Há muitos dias um fel invisível
me sobe do peito como vinho estragado.
Não embriaga.
Apenas desperta,
como desperta a febre
quando o sangue já conhece a doença.
me sobe do peito como vinho estragado.
Não embriaga.
Apenas desperta,
como desperta a febre
quando o sangue já conhece a doença.
Era um retrato.
Hoje encontro apenas a moldura
sustentando o vazio
de algo que se perdeu num rasgar da tela
Um altar profanado, um santo que foi roubado
A mesma mão
que parecia nascer para afagar
escondia, sob a pele morna,
garras de fera,
esperando que a ternura dormisse.
Houve um tempo
em que sua voz me parecia
mais digna da lira
que o próprio canto das Musas.
Hoje cada sílaba do seu canto
retorna coberta do ferro
com que a verdade abriu
a carne da mentira.
Não foi o tempo
quem gastou teu retrato.
Foi a verdade,
essa ferrugem invisível
que, ao primeiro toque,
transforma ouro em óxido.
Bastou um sopro da verdade
para que a epiderme da beleza
se desprendesse inteira,
revelando o esqueleto
que sempre respirou por baixo da carne.
Não foste tu quem morreu.
Morreu o rosto
que minha memória insistia em acender
nas noites de cansaço.
Caminhas ainda.
Respiras.
Falas.
Mas aquilo que eu contemplava
já pertence
à mesma pátria
onde repousam as estrelas extintas:
continuam brilhando por algum tempo,
embora a luz
tenha partido há muito.
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