Quando nos aproximamos da fase final da narrativa, Shinji já perdeu quase todas as estruturas precárias que lhe permitiam continuar funcionando: sua relação com Gendo não foi reparada, pelo contrário. Rei tornou-se cada vez mais enigmática e Asuka entrou em colapso. Misato está absorvida pelos acontecimentos da NERV e por suas próprias perdas. A instituição à qual ele oferecia sua utilidade revelou-se moralmente opaca. Pilotar já não oferece reconhecimento simples e cada retorno ao EVA parece exigir mais dele e entregar menos em troca. O romance de formação encontra então seu ponto de inversão. Em vez de possuir progressivamente mais certezas, Shinji possui cada vez menos. Em vez te integrar-se ao mundo, percebe que o mundo ao qual tentava integrar-se nunca foi aquilo que imaginava. Em vez de descobrir uma identidade estável, vê desaparecer uma a uma as imagens externas pelas quais costumava defini-la.
Piloto. Filho. Amigo. Salvador. Covarde. Herói. Nenhuma permanece suficiente.
É nesse estado que Kaworu Nagisa aparece.
E talvez por isso sua chegada produza efeito tão desproporcional à quantidade de tempo que ocupa na narrativa. Shinji não o encontra como alguém que possui uma identidade segura e decide estabelecer mais uma relação, mas, antes disso, encontra-o depois que quase todas as relações pelas quais tentava compreender-se foram quebradas. E é nesse momento que surge alguém que parece reconhecê-lo antes de exigir qualquer coisa dele.
Alguém que parece aproximar-se sem que Shinji precise conquistar previamente o direito de ser aproximado. Depois de uma vida tentando aprender qual papel deveria representar para que alguém permanecesse, Shinji encontra uma pessoa diante da qual, por alguns instantes, parece não precisar representar. E justamente por isso Kaworu constituirá não apenas mais um personagem em sua formação. Constituirá a mais perigosa possibilidade de resposta ao vazio que apareceu no início deste ensaio.
No universo de Neon Genesis Evangelion temos um Shinji que sente a dor do confronto com o outro e que prefere fugir a esse confronto para, assim, evitar a dor que ele causa. Em um período já bastante crítico, eis que aparece Kaworu, um garoto misterioso que estranhamente se aproxima do protagonista e consegue se tornar próximo dele como nenhum outro personagem, até mais do que as outras protagonistas, que levaram vários e longos capítulos para criarem intimidade e, ainda assim, causavam dor ao pequeno garoto assustado.
Há algo de quase anormal nessa facilidade pois Misato precisou aprender a conviver com Shinji, Rei precisou aproximar-se aos poucos, Asuka jamais deixou de transformar proximidade em conflito. Kaworu simplesmente chega e parece enxergar Shinji antes que Shinji lhe prove qualquer coisa.
Nesse ponto Kaworu se torna uma doce companhia para Shinji, que se vê no meio de uma luta que parece impossível de ser vencida, onde todos estão sem esperança e apenas continuam em frente, mais e mais, e ele já nem tem de onde tirar energia, apenas seguindo.
E então eles dão uma pausa, apenas tomam um banho. Conversam antes de dormir. Um momento de respiro depois de tantas lutas, e antes da última e mais difícil. Essa pausa é essencial.
Kaworu não surge inicialmente como solução filosófica nem existencial, mas como descanso.
Depois de uma narrativa em que quase toda relação exige negociação, defesa, desempenho ou sofrimento, a simples possibilidade de permanecer ao lado de alguém sem precisar imediatamente justificar sua presença adquire uma força enorme.
Se Schopenhauer descreveu os homens como ouriços obrigados a encontrar uma distância suportável entre o frio e o ferimento, Kaworu parece, por alguns instantes, suspender a parábola. Há proximidade.
E não há espinho.
Kaworu se mostra como a possibilidade da negação do conflito, de uma vida onde os opostos de feminino e masculino não colidem, onde esse mundo masculino seria a possibilidade de um mundo em que as pessoas não machucam umas às outras, mesmo separadas e divididas. Shinji sente com força essa possibilidade, percebe pela primeira vez que poderia ser feliz ou, ao menos, levar uma vida mais tranquila.
A essa ausência de conflito Kaworu chama de Amor, algo que Shinji não chegou a conhecer, abandonado pelo pai desde pequeno. O conflito é personificado pela Asuka, sempre agressiva, e pela distância com a Ayanami; são duas faces do muro que existe entre as pessoas. Essa foi uma das maneiras pelas quais interpretei a cena, mas talvez exista mais de uma coisa acontecendo ao mesmo tempo.
