Acordei com ódio do mundo,
um daqueles dias em que parece que o diabo
é quem governa,
e tudo irrita.
Meus remédios para dormir estão acabando
e essa é uma das piores coisas
que poderiam acontecer nessa
vida maldita.
Não quero sair do quarto,
viro de um lado pro outro,
sem olhar as mensagens,
ignorando a fome.
Só não quero ver ninguém.
Porque a cara deles me irrita.
Queria dormir e acordar daqui a três dias,
ou nem acordar, seria ainda melhor
Aos poucos, as coisas vão se desfazendo.
Sem dinheiro pros remédios, ou pro café,
a TV estragando e ameaçando as séries
o único maldito divertimento
nessa vida desgraçada
ameaçado por riscos de uma tela que,
como a vida, anuncia que em pouco tempo
deixará de funcionar,
como as pessoas.
A maioria delas não serve pra nada.
Eu não sirvo pra nada.
Imenso de gordo, depressivo, reclamão.
Enquanto isso, os jovens estúpidos vivem sorrindo
e chorando, com seus sentimentos à flor da pele,
escondendo a ridicularidade de suas existências patéticas.
Eu não sirvo pra nada.
Mas eles servem menos ainda.
E essa vida maldita continua.
Querem que eu ria,
que eu continue,
enfrente.
Ridículos.
O há que que vale a pena enfrentar?
Continuar a viver?
Como aqueles moribundos nos hospitais
se agarrando ao último fiapo de vida?
Não vejo nisso beleza ou heroísmo.
Abraçaria a morte como uma velha amiga.
Mas essa desgraçada parece rir da minha cara.
Gosto daqueles filmes de monstros gigantes,
como o Godzilla que salva o mundo destruindo duas cidades.
Não é que eu queira aquela destruição desesperadora
das enchentes, furacões e terremotos.
Eu sei que seria crueldade demais
pra uma humanidade que não suporta a dor.
Mas me alegro com a ideia da destruição total,
como se aqueles idiotas líderes mundiais
pudessem destruir o mundo com dois botões.
Isso seria o que eu chamo de esperança.
Não quero saber de exames,
de crianças chorando,
de irmãs inúteis.
Gosto de olhar para as fotos dos meus ídolos.
Mas ninguém liga pra eles.
Enquanto eu fico feliz,
maybe they just don't give a damn.
Mas continuo algo feliz,
porque a beleza atenua,
ainda que só um pouco,
o ódio que acordou comigo,
amaldiçoando o mundo.
Começou outro movimento
de uma das sinfonias selvagens do Mahler.
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