Mesmo em produções de grande escala, como as de James Cameron, a lógica cromática permanece essencial. Em entrevistas sobre Titanic (1997) e Avatar (2009), Cameron observou que a cor ajuda a orientar a experiência emocional do espectador, funcionando como um “mapa sensorial” da narrativa. Em Avatar, por exemplo, os tons frios e metálicos associados ao aparato tecnológico humano contrastam com a paleta vibrante e calorosa de Pandora, reforçando a oposição entre distanciamento instrumental e integração afetiva. A cor, nesse contexto, torna-se linguagem de pertencimento ou alienação.
No campo do design e da fotografia, autores como Johannes Itten e Josef Albers também destacaram a relação entre temperatura cromática e sensação emocional. Itten, em A arte da cor (1961), descreve como cores quentes tendem a avançar em direção ao observador, criando proximidade e energia, enquanto cores frias recuam, instaurando distância e contemplação. Albers, em A interação da cor (1963), enfatiza que a percepção cromática é sempre relacional: uma mesma cor pode parecer acolhedora ou fria dependendo do contexto em que aparece. No audiovisual, isso se traduz em sequências onde a mudança de paleta sinaliza uma transformação interna antes mesmo de qualquer diálogo.
Aplicadas a uma obra como Tokyo in April is…, essas teorias ajudam a compreender como a fotografia pode traduzir estados emocionais sem recorrer à explicação verbal. A saturação fria em cenas melancólicas não apenas indica tristeza, mas sugere um mundo que perdeu momentaneamente seu calor. Quando a narrativa permite que tons mais quentes emerjam, o espectador sente a reaproximação, o cuidado e a possibilidade de reconciliação. A cor, assim, funciona como uma espécie de respiração invisível da história: ela esfria quando os personagens se afastam de si e se aquece quando, mesmo em silêncio, voltam a se reconhecer.
Outro aspecto que merece comentário é a questão dada a vulnerabilidade. A série trata o elemento delicado do abuso sexual, das vítimas que se escondem por vergonha e da vergonha que outros impõem a elas. Em dado momento, Ren é confrontado pelo chefe se quer ir adiante com a denúncia de abuso, pois exporia também sua orientação sexual, como se a situação de ter sido atacado no próprio escritório não fosse ainda mais escandalosa para a empresa. Ele decide, naquele ponto, seguir em frente, e encoraja as demais vítimas também.
Mas isso só depois de assumir, de modo mais íntimo, para Kazuma, o seu trauma. Ele demarcara o limite da relação deles como puramente sexual porque na juventude ele sentiu ter ferido os sentimentos do outro, e então não queria que isso se repetisse. Como resultado, ele se esconde durante o sexo, como forma de não demonstrar nada. Essa hesitação em demonstrar vulnerabilidade, a qual acompanhamos ser embora na série trata-se do reflexo de um trauma, me leva a refletir sobre a própria ideia da imagem vista pelo outro na cultura japonesa, envolvendo a pressão pelo ideal de perfeição eficiente. Mostrar fraqueza? É algo íntimo demais. Pode-se transar, demonstrando vigor, mas, por exemplo, dormir de cansaço no braço do companheiro, é uma exposição muito maior.
A ideia de eficiência e perfeição como horizonte social no Japão costuma ser interpretada menos como um traço isolado de “mentalidade nacional” e mais como o resultado de uma longa sedimentação histórica em que disciplina, hierarquia e autocontrole foram elevados a valores morais. Durante o período do xogunato, sobretudo no Tokugawa (1603–1868), a sociedade japonesa organizou-se em torno de uma rígida estrutura hierárquica e de códigos de conduta que regulavam desde a vida política até os gestos cotidianos. O ideal do bushidō, ainda que codificado tardiamente, cristalizou a noção de que a honra e a disciplina deveriam governar não apenas o campo de batalha, mas a vida civil. Autores como Yamamoto Tsunetomo, em Hagakure (século XVIII), insistem na ideia de que o indivíduo deve moldar-se por meio de treinamento constante e vigilância interior, como se cada ação fosse observada por uma instância moral invisível. O guerreiro disciplinado torna-se, assim, modelo para o cidadão disciplinado.
Basicamente, ao vermos Ren reprimir o próprio rosto e voz durante o sexo, é porque estamos vendo uma criança que foi disciplinada para não mostrar nada que revelasse sua fraqueza, e sua sexualidade era não só fraqueza, mas algo a ser combatida, afinal deixara seu parceiro doente. Tornou-se um cidadão fora dos padrões, é verdade, se vestindo casualmente, onde todos usam apenas terno, mas não consegue se livrar da disciplina que o fez crer ser alguém intrinsecamente ruim.
