igualmente perdida tentando impedir que duas crianças se destruam enquanto ela própria mal sabe o que fazer com os destroços de sua vida.

Isso não diminui seu cuidado, mas acaba por torná-lo mais trágico. Ela oferece aos outros justamente aquilo que nunca recebeu de maneira simples: presença. E, ao fazê-lo, descobre que amar alguém não significa possuir os meios necessários para salvá-lo. A competência que funciona numa sala de operações comandando uma equipe de profissionais extremamente complexa encontra um limite diante da consciência do outro.

Não existe protocolo de emergência capaz de obrigar Shinji a desejar viver. Não existe comando militar capaz de devolver a Asuka uma identidade em colapso. Misato consegue enviar os EVAs para a batalha, mas não consegue ordenar que outro ser humano deixe de sofrer. Talvez esse seja seu dilema mais profundo: o reconhecimento de que cuidado e poder não são a mesma coisa.

Asuka Langley Soryu também nasce dentro de uma estrutura familiar profundamente fraturada. Sua mãe, Kyoko, participa de experimentos relacionados ao EVA-02 e sofre uma grave ruptura psíquica depois deles. Passa a reconhecer uma boneca como filha, enquanto a própria Asuka presencia a substituição simbólica de seu lugar no afeto materno. Mais tarde, encontra a mãe morta.

O abandono, nesse caso, assume uma forma particularmente cruel: Asuka está presente e, ainda assim, deixa de ser reconhecida. Talvez seja por isso que o reconhecimento se transforme para ela em questão de sobrevivência.

Shinji recua. Asuka avança. Shinji hesita. Asuka proclama. Shinji teme não ser necessário. Asuka tenta tornar impossível que alguém ignore sua necessidade.

Sua arrogância não constitui ausência de fragilidade. É uma arquitetura construída sobre ela. Asuka apresenta ao mundo uma certeza incessante: posso fazer sozinha. Sou melhor. Fui escolhida. Não preciso de ninguém.

Mas aquilo que precisa ser afirmado com tamanha frequência raramente está tão seguro quanto pretende parecer. Sua identidade passa a depender progressivamente daquilo que consegue realizar como piloto. No mangá de Yoshiyuki Sadamoto, ela formula com clareza essa associação entre excelência e felicidade: se foi escolhida entre tantos, se luta, vence e é reconhecida por isso, então poderá ser feliz. A frase contém praticamente toda a tragédia posterior. Não diz apenas “quero pilotar bem”. Diz, implicitamente: se eu for reconhecida pelo que faço, talvez consiga acreditar que aquilo que sou merece existir.

O desempenho deixa de ser atividade e torna-se um fundamento ontológico. É aqui que o desespero kierkegaardiano do desafio oferece uma aproximação particularmente fecunda. No desafio, o eu pretende ser ele mesmo por sua própria força, construir-se como se pudesse tornar-se fundamento de si. Não necessita aceitar dependência, fragilidade ou determinação alguma que não tenha escolhido. 

Asuka parece viver precisamente essa fantasia. Não quer precisar. Não quer ser protegida. Não quer admitir carência. Deseja produzir, através da excelência, um eu invulnerável. Se for suficientemente boa, ninguém poderá reduzi-la novamente à criança que não foi reconhecida pela própria mãe. O problema é que essa construção exige confirmação contínua.  Ela firma que não precisa dos outros ao mesmo tempo em que necessita desesperadamente do olhar deles.

Sua independência depende de testemunhas.

Esse paradoxo aproxima sua experiência de uma contradição cada vez mais familiar no mundo contemporâneo: somos instruídos a construir autonomamente nossa identidade e, simultaneamente, convidados a medi-la por sinais externos de reconhecimento.

Seja você mesmo. Mas seja alguém que possa ser reconhecido como excepcional. Não dependa da opinião dos outros. Mas não deixe de verificar se estão olhando. A sociedade conseguiu transformar independência em espetáculo coletivo, façanha que mereceria admiração se não fosse tão exaustiva.

Asuka trata também o EVA-02 como extensão dessa identidade. Dominar a máquina significa dominar o mundo exterior. Ela conhece tecnicamente o Evangelion, exige desempenho, despreza falhas e compreende inicialmente a unidade como instrumento. Mas o EVA não é uma máquina.

E a relação com ele não pode ser reduzida ao domínio técnico. Quando sua capacidade de sincronização começa a ruir, Asuka perde muito mais do que eficiência profissional. Perde o principal sistema através do qual vinha demonstrando a si mesma que possuía valor.

É aí que sua estrutura desaba. O ataque psíquico que sofre força a emergência daquilo que sua persona agressiva mantinha afastado: abandono, humilhação, necessidade, medo. O problema não foi criado pelo ataque. Foi exposto.

