Do fel que trago ignoro a origem certa;
sei somente que a língua o reconhece
como conhece o mar a tempestade
antes que o céu lhe rasgue a paz deserta.
Há dentro em mim um quadro silencioso,
não porque a tela houvesse sido aberta
por mãos cruéis, nem porque o tempo avaro
lhe houvesse desbotado a antiga tinta.
Não.
O pincel não mentiu.
Mentia o olhar que lhe emprestava forma,
que via eternidade no efêmero,
ouro onde apenas cintilava o bronze,
virtude onde habitava o simulacro.
Assim costuma agir a formosura.
Reveste o espinho com aparência de lírio,
faz do cristal morada da serpente,
oculta sob a neve a cinza antiga
e oferece ao desejo um claro espelho
onde o homem, enamorado de si mesmo,
confunde a luz com aquilo que a reflete.
Quem vê somente a flor não vê as raízes.
E eu via flores.
Via um semblante tão sereno
que me parecia indigno das ruínas;
uma voz mais suave que a das Musas,
capaz de suspender, por breves horas,
o peso das misérias deste mundo.
Hoje, porém, a mesma voz ressoa
como metal ferindo o mármore frio;
cada palavra traz consigo o eco
de um templo cuja imagem foi profanada.
Não porque a pedra houvesse se alterado.
Mas porque enfim caiu o véu dos olhos.
Agora sei que a sombra já vivia
onde supunha haver perpétua aurora;
que muitas vezes a beleza apenas
aprende a imitar o rosto da virtude.
Grande é o poder do engano.
Maior, contudo, é o do coração humano,
que implora ser vencido pela forma,
e chama de eterno aquilo que deseja.
Não foste tu o artífice primeiro
do templo que ergui dentro da memória.
Fui eu.
Fui eu quem deu ao barro nome de cristal;
quem vestiu de claridade a névoa;
quem tomou por constelação um lume
destinado a extinguir-se ao menor vento.
Busquei no mundo aquilo que o mundo
jamais prometeu guardar sem mácula.
E agora resta apenas o desengano,
essa severa ciência dos que aprendem
que toda imagem vive por um fio,
e que o mais belo espelho, quando parte,
não perde o brilho.
Perde apenas o olhar
que nele acreditava.

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