quarta-feira, 29 de julho de 2026

Garras escondidas III - A Corrupção do Que Era Doce


 Há muitos dias um fel invisível
me sobe do peito como vinho estragado.
Não embriaga.
Apenas desperta,
como desperta a febre
quando o sangue já conhece a doença.

Era um retrato.
Hoje encontro apenas a moldura
sustentando o vazio
de algo que se perdeu num rasgar da tela

Um altar profanado, um santo que foi roubado

A mesma mão
que parecia nascer para afagar
escondia, sob a pele morna,
garras de fera, 
esperando que a ternura dormisse.

Houve um tempo
em que sua voz me parecia
mais digna da lira
que o próprio canto das Musas.

Hoje cada sílaba do seu canto 
retorna coberta do ferro
com que a verdade abriu
a carne da mentira.

Não foi o tempo
quem gastou teu retrato.
Foi a verdade,
essa ferrugem invisível
que, ao primeiro toque,
transforma ouro em óxido.

Bastou um sopro da verdade
para que a epiderme da beleza
se desprendesse inteira,
revelando o esqueleto
que sempre respirou por baixo da carne.

Não foste tu quem morreu.

Morreu o rosto
que minha memória insistia em acender
nas noites de cansaço.

Caminhas ainda.
Respiras.
Falas.

Mas aquilo que eu contemplava
já pertence
à mesma pátria
onde repousam as estrelas extintas:
continuam brilhando por algum tempo,
embora a luz
tenha partido há muito.

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