sexta-feira, 27 de março de 2026

O sequestro do Santíssimo Sacramento e a posse da Santa Ignorância

Ostentando os títulos de teólogo e cientista social, mestre em Doutrina Social da Igreja pela Universidade de Salamanca, Guillermo Jesús Kowalski publicou, no Religión Digital, em março de 2026, o artigo “O sequestro do Santíssimo Sacramento”. Tive contato com o mesmo por meio uma postagem recendo Pe. Zezinho, scj, a quem a fala muito se assemelha. No já conhecido passivo-agressivo dos teólogos da libertação, o referido cientista social demonstra não apenas a incapacidade de distinguir dois eventos diametralmente opostos, mas também uma compreensão teológica bastante deficiente.

Começa por confundir dois fenômenos: o crescimento dos movimentos neocarismáticos, ou mesmo uma transmutação de Novas Comunidades que passaram a adotar uma linguagem mais atraente aos jovens da geração atual, com o movimento conservador que, diante dos desmantelos da fé causados por diversos fatores, incluindo os já mencionados, encontra no retorno à Tradição um pilar que sustenta não apenas a fé, mas também oferece sólida formação humana.

Nos recorda o Concílio Vaticano II que “a sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só depósito sagrado da Palavra de Deus confiado à Igreja” (DV, 10), não sendo, portanto, um elemento acidental ou meramente estético, mas estrutural à própria vida e identidade da Igreja.

Avalia corretamente que, em certos movimentos juvenis, arrastam-se às centenas almas carentes por meio de uma espiritualidade marcadamente sentimental, levando os fiéis — ou vítimas — a confundirem o afago emocional com a fé, valendo-se, para isso, da roupagem cristã de momentos como a Adoração Eucarística. Afirma não negar a Presença Real de Cristo, mas o faz poucas linhas depois ao praticamente ignorá-la, em favor de uma leitura elementar e reduzida da Doutrina Social da Igreja.

Ora, o Magistério é inequívoco ao afirmar que “na Santíssima Eucaristia está contido todo o bem espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo”, ensina São João Paulo II. Reduzir sua centralidade a um entre vários ‘modos de presença’ equivale, na prática, a dissolver aquilo que é fonte e ápice de toda a vida cristã (LG, 11).

“Não porque a adoração eucarística seja questionada. Muito pelo contrário. Aqueles que creem na Presença Real de Cristo sabem que ela é um imenso tesouro da Igreja. Mas, precisamente por isso, dói — e muito — ver como, em muitos contextos, ela é usada indiscriminadamente, superficialmente e para servir a uma espiritualidade privatizada que pouco tem a ver com o Evangelho. E que manipula essa Presença para descartar as outras presenças reais de Cristo.”

É aqui que se inicia o giro de pensamento que lhe passa despercebido. As chamadas “outras presenças” de Cristo, longe de excluírem os pobres e marginalizados, encontram neles precisamente a condição de vulnerabilidade que exige a orientação da Santa Mãe Igreja, para que possam, com o auxílio dos fiéis, superar ou, na impossibilidade disso, ao menos suportar e dignificar sua condição. O sofrimento existe. A caridade é imperativa e indissociável da vida cristã, assim como a conversão. Trata-se de ensinamento apostólico elementar.

Entretanto, como ensina Pio XII, “o fim último da Igreja é a salvação das almas” , e toda a sua ação,  inclusive a social, deve ordenar-se a este fim sobrenatural. De modo convergente, Leão XIII recorda, em sua célebre Rerum Novarum, que, embora a Igreja se ocupe das questões temporais, “não é para nelas fixar o seu fim, mas para conduzir os homens à felicidade eterna”.

No entanto, o fim da existência da Igreja é a salvação das almas, e não a mera transformação das condições sociais como um fim em si mesmo. Toda ação eclesial que não tenha por horizonte último a salvação corre o risco de se tornar um esvaziamento da própria fé.

Bento XVI sintetiza, na Deus Caristas Est, “não há dúvida de que a Igreja deve empenhar-se pela justiça, mas ela não pode nem deve tomar nas próprias mãos a batalha política para realizar a sociedade mais justa possível; a sua tarefa é de ordem diversa: abrir os homens a Deus”. É precisamente dessa abertura que brota, como consequência, e não como substituto, o autêntico compromisso social cristão.

“Há um número crescente de encontros em que a exposição do Santíssimo Sacramento se torna o foco absoluto e exclusivo. O Sacramento não só é usado para legitimar o grupo, como também o interesse pelos princípios fundamentais da fé cristã é excluído. Tudo parece encontrar sua justificativa ali.” Assim, mais adiante, o teólogo desloca o eixo da vida cristã para a atividade caritativa, tomada como critério último.