Kaworu pode representar não tanto a negação do feminino, mas a suspensão temporária do jogo de expectativas no qual Shinji vinha tentando compreender a intimidade. Se, com Asuka existe desejo, vergonha, agressão, disputa e medo, e com Rei existe proximidade, mas também estranhamento e uma ligação impossível de separar da figura materna, com Kaworu, durante algum tempo, Shinji não precisa saber qual papel desempenhar.
Não precisa ser filho. Não precisa ser piloto. Não precisa ser protetor. Não precisa ser desejável segundo uma imagem previamente conhecida. Pode simplesmente estar ali, ouvindo alguém cantarolar enquanto observa o céu e o brilho na água. Talvez essa suspensão seja mais importante do que o sexo daquele que a proporciona.
Essa tentação se manifesta com uma conotação sexual para ele e então se torna essa possibilidade de tranquilidade. No entanto, é uma possibilidade carregada de negatividade, tanto pela negação do conflito quanto, na interpretação que eu fazia então, pela negação da própria realidade humana. Esse mundo homossexual que se apresenta a Shinji é uma promessa de amor mas, ao mesmo tempo, não lhe parece certo.
Hoje eu colocaria essa afirmação ao lado de outras possibilidades, não acima delas. A conotação erótica da relação existe e não precisa ser dissolvida em amizade para tornar-se filosoficamente respeitável. Mas ela tampouco precisa ser interpretada necessariamente como recusa de uma ordem sexual considerada mais “real”. Outra leitura possível é justamente a inversa: Kaworu introduz uma forma de desejo que escapa às categorias através das quais Shinji vinha organizando sua experiência de intimidade. O desconforto pode então nascer não porque aquela relação seja “menos real”, mas porque ela obriga Shinji a reconhecer uma possibilidade para a qual ainda não possui linguagem.
Freud, aliás, seria bastante útil aqui para impedir que transformemos imediatamente o objeto do desejo numa sentença sobre a totalidade da identidade do sujeito. Desejar alguém não fornece, por si só, uma metafísica inteira da pessoa que deseja.
Muito embora Shinji esteja num estado de acídia e até mesmo depressão, ele consegue vislumbrar um mundo com uma centelha de felicidade, personificada no sorriso doce do amigo que o provoca em alguns momentos, criando uma atmosfera descontraída e acolhedora.
Uso aqui “acídia” em sentido existencial e espiritual, não como simples sinônimo clínico de depressão. A palavra possui uma tradição própria: cansaço diante da existência, incapacidade de desejar aquilo que antes organizava a vida, recusa quase fatigada do mundo. É exatamente nesse estado que Kaworu aparece.
Eles se deitam ao lado um do outro, como Shinji chegou a dormir com Asuka, mas com uma calma em seu coração que ele não experimentou ao dormir com a amiga, até mesmo sendo assombrado pela tentação sexual de dormir ao lado de uma garota bonita de sua idade.
Com o amigo, por outro lado, a tentação sexual é acompanhada pela tranquilidade e essa diferença é talvez mais importante do que a identidade sexual das relações. Com Asuka, desejo e conflito aparecem misturados. Com Kaworu, desejo e acolhimento parecem coincidir. O garoto que olhava para o mundo com pessimismo finalmente vê um pouco de alegria. Mas parece que algo está errado, e talvez o que esteja “errado” seja justamente a perfeição dessa experiência.
Kaworu oferece algo próximo demais da resposta que Shinji desejava, mas não exige conquista. Não exige desempenho. Não exige que ele prove primeiro que merece ser amado. Isso pode ser lido como graça. Pode ser lido como fantasia. Pode ser lido como uma forma de amor que finalmente interrompe a economia de reconhecimento pela qual Shinji vivia. E pode ser lido também como uma relação estruturalmente impossível, porque Kaworu não é simplesmente outro adolescente.
É o último Anjo.
Ele se vê diante da posição de negar a sua realidade, mas a realidade que se apresenta em alternativa é justamente fraca em manter aquele fundo de verossimilhança. Em resumo: um mundo sem conflito e sem a necessária dualidade entre o feminino e o masculino é irreal, é incompleto. Essa era minha conclusão. Hoje talvez seja possível ampliá-la.
Talvez o problema não seja a ausência da oposição masculino-feminino, mas a ausência de resistência do outro. Uma relação real envolve alteridade. O outro deseja coisas que eu não desejo. Interpreta-me de maneira diferente daquela pela qual interpreto a mim mesmo. Pode recusar. Pode partir. Pode decepcionar. Kaworu parece inicialmente suspender quase todas essas possibilidades.
E é justamente por isso que sua presença se aproxima perigosamente da fantasia de um outro perfeitamente adequado às necessidades de Shinji. Isso porque não é simplesmente a ausência de conflitos que significa uma vida feliz mas, uma vida completa é formada também por conflitos que fazem parte da natureza mesma das coisas.
