Pela manhã o mar desaparece.
Não porque tenha partido. Apenas a névoa resolveu ocultá-lo, como quem estende um véu delicado entre os olhos e aquilo que ainda insiste em existir. Conheço o caminho até a praia. Conheço o cheiro salgado que chega antes das ondas. Conheço o rumor da maré encontrando as pedras. E, no entanto, caminho como quem atravessa um país desconhecido.
Não vejo o brilho límpido do sol refletido e brilhando na água.
Há dias em que a memória também amanhece assim.
Nenhuma imagem se apresenta inteira. Tudo surge envolto por uma claridade leitosa, onde os contornos se dissolvem antes de serem compreendidos. Restam apenas pequenos clarões. Um sorriso, antes brilhante como a luz do sol refletida nas águas. Um gesto. A inclinação quase imperceptível de um rosto. Como o perfume de uma flor que permanece depois que suas pétalas já caíram.
As gaivotas atravessam a névoa sem saber que desapareceram para quem as observa.
Talvez a verdade seja sempre assim.
Ela não chega como um relâmpago.
Vem como a maré. Primeiro cobre os pés. Depois os joelhos. Quando percebemos, já levou embora a areia onde julgávamos estar seguros. Afundo, se deixar, serei levado pela ressaca do mar. Ou pela lembrança distante e difusa daquele doce olhar.
Durante dias procurei destruir a lembrança.
Foi inútil.
A lembrança não se quebra.
Ela, com sorte, talvez mude de luz.
Aquilo que antes resplandecia agora permanece imóvel, como uma antiga pintura guardada numa sala onde ninguém mais abre as janelas. A beleza continua ali, mas já não aquece. Tornou-se um objeto do tempo. A poeira se acumula.
Talvez seja isso crescer.
Descobrir que certas imagens não morrem.
Apenas deixam de nos pertencer.
O vento aumenta.
A névoa dança lentamente sobre a água, transformando o horizonte numa única matéria branca, onde céu e mar já não sabem qual deles começa ou termina. Tudo parece suspenso. Até o silêncio possui peso.
Penso então que existem músicas destinadas a nunca terminar.
Não porque continuam tocando.
Mas porque continuam ecoando onde já não existe som.
Há melodias que permanecem intactas.
Somos nós que já não conseguimos ouví-las.
Quando, por um instante, a bruma se abre, não procuro teu rosto.
Vejo apenas duas figuras diminuindo a distância entre si. Caminham devagar, como se soubessem que certas palavras pertencem apenas ao espaço de uma respiração. Uma delas inclina levemente a cabeça, aproximando-se da outra, como quem deseja confiar-lhe, num quase sussurro, tudo aquilo que o coração jamais aprenderá a dizer de longe. Se aproxime, chegue mais perto para ouvir o que eu sinto.
Logo depois, o branco retorna.
O mar recolhe lentamente suas ondas. A maré apaga as pegadas sem conseguir apagar o caminho por onde caminharam.
Permaneço imóvel.
Não esperando que a névoa se desfaça. Algumas paisagens nasceram para existir justamente assim.
Porque há lembranças que Deus, ou o tempo, ou simplesmente a misericórdia do esquecimento, preferiu envolver em bruma. Foi assim com aquele anjo caído que, vivendo entre feras, se tornou ele também uma fera. Disfarçada pela própria luz, que agora se extingue em meio a névoa.
E talvez esteja certo. Nem toda beleza foi feita para permanecer nítida.
Algumas existem apenas para nos ensinar que até a luz mais delicada pode desaparecer sem deixar de ter sido luz.
Pela manhã o mar desaparece.
Não porque tenha partido. Apenas a névoa resolveu ocultá-lo, como ocultou aos poucos a lembrança daquele sorriso, daquela voz de anjo, daquele cristalino amor que escondia o horror de uma fera.

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