De acordo com Kowalski, o resultado é “uma fé intensa… mas sem encarnação (...) Muito se fala sobre fé, mas que tipo de fé está sendo gerada? Porque, em muitos casos, o que emerge não é uma fé mais madura, mais comprometida ou mais evangélica. É uma fé emocionalmente intensa, teologicamente fraca, socialmente irrelevante.” A afirmação seria correta, não fosse o sentido que ele atribui à chamada “relevância social”. Para o cristianismo, como já dito, toda ação visa à salvação; a relevância que daí decorre não se reduz à transformação econômica, mas consiste, antes, na conversão do mundo a Cristo, cujo Sacrifício se perpetua na Missa que os Apóstolos receberam e transmitiram até os nossos dias.

Como ensina o Concílio de Trento, na Missa “está contido e é imolado de modo incruento o mesmo Cristo que uma vez se ofereceu de modo cruento no altar da Cruz” (DS 1743). Trata-se, portanto, de um ato de valor eterno, que transcende toda redução sociológica. Nessa mesma linha, São Pio V, ao promulgar o Missal Romano, não institui uma novidade, mas preserva e codifica uma tradição litúrgica recebida, reafirmando a continuidade orgânica do culto divino. E o próprio Vaticano II, longe de romper com essa herança, determina que “a Igreja não deseja impor uma forma rígida e única” e que “as formas legítimas devem ser conservadas e promovidas” (SC, 4), reiterando a identidade substancial do sacrifício eucarístico.

“Uma fé que sente profundamente… mas transforma pouco. Que adora intensamente… mas se compromete pouco.” Malgrado as incongruências das injustiças humanas, cujo fundamento último reside no pecado original, a transformação cristã convive até mesmo com a aceitação da pobreza, ao seguir o conselho de Cristo de não se apegar aos bens para a missão apostólica. Some-se a isso o testemunho de dezenas de santos, pilares luminosos ao longo dos séculos , que encontraram precisamente na pobreza o caminho de transformação, como no voto franciscano ou na reforma carmelita de Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz. Não se trata de exaltar a pobreza em si, mas de situá-la corretamente: a pobreza, ainda que injusta, não impede o abraço da fé. Sendo injusta, deve ser combatida, mas sempre sob o estandarte de Cristo.

Leão XIII, citando outra vez a Rerum Novarum, já advertia que “a desigualdade de condições é própria da natureza”, e que o remédio cristão não consiste na nivelização material absoluta, mas na ordenação moral da sociedade à luz da lei divina. De modo convergente, Bento XVI recorda que “o amor — caritas — será sempre necessário, mesmo na sociedade mais justa” precisamente porque a raiz última do mal não é apenas estrutural, mas moral e espiritual.

Acerta parcialmente ao dizer que “a adoração deixa de ser um encontro com o Cristo real e se torna uma experiência espiritual autorreferencial, nascida da imaginação de um grupo social privilegiado.” Como já avaliei em artigo anterior, o que se observa em certas comunidades é o aproveitamento da vulnerabilidade afetiva e intelectual da juventude, transformando-a em consumidora de experiências emocionais intensas, frequentemente mediadas por técnicas de sugestão. Não se trata aqui de um juízo temerário sobre intenções subjetivas, mas da constatação de um fenômeno objetivo: a substituição da ascese e da doutrina por uma estética da emoção religiosa.

O autor se perde ainda mais ao tentar relacionar o movimento neopentecostal , que efetivamente e tragicamente penetrou ambientes católicos, com o movimento conservador que busca firmar-se na Tradição magisterial diante das incertezas contemporâneas. Para ele, a busca pela Missa tradicional, ou mesmo pela correta execução do rito ordinário, constituiria uma “tridentinização” da religião (sic!). A suposta “verdadeira” renovação litúrgica consistiria, então, na substituição das afirmações de fé por um amálgama de discurso social, invocando, de modo acrítico, o desenvolvimento teológico e o Concílio Vaticano II.

Tal leitura ignora um princípio elementar: o desenvolvimento homogêneo da doutrina. São Vicente de Lérins ensia que deve haver progresso “segundo o mesmo sentido e a mesma sentença” (eodem sensu eademque sententia). Bento XVI retoma esse princípio ao falar de uma “hermenêutica da continuidade”, contraposta à ruptura. Assim, o Vaticano II não inaugura, como o uma nova Igreja, mas reafirma, em linguagem renovada, a mesma fé perene, cujo centro permanece o Sacrifício redentor de Cristo tornado presente na liturgia.

Já não consegue ocultar sua posição quando afirma que se cria “uma religião que não questiona a realidade, não desafia estruturas injustas e não incomoda ninguém”, reduzindo, na prática, a Igreja a uma instância de militância sociopolítica. Ataca o conservadorismo sem perceber que este se ancora precisamente na noção clássica de justiça , dar a cada um o que lhe é devido, incluindo, antes de tudo, a primazia de Deus e da ordem da salvação.