A agressividade que parecia excesso de personalidade revela-se mecanismo defensivo. Aquilo que Asuka combate com maior violência no exterior aproxima-se demais daquilo que não consegue tolerar em si: fraqueza. Dependência. Carência. A necessidade de ser amada.

Schopenhauer acrescentaria outra crueldade à situação: a vontade não deixa de querer simplesmente porque reconhecemos racionalmente que determinado desejo nos destrói. Asuka sabe que depende excessivamente do reconhecimento. Isso não a torna capaz de parar de desejá-lo. Saber não é libertar-se.

Quando, em The End of Evangelion, ela finalmente reconhece a presença da mãe no interior do EVA-02, há uma recomposição fulminante. Asuka compreende que aquilo que julgava abandono absoluto continha uma presença que desconhecia.

“Mamãe. Era você quem esteve me protegendo por todo este tempo”, diz na versão do mangá utilizada aqui. Eu evitaria chamar esse instante de cura. Ele é talvez mais trágico justamente porque não é. Não há tempo suficiente para uma reconstrução lenta da identidade.

Há revelação. Há força. Há um reencontro momentâneo entre aquilo que Asuka acreditava ser e uma parte do passado que havia organizado silenciosamente sua existência.

Ela volta a lutar.

Mas a série não nos concede o conforto de transformar reconhecimento em terapia instantânea. A descoberta não apaga a infância. Não elimina sua necessidade de validação. Não desfaz as feridas. Oferece apenas uma nova relação com aquilo que julgava ter sido abandono absoluto. E talvez seja essa uma formulação muito mais próxima da experiência real. Algumas descobertas não curam. Elas apenas modificam aquilo que a ferida significa.

Se Asuka constrói desesperadamente uma identidade, Rei Ayanami parece surgir inicialmente quase sem uma. 

Piloto da Unidade 00, Rei apresenta-se como presença silenciosa, obediente, pouco preocupada com autopreservação e profundamente ligada a Gendo Ikari. Mas essa aparente ausência de interioridade é enganosa. Rei não é vazia. Ela foi construída dentro de condições que lhe ensinaram a tratar a própria individualidade como algo secundário.

Seu corpo deriva de Yui Ikari. Sua alma está relacionada a Lilith. Há mais de uma Rei. Quando uma morre, outra pode ocupar seu lugar. Poucas personagens poderiam formular de maneira mais brutal a pergunta: o que torna alguém a mesma pessoa?

O corpo? A memória? A continuidade da consciência? O reconhecimento dos outros? Uma alma? Um nome? Se outra pessoa possui meu rosto e recebe meu nome, em que ponto ela deixa de ser continuação e passa a ser substituição?

A interrogação de Rei é, por isso, ainda mais radical do que a de Asuka. Essa pergunta como sustentar uma identidade, aquela precisa primeiro descobrir se existe alguma identidade que possa chamar verdadeiramente de sua.

Lacan torna-se aqui particularmente útil. O eu não nasce pronto e isolado. Constitui-se através de imagens, relações, linguagem e identificações. Recebemos do exterior parte dos materiais com os quais mais tarde dizemos “eu”.

Rei radicaliza essa condição comum: seu nome é dado. Seu corpo é produzido. Sua função é definida. Seu lugar está preparado antes que ela demonstre qualquer vontade própria. Ela existe num mundo em que outros parecem saber quem ela é antes que ela própria possa fazer a pergunta. Isso oferece uma ponte evidente para dilemas muito menos fantásticos.

Todos recebemos identidades antes de escolhê-las. Um nome, uma família, uma língua, expectativas, papéis sociais, descrições sobre o que somos e como devemos ser.  Entramos numa história que já começou.

A diferença é que, em Rei, Evangelion retira quase todas as sutilezas dessa condição e deixa o problema exposto. Ela foi literalmente construída para ocupar uma função. E é justamente por isso que seus pequenos atos de escolha adquirem tamanho valor.

No início, Gendo funciona como seu grande referencial. Ele lhe atribui finalidade. Ele sabe de sua origem. Ele representa uma espécie de autoridade criadora diante da qual Rei quase não reivindica autonomia. 

A aproximação com Shinji começa a alterar essa estrutura. Não porque Shinji lhe entregue uma identidade pronta, mas porque introduz outra relação possível. Rei começa a agir de maneiras que já não podem ser explicadas exclusivamente por aquilo que Gendo determinou para ela. Pequenos gestos tornam-se sinais de individuação.

Uma escolha. Uma hesitação. Um afeto. Uma recusa. Para a maioria das pessoas seriam acontecimentos banais. Para Rei, são saltos existenciais.

Sua relação com o Anjo que invade a Unidade 00 torna visível aquilo que ela própria mal consegue formular. O inimigo expõe solidão, desejo e apego a Shinji. Aquilo que parecia ausência afetiva revela uma interioridade que já havia começado a exceder a função para a qual foi criada.

