sexta-feira, 18 de setembro de 2026

A Instrumentalidade Humana VII - O difícil aprendizado de existir e a economia do reconhecimento

Se Neon Genesis Evangelion pode ser compreendido como uma espécie de romance de formação, é preciso acrescentar imediatamente que se trata de uma formação profundamente estranha.

Na forma clássica de um Romance de Formação o jovem atravessa experiências que gradualmente lhe permitem constituir uma identidade e encontrar alguma posição possível no mundo. Há conflito, perda e transformação, mas existe normalmente um horizonte de integração: tornar-se adulto significa aprender a relacionar aquilo que se é com aquilo que o mundo exige.

Shinji Ikari recebe uma educação muito menos benevolente, o mundo ao qual deveria integrar-se já está quebrado, os adultos que deveriam orientá-lo carregam seus próprios fracassos. Seu pai é simultaneamente figura paterna, comandante e principal fonte de abandono. Sua mãe está morta para ele e, ao mesmo tempo, permanece dentro da criatura que deverá pilotar. A instituição que lhe oferece uma finalidade utiliza-o como instrumento. E a tarefa através da qual espera conquistar reconhecimento consiste em entrar repetidamente num corpo gigantesco para enfrentar criaturas cuja existência ameaça extinguir a humanidade. Shinji não é introduzido na ordem adulta, é lançado nos escombros dela.

Talvez seja mais apropriado, portanto, falar de um romance de formação negativo, no qual o amadurecimento não significa aprender a ocupar satisfatoriamente um lugar preexistente, mas descobrir progressivamente que nenhum lugar recebido poderá responder sozinho à pergunta acerca de quem se é.

É precisamente por isso que a jornada de Shinji concentra tantos dos dilemas morais e existenciais que Evangelion representa ao longo de sua narrativa: ele precisa do outro, ao mesmo tempo em que tem medo do outro, deseja reconhecimento. Ressente-se daquilo que precisa fazer para consegui-lo. Quer fugir. Teme tornar-se irrelevante se fugir. Quer decidir por si mesmo e tem pavor da responsabilidade implicada na decisão. E, acima de tudo, procura uma razão externa que lhe assegure que sua existência possui algum valor.

Shinji não assume o EVA-01 como um herói épico que aceita espontaneamente um dever diante da coletividade. Ele pilota porque foi colocado numa situação em que recusar parece quase impossível. Seu pai o convoca. Uma cidade está sob ataque. Rei aparece ferida. A alternativa é permitir que alguém aparentemente incapaz de combater seja enviado em seu lugar. Antes mesmo que Shinji possa construir uma vontade própria, o mundo organiza as circunstâncias de modo a produzir sua obediência. Isso será importante para compreendermos sua relação posterior com responsabilidade.

Shinji age inúmeras vezes, mas agir não significa necessariamente ter escolhido. Ele próprio percebe essa diferença. Pilota porque lhe disseram para pilotar e retorna porque esperam que retorne. Busca aprovação porque aprendeu a experimentar o olhar dos outros como medida do próprio valor.

A célebre repetição pela qual tenta convencer-se de que “não deve fugir” contém algo muito mais ambíguo do que simples superação do medo. Pode significar coragem. Pode significar também incapacidade de distinguir perseverança de submissão.

Kierkegaard torna-se particularmente importante na investigação desse ponto. Em O desespero humano, um dos problemas fundamentais do eu consiste precisamente em não conseguir tornar-se aquilo que é. Mas isso possui mais de uma forma. Pode-se desesperar recusando o próprio eu; pode-se também querer fabricar um eu exclusivamente segundo determinações escolhidas por si mesmo.

Shinji parece inicialmente cair antes da primeira dificuldade. Ele quase não reivindica para si o direito de determinar quem deverá ser. Aceita definições externas: filho. Piloto. Covarde. Útil. Inútil. Necessário. Fardo.

As palavras mudam conforme o olhar de quem as pronuncia, e Shinji parece frequentemente recebê-las como se fossem veredictos. Aquilo que discutimos anteriormente sobre a constituição relacional da identidade encontra nele sua forma mais dolorosa. Shinji não pergunta somente: “Quem sou?” Pergunta, continuamente: “Quem sou para vocês?” E talvez mais precisamente: “Quem preciso ser para que vocês não me abandonem?”

O EVA oferece uma primeira resposta. Enquanto pilota, ele é necessário. Enquanto vence, recebe reconhecimento. Enquanto cumpre sua função, existe uma razão objetiva para que os outros o procurem. O problema surge quando essa função começa a tornar-se indistinguível de sua identidade. Se deixar de pilotar, o que sobra?