Santo Tomás de Aquino define a justiça como “constante e perpétua vontade de dar a cada um o seu direito” (S.Th. II-II, q. 58, a. 1), o que inclui, em primeiro lugar, o culto devido a Deus (virtude da religião). Qualquer inversão dessa ordem implica desfiguração da própria justiça.

O ataque prossegue ao afirmar que os fiéis conservadores tenderiam a descartar a preocupação com justiça social como “comunismo” ou “teologia da libertação”, chegando ao ponto de sustentar que esta última nunca foi condenada. Trata-se de afirmação insustentável.

De fato, a Congregação para a Doutrina da Fé, sob a direção do então Cardeal Ratzinger, publicou instruções explícitas advertindo contra “desvios” da Teologia da Libertação que recorrem a categorias marxistas incompatíveis com a fé, como a Libertatis Nuntius, de 1984. São João Paulo II reiterou essas advertências, insistindo que a libertação autêntica é прежде de tudo libertação do pecado.

“É muito mais simples refugiar-se numa espiritualidade intensa...” afirma ele. Seria verdade, se estivesse falando de conversão real e não de um programa ideológico travestido de religião. Ao insinuar que a adesão à fé bimilenar transforma o culto em “passatempo refinado”, revela que seu verdadeiro alvo não é o desvio emocional, mas a própria Tradição.

O ataque atinge o ápice ao acusar setores da Igreja de desobediência ao Magistério, baseando-se em leituras parciais e distorcidas de intervenções recentes sobre temas sociais. Ora, o Magistério não pode ser fragmentado: ele forma um corpo orgânico. Como ensina o Catecismo, “o ofício de interpretar autenticamente a Palavra de Deus foi confiado ao Magistério vivo da Igreja” (CIC, 85), o que exige leitura em continuidade, não em chave seletiva ou ideológica. O autor parece ignorar o mais elementar dos documentos.

Quando afirma que a fé corre o risco de se tornar uma “droga religiosa”, toca, de forma involuntária, um ponto real, mas o aplica de modo equivocado. O problema não está na intensidade da adoração, mas na sua desvinculação da verdade objetiva da fé.

Ignora, ademais, a imensa tradição caritativa da Igreja, sustentada ao longo dos séculos precisamente por aqueles que ele rotula como “conservadores” nos quais a vida sacramental e a ação social jamais estiveram dissociadas, mas ordenadas.

Após essa série de críticas, ele formula uma pergunta pertinente: “Qual Cristo estamos adorando?” A resposta, contudo, revela o limite de sua perspectiva: de um lado, jovens reduzidos à própria emotividade; de outro, uma concepção de Igreja inteiramente horizontal.

Entretanto, como recorda o Concílio Vaticano II, “a Igreja peregrina é necessária à salvação” (Lumen Gentium, 14), porque conduz os homens não apenas à melhoria temporal, mas à vida eterna.

Termina acenando a uma verdade evangélica, a de que a adoração deve conduzir a uma vida comprometida, mas a esvazia imediatamente ao restringi-la a um “Reino inclusivo” entendido em chave puramente sociológica. Seu discurso permanece fechado no horizonte terreno, sem qualquer abertura real ao fim último do homem, que é Deus. Em síntese, como ensina São Pio X, “a finalidade da Igreja é conduzir as almas ao Céu” (Vehementer Nos). Toda ação, litúrgica ou social, que se descole desse fim perde sua razão de ser. A caridade cristã, autêntica, não termina no homem: atravessa-o, ordenando-o a Deus.


*Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/663958-o-sequestro-do-santissimo-sacramento-artigo-de-guillermo-jesus-kowalski Acesso em 27/03/2026


Referências:

BENTO XVI, Papa. Deus Caritas Est. Vaticano, 2005. Discurso à Cúria Romana. Vaticano, 2005.

CONCÍLIO DE TRENTO. Decreto sobre o Sacrifício da Missa. 1562.

CONCÍLIO VATICANO II. Sacrosanctum Concilium. Vaticano, 1963. Lumen Gentium. Vaticano, 1964. Dei Verbum. Vaticano, 1965.

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Libertatis Nuntius. Vaticano, 1984.

JOÃO PAULO II, Papa. Ecclesia de Eucharistia. Vaticano, 2003.

LEÃO XIII, Papa. Rerum Novarum. Vaticano, 1891.

PIO V, Papa. Quo Primum Tempore. Vaticano, 1570.

PIO X, Papa. Vehementer Nos. Vaticano, 1906.

PIO XII, Papa. Mystici Corporis Christi. Vaticano, 1943.

SÃO VICENTE DE LÉRINS. Commonitorium. séc. V.

TOMÁS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica. II-II.

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