Fitei-me ao vidro opaco esta tarde sombria
e, nos detalhes vis da orgânica figura,
vi erguer-se ante mim, com hórrida feitura,
um ser que me encheu de pânico e agonia.
A coma em desalinho, informe e primitiva,
lembrava algum animal da noite primigênia;
náufrago de si mesmo, a mórbida carcaça
parecia expelida à areia mais tardia.
Como um corpo que o mar, cansado de guardá-lo,
repele à solidão das praias esquecidas:
barba rude, olhar morto, a epiderme ferida,
secura mineral no rosto devastado.
Mas não recordo a origem desse exílio lento.
Talvez tenha ficado, inerte e abandonado,
num torpor secular de músculo cansado,
dormindo sob o tédio espectral do Sono.
Não sei quem é o espectro que me encara agora:
ele responde a mim, repete meus sinais.
Mas falta-lhe no olhar qualquer centelha humana,
somente um frio vácuo de matéria morta.
E temo que essas mãos, de garras invisíveis,
rasguem de súbito o limite do espelho
e arrastem meu espírito ao mesmo torvo brejo
onde ele existe, igual, sem nome e sem memória.
Seríamos então, na treva desse limbo,
as duas formas tristes de um só organismo:
o homem que perdeu, nos pântanos de si,
a própria humanidade.
E agora treme ao ver
a besta fera que o contempla.
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