Com o fim das guerras internas e a relativa estabilidade do período Tokugawa, essa disciplina militar foi progressivamente transferida para a administração e para a vida social. O Estado passou a valorizar a ordem, a previsibilidade e a eficiência como formas de evitar o caos que marcara os séculos anteriores. A etiqueta, o autocontrole e o cumprimento preciso das funções tornaram-se virtudes cívicas. O sociólogo Norbert Elias, ao analisar processos semelhantes na Europa em O processo civilizador (1939), observa como códigos de autocontenção e disciplina podem migrar da esfera aristocrática ou militar para o cotidiano, transformando-se em padrões de comportamento amplamente internalizados. No caso japonês, esse movimento encontrou um terreno particularmente fértil, pois a estabilidade política exigia que cada indivíduo desempenhasse seu papel com precisão quase ritual.
Kazuma não demonstra sua sexualidade ao mundo, é o exemplo da estabilidade social exigida, bem como da eficiência, causando até a inveja de seu chefe, mas, por crescer longe da cultura japonesa, ele logo se desvencilha da mãe, o sinal da ordem burguesa, e busca sua felicidade ao lado do homem que ama, ajudando-o a fazer o mesmo. Kazuma faz no campo interior, ele é verdadeiro consigo não importando como se vista. Ren usa o exterior para esconder o interior.
A Restauração Meiji, no final do século XIX, acelerou essa transformação ao combinar a herança disciplinar do xogunato com a necessidade de modernização rápida. A criação de um sistema educacional nacional e de uma burocracia centralizada reforçou a ideia de que o esforço constante e a excelência eram deveres não apenas pessoais, mas patrióticos. A escola primária tornou-se um dos primeiros espaços de internalização dessa ética: pontualidade, asseio, rendimento acadêmico e comportamento coletivo eram tratados como expressões de caráter. O historiador e pensador Nitobe Inazō, em Bushido: The Soul of Japan (1900), procurou traduzir para o público ocidental a continuidade entre o código samurai e a moral moderna japonesa, sugerindo que a disciplina interior do guerreiro havia sido transposta para o estudante, o funcionário e o cidadão comum.
No pós-guerra, essa ética disciplinar foi reconfigurada em termos corporativos. O crescimento econômico acelerado das décadas de 1950 a 1980 consolidou a figura do trabalhador dedicado, leal à empresa e disposto a aperfeiçoar-se continuamente. Vemos o presidente da empresa tentar dissuadir Ren da denúncia de assédio em nome do profissionalismo. Mais do que uma demonstração de hipocrisia, como seria aqui no ocidente, é o fato de que ele realmente coloca o nome da empresa e sua imagem disciplinada acima de qualquer outra coisa.
Sociólogos como Chie Nakane, em Japanese Society (1970), destacaram como a estrutura vertical das relações sociais e o valor atribuído ao grupo reforçam a busca pela eficiência e pela perfeição. O indivíduo é frequentemente percebido em relação ao coletivo, e o bom desempenho pessoal é interpretado como contribuição à harmonia do grupo. Isso não elimina a tensão ou o sofrimento que tal modelo pode gerar, mas ajuda a explicar por que a disciplina e o autocontrole continuam a ser vistos como virtudes fundamentais. Não importa as dezenas de vítimas que tiveram suas vidas destruídas, algumas inclusive buscando a tentativa de suicídio, importa a imagem. Assim como, no passado, para os pais de Ren, a imagem de um filho gay era tão absurdamente horrenda que eles o esconderam em outro país: nada poderia macular a imagem da família ideal.
Nesse contexto, a busca pela perfeição pode ser entendida como herdeira de uma ética que atravessa séculos: do campo de batalha à sala de aula, do castelo feudal ao escritório contemporâneo e até ao seio familiar. A disciplina militar do período de guerras internas foi transmutada em disciplina moral e profissional, criando um ideal de conduta em que a excelência é tanto um dever social quanto uma forma de respeito ao outro. A eficiência não é apenas produtividade; ela se apresenta como expressão de responsabilidade coletiva e de autocultivo contínuo, uma espécie de ascese secular que estrutura a vida cotidiana e molda a sensibilidade cultural.
Coisa semelhante aconteceu na China, permitindo a ascensão do comunismo por lá, mas isso já foi tratado por autores muito mais qualificados do que eu.
Por fim, sobra essa mensagem, em mais uma maratona: de que o companheirismo, paciente e carinhoso, pode trazer calor e luz até mesmo a mais opaca das existências.
"Você é como o sol, sem mentiras ou segredos. Quando você me toca, eu também sinto calor."

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