Quando Rei aciona a autodestruição do EVA-00 para impedir que o Anjo alcance Shinji, seu gesto pode ser interpretado como sacrifício. Mas existe nele uma ironia terrível, pois a personagem que passou grande parte da história tratando a própria existência como substituível realiza um ato em que sua escolha individual finalmente se afirma no momento em que seu corpo é destruído. Pouco depois surge outra Rei. A Terceira.

Ela não possui inicialmente lembrança consciente de tudo aquilo que a anterior experimentou. Ainda assim, aparecem resíduos, afetos, desconfortos e sinais de uma continuidade difícil de explicar apenas pela memória.

A pergunta torna-se inevitável: a morte da segunda Rei significa que aquela pessoa deixou de existir? Se a terceira chora sem saber por quê, o que exatamente sobreviveu? A série recusa uma resposta simples. E faz bem, porque qualquer definição demasiadamente limpa da identidade destruiria justamente o problema que Rei representa.

A perspectiva que temos buscado em Olavo de Carvalho acerca da primazia da experiência individual também pode ser colocada aqui sob pressão. Uma descrição externa pode dizer que Rei é “clone”, “recipiente”, “piloto”, “substituta”.

Mas nenhuma dessas categorias esgota aquilo que passa a acontecer na consciência que recebe esses nomes. A identidade não se torna verdadeira apenas porque foi socialmente atribuída. Mas também não nasce completamente livre das determinações recebidas. Rei não precisa descobrir uma essência pura escondida sob todos os papéis. Precisa começar a responder por aquilo que faz com eles. Nesse ponto, ela aproxima-se novamente de Kierkegaard. O eu não é simplesmente matéria recebida. É relação com aquilo que recebeu. Rei torna-se progressivamente mais “Rei” justamente quando deixa de aceitar que os outros possuam a última palavra sobre aquilo que significa sê-la. Isso culminará em sua relação com Gendo.

O homem que durante tanto tempo funcionou como centro de sua existência presume que continuará sendo capaz de utilizá-la segundo seu projeto. Mas Rei recusa.

Esse gesto vale mais do que uma longa declaração de independência porque atinge exatamente a estrutura sobre a qual sua identidade havia sido organizada. A criatura diz não ao criador. Não se trata ainda de liberdade absoluta. Nunca se trata. Mas existe ali escolha.

E escolha produz responsabilidade.

Rei retorna a Lilith e participa decisivamente do início da Instrumentalidade, mas já não como simples instrumento de Gendo. A decisão passa por Shinji, e a personagem cuja existência havia sido concebida para servir a projetos alheios torna-se justamente aquela que rompe um desses projetos e permite que outra consciência enfrente a decisão central da obra.

Há nisso uma inversão belíssima: Asuka constrói um eu tão agressivamente que quase não consegue tolerar sua fragilidade. Rei começa com um eu aparentemente tão tênue que precisa descobrir se possui o direito de desejar. Misato vive entre diferentes versões de si que jamais se integram completamente.

As três procuram reconhecimento. As três temem abandono. As três desejam relações que também as ameaçam. Mas cada uma transforma esse problema numa estratégia distinta.

Misato tenta permanecer funcional. Asuka tenta tornar-se indispensável. Rei tenta descobrir se aquilo que foi criado pelos outros pode algum dia tornar-se realmente seu. Esses dilemas não pertencem apenas a pilotos de EVAs. A diferença entre nós e elas é apenas a escala.

Poucos precisam provar o próprio valor derrotando criaturas capazes de extinguir a humanidade. Para nossa sorte, avaliações de desempenho corporativo costumam utilizar métodos um pouco menos destrutivos.

Mas a estrutura permanece reconhecível. Há quem transforme produtividade em identidade. Há quem aprenda a cuidar de todos para não precisar perguntar quem cuidará de si. Há quem passe tantos anos vivendo segundo descrições recebidas que já não saiba distinguir aquilo que escolheu daquilo que simplesmente aprendeu a representar.

Talvez seja justamente por isso que essas personagens sobrevivam à extravagância do mundo em que foram colocadas. Não porque sejam modelos. São quase o contrário. Elas tornam visíveis mecanismos que preferimos experimentar de maneira menos explícita.

A representação desses dilemas em Neon Genesis Evangelion não depende de os personagens possuírem respostas corretas, depende justamente de vê-los construir respostas inadequadas para problemas reais, e depois assistir ao momento em que essas respostas deixam de funcionar.

Misato descobre que competência não substitui integração. Asuka descobre que excelência não garante valor. Rei descobre que uma identidade recebida não elimina a possibilidade de escolha. Nenhuma dessas descobertas resolve inteiramente suas vidas. Mas todas preparam o terreno para aquele em quem as perguntas aparecerão simultaneamente.

Shinji Ikari.

Continua

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