I
As coisas não saíram como o plano,
não por destino ou força superior;
foi só meu cérebro em torpor,
traindo o gosto antigo, quase humano.
Faltou-lhe a química do entusiasmo,
substância mínima do querer ser;
negou-se o corpo ao próprio prazer
e a mente ao reconhecimento espasmo.
Sabotei-me em silêncio consentido,
um eu contra outro eu dividido;
relatório existencial sob luz fraca.
E assim fiquei, inerte sobre o chão,
ouvindo o pulso frouxo da intenção
que nasce e morre antes que se destaque.
II
Lembranças retornaram em surdina:
violão, álcool e riso juvenil;
vozes que amei — e o gesto hostil
de quem feriu com mão quase divina.
Sentavam-se em redor da velha mesa,
fantasmas de um afeto já distante;
hoje são pó disperso e errante
em lados opostos da mesma tristeza.
Se conto os grandes nomes da amizade,
quantos resistem à atualidade?
Quantos ainda vejo todo dia?
E a noite envolve o quarto em lento fio,
como se o tempo fosse um desafio
que à própria ausência me conduzia.
III
Então me deito, exausto de insistir
naquilo que já foi contentamento;
meu próprio ser se esvai no pensamento
que não consegue mais se decidir.
Sobe no ar o óleo perfumado,
fumaça tênue em espiral sombria;
a chuva tange a telha rubra e fria,
de barro e musgo antigo saturado.
O som ressoa opaco sobre o teto,
como um tambor monótono e secreto
marcando a hora inútil da vigília.
No quarto ao lado um choro principia;
a vida insiste — e em mim não principia.
nenhum sentido.
IV
Se algum dia já tive um sonho,
assim como quem acorda
apressado, atrasado pro trabalho,
eu não consigo me lembrar.
Penso nisso no quarto escuro
depois que a casa inteira já dormiu
Uma das poucas obrigações de um homem
é ter vontade
para realizar alguma coisa,
e um pau decente,
eu falhei em ambos.
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