Um gosto amargo tenho na boca há vários dias.
Como a ânsia de um bêbado me sobe do peito
e me tem em alerta: algo dentro de mim está destruído.
Um quadro cuja pintura se perdeu
no rasgar da tela ou no misturar das tintas
num emaranhado disforme.
Um vaso de cristal que,
uma vez destruído,
já não pode ser restaurado:
continuará para sempre quebrado.
A lembrança doce daquele olhar,
daquele sorriso meigo
que tantas vezes me fez sorrir em meio a dor,
agora se desfez,
foi coberto por pesadas nuvens de chuva,
uma sombra as encobriu,
e agora só sinto o violento fustigar de um furacão.
Quem diria que,
por trás de tal doçura,
escondia as garras de fera
buscando a devorar uma presa.
Que suas mãos abririam ,
na pele alva de um amado,
trincheiras de sangue que,
em linhas finas,
correriam como lágrimas:
jorrando em decepção
até em mim que,
do outro lado do mundo,
assistia seu amor
com o mesmo carinho
de quem contempla
o desabrochar de uma flor.
Mas estava de pé em pleno pântano.
Agora me dói a verdade,
daquela voz bêbada hostilizando o mundo,
em lugar daquela voz que me era mais encantadora
que a da musa e sua lira,
daquela faceta de perfeição
escondendo uma criatura manipuladora,
daquela delicadeza ser uma força escondida,
destrutiva.
Apenas um fantasma agora me acompanha,
uma visão que existia em muitos corações,
mas que se foi, desfeita pela voz metálica da verdade
a cortar o véu como aço frio.

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