I
Nasceu numa segunda,
sem ânsia de romper as sombras do começo,
quedou-se à beira escura do primeiro excesso;
negou-se ao grito inaugural da vida imunda.
Recusou-se a rasgar o ventre que o gerara,
e alheio ao sangue cálido do alvorecer,
deixou que mãos de aço o viessem colher
num gesto atroz que a própria carne dilacera.
Vieram com o bisturi, lâmina severa,
impor-lhe a claridade abrupta e fria;
trouxeram-no à luz que jamais pedira.
Talvez chovesse já sobre a terra inteira,
talvez o mundo o recebesse em fria teia,
forte como hoje.
II
Foi batizado numa terça,
imerso em águas de sentido estranho,
marcado por um nome que lhe era tamanho,
lançado a um mundo cuja pressa o dispersa.
Não compreendia a febre das avenidas,
nem o motivo oculto de tanta corrida;
via nos outros uma ânsia incontida,
um querer que feria suas medidas.
Buscava entender o que ninguém dizia,
e quanto mais buscava, menos via;
crescia-lhe a distância e a estranheza.
E sobre a fronte ungida e silenciosa
pairava uma pergunta dolorosa,
forte como hoje.
III
Se casou numa quarta,
não com amado outrora prometido;
fora por Antonio esquecido,
e por Valentim deixado à parte.
Unira-se à fiel desesperança,
única esposa que lhe fora constante;
no peito a carregava, vigilante,
como quem vela a própria lembrança.
Não houve cântico, júbilo ou aliança,
apenas um pacto íntimo e sombrio;
um leito frio, sem promessa ou brio.
E desse enlace estéril e tardio
brotava a chuva sobre o vazio,
forte como hoje.
IV
Adoeceu numa quinta,
ao ver que nunca fora parte inteira;
toda aproximação era fronteira
que cedo ou tarde em decepção se finda.
Cada gesto trazia sua ruína,
cada afeto ocultava uma ferida;
recaía sobre a alma combalida
a antiga dor que sempre o domina.
Num jovem já cansado coração
crescia a febre da desilusão;
chovia dentro mais que fora.
E a noite, espessa como véu tardio,
lavava-lhe o peito em calafrio,
forte como hoje.
V
Piorou na sexta,
chegando aos trinta e um já enfastiado;
sentia-se de há muito exilado
de um mundo que jamais lhe fora festa.
Levava cada dia como peso antigo,
com a mesma recusa do primeiro instante;
esperara, outrora, hesitante,
que o rasgassem ao ventre sem abrigo.
Não quisera sequer metade disso:
nem do viver o áspero compromisso,
nem da esperança a chama breve.
Firmou-se, então, numa convicção severa,
como sentença fria que o espera,
forte como hoje.
VI
Morreu no sábado,
cansado de tudo e de todos;
sem arrependimentos ou modos,
jazendo só, num quarto abafado.
Não houve parentes à beira do leito,
nem amigos a velar-lhe o sono;
apenas o suor, febril abandono,
manchando a cama em silêncio estreito.
Depois de noites longas de delírio,
entre febre, chuva e lento martírio,
cessou-lhe o fôlego exausto.
E o mundo, alheio ao seu cansaço,
seguiu sem notar-lhe o passo,
forte como hoje.
VII
E foi enterrado no domingo,
finalmente entregue ao grande silêncio;
cobriram-no com terra e esquecimento denso,
como quem sela um gesto antigo.
Pás de chão caíam-lhe sobre o peito
como respostas mudas e tardias
às perguntas que fizera em seus dias
vividos sem vontade ou jeito.
Mas já não ouvia o som do mundo,
nem via o céu turvo e profundo;
partira sem testemunha ou alarde.
Ninguém notou-lhe a última viagem,
nem a chuva sobre a paisagem,
forte como hoje.
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