A pergunta que Asuka experimenta através da perda de sua capacidade de sincronização já existe desde cedo em Shinji por outra via. Se aquilo que faço é a única razão pela qual sou reconhecido, quem serei quando parar de fazê-lo?

É um dilema muito menos fantástico do que seus elementos narrativos sugerem. Carreiras, títulos, desempenho acadêmico, utilidade familiar, produtividade, posição social: seres humanos demonstram extraordinária criatividade para transformar atividades em definições ontológicas. “Faço isto” converte-se facilmente em “sou isto”. E, mais perigosamente: “se eu deixar de fazer isto, talvez deixe de merecer aquilo que recebo dos outros.” O mundo contemporâneo até oferece maneiras menos espetaculares de pilotar EVAs, mas o mecanismo não mudou tanto.

A necessidade de aprovação assume em Shinji uma direção particularmente clara: Gendo. 

O abandono paterno não é apenas uma memória dolorosa. Organiza parte significativa da maneira como Shinji interpreta suas próprias relações. O pai ausente torna-se também o homem diante de quem sua utilidade pode finalmente ser demonstrada. Pilotar oferece uma promessa que nunca precisa ser explicitamente formulada: se eu fizer aquilo que ele precisa, talvez ele reconheça que eu deveria ter permanecido.

Essa esperança é especialmente cruel porque transforma amor em economia. Eu entrego desempenho. Recebo reconhecimento. Eu sou útil, logo, talvez possa ser amado. A relação nunca precisa ser racionalmente formulada dessa maneira para produzir seus efeitos.

Freud já nos ensinara a desconfiar da ideia de que nossos vínculos presentes obedecem apenas àquilo que conscientemente sabemos sobre eles. Relações anteriores persistem, deslocam-se, reaparecem em novas configurações.

Shinji procura o pai, depois procura em outras pessoas aquilo que o pai não ofereceu: a aprovação, a necessidade, a confirmação. Um lugar. Mas nenhum outro consegue simplesmente reparar a primeira falta, porque cada relação possui sua própria alteridade.

Misato não é mãe. Asuka não é resposta para sua solidão. Rei não é substituta simples de Yui, por mais que sua própria existência torne essa relação perturbadoramente complexa. Kaworu, como veremos, parecerá durante algum tempo oferecer uma exceção quase impossível a essa regra. Mas antes dele Shinji aprende repetidamente que o outro não existe apenas para confirmá-lo. E sofre sempre que essa realidade se impõe.

Uma leitura possível de Evangelion como narrativa de formação poderia tratar os Anjos como o “outro” que precisa ser repelido para que o sujeito consolide sua identidade. A interpretação é sugestiva, mas torna-se insuficiente quando confrontada com o restante da obra, porque Evangelion passa progressivamente a borrar a diferença confortável entre humano e Anjo.

Eles possuem Campos A.T. Nós também. Eles desejam sobreviver. Nós também. São classificados como inimigos porque sua existência ameaça a nossa. Mas, vista de fora da perspectiva humana, a situação torna-se perturbadora: descendentes de Adão tentam recuperar um mundo ocupado pelos descendentes de Lilith.

O “outro” deixa de ser simplesmente aquilo que deve ser eliminado para que o eu amadureça e torna-se aquilo cuja existência coloca em questão o direito absoluto do eu de ocupar sozinho o mundo. Isso será fundamental para nosso pequeno e complexado Shinji. Inicialmente, pilotar parece oferecer uma distinção moral simples: há um inimigo. Eu o destruo. Protejo os meus. Mas a série começa a destruir essa simplicidade. O EVA-03 constitui um dos momentos decisivos dessa ruptura.

Isso porque quando o EVA-03 é tomado por um Anjo, Shinji recebe uma ordem aparentemente coerente com tudo aquilo que havia feito até então: destruir o inimigo. O problema é que existe uma pessoa dentro dele, Toji Suzuhara, seu amigo. A partir desse instante, o papel de piloto já não consegue decidir por Shinji. Se obedecer, poderá matar alguém que conhece. Se recusar, poderá permitir que o Anjo destrua outras pessoas. Não existe posição neutra. É justamente aqui que a questão moral começa de verdade.

Shinji recusa-se a atacar. Durante muito tempo, poderíamos chamar isso de covardia, mas a palavra se torna inadequada. Ele não está simplesmente fugindo do perigo. Está recusando o direito de decidir que uma vida concreta pode ser sacrificada para cumprir sua função. Gendo elimina a hesitação ativando o Dummy System e retirando de Shinji o controle da Unidade 01. O EVA destrói brutalmente a Unidade 03. A cena é importante não apenas pelo trauma produzido. Ela dramatiza aquilo que acontece quando uma instituição resolve um dilema moral removendo do indivíduo a responsabilidade de escolher.

