sábado, 18 de julho de 2026

Rastejando



"Reunir-me-ei em vida e morte
Aos sonhos que não realizei
Darei os beijos nunca dados,
Receberei os sorrisos, que me negaram,
Terei em forma de alegria as dores que tive...

Ah, comandante, quanto tarda ainda
A partida do transatlântico?
Faz tocar a banda de bordo —
Músicas alegres, banais, humanas, como a vida —
Faz partir, que eu quero partir..." 

(Fernando Pessoa)

Quão vãos são os desejos, aqueles nascidos do mais breve dos acasos e que, como criança que vê algo e imediatamente só pensa naquilo, passa o homem a desejar o objeto de seu desejo como se toda sua felicidade, vida e existência, do nível mais atômico ao metafísico, dependesse de o ter.

E então, de decepção em decepção aquela alegria de um novo desejo, aquele despertar dos sentidos, do olhar aguçado e ouvidos atentos que fazem com que todo nosso centro gravitacional gire ao redor da coisa desejada, aos poucos começa a se desfazer. Cada coincidência parece um sinal. Então, sem que ninguém anuncie, o som dos sinos daquele templo ecoa a impermanência das coisas. Montanhas são destruídas pelo tempo. Flores caem. Enquanto uns sorriem, outros tantos pranteiam a própria sorte, e não querem nem mesmo consolo: aquilo que uma vez amaram já não existe mais. As amizades de ontem não existem mais, quantos ainda vemos todo dia e quantos nem sabemos onde estão? Passou. Os desejos também passam, de algum jeito. Mesmo que demore, como as areias de um deserto um dia podem ter sido uma grande montanha, e hoje nem sequer ficam seguras entre os dedos. 

Tudo se esvai.

Apenas levamos menos tempo para virar pó. Como carne humana envelhece, apodrece, cai no chão e morre, servindo apenas como alimento para os vermes que serão nutridos do que restou desses desejos, rastejando então pela próxima vida, apenas em busca de saciar sua fome, aquela não saciada jamais.

Não restarão, no entanto, aos vermes e ao chão, nem mesmo as lembranças da vida pregressa, dos amores que não os amou. Poderão os homens não os terem amados e, antes disso, os desprezado. Cometeram inúmeros pecados. Mas já não se recordam de nada, senão que continuam rastejando, desejando algo, por desejar e nada mais. Talvez não muito diferente do que era quando homem, do que quando, caminhando decidido, olhou o céu no fim da tarde pela última vez: um risco cor-de-rosa tingia o entardecer. Não se lembra do nome que amou, da casa em que viveu, nem dos pecados que julgava imperdoáveis. Deu mais um passo e, assim o dizem, um leve sorriso enquanto olhava aquele céu, como se o mundo lhe oferecesse uma despedida que ele já não era capaz de compreender.

Verme, verme, que rastejas
sob a terra sem memória,
que mão, que olho imortal
desenhou tua insistente trajetória?

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