É por isso que apenas fugir e se refugiar num mundo imaginário sempre acaba em desilusão; justamente por isso, ao vislumbrar esse mundo, nele não há nenhuma felicidade completa. Aqui o dilema do ouriço retorna por outro caminho. Eliminar todo conflito poderia significar também eliminar aquilo que faz do outro alguém realmente diferente de mim. Se o outro jamais resiste, jamais recusa, jamais contradiz e jamais me obriga a rever a imagem que possuo de mim mesmo, talvez eu já não esteja verdadeiramente encontrando outra consciência. Talvez esteja apenas contemplando a forma ideal que meu desejo gostaria que o outro assumisse.
Kaworu, porém, complica essa leitura porque não permanece simples projeção. Ele escolhe. Ele possui finalidade própria. E, finalmente, coloca Shinji diante de uma decisão que nenhum mundo imaginário poderia evitar.
A morte de Kaworu significa para Shinji o fim da linha, e ele entra em estado de profunda depressão, só conseguindo reagir muito depois de iniciado o Projeto de Instrumentalidade Humana.
A pergunta “por que você o matou?” se repete indefinidamente na mente do jovem, que tenta a todo custo se livrar da culpa de ter nas mãos o sangue da pessoa que, pela primeira vez, lhe deu a visão da alegria.
A relação sofre uma inversão brutal. O outro que parecia não ferir Shinji entrega a Shinji o poder de feri-lo. Mais do que isso: pede que ele o faça. Todo o problema da liberdade que acompanhamos na jornada de Shinji retorna agora sem qualquer possibilidade de transferência. Não há Dummy System. Não há Gendo decidindo em seu lugar. Não há ordem capaz de apagar a responsabilidade. Há apenas a mão do EVA-01 fechada ao redor do corpo de Kaworu.
E tempo.
Muito tempo.
Kierkegaard vai dizer que angústia da liberdade atinge sua forma mais pura quando o sujeito percebe que possui possibilidade real de agir e que nenhuma necessidade exterior conseguirá transformar sua escolha em inocência.
Shinji não deseja matar Kaworu, mas não pode simplesmente deixá-lo prosseguir. Kaworu, por sua vez, aceita morrer. Essa aceitação abre outra possibilidade de interpretação. Kaworu pode ser lido como figura sacrificial: o Anjo entrega a própria vida para preservar a humanidade, ou talvez para preservar a possibilidade de Shinji continuar escolhendo.
Há inevitavelmente uma ressonância religiosa nessa cena: o outro que poderia destruir oferece a si mesmo. Mas seria precipitado transformar Kaworu simplesmente em figura de Cristo. A semelhança simbólica existe; a identidade teológica, não. O que importa é a estrutura sacrificial: ele não é apenas morto, ele consente. E esse consentimento torna a culpa de Shinji ainda mais complexa, porque não pode ser reduzida à condição simples de assassino e vítima.
A pessoa que ofereceu a Shinji a experiência mais próxima do amor é também aquela cuja morte ele executa com as próprias mãos. Existe uma crueldade particular nessa construção, pois Shinji passou a vida procurando alguém que não o abandonasse. Kaworu encontra uma maneira extrema de não abandoná-lo. Morre por sua decisão e, justamente por isso, torna-se impossível continuar presente.
O dilema existencial é então apresentado por meio dessa tensão entre o real, o sonhado e aquilo que podemos equacionar das duas coisas, uma síntese, por assim dizer, do sonho que não se perde da realidade. A representação desse dilema na angústia depressiva é uma boa imagem e reflete com verossimilhança a experiência comum a todas as pessoas.
Talvez possamos formular essa tensão também de outra maneira: Shinji não precisa escolher simplesmente entre sonho e realidade. Precisa aprender se é possível conservar alguma coisa daquilo que Kaworu representou sem exigir que o mundo inteiro se transforme em Kaworu. Esse é o problema.
O encontro mostrou que outra forma de relação é imaginável, mas uma relação real não pode existir apenas onde não há resistência. O outro precisa continuar sendo outro. Essa descoberta prepara diretamente a Instrumentalidade pois, depois de Kaworu, Shinji conhece finalmente a tentação de uma relação sem dor. Depois perde essa relação.
E então lhe será oferecido algo muito maior: um mundo onde nenhuma relação poderá voltar a terminar dessa maneira porque já não existirão fronteiras suficientemente firmes para separar uma consciência de outra. A Instrumentalidade parece oferecer em escala universal aquilo que Kaworu ofereceu por alguns instantes em escala pessoal.
Ausência de rejeição. Ausência de distância. Ausência de abandono. Ausência de conflito.
Mas também ausência da alteridade necessária para que amor seja realmente encontro e não apenas fusão. Kaworu não é, portanto, simplesmente uma resposta. Talvez seja a última pergunta antes do fim do mundo.

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