sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Tóquio em abril é... ensolarada! II

Parte I aqui

Em Tokyo in April is... observamos esse uso das cores quando, mesmo na recordação dos traumas, quando passada a reconexão dos protagonistas, é vista de um ponto caloroso, o trauma continua ali, mas não como ferida aberta, mas como cicatriz que o outro ajudou a fechar. Ao passo em que antes, toda recordação continha o afastamento do cinza, do branco, do frio. Até as cenas de sexo eram marcadas não apenas pela penumbra, mas pela ausência de calor.

Mesmo em produções de grande escala, como as de James Cameron, a lógica cromática permanece essencial. Em entrevistas sobre Titanic (1997) e Avatar (2009), Cameron observou que a cor ajuda a orientar a experiência emocional do espectador, funcionando como um “mapa sensorial” da narrativa. Em Avatar, por exemplo, os tons frios e metálicos associados ao aparato tecnológico humano contrastam com a paleta vibrante e calorosa de Pandora, reforçando a oposição entre distanciamento instrumental e integração afetiva. A cor, nesse contexto, torna-se linguagem de pertencimento ou alienação.

No campo do design e da fotografia, autores como Johannes Itten e Josef Albers também destacaram a relação entre temperatura cromática e sensação emocional. Itten, em A arte da cor (1961), descreve como cores quentes tendem a avançar em direção ao observador, criando proximidade e energia, enquanto cores frias recuam, instaurando distância e contemplação. Albers, em A interação da cor (1963), enfatiza que a percepção cromática é sempre relacional: uma mesma cor pode parecer acolhedora ou fria dependendo do contexto em que aparece. No audiovisual, isso se traduz em sequências onde a mudança de paleta sinaliza uma transformação interna antes mesmo de qualquer diálogo.

Aplicadas a uma obra como Tokyo in April is…, essas teorias ajudam a compreender como a fotografia pode traduzir estados emocionais sem recorrer à explicação verbal. A saturação fria em cenas melancólicas não apenas indica tristeza, mas sugere um mundo que perdeu momentaneamente seu calor. Quando a narrativa permite que tons mais quentes emerjam, o espectador sente a reaproximação, o cuidado e a possibilidade de reconciliação. A cor, assim, funciona como uma espécie de respiração invisível da história: ela esfria quando os personagens se afastam de si e se aquece quando, mesmo em silêncio, voltam a se reconhecer.

Outro aspecto que merece comentário é a questão dada a vulnerabilidade. A série trata o elemento delicado do abuso sexual, das vítimas que se escondem por vergonha e da vergonha que outros impõem a elas. Em dado momento, Ren é confrontado pelo chefe se quer ir adiante com a denúncia de abuso, pois exporia também sua orientação sexual, como se a situação de ter sido atacado no próprio escritório não fosse ainda mais escandalosa para a empresa. Ele decide, naquele ponto, seguir em frente, e encoraja as demais vítimas também. 

Mas isso só depois de assumir, de modo mais íntimo, para Kazuma, o seu trauma. Ele demarcara o limite da relação deles como puramente sexual porque na juventude ele sentiu ter ferido os sentimentos do outro, e então não queria que isso se repetisse. Como resultado, ele se esconde durante o sexo, como forma de não demonstrar nada. Essa hesitação em demonstrar vulnerabilidade, a qual acompanhamos ser embora na série trata-se do reflexo de um trauma, me leva a refletir sobre a própria ideia da imagem vista pelo outro na cultura japonesa, envolvendo a pressão pelo ideal de perfeição eficiente. Mostrar fraqueza? É algo íntimo demais. Pode-se transar, demonstrando vigor, mas, por exemplo, dormir de cansaço no braço do companheiro, é uma exposição muito maior.

A ideia de eficiência e perfeição como horizonte social no Japão costuma ser interpretada menos como um traço isolado de “mentalidade nacional” e mais como o resultado de uma longa sedimentação histórica em que disciplina, hierarquia e autocontrole foram elevados a valores morais. Durante o período do xogunato, sobretudo no Tokugawa (1603–1868), a sociedade japonesa organizou-se em torno de uma rígida estrutura hierárquica e de códigos de conduta que regulavam desde a vida política até os gestos cotidianos. O ideal do bushidō, ainda que codificado tardiamente, cristalizou a noção de que a honra e a disciplina deveriam governar não apenas o campo de batalha, mas a vida civil. Autores como Yamamoto Tsunetomo, em Hagakure (século XVIII), insistem na ideia de que o indivíduo deve moldar-se por meio de treinamento constante e vigilância interior, como se cada ação fosse observada por uma instância moral invisível. O guerreiro disciplinado torna-se, assim, modelo para o cidadão disciplinado.

