Não sei quando te encontrei,
não sei quando te perdi.
Sei somente que estiveste
em alguma parte de mim.
não sei quando te perdi.
Sei somente que estiveste
em alguma parte de mim.
De repente, a conversa
se estendia noite afora;
não sabíamos que a hora
também passava por nós.
E a noite ficava imensa,
e o dia, sem diferença,
cabia inteiro na voz.
Falávamos das histórias
que nos faziam chorar,
dos pais, dos seus desacertos,
dos sonhos por realizar;
e, entre problemas e planos,
entre os risos e os enganos,
havia um mundo a inventar.
Tu me mostraste outras vidas,
outras formas de olhar,
tantas músicas tão belas,
tantos mundos para amar.
E aquilo que eu não via,
pela tua companhia,
comecei então a enxergar.
Não sei quando te encontrei,
não sei quando te perdi.
Sei somente que estiveste
em alguma parte de mim.
não sei quando te perdi.
Sei somente que estiveste
em alguma parte de mim.
A idade já não contava,
nem parecia existir.
Às vezes eu até pensava
que inventara a ti.
Pois como pode uma amizade
nascer de tanta distância
e, ainda assim, permanecer
quando tudo chega ao fim?
Mas houve um encontro apenas.
Um só. E basta lembrar:
teu abraço junto ao meu,
forte, como a prometer
que nenhum dos dois soltava,
que aquela tarde ficava,
que não haveria adeus.
Eras amigo, antes de tudo,
e em confiança me abriste
lugares que eram tão teus,
feridas que escondias
e que eu, no teu lugar,
talvez não ousasse entregar
a ninguém neste mundo.
Não sei quando te encontrei,
não sei quando te perdi.
Sei somente que estiveste
em alguma parte de mim.
não sei quando te perdi.
Sei somente que estiveste
em alguma parte de mim.
Confesso: em algum momento,
amizade já não bastava.
Havia alguma coisa a mais
que meu silêncio guardava.
Mas não houve tempo algum
para saber o que seria.
A vida, às vezes, interrompe
justamente o que nascia.
Depois, teu pai te levou.
Tua mãe ficou para trás,
doente, perdida em si mesma,
e nós, cada vez mais sós.
Pouco a pouco, as nossas vozes
foram ficando mais distantes;
tu começaste a trabalhar,
e os dias, sempre tão grandes,
começaram a nos separar.
E há nisso uma ironia:
não sei sequer recordar
como começamos a falar,
nem quando nasceu amizade.
E tampouco sei precisar
o dia em que, sem saber,
pela última vez falamos.
Não sei quando te encontrei,
não sei quando te perdi.
Sei somente que estiveste
em alguma parte de mim.
não sei quando te perdi.
Sei somente que estiveste
em alguma parte de mim.
Por isso, tantos anos depois,
quando a noite desce fria,
ou quando desponta o dia,
ainda penso em perguntar:
Será que pensas em mim?
Será que perguntas por mim?
Será que, em alguma noite,
também te pões a lembrar?
Pergunto se houve tragédia,
se houve somente distância,
se a vida, com sua constância,
nos separou sem querer.
E então escuto, ao longe,
aquela música outra vez,
e a pergunta permanece
como quem não sabe morrer:
Será que vela como eu?
Será que chama como eu?
Será que pergunta por mim?
E se a voz da noite responde,
se atravessa o escuro enfim,
talvez diga que estás longe,
talvez diga que estás aqui.
Talvez sejamos dois nomes
perdidos na mesma estrada,
duas vozes que se procuram
sem nunca dizer mais nada.
E quando a noite perguntar
onde estou eu, onde estás tu,
talvez a resposta seja
somente o silêncio azul:
estamos cá dentro de nós, sós.
Onde estarás?
Não sei quando te encontrei,
não sei quando te perdi.
Sei somente que estiveste
em alguma parte de mim.

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