Shinji queria não decidir. Gendo decide por ele. E o resultado é monstruoso, a experiência produz uma mudança essencial: até então, Shinji podia dizer que pilotava porque outros lhe haviam dito para fazê-lo. Agora descobre que também existe responsabilidade na recusa de agir. Não escolher não suspende necessariamente as consequências. Às vezes apenas entrega a escolha a alguém menos hesitante. Isso não significa que Shinji devesse simplesmente destruir Toji. A força do dilema está justamente em não oferecer resposta moral confortável. Qualquer decisão teria custo. É essa ausência de saída limpa que começa a destruir sua estratégia habitual. Fugir já não significa permanecer inocente.

É aqui que O conceito de angústia, de Kierkegaard, começa a tornar-se um complemento importante para nossa leitura: a angústia está ligada à possibilidade. Não sofremos apenas diante daquilo que acontece. Sofremos diante daquilo que podemos fazer. A liberdade não aparece necessariamente como libertação jubilosa. Pode aparecer como vertigem. Shinji passa progressivamente a perceber que possui poder. E esse poder é justamente aquilo de que tenta fugir. Pilotar o EVA-01 significa que suas decisões afetam vidas. Depois, significará muito mais do que isso.

O garoto que mal consegue determinar o que deseja para si acaba colocado numa posição em que pode determinar o destino de outros. Essa desproporção constitui uma das grandes crueldades da série. O sujeito que mais deseja transferir suas escolhas recebe cada vez mais poder de escolha. Não porque esse seja seu “verdadeiro eu” escondido sob uma máscara covarde. Pelo contrário. É justamente porque não possui ainda uma identidade capaz de assumir tranquilamente esse poder que a responsabilidade se torna insuportável.

A antiga interpretação segundo a qual Shinji usaria a covardia como máscara para ocultar uma natureza mais poderosa pode, então, ser substituída por algo mais inquietante: Shinji não teme apenas ser fraco. Teme aquilo que poderá fazer se reconhecer que não é completamente impotente.

Essa diferença é enorme pois impotência oferece certa inocência. Se nada posso fazer, nada verdadeiramente depende de mim. Se posso escolher, começo a carregar também aquilo que minha escolha produzir.

Essa questão retorna, radicalizada, em três grandes momentos: o primeiro é o EVA-03, o segundo será Kaworu e terceiro, a Instrumentalidade. Nas três situações, Shinji não precisa simplesmente decidir alguma coisa a respeito de si. Precisa decidir algo que altera a existência alheia.

No EVA-03, deve decidir se atacará alguém para proteger outros. Diante de Kaworu, terá literalmente a vida do outro entre as mãos. Durante a Instrumentalidade, sua decisão alcançará a própria estrutura da existência humana.

A escala aumenta. O problema permanece. O jovem que se habituou a permitir que os outros definissem sua vida torna-se progressivamente alguém cujas decisões podem definir a vida dos outros. É nesse sentido que sua jornada pode ser lida como formação.

Não porque Shinji se transforme gradualmente num herói corajoso, mas porque é obrigado a descobrir que existir como indivíduo significa também existir como agente e agir significa tornar-se capaz de produzir consequências que nenhuma boa intenção consegue anular. Aqui aparece um dos dilemas morais mais importantes de Evangelioncomo assumir responsabilidade sem transformar responsabilidade em direito de dominar?

Gendo possui poder e decide pelos outros. SEELE possui poder e pretende decidir pela humanidade. Shinji teme o poder justamente porque teme reproduzir aquilo que sofreu nas mãos daqueles que decidiram por ele.

Sua hesitação contém fraqueza, mas também contém uma percepção moral real. O outro não é matéria disponível para minha vontade. O problema é que reconhecer isso não elimina situações em que alguma decisão ainda precisa ser tomada.

Durante boa parte da narrativa, Shinji encontra na passividade uma espécie de proteção moral: se obedecer, a decisão pertence a quem deu a ordem. Se fugir, talvez deixe de ser responsável pelo que acontece. Se permanecer indiferente, talvez não possa ser acusado de desejar o resultado.Mas essas estratégias começam a falhar.

A existência não concede inocência simplesmente porque nos recusamos a escolher. Essa descoberta aproxima Shinji de um problema que encontramos também na filosofia de Olavo de Carvalho em sua insistência sobre a consciência individual como lugar concreto do ato e da responsabilidade: há decisões que nenhuma fórmula coletiva, papel institucional ou descrição externa pode realizar no lugar daquele que efetivamente as vive.

Shinji pode ser chamado de piloto. Pode receber ordens. Pode obedecer a uma hierarquia. Nada disso elimina o momento em que ele próprio precisa responder: farei isto?

