sexta-feira, 6 de março de 2026

Espelho

Fitei-me ao vidro opaco esta tarde  sombria
e, nos detalhes vis da orgânica figura,
vi erguer-se ante mim, com hórrida feitura, 
um ser que me encheu de pânico e agonia.

A coma em desalinho, informe e primitiva,
lembrava algum animal da noite primigênia;
náufrago de si mesmo, a mórbida carcaça
parecia expelida à areia mais tardia.

Como um corpo que o mar, cansado de guardá-lo,
repele à solidão das praias esquecidas:
barba rude, olhar morto, a epiderme ferida,
secura mineral no rosto devastado.

Mas não recordo a origem desse exílio lento.
Talvez tenha ficado, inerte e abandonado,
num torpor secular de músculo cansado,
dormindo sob o tédio espectral do Sono.

Não sei quem é o espectro que me encara agora:
ele responde a mim, repete meus sinais.
Mas falta-lhe no olhar qualquer centelha humana,
somente um frio vácuo de matéria morta.

E temo que essas mãos, de garras invisíveis, 
rasguem de súbito o limite do espelho
e arrastem meu espírito ao mesmo torvo brejo
onde ele existe, igual, sem nome e sem memória.

Seríamos então, na treva desse limbo,
as duas formas tristes de um só organismo:
o homem que perdeu, nos pântanos de si,
a própria humanidade.

E agora treme ao ver
a besta fera que o contempla.

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