Basicamente, ao vermos Ren reprimir o próprio rosto e voz durante o sexo, é porque estamos vendo uma criança que foi disciplinada para não mostrar nada que revelasse sua fraqueza, e sua sexualidade era não só fraqueza, mas algo a ser combatida, afinal deixara seu parceiro doente. Tornou-se um cidadão fora dos padrões, é verdade, se vestindo casualmente, onde todos usam apenas terno, mas não consegue se livrar da disciplina que o fez crer ser alguém intrinsecamente ruim.

Com o fim das guerras internas e a relativa estabilidade do período Tokugawa, essa disciplina militar foi progressivamente transferida para a administração e para a vida social. O Estado passou a valorizar a ordem, a previsibilidade e a eficiência como formas de evitar o caos que marcara os séculos anteriores. A etiqueta, o autocontrole e o cumprimento preciso das funções tornaram-se virtudes cívicas. O sociólogo Norbert Elias, ao analisar processos semelhantes na Europa em O processo civilizador (1939), observa como códigos de autocontenção e disciplina podem migrar da esfera aristocrática ou militar para o cotidiano, transformando-se em padrões de comportamento amplamente internalizados. No caso japonês, esse movimento encontrou um terreno particularmente fértil, pois a estabilidade política exigia que cada indivíduo desempenhasse seu papel com precisão quase ritual.

Kazuma não demonstra sua sexualidade ao mundo, é o exemplo da estabilidade social exigida, bem como da eficiência, causando até a inveja de seu chefe, mas, por crescer longe da cultura japonesa, ele logo se desvencilha da mãe, o sinal da ordem burguesa, e busca sua felicidade ao lado do homem que ama, ajudando-o a fazer o mesmo. Kazuma faz no campo interior, ele é verdadeiro consigo não importando como se vista. Ren usa o exterior para esconder o interior.

A Restauração Meiji, no final do século XIX, acelerou essa transformação ao combinar a herança disciplinar do xogunato com a necessidade de modernização rápida. A criação de um sistema educacional nacional e de uma burocracia centralizada reforçou a ideia de que o esforço constante e a excelência eram deveres não apenas pessoais, mas patrióticos. A escola primária tornou-se um dos primeiros espaços de internalização dessa ética: pontualidade, asseio, rendimento acadêmico e comportamento coletivo eram tratados como expressões de caráter. O historiador e pensador Nitobe Inazō, em Bushido: The Soul of Japan (1900), procurou traduzir para o público ocidental a continuidade entre o código samurai e a moral moderna japonesa, sugerindo que a disciplina interior do guerreiro havia sido transposta para o estudante, o funcionário e o cidadão comum.

No pós-guerra, essa ética disciplinar foi reconfigurada em termos corporativos. O crescimento econômico acelerado das décadas de 1950 a 1980 consolidou a figura do trabalhador dedicado, leal à empresa e disposto a aperfeiçoar-se continuamente. Vemos o presidente da empresa tentar dissuadir Ren da denúncia de assédio em nome do profissionalismo. Mais do que uma demonstração de hipocrisia, como seria aqui no ocidente, é o fato de que ele realmente coloca o nome da empresa e sua imagem disciplinada acima de qualquer outra coisa. 

Sociólogos como Chie Nakane, em Japanese Society (1970), destacaram como a estrutura vertical das relações sociais e o valor atribuído ao grupo reforçam a busca pela eficiência e pela perfeição. O indivíduo é frequentemente percebido em relação ao coletivo, e o bom desempenho pessoal é interpretado como contribuição à harmonia do grupo. Isso não elimina a tensão ou o sofrimento que tal modelo pode gerar, mas ajuda a explicar por que a disciplina e o autocontrole continuam a ser vistos como virtudes fundamentais. Não importa as dezenas de vítimas que tiveram suas vidas destruídas, algumas inclusive buscando a tentativa de suicídio, importa a imagem. Assim como, no passado, para os pais de Ren, a imagem de um filho gay era tão absurdamente horrenda que eles o esconderam em outro país: nada poderia macular a imagem da família ideal.

Nesse contexto, a busca pela perfeição pode ser entendida como herdeira de uma ética que atravessa séculos: do campo de batalha à sala de aula, do castelo feudal ao escritório contemporâneo e até ao seio familiar. A disciplina militar do período de guerras internas foi transmutada em disciplina moral e profissional, criando um ideal de conduta em que a excelência é tanto um dever social quanto uma forma de respeito ao outro. A eficiência não é apenas produtividade; ela se apresenta como expressão de responsabilidade coletiva e de autocultivo contínuo, uma espécie de ascese secular que estrutura a vida cotidiana e molda a sensibilidade cultural.

Coisa semelhante aconteceu na China, permitindo a ascensão do comunismo por lá, mas isso já foi tratado por autores muito mais qualificados do que eu.

Por fim, sobra essa mensagem, em mais uma maratona: de que o companheirismo, paciente e carinhoso, pode trazer calor e luz até mesmo a mais opaca das existências. 

"Você é como o sol, sem mentiras ou segredos. Quando você me toca, eu também sinto calor."

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