Esse momento não pode ser terceirizado indefinidamente. Talvez aqui também esteja uma das formas mais profundas do amadurecimento. A criança pode acreditar que o mundo possui adultos que sabem o que deve ser feito. O adulto descobre, com alguma decepção, que muitas vezes existem apenas pessoas igualmente assustadas tomando decisões com informações incompletas. Shinji encontra essa verdade cedo demais.

Há, entretanto, uma tentação persistente: se ser livre significa poder errar, talvez seja mais confortável permanecer fraco. Se escolher significa poder ferir alguém, talvez seja melhor deixar que escolham por mim. Se possuir uma identidade própria significa entrar em conflito com aquilo que os outros esperam, talvez seja mais seguro continuar desempenhando o papel que me deram.

O problema é que essa segurança possui um custo. Aquele que nunca decide por si não evita necessariamente perder-se. Pode simplesmente desaparecer dentro das decisões alheias.

Aqui voltamos a O desespero humano. Não querer ser si mesmo não precisa assumir a forma dramática de desejar morrer. Pode aparecer como disposição constante de tornar-se aquilo que o mundo exige para evitar o risco de assumir a própria existência. Shinji deseja reconhecimento e, justamente por isso, está continuamente tentado a construir-se segundo aquilo que imagina que produzirá esse reconhecimento.

Um bom piloto, um bom filho, uma pessoa útil, alguém necessário. Cada uma dessas identidades promete segurança mas, mesmo assim, nenhuma responde inteiramente à pergunta acerca do eu.

No centro de tudo isso aparece uma descoberta particularmente desagradável: relacionar-se com o outro significa possuir algum poder sobre ele. Quem ama pode abandonar. Quem conhece pode ferir com precisão. Quem é amado pode decepcionar. Quem recebe confiança pode traí-la.

Nós não precisamos de EVAs para experimentar essa responsabilidade. Shinji, porém, vive essa condição em escala literal. Seu corpo está ligado a um instrumento capaz de destruir. Seus afetos estão ligados a pessoas igualmente frágeis. E suas decisões começam progressivamente a adquirir consequências irreversíveis. A pergunta deixa então de ser: “Shinji conseguirá finalmente tornar-se forte?” Essa formulação ainda pertence ao vocabulário infantil da força e da fraqueza. A pergunta mais séria é: Shinji conseguirá aceitar que tornar-se sujeito significa assumir tanto sua capacidade de sofrer quanto sua capacidade de fazer sofrer?

É muito mais fácil imaginar-se apenas vítima.

A vítima possui uma identidade moral relativamente estável. Foi ferida. O outro feriu. Mas amadurecer exige reconhecer uma verdade menos confortável: aquele que foi ferido também pode ferir. A própria dor não concede pureza moral. Talvez seja esse o verdadeiro salto que Shinji hesita em realizar. Não transformar-se em herói. Transformar-se em alguém capaz de reconhecer que sua liberdade tem peso.

Por isso eu não diria que Shinji passa a série procurando sua “identidade real” como se houvesse um núcleo autêntico escondido sob sua covardia. Esse modelo já não parece suficiente depois de tudo aquilo que discutimos. Shinji está construindo uma relação consigo mesmo, e essa relação muda conforme encontra outras consciências.

Gendo oferece abandono e exigência, Misato oferece cuidado imperfeito. Rei oferece uma proximidade silenciosa e estranhamente familiar e Asuka oferece conflito, desejo, agressão e uma alteridade que resiste ferozmente às suas projeções. O EVA-01 oferece simultaneamente poder, proteção, terror e retorno à mãe. Cada encontro acrescenta alguma coisa àquilo que Shinji chama de “eu”.

Lacan seria particularmente útil aqui para impedir a fantasia de um sujeito independente dessas relações. O eu se constitui também pelas imagens e palavras que recebe do outro, mas isso não significa que esteja condenado a ser apenas aquilo que os outros disseram. É justamente nesse intervalo que aparece a liberdade: não escolhemos tudo aquilo que nos constituiu, mas precisamos, em algum momento, responder por aquilo que faremos com isso. Essa parece uma formulação mais madura do problema que percorre toda a jornada de Shinji: não posso escolher o fato de ter sido abandonado, mas preciso escolher o que farei com o abandono. Não posso escolher precisar dos outros, mas preciso descobrir como me relacionarei com essa necessidade. Não posso impedir que minhas escolhas possam ferir, mas não posso usar esse risco eternamente como justificativa para jamais escolher.

A formação de Shinji não consiste, portanto, em substituir fraqueza por força. Consiste em descobrir que nenhuma dessas palavras é suficiente.

Continua

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