quarta-feira, 29 de julho de 2026

Garras Escondidas IV - Depois do Jardim


Houve um tempo em que bastava um sorriso
para tornar mais leve o peso dos meus dias.
Não porque fosse perfeito,
mas porque eu lhe emprestava
aquilo que meu coração guardava de mais puro.

Assim a manhã parece mais clara
quando o primeiro raio toca a relva,
embora o sol seja o mesmo
para quem apenas passa sem olhar.

Também eu julgava eterno
o que apenas florescia.

Vi muitas vezes a doçura
morar naquele rosto tranquilo.
Julguei sincero o brilho dos olhos,
a calma da voz,
a delicadeza dos gestos.

Voz que pedia que eu me aproximasse,
para ouvir declarando seu amor.
Como quem encontra uma árvore antiga
e acredita que jamais conhecerá o machado.

Hoje caminho por entre flores
que continuam abrindo suas pétalas
com a mesma inocência de antes.
O vento passa devagar.
As folhas conversam entre si.
Os pássaros ignoram
o peso das notícias humanas.

Apenas eu já não contemplo
a mesma primavera.

Descobri que certas sombras
conseguem habitar até os lugares
onde imaginávamos existir apenas luz,
havia escondia ali uma fera.

Não foi a paisagem que mudou.
Foi o olhar.

Há nuvens que não escondem o céu.
Apenas nos ensinam
que sua claridade nunca nos pertenceu.

Há verdades que não revelam
o ataque furioso daquelas garras,
apena me lembram que eu sempre estive em perigo.

Penso então nas flores.
Algumas desabrocham
sobre terras profundas e férteis.
Outras, sobre antigos pântanos,
onde a água imóvel aprende
a esconder aquilo que apodrece.

Eu via apenas a flor.

O solo permanecia oculto.

Não guardo rancor.
Apenas uma tristeza silenciosa,
semelhante àquela tarde
em que a última folha do outono
abandona o galho
sem fazer ruído.

Amanhã outras flores nascerão.
Outros jardins receberão a chuva.
O vento voltará a mover as árvores
como sempre fez.

E talvez eu também aprenda,
não a desconfiar da beleza,
mas a recordar que nem toda flor
revela a terra onde criou raízes.

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