domingo, 1 de março de 2026

Ao que desonra a Beleza

Ao meu próprio reflexo

Embora, esteticamente, seja algo ao qual me recuse
ainda que, por breves momentos, em cada manhã
enquanto escovo os dentes, eu precise encarar
a brutal verdade que ali se reflete.

Por acaso é ali que alguém se reconhece?
Não sei quem vejo, na foto passada, 
ou no espelho presente. 
Algum dia achei que seria assim?

E então viro o rosto,
pra que aquele monstro 
não encare demais, e não estenda as garras
me rasgando a garganta.

Os cabelos cheios de óleo
macilentos na fraca tentativa
de algum movimento
ao vento

O rosto ichado, pela depressão
descuidado e maltratado.
Os lábios um dia avermelhados,
se arroxeiam e quebram ressacados.

As tatuagens se rasgaram,
no torso que se desfez em gordura.
A barriga parece que a qualquer instanre,
será aberta por algum criatura.

Que, com ânsia. devorará o meu cadáver
para assim caminhar sem rumo,
mas com um objetivo certo:
destruir qualquer beleza do mundo.

Os homens se torcem de horror,
num mundo cultuado pela beleza exterior,
eu também desaponto no interior
deprimido demais para o amor.

Aos príncipes eu dedico
as versadas rimas medievais,
belas, ricas e idílicas
correspondentes aos heróis que cantais.

Ao meu reflexo dedico apenas o horror,
e as mentiras que para escondê-lo.
meu peito se compraz
em terror em encará-lo eu mesmo.

Sem sonhos realizados, 
e nem por realizar.
Em terra estranha hoje moro,
sem paz, sem lar, sem onde morar.

Mas ainda há alguma música,
não é um verso completamente branco, 
mas certos acordes, 
numa dodecafonia de monstro.

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